OS ENGENHOS DO NORDESTE: COMO ESTÃO HOJE EM DIA — Transcript
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- 0:00ele me encanta. É, é muito bacana a
- 0:02gente poder ver essa essa diversidade
- 0:04dos casarões.
- 0:05>> Desde do Rio Grande do Sul até lá agora,
- 0:07cara, bem diferente, né?
- 0:08>> legal. E o o nordeste, a gente é
- 0:11fascinado pela por pelas lendas que a
- 0:13galera conta e os casarões são
- 0:15belíssimos. Por exemplo, a capa do meu
- 0:17livro é o engenho Poço Comprido,
- 0:20que eu acho ele fascinante porque a
- 0:22arquitetura muda completamente do que
- 0:24nós estamos falando, é aquela fachada
- 0:26imponente, dois andares, a varandada e a
- 0:29varanda liga direto na capela do lado da
- 0:32da casa e aquela capela barroca
- 0:35é impressionante. E aí
- 0:36>> Onde onde fica esse engenho?
- 0:37>> Ele fica em Vicência, ele é Recife,
- 0:40perto de Recife. Vicência é interior de
- 0:42Pernambuco, né?
- 0:44E é próximo mesmo, né? A gente vai no
- 0:47livro vão constar vários engenhos e
- 0:49talvez a maioria deles de Pernambuco,
- 0:52mas tem do nordeste todo, né? Mas a
- 0:54maioria deles de Pernambuco. Você vê
- 0:56também essa diversidade. Por exemplo, lá
- 0:58a gente visitou o engenho Gaipió.
- 1:02É, a gente visitou um engenho que estava
- 1:03fechado, nunca ninguém tinha entrado
- 1:05dentro para filmar. Olha isso que eu vou
- 1:07te falar, nunca.
- 1:08O proprietário faleceu e a família
- 1:11me conhecia, acompanhava nas redes. Eu
- 1:13fui surpreendido com eles
- 1:15falando que a gente podia gravar.
- 1:17Cara, eu na hora eu fui para lá. Nós
- 1:19gravamos tudo, tirei foto de tudo.
- 1:21Ninguém tem essas imagens porque
- 1:23nunca deixaram entrar.
- 1:26No vídeo pronto para ir para o ar, a
- 1:28família se arrependeu e falou assim, ó,
- 1:30guarda para você, mas não posta mais
- 1:32não.
- 1:32A gente desistiu de postar.
- 1:35Rapaz, eu filmei tudo, eu tô assim, até
- 1:38hoje eu eu fico louco que a galera não
- 1:40está podendo ver o que eu vi.
- 1:42De de lindo, de bacana, de maravilhoso.
- 1:45Ele é um solar imponente, dois andares,
- 1:47todo mundo passa em frente porque fica
- 1:49próximo de uma rodovia
- 1:51e nunca puderam entrar, o dono sempre
- 1:52morou lá e não permitia, sabe?
- 1:55Aí eu tô tentando que eles participem do
- 1:56meu livro, eu tô pedindo, pô, do livro
- 1:58pelo menos.
- 1:59Porque vai enobrecer, eu tô deixando
- 2:01ainda um espacinho para eles para
- 2:02participar. O livro vai ser lançado em
- 2:04outubro. E aí
- 2:06É, o Caipió, ele é tão curioso, tão
- 2:08bacana.
- 2:09Inclusive eles estão fazendo um hotel
- 2:11lá, eles estão se organizando para
- 2:12transformar em hotel. É em Ipojuca, que
- 2:14é Porto de Galinhas.
- 2:16Galera vem muito turismo das praias e
- 2:18tem que ver mesmo que é maravilhoso, mas
- 2:20se for lá e eles abrirem um hotel Pô,
- 2:23tem que dedicar um tempinho de conhecer.
- 2:25O Caipió, ele é tão bacana, além de
- 2:27várias histórias que tem lá, né? Que a
- 2:29sala de jantar
- 2:31Eles fizeram em estuque, no teto, a
- 2:34replicação da sala de jantar de mesa
- 2:36posta. Então quando você tá sentado aqui
- 2:39na mesa, que você olha para o teto Você
- 2:41vê
- 2:42A mesa posta no teto, como se fosse um
- 2:44espelho.
- 2:45>> Coisa interessante, olha.
- 2:47>> E muito interessante.
- 2:48>> que tiveram, hein?
- 2:49>> Mesa posta, com 24 lugares e os pratos e
- 2:53tudo.
- 2:54Só que em estuque é tipo um gesso, tá?
- 2:57É em material de estuque, então você
- 2:59olha, parece que é de gesso. Você olha,
- 3:01você vê a mesa com talheres, com prato,
- 3:04em cima de você. Uma É impressionante,
- 3:06caraca. O casarão, ele tem três andares,
- 3:08aí dizem que A Sinhá ficou presa na casa
- 3:12da torre por muitos anos, sabe?
- 3:14É, a gente encontra essas essas lendas e
- 3:16algumas são verdades mesmo, porque você
- 3:18vê que tem um biólogo que andou pelo
- 3:20Brasil, não me engano, foi um um
- 3:21naturalista, alguma coisa assim.
- 3:23E eu lendo sobre a andança dele, que ele
- 3:26relatou, ele falou: "Tia, uma visitei o
- 3:27Barão tal
- 3:28Fui na fazenda dele três vezes, ouvi
- 3:31dizer que ele tinha mulher e filhas, mas
- 3:33não as conheci".
- 3:34Você consegue hoje imaginar alguém no
- 3:36jantar na tua casa três vezes e não
- 3:38conhecer a tua mulher e teus filhos?
- 3:41E falar que ouviu dizer que ele tinha
- 3:43mulher e filha, mas não a conheci.
- 3:45Então existia essa separação na época,
- 3:48muito bem definida mesmo, isso não é uma
- 3:50falácia. E aí dizem que lá no Gaipió
- 3:53assim a ficava presa na casa da torre e
- 3:56lá tem um quartinho mesmo na torre com
- 3:57uma
- 3:58com uma janelinha, né? E aí são lendas
- 4:01que circulam, mas é maravilhoso. Você
- 4:03tem o engenho Gaipió que é um clássico,
- 4:05o engenho Sapucaji que fica no interior
- 4:07em Rio Escada que é maravilhoso. Os
- 4:09engenhos, né, foi numa fase de açúcar.
- 4:12E muitos desses escravos que trabalhavam
- 4:15lá, eles migraram pro sudeste com o auge
- 4:19do café.
- 4:20O café demandou de muita mão de obra.
- 4:23Então
- 4:24começou a ser vantajoso vender escravo
- 4:27do nordeste pro sudeste. E isso esse
- 4:30mercado aconteceu até porque começaram a
- 4:33ter de forma intensificada muitas leis
- 4:36proibindo
- 4:37>> Proibindo a venda de escravo.
- 4:39>> de escravos. Então teve uma teve então o
- 4:41interno. O interno e uma valorização
- 4:43maior do escravo de dentro.
- 4:45E eu tô falando assim porque eles tinham
- 4:47esse tratamento como mercadoria, né?
- 4:48Triste a gente falar isso, mas é
- 4:49verdade. Você pega os inventários de
- 4:51fazenda que eu já tive oportunidade de
- 4:52ver,
- 4:53cara, o o escravo, ele tá na seção de
- 4:57semoventes, cara.
- 4:59Junto com os bois.
- 5:00>> Triste, né?
- 5:01>> Junto com as mulas, os bois, não sei
- 5:03quê, aí vem a listagem dos escravos. É
- 5:06a gente não consegue imaginar o que se
- 5:08foi passado. Eu fiz um museu na minha
- 5:10fazenda lá na onde era senzala dos
- 5:13escravos domésticos, que era embaixo da
- 5:15casa.
- 5:16E aí eu fiz um museu, ela ainda tem
- 5:18aquele piso pé de moleque, que eram os
- 5:20escravos mirins que faziam encaixadinho.
- 5:23E aí lá dentro eu consegui com um
- 5:25colecionador de livros no Rio Grande do
- 5:27Sul
- 5:29uma foto de um livro de registro de
- 5:30cadeia
- 5:31de 1850
- 5:33no Rio Grande do Sul. E lá, cara, uma
- 5:35uma das páginas, igual o exemplo que eu
- 5:37vou dar, tem
- 5:39várias, mas um exemplo específico fala
- 5:41lá:
- 5:42O escravo Tobias foi preso por andar nas
- 5:45ruas fora de hora,
- 5:46às 11 da noite.
- 5:48Ou seja, ele foi ele não fez nada.
- 5:51Ele tava andando na rua 11:00 da noite.
- 5:54Ele foi preso. Aí a punição: "Sob os
- 5:56cuidados do delegado tal, tá tá tal, foi
- 5:59sentenciado uma pena de 50 açoites
- 6:04e no dia anterior, no dia seguinte
- 6:05liberado e solto".
- 6:07Meu amigo, você tá andando na rua 11:00
- 6:09da noite. Você não fez nada.
- 6:11Você levou 50 chibatada
- 6:13e foi solto no dia seguinte.
- 6:15Tem cabimento o negócio? A gente não
- 6:16consegue imaginar.
- 6:17>> Não consegue, né? É impressionante.
- 6:19>> Não é
- 6:20Foi uma coisa assim, impressionante. Nos
- 6:22engenhos Nos engenhos você vê isso lá
- 6:24tem. Você pega o engenho Roaé, por
- 6:25exemplo.
- 6:27Rapaz, o engenho Roaé tem as senzalas
- 6:28todas preservadas, o casarão, a antiga
- 6:31moita. No engenho Poço Comprido tem a
- 6:33moita. Era onde tinha a chaminé do
- 6:35engenho.
- 6:36E lá tem uma É isso é interessante que
- 6:39eu vou te falar.
- 6:40Eles têm lá uma lenda
- 6:42de que se você compra uma fazenda, você
- 6:44pode destruir ela inteira, mas você não
- 6:46pode destruir a moita do engenho, que é
- 6:48a chaminé.
- 6:49Cara,
- 6:50as usinas vão lá e compram as terras.
- 6:54Aí na terra que ela compra vem dois,
- 6:56três engenhos dentro, casarão de
- 6:57engenho.
- 6:59Ele derruba e planta cana.
- 7:01Mas a moita fica em pé.
- 7:04Ele derruba tudo, cara.
- 7:05Aí você tá passando na
- 7:06>> eles não têm coragem de derrubar.
- 7:07>> Não derruba as moitas. Você vai andando,
- 7:10as chaminés tão tudo em pé.
- 7:12Eles não derrubam.
- 7:13>> No meio do nada.
- 7:14>> No meio do nada. Não tem nada em volta,
- 7:16é cana plantada e uma chaminé em pé
- 7:17assim.
- 7:19Por conta de superstição, de falar que
- 7:21se você derrubar a chaminé, você vai
- 7:23atrair
- 7:25uma crise financeira, você não vai ser
- 7:27próspero.
- 7:28Você passa para tudo quanto é lugar tem
- 7:30uma moita em pé.
- 7:31Olha que doideira, cara.
- 7:33E a gente querendo que fosse Essa lenda
- 7:35virasse para os casarões, né? Se falasse
- 7:37que era que você não pode destruir os
- 7:38casarões, né? Que aí ia ter tudo de pé
- 7:40também, né, cara? É uma pena.
- 7:42>> Casarão. Você teve em Ilhéus?
- 7:44Não, nós fomos no interior perto de
- 7:46Ilhéus e visitamos lá fazenda de cacau.
- 7:49>> Isso, isso que eu perguntar por causa do
- 7:50do da de cacau. Como é que é a lógica da
- 7:53de cacau?
- 7:53>> Cara, é é legal a gente falar isso, né?
- 7:55Você vê que tem ciclos no Brasil todo,
- 7:58né cara? A de cacau a gente gostou muito
- 8:00também, casarões avarandados, mais
- 8:01rústicos, mais simples.
- 8:04Aquela varandona de fora a fora de
- 8:05madeira, lindo também. Se pode, se a
- 8:07pessoal que tá aí assistindo for lá no
- 8:09nosso canal, vai ver lá que a gente
- 8:11botou bem nítido lá essas fazendas de
- 8:13cacau lá. Tem as playlists, né?
- 8:15E aí você vai ver que são casarões
- 8:17avarandados, inclusive uma delas que é
- 8:19do Edu Cacau.
- 8:20Que é o cacau de lá é maravilhoso. A
- 8:22gente tomou o mel do cacau.
- 8:24Foi lindo. A gente ainda é em atividade,
- 8:26ainda está em atividade. É, a fazenda
- 8:28chama Fazenda Estrela do Sul e é do Edu
- 8:30Cacau, do Edu do Cacau.
- 8:32Essa fazenda, ele soltou uma jiboia no
- 8:35teto.
- 8:36Pra comer morcego, essas coisas. Então
- 8:38quando você chega lá,
- 8:40ele chegou de noite e falou assim: "Ó,
- 8:41se vocês forem no banheiro na noite, que
- 8:42é do lado de fora da casa,
- 8:44vocês não assusta não, porque tem uma
- 8:46jiboia que anda no teto aí".
- 8:48Toda de madeira a casa, cara. A casa é é
- 8:50elevada, porque às vezes tem enchente,
- 8:53essas coisas, né? Então a casa é elevada
- 8:55e toda ela de madeira.
- 8:57É linda. Eu eu particularmente acho
- 8:59lindo. Tem umas estatuetas de louça na
- 9:03entrada, na fachada principal. Ela é
- 9:05muito linda.
- 9:07A a vizinha dela que nós visitamos
- 9:09também, que é a Fazenda Boa Vista, tem
- 9:10pinturas na casa toda, embora seja toda
- 9:13de madeira, também muito linda, também
- 9:15de cacau.
- 9:16E mais simples,
- 9:17falando de arquitetura, entendeu? Já uma
- 9:20casa num estilo diferente do que a gente
- 9:23tá habituada a ver. Eles tinham a
- 9:25varandada, que é muito quente.
- 9:27E por ser muito calor,
- 9:29>> É mais água.
- 9:30>> É, eu falo muito, né cara? Você tem que
- 9:32me dosar aí, cara, me dá uma podada aí.
- 9:34>> Não, vai, vai em frente.
- 9:37>> Essa lá é muito quente, então a casa é
- 9:40muito arejada, aí tem esse varandão de
- 9:41fora a fora.
- 9:43É muito típico e característico aquelas
- 9:45casas, inclusive às vezes em alguma
- 9:47novela de época você vê eles retratando
- 9:49isso, até em novelas cenográficas aí
- 9:52você vê eles retratando isso com essa
- 9:54casa de madeira varandada.
- 9:56Linda também.
- 9:57>> Que ano que é essa daí?
- 9:59>> Ah, é século XIX também,
- 10:01também, né? Eu, as fazendas mais antigas
- 10:03que eu visitei
- 10:05eu posso falar que foi a Chácara do
- 10:06Rosário, foi o Castelo Garcia D'Ávila.
- 10:09>> Não, não, digo aí na região lá.
- 10:11>> É, aí é século XIX, 1800 e
- 10:131850,
- 10:151800.
- 10:15>> E elas são abertas à visitação, essas do
- 10:17cacau, as fazendas de cacau?
- 10:19>> Então,
- 10:20não é aberta à visitação.
- 10:22Mas o Edu faz algum trabalho assim com
- 10:25relação ao cacau, não à fazenda, sabe?
- 10:29Mas ele pega firme lá nessa venda de
- 10:31cacau, eles são ainda, é o cacau
- 10:33sombreado, né, que a gente viu lá, e de
- 10:36muita qualidade, eles, enfim, são fortes
- 10:39nisso.
- 10:40É, em Ilhéus tem uma que a gente não foi
- 10:42ainda, mas eles me mandaram um alôzinho
- 10:44para quando eu passar por lá e visitar e
- 10:46acabou que eu não passei ainda. O que
- 10:47que acontece? Só para você entender a
- 10:49lógica de como é que eu visito uma
- 10:50fazenda hoje.
- 10:52As pessoas às vezes me mandam dicas de
- 10:54fazenda.
- 10:55O que que conta para mim, você tá aí
- 10:56assistindo que é que a gente vai visitar
- 10:57uma fazenda?
- 10:59Às vezes a fazenda é do lado da casa de
- 11:00alguém. Pô, vai lá, pega o contato do
- 11:02dono para mim.
- 11:04Eu preciso ter o contato, que aí eu na
- 11:06cara de pau ligo, apresento meu trabalho
- 11:09e hoje, graças a Deus, o nosso trabalho
- 11:11tá bem conhecido no universo de fazenda,
- 11:14é um nicho.
- 11:15Geralmente hoje em dia o dono de fazenda
- 11:17conhece meu trabalho. Tá difícil um que
- 11:19não conheça. E a gente tá sendo bem
- 11:21surpreendido positivamente de entrar em
- 11:24contato e a pessoa se sentir honrada com
- 11:26nosso contato e querer que a gente vá
- 11:28visitar.
- 11:29Então isso abrevia a nossa ida em algum
- 11:31lugar. É isso que tem acontecido. Às
- 11:34vezes o cara é muito de idade, ele nem
- 11:35tem rede social, ele não vai conhecer a
- 11:37gente. Mas quando ele é um pouco mais
- 11:39jovem, às vezes o filho dele, alguma
- 11:40coisa assim, já achou a gente e facilita
- 11:43esse caminho para a gente visitar. Então
- 11:44sempre o contato é importante
- 11:47e fazer essa ponte com os donos de
- 11:48fazenda. Hoje a gente trabalha muito com
- 11:50visita, é convite.
- 11:52Paulo Vitor, vem aqui para você conhecer
- 11:54a nossa fazenda. Aí eu já vou agendado,
- 11:56eu não faço mais aquela de ir bater
- 11:58lata.
- 11:59Chegar lá
- 12:00>> Olá, tá baixando a porta, posso visitar?
- 12:02>> É, eu não faço mais isso. Eu já fiz.
- 12:05Hoje é só hum, 100% do que a gente
- 12:07visita hoje é com convite.
- 12:10Isso é bom porque aí eu não perco mais
- 12:11tempo, entendeu? Me ajuda muito. A gente
- 12:13foi agora para a Bahia
- 12:15só porque eu precisava
- 12:16>> Fora do cacau.
- 12:17>> Fora do cacau, só porque eu precisava,
- 12:20eu queria ter engenhos da Bahia.
- 12:22Cara, eu nunca consegui acesso na Bahia,
- 12:24impressionante, me surpreendeu. Porque
- 12:26eu tenho acesso em muitas regiões do
- 12:27Brasil, mas na Bahia eu não conseguia
- 12:29nada. E eu queria um engenho da Bahia no
- 12:31meu livro. Que que eu fiz? Falei, meu
- 12:33irmão, eu vou fazer uma maluquice. Eu
- 12:34vou comprar um voo para lá
- 12:36eu sem ter nada para fazer, lugar nenhum
- 12:38para ir e eu vou bater lata, eu vou lá e
- 12:40vou bater. Eu não faço isso, eu vou
- 12:42fazer isso, fiz agora, semana passada.
- 12:44Aí fui, mapeei, falei, eu quero ir
- 12:46nesses cinco engenhos aqui.
- 12:48Cara, deu certo. Maluquice.
- 12:51Mas bati lata lá. Quem que é?
- 12:54Aí parei, uma senhora no ponto de
- 12:56ônibus, aí uma senhora no ponto de
- 12:58ônibus, essa aqui falou comigo assim,
- 12:59você tá maluco, você vai dar uma ré,
- 13:00mulher, a gente conhece. Falei, mas é
- 13:01assim, eu vou ter que fazer isso, como é
- 13:03que eu entro nesse lugar tudo fechado
- 13:04com cadeado?
- 13:05Aí cheguei para a mulher no ponto de
- 13:07ônibus, a senhora por acaso trabalha
- 13:08aqui dentro? Aí ela, trabalho.
- 13:11Trabalho, engenho d'água. Aí eu, como é
- 13:13que eu faço para falar com o dono? Hum,
- 13:14sinal de celular não pega.
- 13:16Mas ali dentro da porteira pega. Eu
- 13:18falei, você pode me ajudar?
- 13:19>> [risadas]
- 13:20>> A senhora saiu do ponto de ônibus, foi
- 13:22lá dentro, ligou para o dono, o dono
- 13:24veio na porteira me chamar, me falar.
- 13:26Aí eu apresentei meu projeto, conclusão,
- 13:28entramos, filmamos a casa inteira.
- 13:31Todos na Bahia foi desse jeito, bati
- 13:33lata.
- 13:34Ô, tio, vou filmar vocês aí.
- 13:36E aí deu certo, consegui vir de lá com
- 13:38todos que eu queria filmar filmados e
- 13:41vão entrar no meu livro, alguns deles
- 13:43vão entrar no meu livro de engenhos aí,
- 13:44deu certo, mas a gente já não fazia isso
- 13:46há muito tempo. E lá bater lata lá, ô,
- 13:49deixa eu entrar aí filmar, quem é você?
- 13:51Falei, digita na internet aí Fazendas
- 13:53Antigas, você vai ver que não é um
- 13:54charlatão não, você vai ver minha cara
- 13:56aí falando, não é mentira não. Aí o cara
- 13:58ia lá e digitava.
- 13:59Ué, mas você tem muito seguidor, ué, tem
- 14:01um monte de amigo meu que te segue, ué.
- 14:02>> [risadas]
- 14:03>> Aí eu, que bom, ué, você vai ver que não
- 14:05é ver, não é mentira não, aí deixava a
- 14:06gente filmar, cara.
- 14:09>> [risadas]
- 14:10>> E que outros estados do nordeste você
- 14:12falou, Pernambuco, Bahia?
- 14:13>> Sergipe,
- 14:14semana que vem a gente tá indo na
- 14:15Sergipe de novo.
- 14:17Porque querem que a gente tire fotos
- 14:19novas para entrar no livro, né, uma
- 14:20fazenda lá que a gente vai filmar que é
- 14:22a Engenho Dira.
- 14:23E também casas belíssimas, cara, o
- 14:25Engenho Dira, por exemplo, olha que
- 14:27impressionante,
- 14:28ele tem duas arquiteturas no mesmo
- 14:30engenho, a metade do engenho foi
- 14:32construído numa época e a metade em
- 14:33outra.
- 14:34Em vez de eles des, desmancharem,
- 14:37é, e fazer de novo um do zero, eles
- 14:39aumentaram só o casarão, então quando
- 14:41você olha para o casarão, a metade dele
- 14:43é colonial, antigo e a metade é gótico.
- 14:47Neogótico. As janelas ogivais, que é
- 14:50mais pontiaguda, cara, eu falo que é um
- 14:53casarão ímpar no Brasil, porque hoje ele
- 14:55é pintado todo igualzinho, então você
- 14:57olha uma casa só,
- 14:58metade com uma janela e porta e a metade
- 15:01com outra, um lado a porta é quadrada, a
- 15:03outra também é a entrada gótica, sabe,
- 15:06meio árabe assim, né, uma influência
- 15:07meio mourisca.
- 15:09E uma capela, sei lá, a uns 100 m da
- 15:12casa, a capela a uns 80 m da casa.
- 15:15E uma lenda de que tinha um túnel que ia
- 15:17de uma capela até a casa.
- 15:19>> Ah, olha.
- 15:20>> Aí aí acharam esse túnel lá.
- 15:22>> Acharam o túnel?
- 15:23>> É, e antigamente, se você pensar em
- 15:25guerra, você vê, Pernambuco, aqueles
- 15:27lugares lá, passou por invasões. Invasão
- 15:29holandesa, dependendo do período, porque
- 15:32a capela tem uma data lá do século XVII.
- 15:35Século XVII. Eu tenho quase certeza que
- 15:37é século XVII. Se você pensar nos
- 15:39períodos que se viviam, eles
- 15:41preocupavam. Tinha uma fuga de um
- 15:42alçapão na casa. Então na, alguém tomou
- 15:45sua casa.
- 15:46Você entra aqui, você, sai 100 m lá na
- 15:48capela e foge.
- 15:49>> vai embora.
- 15:50>> E vai embora.
- 15:50>> É rota de fuga.
- 15:51>> Rota de fuga.
- 15:52>> Olha que interessante.
- 15:53>> Interessante, cara. E a gente vê isso
- 15:55nas fazendas. Eu já encontrei várias
- 15:57fazendas com alçapão pro porão.
- 16:00Hoje eu moro numa fazenda. Você sabia
- 16:02que a gente pensa nisso?
- 16:05Anos depois, você pensa assim, cara, se
- 16:07você precisar sair daqui com pressa.
- 16:09>> Você vai pra onde? Você quer sair
- 16:11despercebido. Como é que você faz? Você
- 16:12vai, abre a porta principal e sai?
- 16:15Se hoje em dia a gente pensa
- 16:18e se, e se organiza pra isso, imagina
- 16:21antigamente.
- 16:22Que os caras não tinham câmera,
- 16:23internet. Hoje você tem um monte de
- 16:25cachorro bravo, câmera, você tem todo o
- 16:27recurso.
- 16:27>> É, não é? Por favor, isso, vai que o
- 16:29engenho tá cercado. Aí agora, que que eu
- 16:31faço?
- 16:31>> Agora você entra num túnel aqui e sai
- 16:33100 m lá.
- 16:34Entendeu?
- 16:35E ninguém sabe, porque é oculto, ninguém
- 16:37entra na tua casa, no teu quarto.
- 16:39E os escravos de dentro de casa, eles
- 16:41eram separados dos escravos de fora.
- 16:44Pra não ter contato e eu era, eu tratava
- 16:46eles melhor. Por quê? Você como um barão
- 16:48da casa, você, o filho do escravo, da
- 16:51escrava, não ia trabalhar na, na
- 16:53lavoura, ele ia ser carteiro, ele ia
- 16:56trabalhar com os cavalos, um trabalho
- 16:57mais leve.
- 16:59Pra você poder pensar assim, tá ruim do
- 17:01jeito que tá, mas tá pior lá.
- 17:04Então é melhor eu ficar quietinho aqui
- 17:06do jeito que tá.
- 17:07Era uma forma de represália velada,
- 17:10vamos dizer assim.
- 17:11>> de ameaça velada, né?
- 17:12>> Velada, uma ameaça velada. Então, ó, se
- 17:14tudo der certo, vai dar certo pra você
- 17:16também, você fica na sua. Por isso que
- 17:18você não vê tantos casos de
- 17:19envenenamento,
- 17:20porque os escravos eles sentiam medo de
- 17:23dar alguma coisa errada e eles terem que
- 17:25sofrer como os outros. Porque não foi um
- 17:28ano de escravidão.
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