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Por que você parece outra pessoa quando fala outro idioma? — Transcript

by DW Brasil · 1,549 words · 116 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:00Parece que eu criei uma personalidade nova no  Brasil. Ela é um pouco mais solar, mais leve.
  2. 0:05Para mim, é mais fácil (em português) me expressar  quando eu falo sobre os meus sentimentos. Em
  3. 0:09alemão, não é tão comum falar sobre o amor. A Joana nasceu em Portugal, mas vive no
  4. 0:15Brasil há mais de uma década. O Moritz é um alemão que mora uma
  5. 0:18parte do ano em Búzios, no Rio de Janeiro, e  outra na Alemanha, ao lado dos dois irmãos.
  6. 0:22Eles também são falantes  do português brasileiro.
  7. 0:24Você tem mais confiança de logo chamar  o outro de ”meu paizão”, “jogador”.
  8. 0:31Mesmo sem nunca ter conhecido a pessoa. Quando eu falo português, eu me sinto mais,
  9. 0:35diria, até um pouco mais alegre, mais  aberto para receber qualquer pessoa,
  10. 0:39começar um papo com qualquer um. Essa sensação já foi descrita pela ciência.
  11. 0:43De se perceber de uma maneira diferente  num idioma que não é o nativo.
  12. 0:47Ou, como no caso da Joana, numa  segunda pronúncia. Um sotaque.
  13. 0:50O fenômeno se chama Cultural Frame Switching. O que quer dizer uma alternância entre
  14. 0:55referências culturais. É como se eu estivesse
  15. 0:57ligando e desligando uma chavinha, mas  essa chavinha não existe. A forma como
  16. 1:12eu raciocino perto da minha mãe, e até a forma  como eu faço piadas e expresso meus sentimentos,
  17. 1:18eu consigo muito mais facilmente fazê-lo em  português de Portugal do que no do Brasil.
  18. 1:23Será que dá para falar que não somos  a mesma pessoa em cada idioma?
  19. 1:32Eu sempre gostei de aprender idiomas. E depois de um tempo, sei lá,
  20. 1:35parece que ficou mais confortável dizer  certas coisas numa segunda língua.
  21. 1:38Ou mesmo a forma. Por exemplo, ser mais direto em situações
  22. 1:42que no meu bom mineirês eu faria rodeios. E não é que faz sentido?
  23. 1:45Para começar a te explicar o porquê, eu  chamei o Theófilo para essa conversa.
  24. 1:48À primeira vista, ele parece ser a prova viva  de que falar outra língua muda a gente.
  25. 1:55Eu sou Theófilo Sabbioni. Moro na Suíça. A vida  aqui... mudamos a língua, mudamos o assunto,
  26. 2:01mudamos de pessoa. E ele consegue fazer isso
  27. 2:02com naturalidade em inglês... ... alemão, francês, espanhol,
  28. 2:06italiano, português. O encantamento pelos
  29. 2:08idiomas começou no ensino fundamental. Mas a fluência e a habilidade para trocar
  30. 2:12de um para o outro se fortaleceu na  carreira internacional de cantor.
  31. 2:16Eu tive interesse pelas línguas. E eu  acho que o que me ajudou na pronúncia,
  32. 2:22escutar diferente as coisas, foi porque eu  comecei a estudar música. Você escuta os
  33. 2:28sons. Você compara a música, você está o tempo  inteiro escutando coisas e identificando.
  34. 2:34Eu faço ligações com as coisas por ter, por eu  ter cantado nessas línguas. No Brasil eu cantei
  35. 2:40muito em francês, então eu tenho que traduzir  as coisas. Eu aprendi muito, muito sozinho.
  36. 2:55Como você viu, o Theófilo fala  várias línguas além do português.
  37. 2:58Mas basta uma para semear uma transformação.
  38. 3:01Não necessariamente na essência.  E nem de forma igual.
  39. 3:04Só que é um fato que você acaba navegando  pelas possibilidades dessa nova linguagem.
  40. 3:09Dá para falar que a gente pensa de formas  diferentes em idiomas diferentes.
  41. 3:14A pessoa passa a se sentir mais à vontade  para determinadas construções de eu.
  42. 3:23Não é que uma nova língua passe  a mandar no seu pensamento.
  43. 3:26Ela passa, na verdade, a oferecer novos caminhos  para interpretar, sentir e descrever as coisas.
  44. 3:31Vou citar alguns exemplos para gente refletir. Alemão tem umas palavras enormes que vão
  45. 3:36se juntando para produzir sentido. Handschuh, para ficar numa pequena: é luva,
  46. 3:40porém, desmembrada fica “o sapato da mão”. No caso do francês, a Marina, que mora em
  47. 3:44Paris, me lembrou do “c'est pas mal”. Literalmente, o “não está tão ruim” como forma
  48. 3:48de elogio, de falar que na verdade está bom. Um elogio pela negação.
  49. 3:51No português, a gente elogia pela extrapolação.  Se você falar “isso não tá tão ruim”,
  50. 3:58você já vai achar que é uma coisa negativa.  É uma coisa positiva. A gente tende a pensar
  51. 4:04diferente. Pegando um pouco do lado  cultural, se a gente olha o francês,
  52. 4:08ele mesmo acha que ele é mais pessimista. E aí, quando a Marina fala francês,
  53. 4:13fica parecendo que ela está igual. Os meus pais, eles sempre falam para mim quando
  54. 4:17eles me veem aqui na França. Eles falam “ah, você  tá meio francesa”. Porque você tá, assim, um pouco
  55. 4:22mais negativa, você tá um pouco mais embativa. As línguas, elas se mapeiam a determinados valores
  56. 4:30atencionais muito próprios de determinadas  comunidades socioculturais. E aí, certamente,
  57. 4:38ao adquirir uma língua adicional, a gente está  adquirindo também a possibilidade de expandir.
  58. 4:47Essa expansão resulta no que pesquisadores  chamam de Cultural Frame Switching.
  59. 4:51Um conceito do início dos anos 2000 que diz  que, quando você aprende e alterna a língua,
  60. 4:55não alterna apenas palavras. Ativa e acessa referências culturais,
  61. 4:59formas de ser, de se relacionar. Esta revisão de 11 estudos encontrou
  62. 5:02evidências de que pessoas bilingues e  de contextos multiculturais costumam
  63. 5:06adaptar o próprio comportamento. Por exemplo, intensificam ou diminuem
  64. 5:09a expressão de emoções dependendo do idioma. Nesta outra pesquisa, estudantes internacionais
  65. 5:14bilíngues de 21 a 25 anos, com  o inglês como segunda língua,
  66. 5:18relataram se sentir menos extrovertidos e mais  honestos no idioma que não era o dominante.
  67. 5:23Um estudo brasileiro com 126  bilingues português-inglês também
  68. 5:27identificou nuances de jeito, personalidade. Porém, nada muito profundo a ponto de fazer a
  69. 5:31pessoa adotar novos valores e crenças. Em outras palavras, é como se você apenas
  70. 5:36acessasse uma versão temporária de você. Por exemplo, com essa pessoa eu sei que eu
  71. 5:44posso conversar dessa maneira, e por um acaso  essa pessoa fala essa língua. Nessa língua,
  72. 5:49essas pessoas estão acostumadas a fazer as coisas  dessa maneira. Então, eu vou começar a fazer
  73. 5:54igual a elas. Você se integra no contexto. Aí entra um detalhe interessante.
  74. 5:58Olha o caso do Theófilo. Ele ajuda a mostrar que essa experiência
  75. 6:01não acontece da mesma forma com todo mundo. O contexto dele é bem particular.
  76. 6:04Alguém com domínio de várias línguas, que  desde criança teve contato com diferentes
  77. 6:09alfabetos, inclusive o grego. O que, na avaliação do pesquisador
  78. 6:11em psicolinguística, pode significar uma  naturalização dos ajustes culturais.
  79. 6:16Aliás, isso também pode ocorrer com  crianças que crescem em lares bilíngues.
  80. 6:20Muito potencialmente, um aprendiz precoce de  uma língua adicional, dadas certas condições,
  81. 6:30essa pessoa pode se tornar efetivamente um falante  muito fluente, portanto, sem demandas de controle
  82. 6:38cognitivo do seu desempenho linguístico. E pode,  inclusive, se tornar um perfil de bilíngue,
  83. 6:45que é conhecido como falante de herança. O falante de herança é aquele bilingue que
  84. 6:49aprende o idioma dos pais, mas se socializa  num ambiente onde esse idioma não predomina.
  85. 6:53O caso de brasileiros que criam  filhos no exterior, por exemplo.
  86. 6:56Afinal, com o tempo, essa língua da socialização  pode acabar se tornando dominante.
  87. 7:00Eu mesmo tenho amigos aqui na Alemanha  que relatam que os filhos corrigem o
  88. 7:04alemão falado por eles dentro de casa. E olha que eu nem coloquei nessa equação
  89. 7:07lares em que os responsáveis têm  origens culturais diferentes.
  90. 7:11Uma criança que aprendeu português e francês  ao mesmo tempo, ela não vai sentir que ela é
  91. 7:15diferente nessas duas linguagens, principalmente  porque ela aprendeu do zero. E ela vai entender
  92. 7:20que aquilo são formas de existir diferentes. Mas  não que aquilo são personalidades diferentes. Acho
  93. 7:27que é diferente da gente que tem uma camada e aí  acrescenta outra. Aí você fala “tá, eu me conheço
  94. 7:33nessa camada que é a camada do português...  agora eu tô acrescentando a camada do francês
  95. 7:38quem eu sou nessa camada do francês”. A estimativa é de que mais da metade da
  96. 7:43população global seja bilingue. Mas independentemente de quantos
  97. 7:46idiomas você fala, da circunstância em que você  aprendeu cada um, a mudança de um para outro pode
  98. 7:51fazer você se perceber, sim, de outra maneira. E às vezes ocorre até com o ajuste de sotaque.
  99. 7:56Exemplo disso é a Joana, que  você viu no começo do vídeo.
  100. 7:59Ela nasceu no Porto, em Portugal.  Está no Brasil desde a adolescência.
  101. 8:02E já fala com sotaque brasileiro. A verdade é que eu comecei a falar com
  102. 8:04sotaque brasileiro, muito mais para me adaptar,
  103. 8:08para me integrar e porque minha profissão  demanda do que pelo caminho natural.
  104. 8:14Só que quando a conversa é muito pessoal... Eu nunca me imagino a ter uma conversa séria,
  105. 8:20ou uma conversa íntima, ou uma conversa  profunda sem puxar ao português de Portugal.
  106. 8:26Os irmãos alemães me disseram algo parecido. Só que, no caso deles, tem uma coisinha a mais:
  107. 8:31A gente varia várias vezes entre alemão  e português quando a gene está falando
  108. 8:36entre nós. Porque tem coisas que a gente  culturalmente iriamos expressar dessa forma,
  109. 8:42porque já nos sentimos mais brasileiros. Eu agradeço muito por ter vivido no Brasil
  110. 8:47também. Tá vendo?
  111. 8:48As línguas e os universos que elas abrem não nos  definem. Só ampliam as possibilidades de ser...
  112. 8:54Ser quieto, ser calmo, ser engraçado, ser... Como se iluminassem partes de nós
  113. 8:58que nem sabíamos que estavam ali. Numa dessas você pode acabar descobrindo um
  114. 9:01“eu” que simplesmente ainda não tinha era voz. Outros “eus” que muitas vezes são muito
  115. 9:07reconfortadores. Uma língua adicional pode  ser uma bela oportunidade para a pessoa se
  116. 9:12colocar de maneira autoral sobre a própria  história, o próprio caminho de subjetivação.

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