Por que é "IMPOSSÍVEL" a Humanidade Escapar da Próxima Extinção em Massa | Michio Kaku — Transcript
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- 0:00Meu nome é professor Mito Caco, sou
- 0:03físico teórico e dediquei minha carreira
- 0:06a tentar entender a teoria de tudo, a
- 0:08equação mestre que poderia explicar
- 0:11desde o nascimento das estrelas até o
- 0:13comportamento dos átomos. O relógio está
- 0:16rodando, não metaforicamente,
- 0:19não como figura de linguagem para
- 0:21comunicar urgência abstrata sobre
- 0:23problemas que parecem distantes o
- 0:25suficiente para serem tratados como
- 0:28urgentes sem serem tratados como
- 0:30imediatos. O relógio está rodando no
- 0:33sentido técnico preciso que os
- 0:35cientistas que estudam extinções em
- 0:38massa usam quando descrevem a posição
- 0:41atual da humanidade na história
- 0:43geológica do planeta. E o que esses
- 0:45cientistas dizem quando falam entre si
- 0:48em vez de para o público geral, é mais
- 0:50perturbador do que qualquer versão
- 0:53simplificada que aparece em manchetes ou
- 0:55em relatórios de organizações
- 0:57internacionais. A Terra já passou por
- 1:00cinco extinções em massa. Cinco eventos
- 1:03na história geológica do planeta, em que
- 1:05mais de 75% de todas as espécies
- 1:09existentes foram extintas num intervalo
- 1:12de tempo geologicamente curto. O
- 1:15ordoviciano siluriano a 44
- 1:18milhões de anos, o devoniano tardio a
- 1:21372 milhões de anos, o permiano triácico
- 1:26a 252 milhões de anos, o maior de todos,
- 1:30que eliminou 96% de todas as espécies
- 1:34marinhas e 70% de todas as espécies
- 1:37terrestres vertebradas. O triácico
- 1:40jurásico há 2011 milhões de anos e o
- 1:43cretácio paleogêno há 66 milhões de
- 1:47anos, o que eliminou os dinossauros não
- 1:49avianos e abriu o espaço ecológico que
- 1:52permitiu o surgimento dos mamíferos e
- 1:54eventualmente dos primatas e
- 1:56eventualmente de você. Todas as cinco
- 1:59extinções em massa anteriores foram
- 2:01causadas por forças que operavam
- 2:03independentemente de qualquer vontade ou
- 2:06consciência. Impactos de asteroides,
- 2:10vulcanismo em escala continental,
- 2:12glaciações globais, mudanças na
- 2:15composição química dos oceanos e da
- 2:17atmosfera, produzidas por processos
- 2:20geológicos que se desenvolviam ao longo
- 2:22de milhares ou milhões de anos, sem que
- 2:25nada no planeta tivesse capacidade de
- 2:28perceber o que estava acontecendo ou de
- 2:31alterar a trajetória. Sexta extinção em
- 2:34massa está acontecendo agora. E pela
- 2:37primeira vez na história de 4 bilhões e
- 2:40meio de anos do planeta, a força que
- 2:42está causando a extinção tem consciência
- 2:45de si mesma. Tem laboratórios,
- 2:48universidades, organizações
- 2:50intergovernamentais e conferências
- 2:52internacionais dedicadas ao estudo do
- 2:55que está causando. Tem a capacidade
- 2:57técnica de medir a velocidade da
- 2:59extinção com precisão crescente e tem a
- 3:02capacidade teórica de alterar o
- 3:04comportamento que está causando o
- 3:06problema. A pergunta que este vídeo vai
- 3:08examinar é se essa consciência, essa
- 3:11capacidade de medir e de entender e de
- 3:14teoricamente alterar o comportamento é
- 3:17suficiente para produzir uma diferença
- 3:19nos resultados. Se a sexta extinção em
- 3:22massa, por ser causada por uma espécie
- 3:24consciente de que está causando uma
- 3:26extinção em massa, vai ter um resultado
- 3:28diferente das cinco anteriores que foram
- 3:31causadas por forças completamente cegas.
- 3:34Ou se a consciência da causa, por mais
- 3:36extraordinária que seja como fenômeno na
- 3:38história geológica do planeta, é
- 3:41insuficiente para alterar a trajetória
- 3:43quando os mecanismos que produzem o
- 3:45comportamento problemático são
- 3:47suficientemente resistentes à
- 3:49modificação, mesmo com conhecimento
- 3:52completo das consequências. A resposta
- 3:54que este vídeo vai construir não é que a
- 3:57extinção da humanidade é inevitável, é
- 4:00mais precisa e mais perturbadora do que
- 4:03isso. é que os mecanismos que estão
- 4:05produzindo as condições de uma sexta
- 4:07extinção em massa tem estruturas que
- 4:10tornam a sua interrupção
- 4:12extraordinariamente difícil, mesmo para
- 4:15uma espécie que os compreende, porque
- 4:17compreender os mecanismos e ter
- 4:19incentivos para alterá-los são duas
- 4:22coisas completamente diferentes. E a
- 4:24distância entre compreensão e ação é
- 4:27onde a maior parte do problema reside.
- 4:30Nos próximos minutos, vou mostrar o que
- 4:32os dados científicos dizem sobre a
- 4:35velocidade atual da extinção de espécies
- 4:38em relação às extinções em massa
- 4:40anteriores. Vou mostrar por as múltiplas
- 4:44trajetórias de risco que a humanidade
- 4:46está desenvolvendo simultaneamente
- 4:48biológicas, climáticas, tecnológicas e
- 4:52geopolíticas interagem de formas que
- 4:55tornam a análise de risco de cada uma
- 4:57isoladamente sistematicamente
- 4:59subestimada. Vou mostrar porque os
- 5:02mecanismos de governança global que
- 5:04deveriam coordenar respostas a riscos
- 5:07existenciais tem estruturas que os
- 5:09tornam inadequados para a escala e a
- 5:12urgência dos problemas que enfrentam. E
- 5:15vou mostrar porque a consciência do
- 5:17problema, por mais sofisticada que seja,
- 5:20não garante a ação que o problema
- 5:21requer, quando os incentivos que
- 5:23governam o comportamento dos atores
- 5:25relevantes apontam sistematicamente em
- 5:29direção contrária. Porque o que torna a
- 5:31posição da humanidade no relógio
- 5:33geológico atual, diferente de qualquer
- 5:36posição que qualquer espécie já ocupou,
- 5:39é que a humanidade sabe onde está no
- 5:41relógio. saber onde está não está se
- 5:45revelando suficiente para fazer o
- 5:47relógio parar. Para entender a escala do
- 5:50problema com a precisão que ele merece,
- 5:52precisamos primeiro estabelecer o que os
- 5:55dados científicos dizem sobre a
- 5:57velocidade atual de extinção de espécies
- 6:00e o que essa velocidade significa quando
- 6:02colocada no contexto das extinções em
- 6:05massa anteriores. Não as versões
- 6:07suavizadas que aparecem em comunicados
- 6:10de imprensa de organizações ambientais.
- 6:13As versões que aparecem nos papers
- 6:15revisados por pares que os biólogos da
- 6:17conservação publicam quando estão
- 6:19falando para outros biólogos da
- 6:21conservação. A taxa de extinção de
- 6:24espécies é tipicamente medida em
- 6:26extinções por milhão de espécies por
- 6:28ano, uma unidade chamada EMS o cruz. A
- 6:33taxa de fundo, a taxa que ocorre
- 6:35naturalmente entre extinções em massa,
- 6:37em condições sem perturbação
- 6:39antropogênica significativa, é estimada
- 6:42em aproximadamente um a cinco extinções
- 6:46por milhão de espécies por ano. É a
- 6:48linha de base, o nível de extinção que o
- 6:51planeta produz naturalmente através de
- 6:54competição, predação, mudanças de
- 6:56habitat e outros processos ecológicos
- 6:59normais. A taxa atual de extinção de
- 7:02espécies, medida pelos métodos mais
- 7:04conservadores disponíveis, está entre
- 7:07100 e 1000 extinções por milhão de
- 7:09espécies por ano, 100 a 1000 vezes acima
- 7:13da taxa de fundo. E os métodos mais
- 7:16rigorosos que incorporam espécies, não
- 7:19ainda formalmente descritas pela
- 7:21ciência, mas cujos habitates estão sendo
- 7:24destruídos em velocidade documentada,
- 7:27produzem estimativas ainda maiores.
- 7:30Alguns estudos chegam a 10.000 1 vezes
- 7:33acima da taxa de fundo. Para ter
- 7:35referência do que esses números
- 7:37significam em termos históricos, a
- 7:39extinção do cretácio paleogêno que
- 7:42eliminou os dinossauros ocorreu a uma
- 7:44taxa de extinção que os paleontólogos
- 7:46estimam em aproximadamente 8 a 10 vezes
- 7:50acima da taxa de fundo do período. A
- 7:52taxa atual de extinção está entre 10 e
- 7:55100 vezes mais rápida do que o evento
- 7:58que consideramos o mais dramático e mais
- 8:01estudado dos cinco grandes eventos de
- 8:03extinção em massa da história da Terra.
- 8:06A diferença é de escala temporal. A
- 8:09extinção do cretácio paleogêno
- 8:11catastrófica como foi, se desenvolveu ao
- 8:14longo de dezenas de milhares de anos. A
- 8:17extinção atual está se desenvolvendo num
- 8:19intervalo de séculos que é
- 8:21geologicamente instantâneo. E a
- 8:23velocidade importa porque ecossistemas
- 8:26têm capacidade de se adaptar a
- 8:29perturbações que ocorrem lentamente e
- 8:32perdem essa capacidade quando as
- 8:34perturbações ocorrem mais rapidamente do
- 8:37que os mecanismos evolutivos e
- 8:39ecológicos de adaptação conseguem
- 8:41operar. O biólogo e o Wilson, que passou
- 8:45a segunda metade da sua carreira
- 8:47tentando comunicar a urgência da crise
- 8:49de biodiversidade com a precisão
- 8:52científica que ela merece, estimou que
- 8:55estávamos perdendo entre 30 e 50.000
- 8:57espécies por ano no início dos anos
- 9:002000. Os dados mais recentes sugerem que
- 9:03essa estimativa pode ter sido
- 9:04conservadora. A lista vermelha da IUCN,
- 9:08o inventário mais abrangente do status
- 9:10de conservação de espécies que existe,
- 9:13classifica aproximadamente 42% de todas
- 9:17as espécies avaliadas como ameaçadas de
- 9:19extinção. Para mamíferos, 26%,
- 9:23para anfíbios, 41%.
- 9:26para corais, que são a base de
- 9:28ecossistemas que sustentam
- 9:29aproximadamente 25% de toda a
- 9:33biodiversidade marinha, 33%.
- 9:36Mas a extinção de espécies, embora seja
- 9:39o indicador mais visível e mais
- 9:41dramaticamente comunicável da crise
- 9:43ecológica atual, não é o indicador mais
- 9:46relevante para entender o risco para a
- 9:48humanidade. O indicador mais relevante é
- 9:51o colapso de populações dentro de
- 9:53espécies que não estão ainda extintas.
- 9:56Um estudo publicado em 2017 no
- 9:59Proceedings of the National Academy of
- 10:01Sciences por Gerardo Cebalos e Paul
- 10:04Erlick documentou o que eles chamaram de
- 10:07aniquilação biológica, a perda de 60% de
- 10:11todas as populações de vertebrados nos
- 10:14últimos 40 anos. Não extinção de
- 10:17espécies, colapso de populações dentro
- 10:20de espécies, a perda de 60% dos
- 10:24indivíduos devertebrados em quatro
- 10:26décadas. Esse nível de colapso de
- 10:28populações tem consequências para os
- 10:30serviços ecossistêmicos que a humanidade
- 10:33depende que são mais imediatas do que a
- 10:35extinção de espécies isoladas. Porque os
- 10:38serviços ecossistêmicos dependem de
- 10:41populações funcionais e não apenas de
- 10:43espécies existentes em algum lugar.
- 10:46Polinização, controle de pragas, ciclos
- 10:50de nutrientes, purificação de água,
- 10:53regulação climática local. Todos esses
- 10:56serviços são providos por populações de
- 10:58organismos que precisam estar presentes
- 11:00em densidades funcionais para manter os
- 11:03processos ecológicos que os tornam
- 11:06possíveis. E populações que perderam 60%
- 11:09dos seus indivíduos em 40 anos estão em
- 11:13muitos casos abaixo dos limiares
- 11:15funcionais que mantém esses serviços. A
- 11:18mudança climática adiciona uma segunda
- 11:20trajetória de risco que interage com a
- 11:22crise de biodiversidade de formas que
- 11:25tornam cada uma mais severa do que seria
- 11:28isoladamente. O aquecimento global não
- 11:31apenas ameaça espécies diretamente
- 11:34através de mudanças de temperatura que
- 11:36excedem os limites de tolerância
- 11:38térmica. Ele desloca os ranges de
- 11:40distribuição geográfica de espécies numa
- 11:43velocidade que excede a capacidade de
- 11:45dispersão de muitas delas. Cria
- 11:48descasamentos fenológicos entre espécies
- 11:51interdependentes quando diferentes
- 11:53espécies respondem ao aquecimento em
- 11:55velocidades diferentes e dissolve as
- 11:59relações ecológicas que se estabeleceram
- 12:01ao longo de milênios de coevolução em
- 12:04ecossistemas estáveis. As projeções do
- 12:07IPCC para cenários de aquecimento acima
- 12:09de 2ºC
- 12:11indicam risco de extinção para 18% de
- 12:14todas as espécies. Para aquecimento
- 12:17acima de 4ºC, o risco sobe para mais de
- 12:2050% de todas as espécies. e as
- 12:24trajetórias de emissões atuais. Mesmo
- 12:26considerando todas as políticas
- 12:27climáticas implementadas ou anunciadas,
- 12:30mas não ainda implementadas, apontam
- 12:32para aquecimento entre 2,5 e 3ºC até
- 12:372100, que a grande maioria dos
- 12:39cientistas do clima considera
- 12:41insuficiente para evitar consequências
- 12:43que vão muito além da extinção de
- 12:45espécies para incluir impactos severos
- 12:48sobre a capacidade da humanidade de
- 12:50produzir alimentos, de manter populações
- 12:53costeiras e de sustentar as cadeias de
- 12:56suprimentos que as economias globais
- 12:58modernas dependem. E aqui chegamos ao
- 13:01aspecto do problema que a comunicação
- 13:03pública sobre crise climática e crise de
- 13:05biodiversidade frequentemente trata
- 13:08separadamente, mas que os cientistas que
- 13:10estudam riscos sistêmicos tratam como
- 13:13inseparável. As múltiplas trajetórias de
- 13:16risco não são independentes. Interagem
- 13:19de formas que tornam o risco combinado
- 13:21maior do que a soma dos riscos
- 13:24individuais. Colapso de biodiversidade
- 13:27reduz a capacidade dos ecossistemas de
- 13:30sequestrar carbono, acelerando a mudança
- 13:33climática. Mudança climática acelera o
- 13:36colapso de biodiversidade. Ambos reduzem
- 13:39a produtividade agrícola, criando
- 13:41pressões sobre recursos que
- 13:43historicamente têm sido causas de
- 13:46conflito geopolítico. Conflito
- 13:48geopolítico reduz a capacidade de
- 13:51cooperação internacional necessária para
- 13:54endereçar qualquer um dos problemas
- 13:56individuais. E todas essas trajetórias
- 13:59interagem com o desenvolvimento
- 14:01tecnológico acelerado, particularmente
- 14:03de inteligência artificial e de
- 14:05biotecnologia, de formas que adicionam
- 14:08novos modos de falha a um sistema já
- 14:11operando sob estresse múltiplo. Existe
- 14:13uma categoria de análise de risco que as
- 14:16ciências naturais e as ciências sociais
- 14:18desenvolveram separadamente e que
- 14:20raramente é integrada com a profundidade
- 14:23que os problemas de risco existencial
- 14:25requerem. é a análise de sistemas
- 14:28complexos, a tentativa de entender como
- 14:30sistemas com muitos componentes
- 14:32interdependentes se comportam de formas
- 14:35que emergem da interação dos componentes
- 14:38e que não podem ser previstas a partir
- 14:40da análise de qualquer componente
- 14:42individual. Os ecossistemas são sistemas
- 14:45complexos. As economias globais são
- 14:48sistemas complexos. O clima planetário é
- 14:51um sistema complexo e as interações
- 14:54entre esses sistemas, que é onde os
- 14:56maiores riscos existenciais residem,
- 14:58constituem um sistema de sistemas cuja
- 15:01complexidade excede em ordens de
- 15:03magnitude qualquer coisa que modelos
- 15:06simplificados conseguem capturar. O
- 15:09conceito de ponto de inflexão ou tipping
- 15:12point é a contribuição mais importante
- 15:15que a análise de sistemas complexos fez
- 15:18para o entendimento dos riscos
- 15:20existenciais que a humanidade enfrenta.
- 15:23Um ponto de inflexão é um limiar num
- 15:26sistema complexo além do qual o sistema
- 15:28se move para um novo estado de
- 15:31equilíbrio, de forma que é
- 15:32potencialmente irreversível nos limites
- 15:35de tempo relevantes para a civilização
- 15:38humana. A característica central dos
- 15:41pontos de inflexão que os torna
- 15:43particularmente preocupantes é que o
- 15:45comportamento do sistema, antes de
- 15:47atingir o limiar, não necessariamente
- 15:50revela a proximidade do limear. Sistemas
- 15:53podem parecer estáveis até momentos
- 15:56antes de atingirem pontos de inflexão,
- 15:58além dos quais o movimento para novos
- 16:01estados de equilíbrio ocorre mais
- 16:03rapidamente do que qualquer intervenção
- 16:05pode acompanhar. O derretimento da
- 16:07calota de gelo da Groenlândia é
- 16:09frequentemente citado como um dos pontos
- 16:11de inflexão mais bem documentados
- 16:13disponíveis. Modelos climáticos
- 16:16identificam um limiar de temperatura,
- 16:19atualmente estimado entre 1,1 e 1,8ºC,
- 16:24de aquecimento global acima dos níveis
- 16:26pré-industriais,
- 16:28além do qual o derretimento da calota se
- 16:31torna autosustentado, independentemente
- 16:33de qualquer redução posterior de
- 16:35emissões. O derretimento reduz o albedo
- 16:38da superfície, o que aumenta a absorção
- 16:41de radiação solar, o que aumenta o
- 16:43aquecimento local, o que acelera o
- 16:46derretimento num ciclo de
- 16:47retroalimentação positiva que continua
- 16:50independentemente do que acontece com as
- 16:52emissões globais depois que o limiar é
- 16:54ultrapassado. O derretimento completo da
- 16:57calota da Groenlândia resultaria em
- 16:59aumento do nível do mar de
- 17:01aproximadamente 7 m. A floresta
- 17:04amazônica é outro ponto de inflexão
- 17:06amplamente estudado. Modelos
- 17:09hidrológicos identificam um limiar de
- 17:11desmatamento, atualmente estimado entre
- 17:1420 e 25% da cobertura original, além do
- 17:18qual a floresta perde sua capacidade de
- 17:21gerar sua própria precipitação através
- 17:24da transpiração. A floresta tropical
- 17:26amazônica produz aproximadamente 50% da
- 17:30sua própria precipitação através desse
- 17:32processo. Abaixo do limiar de cobertura
- 17:35que mantém esse processo funcional, a
- 17:37floresta entra num ciclo de savanização
- 17:40que se autosustenta independentemente de
- 17:43qualquer proteção adicional. O
- 17:45desmatamento atual está entre 18 e 20%
- 17:49da cobertura original em algumas áreas.
- 17:52A margem entre a posição atual e o ponto
- 17:55de inflexão é menor do que a maioria das
- 17:57representações públicas do problema
- 17:59comunica. O que torna a análise de
- 18:02pontos de inflexão particularmente
- 18:04perturbadora é a possibilidade de
- 18:07cascata. Pontos de inflexão individuais
- 18:10em diferentes componentes do sistema
- 18:12climático e ecológico podem ser
- 18:15conectados de formas que o cruzamento de
- 18:17um ponto de inflexão aumenta a
- 18:20probabilidade de cruzamento de outros. O
- 18:22derretimento do permafrost siberiano
- 18:25libera metano, um gás de efeito estufa
- 18:28com potência de aquecimento 28 vezes
- 18:30maior do que o CO2, o que aumenta o
- 18:33aquecimento global, o que acelera o
- 18:35derretimento da Groenlândia, o que
- 18:37altera as correntes oceânicas, o que
- 18:39muda os padrões de precipitação em
- 18:41múltiplas regiões, o que afeta a
- 18:44produtividade agrícola global, o que
- 18:46cria pressões sobre recursos que
- 18:48alimentam instabilidade geopolítica. Um
- 18:51paper publicado em 2018 na Proceedings
- 18:54of the National Academy of Sciences por
- 18:57Will Stephen e colegas introduziu o
- 19:00conceito de Hothouse Earth para
- 19:03descrever o estado do sistema climático
- 19:05que poderia ser atingido se múltiplos
- 19:08pontos de inflexão fossem cruzados em
- 19:11sequência. O hotuse Earth seria um
- 19:14estado de equilíbrio climático com
- 19:16temperaturas 4 a 5ºC
- 19:19acima dos níveis pré-industriais e nível
- 19:22do mar 10 a 60 m mais alto do que o
- 19:26atual. Os autores argumentaram que as
- 19:28trajetórias de emissões atuais poderiam
- 19:30colocar o sistema climático numa
- 19:32trajetória em direção a esse estado,
- 19:35mesmo que as emissões fossem
- 19:36drasticamente reduzidas depois de certos
- 19:39limiares serem cruzados. Porque as
- 19:42retroalimentações internas ao sistema
- 19:44climático seriam suficientemente fortes
- 19:47para continuar o aquecimento
- 19:49independentemente de intervenções
- 19:51humanas. Mas o risco climático e
- 19:53ecológico, por mais severo que seja, é
- 19:56apenas uma das trajetórias de risco
- 19:58existencial que a humanidade está
- 20:00desenvolvendo simultaneamente. O risco
- 20:03biológico, emergindo de biotecnologia
- 20:06avançada é uma segunda trajetória que os
- 20:08analistas de risco existencial tratam
- 20:11com crescente seriedade. A capacidade de
- 20:13projetar patógenos com características
- 20:16específicas, que era teoria especulativa
- 20:18há 20 anos, está se tornando
- 20:21progressivamente mais acessível à medida
- 20:24que as ferramentas de biologia sintética
- 20:26se tornam mais poderosas e mais
- 20:29amplamente disponíveis. A pandemia de
- 20:31COVID-19 demonstrou que um patógeno de
- 20:35transmissibilidade moderada pode
- 20:37produzir perturbações globais de escala
- 20:40extraordinária. Patógenos projetados com
- 20:43transmissibilidade e letalidade
- 20:45otimizadas representam um risco de
- 20:47escala muito maior que os mecanismos de
- 20:50governança global demonstraram ser
- 20:52inadequados para prevenir. O risco
- 20:55tecnológico que examinamos no vídeo
- 20:57anterior desta série, o problema do
- 20:59controle de sistemas de inteligência
- 21:01artificial suficientemente avançados
- 21:04constitui uma terceira trajetória e o
- 21:06risco geopolítico, emergindo da
- 21:09combinação de armas de destruição em
- 21:11massa, com instabilidade política
- 21:14crescente em múltiplas regiões,
- 21:16constitui uma quarta. O que a análise de
- 21:19sistemas complexos revela quando
- 21:21aplicada ao conjunto dessas trajetórias
- 21:23de risco é que elas não são
- 21:25independentes e que a probabilidade de
- 21:28risco combinado é significativamente
- 21:30maior do que a soma das probabilidades
- 21:33individuais. Crises climáticas e
- 21:35ecológicas criam pressões sobre recursos
- 21:38que historicamente produzem conflito.
- 21:41Conflito reduz a capacidade de
- 21:43cooperação necessária para governar
- 21:46tecnologias perigosas. Tecnologias
- 21:48perigosas, em mãos de atores em
- 21:50conflito, criam riscos de uso
- 21:53catastrófico. E qualquer evento
- 21:55catastrófico, seja climático, biológico
- 21:58ou tecnológico, reduz a capacidade da
- 22:01civilização de responder às outras
- 22:04crises que estão se desenvolvendo
- 22:06simultaneamente.
- 22:07O risco de extinção da humanidade não é
- 22:10o risco de um único evento catastrófico
- 22:13suficientemente grande para extinguir
- 22:15diretamente 8 bilhões de pessoas. é o
- 22:19risco de uma cascata de eventos
- 22:21interconectados que progressivamente
- 22:24reduz a capacidade da civilização de se
- 22:27recuperar e de responder às crises
- 22:30seguintes até atingir um ponto de
- 22:32inflexão civilizacional, além do qual a
- 22:35recuperação para um estado funcional não
- 22:38é mais possível dentro de qualquer
- 22:40horizonte de tempo relevante. Existe um
- 22:43fato sobre a resposta humana a riscos
- 22:46existenciais que os psicólogos e os
- 22:48economistas comportamentais documentaram
- 22:52extensivamente e que tem consequências
- 22:54diretas para a capacidade da humanidade
- 22:57de responder às trajetórias de risco que
- 23:00examinamos. O fato é que os seres
- 23:03humanos são sistematicamente ruins em
- 23:06processar riscos que t as
- 23:08características específicas dos riscos
- 23:11existenciais que enfrentamos. E as
- 23:14formas específicas em que são ruins não
- 23:16são falhas corrigíveis por mais educação
- 23:19ou por melhor comunicação. São
- 23:22características do sistema de
- 23:23processamento de risco que o cérebro
- 23:26humano desenvolveu ao longo de milhões
- 23:29de anos de evolução num ambiente
- 23:31radicalmente diferente do ambiente de
- 23:33risco que a civilização moderna criou. O
- 23:36sistema de avaliação de risco do cérebro
- 23:38humano foi otimizado para responder a
- 23:41ameaças imediatas, locais, concretas e
- 23:44de escala compatível com a capacidade
- 23:47individual de ação. Um predador visível
- 23:50a 50 m, uma fonte de alimento
- 23:53envenenada, um membro do grupo com
- 23:56comportamento ameaçador. Esses são os
- 23:59tipos de risco para os quais a evolução
- 24:02calibrou o sistema de resposta ao medo e
- 24:05ao perigo que opera no sistema límbico e
- 24:07que governa a maior parte das respostas
- 24:10de risco em tempo real. Os riscos
- 24:13existenciais que a humanidade enfrenta
- 24:15tem as características opostas em quase
- 24:18todas as dimensões. São difusos no
- 24:21espaço, distribuídos por toda a
- 24:23superfície do planeta, em vez de
- 24:25concentrados num ponto específico. São
- 24:28estendidos no tempo, se desenvolvendo ao
- 24:31longo de décadas e séculos, em vez de
- 24:34segundos e minutos. são abstratos,
- 24:37mediados por modelos científicos
- 24:40complexos, em vez de percepções
- 24:42sensoriais diretas, e são de escala que
- 24:45excede em ordens de magnitude qualquer
- 24:48coisa que a ação individual pode
- 24:50endereçar diretamente. O psicólogo
- 24:53Daniel Gilbert da Harvard descreveu o
- 24:56problema com uma precisão que raramente
- 24:58aparece na comunicação sobre riscos
- 25:01existenciais. Gilbert argumentou que o
- 25:03cérebro humano é extraordinariamente bom
- 25:06em responder a ameaças que têm
- 25:08características específicas: intenção,
- 25:12escala humana, imediatismo e moralidade
- 25:16visível. Quando uma ameaça tem essas
- 25:18características, o sistema emocional que
- 25:20motiva a ação é ativado com força.
- 25:23Quando uma ameaça carece dessas
- 25:25características, o sistema emocional
- 25:27permanece relativamente silencioso,
- 25:30mesmo que o cérebro cognitivo processe a
- 25:33ameaça como grave. A mudança climática
- 25:36falha em todas as quatro características
- 25:38que ativam resposta emocional robusta.
- 25:41Não tem intenção porque é produzida por
- 25:43bilhões de decisões individuais sem
- 25:45nenhuma coordenação maliciosa. Não tem
- 25:48escala humana porque opera em escalas de
- 25:51tempo e espaço que excedem a percepção
- 25:53direta. Não tem imediatismo, porque os
- 25:56impactos mais severos estão décadas no
- 25:59futuro em relação a qualquer momento de
- 26:02decisão presente. E não tem moralidade
- 26:04visível, porque a conexão entre qualquer
- 26:07comportamento individual e qualquer
- 26:09impacto específico é mediada por cadeias
- 26:12causais, tão longas e difusas, que a
- 26:15responsabilidade moral é impossível de
- 26:17atribuir com clareza. O resultado é que
- 26:21mesmo pessoas que compreendem
- 26:23intelectualmente a gravidade da mudança
- 26:25climática, frequentemente não modificam
- 26:28seu comportamento de formas que seriam
- 26:31consistentes com a gravidade que
- 26:33declaram compreender. Não porque sejam
- 26:35hipócritas, porque o sistema que governa
- 26:38o comportamento não é o sistema que
- 26:41processa a informação intelectual sobre
- 26:43riscos abstratos. é o sistema que
- 26:46responde a ameaças imediatas e
- 26:48concretas. E quando esse sistema não
- 26:51recebe sinais de ameaça suficientemente
- 26:54fortes, o comportamento permanece
- 26:56governado pelos incentivos do momento
- 26:58presente em vez dos riscos do futuro
- 27:01abstrato. O economista comportamental
- 27:03Daniel Keman, que ganhou o prêmio Nobel
- 27:06de economia por documentar as formas
- 27:08sistemáticas em que o raciocínio humano
- 27:11diverge dos modelos de racionalidade que
- 27:13a teoria econômica clássica assumia,
- 27:16identificou o que chamou de negligência
- 27:19de escopo como uma das formas mais
- 27:21robustas e mais consequentes de viés
- 27:24cognitivo humano. A negligência de
- 27:27escopo é a tendência de avaliar
- 27:29problemas de formas que são
- 27:31relativamente insensíveis à escala do
- 27:34problema. Pessoas dispostas a pagar
- 27:36determinada quantia para salvar 2.000
- 27:39aves de uma maré negra pagam
- 27:41aproximadamente a mesma quantia quando o
- 27:44número de aves é 200.000 ou 2 milhões. A
- 27:48resposta emocional que motiva a ação não
- 27:51escala com a magnitude do problema da
- 27:53forma que qualquer modelo de
- 27:55racionalidade assumiria. A negligência
- 27:57de escopo aplicada aos riscos
- 27:59existenciais significa que a diferença
- 28:02entre um risco de extinção de 10% e um
- 28:06risco de extinção de 90% não produz
- 28:09necessariamente respostas
- 28:11comportamentais proporcionalmente
- 28:14diferentes. O risco existencial é
- 28:17experienciado como categoria, não como
- 28:20magnitude. E dentro da categoria de
- 28:22riscos que parecem suficientemente
- 28:25distantes e abstratos para não ativar
- 28:28resposta emocional robusta, diferenças
- 28:30de magnitude não produzem diferenças
- 28:33proporcionais de motivação para ação.
- 28:36Mas o problema não é apenas de
- 28:38psicologia individual, é também de
- 28:40estrutura de governança coletiva.
- 28:43Democracias, que são o sistema de
- 28:45governo que as civilizações mais
- 28:47desenvolvidas tecnologicamente produzem,
- 28:50tem uma estrutura de horizontes de tempo
- 28:52que é sistematicamente inadequada para
- 28:55riscos que se desenvolvem ao longo de
- 28:57décadas. Ciclos eleitorais de 4 a 6 anos
- 29:01criam incentivos para que políticos
- 29:03priorizem problemas que podem ser
- 29:05resolvidos ou pelo menos comunicados
- 29:08como endereçados dentro de um ciclo
- 29:10eleitoral. Problemas que se desenvolvem
- 29:13ao longo de décadas e cujas soluções
- 29:15requerem custos presentes para
- 29:17benefícios futuros que os eleitores
- 29:19atuais não vão experienciar diretamente,
- 29:23são sistematicamente subrepresentados no
- 29:25processo político, mesmo quando as
- 29:28populações declaram nos surveys que se
- 29:30preocupam com eles. A tragédia dos
- 29:32comuns identificada pelo ecologista
- 29:35Garret Harding em 1968
- 29:38descreve o mecanismo pelo qual recursos
- 29:40compartilhados são sistematicamente
- 29:43sobreexplorados por atores individuais
- 29:46racionais, mesmo quando todos os atores
- 29:49reconhecem que a sobreexploração
- 29:51coletiva vai destruir o recurso. Cada
- 29:54ator tem incentivo individual para usar
- 29:57o máximo possível do recurso antes que
- 30:00outros o façam. O resultado coletivo é a
- 30:03destruição do recurso que todos
- 30:05dependem. A atmosfera planetária como
- 30:08sumidouro de carbono, os oceanos como
- 30:11sumidouro de poluição, a biodiversidade
- 30:14global como serviço e compartilhado.
- 30:18Todos têm a estrutura da tragédia dos
- 30:20comuns. E a solução da tragédia dos
- 30:23comuns requer coordenação coercitiva,
- 30:26que os mecanismos de governança global
- 30:28existentes são insuficientes para
- 30:31implementar na escala necessária. Existe
- 30:34uma pergunta que emerge inevitavelmente
- 30:37quando o diagnóstico que construímos até
- 30:39agora é apresentado com a completude que
- 30:42ele merece. A pergunta é: por que não
- 30:45estamos fazendo mais? Se os dados são
- 30:48tão claros, se os riscos são tão
- 30:51documentados? Se os mecanismos que
- 30:53produzem as trajetórias de risco são tão
- 30:56bem compreendidos? Por que a resposta
- 30:59civilizacional não está à altura da
- 31:02magnitude do problema? A resposta mais
- 31:05honesta é que a resposta está sendo
- 31:07produzida pelos mesmos mecanismos que
- 31:10produzem o problema. E os mecanismos que
- 31:12produzem o problema são os mecanismos
- 31:15que governam o comportamento coletivo
- 31:17humano, que são governados por
- 31:19incentivos que operam em escalas de
- 31:22tempo e espaço radicalmente menores do
- 31:25que as escalas em que os riscos se
- 31:27desenvolvem. As emissões de carbono
- 31:29continuam crescendo, não porque os
- 31:31governos e as corporações que as
- 31:33produzem desconhecem os riscos,
- 31:36continuam crescendo, porque os
- 31:38incentivos que governam as decisões de
- 31:40produção e consumo de energia são
- 31:43incentivos de curto prazo que tornam as
- 31:46alternativas de baixo carbono menos
- 31:48atraentes para a maioria dos atores na
- 31:51maioria das situações de decisão. O
- 31:53problema não é de informação, é de
- 31:56estrutura de incentivos. E reformar
- 31:58estruturas de incentivos em escala
- 32:00global requer coordenação política que
- 32:03os mecanismos de governança existentes t
- 32:06demonstrado ser incapazes de produzir na
- 32:09velocidade e na escala necessárias. A
- 32:12Convenção sobre diversidade biológica
- 32:15foi adotada em 1992.
- 32:18Três décadas depois de compromissos
- 32:20formais de reverter a crise de
- 32:21biodiversidade, a taxa de extinção está
- 32:24acelerando. O acordo de Paris sobre
- 32:27mudança climática foi adotado em 2015,
- 32:30com comprometimentos de manter o
- 32:31aquecimento abaixo de 2ºC.
- 32:35Uma década depois, as emissões globais
- 32:38continuam em níveis que as trajetórias
- 32:40dos modelos climáticos associam a
- 32:42aquecimento significativamente acima de
- 32:452º. O tratado sobre não proliferação de
- 32:49armas nucleares tem mais de 50 anos e os
- 32:52estados nucleares continuam modernizando
- 32:55e expandindo seus arsenais. O padrão é
- 32:58consistente o suficiente para não ser
- 33:01coincidência. O padrão é que a
- 33:03humanidade é extraordinariamente capaz
- 33:06de produzir acordos formais sobre riscos
- 33:09existenciais e sistematicamente incapaz
- 33:13de implementar esses acordos com a
- 33:15velocidade e a profundidade que os
- 33:18riscos requerem. E a razão não é falta
- 33:21de boa vontade dos atores individuais
- 33:23que participam das negociações. É que os
- 33:26mecanismos de implementação dos acordos
- 33:28estão sujeitos aos mesmos incentivos de
- 33:30curto prazo que produzem o problema em
- 33:33primeiro lugar. Acord internacionais não
- 33:36vinculantes são sistematicamente
- 33:38subimplementados por atores que têm
- 33:41incentivos domésticos para priorizar
- 33:43custos presentes sobre benefícios
- 33:45futuros. e acordos vinculantes
- 33:48suficientemente fortes para superar
- 33:50esses incentivos domésticos raramente
- 33:53conseguem ser negociados porque os
- 33:56atores que teriam de ratificá-los são os
- 33:59mesmos que têm os incentivos domésticos
- 34:02que os tornam difíceis de ratificar. O
- 34:05que torna a posição atual da humanidade
- 34:07diferente das posições que as espécies
- 34:10que enfrentaram as cinco extinções em
- 34:12massa anteriores ocupavam, é
- 34:15precisamente essa capacidade de
- 34:17compreender a trajetória em que estão e
- 34:20de reconhecer os mecanismos que produzem
- 34:23essa trajetória. Nenhuma das espécies
- 34:25que foram extintas nas cinco grandes
- 34:28extinções anteriores tinha a capacidade
- 34:31de medir a velocidade da sua extinção,
- 34:34de identificar as causas, de modelar as
- 34:36trajetórias futuras e de teoricamente
- 34:39alterar os comportamentos que estavam
- 34:41produzindo as condições da extinção. A
- 34:44humanidade tem todas essas capacidades e
- 34:47está usando-as. Os dados existem, os
- 34:50modelos existem, as análises existem, os
- 34:53acordos políticos existem e a trajetória
- 34:56continua numa direção que as próprias
- 34:58análises identificam como insustentável.
- 35:02O filósofo Derek Parit passou décadas
- 35:05argumentando que a ética do futuro, a
- 35:08forma como os seres humanos pensam sobre
- 35:10suas obrigações morais em relação às
- 35:13gerações que ainda vão existir é um dos
- 35:15problemas filosóficos mais importantes e
- 35:18mais negligenciados do nosso tempo.
- 35:20Parfit observou que os sistemas éticos
- 35:22que a humanidade desenvolveu, tanto os
- 35:25baseados em direitos quanto os
- 35:27consequencialistas, tem estruturas que
- 35:29tornam difícil a representação adequada
- 35:32dos interesses de pessoas que ainda não
- 35:34existem, mas cujos interesses são
- 35:37profundamente afetados pelas decisões
- 35:39que os vivos estão tomando agora. Se
- 35:41você não existe ainda, não pode ter
- 35:44direitos que possam ser violados. Se
- 35:46você não existe ainda, sua utilidade não
- 35:49entra nas funções de bem-estar que os
- 35:51utilitaristas maximizam. E os mecanismos
- 35:54de representação política que as
- 35:56democracias desenvolveram representam
- 35:59eleitores que existem e votam, não
- 36:02pessoas que vão existir décadas ou
- 36:04séculos no futuro. O resultado é uma
- 36:07estrutura sistemática de
- 36:08subrepresentação dos interesses das
- 36:10gerações futuras nos processos de tomada
- 36:13de decisão que estão determinando as
- 36:16condições que essas gerações vão herdar.
- 36:18E existe uma dimensão do problema que
- 36:20vai além da estrutura de incentivos e
- 36:23dos horizontes de tempo. É a dimensão da
- 36:26escala cognitiva. O número de pessoas
- 36:29cujos interesses são afetados pelas
- 36:31decisões sobre riscos existenciais é
- 36:34potencialmente de bilhões de pessoas em
- 36:36gerações futuras ao longo de séculos e
- 36:39milênios. A capacidade cognitiva humana
- 36:42de processar interesses em escala de
- 36:44bilhões é fundamentalmente limitada. A
- 36:48empatia, que é o mecanismo psicológico
- 36:50que motiva a consideração pelos
- 36:52interesses de outros, é um mecanismo
- 36:54calibrado para grupos de escala de
- 36:56dezenas a centenas que a evolução havia
- 36:59produzido como o tamanho típico de grupo
- 37:02humano. Estendê-la a bilhões de futuros
- 37:05não identificados requer um esforço
- 37:07abstrato que não ativa os mesmos
- 37:09circuitos emocionais que a empatia por
- 37:12pessoas concretas e identificadas ativa.
- 37:16Chegamos ao fim. E este fim é o mais
- 37:19pesado de todos os fins desta série,
- 37:21porque o que examinamos não é uma
- 37:24impossibilidade sobre os limites do
- 37:26conhecimento ou sobre a estrutura da
- 37:29realidade física. é uma impossibilidade
- 37:32que envolve a capacidade da espécie que
- 37:35faz as perguntas de alterar a trajetória
- 37:37que está produzindo as condições que
- 37:40ameaçam a sua continuidade. É uma
- 37:42impossibilidade que é simultaneamente
- 37:45sobre o que sabemos e sobre o que
- 37:47fazemos com o que sabemos. E a distância
- 37:50entre essas duas coisas é onde o
- 37:53problema mais profundo reside. O
- 37:55veredito primeiro. Com toda a
- 37:57honestidade que os dados e os argumentos
- 38:00que examinamos merecem. A sexta extinção
- 38:03em massa está em curso a uma velocidade
- 38:06que é entre 100 e 1000 vezes mais rápida
- 38:09do que qualquer extinção em massa
- 38:11anterior, causada por uma única espécie
- 38:15em escala de tempo de séculos em vez de
- 38:17milênios. As trajetórias de risco
- 38:20climático, ecológico, biológico e
- 38:23tecnológico que a humanidade está
- 38:25desenvolvendo simultaneamente interagem
- 38:28de formas que tornam o risco combinado
- 38:31significativamente maior do que a soma
- 38:34dos riscos individuais. Pontos de
- 38:36inflexão no sistema climático e
- 38:39ecológico podem ser cruzados de formas
- 38:41que tornam certas trajetórias
- 38:43irreversíveis nos horizontes de tempo
- 38:46relevantes para a civilização, mesmo que
- 38:49o comportamento humano mude
- 38:51dramaticamente depois do cruzamento. Os
- 38:54mecanismos de processamento de risco do
- 38:56cérebro humano são sistematicamente
- 38:59inadequados para as características
- 39:02específicas dos riscos existenciais que
- 39:05enfrentamos, sendo calibrados para
- 39:07ameaças imediatas, locais, concretas e
- 39:10de escala individual, em vez de difusas,
- 39:13temporalmente estendidas, abstratas e
- 39:16globais. E os mecanismos de governança
- 39:19global existentes têm estrutura de
- 39:21horizontes de tempo, de incentivos e de
- 39:24capacidade de implementação, que os
- 39:26torna sistematicamente inadequados para
- 39:29produzir respostas à altura da magnitude
- 39:32e da urgência dos problemas. O veredito
- 39:35não é que a extinção da humanidade é
- 39:37inevitável, é que a trajetória atual
- 39:40está produzindo condições que tornam
- 39:42resultados catastróficos,
- 39:44progressivamente mais prováveis e
- 39:46progressivamente mais difíceis de evitar
- 39:49à medida que o tempo passa e os limiares
- 39:52são aproximados ou cruzados. E a
- 39:55diferença entre inevitável e
- 39:57progressivamente mais difícil é
- 40:00precisamente o espaço onde a agência
- 40:02humana ainda existe, mas onde essa
- 40:05agência está sendo exercida de forma
- 40:07sistematicamente insuficiente, dado o
- 40:10que está em jogo. E agora a inversão que
- 40:13este vídeo construiu para tornar
- 40:15possível, porque o veredito sobre a
- 40:18impossibilidade do escape da extinção
- 40:20não é o fim da análise, é o começo da
- 40:23questão mais urgente. A impossibilidade
- 40:25que examinamos é contingente da mesma
- 40:28forma que a impossibilidade do controle
- 40:30de IA é contingente, não é física, não
- 40:34emerge de leis da natureza que não podem
- 40:36ser alteradas, emerge de estruturas de
- 40:39incentivos, de horizontes de tempo, de
- 40:42mecanismos de governança e de
- 40:44características do processamento de
- 40:46risco humano, que são produtos de
- 40:48escolhas e de circunstâncias que podem,
- 40:50em princípio, ser diferentes. E aqui o
- 40:53registro histórico oferece algo que o
- 40:56pessimismo fatalista frequentemente
- 40:58ignora. Houve momentos na história
- 41:00humana em que trajetórias que pareciam
- 41:03impossíveis de alterar foram alteradas.
- 41:06A camada de ozônio estava sendo
- 41:08destruída pelo clorofluor carbonos em
- 41:11velocidade que os modelos científicos
- 41:13indicavam ser catastrófica. O protocolo
- 41:16de Montreal de 1987
- 41:19coordenou a eliminação global dos CFCs
- 41:22em escala e velocidade que a maioria dos
- 41:25analistas antes da negociação
- 41:27considerava politicamente impossível. A
- 41:29camada de ozônio está se recuperando.
- 41:32Foi o mais bem-sucedido acordo ambiental
- 41:35internacional da história e demonstrou
- 41:37que coordenação global para endereçar um
- 41:40risco ambiental complexo é possível
- 41:42quando certas condições estão presentes.
- 41:45As condições que tornaram o protocolo de
- 41:47Montreal possível incluem
- 41:49características que os problemas atuais
- 41:52têm em menor grau, mas que não estão
- 41:54completamente ausentes. O problema era
- 41:57tecnicamente claro o suficiente para que
- 42:00o mecanismo e a solução fossem
- 42:02relativamente não controversos. Os
- 42:05beneficiários da solução eram
- 42:07suficientemente visíveis para criar
- 42:10pressão política. As indústrias que
- 42:12precisavam mudar tinham alternativas
- 42:14viáveis disponíveis dentro de horizontes
- 42:17de tempo razoáveis. E o número de
- 42:20atores, cujo comprometimento era
- 42:22necessário para implementação efetiva,
- 42:24era gerenciável. Os problemas
- 42:27existenciais atuais são mais complexos
- 42:29em todas essas dimensões, mais difusos
- 42:33causalmente, mais controversos
- 42:35politicamente, mais custos de endereçar
- 42:39e requerendo o comprometimento de um
- 42:40número maior de atores com interesses
- 42:43mais divergentes. Mas a estrutura do
- 42:46problema não é diferente em tipo, é
- 42:48diferente em grau. e diferenças de grau
- 42:51podem, em princípio, ser endereçadas por
- 42:54diferenças de grau nas respostas. O que
- 42:57seria necessário para que a resposta
- 42:59fosse à altura do problema não é
- 43:01misterioso. Está documentado nas
- 43:03análises que os próprios institutos de
- 43:05risco existencial produziram. Requer
- 43:08mecanismos de governança global com
- 43:10capacidade de implementação que os
- 43:12mecanismos existentes não têm. requer
- 43:15reformas de estruturas de incentivos que
- 43:18tornem as alternativas sustentáveis,
- 43:20economicamente competitivas, com as
- 43:23opções não sustentáveis, sem depender
- 43:26exclusivamente da mudança voluntária de
- 43:28comportamento. quer tecnologias de
- 43:30mitigação e adaptação que estão sendo
- 43:33desenvolvidas, mas que precisam de
- 43:35escala e velocidade de deployment que os
- 43:38mercados atuais não estão produzindo
- 43:41espontaneamente e requer uma
- 43:43transformação na forma como as gerações
- 43:45presentes pensam sobre as suas
- 43:47obrigações em relação às gerações
- 43:50futuras, que requer, por sua vez, uma
- 43:53mudança cultural que nenhuma política
- 43:55isolada pode produzir, mas que políticas
- 43:58combinadas com narrativas culturais
- 44:00diferentes podem ao longo do tempo
- 44:03facilitar. Nada disso é fácil. Muito
- 44:06disso está sendo feito em algum grau.
- 44:09Nada disso está sendo feito na escala e
- 44:12na velocidade que o problema requer. E a
- 44:14distância entre o que está sendo feito e
- 44:17o que o problema requer é o indicador
- 44:20mais honesto disponível sobre onde a
- 44:22humanidade está no relógio que o título
- 44:25deste vídeo menciona. Sou o professor
- 44:28Mito Kaku. E minha conclusão não é que
- 44:31estamos condenados, nem que estamos
- 44:33salvos, é que estamos num momento que
- 44:36tem a estrutura dos momentos que
- 44:38determinam se civilizações continuam ou
- 44:41cessam. Momentos em que as escolhas que
- 44:43são feitas estabelecem trajetórias que
- 44:46se tornam progressivamente mais difíceis
- 44:49de alterar à medida que o tempo passa e
- 44:52os limiares são aproximados. A
- 44:54humanidade tem algo que nenhuma espécie
- 44:57que enfrentou as cinco extinções em
- 44:59massa anteriores tinha, tem a capacidade
- 45:02de ver o relógio, de medir os ponteiros,
- 45:05de entender os mecanismos que fazem o
- 45:08relógio avançar e de teoricamente
- 45:11alterar esses mecanismos antes que o
- 45:13tempo acabe. Se essa capacidade é
- 45:16suficiente para fazer o relógio parar, é
- 45:19a pergunta que nenhum dado disponível
- 45:21hoje responde com certeza, porque a
- 45:24resposta depende de escolhas que ainda
- 45:26não foram completamente feitas, por
- 45:29pessoas que ainda existem para fazê-las,
- 45:32em instituições que ainda têm capacidade
- 45:34de mudar, em mercados que ainda
- 45:36respondem a incentivos que podem ser
- 45:38reformados, em culturas que ainda estão
- 45:41sendo formadas por narrativas que ainda
- 45:43estão sendo escritas. O relógio está
- 45:46rodando. O quanto ele ainda tem é
- 45:48incerto. O que acontece quando chega a
- 45:51zero é algo que nenhuma extinção
- 45:53anterior deixou ninguém para contar. E
- 45:56entre agora e esse momento, existe um
- 45:58espaço de tempo dentro do qual a única
- 46:01espécie na história do planeta que pode
- 46:04ver o relógio ainda pode decidir o que
- 46:06fazer com o fato de que consegue vê-lo.
- 46:09Oh.
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This page contains the full transcript of Por que é "IMPOSSÍVEL" a Humanidade Escapar da Próxima Extinção em Massa | Michio Kaku by Fator Kaku, generated from the public captions YouTube serves with the video. The transcript has 5,998 words across 1,064 segments, with the original timestamps preserved so you can click any line to jump to that moment in the embedded player.
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