Por que a Democracia está em Crise no Mundo? Nova Ordem Internacional | POLIS — Transcript
Full transcript
- 0:04[música]
- 0:27A ordem construída pós Segunda Guerra
- 0:29Mundial. essa ordem internacional, ela
- 0:31entrou numa crise e que talvez ela já
- 0:34tenha acabado.
- 0:35>> Então o mundo não é um caos completo
- 0:37normalmente. E em tempos diferentes a
- 0:40gente pode falar em ordens diferentes.
- 0:41Então essa não é a única ordem que
- 0:42existiu ao longo do tempo. A gente olha
- 0:44pouco pras outras.
- 0:44>> Fizemos uma conexão com a expansão da
- 0:47extrema direita, naturalizando a
- 0:49presença da extrema direita na política
- 0:51democrática.
- 0:52>> Na América Latina, esse é um fenômeno
- 0:53mais recente, pelo menos em termos
- 0:54eleitorais. Olá, estamos começando mais
- 0:57um programa Polis e hoje nossa convidada
- 1:00especial é a professora Marinana Andrade
- 1:03e Barros. Ela é professora do
- 1:05departamento de relações internacionais
- 1:07da PUC Minas, doutora em direito
- 1:09internacional público pela Université
- 1:11Paran, Panteon, Sorbone e Relações
- 1:14Internacionais. Doutora também em
- 1:16relações internacionais pela PUC Minas.
- 1:18Professora Marinana, satisfação
- 1:20recebê-la aqui. Muito obrigado por ter
- 1:22aceito o nosso convite.
- 1:23>> Prazer, professor. Muito feliz em estar
- 1:25aqui e poder ter essa conversa.
- 1:26>> Que coisa boa. Pois é, vamos falar
- 1:28então. Vamos falar o que que a gente tá
- 1:30vivendo hoje, né? Um mundo conturbado,
- 1:33cheio de desafios, né? Questões
- 1:35políticas, guerras, crise climática, é o
- 1:39ninho assim. Então, um monte de coisa,
- 1:41um monte de desafios. E o que a gente
- 1:43tem falado é que muita gente tem
- 1:45mencionado que a a ordem construída pós
- 1:48Segunda Guerra Mundial, essa ordem
- 1:50internacional, sistema ONU, etc., que
- 1:53essa ordem ela entrou numa crise e que
- 1:56talvez ela já tenha acabado e que a
- 1:58gente vive hoje, o que que a gente vive
- 2:01hoje? Quer dizer, eu acho que em
- 2:02primeiro lugar, né, mostrar pro nosso
- 2:04público assim, essa ordem realmente
- 2:06acabou? Como é que era essa ordem? E já
- 2:08existe uma outra ordem, outras ordens,
- 2:11né? ou tá o caos total, o que que a
- 2:13gente tá, como é que tá aí, o que que a
- 2:14gente tá vivendo isso,
- 2:15>> né? A gente não tem uma resposta
- 2:17definitiva para isso, né? Eh, tem, é uma
- 2:20coisa muito interessante nas relações
- 2:21internacionais, a gente trabalha com
- 2:22essa ideia da existência de uma ordem
- 2:24internacional. Então, o mundo não é um
- 2:26caos completo, normalmente, né? Ele
- 2:29existe um certo ordenamento, uma certa
- 2:32ordenação. E em tempos diferentes a
- 2:34gente pode falar em ordens diferentes.
- 2:36Então essa não é a única ordem que
- 2:37existiu ao longo do tempo. A gente olha
- 2:39pouco paraas outras porque elas não são
- 2:41centradas no ocidente, né? elas são
- 2:43centradas em outros lugares e a gente
- 2:45tem um olhar muito muito ainda centrado
- 2:47na experiência europeia, na experiência
- 2:49estadunidense, eh, mas essa ordem que a
- 2:52gente vive, ela é efetivamente que vai
- 2:54sendo construída a partir, tem um um
- 2:56dado que é que é curioso, a partir do
- 2:59século XIX ali, Doutrina Mour, 1823, os
- 3:02Estados Unidos começam a mostrar algum
- 3:04tipo de poder diante da Grã-Bretanha. E
- 3:07existe uma passagem de poder dos da
- 3:10Grã-Bretanha pros Estados Unidos, que é
- 3:12uma passagem de poder que se dá sem uma
- 3:14luta entre os dois. É a única vez que a
- 3:16gente tem isso na história, uma mudança
- 3:17de centro de poder sem uma luta, sem
- 3:20violência entre os dois polos. Então, os
- 3:23Estados Unidos conseguem chegar no
- 3:24lugar, né, de de exercício de grande
- 3:27poder, tanto em termos materiais quanto
- 3:29em termos de ideias, né, em termos
- 3:31ideacionais, a partir da Segunda Guerra
- 3:33Mundial. Mas depois da Segunda Guerra
- 3:34Mundial, a gente lembra o mundo é
- 3:36bipolar. Então a gente vai ter União
- 3:37Soviética e Estados Unidos. E aí com o
- 3:39fim da União Soviética, a partir ali eh
- 3:43do fim da Guerra Fria, né, final da
- 3:44década de 80, início da década de 90, a
- 3:47gente tem uma uma força dessa dessa
- 3:50ordem que vinha sendo colocada pelos
- 3:52Estados Unidos. Essa ordem, ela tem
- 3:54muitos nomes. Cada cada autor, cada
- 3:57pensador eh sugere um nome diferente. Dá
- 3:59nome para as coisas é muito difícil, né?
- 4:01>> É difícil. É. [risadas]
- 4:02Então tem gente que chama de pax
- 4:04americana. Eu discordo,
- 4:06>> é
- 4:06>> profundamente porque não é paz
- 4:08>> nenhuma. Paz para quem? E a América,
- 4:11afinal de contas, é um continente. Tem
- 4:13gente que vai chamar de hegemonia eh
- 4:16americana. Alguns vão chamar de ordem
- 4:18internacional liberal, que eu acho que
- 4:19não capta tudo, mas capta uma parte.
- 4:21>> Uhum.
- 4:22>> Essa ordem, ela é uma ordem que tem
- 4:24fundamentalmente três três pilares, né?
- 4:27Eh, ela ela tá fundada numa lógica
- 4:30liberal e ela tem um pilar político,
- 4:33então liberalismo político baseado na
- 4:35democracia em termos liberais, a ideia
- 4:37dos direitos individuais,
- 4:39uma um outro pilar que é um pilar
- 4:41econômico, muito ligado ao capitalismo,
- 4:43liberalismo econômico e um terceiro
- 4:45pilar que seria o intervernamentalismo
- 4:47ou multilateralismo. Então essa
- 4:49construção ONU, Banco Mundial, Fundo
- 4:52Monetário Internacional tá relacionado a
- 4:53isso
- 4:53>> e foi pós Segunda Guerra Mundial foi
- 4:55construir tudo isso ali, né? E e aí a
- 4:57partir da década de 90 a gente tem uma
- 4:59disseminação maior de a partir do
- 5:02momento que você não tem um outro pó.
- 5:03>> É cabelo soviética exato
- 5:05>> que ainda colocava assim um pouquinho de
- 5:08de freio à ganância e ao desespero
- 5:10>> exos os freios institucionais.
- 5:12>> Institucionais.
- 5:13>> Porque é claro que a ordem não é só
- 5:14isso. A ordem é violenta, é xenofóbica,
- 5:16ela é hierárquica em termos
- 5:18epistemológicos, ela é hierárquica em
- 5:20termos sociais. Então chamá-las de
- 5:22liberal também tem esse problema, né?
- 5:23Ela é um monte de outras coisas além
- 5:25disso.
- 5:26>> Eh, e a gente tem eh não existe um
- 5:29momento exato em que se concorda que
- 5:31essa ordem entra em crise, mas muitos
- 5:33autores têm falado 2008, aquela crise
- 5:35econômica, na verdade ali você tem um
- 5:37conjunto de coisas. Eh, a gente vai ter
- 5:41uma ascensão de outras potências que não
- 5:43os Estados Unidos, então China, Rússia
- 5:45entram nisso.
- 5:47>> Eh, a gente vai ter um suglobal eh que
- 5:50reclama uma posição, que começa a
- 5:52apontar a seletividade dessa ordem, a
- 5:54hierarquia dessa ordem e a gente vai ter
- 5:56a sensão da extrema direita. E aí um
- 5:58negócio interessante porque o dentro dos
- 6:00Estados Unidos, a partir de 2008, a
- 6:02gente vai ter a sensão do Tipari, que é
- 6:04uma parte mais extrema dentro do partido
- 6:06republicano.
- 6:07>> Uhum. E depois do TIPAR, a gente tem o
- 6:10Donald Trump acendendo. E aí a gente tem
- 6:13um negócio que é muito curioso, que é a
- 6:14primeira vez que um estado que construiu
- 6:16uma ordem começa a ir contra ela.
- 6:18>> Ela até destrói e tá destruindo seus
- 6:21mecanismos soft power também. Trump
- 6:24fechou a rádio América, né, que era
- 6:27global e outros instrumentos soft power
- 6:29norte-americano também. Ele foi
- 6:30desmontando tudo, né?
- 6:31>> Exato. A ONU, né? Olha a quantidade de
- 6:33conflito que nós estamos tendo. A gente
- 6:34mal escuta falar da ONU. eh o o Fundo
- 6:37Monetário Internacional, OMC,
- 6:38Organização Mundial do Comércio. Então,
- 6:41eh tem um discurso do Marco Rubio agora
- 6:43no começo do ano da conferência de
- 6:45segurança de Munique, em que ele vai
- 6:47ponto por ponto dizendo que essa ordem
- 6:49não interessa mais aos Estados Unidos. E
- 6:51hoje a gente tem uma concordância, essa
- 6:53ordem vive uma crise, uma crise mesmo.
- 6:55Eu acho que a gente talvez tenha usado
- 6:56demais a palavra crise e aí fica com
- 6:59medo. É crise, né? Exato. Tudo é crise.
- 7:01Mas eu eu tenho brincado que quando a
- 7:03gente vai pegar o celular para dar uma
- 7:04olhada nas notícias, você sabe que você
- 7:06tá melhor agora do que você vai estar
- 7:08depois que vê as notícias. Isso é um
- 7:10sinal de alguma coisa. Você sabe que vai
- 7:12ter mais violência, que vai, né, que é
- 7:15esse existe alguma coisa, tinha aquela
- 7:17música fora da nova ordem mundial, tem
- 7:19alguma coisa fora da ordem. Então,
- 7:21existe uma concordância rara entre quem
- 7:24estuda Relações Internacionais de que
- 7:26temos sim uma crise importante
- 7:28acontecendo agora, como a Ordem Liberal
- 7:30jamais enfrentou. Para onde vamos, a
- 7:32gente não tem tanta certeza. Alguns vão
- 7:34dizer: "A ordem, na verdade, já acabou".
- 7:37Outros dizem: "Não, essa é uma ordem
- 7:38muito resiliente, ela já passou por
- 7:39crises e ela sempre se reorganiza." Eh,
- 7:42e alguns vão dizer: "A gente já está
- 7:44entrando numa numa nova numa nova
- 7:47ordem". O que vem então é um é um ponto
- 7:50de interrogação. Pode ser que a gente
- 7:52tenha uma ordem ainda liberal, mas com
- 7:56algumas modificações. Pode ser que a
- 7:58gente tenha várias ordens, né? Pode ser
- 8:01que Rússia e China juntas tenham uma
- 8:03lógica de uma de uma ordenação
- 8:05internacional ou suglobal outra ou
- 8:07suglobal junto com a Índia eh com com
- 8:10China e Rússia. enfim, não sabemos para
- 8:12onde estamos indo, mas que efetivamente
- 8:14estamos num momento de alguma transição.
- 8:16A mim parece que isso é indiscutível.
- 8:19>> É, há um esgotamento, né, assim, desse
- 8:21desse sistema mundo pós- Segunda Guerra
- 8:23Mundial, mas assim, há uma crise eh eh
- 8:26grave dentro do império, né? Império
- 8:29norte-americano, [limpando a garganta]
- 8:30só falando até da Pax americana, né? Tem
- 8:33um livro do Domíico Lossurdo na
- 8:34linguagem do império que é muito
- 8:36interessante. Ele fala que os Estados
- 8:38Unidos começaram uma guerra a cada 3
- 8:40anos em média desde a independência.
- 8:43Eles invadiram mais de 40 países, eles
- 8:45começaram mais de 40 guerras. É uma
- 8:47loucura uma coisa.
- 8:48>> Loucura. E a guerra, guerra fria, eu
- 8:50sempre falo, mas fria para quem, né?
- 8:52Fria pra América Latina, definitivamente
- 8:55não. Definitivamente. Muitas mortes,
- 8:56conflitos em vários, né, em vários
- 8:59territórios. Então assim, é uma
- 9:01realmente eu acho que o que nos espera
- 9:02aí é algo eh talvez surpreendente, né?
- 9:06Porque a gente, eu fico pensando e eu
- 9:08queria fazer uma conexão também que é o
- 9:10que tá acontecendo aqui com a gente e
- 9:12esse ano a gente tem eleição no no
- 9:13Brasil, né?
- 9:14>> Quer dizer, como é que fica
- 9:16>> a a gente tem visto uma expansão dessa
- 9:18extrema direita?
- 9:20>> Então aqui a primeira questão que eu
- 9:21queria que você abordasse, o que que é
- 9:23essa extrema direita? Porque também
- 9:24quando tudo todo mundo tá falando: "Ah,
- 9:26extrema direita, extrema direita". a
- 9:28gente vê no jornal, ah, extremireita, o
- 9:30deputado da extrema direita, ou seja,
- 9:32houve uma naturalização e uma
- 9:34generalização do que que é extrema
- 9:35direita, o que que é essa extrema
- 9:37direita hoje? e essa expansão dessa
- 9:40extrema direita, né, patrocinada
- 9:41principalmente paraos Estados Unidos,
- 9:43né, que vão chegando a vitórias eh
- 9:46eleitorais recentemente no Peru, eh,
- 9:50agora, né, no Peru, o o na no Equador,
- 9:54no Chile, né, na Bolívia. É assustador
- 9:58isso, né?
- 9:59>> Exato. Na América Latina, nos três
- 10:01últimos anos,
- 10:01>> Colômbia, Colômbia,
- 10:02>> nos três últimos anos, a gente tem 12
- 10:04eleições em que a extrema direita ela
- 10:07chega.
- 10:08>> Então isso é isso é é um é um fenômeno
- 10:10global. Eu não acho que na América
- 10:12Latina a gente tem exatamente as mesmas
- 10:13características, a gente tem em outros
- 10:15lugares. Então, se a gente pega o caso
- 10:17europeu, na Europa, a extrema direita
- 10:19parece que ela sempre esteve por ali,
- 10:21né? ela vai se aproximando em termos
- 10:23inclusive eleitorais em vários países.
- 10:25Na França de tempos em tempos a gente
- 10:27tem essa conversa na Holanda, em
- 10:29Portugal, na Espanha. Então ela ela está
- 10:32por ali. É diferente da América Latina,
- 10:35eh, em que existe uma aproximação muito
- 10:37rápida, eh, se tornaram incumbentes ou
- 10:40se tornaram, eh, importantes líderes
- 10:43políticos eh na América Latina,
- 10:46personagens de extrema direita que até
- 10:48outro dia ninguém colocava como um
- 10:50personagem político importante.
- 10:51>> Foi o que aconteceu no Brasil, por
- 10:53exemplo. Professor, vamos fazer um
- 10:55brevíssimo intervalo e a gente retoma
- 10:57essa questão que é importantíssima para
- 10:59nós e pra gente ter uma perspectiva do
- 11:01que que a gente nos espera aí nas
- 11:03eleições de outubro, né?
- 11:04>> Exato,
- 11:05>> gente. Então, vamos fazer um breve
- 11:07intervalo e daqui a pouquinho a gente
- 11:09volta.
- 11:11[música]
- 11:18Olá, estamos de volta com o programa
- 11:20Polis. Hoje entrevistando a professora
- 11:22Marinana Andrade Barros, que é
- 11:24professora do Departamento de Relações
- 11:26Internacionais da PUC Minas, doutora em
- 11:29direito internacional público e em
- 11:31relações internacionais. Professora
- 11:32Marinana, mais uma vez muito obrigado
- 11:34por ter aceito o nosso convite. Nós
- 11:36estamos falando então no primeiro tempo
- 11:37sobre a ordem, né? essa ordem pós-
- 11:40Segunda Guerra Mundial que parece chegou
- 11:42ao seu final ou tá chegando, né? O que
- 11:44que pode vir, né, depois dela e fizemos
- 11:47uma conexão com a expansão da extrema
- 11:49direita, né? Hoje a gente tá vendo, né,
- 11:52muito jornais de televisão, né? A gente
- 11:56lê como se naturalizando a presença da
- 11:58extrema direita na política democrática,
- 12:01o que de forma nenhuma poderia ser
- 12:03naturalizado, porque extrem direito
- 12:05representa o que tem de pior da
- 12:06humanidade, né? é Hitler, é mussolini, é
- 12:08nazismo, fascismo, é violência, né?
- 12:11enfim, extermínio e isso é muito
- 12:13perigoso. E você tava comentando, né,
- 12:16pouco antes, né, terminando o primeiro
- 12:18bloco, que a gente tá eh nós tivemos a
- 12:21eleição de 12, né, governos na América
- 12:25Latina recentemente, agora os últimos
- 12:27foi o Peru e Colômbia, né, no Chile
- 12:30também, recentemente, Bolívia também,
- 12:32governos que são identificados pela
- 12:34própria imprensa em geral como sendo
- 12:36governos de extrema direita, né? O que
- 12:39que representa isso, né? O que que
- 12:40representa isso, né, pro Brasil? Nós
- 12:42vamos ter eleição eh aí agora em
- 12:45outubro, né? E tem um candidato que se
- 12:47identifica com a extrema direita, né,
- 12:49que tudo de ruim, né, que a humanidade
- 12:52carrega nessa coisa, tá aqui presente
- 12:54também. E como é que é isso assim? O que
- 12:56que é essa extrema direita hoje em dia?
- 12:58Pois é, a extrema direita ela ela tá
- 13:01presente, a gente a gente consegue
- 13:03identificá-la historicamente, você
- 13:06falou, né, ali na na Segunda Guerra
- 13:08Mundial e dentro da Europa a gente
- 13:10percebe que ela sempre esteve ali como
- 13:12uma alguma força política, né? Na
- 13:14América Latina isso é um fenômeno mais
- 13:16recente, pelo menos em termos
- 13:17eleitorais. Eh, tem algumas causas dessa
- 13:20dessa dessa extrema direita, né? ela tá
- 13:23muito ligada a uma perspectiva
- 13:25securitária. Então, a questão da
- 13:27segurança na América Latina, ela é muito
- 13:29forte, né? Eh, um dos exemplos mais
- 13:32importantes que a gente tem da extrema
- 13:33direita hoje na América Latina é o
- 13:34Buquelli, que vem, eu acho que já passou
- 13:37do que a gente pode chamar de manuda, é
- 13:39real, é efetivamente um governo
- 13:40autoritário. Nós estamos falando de 1%
- 13:42da população presa, muita gente sem
- 13:44entender porque tá presa e e inspirando,
- 13:47né, outros governos ao redor do mundo,
- 13:49inclusive governos subnacionais. Aqui no
- 13:52Brasil a gente teve exemplo de
- 13:53governadores e prefeitos que foram ao
- 13:56Salvador tentando entender como é que eu
- 13:59faço a mesma coisa. Nós estamos falando
- 14:02de pessoas que estão sendo presas sem
- 14:03saber porque estão sendo presas, que
- 14:05estão sendo presas porque tem uma
- 14:06tatuagem,
- 14:06>> sem o devido processo legal, sem estado
- 14:08de direitos, respeitando a constituição,
- 14:10né? Exatamente.
- 14:11>> E os caras estão indo lá aprender,
- 14:13aprender a desrespeitar a constituição,
- 14:15né? Prefeitos, cidades importantes, né?
- 14:17Grandes
- 14:18>> estados, né?
- 14:19>> Exatamente. Aqui na aqui na América
- 14:22Latina a gente tem essa aproximação
- 14:24forte da extrema direita com o
- 14:27militarismo. Então, tem uma pegada. O
- 14:30que pra gente, né, dentro da nossa
- 14:32história das ditaduras militares torna
- 14:34tudo ainda mais grave. A violência do
- 14:36Estado, ela é uma violência execrável,
- 14:39né? Ela é uma violência eh que precisa
- 14:41ser combatida a todo custo. E essas e e
- 14:44e há um palanque eleitoral a partir
- 14:46dessa ideia de um estado que seja um
- 14:49estado eh que pune, que muitas vezes
- 14:51pune a pobreza, eh que pune sem ter
- 14:54certeza, né, em nome de uma pretensa de
- 14:57uma pretensa segurança. Tem uma outra
- 14:59questão que é eh de um conservadorismo
- 15:03em termos eh em termos de costumes,
- 15:05muitas vezes do enquadramento de de
- 15:08questões ligadas a a gênero, ligadas a
- 15:12questões raciais, à educação, que passam
- 15:14a ser enquadradas como problemas, né?
- 15:17Então isso tem acontecido muito também.
- 15:19Essa extrema direita, então ela é um
- 15:21fenômeno global, ela não é um fenômeno
- 15:23só nosso na América Latina e ela vem com
- 15:26muita força definitivamente. Eh, a gente
- 15:28tem visto o o a a força eleitoral, isso
- 15:32é mais surpreendente ainda, né? A força
- 15:35eleitoral desses desses candidatos em
- 15:38vários países diferentes nos últimos
- 15:40tempos.
- 15:40>> É, e isso é assustador, né? Porque a
- 15:42força eleitória, por exemplo, pensando
- 15:44em extrema de direito, o que ela tem
- 15:45feito e o que ela fala, né? Eh, primeiro
- 15:49é essa coisa, reforçar o Estado na área
- 15:52de segurança,
- 15:54mais polícia, mais forças armadas, mais
- 15:57repressão, mais cadeias, né? Mas ao
- 16:00mesmo tempo privatizar, né?
- 16:03Desestatizar, entregar água pro setor
- 16:05privado, que vai tornar tudo mais o
- 16:08serviço mais caro. Isso também não tem
- 16:10mais discussão, né? Já tem tanto tempo
- 16:12que a gente já vê isso, né? eh gastar
- 16:14menos com saúde pública, gastar menos
- 16:16com educação pública. Então é assim, é
- 16:18muito interessante porque nesse jogo
- 16:20eleitoral, né, eh parece que a extrema
- 16:23direireita ela consegue coptar, né,
- 16:26ganhar muitos eleitores, mas ela ganha
- 16:29muito no jogo emocional, né, no jogo da
- 16:32raiva, do discurso raivoso, porque não
- 16:35há não bate com a lógica. Ou seja,
- 16:37pessoas, principalmente pessoas pobres
- 16:39que precisam de saúde pública, precisam
- 16:41de educação pública, precisam do Estado
- 16:43pro seu bem-estar social, né? Votando
- 16:46numa extrema direita que vai acabar com
- 16:48o bem-estar social, com a saúde pública,
- 16:50educação pública e vai investir em mais
- 16:52repressão. E a repressão recai
- 16:54justamente na sobre a população mais
- 16:56pobre, né? Então assim, parece que há
- 16:58uma confusão cognitiva, mental absurda,
- 17:02né, no processo eleitoral.
- 17:03>> É como se a gente não tivesse mais
- 17:05falando a mesma língua. como se
- 17:07houvessem eh eh bolhas mesmo. E e e as
- 17:11redes sociais reproduzem isso ou são
- 17:13parte, portanto, desse processo. É como
- 17:16se a gente não enxergasse mais o mundo
- 17:18por olhos similares, por olhos humanos
- 17:20similares, né? Eh, você conversa com seu
- 17:23vizinho e seu vizinho enxerga um outro
- 17:25Brasil e tem medo de que o Brasil se e e
- 17:29quando a gente olha parece que não não é
- 17:31exatamente o que a gente tá vendo.
- 17:33Então, quando enxerga-se a realidade de
- 17:36formas tão diferentes, as respostas
- 17:38também tendem a ser muito diferentes. E
- 17:41eu acho que a extrema direita, ela se
- 17:42aproveita disso, né? colocando medo,
- 17:45colocando ódio e essa clivagem social
- 17:48que eu acho da das coisas mais eh eu
- 17:52tenho muito medo dessas hierarquias
- 17:53sociais que vão sendo construídas. A
- 17:55gente vê essa atuação do ICE, por
- 17:58exemplo, nos Estados Unidos, o
- 17:59tratamento dado ao imigrante. Você só
- 18:02pode dar esse tratamento a alguém que
- 18:03você não considera alguém como você.
- 18:05>> É,
- 18:05>> né? Você não, você não entrega esse
- 18:06tratamento a alguém que você, né, que
- 18:09você gosta, que você acha que merece
- 18:11respeito. Isso é hierarquia social. E
- 18:13você considerar que algumas vidas valem
- 18:15mais do que as outras, né?
- 18:16>> É, não e num país, primeiro Estados
- 18:18Unidos, um país, né, que foi invadido
- 18:20pela Inglaterra, né, quer dizer, os
- 18:21povos originários foram exterminados,
- 18:24perseguidos, etc. É uma terra de
- 18:25imigrantes,
- 18:26>> né? e que hoje eu tava olhando esses
- 18:28dados, mas eu sempre digo pros
- 18:30telespectadores confere também, porque
- 18:32tem muita coisa, a gente tem que ver
- 18:33onde buscar as informações. Eu busco
- 18:35muito no site da ONU, né, que é um site
- 18:37mais confiável, mas é um país que hoje
- 18:40tem cerca de 90 milhões, né, de
- 18:42imigrantes de primeira ou segunda
- 18:43geração. Quer dizer, é muita gente em
- 18:45300 milhões de habitantes, é muita
- 18:47gente, né? um país feito por imigrantes
- 18:50e que tem muitos imigrantes. Então
- 18:52assim, é ali é uma coisa, é uma
- 18:54sociedade que pode entrar num conflito
- 18:57a a que já existe, mas que pode ganhar
- 18:59proporções que podem sair de controle,
- 19:01né?
- 19:02>> É assim como como é curioso pensar que
- 19:05em Los Angeles, em São Francisco, as
- 19:07pessoas falam espanhol.
- 19:08>> É, é. [risadas]
- 19:10>> Pensemos sobre de onde, que lugares são
- 19:12esses, qual que é a construção, Texas,
- 19:15>> qual que é a construção desses desses
- 19:17lugares? Então, eh, eu, eu, eu existe
- 19:21uma uma um uma repartição hoje nos
- 19:24Estados Unidos muito muito importante.
- 19:26É, como eu disse antes, a gente tem pela
- 19:28primeira vez o estado que construiu uma
- 19:30ordem dizendo: "Essa ordem não me serve
- 19:32mais". Porque ela trazia uma pretensa
- 19:34igualdade, nunca foi igual, mas ela
- 19:36trazia uma ideia de igualdade, direitos
- 19:39humanos que a gente não concorda mais,
- 19:41né? O Rúbio é claríssimo sobre isso
- 19:44quando ele eh quando ele fala nesse
- 19:46nesse discurso do de Munique no começo
- 19:49do ano, eh que a a a ele se considera um
- 19:53filho da Europa. Ele fala isso, nós
- 19:55somos filhos da Europa.
- 19:57>> E ele filho de cubano, né?
- 19:58>> Filho de cubano. [risadas] Calma lá, né?
- 20:01E é isso, assim, a América Latina vista
- 20:04como esse lugar defeituoso, né? Sempre
- 20:06se medindo por preceitos que não são
- 20:09seus. Não, nós somos um lugar de
- 20:11resistência, nós somos um lugar eh de
- 20:14coisas extremamente importantes. Por
- 20:15exemplo, pensando em termos de ordem
- 20:16internacional, que foi o começo da nossa
- 20:18conversa, eh a ideia da não intervenção,
- 20:22a práticas eh da diplomacia, o direito
- 20:24internacional, muito disso que a gente
- 20:27pensa que veio do Ocidente, veio da
- 20:29gente, mas a gente não costuma ter nem
- 20:31os louros disso. Então, eh, a a a
- 20:34compreensão, né, do nosso lugar, eh,
- 20:38fora dessa hierarquia social, ela é
- 20:40essencial para que a gente busque também
- 20:42a nossa própria autonomia, eu acho.
- 20:44>> Ah, sim. Pois é, isso, mas a gente tem
- 20:46que passar, a gente tem que começar a a
- 20:49ver como é que nós podemos superar esse
- 20:51discurso de ódio, né, esse discurso
- 20:53raivoso que tomou conta do processo
- 20:55eleitoral. Não é mais uma discussão
- 20:57racional, né, uma discussão
- 20:58essencialmente emocional. E o nosso
- 21:01tempo tá acabando, professor. E aí eu
- 21:03queria assim, o que que a gente pode
- 21:06esperar, né, do futuro próximo? Quer
- 21:08dizer, tem essa expansão, né, da extrema
- 21:10direita na América Latina. Hoje tem
- 21:12Brasil e México, né, praticamente duas
- 21:14grandes, dois grandes estados nacionais,
- 21:16duas grandes economias que resistem
- 21:19ainda à expansão da extrema direita. Mas
- 21:22como é que você vê isso? Porque mesmo eu
- 21:24acredito assim, extremo direita,
- 21:25chegando ao poder, o que que vai
- 21:27acontecer, né? O que aconteceu? O que
- 21:28aconteceu na Argentina? aumenta a
- 21:30desigualdade, aumenta a pobreza, aumenta
- 21:32a violência, mas mesmo assim o cara
- 21:34continua tendo apoio, né? O que que a
- 21:36gente pode esperar disso?
- 21:38>> É porque mexe com alguma coisa que não
- 21:40tá no racional, né? Foi aquilo que a
- 21:42gente tava que a gente estava
- 21:44conversando. Eu acho que essa é uma
- 21:45força política com a qual a gente vai
- 21:47conviver por um bom tempo.
- 21:49>> Eu tenho essa impressão, infelizmente.
- 21:51Eh, mas quero crer que se a gente pensar
- 21:53especialmente em termos de cultura
- 21:55política, fortalecimento da cultura
- 21:58política, eu tô eu tenho visto assim
- 22:00entre as crianças já uma condição de
- 22:02percepção da fake news. É isso,
- 22:04>> né? Então, eu acho que na educação pode
- 22:07morar alguma resposta para isso, não
- 22:10sentido de que essa força política vá
- 22:12desaparecer, mas no sentido de que a
- 22:13resistência a ela vai ser uma
- 22:15resistência real.
- 22:16>> É. E assim, nós temos muitos alunos, né,
- 22:18novos, eu dou aula o primeiro período
- 22:20também na na PUC,
- 22:21>> eh. E e aí pega os meninos 18, 19 anos e
- 22:24tem os na FMG também e eles comentam
- 22:27assim: "Nossa, ah, meu pai e minha mãe
- 22:28são de extrema direito, mas eles são
- 22:30gente boa, ele tem um coração bom". E os
- 22:32meninos questionando isso, ele fala: "Eu
- 22:35tento explicar, conversar com meus pais,
- 22:37conversar com meus tios, mas eles não
- 22:39escutam, não adianta". Então assim, dá
- 22:41uma esperança, né, na nova geração
- 22:44falar: "Olha, esses meninos tão
- 22:45começando a perceber que tem alguma
- 22:47coisa errada,
- 22:48>> que entre a prática e o discurso a gente
- 22:51o que o que tem o que tem acontecido em
- 22:53termos de ação do estado quando você tem
- 22:56a extrema direita, é alguma coisa
- 22:58extremamente perigosa para todo mundo,
- 23:00porque ela não é punitivista só com
- 23:01alguns, né? É, é, ela é raivosa. Ela é
- 23:04raivosa. Ela traz um tipo de clivagem
- 23:06social que ela realmente ela ela mina o
- 23:09tecido mesmo, né? Essa construção
- 23:11solidária de em termos de justiça
- 23:13social, que eu acho que é a resposta.
- 23:16>> É, é, é, também [limpando a garganta]
- 23:17acho, né? E é isso. E só 30 segundos.
- 23:21>> Eh, eh, é maldade até falar em 30
- 23:24segundos [risadas] o que eu vou falar
- 23:25aqui agora. Mas assim, democracia sem
- 23:27justiça social funciona?
- 23:30>> Para mim, eu acho impossível. Eu acho
- 23:32que essa é parte da da resposta que
- 23:34muitas vezes a América Latina entregou.
- 23:36A gente entende a participação política
- 23:38como alguma coisa importante. A gente
- 23:40precisa de participação política, seja
- 23:42lá qual for, como é que a gente vai
- 23:43chamar isso, mas a justiça social ela
- 23:45precisa caminhar junto com participação
- 23:47política.
- 23:48>> Isso é fundamental, né? Porque a gente
- 23:50fez comp Estados Unidos, por exemplo,
- 23:51hoje tem mais de 1 milhão. Também é um
- 23:53dado que sempre merece conferir, né,
- 23:55gente, buscar, né? Eh, mais de 1 milhão
- 23:57de pessoas em situação de rua, morando
- 23:59em automóveis, morando em tendas e
- 24:00coisas. o país mais rico do mundo,
- 24:02>> mas que criou a ideia do loser.
- 24:04>> Qual é a cultura que cria o loser? A
- 24:06ideia de que existe um perdedor. Qual
- 24:08cultura aceita a existência de um
- 24:10perdedor?
- 24:11>> Um perdedor que então merece tudo de
- 24:12ruim. Você merece morar na rua porque
- 24:14você é um perdedor.
- 24:15>> Exato. Você merece não conseguir pagar o
- 24:16seu tratamento de saúde, mesmo sendo um
- 24:18pai de família que trabalhou a vida
- 24:19inteira.
- 24:20>> Loucura. Nossa, professora Marinana,
- 24:23muito obrigado mais uma vez. Eu acho que
- 24:25assim,
- 24:26>> importantíssimo, você fala de uma
- 24:27maneira muito clara, né? muito
- 24:29objetivas, muito importante pros nossos
- 24:31telespectadores essa conversa, né, essa
- 24:35eh, enfim, começar a pensar na nossa
- 24:37realidade, o que que tá acontecendo no
- 24:38mundo, mundo em mutação rápida, né, o
- 24:42tempo todo. Todo obrigado. Fiquei super
- 24:44feliz em participar, ter contribuído pra
- 24:46conversa. Obrigado. E vamos repetir essa
- 24:48conversa, não vamos? Vamos poder, porque
- 24:50tem muita coisa pra gente conversar mais
- 24:51sobre isso.
- 24:52>> Verdade. Obrigada.
- 24:53>> Muito obrigado. E aos nossos
- 24:54telespectadores, então, muito obrigado
- 24:56também. E até o nosso próximo programa.
- 24:59>> [música]
- 25:28>> M.
About this transcript
This page contains the full transcript of Por que a Democracia está em Crise no Mundo? Nova Ordem Internacional | POLIS by TV Horizonte, generated from the public captions YouTube serves with the video. The transcript has 4,454 words across 697 segments, with the original timestamps preserved so you can click any line to jump to that moment in the embedded player.
What you can do with it
Use the transcript to take notes, quote the speaker, build a study guide, generate a summary with ChatGPT or Claude via the YouTube Summary tool, or export it as a timed subtitle file with YouTube to SRT. You can also re-open it in the transcriber to translate the transcript into 100+ languages.
Free YouTube transcript tool
YouTube2Text is a free YouTube transcript generator — no signup, no daily limit. Paste any YouTube link and get the full transcript instantly, with timestamps, click-to-jump, translation to 100+ languages, AI prompts for ChatGPT, Claude, and Gemini, and exports to TXT, SRT, VTT, or Markdown.