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OS ENGENHOS DO NORDESTE: COMO ESTÃO HOJE EM DIA — Transcript

by Caravelas · 3,352 words · 541 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:00ele me encanta. É, é muito bacana a
  2. 0:02gente poder ver essa essa diversidade
  3. 0:04dos casarões.
  4. 0:05>> Desde do Rio Grande do Sul até lá agora,
  5. 0:07cara, bem diferente, né?
  6. 0:08>> legal. E o o nordeste, a gente é
  7. 0:11fascinado pela por pelas lendas que a
  8. 0:13galera conta e os casarões são
  9. 0:15belíssimos. Por exemplo, a capa do meu
  10. 0:17livro é o engenho Poço Comprido,
  11. 0:20que eu acho ele fascinante porque a
  12. 0:22arquitetura muda completamente do que
  13. 0:24nós estamos falando, é aquela fachada
  14. 0:26imponente, dois andares, a varandada e a
  15. 0:29varanda liga direto na capela do lado da
  16. 0:32da casa e aquela capela barroca
  17. 0:35é impressionante. E aí
  18. 0:36>> Onde onde fica esse engenho?
  19. 0:37>> Ele fica em Vicência, ele é Recife,
  20. 0:40perto de Recife. Vicência é interior de
  21. 0:42Pernambuco, né?
  22. 0:44E é próximo mesmo, né? A gente vai no
  23. 0:47livro vão constar vários engenhos e
  24. 0:49talvez a maioria deles de Pernambuco,
  25. 0:52mas tem do nordeste todo, né? Mas a
  26. 0:54maioria deles de Pernambuco. Você vê
  27. 0:56também essa diversidade. Por exemplo, lá
  28. 0:58a gente visitou o engenho Gaipió.
  29. 1:02É, a gente visitou um engenho que estava
  30. 1:03fechado, nunca ninguém tinha entrado
  31. 1:05dentro para filmar. Olha isso que eu vou
  32. 1:07te falar, nunca.
  33. 1:08O proprietário faleceu e a família
  34. 1:11me conhecia, acompanhava nas redes. Eu
  35. 1:13fui surpreendido com eles
  36. 1:15falando que a gente podia gravar.
  37. 1:17Cara, eu na hora eu fui para lá. Nós
  38. 1:19gravamos tudo, tirei foto de tudo.
  39. 1:21Ninguém tem essas imagens porque
  40. 1:23nunca deixaram entrar.
  41. 1:26No vídeo pronto para ir para o ar, a
  42. 1:28família se arrependeu e falou assim, ó,
  43. 1:30guarda para você, mas não posta mais
  44. 1:32não.
  45. 1:32A gente desistiu de postar.
  46. 1:35Rapaz, eu filmei tudo, eu tô assim, até
  47. 1:38hoje eu eu fico louco que a galera não
  48. 1:40está podendo ver o que eu vi.
  49. 1:42De de lindo, de bacana, de maravilhoso.
  50. 1:45Ele é um solar imponente, dois andares,
  51. 1:47todo mundo passa em frente porque fica
  52. 1:49próximo de uma rodovia
  53. 1:51e nunca puderam entrar, o dono sempre
  54. 1:52morou lá e não permitia, sabe?
  55. 1:55Aí eu tô tentando que eles participem do
  56. 1:56meu livro, eu tô pedindo, pô, do livro
  57. 1:58pelo menos.
  58. 1:59Porque vai enobrecer, eu tô deixando
  59. 2:01ainda um espacinho para eles para
  60. 2:02participar. O livro vai ser lançado em
  61. 2:04outubro. E aí
  62. 2:06É, o Caipió, ele é tão curioso, tão
  63. 2:08bacana.
  64. 2:09Inclusive eles estão fazendo um hotel
  65. 2:11lá, eles estão se organizando para
  66. 2:12transformar em hotel. É em Ipojuca, que
  67. 2:14é Porto de Galinhas.
  68. 2:16Galera vem muito turismo das praias e
  69. 2:18tem que ver mesmo que é maravilhoso, mas
  70. 2:20se for lá e eles abrirem um hotel Pô,
  71. 2:23tem que dedicar um tempinho de conhecer.
  72. 2:25O Caipió, ele é tão bacana, além de
  73. 2:27várias histórias que tem lá, né? Que a
  74. 2:29sala de jantar
  75. 2:31Eles fizeram em estuque, no teto, a
  76. 2:34replicação da sala de jantar de mesa
  77. 2:36posta. Então quando você tá sentado aqui
  78. 2:39na mesa, que você olha para o teto Você
  79. 2:41vê
  80. 2:42A mesa posta no teto, como se fosse um
  81. 2:44espelho.
  82. 2:45>> Coisa interessante, olha.
  83. 2:47>> E muito interessante.
  84. 2:48>> que tiveram, hein?
  85. 2:49>> Mesa posta, com 24 lugares e os pratos e
  86. 2:53tudo.
  87. 2:54Só que em estuque é tipo um gesso, tá?
  88. 2:57É em material de estuque, então você
  89. 2:59olha, parece que é de gesso. Você olha,
  90. 3:01você vê a mesa com talheres, com prato,
  91. 3:04em cima de você. Uma É impressionante,
  92. 3:06caraca. O casarão, ele tem três andares,
  93. 3:08aí dizem que A Sinhá ficou presa na casa
  94. 3:12da torre por muitos anos, sabe?
  95. 3:14É, a gente encontra essas essas lendas e
  96. 3:16algumas são verdades mesmo, porque você
  97. 3:18vê que tem um biólogo que andou pelo
  98. 3:20Brasil, não me engano, foi um um
  99. 3:21naturalista, alguma coisa assim.
  100. 3:23E eu lendo sobre a andança dele, que ele
  101. 3:26relatou, ele falou: "Tia, uma visitei o
  102. 3:27Barão tal
  103. 3:28Fui na fazenda dele três vezes, ouvi
  104. 3:31dizer que ele tinha mulher e filhas, mas
  105. 3:33não as conheci".
  106. 3:34Você consegue hoje imaginar alguém no
  107. 3:36jantar na tua casa três vezes e não
  108. 3:38conhecer a tua mulher e teus filhos?
  109. 3:41E falar que ouviu dizer que ele tinha
  110. 3:43mulher e filha, mas não a conheci.
  111. 3:45Então existia essa separação na época,
  112. 3:48muito bem definida mesmo, isso não é uma
  113. 3:50falácia. E aí dizem que lá no Gaipió
  114. 3:53assim a ficava presa na casa da torre e
  115. 3:56lá tem um quartinho mesmo na torre com
  116. 3:57uma
  117. 3:58com uma janelinha, né? E aí são lendas
  118. 4:01que circulam, mas é maravilhoso. Você
  119. 4:03tem o engenho Gaipió que é um clássico,
  120. 4:05o engenho Sapucaji que fica no interior
  121. 4:07em Rio Escada que é maravilhoso. Os
  122. 4:09engenhos, né, foi numa fase de açúcar.
  123. 4:12E muitos desses escravos que trabalhavam
  124. 4:15lá, eles migraram pro sudeste com o auge
  125. 4:19do café.
  126. 4:20O café demandou de muita mão de obra.
  127. 4:23Então
  128. 4:24começou a ser vantajoso vender escravo
  129. 4:27do nordeste pro sudeste. E isso esse
  130. 4:30mercado aconteceu até porque começaram a
  131. 4:33ter de forma intensificada muitas leis
  132. 4:36proibindo
  133. 4:37>> Proibindo a venda de escravo.
  134. 4:39>> de escravos. Então teve uma teve então o
  135. 4:41interno. O interno e uma valorização
  136. 4:43maior do escravo de dentro.
  137. 4:45E eu tô falando assim porque eles tinham
  138. 4:47esse tratamento como mercadoria, né?
  139. 4:48Triste a gente falar isso, mas é
  140. 4:49verdade. Você pega os inventários de
  141. 4:51fazenda que eu já tive oportunidade de
  142. 4:52ver,
  143. 4:53cara, o o escravo, ele tá na seção de
  144. 4:57semoventes, cara.
  145. 4:59Junto com os bois.
  146. 5:00>> Triste, né?
  147. 5:01>> Junto com as mulas, os bois, não sei
  148. 5:03quê, aí vem a listagem dos escravos. É
  149. 5:06a gente não consegue imaginar o que se
  150. 5:08foi passado. Eu fiz um museu na minha
  151. 5:10fazenda lá na onde era senzala dos
  152. 5:13escravos domésticos, que era embaixo da
  153. 5:15casa.
  154. 5:16E aí eu fiz um museu, ela ainda tem
  155. 5:18aquele piso pé de moleque, que eram os
  156. 5:20escravos mirins que faziam encaixadinho.
  157. 5:23E aí lá dentro eu consegui com um
  158. 5:25colecionador de livros no Rio Grande do
  159. 5:27Sul
  160. 5:29uma foto de um livro de registro de
  161. 5:30cadeia
  162. 5:31de 1850
  163. 5:33no Rio Grande do Sul. E lá, cara, uma
  164. 5:35uma das páginas, igual o exemplo que eu
  165. 5:37vou dar, tem
  166. 5:39várias, mas um exemplo específico fala
  167. 5:41lá:
  168. 5:42O escravo Tobias foi preso por andar nas
  169. 5:45ruas fora de hora,
  170. 5:46às 11 da noite.
  171. 5:48Ou seja, ele foi ele não fez nada.
  172. 5:51Ele tava andando na rua 11:00 da noite.
  173. 5:54Ele foi preso. Aí a punição: "Sob os
  174. 5:56cuidados do delegado tal, tá tá tal, foi
  175. 5:59sentenciado uma pena de 50 açoites
  176. 6:04e no dia anterior, no dia seguinte
  177. 6:05liberado e solto".
  178. 6:07Meu amigo, você tá andando na rua 11:00
  179. 6:09da noite. Você não fez nada.
  180. 6:11Você levou 50 chibatada
  181. 6:13e foi solto no dia seguinte.
  182. 6:15Tem cabimento o negócio? A gente não
  183. 6:16consegue imaginar.
  184. 6:17>> Não consegue, né? É impressionante.
  185. 6:19>> Não é
  186. 6:20Foi uma coisa assim, impressionante. Nos
  187. 6:22engenhos Nos engenhos você vê isso lá
  188. 6:24tem. Você pega o engenho Roaé, por
  189. 6:25exemplo.
  190. 6:27Rapaz, o engenho Roaé tem as senzalas
  191. 6:28todas preservadas, o casarão, a antiga
  192. 6:31moita. No engenho Poço Comprido tem a
  193. 6:33moita. Era onde tinha a chaminé do
  194. 6:35engenho.
  195. 6:36E lá tem uma É isso é interessante que
  196. 6:39eu vou te falar.
  197. 6:40Eles têm lá uma lenda
  198. 6:42de que se você compra uma fazenda, você
  199. 6:44pode destruir ela inteira, mas você não
  200. 6:46pode destruir a moita do engenho, que é
  201. 6:48a chaminé.
  202. 6:49Cara,
  203. 6:50as usinas vão lá e compram as terras.
  204. 6:54Aí na terra que ela compra vem dois,
  205. 6:56três engenhos dentro, casarão de
  206. 6:57engenho.
  207. 6:59Ele derruba e planta cana.
  208. 7:01Mas a moita fica em pé.
  209. 7:04Ele derruba tudo, cara.
  210. 7:05Aí você tá passando na
  211. 7:06>> eles não têm coragem de derrubar.
  212. 7:07>> Não derruba as moitas. Você vai andando,
  213. 7:10as chaminés tão tudo em pé.
  214. 7:12Eles não derrubam.
  215. 7:13>> No meio do nada.
  216. 7:14>> No meio do nada. Não tem nada em volta,
  217. 7:16é cana plantada e uma chaminé em pé
  218. 7:17assim.
  219. 7:19Por conta de superstição, de falar que
  220. 7:21se você derrubar a chaminé, você vai
  221. 7:23atrair
  222. 7:25uma crise financeira, você não vai ser
  223. 7:27próspero.
  224. 7:28Você passa para tudo quanto é lugar tem
  225. 7:30uma moita em pé.
  226. 7:31Olha que doideira, cara.
  227. 7:33E a gente querendo que fosse Essa lenda
  228. 7:35virasse para os casarões, né? Se falasse
  229. 7:37que era que você não pode destruir os
  230. 7:38casarões, né? Que aí ia ter tudo de pé
  231. 7:40também, né, cara? É uma pena.
  232. 7:42>> Casarão. Você teve em Ilhéus?
  233. 7:44Não, nós fomos no interior perto de
  234. 7:46Ilhéus e visitamos lá fazenda de cacau.
  235. 7:49>> Isso, isso que eu perguntar por causa do
  236. 7:50do da de cacau. Como é que é a lógica da
  237. 7:53de cacau?
  238. 7:53>> Cara, é é legal a gente falar isso, né?
  239. 7:55Você vê que tem ciclos no Brasil todo,
  240. 7:58né cara? A de cacau a gente gostou muito
  241. 8:00também, casarões avarandados, mais
  242. 8:01rústicos, mais simples.
  243. 8:04Aquela varandona de fora a fora de
  244. 8:05madeira, lindo também. Se pode, se a
  245. 8:07pessoal que tá aí assistindo for lá no
  246. 8:09nosso canal, vai ver lá que a gente
  247. 8:11botou bem nítido lá essas fazendas de
  248. 8:13cacau lá. Tem as playlists, né?
  249. 8:15E aí você vai ver que são casarões
  250. 8:17avarandados, inclusive uma delas que é
  251. 8:19do Edu Cacau.
  252. 8:20Que é o cacau de lá é maravilhoso. A
  253. 8:22gente tomou o mel do cacau.
  254. 8:24Foi lindo. A gente ainda é em atividade,
  255. 8:26ainda está em atividade. É, a fazenda
  256. 8:28chama Fazenda Estrela do Sul e é do Edu
  257. 8:30Cacau, do Edu do Cacau.
  258. 8:32Essa fazenda, ele soltou uma jiboia no
  259. 8:35teto.
  260. 8:36Pra comer morcego, essas coisas. Então
  261. 8:38quando você chega lá,
  262. 8:40ele chegou de noite e falou assim: "Ó,
  263. 8:41se vocês forem no banheiro na noite, que
  264. 8:42é do lado de fora da casa,
  265. 8:44vocês não assusta não, porque tem uma
  266. 8:46jiboia que anda no teto aí".
  267. 8:48Toda de madeira a casa, cara. A casa é é
  268. 8:50elevada, porque às vezes tem enchente,
  269. 8:53essas coisas, né? Então a casa é elevada
  270. 8:55e toda ela de madeira.
  271. 8:57É linda. Eu eu particularmente acho
  272. 8:59lindo. Tem umas estatuetas de louça na
  273. 9:03entrada, na fachada principal. Ela é
  274. 9:05muito linda.
  275. 9:07A a vizinha dela que nós visitamos
  276. 9:09também, que é a Fazenda Boa Vista, tem
  277. 9:10pinturas na casa toda, embora seja toda
  278. 9:13de madeira, também muito linda, também
  279. 9:15de cacau.
  280. 9:16E mais simples,
  281. 9:17falando de arquitetura, entendeu? Já uma
  282. 9:20casa num estilo diferente do que a gente
  283. 9:23tá habituada a ver. Eles tinham a
  284. 9:25varandada, que é muito quente.
  285. 9:27E por ser muito calor,
  286. 9:29>> É mais água.
  287. 9:30>> É, eu falo muito, né cara? Você tem que
  288. 9:32me dosar aí, cara, me dá uma podada aí.
  289. 9:34>> Não, vai, vai em frente.
  290. 9:37>> Essa lá é muito quente, então a casa é
  291. 9:40muito arejada, aí tem esse varandão de
  292. 9:41fora a fora.
  293. 9:43É muito típico e característico aquelas
  294. 9:45casas, inclusive às vezes em alguma
  295. 9:47novela de época você vê eles retratando
  296. 9:49isso, até em novelas cenográficas aí
  297. 9:52você vê eles retratando isso com essa
  298. 9:54casa de madeira varandada.
  299. 9:56Linda também.
  300. 9:57>> Que ano que é essa daí?
  301. 9:59>> Ah, é século XIX também,
  302. 10:01também, né? Eu, as fazendas mais antigas
  303. 10:03que eu visitei
  304. 10:05eu posso falar que foi a Chácara do
  305. 10:06Rosário, foi o Castelo Garcia D'Ávila.
  306. 10:09>> Não, não, digo aí na região lá.
  307. 10:11>> É, aí é século XIX, 1800 e
  308. 10:131850,
  309. 10:151800.
  310. 10:15>> E elas são abertas à visitação, essas do
  311. 10:17cacau, as fazendas de cacau?
  312. 10:19>> Então,
  313. 10:20não é aberta à visitação.
  314. 10:22Mas o Edu faz algum trabalho assim com
  315. 10:25relação ao cacau, não à fazenda, sabe?
  316. 10:29Mas ele pega firme lá nessa venda de
  317. 10:31cacau, eles são ainda, é o cacau
  318. 10:33sombreado, né, que a gente viu lá, e de
  319. 10:36muita qualidade, eles, enfim, são fortes
  320. 10:39nisso.
  321. 10:40É, em Ilhéus tem uma que a gente não foi
  322. 10:42ainda, mas eles me mandaram um alôzinho
  323. 10:44para quando eu passar por lá e visitar e
  324. 10:46acabou que eu não passei ainda. O que
  325. 10:47que acontece? Só para você entender a
  326. 10:49lógica de como é que eu visito uma
  327. 10:50fazenda hoje.
  328. 10:52As pessoas às vezes me mandam dicas de
  329. 10:54fazenda.
  330. 10:55O que que conta para mim, você tá aí
  331. 10:56assistindo que é que a gente vai visitar
  332. 10:57uma fazenda?
  333. 10:59Às vezes a fazenda é do lado da casa de
  334. 11:00alguém. Pô, vai lá, pega o contato do
  335. 11:02dono para mim.
  336. 11:04Eu preciso ter o contato, que aí eu na
  337. 11:06cara de pau ligo, apresento meu trabalho
  338. 11:09e hoje, graças a Deus, o nosso trabalho
  339. 11:11tá bem conhecido no universo de fazenda,
  340. 11:14é um nicho.
  341. 11:15Geralmente hoje em dia o dono de fazenda
  342. 11:17conhece meu trabalho. Tá difícil um que
  343. 11:19não conheça. E a gente tá sendo bem
  344. 11:21surpreendido positivamente de entrar em
  345. 11:24contato e a pessoa se sentir honrada com
  346. 11:26nosso contato e querer que a gente vá
  347. 11:28visitar.
  348. 11:29Então isso abrevia a nossa ida em algum
  349. 11:31lugar. É isso que tem acontecido. Às
  350. 11:34vezes o cara é muito de idade, ele nem
  351. 11:35tem rede social, ele não vai conhecer a
  352. 11:37gente. Mas quando ele é um pouco mais
  353. 11:39jovem, às vezes o filho dele, alguma
  354. 11:40coisa assim, já achou a gente e facilita
  355. 11:43esse caminho para a gente visitar. Então
  356. 11:44sempre o contato é importante
  357. 11:47e fazer essa ponte com os donos de
  358. 11:48fazenda. Hoje a gente trabalha muito com
  359. 11:50visita, é convite.
  360. 11:52Paulo Vitor, vem aqui para você conhecer
  361. 11:54a nossa fazenda. Aí eu já vou agendado,
  362. 11:56eu não faço mais aquela de ir bater
  363. 11:58lata.
  364. 11:59Chegar lá
  365. 12:00>> Olá, tá baixando a porta, posso visitar?
  366. 12:02>> É, eu não faço mais isso. Eu já fiz.
  367. 12:05Hoje é só hum, 100% do que a gente
  368. 12:07visita hoje é com convite.
  369. 12:10Isso é bom porque aí eu não perco mais
  370. 12:11tempo, entendeu? Me ajuda muito. A gente
  371. 12:13foi agora para a Bahia
  372. 12:15só porque eu precisava
  373. 12:16>> Fora do cacau.
  374. 12:17>> Fora do cacau, só porque eu precisava,
  375. 12:20eu queria ter engenhos da Bahia.
  376. 12:22Cara, eu nunca consegui acesso na Bahia,
  377. 12:24impressionante, me surpreendeu. Porque
  378. 12:26eu tenho acesso em muitas regiões do
  379. 12:27Brasil, mas na Bahia eu não conseguia
  380. 12:29nada. E eu queria um engenho da Bahia no
  381. 12:31meu livro. Que que eu fiz? Falei, meu
  382. 12:33irmão, eu vou fazer uma maluquice. Eu
  383. 12:34vou comprar um voo para lá
  384. 12:36eu sem ter nada para fazer, lugar nenhum
  385. 12:38para ir e eu vou bater lata, eu vou lá e
  386. 12:40vou bater. Eu não faço isso, eu vou
  387. 12:42fazer isso, fiz agora, semana passada.
  388. 12:44Aí fui, mapeei, falei, eu quero ir
  389. 12:46nesses cinco engenhos aqui.
  390. 12:48Cara, deu certo. Maluquice.
  391. 12:51Mas bati lata lá. Quem que é?
  392. 12:54Aí parei, uma senhora no ponto de
  393. 12:56ônibus, aí uma senhora no ponto de
  394. 12:58ônibus, essa aqui falou comigo assim,
  395. 12:59você tá maluco, você vai dar uma ré,
  396. 13:00mulher, a gente conhece. Falei, mas é
  397. 13:01assim, eu vou ter que fazer isso, como é
  398. 13:03que eu entro nesse lugar tudo fechado
  399. 13:04com cadeado?
  400. 13:05Aí cheguei para a mulher no ponto de
  401. 13:07ônibus, a senhora por acaso trabalha
  402. 13:08aqui dentro? Aí ela, trabalho.
  403. 13:11Trabalho, engenho d'água. Aí eu, como é
  404. 13:13que eu faço para falar com o dono? Hum,
  405. 13:14sinal de celular não pega.
  406. 13:16Mas ali dentro da porteira pega. Eu
  407. 13:18falei, você pode me ajudar?
  408. 13:19>> [risadas]
  409. 13:20>> A senhora saiu do ponto de ônibus, foi
  410. 13:22lá dentro, ligou para o dono, o dono
  411. 13:24veio na porteira me chamar, me falar.
  412. 13:26Aí eu apresentei meu projeto, conclusão,
  413. 13:28entramos, filmamos a casa inteira.
  414. 13:31Todos na Bahia foi desse jeito, bati
  415. 13:33lata.
  416. 13:34Ô, tio, vou filmar vocês aí.
  417. 13:36E aí deu certo, consegui vir de lá com
  418. 13:38todos que eu queria filmar filmados e
  419. 13:41vão entrar no meu livro, alguns deles
  420. 13:43vão entrar no meu livro de engenhos aí,
  421. 13:44deu certo, mas a gente já não fazia isso
  422. 13:46há muito tempo. E lá bater lata lá, ô,
  423. 13:49deixa eu entrar aí filmar, quem é você?
  424. 13:51Falei, digita na internet aí Fazendas
  425. 13:53Antigas, você vai ver que não é um
  426. 13:54charlatão não, você vai ver minha cara
  427. 13:56aí falando, não é mentira não. Aí o cara
  428. 13:58ia lá e digitava.
  429. 13:59Ué, mas você tem muito seguidor, ué, tem
  430. 14:01um monte de amigo meu que te segue, ué.
  431. 14:02>> [risadas]
  432. 14:03>> Aí eu, que bom, ué, você vai ver que não
  433. 14:05é ver, não é mentira não, aí deixava a
  434. 14:06gente filmar, cara.
  435. 14:09>> [risadas]
  436. 14:10>> E que outros estados do nordeste você
  437. 14:12falou, Pernambuco, Bahia?
  438. 14:13>> Sergipe,
  439. 14:14semana que vem a gente tá indo na
  440. 14:15Sergipe de novo.
  441. 14:17Porque querem que a gente tire fotos
  442. 14:19novas para entrar no livro, né, uma
  443. 14:20fazenda lá que a gente vai filmar que é
  444. 14:22a Engenho Dira.
  445. 14:23E também casas belíssimas, cara, o
  446. 14:25Engenho Dira, por exemplo, olha que
  447. 14:27impressionante,
  448. 14:28ele tem duas arquiteturas no mesmo
  449. 14:30engenho, a metade do engenho foi
  450. 14:32construído numa época e a metade em
  451. 14:33outra.
  452. 14:34Em vez de eles des, desmancharem,
  453. 14:37é, e fazer de novo um do zero, eles
  454. 14:39aumentaram só o casarão, então quando
  455. 14:41você olha para o casarão, a metade dele
  456. 14:43é colonial, antigo e a metade é gótico.
  457. 14:47Neogótico. As janelas ogivais, que é
  458. 14:50mais pontiaguda, cara, eu falo que é um
  459. 14:53casarão ímpar no Brasil, porque hoje ele
  460. 14:55é pintado todo igualzinho, então você
  461. 14:57olha uma casa só,
  462. 14:58metade com uma janela e porta e a metade
  463. 15:01com outra, um lado a porta é quadrada, a
  464. 15:03outra também é a entrada gótica, sabe,
  465. 15:06meio árabe assim, né, uma influência
  466. 15:07meio mourisca.
  467. 15:09E uma capela, sei lá, a uns 100 m da
  468. 15:12casa, a capela a uns 80 m da casa.
  469. 15:15E uma lenda de que tinha um túnel que ia
  470. 15:17de uma capela até a casa.
  471. 15:19>> Ah, olha.
  472. 15:20>> Aí aí acharam esse túnel lá.
  473. 15:22>> Acharam o túnel?
  474. 15:23>> É, e antigamente, se você pensar em
  475. 15:25guerra, você vê, Pernambuco, aqueles
  476. 15:27lugares lá, passou por invasões. Invasão
  477. 15:29holandesa, dependendo do período, porque
  478. 15:32a capela tem uma data lá do século XVII.
  479. 15:35Século XVII. Eu tenho quase certeza que
  480. 15:37é século XVII. Se você pensar nos
  481. 15:39períodos que se viviam, eles
  482. 15:41preocupavam. Tinha uma fuga de um
  483. 15:42alçapão na casa. Então na, alguém tomou
  484. 15:45sua casa.
  485. 15:46Você entra aqui, você, sai 100 m lá na
  486. 15:48capela e foge.
  487. 15:49>> vai embora.
  488. 15:50>> E vai embora.
  489. 15:50>> É rota de fuga.
  490. 15:51>> Rota de fuga.
  491. 15:52>> Olha que interessante.
  492. 15:53>> Interessante, cara. E a gente vê isso
  493. 15:55nas fazendas. Eu já encontrei várias
  494. 15:57fazendas com alçapão pro porão.
  495. 16:00Hoje eu moro numa fazenda. Você sabia
  496. 16:02que a gente pensa nisso?
  497. 16:05Anos depois, você pensa assim, cara, se
  498. 16:07você precisar sair daqui com pressa.
  499. 16:09>> Você vai pra onde? Você quer sair
  500. 16:11despercebido. Como é que você faz? Você
  501. 16:12vai, abre a porta principal e sai?
  502. 16:15Se hoje em dia a gente pensa
  503. 16:18e se, e se organiza pra isso, imagina
  504. 16:21antigamente.
  505. 16:22Que os caras não tinham câmera,
  506. 16:23internet. Hoje você tem um monte de
  507. 16:25cachorro bravo, câmera, você tem todo o
  508. 16:27recurso.
  509. 16:27>> É, não é? Por favor, isso, vai que o
  510. 16:29engenho tá cercado. Aí agora, que que eu
  511. 16:31faço?
  512. 16:31>> Agora você entra num túnel aqui e sai
  513. 16:33100 m lá.
  514. 16:34Entendeu?
  515. 16:35E ninguém sabe, porque é oculto, ninguém
  516. 16:37entra na tua casa, no teu quarto.
  517. 16:39E os escravos de dentro de casa, eles
  518. 16:41eram separados dos escravos de fora.
  519. 16:44Pra não ter contato e eu era, eu tratava
  520. 16:46eles melhor. Por quê? Você como um barão
  521. 16:48da casa, você, o filho do escravo, da
  522. 16:51escrava, não ia trabalhar na, na
  523. 16:53lavoura, ele ia ser carteiro, ele ia
  524. 16:56trabalhar com os cavalos, um trabalho
  525. 16:57mais leve.
  526. 16:59Pra você poder pensar assim, tá ruim do
  527. 17:01jeito que tá, mas tá pior lá.
  528. 17:04Então é melhor eu ficar quietinho aqui
  529. 17:06do jeito que tá.
  530. 17:07Era uma forma de represália velada,
  531. 17:10vamos dizer assim.
  532. 17:11>> de ameaça velada, né?
  533. 17:12>> Velada, uma ameaça velada. Então, ó, se
  534. 17:14tudo der certo, vai dar certo pra você
  535. 17:16também, você fica na sua. Por isso que
  536. 17:18você não vê tantos casos de
  537. 17:19envenenamento,
  538. 17:20porque os escravos eles sentiam medo de
  539. 17:23dar alguma coisa errada e eles terem que
  540. 17:25sofrer como os outros. Porque não foi um
  541. 17:28ano de escravidão.

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