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Pensamento Mestiço e Educação | Danilo Kato | TEDxUSP Ribeirão Preto — Transcript

by TEDx Talks · 1,875 words · 328 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:00[Música]
  2. 0:12Cheguei aqui no campus da USP de
  3. 0:14Ribeirão Preto hoje com a minha fala
  4. 0:16preparada pro TEDEX USP Ribeirão Preto.
  5. 0:20Aí um senhor me abordou e me perguntou:
  6. 0:23"Você é índio ou japonês?"
  7. 0:26Pensei comigo, a palestra do TEDEx já
  8. 0:29começou. É sério, eu pensei em começar
  9. 0:32diferente. Agora queria que vocês
  10. 0:33pensassem no nome e sobrenome de vocês.
  11. 0:38O meu nome é Danilo Seit Cato. Seit foi
  12. 0:43um nome indicado pelo meu avô, que tem
  13. 0:46um significado no canji japonês como
  14. 0:49justiça, cura política.
  15. 0:53Talvez o grafia correta em japonês seria
  16. 0:55se, mas eu fui registrado com th meu avô
  17. 0:59não falava tão bem o português e eu acho
  18. 1:02que quem me registrou entendeu dessa
  19. 1:03forma. O que importa é que eu gostei do
  20. 1:06significado.
  21. 1:08A minha família de origem japonesa
  22. 1:10chegou no início do século XX no Brasil,
  23. 1:13aportou em Santos e seguiram para
  24. 1:16trabalhar nas lavouras de algodão, no
  25. 1:19distrito que hoje seria Bonfim Paulista.
  26. 1:22chegaram, puderam tirar uma foto com
  27. 1:25roupas, né, civilizadas numa unidade
  28. 1:29socialmente identificada facilmente como
  29. 1:33família.
  30. 1:35Já pelo lado da minha mãe, a minha avó
  31. 1:38materna tinha traços indígenas.
  32. 1:42O que eu descobri depois, conversando
  33. 1:45com as minhas mais velhas, é de que eu
  34. 1:48tinha um bisavô bugre.
  35. 1:51Isso mesmo, Bugre,
  36. 1:54nome que carrega as maiores violências
  37. 1:57simbólicas e físicas com mais de 300
  38. 2:00etnias que ainda vivem nesse país e mais
  39. 2:02de 274 línguas.
  40. 2:05Eu me perguntei por muito tempo por que
  41. 2:09a família Cato do meu sobrenome japonês
  42. 2:13é possível rastrear de onde vieram, para
  43. 2:16onde foram e onde estão hoje espalhados?
  44. 2:20Há registro sobre isso. Mas por que pelo
  45. 2:23lado materno eu não consigo saber nada
  46. 2:25além de que teve um bugre?
  47. 2:29Por que que eu não posso ter acesso a
  48. 2:31nenhum indício cultural
  49. 2:34de um povo que talvez de um tronco
  50. 2:37linguístico complexo e rico
  51. 2:40culturalmente?
  52. 2:41Mas eu só sei que teve um bugre na minha
  53. 2:43família.
  54. 2:47O que será que essas coisas nos dizem?
  55. 2:50A minha hipótese é que é um projeto de
  56. 2:52colonialidade que precisa ser
  57. 2:54conversado. Dados de uma pesquisa
  58. 2:57recente feita por cientistas da USP,
  59. 2:59publicado na Science esse ano, mostram
  60. 3:02que nós somos geneticamente a população
  61. 3:05mais missigenada do mundo e que 13% do
  62. 3:10nosso material genético é indígena.
  63. 3:14Dados desse grande projeto com uma
  64. 3:16amostra considerável mostraram que o DNA
  65. 3:18mitocondrial, aquele que é herdado só da
  66. 3:21mãe,
  67. 3:23é majoritariamente africano e indígena.
  68. 3:26Enquanto o material genético proveniente
  69. 3:28do cromossomo Y, aquele herdado dos
  70. 3:31pais,
  71. 3:32é de origem europeia.
  72. 3:35O que nós sabemos sociologicamente é que
  73. 3:38teve um projeto de invasão que nos
  74. 3:40livros chamavam descoberta e que muito
  75. 3:43provavelmente o encontro desses homens
  76. 3:45com as mulheres indígenas e aquelas que
  77. 3:47foram forçadamente
  78. 3:50deixadas de África escravizadas no
  79. 3:52Brasil foram violentadas e muito eh
  80. 3:56espoliadas por um projeto colonial de
  81. 3:58poder.
  82. 4:00Se a gente aprofundar um pouco, um
  83. 4:02estudo e e indicado pelo IPEIA mostra
  84. 4:06que os registros dos nossos sobrenomes
  85. 4:09no Brasil, olhando para esse dado, 87.5%
  86. 4:14dos nossos sobrenomes são de origem
  87. 4:16europeia,
  88. 4:17mais precisamente ibérica.
  89. 4:20Que coisa, não?
  90. 4:22E no IBGE já sabemos que as pessoas que
  91. 4:25se autodeclaram indígena não chegam a
  92. 4:271%. Ribeirão Preto dá como 0.11%. 11%
  93. 4:31das pessoas que se autodeclaram indíg e
  94. 4:33se autodeclaram indígena. O que esses
  95. 4:36dados nos apontam? Isso são
  96. 4:38colonialidades em nossos corpos.
  97. 4:41A coisa se aprofunda quando a gente
  98. 4:43pensa educação.
  99. 4:45Quem de vocês já não passou na por parte
  100. 4:47aí do seu da sua educação básica pelo
  101. 4:50dia do índio
  102. 4:53desenhando cocares?
  103. 4:55O que será que vocês desenharam nessa
  104. 4:57época da sua infância?
  105. 5:00Esse desenho aqui, ele é fruto de uma
  106. 5:02pesquisa desenvolvida pelo nosso grupo,
  107. 5:04né, de investigação, em que eh investig
  108. 5:08investigamos as representações dos povos
  109. 5:10originários no em escolas públicas do
  110. 5:12município de Uberaba, Minas Gerais.
  111. 5:16Esse estereótipo que massifica mais de
  112. 5:19300 etnias que hoje estão aqui ainda,
  113. 5:22contribui muito pouco para como nós nos
  114. 5:24articulamos com os nossos territórios.
  115. 5:29Essa articulação de uma imagem muito
  116. 5:33mais semelhante a um indígena do alto
  117. 5:35rio negro nada diz dos povos originários
  118. 5:38da região de Minas Gerais.
  119. 5:42São fenótipos diferentes, culturas
  120. 5:44diferentes, características diferentes.
  121. 5:48E é o dia do índio. Agora com o
  122. 5:51ministério dos povos originários, dia
  123. 5:52dos povos originários, mas pouco se muda
  124. 5:55na maneira de representar,
  125. 5:57temos um desafio pela frente.
  126. 6:00É preciso repensar esses processos
  127. 6:03educativos se a gente tomar como fato
  128. 6:06que vivemos numa sociedade pluriétnica e
  129. 6:08multicultural.
  130. 6:12Mas vocês devem estar pensando, né, é
  131. 6:15fácil falar isso quando a gente tá
  132. 6:17falando de pessoas indígenas, mas nas
  133. 6:20minhas andanças com povos originários,
  134. 6:22quilombolas, assentados e assentadas, eu
  135. 6:24aprendi que a escola pode ter outros
  136. 6:26elementos.
  137. 6:28Lá na aldeia Pirar em Santa Catarina ou
  138. 6:31com os pajés e caciques eu aprendi que
  139. 6:34os rios e o fogo podem ser professores.
  140. 6:38Aí o Águajara numa aula aqui no Campus
  141. 6:40da USP de Ribeirão Preto me ensinou que
  142. 6:42é possível aprender com a arara
  143. 6:46uma dança e música ancestrais.
  144. 6:50Isso quer dizer que não só o ser humano,
  145. 6:52homo sapiens que tem humanidade
  146. 6:55e, portanto, não é o único que tem
  147. 6:57agência,
  148. 7:00mas tudo bem. Você poderia me dizer que
  149. 7:03falar dessa educação para povos
  150. 7:05originários é muito bacana, mas é
  151. 7:07diferente de mim. Mas então, o que que
  152. 7:09as nossas crianças da cidade poderiam
  153. 7:12nos ensinar sobre esses processos
  154. 7:14educativos menos massificadores?
  155. 7:18Quando eu comecei a minha carreira aqui
  156. 7:21eh na na na área das ciências, né? e
  157. 7:25ciências biológicas, meu primeiro curso
  158. 7:26de graduação, trabalhava com educação
  159. 7:28infantil, não à toa, hoje eu atuo num
  160. 7:30curso de pedagogia
  161. 7:33e fazendo uma aula ao ar livre aqui pelo
  162. 7:36campus, inclusive com a crianças de 5 6
  163. 7:39anos andando aqui, o menino me
  164. 7:41perguntou:
  165. 7:43"Professor,
  166. 7:44como é que essas plantinhas subiram aí
  167. 7:46no fio elétrico?" Eu
  168. 7:49já achei interessante. Talvez muitos
  169. 7:50aqui entraram, não sei se vocês
  170. 7:52perceberam, as plantinhas no fio
  171. 7:53elétrico.
  172. 7:55Eu olhei para ele e fui tentar responder
  173. 7:58essa questão, mas rapidamente um outro
  174. 8:01menininho virou e disse assim: "Calma,
  175. 8:03professor, deixa eu explicar para ele.
  176. 8:06Deixa eu explicar para ele. Você não tá
  177. 8:08vendo que o passarinho subiu aí, fez
  178. 8:10cocô e ela nasceu ali?"
  179. 8:13Falei: "Uau, que gênio!".
  180. 8:17Continuamos a caminhada, mas menos de
  181. 8:19dois passos o mesmo menino retruca.
  182. 8:22Mas então como que ela consegue energia
  183. 8:25e sais minerais?
  184. 8:28Eu falei: "Não, tá acontecendo".
  185. 8:31Mas não deu tempo de nenhuma reação,
  186. 8:33porque o mesmo menino falou assim: "Issa
  187. 8:35é muito fácil. Você não tá vendo que é
  188. 8:38uma planta elétrica?" Falei: "Não,
  189. 8:40calma, calma, não é uma planta
  190. 8:41elétrica."
  191. 8:43Mas eu fazia biologia nessa época e o
  192. 8:47fato é que eu tive que estudar
  193. 8:49porque eu não sabia naquele momento, não
  194. 8:52sei se vocês já se pegaram pensando
  195. 8:54sobre isso, que são bromeliáceas
  196. 8:56epífetas com escamas foliares capazes de
  197. 9:00pegar essas esses elementos que estão em
  198. 9:03suspensão ao ar. As crianças conseguiram
  199. 9:06me mostrar com a genialidade da infância
  200. 9:09a possibilidade de olhar fora das
  201. 9:11caixinhas que nos fizeram viciar. É um
  202. 9:16olhar livre que me ensinou para além dos
  203. 9:18livros e foram elas que me estimularam a
  204. 9:20ficar na educação. É muito interessante
  205. 9:23porque elas me ensinaram não só essa
  206. 9:26questão, mas por que que a gente chegou
  207. 9:29até aqui? A gente vai parando de
  208. 9:32perguntar as coisas. E o que parece é
  209. 9:36que a gente começa a ter só respostas
  210. 9:37prontas. E até as nossas perguntas
  211. 9:40costumam ser as mesmas. A gente cresce
  212. 9:44e a gente não consegue olhar para uma
  213. 9:46plantinha no fio e olhando para ela
  214. 9:49também pensar quem nós somos. A pergunta
  215. 9:52é outra: como é que a gente chegou até
  216. 9:54aqui
  217. 9:56sem saber direito quem a gente é?
  218. 9:58Eh, eu deixo essa questão porque
  219. 10:02é muito importante a gente olhar para
  220. 10:05essa questão eh de quem nós somos. Isso
  221. 10:08não é fácil. A gente aprendeu pela
  222. 10:09mídia, pela TV, que aqui é um povo
  223. 10:11hospitaleiro, que aqui ninguém é branco
  224. 10:15ou todo mundo aqui é mistiço.
  225. 10:19Eu sei que esse tom da mestiçagem de um
  226. 10:21estado mestiço fez muito mal pros
  227. 10:24movimentos que lutam pela questão racial
  228. 10:27e paraas questões étnicraciais do nosso
  229. 10:29país. Não se trata disso. Mas a
  230. 10:32mestiçagem foi uma um projeto colonial
  231. 10:35de apagamento de algumas relações que é
  232. 10:37precisam ser colocadas. E eu fui
  233. 10:40colocado nesse lugar a minha infância e
  234. 10:43todo tempo da minha vida, eu fui
  235. 10:44colocado nesse não lugar do mistiço. No
  236. 10:47Brasil japonês, talvez no Japão, um
  237. 10:50brasileiro dec. Numa aldeia indígena, um
  238. 10:53não indígena. Na cidade exótico, uma
  239. 10:57chicana chamada Glória Anzaldua nos
  240. 11:00convida a pensar e a trazer para baila o
  241. 11:03pensamento mistiço, um posicionamento de
  242. 11:06fronteira
  243. 11:08que revela a artimanha colonial de
  244. 11:11dominação a partir dessa
  245. 11:13destritorialização como estratégia de
  246. 11:16dominação.
  247. 11:18Quem nomeia
  248. 11:20domina.
  249. 11:23Concordo com ela. Não tô aqui de acordo
  250. 11:25com nenhum mito da democracia racial já
  251. 11:27superada pela sociologia, mas de
  252. 11:30estrategicamente assumir a posição do
  253. 11:32pensamento mistiço como uma estratégia
  254. 11:35inteligente dessa posição dúbia que não
  255. 11:38aceita mais a relação entre o civilizado
  256. 11:41ou selvagem,
  257. 11:43natureza ou cultura,
  258. 11:47política ou formação.
  259. 11:50Essas dicotomias nos colocam em posições
  260. 11:53fixas que nos deixam refém de um projeto
  261. 11:56que diminui a a nossa autoestima. Nos
  262. 11:59transformam em seres sem história e
  263. 12:02consumidores de algo que a gente nunca
  264. 12:05vai mais alcançar.
  265. 12:08A partir de hoje eu resolvi pensar
  266. 12:11diferente.
  267. 12:13Não quero mais essa relação entre um ou
  268. 12:16outro, mas talvez uma relação um e
  269. 12:19outro.
  270. 12:21Estar aqui e ali é uma boa estratégia
  271. 12:23para não ser fixado e de conseguir,
  272. 12:26portanto, superar um pouco dessas
  273. 12:28mazelas do projeto colonial de poder. É
  274. 12:31habitar na encruzilhada,
  275. 12:33né? É uma é uma, é enfrentar essa
  276. 12:37relação com presença, o híbrido como
  277. 12:40resistência. Eu queria convidar vocês a
  278. 12:43partir de hoje a pensar
  279. 12:46fora dessa armadilha de uma falsa
  280. 12:48liberdade entre um ou outro. Sou
  281. 12:52professor e cientista
  282. 12:55e capoeirista.
  283. 12:58Sou descendente de povos japoneses e
  284. 13:02povos originários dessa terra.
  285. 13:04Sou pai do Caê e da Clara ecidadão em
  286. 13:08busca de memórias, identidades que foram
  287. 13:10invisibilizadas e silenciadas por um
  288. 13:12projeto colonial.
  289. 13:15Nós podemos aqui
  290. 13:18começar a convidar vocês a olhar para
  291. 13:20dentro,
  292. 13:22uma educação de dentro para fora,
  293. 13:26porque a cada vez que vocês fizerem
  294. 13:28isso, saiba que vocês vão estar, sim,
  295. 13:33acho que a gente deve valorizar nossa
  296. 13:34ancestralidade europeia,
  297. 13:37mas que talvez a gente assuma que talvez
  298. 13:40tenhamos
  299. 13:42antepassados que foram saqueados.
  300. 13:44dritorializados, silenciados por esse
  301. 13:47projeto colonial de poder.
  302. 13:50Só assim poderíamos então pensar uma
  303. 13:53educação de dentro para fora. convid
  304. 13:57convido a vocês a ser
  305. 14:00eh socialmente, né, pensar uma educação
  306. 14:03que te coloque num país do ordem e
  307. 14:06progresso e também de Pindorama,
  308. 14:09Patiamama e tudo aquilo que nos fez
  309. 14:11enquanto pessoas nesse mundo das nossas
  310. 14:14raízes que bio, né, geneticamente,
  311. 14:18psicologicamente, socialmente nos fazem
  312. 14:20muito mais fortes.
  313. 14:22Como diria o mestre Pastinha, sou tudo
  314. 14:25que a boca come. O corpo é território.
  315. 14:31Corpo é território. E esse corpo
  316. 14:33território pode navegar, ele pode
  317. 14:35caminhar de uma maneira mais
  318. 14:37autoconsciente com e no mundo.
  319. 14:41Eu desejo que a partir de hoje a
  320. 14:43educação que nós possamos construir nos
  321. 14:46reconecte com a vida, nos reconecte com
  322. 14:49os territórios e com a nossa
  323. 14:51ancestralidade.
  324. 14:52Que a nossa identidade não seja produto
  325. 14:55de uma colonialidade, mas um processo de
  326. 14:58autodeterminação.
  327. 15:00Au!
  328. 15:01[Aplausos]

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