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Por que é "IMPOSSÍVEL" a Humanidade Escapar da Próxima Extinção em Massa | Michio Kaku — Transcript

by Fator Kaku · 5,998 words · 1,064 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:00Meu nome é professor Mito Caco, sou
  2. 0:03físico teórico e dediquei minha carreira
  3. 0:06a tentar entender a teoria de tudo, a
  4. 0:08equação mestre que poderia explicar
  5. 0:11desde o nascimento das estrelas até o
  6. 0:13comportamento dos átomos. O relógio está
  7. 0:16rodando, não metaforicamente,
  8. 0:19não como figura de linguagem para
  9. 0:21comunicar urgência abstrata sobre
  10. 0:23problemas que parecem distantes o
  11. 0:25suficiente para serem tratados como
  12. 0:28urgentes sem serem tratados como
  13. 0:30imediatos. O relógio está rodando no
  14. 0:33sentido técnico preciso que os
  15. 0:35cientistas que estudam extinções em
  16. 0:38massa usam quando descrevem a posição
  17. 0:41atual da humanidade na história
  18. 0:43geológica do planeta. E o que esses
  19. 0:45cientistas dizem quando falam entre si
  20. 0:48em vez de para o público geral, é mais
  21. 0:50perturbador do que qualquer versão
  22. 0:53simplificada que aparece em manchetes ou
  23. 0:55em relatórios de organizações
  24. 0:57internacionais. A Terra já passou por
  25. 1:00cinco extinções em massa. Cinco eventos
  26. 1:03na história geológica do planeta, em que
  27. 1:05mais de 75% de todas as espécies
  28. 1:09existentes foram extintas num intervalo
  29. 1:12de tempo geologicamente curto. O
  30. 1:15ordoviciano siluriano a 44
  31. 1:18milhões de anos, o devoniano tardio a
  32. 1:21372 milhões de anos, o permiano triácico
  33. 1:26a 252 milhões de anos, o maior de todos,
  34. 1:30que eliminou 96% de todas as espécies
  35. 1:34marinhas e 70% de todas as espécies
  36. 1:37terrestres vertebradas. O triácico
  37. 1:40jurásico há 2011 milhões de anos e o
  38. 1:43cretácio paleogêno há 66 milhões de
  39. 1:47anos, o que eliminou os dinossauros não
  40. 1:49avianos e abriu o espaço ecológico que
  41. 1:52permitiu o surgimento dos mamíferos e
  42. 1:54eventualmente dos primatas e
  43. 1:56eventualmente de você. Todas as cinco
  44. 1:59extinções em massa anteriores foram
  45. 2:01causadas por forças que operavam
  46. 2:03independentemente de qualquer vontade ou
  47. 2:06consciência. Impactos de asteroides,
  48. 2:10vulcanismo em escala continental,
  49. 2:12glaciações globais, mudanças na
  50. 2:15composição química dos oceanos e da
  51. 2:17atmosfera, produzidas por processos
  52. 2:20geológicos que se desenvolviam ao longo
  53. 2:22de milhares ou milhões de anos, sem que
  54. 2:25nada no planeta tivesse capacidade de
  55. 2:28perceber o que estava acontecendo ou de
  56. 2:31alterar a trajetória. Sexta extinção em
  57. 2:34massa está acontecendo agora. E pela
  58. 2:37primeira vez na história de 4 bilhões e
  59. 2:40meio de anos do planeta, a força que
  60. 2:42está causando a extinção tem consciência
  61. 2:45de si mesma. Tem laboratórios,
  62. 2:48universidades, organizações
  63. 2:50intergovernamentais e conferências
  64. 2:52internacionais dedicadas ao estudo do
  65. 2:55que está causando. Tem a capacidade
  66. 2:57técnica de medir a velocidade da
  67. 2:59extinção com precisão crescente e tem a
  68. 3:02capacidade teórica de alterar o
  69. 3:04comportamento que está causando o
  70. 3:06problema. A pergunta que este vídeo vai
  71. 3:08examinar é se essa consciência, essa
  72. 3:11capacidade de medir e de entender e de
  73. 3:14teoricamente alterar o comportamento é
  74. 3:17suficiente para produzir uma diferença
  75. 3:19nos resultados. Se a sexta extinção em
  76. 3:22massa, por ser causada por uma espécie
  77. 3:24consciente de que está causando uma
  78. 3:26extinção em massa, vai ter um resultado
  79. 3:28diferente das cinco anteriores que foram
  80. 3:31causadas por forças completamente cegas.
  81. 3:34Ou se a consciência da causa, por mais
  82. 3:36extraordinária que seja como fenômeno na
  83. 3:38história geológica do planeta, é
  84. 3:41insuficiente para alterar a trajetória
  85. 3:43quando os mecanismos que produzem o
  86. 3:45comportamento problemático são
  87. 3:47suficientemente resistentes à
  88. 3:49modificação, mesmo com conhecimento
  89. 3:52completo das consequências. A resposta
  90. 3:54que este vídeo vai construir não é que a
  91. 3:57extinção da humanidade é inevitável, é
  92. 4:00mais precisa e mais perturbadora do que
  93. 4:03isso. é que os mecanismos que estão
  94. 4:05produzindo as condições de uma sexta
  95. 4:07extinção em massa tem estruturas que
  96. 4:10tornam a sua interrupção
  97. 4:12extraordinariamente difícil, mesmo para
  98. 4:15uma espécie que os compreende, porque
  99. 4:17compreender os mecanismos e ter
  100. 4:19incentivos para alterá-los são duas
  101. 4:22coisas completamente diferentes. E a
  102. 4:24distância entre compreensão e ação é
  103. 4:27onde a maior parte do problema reside.
  104. 4:30Nos próximos minutos, vou mostrar o que
  105. 4:32os dados científicos dizem sobre a
  106. 4:35velocidade atual da extinção de espécies
  107. 4:38em relação às extinções em massa
  108. 4:40anteriores. Vou mostrar por as múltiplas
  109. 4:44trajetórias de risco que a humanidade
  110. 4:46está desenvolvendo simultaneamente
  111. 4:48biológicas, climáticas, tecnológicas e
  112. 4:52geopolíticas interagem de formas que
  113. 4:55tornam a análise de risco de cada uma
  114. 4:57isoladamente sistematicamente
  115. 4:59subestimada. Vou mostrar porque os
  116. 5:02mecanismos de governança global que
  117. 5:04deveriam coordenar respostas a riscos
  118. 5:07existenciais tem estruturas que os
  119. 5:09tornam inadequados para a escala e a
  120. 5:12urgência dos problemas que enfrentam. E
  121. 5:15vou mostrar porque a consciência do
  122. 5:17problema, por mais sofisticada que seja,
  123. 5:20não garante a ação que o problema
  124. 5:21requer, quando os incentivos que
  125. 5:23governam o comportamento dos atores
  126. 5:25relevantes apontam sistematicamente em
  127. 5:29direção contrária. Porque o que torna a
  128. 5:31posição da humanidade no relógio
  129. 5:33geológico atual, diferente de qualquer
  130. 5:36posição que qualquer espécie já ocupou,
  131. 5:39é que a humanidade sabe onde está no
  132. 5:41relógio. saber onde está não está se
  133. 5:45revelando suficiente para fazer o
  134. 5:47relógio parar. Para entender a escala do
  135. 5:50problema com a precisão que ele merece,
  136. 5:52precisamos primeiro estabelecer o que os
  137. 5:55dados científicos dizem sobre a
  138. 5:57velocidade atual de extinção de espécies
  139. 6:00e o que essa velocidade significa quando
  140. 6:02colocada no contexto das extinções em
  141. 6:05massa anteriores. Não as versões
  142. 6:07suavizadas que aparecem em comunicados
  143. 6:10de imprensa de organizações ambientais.
  144. 6:13As versões que aparecem nos papers
  145. 6:15revisados por pares que os biólogos da
  146. 6:17conservação publicam quando estão
  147. 6:19falando para outros biólogos da
  148. 6:21conservação. A taxa de extinção de
  149. 6:24espécies é tipicamente medida em
  150. 6:26extinções por milhão de espécies por
  151. 6:28ano, uma unidade chamada EMS o cruz. A
  152. 6:33taxa de fundo, a taxa que ocorre
  153. 6:35naturalmente entre extinções em massa,
  154. 6:37em condições sem perturbação
  155. 6:39antropogênica significativa, é estimada
  156. 6:42em aproximadamente um a cinco extinções
  157. 6:46por milhão de espécies por ano. É a
  158. 6:48linha de base, o nível de extinção que o
  159. 6:51planeta produz naturalmente através de
  160. 6:54competição, predação, mudanças de
  161. 6:56habitat e outros processos ecológicos
  162. 6:59normais. A taxa atual de extinção de
  163. 7:02espécies, medida pelos métodos mais
  164. 7:04conservadores disponíveis, está entre
  165. 7:07100 e 1000 extinções por milhão de
  166. 7:09espécies por ano, 100 a 1000 vezes acima
  167. 7:13da taxa de fundo. E os métodos mais
  168. 7:16rigorosos que incorporam espécies, não
  169. 7:19ainda formalmente descritas pela
  170. 7:21ciência, mas cujos habitates estão sendo
  171. 7:24destruídos em velocidade documentada,
  172. 7:27produzem estimativas ainda maiores.
  173. 7:30Alguns estudos chegam a 10.000 1 vezes
  174. 7:33acima da taxa de fundo. Para ter
  175. 7:35referência do que esses números
  176. 7:37significam em termos históricos, a
  177. 7:39extinção do cretácio paleogêno que
  178. 7:42eliminou os dinossauros ocorreu a uma
  179. 7:44taxa de extinção que os paleontólogos
  180. 7:46estimam em aproximadamente 8 a 10 vezes
  181. 7:50acima da taxa de fundo do período. A
  182. 7:52taxa atual de extinção está entre 10 e
  183. 7:55100 vezes mais rápida do que o evento
  184. 7:58que consideramos o mais dramático e mais
  185. 8:01estudado dos cinco grandes eventos de
  186. 8:03extinção em massa da história da Terra.
  187. 8:06A diferença é de escala temporal. A
  188. 8:09extinção do cretácio paleogêno
  189. 8:11catastrófica como foi, se desenvolveu ao
  190. 8:14longo de dezenas de milhares de anos. A
  191. 8:17extinção atual está se desenvolvendo num
  192. 8:19intervalo de séculos que é
  193. 8:21geologicamente instantâneo. E a
  194. 8:23velocidade importa porque ecossistemas
  195. 8:26têm capacidade de se adaptar a
  196. 8:29perturbações que ocorrem lentamente e
  197. 8:32perdem essa capacidade quando as
  198. 8:34perturbações ocorrem mais rapidamente do
  199. 8:37que os mecanismos evolutivos e
  200. 8:39ecológicos de adaptação conseguem
  201. 8:41operar. O biólogo e o Wilson, que passou
  202. 8:45a segunda metade da sua carreira
  203. 8:47tentando comunicar a urgência da crise
  204. 8:49de biodiversidade com a precisão
  205. 8:52científica que ela merece, estimou que
  206. 8:55estávamos perdendo entre 30 e 50.000
  207. 8:57espécies por ano no início dos anos
  208. 9:002000. Os dados mais recentes sugerem que
  209. 9:03essa estimativa pode ter sido
  210. 9:04conservadora. A lista vermelha da IUCN,
  211. 9:08o inventário mais abrangente do status
  212. 9:10de conservação de espécies que existe,
  213. 9:13classifica aproximadamente 42% de todas
  214. 9:17as espécies avaliadas como ameaçadas de
  215. 9:19extinção. Para mamíferos, 26%,
  216. 9:23para anfíbios, 41%.
  217. 9:26para corais, que são a base de
  218. 9:28ecossistemas que sustentam
  219. 9:29aproximadamente 25% de toda a
  220. 9:33biodiversidade marinha, 33%.
  221. 9:36Mas a extinção de espécies, embora seja
  222. 9:39o indicador mais visível e mais
  223. 9:41dramaticamente comunicável da crise
  224. 9:43ecológica atual, não é o indicador mais
  225. 9:46relevante para entender o risco para a
  226. 9:48humanidade. O indicador mais relevante é
  227. 9:51o colapso de populações dentro de
  228. 9:53espécies que não estão ainda extintas.
  229. 9:56Um estudo publicado em 2017 no
  230. 9:59Proceedings of the National Academy of
  231. 10:01Sciences por Gerardo Cebalos e Paul
  232. 10:04Erlick documentou o que eles chamaram de
  233. 10:07aniquilação biológica, a perda de 60% de
  234. 10:11todas as populações de vertebrados nos
  235. 10:14últimos 40 anos. Não extinção de
  236. 10:17espécies, colapso de populações dentro
  237. 10:20de espécies, a perda de 60% dos
  238. 10:24indivíduos devertebrados em quatro
  239. 10:26décadas. Esse nível de colapso de
  240. 10:28populações tem consequências para os
  241. 10:30serviços ecossistêmicos que a humanidade
  242. 10:33depende que são mais imediatas do que a
  243. 10:35extinção de espécies isoladas. Porque os
  244. 10:38serviços ecossistêmicos dependem de
  245. 10:41populações funcionais e não apenas de
  246. 10:43espécies existentes em algum lugar.
  247. 10:46Polinização, controle de pragas, ciclos
  248. 10:50de nutrientes, purificação de água,
  249. 10:53regulação climática local. Todos esses
  250. 10:56serviços são providos por populações de
  251. 10:58organismos que precisam estar presentes
  252. 11:00em densidades funcionais para manter os
  253. 11:03processos ecológicos que os tornam
  254. 11:06possíveis. E populações que perderam 60%
  255. 11:09dos seus indivíduos em 40 anos estão em
  256. 11:13muitos casos abaixo dos limiares
  257. 11:15funcionais que mantém esses serviços. A
  258. 11:18mudança climática adiciona uma segunda
  259. 11:20trajetória de risco que interage com a
  260. 11:22crise de biodiversidade de formas que
  261. 11:25tornam cada uma mais severa do que seria
  262. 11:28isoladamente. O aquecimento global não
  263. 11:31apenas ameaça espécies diretamente
  264. 11:34através de mudanças de temperatura que
  265. 11:36excedem os limites de tolerância
  266. 11:38térmica. Ele desloca os ranges de
  267. 11:40distribuição geográfica de espécies numa
  268. 11:43velocidade que excede a capacidade de
  269. 11:45dispersão de muitas delas. Cria
  270. 11:48descasamentos fenológicos entre espécies
  271. 11:51interdependentes quando diferentes
  272. 11:53espécies respondem ao aquecimento em
  273. 11:55velocidades diferentes e dissolve as
  274. 11:59relações ecológicas que se estabeleceram
  275. 12:01ao longo de milênios de coevolução em
  276. 12:04ecossistemas estáveis. As projeções do
  277. 12:07IPCC para cenários de aquecimento acima
  278. 12:09de 2ºC
  279. 12:11indicam risco de extinção para 18% de
  280. 12:14todas as espécies. Para aquecimento
  281. 12:17acima de 4ºC, o risco sobe para mais de
  282. 12:2050% de todas as espécies. e as
  283. 12:24trajetórias de emissões atuais. Mesmo
  284. 12:26considerando todas as políticas
  285. 12:27climáticas implementadas ou anunciadas,
  286. 12:30mas não ainda implementadas, apontam
  287. 12:32para aquecimento entre 2,5 e 3ºC até
  288. 12:372100, que a grande maioria dos
  289. 12:39cientistas do clima considera
  290. 12:41insuficiente para evitar consequências
  291. 12:43que vão muito além da extinção de
  292. 12:45espécies para incluir impactos severos
  293. 12:48sobre a capacidade da humanidade de
  294. 12:50produzir alimentos, de manter populações
  295. 12:53costeiras e de sustentar as cadeias de
  296. 12:56suprimentos que as economias globais
  297. 12:58modernas dependem. E aqui chegamos ao
  298. 13:01aspecto do problema que a comunicação
  299. 13:03pública sobre crise climática e crise de
  300. 13:05biodiversidade frequentemente trata
  301. 13:08separadamente, mas que os cientistas que
  302. 13:10estudam riscos sistêmicos tratam como
  303. 13:13inseparável. As múltiplas trajetórias de
  304. 13:16risco não são independentes. Interagem
  305. 13:19de formas que tornam o risco combinado
  306. 13:21maior do que a soma dos riscos
  307. 13:24individuais. Colapso de biodiversidade
  308. 13:27reduz a capacidade dos ecossistemas de
  309. 13:30sequestrar carbono, acelerando a mudança
  310. 13:33climática. Mudança climática acelera o
  311. 13:36colapso de biodiversidade. Ambos reduzem
  312. 13:39a produtividade agrícola, criando
  313. 13:41pressões sobre recursos que
  314. 13:43historicamente têm sido causas de
  315. 13:46conflito geopolítico. Conflito
  316. 13:48geopolítico reduz a capacidade de
  317. 13:51cooperação internacional necessária para
  318. 13:54endereçar qualquer um dos problemas
  319. 13:56individuais. E todas essas trajetórias
  320. 13:59interagem com o desenvolvimento
  321. 14:01tecnológico acelerado, particularmente
  322. 14:03de inteligência artificial e de
  323. 14:05biotecnologia, de formas que adicionam
  324. 14:08novos modos de falha a um sistema já
  325. 14:11operando sob estresse múltiplo. Existe
  326. 14:13uma categoria de análise de risco que as
  327. 14:16ciências naturais e as ciências sociais
  328. 14:18desenvolveram separadamente e que
  329. 14:20raramente é integrada com a profundidade
  330. 14:23que os problemas de risco existencial
  331. 14:25requerem. é a análise de sistemas
  332. 14:28complexos, a tentativa de entender como
  333. 14:30sistemas com muitos componentes
  334. 14:32interdependentes se comportam de formas
  335. 14:35que emergem da interação dos componentes
  336. 14:38e que não podem ser previstas a partir
  337. 14:40da análise de qualquer componente
  338. 14:42individual. Os ecossistemas são sistemas
  339. 14:45complexos. As economias globais são
  340. 14:48sistemas complexos. O clima planetário é
  341. 14:51um sistema complexo e as interações
  342. 14:54entre esses sistemas, que é onde os
  343. 14:56maiores riscos existenciais residem,
  344. 14:58constituem um sistema de sistemas cuja
  345. 15:01complexidade excede em ordens de
  346. 15:03magnitude qualquer coisa que modelos
  347. 15:06simplificados conseguem capturar. O
  348. 15:09conceito de ponto de inflexão ou tipping
  349. 15:12point é a contribuição mais importante
  350. 15:15que a análise de sistemas complexos fez
  351. 15:18para o entendimento dos riscos
  352. 15:20existenciais que a humanidade enfrenta.
  353. 15:23Um ponto de inflexão é um limiar num
  354. 15:26sistema complexo além do qual o sistema
  355. 15:28se move para um novo estado de
  356. 15:31equilíbrio, de forma que é
  357. 15:32potencialmente irreversível nos limites
  358. 15:35de tempo relevantes para a civilização
  359. 15:38humana. A característica central dos
  360. 15:41pontos de inflexão que os torna
  361. 15:43particularmente preocupantes é que o
  362. 15:45comportamento do sistema, antes de
  363. 15:47atingir o limiar, não necessariamente
  364. 15:50revela a proximidade do limear. Sistemas
  365. 15:53podem parecer estáveis até momentos
  366. 15:56antes de atingirem pontos de inflexão,
  367. 15:58além dos quais o movimento para novos
  368. 16:01estados de equilíbrio ocorre mais
  369. 16:03rapidamente do que qualquer intervenção
  370. 16:05pode acompanhar. O derretimento da
  371. 16:07calota de gelo da Groenlândia é
  372. 16:09frequentemente citado como um dos pontos
  373. 16:11de inflexão mais bem documentados
  374. 16:13disponíveis. Modelos climáticos
  375. 16:16identificam um limiar de temperatura,
  376. 16:19atualmente estimado entre 1,1 e 1,8ºC,
  377. 16:24de aquecimento global acima dos níveis
  378. 16:26pré-industriais,
  379. 16:28além do qual o derretimento da calota se
  380. 16:31torna autosustentado, independentemente
  381. 16:33de qualquer redução posterior de
  382. 16:35emissões. O derretimento reduz o albedo
  383. 16:38da superfície, o que aumenta a absorção
  384. 16:41de radiação solar, o que aumenta o
  385. 16:43aquecimento local, o que acelera o
  386. 16:46derretimento num ciclo de
  387. 16:47retroalimentação positiva que continua
  388. 16:50independentemente do que acontece com as
  389. 16:52emissões globais depois que o limiar é
  390. 16:54ultrapassado. O derretimento completo da
  391. 16:57calota da Groenlândia resultaria em
  392. 16:59aumento do nível do mar de
  393. 17:01aproximadamente 7 m. A floresta
  394. 17:04amazônica é outro ponto de inflexão
  395. 17:06amplamente estudado. Modelos
  396. 17:09hidrológicos identificam um limiar de
  397. 17:11desmatamento, atualmente estimado entre
  398. 17:1420 e 25% da cobertura original, além do
  399. 17:18qual a floresta perde sua capacidade de
  400. 17:21gerar sua própria precipitação através
  401. 17:24da transpiração. A floresta tropical
  402. 17:26amazônica produz aproximadamente 50% da
  403. 17:30sua própria precipitação através desse
  404. 17:32processo. Abaixo do limiar de cobertura
  405. 17:35que mantém esse processo funcional, a
  406. 17:37floresta entra num ciclo de savanização
  407. 17:40que se autosustenta independentemente de
  408. 17:43qualquer proteção adicional. O
  409. 17:45desmatamento atual está entre 18 e 20%
  410. 17:49da cobertura original em algumas áreas.
  411. 17:52A margem entre a posição atual e o ponto
  412. 17:55de inflexão é menor do que a maioria das
  413. 17:57representações públicas do problema
  414. 17:59comunica. O que torna a análise de
  415. 18:02pontos de inflexão particularmente
  416. 18:04perturbadora é a possibilidade de
  417. 18:07cascata. Pontos de inflexão individuais
  418. 18:10em diferentes componentes do sistema
  419. 18:12climático e ecológico podem ser
  420. 18:15conectados de formas que o cruzamento de
  421. 18:17um ponto de inflexão aumenta a
  422. 18:20probabilidade de cruzamento de outros. O
  423. 18:22derretimento do permafrost siberiano
  424. 18:25libera metano, um gás de efeito estufa
  425. 18:28com potência de aquecimento 28 vezes
  426. 18:30maior do que o CO2, o que aumenta o
  427. 18:33aquecimento global, o que acelera o
  428. 18:35derretimento da Groenlândia, o que
  429. 18:37altera as correntes oceânicas, o que
  430. 18:39muda os padrões de precipitação em
  431. 18:41múltiplas regiões, o que afeta a
  432. 18:44produtividade agrícola global, o que
  433. 18:46cria pressões sobre recursos que
  434. 18:48alimentam instabilidade geopolítica. Um
  435. 18:51paper publicado em 2018 na Proceedings
  436. 18:54of the National Academy of Sciences por
  437. 18:57Will Stephen e colegas introduziu o
  438. 19:00conceito de Hothouse Earth para
  439. 19:03descrever o estado do sistema climático
  440. 19:05que poderia ser atingido se múltiplos
  441. 19:08pontos de inflexão fossem cruzados em
  442. 19:11sequência. O hotuse Earth seria um
  443. 19:14estado de equilíbrio climático com
  444. 19:16temperaturas 4 a 5ºC
  445. 19:19acima dos níveis pré-industriais e nível
  446. 19:22do mar 10 a 60 m mais alto do que o
  447. 19:26atual. Os autores argumentaram que as
  448. 19:28trajetórias de emissões atuais poderiam
  449. 19:30colocar o sistema climático numa
  450. 19:32trajetória em direção a esse estado,
  451. 19:35mesmo que as emissões fossem
  452. 19:36drasticamente reduzidas depois de certos
  453. 19:39limiares serem cruzados. Porque as
  454. 19:42retroalimentações internas ao sistema
  455. 19:44climático seriam suficientemente fortes
  456. 19:47para continuar o aquecimento
  457. 19:49independentemente de intervenções
  458. 19:51humanas. Mas o risco climático e
  459. 19:53ecológico, por mais severo que seja, é
  460. 19:56apenas uma das trajetórias de risco
  461. 19:58existencial que a humanidade está
  462. 20:00desenvolvendo simultaneamente. O risco
  463. 20:03biológico, emergindo de biotecnologia
  464. 20:06avançada é uma segunda trajetória que os
  465. 20:08analistas de risco existencial tratam
  466. 20:11com crescente seriedade. A capacidade de
  467. 20:13projetar patógenos com características
  468. 20:16específicas, que era teoria especulativa
  469. 20:18há 20 anos, está se tornando
  470. 20:21progressivamente mais acessível à medida
  471. 20:24que as ferramentas de biologia sintética
  472. 20:26se tornam mais poderosas e mais
  473. 20:29amplamente disponíveis. A pandemia de
  474. 20:31COVID-19 demonstrou que um patógeno de
  475. 20:35transmissibilidade moderada pode
  476. 20:37produzir perturbações globais de escala
  477. 20:40extraordinária. Patógenos projetados com
  478. 20:43transmissibilidade e letalidade
  479. 20:45otimizadas representam um risco de
  480. 20:47escala muito maior que os mecanismos de
  481. 20:50governança global demonstraram ser
  482. 20:52inadequados para prevenir. O risco
  483. 20:55tecnológico que examinamos no vídeo
  484. 20:57anterior desta série, o problema do
  485. 20:59controle de sistemas de inteligência
  486. 21:01artificial suficientemente avançados
  487. 21:04constitui uma terceira trajetória e o
  488. 21:06risco geopolítico, emergindo da
  489. 21:09combinação de armas de destruição em
  490. 21:11massa, com instabilidade política
  491. 21:14crescente em múltiplas regiões,
  492. 21:16constitui uma quarta. O que a análise de
  493. 21:19sistemas complexos revela quando
  494. 21:21aplicada ao conjunto dessas trajetórias
  495. 21:23de risco é que elas não são
  496. 21:25independentes e que a probabilidade de
  497. 21:28risco combinado é significativamente
  498. 21:30maior do que a soma das probabilidades
  499. 21:33individuais. Crises climáticas e
  500. 21:35ecológicas criam pressões sobre recursos
  501. 21:38que historicamente produzem conflito.
  502. 21:41Conflito reduz a capacidade de
  503. 21:43cooperação necessária para governar
  504. 21:46tecnologias perigosas. Tecnologias
  505. 21:48perigosas, em mãos de atores em
  506. 21:50conflito, criam riscos de uso
  507. 21:53catastrófico. E qualquer evento
  508. 21:55catastrófico, seja climático, biológico
  509. 21:58ou tecnológico, reduz a capacidade da
  510. 22:01civilização de responder às outras
  511. 22:04crises que estão se desenvolvendo
  512. 22:06simultaneamente.
  513. 22:07O risco de extinção da humanidade não é
  514. 22:10o risco de um único evento catastrófico
  515. 22:13suficientemente grande para extinguir
  516. 22:15diretamente 8 bilhões de pessoas. é o
  517. 22:19risco de uma cascata de eventos
  518. 22:21interconectados que progressivamente
  519. 22:24reduz a capacidade da civilização de se
  520. 22:27recuperar e de responder às crises
  521. 22:30seguintes até atingir um ponto de
  522. 22:32inflexão civilizacional, além do qual a
  523. 22:35recuperação para um estado funcional não
  524. 22:38é mais possível dentro de qualquer
  525. 22:40horizonte de tempo relevante. Existe um
  526. 22:43fato sobre a resposta humana a riscos
  527. 22:46existenciais que os psicólogos e os
  528. 22:48economistas comportamentais documentaram
  529. 22:52extensivamente e que tem consequências
  530. 22:54diretas para a capacidade da humanidade
  531. 22:57de responder às trajetórias de risco que
  532. 23:00examinamos. O fato é que os seres
  533. 23:03humanos são sistematicamente ruins em
  534. 23:06processar riscos que t as
  535. 23:08características específicas dos riscos
  536. 23:11existenciais que enfrentamos. E as
  537. 23:14formas específicas em que são ruins não
  538. 23:16são falhas corrigíveis por mais educação
  539. 23:19ou por melhor comunicação. São
  540. 23:22características do sistema de
  541. 23:23processamento de risco que o cérebro
  542. 23:26humano desenvolveu ao longo de milhões
  543. 23:29de anos de evolução num ambiente
  544. 23:31radicalmente diferente do ambiente de
  545. 23:33risco que a civilização moderna criou. O
  546. 23:36sistema de avaliação de risco do cérebro
  547. 23:38humano foi otimizado para responder a
  548. 23:41ameaças imediatas, locais, concretas e
  549. 23:44de escala compatível com a capacidade
  550. 23:47individual de ação. Um predador visível
  551. 23:50a 50 m, uma fonte de alimento
  552. 23:53envenenada, um membro do grupo com
  553. 23:56comportamento ameaçador. Esses são os
  554. 23:59tipos de risco para os quais a evolução
  555. 24:02calibrou o sistema de resposta ao medo e
  556. 24:05ao perigo que opera no sistema límbico e
  557. 24:07que governa a maior parte das respostas
  558. 24:10de risco em tempo real. Os riscos
  559. 24:13existenciais que a humanidade enfrenta
  560. 24:15tem as características opostas em quase
  561. 24:18todas as dimensões. São difusos no
  562. 24:21espaço, distribuídos por toda a
  563. 24:23superfície do planeta, em vez de
  564. 24:25concentrados num ponto específico. São
  565. 24:28estendidos no tempo, se desenvolvendo ao
  566. 24:31longo de décadas e séculos, em vez de
  567. 24:34segundos e minutos. são abstratos,
  568. 24:37mediados por modelos científicos
  569. 24:40complexos, em vez de percepções
  570. 24:42sensoriais diretas, e são de escala que
  571. 24:45excede em ordens de magnitude qualquer
  572. 24:48coisa que a ação individual pode
  573. 24:50endereçar diretamente. O psicólogo
  574. 24:53Daniel Gilbert da Harvard descreveu o
  575. 24:56problema com uma precisão que raramente
  576. 24:58aparece na comunicação sobre riscos
  577. 25:01existenciais. Gilbert argumentou que o
  578. 25:03cérebro humano é extraordinariamente bom
  579. 25:06em responder a ameaças que têm
  580. 25:08características específicas: intenção,
  581. 25:12escala humana, imediatismo e moralidade
  582. 25:16visível. Quando uma ameaça tem essas
  583. 25:18características, o sistema emocional que
  584. 25:20motiva a ação é ativado com força.
  585. 25:23Quando uma ameaça carece dessas
  586. 25:25características, o sistema emocional
  587. 25:27permanece relativamente silencioso,
  588. 25:30mesmo que o cérebro cognitivo processe a
  589. 25:33ameaça como grave. A mudança climática
  590. 25:36falha em todas as quatro características
  591. 25:38que ativam resposta emocional robusta.
  592. 25:41Não tem intenção porque é produzida por
  593. 25:43bilhões de decisões individuais sem
  594. 25:45nenhuma coordenação maliciosa. Não tem
  595. 25:48escala humana porque opera em escalas de
  596. 25:51tempo e espaço que excedem a percepção
  597. 25:53direta. Não tem imediatismo, porque os
  598. 25:56impactos mais severos estão décadas no
  599. 25:59futuro em relação a qualquer momento de
  600. 26:02decisão presente. E não tem moralidade
  601. 26:04visível, porque a conexão entre qualquer
  602. 26:07comportamento individual e qualquer
  603. 26:09impacto específico é mediada por cadeias
  604. 26:12causais, tão longas e difusas, que a
  605. 26:15responsabilidade moral é impossível de
  606. 26:17atribuir com clareza. O resultado é que
  607. 26:21mesmo pessoas que compreendem
  608. 26:23intelectualmente a gravidade da mudança
  609. 26:25climática, frequentemente não modificam
  610. 26:28seu comportamento de formas que seriam
  611. 26:31consistentes com a gravidade que
  612. 26:33declaram compreender. Não porque sejam
  613. 26:35hipócritas, porque o sistema que governa
  614. 26:38o comportamento não é o sistema que
  615. 26:41processa a informação intelectual sobre
  616. 26:43riscos abstratos. é o sistema que
  617. 26:46responde a ameaças imediatas e
  618. 26:48concretas. E quando esse sistema não
  619. 26:51recebe sinais de ameaça suficientemente
  620. 26:54fortes, o comportamento permanece
  621. 26:56governado pelos incentivos do momento
  622. 26:58presente em vez dos riscos do futuro
  623. 27:01abstrato. O economista comportamental
  624. 27:03Daniel Keman, que ganhou o prêmio Nobel
  625. 27:06de economia por documentar as formas
  626. 27:08sistemáticas em que o raciocínio humano
  627. 27:11diverge dos modelos de racionalidade que
  628. 27:13a teoria econômica clássica assumia,
  629. 27:16identificou o que chamou de negligência
  630. 27:19de escopo como uma das formas mais
  631. 27:21robustas e mais consequentes de viés
  632. 27:24cognitivo humano. A negligência de
  633. 27:27escopo é a tendência de avaliar
  634. 27:29problemas de formas que são
  635. 27:31relativamente insensíveis à escala do
  636. 27:34problema. Pessoas dispostas a pagar
  637. 27:36determinada quantia para salvar 2.000
  638. 27:39aves de uma maré negra pagam
  639. 27:41aproximadamente a mesma quantia quando o
  640. 27:44número de aves é 200.000 ou 2 milhões. A
  641. 27:48resposta emocional que motiva a ação não
  642. 27:51escala com a magnitude do problema da
  643. 27:53forma que qualquer modelo de
  644. 27:55racionalidade assumiria. A negligência
  645. 27:57de escopo aplicada aos riscos
  646. 27:59existenciais significa que a diferença
  647. 28:02entre um risco de extinção de 10% e um
  648. 28:06risco de extinção de 90% não produz
  649. 28:09necessariamente respostas
  650. 28:11comportamentais proporcionalmente
  651. 28:14diferentes. O risco existencial é
  652. 28:17experienciado como categoria, não como
  653. 28:20magnitude. E dentro da categoria de
  654. 28:22riscos que parecem suficientemente
  655. 28:25distantes e abstratos para não ativar
  656. 28:28resposta emocional robusta, diferenças
  657. 28:30de magnitude não produzem diferenças
  658. 28:33proporcionais de motivação para ação.
  659. 28:36Mas o problema não é apenas de
  660. 28:38psicologia individual, é também de
  661. 28:40estrutura de governança coletiva.
  662. 28:43Democracias, que são o sistema de
  663. 28:45governo que as civilizações mais
  664. 28:47desenvolvidas tecnologicamente produzem,
  665. 28:50tem uma estrutura de horizontes de tempo
  666. 28:52que é sistematicamente inadequada para
  667. 28:55riscos que se desenvolvem ao longo de
  668. 28:57décadas. Ciclos eleitorais de 4 a 6 anos
  669. 29:01criam incentivos para que políticos
  670. 29:03priorizem problemas que podem ser
  671. 29:05resolvidos ou pelo menos comunicados
  672. 29:08como endereçados dentro de um ciclo
  673. 29:10eleitoral. Problemas que se desenvolvem
  674. 29:13ao longo de décadas e cujas soluções
  675. 29:15requerem custos presentes para
  676. 29:17benefícios futuros que os eleitores
  677. 29:19atuais não vão experienciar diretamente,
  678. 29:23são sistematicamente subrepresentados no
  679. 29:25processo político, mesmo quando as
  680. 29:28populações declaram nos surveys que se
  681. 29:30preocupam com eles. A tragédia dos
  682. 29:32comuns identificada pelo ecologista
  683. 29:35Garret Harding em 1968
  684. 29:38descreve o mecanismo pelo qual recursos
  685. 29:40compartilhados são sistematicamente
  686. 29:43sobreexplorados por atores individuais
  687. 29:46racionais, mesmo quando todos os atores
  688. 29:49reconhecem que a sobreexploração
  689. 29:51coletiva vai destruir o recurso. Cada
  690. 29:54ator tem incentivo individual para usar
  691. 29:57o máximo possível do recurso antes que
  692. 30:00outros o façam. O resultado coletivo é a
  693. 30:03destruição do recurso que todos
  694. 30:05dependem. A atmosfera planetária como
  695. 30:08sumidouro de carbono, os oceanos como
  696. 30:11sumidouro de poluição, a biodiversidade
  697. 30:14global como serviço e compartilhado.
  698. 30:18Todos têm a estrutura da tragédia dos
  699. 30:20comuns. E a solução da tragédia dos
  700. 30:23comuns requer coordenação coercitiva,
  701. 30:26que os mecanismos de governança global
  702. 30:28existentes são insuficientes para
  703. 30:31implementar na escala necessária. Existe
  704. 30:34uma pergunta que emerge inevitavelmente
  705. 30:37quando o diagnóstico que construímos até
  706. 30:39agora é apresentado com a completude que
  707. 30:42ele merece. A pergunta é: por que não
  708. 30:45estamos fazendo mais? Se os dados são
  709. 30:48tão claros, se os riscos são tão
  710. 30:51documentados? Se os mecanismos que
  711. 30:53produzem as trajetórias de risco são tão
  712. 30:56bem compreendidos? Por que a resposta
  713. 30:59civilizacional não está à altura da
  714. 31:02magnitude do problema? A resposta mais
  715. 31:05honesta é que a resposta está sendo
  716. 31:07produzida pelos mesmos mecanismos que
  717. 31:10produzem o problema. E os mecanismos que
  718. 31:12produzem o problema são os mecanismos
  719. 31:15que governam o comportamento coletivo
  720. 31:17humano, que são governados por
  721. 31:19incentivos que operam em escalas de
  722. 31:22tempo e espaço radicalmente menores do
  723. 31:25que as escalas em que os riscos se
  724. 31:27desenvolvem. As emissões de carbono
  725. 31:29continuam crescendo, não porque os
  726. 31:31governos e as corporações que as
  727. 31:33produzem desconhecem os riscos,
  728. 31:36continuam crescendo, porque os
  729. 31:38incentivos que governam as decisões de
  730. 31:40produção e consumo de energia são
  731. 31:43incentivos de curto prazo que tornam as
  732. 31:46alternativas de baixo carbono menos
  733. 31:48atraentes para a maioria dos atores na
  734. 31:51maioria das situações de decisão. O
  735. 31:53problema não é de informação, é de
  736. 31:56estrutura de incentivos. E reformar
  737. 31:58estruturas de incentivos em escala
  738. 32:00global requer coordenação política que
  739. 32:03os mecanismos de governança existentes t
  740. 32:06demonstrado ser incapazes de produzir na
  741. 32:09velocidade e na escala necessárias. A
  742. 32:12Convenção sobre diversidade biológica
  743. 32:15foi adotada em 1992.
  744. 32:18Três décadas depois de compromissos
  745. 32:20formais de reverter a crise de
  746. 32:21biodiversidade, a taxa de extinção está
  747. 32:24acelerando. O acordo de Paris sobre
  748. 32:27mudança climática foi adotado em 2015,
  749. 32:30com comprometimentos de manter o
  750. 32:31aquecimento abaixo de 2ºC.
  751. 32:35Uma década depois, as emissões globais
  752. 32:38continuam em níveis que as trajetórias
  753. 32:40dos modelos climáticos associam a
  754. 32:42aquecimento significativamente acima de
  755. 32:452º. O tratado sobre não proliferação de
  756. 32:49armas nucleares tem mais de 50 anos e os
  757. 32:52estados nucleares continuam modernizando
  758. 32:55e expandindo seus arsenais. O padrão é
  759. 32:58consistente o suficiente para não ser
  760. 33:01coincidência. O padrão é que a
  761. 33:03humanidade é extraordinariamente capaz
  762. 33:06de produzir acordos formais sobre riscos
  763. 33:09existenciais e sistematicamente incapaz
  764. 33:13de implementar esses acordos com a
  765. 33:15velocidade e a profundidade que os
  766. 33:18riscos requerem. E a razão não é falta
  767. 33:21de boa vontade dos atores individuais
  768. 33:23que participam das negociações. É que os
  769. 33:26mecanismos de implementação dos acordos
  770. 33:28estão sujeitos aos mesmos incentivos de
  771. 33:30curto prazo que produzem o problema em
  772. 33:33primeiro lugar. Acord internacionais não
  773. 33:36vinculantes são sistematicamente
  774. 33:38subimplementados por atores que têm
  775. 33:41incentivos domésticos para priorizar
  776. 33:43custos presentes sobre benefícios
  777. 33:45futuros. e acordos vinculantes
  778. 33:48suficientemente fortes para superar
  779. 33:50esses incentivos domésticos raramente
  780. 33:53conseguem ser negociados porque os
  781. 33:56atores que teriam de ratificá-los são os
  782. 33:59mesmos que têm os incentivos domésticos
  783. 34:02que os tornam difíceis de ratificar. O
  784. 34:05que torna a posição atual da humanidade
  785. 34:07diferente das posições que as espécies
  786. 34:10que enfrentaram as cinco extinções em
  787. 34:12massa anteriores ocupavam, é
  788. 34:15precisamente essa capacidade de
  789. 34:17compreender a trajetória em que estão e
  790. 34:20de reconhecer os mecanismos que produzem
  791. 34:23essa trajetória. Nenhuma das espécies
  792. 34:25que foram extintas nas cinco grandes
  793. 34:28extinções anteriores tinha a capacidade
  794. 34:31de medir a velocidade da sua extinção,
  795. 34:34de identificar as causas, de modelar as
  796. 34:36trajetórias futuras e de teoricamente
  797. 34:39alterar os comportamentos que estavam
  798. 34:41produzindo as condições da extinção. A
  799. 34:44humanidade tem todas essas capacidades e
  800. 34:47está usando-as. Os dados existem, os
  801. 34:50modelos existem, as análises existem, os
  802. 34:53acordos políticos existem e a trajetória
  803. 34:56continua numa direção que as próprias
  804. 34:58análises identificam como insustentável.
  805. 35:02O filósofo Derek Parit passou décadas
  806. 35:05argumentando que a ética do futuro, a
  807. 35:08forma como os seres humanos pensam sobre
  808. 35:10suas obrigações morais em relação às
  809. 35:13gerações que ainda vão existir é um dos
  810. 35:15problemas filosóficos mais importantes e
  811. 35:18mais negligenciados do nosso tempo.
  812. 35:20Parfit observou que os sistemas éticos
  813. 35:22que a humanidade desenvolveu, tanto os
  814. 35:25baseados em direitos quanto os
  815. 35:27consequencialistas, tem estruturas que
  816. 35:29tornam difícil a representação adequada
  817. 35:32dos interesses de pessoas que ainda não
  818. 35:34existem, mas cujos interesses são
  819. 35:37profundamente afetados pelas decisões
  820. 35:39que os vivos estão tomando agora. Se
  821. 35:41você não existe ainda, não pode ter
  822. 35:44direitos que possam ser violados. Se
  823. 35:46você não existe ainda, sua utilidade não
  824. 35:49entra nas funções de bem-estar que os
  825. 35:51utilitaristas maximizam. E os mecanismos
  826. 35:54de representação política que as
  827. 35:56democracias desenvolveram representam
  828. 35:59eleitores que existem e votam, não
  829. 36:02pessoas que vão existir décadas ou
  830. 36:04séculos no futuro. O resultado é uma
  831. 36:07estrutura sistemática de
  832. 36:08subrepresentação dos interesses das
  833. 36:10gerações futuras nos processos de tomada
  834. 36:13de decisão que estão determinando as
  835. 36:16condições que essas gerações vão herdar.
  836. 36:18E existe uma dimensão do problema que
  837. 36:20vai além da estrutura de incentivos e
  838. 36:23dos horizontes de tempo. É a dimensão da
  839. 36:26escala cognitiva. O número de pessoas
  840. 36:29cujos interesses são afetados pelas
  841. 36:31decisões sobre riscos existenciais é
  842. 36:34potencialmente de bilhões de pessoas em
  843. 36:36gerações futuras ao longo de séculos e
  844. 36:39milênios. A capacidade cognitiva humana
  845. 36:42de processar interesses em escala de
  846. 36:44bilhões é fundamentalmente limitada. A
  847. 36:48empatia, que é o mecanismo psicológico
  848. 36:50que motiva a consideração pelos
  849. 36:52interesses de outros, é um mecanismo
  850. 36:54calibrado para grupos de escala de
  851. 36:56dezenas a centenas que a evolução havia
  852. 36:59produzido como o tamanho típico de grupo
  853. 37:02humano. Estendê-la a bilhões de futuros
  854. 37:05não identificados requer um esforço
  855. 37:07abstrato que não ativa os mesmos
  856. 37:09circuitos emocionais que a empatia por
  857. 37:12pessoas concretas e identificadas ativa.
  858. 37:16Chegamos ao fim. E este fim é o mais
  859. 37:19pesado de todos os fins desta série,
  860. 37:21porque o que examinamos não é uma
  861. 37:24impossibilidade sobre os limites do
  862. 37:26conhecimento ou sobre a estrutura da
  863. 37:29realidade física. é uma impossibilidade
  864. 37:32que envolve a capacidade da espécie que
  865. 37:35faz as perguntas de alterar a trajetória
  866. 37:37que está produzindo as condições que
  867. 37:40ameaçam a sua continuidade. É uma
  868. 37:42impossibilidade que é simultaneamente
  869. 37:45sobre o que sabemos e sobre o que
  870. 37:47fazemos com o que sabemos. E a distância
  871. 37:50entre essas duas coisas é onde o
  872. 37:53problema mais profundo reside. O
  873. 37:55veredito primeiro. Com toda a
  874. 37:57honestidade que os dados e os argumentos
  875. 38:00que examinamos merecem. A sexta extinção
  876. 38:03em massa está em curso a uma velocidade
  877. 38:06que é entre 100 e 1000 vezes mais rápida
  878. 38:09do que qualquer extinção em massa
  879. 38:11anterior, causada por uma única espécie
  880. 38:15em escala de tempo de séculos em vez de
  881. 38:17milênios. As trajetórias de risco
  882. 38:20climático, ecológico, biológico e
  883. 38:23tecnológico que a humanidade está
  884. 38:25desenvolvendo simultaneamente interagem
  885. 38:28de formas que tornam o risco combinado
  886. 38:31significativamente maior do que a soma
  887. 38:34dos riscos individuais. Pontos de
  888. 38:36inflexão no sistema climático e
  889. 38:39ecológico podem ser cruzados de formas
  890. 38:41que tornam certas trajetórias
  891. 38:43irreversíveis nos horizontes de tempo
  892. 38:46relevantes para a civilização, mesmo que
  893. 38:49o comportamento humano mude
  894. 38:51dramaticamente depois do cruzamento. Os
  895. 38:54mecanismos de processamento de risco do
  896. 38:56cérebro humano são sistematicamente
  897. 38:59inadequados para as características
  898. 39:02específicas dos riscos existenciais que
  899. 39:05enfrentamos, sendo calibrados para
  900. 39:07ameaças imediatas, locais, concretas e
  901. 39:10de escala individual, em vez de difusas,
  902. 39:13temporalmente estendidas, abstratas e
  903. 39:16globais. E os mecanismos de governança
  904. 39:19global existentes têm estrutura de
  905. 39:21horizontes de tempo, de incentivos e de
  906. 39:24capacidade de implementação, que os
  907. 39:26torna sistematicamente inadequados para
  908. 39:29produzir respostas à altura da magnitude
  909. 39:32e da urgência dos problemas. O veredito
  910. 39:35não é que a extinção da humanidade é
  911. 39:37inevitável, é que a trajetória atual
  912. 39:40está produzindo condições que tornam
  913. 39:42resultados catastróficos,
  914. 39:44progressivamente mais prováveis e
  915. 39:46progressivamente mais difíceis de evitar
  916. 39:49à medida que o tempo passa e os limiares
  917. 39:52são aproximados ou cruzados. E a
  918. 39:55diferença entre inevitável e
  919. 39:57progressivamente mais difícil é
  920. 40:00precisamente o espaço onde a agência
  921. 40:02humana ainda existe, mas onde essa
  922. 40:05agência está sendo exercida de forma
  923. 40:07sistematicamente insuficiente, dado o
  924. 40:10que está em jogo. E agora a inversão que
  925. 40:13este vídeo construiu para tornar
  926. 40:15possível, porque o veredito sobre a
  927. 40:18impossibilidade do escape da extinção
  928. 40:20não é o fim da análise, é o começo da
  929. 40:23questão mais urgente. A impossibilidade
  930. 40:25que examinamos é contingente da mesma
  931. 40:28forma que a impossibilidade do controle
  932. 40:30de IA é contingente, não é física, não
  933. 40:34emerge de leis da natureza que não podem
  934. 40:36ser alteradas, emerge de estruturas de
  935. 40:39incentivos, de horizontes de tempo, de
  936. 40:42mecanismos de governança e de
  937. 40:44características do processamento de
  938. 40:46risco humano, que são produtos de
  939. 40:48escolhas e de circunstâncias que podem,
  940. 40:50em princípio, ser diferentes. E aqui o
  941. 40:53registro histórico oferece algo que o
  942. 40:56pessimismo fatalista frequentemente
  943. 40:58ignora. Houve momentos na história
  944. 41:00humana em que trajetórias que pareciam
  945. 41:03impossíveis de alterar foram alteradas.
  946. 41:06A camada de ozônio estava sendo
  947. 41:08destruída pelo clorofluor carbonos em
  948. 41:11velocidade que os modelos científicos
  949. 41:13indicavam ser catastrófica. O protocolo
  950. 41:16de Montreal de 1987
  951. 41:19coordenou a eliminação global dos CFCs
  952. 41:22em escala e velocidade que a maioria dos
  953. 41:25analistas antes da negociação
  954. 41:27considerava politicamente impossível. A
  955. 41:29camada de ozônio está se recuperando.
  956. 41:32Foi o mais bem-sucedido acordo ambiental
  957. 41:35internacional da história e demonstrou
  958. 41:37que coordenação global para endereçar um
  959. 41:40risco ambiental complexo é possível
  960. 41:42quando certas condições estão presentes.
  961. 41:45As condições que tornaram o protocolo de
  962. 41:47Montreal possível incluem
  963. 41:49características que os problemas atuais
  964. 41:52têm em menor grau, mas que não estão
  965. 41:54completamente ausentes. O problema era
  966. 41:57tecnicamente claro o suficiente para que
  967. 42:00o mecanismo e a solução fossem
  968. 42:02relativamente não controversos. Os
  969. 42:05beneficiários da solução eram
  970. 42:07suficientemente visíveis para criar
  971. 42:10pressão política. As indústrias que
  972. 42:12precisavam mudar tinham alternativas
  973. 42:14viáveis disponíveis dentro de horizontes
  974. 42:17de tempo razoáveis. E o número de
  975. 42:20atores, cujo comprometimento era
  976. 42:22necessário para implementação efetiva,
  977. 42:24era gerenciável. Os problemas
  978. 42:27existenciais atuais são mais complexos
  979. 42:29em todas essas dimensões, mais difusos
  980. 42:33causalmente, mais controversos
  981. 42:35politicamente, mais custos de endereçar
  982. 42:39e requerendo o comprometimento de um
  983. 42:40número maior de atores com interesses
  984. 42:43mais divergentes. Mas a estrutura do
  985. 42:46problema não é diferente em tipo, é
  986. 42:48diferente em grau. e diferenças de grau
  987. 42:51podem, em princípio, ser endereçadas por
  988. 42:54diferenças de grau nas respostas. O que
  989. 42:57seria necessário para que a resposta
  990. 42:59fosse à altura do problema não é
  991. 43:01misterioso. Está documentado nas
  992. 43:03análises que os próprios institutos de
  993. 43:05risco existencial produziram. Requer
  994. 43:08mecanismos de governança global com
  995. 43:10capacidade de implementação que os
  996. 43:12mecanismos existentes não têm. requer
  997. 43:15reformas de estruturas de incentivos que
  998. 43:18tornem as alternativas sustentáveis,
  999. 43:20economicamente competitivas, com as
  1000. 43:23opções não sustentáveis, sem depender
  1001. 43:26exclusivamente da mudança voluntária de
  1002. 43:28comportamento. quer tecnologias de
  1003. 43:30mitigação e adaptação que estão sendo
  1004. 43:33desenvolvidas, mas que precisam de
  1005. 43:35escala e velocidade de deployment que os
  1006. 43:38mercados atuais não estão produzindo
  1007. 43:41espontaneamente e requer uma
  1008. 43:43transformação na forma como as gerações
  1009. 43:45presentes pensam sobre as suas
  1010. 43:47obrigações em relação às gerações
  1011. 43:50futuras, que requer, por sua vez, uma
  1012. 43:53mudança cultural que nenhuma política
  1013. 43:55isolada pode produzir, mas que políticas
  1014. 43:58combinadas com narrativas culturais
  1015. 44:00diferentes podem ao longo do tempo
  1016. 44:03facilitar. Nada disso é fácil. Muito
  1017. 44:06disso está sendo feito em algum grau.
  1018. 44:09Nada disso está sendo feito na escala e
  1019. 44:12na velocidade que o problema requer. E a
  1020. 44:14distância entre o que está sendo feito e
  1021. 44:17o que o problema requer é o indicador
  1022. 44:20mais honesto disponível sobre onde a
  1023. 44:22humanidade está no relógio que o título
  1024. 44:25deste vídeo menciona. Sou o professor
  1025. 44:28Mito Kaku. E minha conclusão não é que
  1026. 44:31estamos condenados, nem que estamos
  1027. 44:33salvos, é que estamos num momento que
  1028. 44:36tem a estrutura dos momentos que
  1029. 44:38determinam se civilizações continuam ou
  1030. 44:41cessam. Momentos em que as escolhas que
  1031. 44:43são feitas estabelecem trajetórias que
  1032. 44:46se tornam progressivamente mais difíceis
  1033. 44:49de alterar à medida que o tempo passa e
  1034. 44:52os limiares são aproximados. A
  1035. 44:54humanidade tem algo que nenhuma espécie
  1036. 44:57que enfrentou as cinco extinções em
  1037. 44:59massa anteriores tinha, tem a capacidade
  1038. 45:02de ver o relógio, de medir os ponteiros,
  1039. 45:05de entender os mecanismos que fazem o
  1040. 45:08relógio avançar e de teoricamente
  1041. 45:11alterar esses mecanismos antes que o
  1042. 45:13tempo acabe. Se essa capacidade é
  1043. 45:16suficiente para fazer o relógio parar, é
  1044. 45:19a pergunta que nenhum dado disponível
  1045. 45:21hoje responde com certeza, porque a
  1046. 45:24resposta depende de escolhas que ainda
  1047. 45:26não foram completamente feitas, por
  1048. 45:29pessoas que ainda existem para fazê-las,
  1049. 45:32em instituições que ainda têm capacidade
  1050. 45:34de mudar, em mercados que ainda
  1051. 45:36respondem a incentivos que podem ser
  1052. 45:38reformados, em culturas que ainda estão
  1053. 45:41sendo formadas por narrativas que ainda
  1054. 45:43estão sendo escritas. O relógio está
  1055. 45:46rodando. O quanto ele ainda tem é
  1056. 45:48incerto. O que acontece quando chega a
  1057. 45:51zero é algo que nenhuma extinção
  1058. 45:53anterior deixou ninguém para contar. E
  1059. 45:56entre agora e esse momento, existe um
  1060. 45:58espaço de tempo dentro do qual a única
  1061. 46:01espécie na história do planeta que pode
  1062. 46:04ver o relógio ainda pode decidir o que
  1063. 46:06fazer com o fato de que consegue vê-lo.
  1064. 46:09Oh.

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