Por que você parece outra pessoa quando fala outro idioma? — Transcript
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- 0:00Parece que eu criei uma personalidade nova no Brasil. Ela é um pouco mais solar, mais leve.
- 0:05Para mim, é mais fácil (em português) me expressar quando eu falo sobre os meus sentimentos. Em
- 0:09alemão, não é tão comum falar sobre o amor. A Joana nasceu em Portugal, mas vive no
- 0:15Brasil há mais de uma década. O Moritz é um alemão que mora uma
- 0:18parte do ano em Búzios, no Rio de Janeiro, e outra na Alemanha, ao lado dos dois irmãos.
- 0:22Eles também são falantes do português brasileiro.
- 0:24Você tem mais confiança de logo chamar o outro de ”meu paizão”, “jogador”.
- 0:31Mesmo sem nunca ter conhecido a pessoa. Quando eu falo português, eu me sinto mais,
- 0:35diria, até um pouco mais alegre, mais aberto para receber qualquer pessoa,
- 0:39começar um papo com qualquer um. Essa sensação já foi descrita pela ciência.
- 0:43De se perceber de uma maneira diferente num idioma que não é o nativo.
- 0:47Ou, como no caso da Joana, numa segunda pronúncia. Um sotaque.
- 0:50O fenômeno se chama Cultural Frame Switching. O que quer dizer uma alternância entre
- 0:55referências culturais. É como se eu estivesse
- 0:57ligando e desligando uma chavinha, mas essa chavinha não existe. A forma como
- 1:12eu raciocino perto da minha mãe, e até a forma como eu faço piadas e expresso meus sentimentos,
- 1:18eu consigo muito mais facilmente fazê-lo em português de Portugal do que no do Brasil.
- 1:23Será que dá para falar que não somos a mesma pessoa em cada idioma?
- 1:32Eu sempre gostei de aprender idiomas. E depois de um tempo, sei lá,
- 1:35parece que ficou mais confortável dizer certas coisas numa segunda língua.
- 1:38Ou mesmo a forma. Por exemplo, ser mais direto em situações
- 1:42que no meu bom mineirês eu faria rodeios. E não é que faz sentido?
- 1:45Para começar a te explicar o porquê, eu chamei o Theófilo para essa conversa.
- 1:48À primeira vista, ele parece ser a prova viva de que falar outra língua muda a gente.
- 1:55Eu sou Theófilo Sabbioni. Moro na Suíça. A vida aqui... mudamos a língua, mudamos o assunto,
- 2:01mudamos de pessoa. E ele consegue fazer isso
- 2:02com naturalidade em inglês... ... alemão, francês, espanhol,
- 2:06italiano, português. O encantamento pelos
- 2:08idiomas começou no ensino fundamental. Mas a fluência e a habilidade para trocar
- 2:12de um para o outro se fortaleceu na carreira internacional de cantor.
- 2:16Eu tive interesse pelas línguas. E eu acho que o que me ajudou na pronúncia,
- 2:22escutar diferente as coisas, foi porque eu comecei a estudar música. Você escuta os
- 2:28sons. Você compara a música, você está o tempo inteiro escutando coisas e identificando.
- 2:34Eu faço ligações com as coisas por ter, por eu ter cantado nessas línguas. No Brasil eu cantei
- 2:40muito em francês, então eu tenho que traduzir as coisas. Eu aprendi muito, muito sozinho.
- 2:55Como você viu, o Theófilo fala várias línguas além do português.
- 2:58Mas basta uma para semear uma transformação.
- 3:01Não necessariamente na essência. E nem de forma igual.
- 3:04Só que é um fato que você acaba navegando pelas possibilidades dessa nova linguagem.
- 3:09Dá para falar que a gente pensa de formas diferentes em idiomas diferentes.
- 3:14A pessoa passa a se sentir mais à vontade para determinadas construções de eu.
- 3:23Não é que uma nova língua passe a mandar no seu pensamento.
- 3:26Ela passa, na verdade, a oferecer novos caminhos para interpretar, sentir e descrever as coisas.
- 3:31Vou citar alguns exemplos para gente refletir. Alemão tem umas palavras enormes que vão
- 3:36se juntando para produzir sentido. Handschuh, para ficar numa pequena: é luva,
- 3:40porém, desmembrada fica “o sapato da mão”. No caso do francês, a Marina, que mora em
- 3:44Paris, me lembrou do “c'est pas mal”. Literalmente, o “não está tão ruim” como forma
- 3:48de elogio, de falar que na verdade está bom. Um elogio pela negação.
- 3:51No português, a gente elogia pela extrapolação. Se você falar “isso não tá tão ruim”,
- 3:58você já vai achar que é uma coisa negativa. É uma coisa positiva. A gente tende a pensar
- 4:04diferente. Pegando um pouco do lado cultural, se a gente olha o francês,
- 4:08ele mesmo acha que ele é mais pessimista. E aí, quando a Marina fala francês,
- 4:13fica parecendo que ela está igual. Os meus pais, eles sempre falam para mim quando
- 4:17eles me veem aqui na França. Eles falam “ah, você tá meio francesa”. Porque você tá, assim, um pouco
- 4:22mais negativa, você tá um pouco mais embativa. As línguas, elas se mapeiam a determinados valores
- 4:30atencionais muito próprios de determinadas comunidades socioculturais. E aí, certamente,
- 4:38ao adquirir uma língua adicional, a gente está adquirindo também a possibilidade de expandir.
- 4:47Essa expansão resulta no que pesquisadores chamam de Cultural Frame Switching.
- 4:51Um conceito do início dos anos 2000 que diz que, quando você aprende e alterna a língua,
- 4:55não alterna apenas palavras. Ativa e acessa referências culturais,
- 4:59formas de ser, de se relacionar. Esta revisão de 11 estudos encontrou
- 5:02evidências de que pessoas bilingues e de contextos multiculturais costumam
- 5:06adaptar o próprio comportamento. Por exemplo, intensificam ou diminuem
- 5:09a expressão de emoções dependendo do idioma. Nesta outra pesquisa, estudantes internacionais
- 5:14bilíngues de 21 a 25 anos, com o inglês como segunda língua,
- 5:18relataram se sentir menos extrovertidos e mais honestos no idioma que não era o dominante.
- 5:23Um estudo brasileiro com 126 bilingues português-inglês também
- 5:27identificou nuances de jeito, personalidade. Porém, nada muito profundo a ponto de fazer a
- 5:31pessoa adotar novos valores e crenças. Em outras palavras, é como se você apenas
- 5:36acessasse uma versão temporária de você. Por exemplo, com essa pessoa eu sei que eu
- 5:44posso conversar dessa maneira, e por um acaso essa pessoa fala essa língua. Nessa língua,
- 5:49essas pessoas estão acostumadas a fazer as coisas dessa maneira. Então, eu vou começar a fazer
- 5:54igual a elas. Você se integra no contexto. Aí entra um detalhe interessante.
- 5:58Olha o caso do Theófilo. Ele ajuda a mostrar que essa experiência
- 6:01não acontece da mesma forma com todo mundo. O contexto dele é bem particular.
- 6:04Alguém com domínio de várias línguas, que desde criança teve contato com diferentes
- 6:09alfabetos, inclusive o grego. O que, na avaliação do pesquisador
- 6:11em psicolinguística, pode significar uma naturalização dos ajustes culturais.
- 6:16Aliás, isso também pode ocorrer com crianças que crescem em lares bilíngues.
- 6:20Muito potencialmente, um aprendiz precoce de uma língua adicional, dadas certas condições,
- 6:30essa pessoa pode se tornar efetivamente um falante muito fluente, portanto, sem demandas de controle
- 6:38cognitivo do seu desempenho linguístico. E pode, inclusive, se tornar um perfil de bilíngue,
- 6:45que é conhecido como falante de herança. O falante de herança é aquele bilingue que
- 6:49aprende o idioma dos pais, mas se socializa num ambiente onde esse idioma não predomina.
- 6:53O caso de brasileiros que criam filhos no exterior, por exemplo.
- 6:56Afinal, com o tempo, essa língua da socialização pode acabar se tornando dominante.
- 7:00Eu mesmo tenho amigos aqui na Alemanha que relatam que os filhos corrigem o
- 7:04alemão falado por eles dentro de casa. E olha que eu nem coloquei nessa equação
- 7:07lares em que os responsáveis têm origens culturais diferentes.
- 7:11Uma criança que aprendeu português e francês ao mesmo tempo, ela não vai sentir que ela é
- 7:15diferente nessas duas linguagens, principalmente porque ela aprendeu do zero. E ela vai entender
- 7:20que aquilo são formas de existir diferentes. Mas não que aquilo são personalidades diferentes. Acho
- 7:27que é diferente da gente que tem uma camada e aí acrescenta outra. Aí você fala “tá, eu me conheço
- 7:33nessa camada que é a camada do português... agora eu tô acrescentando a camada do francês
- 7:38quem eu sou nessa camada do francês”. A estimativa é de que mais da metade da
- 7:43população global seja bilingue. Mas independentemente de quantos
- 7:46idiomas você fala, da circunstância em que você aprendeu cada um, a mudança de um para outro pode
- 7:51fazer você se perceber, sim, de outra maneira. E às vezes ocorre até com o ajuste de sotaque.
- 7:56Exemplo disso é a Joana, que você viu no começo do vídeo.
- 7:59Ela nasceu no Porto, em Portugal. Está no Brasil desde a adolescência.
- 8:02E já fala com sotaque brasileiro. A verdade é que eu comecei a falar com
- 8:04sotaque brasileiro, muito mais para me adaptar,
- 8:08para me integrar e porque minha profissão demanda do que pelo caminho natural.
- 8:14Só que quando a conversa é muito pessoal... Eu nunca me imagino a ter uma conversa séria,
- 8:20ou uma conversa íntima, ou uma conversa profunda sem puxar ao português de Portugal.
- 8:26Os irmãos alemães me disseram algo parecido. Só que, no caso deles, tem uma coisinha a mais:
- 8:31A gente varia várias vezes entre alemão e português quando a gene está falando
- 8:36entre nós. Porque tem coisas que a gente culturalmente iriamos expressar dessa forma,
- 8:42porque já nos sentimos mais brasileiros. Eu agradeço muito por ter vivido no Brasil
- 8:47também. Tá vendo?
- 8:48As línguas e os universos que elas abrem não nos definem. Só ampliam as possibilidades de ser...
- 8:54Ser quieto, ser calmo, ser engraçado, ser... Como se iluminassem partes de nós
- 8:58que nem sabíamos que estavam ali. Numa dessas você pode acabar descobrindo um
- 9:01“eu” que simplesmente ainda não tinha era voz. Outros “eus” que muitas vezes são muito
- 9:07reconfortadores. Uma língua adicional pode ser uma bela oportunidade para a pessoa se
- 9:12colocar de maneira autoral sobre a própria história, o próprio caminho de subjetivação.
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