Pensamento Mestiço e Educação | Danilo Kato | TEDxUSP Ribeirão Preto — Transcript
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- 0:00[Música]
- 0:12Cheguei aqui no campus da USP de
- 0:14Ribeirão Preto hoje com a minha fala
- 0:16preparada pro TEDEX USP Ribeirão Preto.
- 0:20Aí um senhor me abordou e me perguntou:
- 0:23"Você é índio ou japonês?"
- 0:26Pensei comigo, a palestra do TEDEx já
- 0:29começou. É sério, eu pensei em começar
- 0:32diferente. Agora queria que vocês
- 0:33pensassem no nome e sobrenome de vocês.
- 0:38O meu nome é Danilo Seit Cato. Seit foi
- 0:43um nome indicado pelo meu avô, que tem
- 0:46um significado no canji japonês como
- 0:49justiça, cura política.
- 0:53Talvez o grafia correta em japonês seria
- 0:55se, mas eu fui registrado com th meu avô
- 0:59não falava tão bem o português e eu acho
- 1:02que quem me registrou entendeu dessa
- 1:03forma. O que importa é que eu gostei do
- 1:06significado.
- 1:08A minha família de origem japonesa
- 1:10chegou no início do século XX no Brasil,
- 1:13aportou em Santos e seguiram para
- 1:16trabalhar nas lavouras de algodão, no
- 1:19distrito que hoje seria Bonfim Paulista.
- 1:22chegaram, puderam tirar uma foto com
- 1:25roupas, né, civilizadas numa unidade
- 1:29socialmente identificada facilmente como
- 1:33família.
- 1:35Já pelo lado da minha mãe, a minha avó
- 1:38materna tinha traços indígenas.
- 1:42O que eu descobri depois, conversando
- 1:45com as minhas mais velhas, é de que eu
- 1:48tinha um bisavô bugre.
- 1:51Isso mesmo, Bugre,
- 1:54nome que carrega as maiores violências
- 1:57simbólicas e físicas com mais de 300
- 2:00etnias que ainda vivem nesse país e mais
- 2:02de 274 línguas.
- 2:05Eu me perguntei por muito tempo por que
- 2:09a família Cato do meu sobrenome japonês
- 2:13é possível rastrear de onde vieram, para
- 2:16onde foram e onde estão hoje espalhados?
- 2:20Há registro sobre isso. Mas por que pelo
- 2:23lado materno eu não consigo saber nada
- 2:25além de que teve um bugre?
- 2:29Por que que eu não posso ter acesso a
- 2:31nenhum indício cultural
- 2:34de um povo que talvez de um tronco
- 2:37linguístico complexo e rico
- 2:40culturalmente?
- 2:41Mas eu só sei que teve um bugre na minha
- 2:43família.
- 2:47O que será que essas coisas nos dizem?
- 2:50A minha hipótese é que é um projeto de
- 2:52colonialidade que precisa ser
- 2:54conversado. Dados de uma pesquisa
- 2:57recente feita por cientistas da USP,
- 2:59publicado na Science esse ano, mostram
- 3:02que nós somos geneticamente a população
- 3:05mais missigenada do mundo e que 13% do
- 3:10nosso material genético é indígena.
- 3:14Dados desse grande projeto com uma
- 3:16amostra considerável mostraram que o DNA
- 3:18mitocondrial, aquele que é herdado só da
- 3:21mãe,
- 3:23é majoritariamente africano e indígena.
- 3:26Enquanto o material genético proveniente
- 3:28do cromossomo Y, aquele herdado dos
- 3:31pais,
- 3:32é de origem europeia.
- 3:35O que nós sabemos sociologicamente é que
- 3:38teve um projeto de invasão que nos
- 3:40livros chamavam descoberta e que muito
- 3:43provavelmente o encontro desses homens
- 3:45com as mulheres indígenas e aquelas que
- 3:47foram forçadamente
- 3:50deixadas de África escravizadas no
- 3:52Brasil foram violentadas e muito eh
- 3:56espoliadas por um projeto colonial de
- 3:58poder.
- 4:00Se a gente aprofundar um pouco, um
- 4:02estudo e e indicado pelo IPEIA mostra
- 4:06que os registros dos nossos sobrenomes
- 4:09no Brasil, olhando para esse dado, 87.5%
- 4:14dos nossos sobrenomes são de origem
- 4:16europeia,
- 4:17mais precisamente ibérica.
- 4:20Que coisa, não?
- 4:22E no IBGE já sabemos que as pessoas que
- 4:25se autodeclaram indígena não chegam a
- 4:271%. Ribeirão Preto dá como 0.11%. 11%
- 4:31das pessoas que se autodeclaram indíg e
- 4:33se autodeclaram indígena. O que esses
- 4:36dados nos apontam? Isso são
- 4:38colonialidades em nossos corpos.
- 4:41A coisa se aprofunda quando a gente
- 4:43pensa educação.
- 4:45Quem de vocês já não passou na por parte
- 4:47aí do seu da sua educação básica pelo
- 4:50dia do índio
- 4:53desenhando cocares?
- 4:55O que será que vocês desenharam nessa
- 4:57época da sua infância?
- 5:00Esse desenho aqui, ele é fruto de uma
- 5:02pesquisa desenvolvida pelo nosso grupo,
- 5:04né, de investigação, em que eh investig
- 5:08investigamos as representações dos povos
- 5:10originários no em escolas públicas do
- 5:12município de Uberaba, Minas Gerais.
- 5:16Esse estereótipo que massifica mais de
- 5:19300 etnias que hoje estão aqui ainda,
- 5:22contribui muito pouco para como nós nos
- 5:24articulamos com os nossos territórios.
- 5:29Essa articulação de uma imagem muito
- 5:33mais semelhante a um indígena do alto
- 5:35rio negro nada diz dos povos originários
- 5:38da região de Minas Gerais.
- 5:42São fenótipos diferentes, culturas
- 5:44diferentes, características diferentes.
- 5:48E é o dia do índio. Agora com o
- 5:51ministério dos povos originários, dia
- 5:52dos povos originários, mas pouco se muda
- 5:55na maneira de representar,
- 5:57temos um desafio pela frente.
- 6:00É preciso repensar esses processos
- 6:03educativos se a gente tomar como fato
- 6:06que vivemos numa sociedade pluriétnica e
- 6:08multicultural.
- 6:12Mas vocês devem estar pensando, né, é
- 6:15fácil falar isso quando a gente tá
- 6:17falando de pessoas indígenas, mas nas
- 6:20minhas andanças com povos originários,
- 6:22quilombolas, assentados e assentadas, eu
- 6:24aprendi que a escola pode ter outros
- 6:26elementos.
- 6:28Lá na aldeia Pirar em Santa Catarina ou
- 6:31com os pajés e caciques eu aprendi que
- 6:34os rios e o fogo podem ser professores.
- 6:38Aí o Águajara numa aula aqui no Campus
- 6:40da USP de Ribeirão Preto me ensinou que
- 6:42é possível aprender com a arara
- 6:46uma dança e música ancestrais.
- 6:50Isso quer dizer que não só o ser humano,
- 6:52homo sapiens que tem humanidade
- 6:55e, portanto, não é o único que tem
- 6:57agência,
- 7:00mas tudo bem. Você poderia me dizer que
- 7:03falar dessa educação para povos
- 7:05originários é muito bacana, mas é
- 7:07diferente de mim. Mas então, o que que
- 7:09as nossas crianças da cidade poderiam
- 7:12nos ensinar sobre esses processos
- 7:14educativos menos massificadores?
- 7:18Quando eu comecei a minha carreira aqui
- 7:21eh na na na área das ciências, né? e
- 7:25ciências biológicas, meu primeiro curso
- 7:26de graduação, trabalhava com educação
- 7:28infantil, não à toa, hoje eu atuo num
- 7:30curso de pedagogia
- 7:33e fazendo uma aula ao ar livre aqui pelo
- 7:36campus, inclusive com a crianças de 5 6
- 7:39anos andando aqui, o menino me
- 7:41perguntou:
- 7:43"Professor,
- 7:44como é que essas plantinhas subiram aí
- 7:46no fio elétrico?" Eu
- 7:49já achei interessante. Talvez muitos
- 7:50aqui entraram, não sei se vocês
- 7:52perceberam, as plantinhas no fio
- 7:53elétrico.
- 7:55Eu olhei para ele e fui tentar responder
- 7:58essa questão, mas rapidamente um outro
- 8:01menininho virou e disse assim: "Calma,
- 8:03professor, deixa eu explicar para ele.
- 8:06Deixa eu explicar para ele. Você não tá
- 8:08vendo que o passarinho subiu aí, fez
- 8:10cocô e ela nasceu ali?"
- 8:13Falei: "Uau, que gênio!".
- 8:17Continuamos a caminhada, mas menos de
- 8:19dois passos o mesmo menino retruca.
- 8:22Mas então como que ela consegue energia
- 8:25e sais minerais?
- 8:28Eu falei: "Não, tá acontecendo".
- 8:31Mas não deu tempo de nenhuma reação,
- 8:33porque o mesmo menino falou assim: "Issa
- 8:35é muito fácil. Você não tá vendo que é
- 8:38uma planta elétrica?" Falei: "Não,
- 8:40calma, calma, não é uma planta
- 8:41elétrica."
- 8:43Mas eu fazia biologia nessa época e o
- 8:47fato é que eu tive que estudar
- 8:49porque eu não sabia naquele momento, não
- 8:52sei se vocês já se pegaram pensando
- 8:54sobre isso, que são bromeliáceas
- 8:56epífetas com escamas foliares capazes de
- 9:00pegar essas esses elementos que estão em
- 9:03suspensão ao ar. As crianças conseguiram
- 9:06me mostrar com a genialidade da infância
- 9:09a possibilidade de olhar fora das
- 9:11caixinhas que nos fizeram viciar. É um
- 9:16olhar livre que me ensinou para além dos
- 9:18livros e foram elas que me estimularam a
- 9:20ficar na educação. É muito interessante
- 9:23porque elas me ensinaram não só essa
- 9:26questão, mas por que que a gente chegou
- 9:29até aqui? A gente vai parando de
- 9:32perguntar as coisas. E o que parece é
- 9:36que a gente começa a ter só respostas
- 9:37prontas. E até as nossas perguntas
- 9:40costumam ser as mesmas. A gente cresce
- 9:44e a gente não consegue olhar para uma
- 9:46plantinha no fio e olhando para ela
- 9:49também pensar quem nós somos. A pergunta
- 9:52é outra: como é que a gente chegou até
- 9:54aqui
- 9:56sem saber direito quem a gente é?
- 9:58Eh, eu deixo essa questão porque
- 10:02é muito importante a gente olhar para
- 10:05essa questão eh de quem nós somos. Isso
- 10:08não é fácil. A gente aprendeu pela
- 10:09mídia, pela TV, que aqui é um povo
- 10:11hospitaleiro, que aqui ninguém é branco
- 10:15ou todo mundo aqui é mistiço.
- 10:19Eu sei que esse tom da mestiçagem de um
- 10:21estado mestiço fez muito mal pros
- 10:24movimentos que lutam pela questão racial
- 10:27e paraas questões étnicraciais do nosso
- 10:29país. Não se trata disso. Mas a
- 10:32mestiçagem foi uma um projeto colonial
- 10:35de apagamento de algumas relações que é
- 10:37precisam ser colocadas. E eu fui
- 10:40colocado nesse lugar a minha infância e
- 10:43todo tempo da minha vida, eu fui
- 10:44colocado nesse não lugar do mistiço. No
- 10:47Brasil japonês, talvez no Japão, um
- 10:50brasileiro dec. Numa aldeia indígena, um
- 10:53não indígena. Na cidade exótico, uma
- 10:57chicana chamada Glória Anzaldua nos
- 11:00convida a pensar e a trazer para baila o
- 11:03pensamento mistiço, um posicionamento de
- 11:06fronteira
- 11:08que revela a artimanha colonial de
- 11:11dominação a partir dessa
- 11:13destritorialização como estratégia de
- 11:16dominação.
- 11:18Quem nomeia
- 11:20domina.
- 11:23Concordo com ela. Não tô aqui de acordo
- 11:25com nenhum mito da democracia racial já
- 11:27superada pela sociologia, mas de
- 11:30estrategicamente assumir a posição do
- 11:32pensamento mistiço como uma estratégia
- 11:35inteligente dessa posição dúbia que não
- 11:38aceita mais a relação entre o civilizado
- 11:41ou selvagem,
- 11:43natureza ou cultura,
- 11:47política ou formação.
- 11:50Essas dicotomias nos colocam em posições
- 11:53fixas que nos deixam refém de um projeto
- 11:56que diminui a a nossa autoestima. Nos
- 11:59transformam em seres sem história e
- 12:02consumidores de algo que a gente nunca
- 12:05vai mais alcançar.
- 12:08A partir de hoje eu resolvi pensar
- 12:11diferente.
- 12:13Não quero mais essa relação entre um ou
- 12:16outro, mas talvez uma relação um e
- 12:19outro.
- 12:21Estar aqui e ali é uma boa estratégia
- 12:23para não ser fixado e de conseguir,
- 12:26portanto, superar um pouco dessas
- 12:28mazelas do projeto colonial de poder. É
- 12:31habitar na encruzilhada,
- 12:33né? É uma é uma, é enfrentar essa
- 12:37relação com presença, o híbrido como
- 12:40resistência. Eu queria convidar vocês a
- 12:43partir de hoje a pensar
- 12:46fora dessa armadilha de uma falsa
- 12:48liberdade entre um ou outro. Sou
- 12:52professor e cientista
- 12:55e capoeirista.
- 12:58Sou descendente de povos japoneses e
- 13:02povos originários dessa terra.
- 13:04Sou pai do Caê e da Clara ecidadão em
- 13:08busca de memórias, identidades que foram
- 13:10invisibilizadas e silenciadas por um
- 13:12projeto colonial.
- 13:15Nós podemos aqui
- 13:18começar a convidar vocês a olhar para
- 13:20dentro,
- 13:22uma educação de dentro para fora,
- 13:26porque a cada vez que vocês fizerem
- 13:28isso, saiba que vocês vão estar, sim,
- 13:33acho que a gente deve valorizar nossa
- 13:34ancestralidade europeia,
- 13:37mas que talvez a gente assuma que talvez
- 13:40tenhamos
- 13:42antepassados que foram saqueados.
- 13:44dritorializados, silenciados por esse
- 13:47projeto colonial de poder.
- 13:50Só assim poderíamos então pensar uma
- 13:53educação de dentro para fora. convid
- 13:57convido a vocês a ser
- 14:00eh socialmente, né, pensar uma educação
- 14:03que te coloque num país do ordem e
- 14:06progresso e também de Pindorama,
- 14:09Patiamama e tudo aquilo que nos fez
- 14:11enquanto pessoas nesse mundo das nossas
- 14:14raízes que bio, né, geneticamente,
- 14:18psicologicamente, socialmente nos fazem
- 14:20muito mais fortes.
- 14:22Como diria o mestre Pastinha, sou tudo
- 14:25que a boca come. O corpo é território.
- 14:31Corpo é território. E esse corpo
- 14:33território pode navegar, ele pode
- 14:35caminhar de uma maneira mais
- 14:37autoconsciente com e no mundo.
- 14:41Eu desejo que a partir de hoje a
- 14:43educação que nós possamos construir nos
- 14:46reconecte com a vida, nos reconecte com
- 14:49os territórios e com a nossa
- 14:51ancestralidade.
- 14:52Que a nossa identidade não seja produto
- 14:55de uma colonialidade, mas um processo de
- 14:58autodeterminação.
- 15:00Au!
- 15:01[Aplausos]
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