O que aprendi dando aula dentro da cadeia? — Transcript
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- 0:00021 desenrolado está no ar. Meu nome é
- 0:03Leandro Pontes, sou policial civil do
- 0:04Rio de Janeiro há mais de 20 anos. Ao
- 0:07meu lado está Carlos Gutenberg, que
- 0:09viveu no sistema prisional também por
- 0:11mais de 20 anos. E o nosso entrevistado
- 0:14de hoje é o querido professor Rodrigo
- 0:17Melo, o qual tem compartilhado nas redes
- 0:19sociais sua experiência como professor
- 0:22nos presídios do Rio. E este é o
- 0:24podcast, como sempre fala,
- 0:27>> mais improvável da internet brasileira.
- 0:30>> Mais improvável. [risadas]
- 0:31E nós estamos aqui para compartilhar
- 0:33essa troca de ideias. E a primeira
- 0:35pergunta que eu quero fazer agora pro
- 0:38querido Rodrigo é o seguinte: como você
- 0:41foi parar dentro do sistema prisional
- 0:45dando aula? Nos conta um pouco dessa
- 0:46história aí, dessa trajetória.
- 0:48>> Como eu fui parar na cadeia, né? Que
- 0:50você [risadas]
- 0:52>> eh boa tarde, rapaziada que tá em casa.
- 0:53Boa tarde, Ponte. Boa tarde, Guto.
- 0:56>> Boa tarde.
- 0:56>> Eh, eu sou professor do estado aqui no
- 0:59Rio de Janeiro. O meu concurso foi para
- 1:01Busos e
- 1:05chegando em Busos com uma matrícula,
- 1:06depois eu fiz um outro concurso,
- 1:08consegui mais uma matrícula. Fiquei
- 1:10alguns anos ali, três anos ali naquela
- 1:11cidade, que foi uma experiência muito
- 1:13boa, muito marcante, uma escola que eu
- 1:14gostava muito. E depois disso eu acabei
- 1:17indo pra região serrana, para Friburgo,
- 1:19onde eu trabalhei ali na na região de
- 1:22Lumiar e São Pedro da Serra. Fiquei mais
- 1:24dois anos ali até um momento em que
- 1:27reviravoltas na vida, tinha acabado um
- 1:29relacionamento, a própria estadia ali
- 1:32naquela cidade que para mim era, pô, era
- 1:36era muito frio, era um frio com o qual
- 1:37eu não tava acostumado, um lugar que
- 1:39chovia muito e eu sempre fui muito aqui,
- 1:41pô, da praia, sol, digamos que uma
- 1:44figura meio solar. Então aquilo ali
- 1:46começou a me angustiar num determinado
- 1:48momento e eu entendi que eu precisava
- 1:50voltar pro Rio de Janeiro, como se eu já
- 1:52tivesse muito recluso, assim, muito eh
- 1:55eremitão por muito tempo ali naquele
- 1:57lugar. e começou a dar essa vontade de
- 1:59voltar pro Rio e comecei a fazer meus
- 2:01movimentos nesse sentido. E aí, nessa
- 2:04tentativa de encontrar um caminho para
- 2:05voltar pro Rio, porque no estado essas
- 2:07transferências nem sempre são muito
- 2:10tranquilas, não esses caminhos
- 2:12burocráticos não costumam ser fáceis, me
- 2:15surgiu essa ideia de dar aula em escola
- 2:17prisional, que é algo que até certo
- 2:20momento eu nem sabia que existia, mas
- 2:22uma vez lá na serra conversando com um
- 2:24amigo que também já tinha tirado uma
- 2:26cadeia, ele comentou sobre isso,
- 2:28inclusive me perguntando se eu saberia
- 2:30como ajudar ele a conseguir o histórico.
- 2:33escolar dele. E aí, mas foi uma conversa
- 2:35completamente inusitada, nada a ver com
- 2:37nada. E eu disse que não sabia, não
- 2:39sabia nem que tinha escola na cadeia. E
- 2:41algum tempo depois, quando eu mergulhei
- 2:43nessa crise de querer voltar pro Rio de
- 2:45Janeiro, eu lembrei dessa informação.
- 2:47Existe escola na cadeia. E ao mesmo
- 2:49tempo eu comecei a conectar com várias
- 2:51coisas que já existiam dentro de mim,
- 2:53que sempre existiram, que é o que eu
- 2:54costumo falar que eu sempre tive um
- 2:57certo tipo de atração pro por todo tipo
- 2:59de
- 3:01marginal, vamos dizer assim, por pessoas
- 3:03que de alguma forma vivem à margem da
- 3:05sociedade, vivem vidas diferentes
- 3:08daquilo que a sociedade tem como normal,
- 3:10como aceitável. Então, seja o bandido,
- 3:13mendigo, vagabundo de todo tipo, [ __ ]
- 3:15tralha. Sempre me atraiu o modo de viver
- 3:19do tralha. E aí eu falo isso, às vezes
- 3:21muita gente pode interpretar de maneiras
- 3:24das maneiras mais variadas possíveis.
- 3:27Ah, tu gosta de vagabundo, [ __ ] Se
- 3:29quiser entender assim, fica à vontade
- 3:31também. Não, não, não, não me afeta. Mas
- 3:33não é exatamente isso, né? Eu sempre
- 3:35tive uma curiosidade muito grande com o
- 3:37diferente. Então, talvez justamente por
- 3:40ser algo muito diferente de mim, um
- 3:41universo que eu de fato eu não consigo
- 3:45compreender. São modos de vida muito
- 3:47distantes, mundos muito distantes no
- 3:49meu. Eu eu eu sinto vontade, sempre
- 3:51senti muita vontade de compreender isso.
- 3:53E nesse momento eu achei que as coisas
- 3:55se casaram, se encontraram. Eu falei:
- 3:57"Pô, tenho uma necessidade real, um
- 3:58problema para resolver e ao mesmo tempo
- 4:01tem algo aí que, [ __ ] poderia ser algo
- 4:03muito interessante, algo que de alguma
- 4:04forma eu desejo há muito tempo e talvez
- 4:08essas coisas se encontrem." E comecei a
- 4:09botar o processo pra frente ali e numa
- 4:12série de processos aí que a gente pode
- 4:14entender talvez até como miraculosos, as
- 4:16coisas andaram muito rápido. Eh, acabei
- 4:18conseguindo essa transferência e vim pro
- 4:21Rio para chegar para dar aula no
- 4:22presídio. E desde então tô aqui há 7
- 4:25anos já. E tem sido uma experiência
- 4:27maravilhosa. Todo dia uma novidade, todo
- 4:30dia [limpando a garganta] um encontro
- 4:31diferente e aprendendo muito.
- 4:33>> Eu durante você dando essa explicação,
- 4:36me lembrei de uma de Jesus. Olha que
- 4:38interessante, né? Quando ele [risadas]
- 4:40quando ele fala assim, eh, o Rodrigo, eu
- 4:42gosto de andar com [ __ ] entender a
- 4:44cabeça do vagabundo, do malandro. Aí eu
- 4:46me lembro que Jesus falava a mesma
- 4:48coisa, olha só, questionavam ele porque
- 4:50ele só andava com [ __ ] malandro, só com
- 4:52gente que não prestava. era o cobrador
- 4:54de impostos, meu irmão. É, era meu irmão
- 4:56com soldado romano também. E aí
- 4:59perguntavam para ele, como é que esse
- 5:00cara daí diz que ele é bom se ele só
- 5:02anda com quem não presta? Aí ele falou:
- 5:03"Olha só, você que é bom, tu não precisa
- 5:06de mim não. Eu vi foi pros doentes, né?
- 5:09É, é uma
- 5:10>> essa contradição eu acho muito aparente
- 5:13contradição, né? Porque acaba refletindo
- 5:15essa hipocrisia. Eu acho interessante
- 5:17que você consegue transmitir isso. Olha
- 5:19o Gutenberg que tá aqui, o Guto que é um
- 5:22retrato disso. Como ele era como
- 5:23professor lá, Guto, conta aí pra gente
- 5:25aí que agora é sua vez de [risadas]
- 5:26>> detonar o teu professor. Eu quero saber,
- 5:28né,
- 5:29>> sobre só continuando o que você tava
- 5:30falando. É interessante isso daí mesmo,
- 5:33cara, que as pessoas não percebem isso.
- 5:36Eu eh se o às vezes tem pessoas existem
- 5:40são individualidades, né, cara? Tem
- 5:42pessoas de diversos tipos em todos os
- 5:45lugares, inclusive na igreja. Mas as
- 5:47pessoas não entendem que se Jesus viesse
- 5:49hoje, ele não ia pra igreja, irmão. A
- 5:51igreja ia ser quem Jesus ia
- 5:54>> ia ser crucificado de novo pela igreja.
- 5:56>> É, ia ser de quem? [risadas] Jesus ser
- 5:58fuzilado.
- 5:59>> Tá entendendo? Jesus ia tá na
- 6:01cracolândia. Jesus pela vagabundade, é
- 6:03pela religião,
- 6:04>> entendeu? Jesus ia tá só nesses lugares
- 6:06aí, escusos aí que as pessoas não
- 6:09conseguem enxergar isso, tá entendendo?
- 6:11A igreja ia ser, ia ser apartada, ia ser
- 6:14apartada a igreja se Jesus viesse hoje
- 6:15em dia. Sim.
- 6:16>> Agora, pô, quem é professor, né, cara?
- 6:19Pô, professor aí, irmão, não pode nem
- 6:21falar essas barri [ __ ] irmão. Professor
- 6:23aí [risadas] é [ __ ]
- 6:25tá entendendo? Porque eu converso muito
- 6:29com ele, cara. E ele é uma pessoa que
- 6:33assim, a gente vai descobrindo as
- 6:34coisas, né, cara, que a gente sabe, mas
- 6:37como colocar em palavras? O professor
- 6:39consegue, conseguiu se infiltrar na
- 6:42cadeia, irmão. Tá entendendo? Porque o
- 6:44que que acontece na cadeia?
- 6:47O professor, entre aspas, existe um
- 6:50respeito pelo professor
- 6:53de uma forma que você não pode falar o
- 6:55que acontece, você não pode
- 6:57transparecer,
- 6:58você não pode falar. Existem coisas que
- 7:01acontecem
- 7:02intramuro, que você não pode
- 7:04transparecer professor, que é até uma
- 7:06mancada. Se se os outros pegar a visão
- 7:08que você tá falando aquele tipo de coisa
- 7:10com o professor ali, você tipo entra na
- 7:12mancada. Mas o professor a a atitude
- 7:15dele, a forma dele de trabalhar, a forma
- 7:18de dar aula dele e a forma dele de agir
- 7:20dentro daquele lugar, ele conseguiu tipo
- 7:23se
- 7:27>> destacar.
- 7:28Não, ao contrário, ele conseguiu se
- 7:29infiltrar [risadas]
- 7:31da na cadeia a ponto de ter, tipo, todo
- 7:34mundo gosta dele, irmão. É melhor aula,
- 7:36todo mundo se amarra, os outros saem de
- 7:37outra aula para poder e tem que ficar
- 7:39controlando para não ser tipo antiético
- 7:41do dos outros sair de outra aula para ir
- 7:43pra aula dele, tá entendendo? E pô,
- 7:46mano, sem palavra. E e eu e ele a gente
- 7:49tem um jeito assim, irmão, assim, eu vou
- 7:51falar agora uma parada que é bem
- 7:53escrota,
- 7:54sabe? É tipo esse clichê, clichê de de
- 7:58de
- 8:00>> como é que eu vou falar para você?
- 8:01Clichê de de amizade. É um bagulho que
- 8:04eu e ele a gente não se você é mais
- 8:07adepto dessas paradas assim pelo teu
- 8:08jeito, [risadas] mas eu e ele não somos
- 8:10dessa parada. Mas pô, maior prazer,
- 8:12maior honra, tá entendendo? Tudo que eu
- 8:15faço com esse cara aí, tá entendendo?
- 8:16participar desse projeto e conversar com
- 8:19ele uma vez, cara, eu tava falando
- 8:20>> adepto também, cara. [risadas]
- 8:22>> Uma vez eu tava falando com ele,
- 8:23>> é emocionado. É o polícia emocionado,
- 8:25né? O polícia sou sentimental.
- 8:27>> Não, você é adepto a isso. Nós nós não
- 8:30somos vocês são mais
- 8:32>> é [risadas]
- 8:33chegar. É uma honra tá com ele. A gente
- 8:36não é uma parada economia,
- 8:37>> tá implícito, né? Tá implícito. A gente
- 8:39já sabe já.
- 8:40>> Não tem essa [ __ ] Não tem essa
- 8:41[ __ ] [risadas]
- 8:43Para poder finalizar, eu tinha dúvida
- 8:45sobre a minha amizade por ele, porque é
- 8:48fácil eu ser amigo dele, tá entendendo?
- 8:51Agora ele ser meu amigo, eu sou só mais
- 8:52um preso. Então eu questionei isso, eu
- 8:55falei isso para ele uma vez conversando,
- 8:56pô, cara, eu não converso com ninguém
- 8:59não, irmão? Então foi um argumento bem
- 9:01Então, para mim é maior prazer, irmão,
- 9:03tá aqui hoje com ele aqui, ter estendido
- 9:04essa amizade que começou lá dentro, tá
- 9:07entendendo? Mas eu queria saber, irmão,
- 9:10a gente chegou já pra frente, irmão. Eu
- 9:12acho que eu queria que ele contasse uma
- 9:14parada para começar.
- 9:16>> Uma parada que ele tem que contar,
- 9:17irmão. Tá entendendo? Por mais que às
- 9:18vezes ele já passou em outro podcast, é
- 9:20uma história que eu fiquei sabendo eh
- 9:24antes de ver no podcast. No podcast eu
- 9:26vi. E eu acho que essa daí antes de
- 9:28chegar na cadeia aconteceu uma parada.
- 9:30Eu quero que o professor conte aqui. Eh,
- 9:32não vai ter caderno, irmão. Conta essa
- 9:34[risadas] daí,
- 9:35>> pô. Papo reto. Essa daí não pode. Essa
- 9:38daí é
- 9:39>> tá eh foi uma história que aconteceu lá
- 9:42na nesse período que eu tava na serra,
- 9:44né? Eh, eu eu quando cheguei no estado
- 9:47para dar aula, eu eu posso dizer que eu
- 9:49cheguei muito acelerado, assim, eh, a
- 9:52escola sempre foi um ambiente muito
- 9:54desconfortável para mim, né? O processo
- 9:57de me tornar professor foi realmente um
- 9:59um processo duro assim de descoberta, de
- 10:02aceitação, que eu demorei para aceitar
- 10:04isso justamente porque a escola sempre
- 10:06foi para mim um ambiente muito opressor,
- 10:09apesar de eu mesmo me dar bem. Tu
- 10:11estudou comigo, a gente sabe, a gente
- 10:12estudava, pô, nunca fui o mau aluno, só
- 10:15que o fato de, [ __ ] ter sido bom aluno
- 10:17não me impedia de perceber o sistema
- 10:19estrutural do ensino, como é que é, né,
- 10:21de como aquilo ali de alguma de alguma
- 10:23forma limita muito as pessoas.
- 10:26Então, se por um lado você tem pessoas
- 10:28que vão conseguir encontrar eh um uma
- 10:31certa um certo modo de canalização
- 10:33paraos seus dons naquele sistema, é uma
- 10:35galera muito pequena e eu me adequei
- 10:38àquele sistema. eu de alguma forma
- 10:40consegui me explorar bem através daquele
- 10:41sistema, só que talvez a grande maioria
- 10:44das pessoas não se adequam e acaba
- 10:45ficando de fora. Então e e esse essa
- 10:48estrutura excludente da escola sempre me
- 10:50angustiou muito.
- 10:51>> Só fazendo um um paço para você
- 10:52continuar, desculpa te interromper, para
- 10:54que todos possam compreender. O Rodrigo,
- 10:57ele estudou no colégio militar comigo,
- 10:59onde nós começamos uma amizade. Depois
- 11:02ele foi paraa Spesseex, foi paraa AM,
- 11:04passou depois por algumas universidades
- 11:06e eh públicas. Ele não gosta de falar o
- 11:09currículo dele, mas eu acho interessante
- 11:13expor que ele é contra essa questão do
- 11:16currículo lá no sentido de qualificá-lo.
- 11:19Ele entende que não. Mas paraa sociedade
- 11:22às vezes é bom entender porque o Rodrigo
- 11:24no que ele fala, o que ele expõe, ele é
- 11:26qualificado perante a sociedade, por
- 11:28mais que ele negue negue ou despreze de
- 11:31certa forma essa qualificação. Ele é
- 11:32formado pela PUC do Rio de Janeiro e
- 11:34filosofia. Então, todo esse caldeirão
- 11:37que existe de ideias fervescentes que
- 11:41que nós vemos diversas vezes ali na como
- 11:44ele trata, como ele trata os casos, com
- 11:46uma conclusão vem disso daí. Toda essa
- 11:49mistura foi jogada ali no sistema
- 11:52prisional. Agora eu fiz essa interrupção
- 11:54para que ele possa continuar, porque
- 11:56vocês precisavam entender quando ele
- 11:58critica a instituição, qual é a
- 11:59instituição? uma instituição que ele
- 12:01venceu, ele conseguiu superar barreiras
- 12:04de de concurso para estar ali e acaba
- 12:07sendo um exemplo mais que ele questiona.
- 12:09Então ele tem autoridade para fazer esse
- 12:11questionamento.
- 12:12>> Ele não gosta do jogo, mas joga muito
- 12:13bem. É, é, é tipo isso assim. Não, não é
- 12:15que eu negue, eu, eu não nego, mas ao
- 12:18mesmo tempo eu não acho que eu deva ser
- 12:19validado por isso. Eu acho que se eu eu
- 12:21tô falando algo aqui, ou você é capaz
- 12:23de, pô, acessar o que eu tô falando, de
- 12:25ver a verdade no que eu tô falando, não
- 12:27tô falando verdade no sentido de
- 12:28contrário, de mentira, mas a verdade no
- 12:30sentido da integridade da coisa. Ou
- 12:31então, irmão, não tem título que vai
- 12:33fazer, não é por aí. que mais tem no
- 12:36mundo hoje é a gente cheia de título,
- 12:37pô, e completamente vazia de de
- 12:39conhecimento, realmente. Então, eh,
- 12:43OK, quem gosta tá tranquilo, mas não é o
- 12:45caminho,
- 12:46>> tá? A gente trilha os caminhos, trilhei
- 12:48os caminhos que eu tive que trilhar, fiz
- 12:49o que eu tinha que fazer, mas não é a
- 12:52minha onda. Vamos lá, retomando aqui.
- 12:54Então, tudo isso para falar que eu
- 12:55sempre fui um professor que nunca me
- 12:56sentiu muito à vontade dentro da escola
- 12:59e que eu demorei muito a me aceitar como
- 13:01professor por causa disso. Mas no
- 13:02momento que eu me aceitei, que eu fiz o
- 13:03concurso, que eu cheguei no estado para
- 13:05dar aula, eh, eu cheguei muito acelerado
- 13:08assim na escola. Então eu era aquele
- 13:10professor meio que revolucionário assim,
- 13:12que tipo, eu batia de frente com todo
- 13:14mundo, eu nunca me dei bem com outros
- 13:16professores, [risadas] direção me
- 13:18odiava, eu era o cara assim que por
- 13:21>> porque eu criticava tudo, tudo tava
- 13:23errado, tudo eu tava batendo de frente.
- 13:25Conselho de classe era uma coisa que me
- 13:27irritava profundamente, que aquela
- 13:29reunião eh, como que eu posso falar
- 13:32isso? Vamos falar da maneira, vamos
- 13:33falar, vamos vomitar, né? E eu não tô
- 13:36falando mal da classe dos professores,
- 13:37mas em qualquer lugar, você é policial,
- 13:39[ __ ] eu sou professor, o cara é
- 13:41médico, em qualquer lugar da sociedade,
- 13:44a maioria é medíocre.
- 13:47A maioria das pessoas é med a maioria tá
- 13:49na média, tem a galera que tá muito
- 13:51abaixo e tem alguns que, [ __ ] tão
- 13:52assim, é assim com tudo. Então eu
- 13:55chegava nesse ambiente que, [ __ ] é um
- 13:57ambiente de mediocridade e eu ficava
- 13:58vendo por conselho de classe, por
- 14:00exemplo, aquela galera que tu fala,
- 14:01[ __ ] a galera não tá com essa moral
- 14:03toda e ficava ali naquele reme reme de
- 14:06ficar falando mal de aluno, de ficar
- 14:07falando mal de aluno. É sempre aquela
- 14:08história do aluno não quer nada, o aluno
- 14:11não quer nada, mas ninguém quer pensar a
- 14:12si mesmo. Ninguém quer pensar o
- 14:14professor que é, ninguém quer pensar a
- 14:16aula que dá, ninguém quer pensar a
- 14:18escola como é. E aquilo me irritava
- 14:20profundamente, me irritava me aquilo me
- 14:23angustiava profundamente e eu nunca fui
- 14:26de conseguir ficar calado. Então, com
- 14:29respeito, com educação, eu começava a
- 14:31entrar para todo mundo. Isso
- 14:32naturalmente criava, pô, desconfortos no
- 14:35ambiente. E eu sempre tive essa parada
- 14:37assim meio que de gostar de uma certa de
- 14:40deixar os outros desconfortáveis assim,
- 14:42tá ligado? Assim, não é de sacanagem,
- 14:44mas
- 14:46>> provocar,
- 14:46>> provocar uma coisa de provocação assim.
- 14:49Até para que houvesse uma mudança.
- 14:50>> Quando eu vejo uma pessoa, pô, querendo
- 14:51contar uma mentira na minha cara,
- 14:54[risadas]
- 14:55é, é como se eu não pudesse deixar
- 14:56aquilo para falar: "Pô, não, cara, como
- 14:57assim? Você tá fal Você tá falando isso
- 14:59na minha [risadas] cara, irmão? Pô, eu
- 15:01te conheço, sabe? Tipo, pô, não, tu não
- 15:04vai, pô, vamos, vamos brincar aqui,
- 15:05vamos, [ __ ] Enfim, e eu tinha muito
- 15:08isso e então sempre tava buscando fazer
- 15:11alguma coisa diferente. Na faculdade era
- 15:13muito assim, eu tive muito problema na
- 15:14faculdade, especialmente quando a gente
- 15:17entra na questão da licenciatura, que é
- 15:19isso? Você vai falar sobre educação e a
- 15:20galera ficava ali discutindo novas
- 15:22formas de fazer educação, formas
- 15:24alternativas, não sei que só que eles
- 15:25faziam aquilo fazendo a mesma coisa. Era
- 15:27aulinha, provinha, seminarinho, a mesma
- 15:29coisa. Era um conteúdo muito bonito,
- 15:32muito floreado, mas sempre na mesma
- 15:34forma. E era estresse assim de papo de
- 15:38professora chegar e falar assim: "Ó, não
- 15:39precisa mais vir não, eu vejo que você
- 15:40fica, pô, aperreado aí assim, eu vou te
- 15:42dar presença, me entrega os trabalhos de
- 15:45eu chegar, sei lá, por exemplo, começar
- 15:46a apresentação de seminário, aquela todo
- 15:48mundo vendo falar: "Ó, eu queria começar
- 15:49a apresentar o trabalho aqui dizendo que
- 15:50eu acho um absurdo tudo que tá
- 15:52acontecendo aqui assim, tá ligado? Nego
- 15:55se segurando na cadeira assim, ó,
- 15:57[risadas]
- 15:58tá ligado? Enfim, gostava desse tipo de
- 16:01coisa e quando eu cheguei na escola era
- 16:03assim também.
- 16:04Então, só que em Búzios, eh, era uma
- 16:08escola que tinha muita liberdade. Apesar
- 16:09de eu fazer essas coisas assim, a coisa
- 16:12acontecia, não tinha muito problema.
- 16:14Quando eu cheguei na serra, já era um
- 16:16outro ambiente, já era uma escolinha
- 16:18muito pequena com uma diretora eh
- 16:22>> aonde? Na serra, aonde? na em em em
- 16:24Friburgo. Em Friburgo.
- 16:27>> Eu trabalhei em duas escolas, mas enfim,
- 16:28não vou falar nome porque a ideia não é
- 16:30essa, não é entrar especificamente, mas
- 16:32alguma escola em Friburgo, né, onde eu
- 16:34trabalhei [risadas]
- 16:36e que tinha uma diretora que era uma
- 16:38diretora não muito querida por ninguém,
- 16:41assim, uma pessoa, vamos dizer assim,
- 16:44como que a gente pode falar dela, uma
- 16:45pessoa poniamente amargurada, que com
- 16:48muito difícil relacionamento com com os
- 16:50professores, enfim. E quando eu chego
- 16:53até as pessoas sentirem, geralmente tem
- 16:56uma receptividade positiva, né? Até que
- 17:00começa a causar incômodo. Então quando
- 17:02chega, pô, o professor é diferente,
- 17:04legal, né? Põe os alunos no pátio, põe
- 17:05os alunos para sentar em roda, conversa
- 17:07com os alunos, pô, os alunos gostam
- 17:08dele, só que daqui a pouco aquilo que
- 17:10era legal começa a não ficar. Porque,
- 17:14pô, por que que os alunos gostam dele e
- 17:15não gostam dos outros? Por que que os
- 17:17alunos na aula dele, pô, se comportam de
- 17:19uma forma, nas outras aulas é de outra
- 17:21forma?
- 17:22entende? Então começa a gerar um
- 17:24incômodo no próprio ambiente. E aí
- 17:26aconteceu essa história aí com que o que
- 17:29o Guto tá falando do porque que não tem
- 17:30caderno, que foi uma história, [ __ ]
- 17:32bizarríssima, porque essa diretora e
- 17:36isso daí foi um processo assim que eu
- 17:37fui descobrindo ao longo do caminho.
- 17:38Então eu vou começar contando de como
- 17:41foi na época e depois das coisas que eu
- 17:42descobri. Um dia eu tô em casa e me
- 17:45liga, toca o telefone a ela falando:
- 17:46"Rodrigo, tem como passar aqui na escola
- 17:48porque tem umas mães aqui querendo falar
- 17:50com você".
- 17:52Falei: "Pô, vou tranquilão, era tudo
- 17:54pertinho, cidade pequena, pô, vou a pé,
- 17:56pá, pum, escola". Cheguei lá, três mães
- 17:59chegou naquele dia com um barbão.
- 18:00>> É, hoje eu tô arrumado. [risadas] Hoje
- 18:02eu tô rejeitado, né?
- 18:04>> Imagina as mães olhando ele chegar, né?
- 18:07De bermuda sem camisa, tatuado.
- 18:09[risadas] Isso
- 18:10>> todo estereótipo de pô que
- 18:12>> lá fora isso. Lá fora dava aula de
- 18:14bermuda mesmo. Na cadeia não pode não.
- 18:16Lá fora da [risadas] aula de bermuda.
- 18:17>> Você dava aula de bermuda
- 18:19>> em busos? Eu dava aula na praia, levava
- 18:21os moleques praia, era, [risadas]
- 18:22enfim, eh, e lá na serra mesmo, levava
- 18:25os moleques para, pô, andar, para fazer
- 18:27trilha, para, enfim, para dar aula
- 18:28falando, andando pela rua. Era sempre
- 18:31foi muito solto nesse sentido. Mas aí
- 18:33cham chamou as mães e eu cheguei lá e as
- 18:36mães, não, porque a gente veio aqui te
- 18:37conhecer, queria ser novo aqui na
- 18:39cidade, novo na escola, né? A gente
- 18:41queria saber o que que você faz. Eu
- 18:43falei: "Porra, que alegria!" Porque na
- 18:46escola que eu vim, de todos os anos que
- 18:48eu fiquei lá, acho que em uma reunião de
- 18:50pais apareceu um pai
- 18:52todos os anos que eu tive lá, eu falei:
- 18:54"Pô, ninguém nunca quis saber o que eu
- 18:55fiz, cara. Maneiro, vou falar para vocês
- 18:57o que eu faço". Aí comecei a explicar,
- 18:59pô. Pediu para eu falar, eu comecei a
- 19:00falar, falar, falar, comecei a explicar
- 19:02o que eu [risadas] faço. Vamos falar. Eu
- 19:03gosto de falar.
- 19:06Vamos falar até o momento em que eu tô
- 19:09vendo já a diretora agoniada lá.
- 19:11Rodrigo, a hora tá passando, tá na hora
- 19:13no almoço. Eu falei: "Mas não, elas
- 19:14vieram me conhecer, pô. Tô explicando pr
- 19:16elas o que que eu faço." Não, mas a
- 19:17gente precisa chegar a uma conclusão. A
- 19:18gente precisa chegar a uma conclusão. E
- 19:21nisso [risadas]
- 19:22duas das mães
- 19:23>> e elas assustadas, conforme você falava,
- 19:25>> não. Duas das mães entendendo
- 19:27perfeitamente, porque eu não falo nada
- 19:28absurdo, cara. Eu eu eu sei o que eu
- 19:30faço. Pode ser, pô, ah, caraca, muito
- 19:33diferente. Não tem nada de tão absurdo
- 19:34também no que eu faço não, cara. Nada.
- 19:36Ó, caraca, sobrenatural não. Eh, mas as
- 19:39duas mães entendendo perfeitamente o que
- 19:41eu tava dizendo e uma mãe ali muito
- 19:44resistente.
- 19:46Não, porque minha filha tem que ter
- 19:47caderno, porque não tem caderno e como
- 19:49que vai ser vestibular, Enem, não sei
- 19:50que lá paral. Eu falei senhora, eh, e eu
- 19:53realmente eu não tô aqui para botar
- 19:55ninguém para copiar. Eu não acredito
- 19:56nessa educação da cópia. A gente tá no
- 19:59ensino médio, eles, pô, já são
- 20:00alfabetizados, eles sabem escrever.
- 20:02Então, eu trabalho a filosofia dessa
- 20:03forma. Para mim filosofia diálogo me
- 20:05interessa muito mais ver eles, pô,
- 20:06pensando junto comigo. Para mim o
- 20:08ensinar filosofia é isso, é pensar
- 20:10junto. Então eu preciso dessa
- 20:12interatividade, eu preciso disso. A
- 20:13minha aula acontece dessa forma. Não tem
- 20:16como cada pai chegar aqui e dizer como
- 20:18eu tenho que trabalhar, imagina como que
- 20:19eu vou atender a a vontade de cada um.
- 20:21Eu tô te explicando o que eu faço e,
- 20:24enfim, acho que é plausível. Eu eu tô e
- 20:26tudo que eu faço tá amparado pela
- 20:28legislação, [ __ ] que tá acima de mim.
- 20:31E e aí e é isso que eu tenho para dizer.
- 20:33Não, mas porque tem que ter a cadeira.
- 20:34Eu falei, olha só, como eu sempre parti
- 20:36do pressuposto de que o aluno é
- 20:40eh de que eu tô ali para servir o aluno
- 20:42na escola, de que o meu papel como
- 20:44professor é servir ao aluno.
- 20:46É basicamente isso.
- 20:49Eu falei, eu vou chegar semana que vem,
- 20:51eu vou conversar com a turma. Se eles me
- 20:53disserem que eles querem isso aí que
- 20:55você tá falando, vai ter, mas porque é
- 20:58uma necessidade deles. OK, tranquilo.
- 21:01Mas senão eu vou continuar do do do
- 21:03jeito que eu acho que é bom, porque é o
- 21:05jeito que que tem funcionado para mim e
- 21:06que me parece que eles gostam.
- 21:09Só que no meio da conversa também, ela
- 21:11tá falando, tá insistindo, tá insistindo
- 21:13e eu não tô entendendo. Tem uma parada
- 21:15assim que eu não tô entendendo porque
- 21:16ela tá ali naquela ideia fixa e eu tô
- 21:20pensando, [ __ ] mas a filha dela não é
- 21:22assim.
- 21:23>> [risadas]
- 21:24>> [ __ ] a filha dela é a última que ia
- 21:26pedir um caderno, [risadas] tá ligado?
- 21:28Eu tô pensando, [ __ ] a filha dela acho
- 21:30que tem alguma coisa errada, que a filha
- 21:32dela não quer um caderno. Acho que eu
- 21:34vou comprar um caderno e vou dar para
- 21:35ela, [risadas]
- 21:37né? Porque a filha dela não quer
- 21:39caderno, cara. E aí teve uma hora que eu
- 21:41falei: "Pô, vamos, eu eu realmente eu
- 21:43não tô entendendo uma coisa. Vamos fazer
- 21:45o seguinte, vamos chamar a fulana aqui
- 21:47para eu porque eu não tô entendendo
- 21:48alguma coisa aqui que não tá batendo.
- 21:51Ela não porque vai constrangir a minha
- 21:52filha que não tem necessidade disso. E
- 21:55aí as outras se ligaram. Depois eu fui
- 21:57saber que as outras se ligaram
- 21:59>> porque mãe é mãe, [ __ ] Mãe, né? Não
- 22:01nasceu ontem, conhece filho.
- 22:03>> E aí depois eu fui saber que as outras
- 22:04se ligaram, mas enfim. E aí chegou na
- 22:07semana seguinte eu fui conversar com a
- 22:08turma e obviamente que a turma não
- 22:10queria caderno e eu continuei na minha
- 22:11batida. Só que aí ela foi no áudio, no
- 22:13áudio, no áudio da raiva e me denunciou,
- 22:15fez uma denúncia na na instância que tá
- 22:18acima da escola que é a regional
- 22:19metropolitana. Metropolitana, não, né?
- 22:22No caso lá a Serrana.
- 22:24E aí eu tive que ir lá na regional para
- 22:30fui pro desenrolado, fui chamado, fui
- 22:32chamado pro desenrolado, fui chamado pro
- 22:34desenrolado na regional.
- 22:38E aí quando você é chamado pro
- 22:39desenrolado, eh,
- 22:42a patroa vai junto, a diretora,
- 22:45[risadas] a minha diretora tem que ir
- 22:46junto porque é tudo é hierarquia, né?
- 22:48Então foi ela lá comigo.
- 22:50>> É tudo a mesma coisa, irmão.
- 22:51>> É, é tudo a mesma coisa. A sociedade
- 22:53funcionou,
- 22:54>> só muda só algumas leis ali e tal, mas é
- 22:56tudo a mesma coisa.
- 22:58>> E aí quando eu cheguei lá, aquele
- 23:00esquema todo, [ __ ] todo mundo ocupado,
- 23:02causada de pai,
- 23:04arrumando confusão por nada. Aí os caras
- 23:06chegaram meio que para resolver. Ah,
- 23:07aconteceu isso, isso, vamos resolver
- 23:08encaminhar aquilo. Eu falei: "Pô, não,
- 23:10cara, pô, vim de longeão porque era
- 23:12longe assim, Regional era no centro de
- 23:13Friburgo, eu tinha vindo São Pedro da
- 23:14Serra. Então, pô, eu falei: "Pô, não, eu
- 23:16vim de longeão, cara. Vocês não vão me
- 23:17ouvir não,
- 23:19pô, vocês tem que me ouvir.
- 23:21>> Ah, tu vê que é a mesma coisa. [risadas]
- 23:23É só o procedimento. Às vezes que quer
- 23:25ser o procedimento burocrático. Eu
- 23:27falei: "Pô, eu não vou, sério que vocês
- 23:29não eu não vou poder falar?"
- 23:30>> É, eu sei bem que
- 23:31>> aí não, pô, fala aí. E aí aquele esquema
- 23:33todo testemunha tem que ter o 100, né?
- 23:35Tem que ter alguém, né? O 100% ali tem
- 23:37que ter. Então tem testemunha.
- 23:38>> Para quem não tá entendendo, ele tá
- 23:39fazendo a analogia do desenrolado.
- 23:41Desenrolado no crime é assim também.
- 23:44Tem, vai o patrão, vai, tem que ter o
- 23:46100, tem que deixar falar, é tudo a
- 23:49mesma coisa.
- 23:50>> É um processo administrativo também.
- 23:52Todos eles é isso aí.
- 23:53>> Entendeu? Exatamente. E aí eu tô, eu
- 23:55comecei a explicar exatamente o que eu
- 23:57tinha explicado pras mães. Eu comecei a
- 23:58explicar o que que eu faço, por que que
- 24:00eu faço, como que é, o que que eu
- 24:01acredito, o que que eu não acredito, o
- 24:03que que eu acho que é válido, o que que
- 24:04eu acho que não é válido. E aí,
- 24:07obviamente, os caras entenderam. Só que
- 24:10além dos caras entenderem o o tal do
- 24:12cara que tava de 100, que ficou de
- 24:13testemunha, o cara começou a entrar na
- 24:15minha, ele começou só a se amarrar. Ele
- 24:17não só entendeu [risadas]
- 24:18como a gente começou a trocar a ideia
- 24:20ali, ele ficou, pô, pirado na parada
- 24:22assim, pô, que maneiro, professor. Não
- 24:23sei quê. Eu sei que eu saí de lá com os
- 24:25caras falando que eu me chamar para dar
- 24:26palestra no encontro da regional, não
- 24:28sei o quê. E foi ali que eu descobri
- 24:32que a diretora não tinha ido para me
- 24:33defender, porque até então eu achava que
- 24:35ela tinha ido para me defender.
- 24:36[risadas]
- 24:36>> [ __ ] uma traída.
- 24:39>> E foi ali que eu eu falando e ela
- 24:42entrando contra mim assim. Eu assim, ó.
- 24:45[risadas]
- 24:47Falei: "Caralho, ali que eu percebi,
- 24:49cara". Eu falei: "Caraca, a mulher tá me
- 24:50passando."
- 24:51>> Isso acontece desenrolado também.
- 24:52>> Eu falei: "Caraca, a mulher tá me
- 24:53passando, irmão". [risadas]
- 24:55E nunca tinha acontecido isso assim. Ou
- 24:57seja, tava ela, ela já devia estar
- 24:59amarrada com aquilo ali, com você, com
- 25:00teu jeito, já aquela segurança tempo.
- 25:03>> E aí
- 25:04acabou aquilo ali. Por acaso, um pouco
- 25:08paralelamente a isso, não sei exatamente
- 25:10em que tempo, tava tendo processo
- 25:11eleitoral de escolha de direção da
- 25:12escola, se ela ia ser e reeleita ou
- 25:14eleita ou reeleita, não sei. E aí, chapa
- 25:17daqui, chapa de lá e acabou, ia ter uma
- 25:19professora que ia ficar de chapa com
- 25:20ela. Depois brigaram porque todo mundo
- 25:21brigava com ela, ninguém aguentava ela.
- 25:23E aí a que briga vem te contar as
- 25:26coisas, né? [risadas]
- 25:29E aí, invariavelmente as coisas acabam
- 25:32chegando até você. E aí eu descobri que
- 25:35eh aquela cena ali foi armada por ela. A
- 25:39mãe que tava resistente era amiga dela,
- 25:41pessoal. E ela arrumou pra mãe ir lá. A
- 25:44mãe catou duas outras mães na rua para
- 25:46ir lá reclamar de mim. Só que as mães
- 25:48estavam desavisadas. Então, quando eu
- 25:50cheguei e comecei a explicar, as mães
- 25:52entenderam. Uma inclusive virou minha
- 25:54amiga e que foi inclusive ela que me
- 25:56falou: "Ah, quando você sabe, ela virou
- 25:58para mim e falou: "Sabe quando eu
- 25:59percebi que tinha alguma coisa estranha?
- 26:00Quando você falou para chamar a fulana e
- 26:02ela falou para não chamar não?" Eu
- 26:04falei: "Ah, tem alguma coisa errada aí?"
- 26:07Entendeu? E aí, eh, duas, essas duas
- 26:11ficaram bem. Eu acabei virando amiga de
- 26:13uma e a outra fez essa causada toda e eu
- 26:15descobri que é isso, que era uma uma
- 26:16marapuca para mim. É uma crocodilagem
- 26:18que armaram ali.
- 26:19>> E aí essa é a história do não vai ter
- 26:21caderno. Porque foi o que eu fiquei
- 26:22falando, não vai ter caderno, irmão.
- 26:24Você não vai ter caderno, [ __ ] Não vai
- 26:26ter não. Eu não sou obrigado a [ __ ]
- 26:29não faz parte. Não tem nenhum lugar,
- 26:31nenhuma lei, nenhuma diretriz que fala o
- 26:33aluno tem que ter caderno. E isso é
- 26:36muito curioso. Sabe por quê?
- 26:39Porque esse é o alibundo.
- 26:42E eu já e lá em Bus tinha um cara que
- 26:44nem ele nem era vagabundo não, mas era
- 26:46aquele cara macaco velho de sistema. Ele
- 26:48é era o cara que era um amor até. Mas
- 26:51ele me falava isso. Ele falava e
- 26:53Rodrigo, deixa eu dar um papo, aquele
- 26:55papo de pô de de cor do antigão.
- 26:58Olha só. Caderno, quadro, ó. Deixa
- 27:02caderno lá, ó. Depois faz o que tu
- 27:05quiser, porque se alguém vier reclamar,
- 27:08tá aqui teu caderno. [risadas]
- 27:10É,
- 27:11>> é igual igual acontece hoje em dia com
- 27:12cursinho de concurso público, tá ligado?
- 27:14Tá ligado?
- 27:15>> E a questão é que, [ __ ] cara, se por
- 27:17um lado eu entendo que é uma maneira de
- 27:20você se preservar,
- 27:22por outro é daquela parte que eu, pô,
- 27:24não me submeto aí, mano. Eu não vou
- 27:26entrar nesse jogo de mentira. Eu não vou
- 27:27entrar nesse jogo de mentira. Eu prefiro
- 27:29bancar e até que se tiver me [ __ ] ou me
- 27:31[ __ ] falando que não vai ter caderno. E
- 27:33eu vou te explicar porque que não vai
- 27:35ter do que, pô, fazer um jogo desse,
- 27:37porque eu sei que é a coisa mais fácil,
- 27:39porque o cara põe caderno, mano, e não
- 27:40faz [ __ ] nenhuma. Se ele quiser não dar
- 27:42aula, ele vai chegar, ele vai encher um
- 27:43quadro, os moleques vão acopiar, ele vai
- 27:44ficar sem dar aula. Existe essa
- 27:46possibilidade, funcionalismo público,
- 27:48[ __ ] infelizmente é assim.
- 27:49>> E tudo atéem que eu tô falando, até em
- 27:50cursinho de concurso público que são de
- 27:52várias áreas que é caro, mas joga um,
- 27:55joga diversos PDFs, olha só. Aí depois
- 27:58quando sai o resultado do concurso, é
- 27:59interessante, tá tudo no material, o
- 28:02nosso curso acertou todas as questões.
- 28:05Aí tu fala: "Pô, meu irmão, o cara me
- 28:06manda 10.000 páginas, óbvio que vai tá
- 28:09tudo ali."
- 28:09>> Ah, não tem como, não tá?
- 28:10>> Não direcionou. Aí dá aquela e ainda
- 28:12joga a culpa no aluno, ó, você não
- 28:15passou porque você não estudou o
- 28:16suficiente, você não se esforçou quanto
- 28:19deveria. Aí entra naquele sistema que
- 28:21com certeza você critica da opressão do
- 28:23estudo e a galera fica cada vez mais eh
- 28:27com a saúde mental afetada. Eu acredito
- 28:31em vestibulares também, porque não
- 28:32alcança o resultado. Aí começa a se
- 28:34culpar e aí vai naquele ciclo do remédio
- 28:36para estudar, o remédio para dormir e
- 28:39cada vez mais crianças, né, tomando
- 28:41adolescente ritalina sem necessidade. Na
- 28:43nossa época de adolescente não não tinha
- 28:45isso. Senta, é obrigado a estudar e você
- 28:48dá teu jeito. Aham. sistema educacional
- 28:50realmente é é uma crítica interessante.
- 28:53>> Sim. E essa questão é uma questão é das
- 28:55mais importantes assim, porque toca no
- 28:57no fundamento para mim exatamente na
- 28:59educação, que é a questão do sentido,
- 29:00porque o grande problema da escola é a
- 29:03falta de sentido. E essa questão, tu põe
- 29:05um mulher que põe uma porrada de pessoas
- 29:07diferentes que são crianças,
- 29:09adolescentes ali, mas é isso, já tem a
- 29:10sua a sua individualidade, a sua
- 29:12singularidade, [ __ ] totalmente
- 29:14diferente. Você vai tratar aquilo como
- 29:15massa, como se todo mundo tivesse que
- 29:17aprender a mesma coisa ao mesmo tempo,
- 29:18da mesma forma. Então, já começa errado,
- 29:21né? E aí é óbvio que vai dar merda. É
- 29:25óbvio que uns podem se adequar, mas a
- 29:27maioria não se adequa. E aí começa essa
- 29:29história, pô, do aluno não quer nada.
- 29:30Não é que ele não quer nada. Ele não
- 29:31quer essa [ __ ] que você tá oferecendo
- 29:33para ele, que é chato mesmo.
- 29:36A a percepção de, pô, da maior parte dos
- 29:38alunos é de que a escola é chata.
- 29:41É um local chato que você tá o tempo
- 29:43inteiro tendo que aprender algo que você
- 29:45não quer, da forma que você não quer. É,
- 29:47você tá sendo obrigado a a engolir
- 29:49coisas que você nunca nunca te
- 29:51perguntaram, tão respondendo coisas que,
- 29:54pô, você não fez essa pergunta. Então, a
- 29:58minha ideia como professor de filosofia,
- 30:00eu acho que a filosofia a partir daí
- 30:01sempre foi muito mais no sentido de não
- 30:03de dar respostas, mas de criar um
- 30:05ambiente para que as perguntas surjam. E
- 30:07o Guto foi meu aluno. O Guto sabe disso.
- 30:09>> O Rodrigo, mano, ele não terminou de
- 30:11explicar ou não sei se ele falou muito
- 30:13por alto assim, não deu para poder
- 30:15entender. Mas nesse acontecimento aí do
- 30:18do caderno, [limpando a garganta] no
- 30:19final falaram assim para ele: "Então,
- 30:21cara, você faz um
- 30:24esqueci qual o nome que se dá pro papel
- 30:25que você tem o planejamento para poder
- 30:28explicar.
- 30:28>> Planejamento."
- 30:29>> Aí nessa parte ele já vira outra lado do
- 30:32Rodrigo que ele às vezes a pessoa vê o
- 30:34Rodrigo pensa que ele não domina as
- 30:36ciências. Uhum.
- 30:37>> E ele é bravo, irmão, tanto no domínio
- 30:39das ciências quanto na retórica, irmão.
- 30:41Ele é
- 30:43>> ficou, eu admiro muito ele nisso, mais
- 30:45uma vez aquela aquele negócio, né, mais
- 30:47tranquilo. E ele levou, irmão, e ele usa
- 30:51até hoje que ele fala que tem que ter
- 30:53esse planejamento. Então ele ficou ficou
- 30:55lá guardado esse planejamento para ele
- 30:57poder usar. E tudo que precisar de
- 30:58planejamento já tem, tá entendendo? Ele
- 31:00explica com tranquilidade. E esse lance,
- 31:03mano, da escola, eu não entendia isso,
- 31:06tá entendendo? Porque o que tu tá
- 31:07falando aí da escola ser isso aí que
- 31:09você tá falando, é o que ele tá falando
- 31:12da escola não te ensina a pensar, irmão.
- 31:13A escola te ensina a a
- 31:15>> reproduzir.
- 31:16>> É, a você tipo copiar e gravar. Te a
- 31:20escola te ensina a gravar.
- 31:21>> Exatamente. Isso.
- 31:22>> Já na hora do Rodrigo, você aprende a
- 31:24pensar. Então são coisas óbvias e às
- 31:27vezes não tão óbvias que você
- 31:29conversando você consegue entender que
- 31:32como ele falou uma vez, eu nunca
- 31:33esqueço, a a filosofia dá oportunidade
- 31:36para ele dele se se debruçar em cima de
- 31:38qualquer assunto, qualquer coisa ele
- 31:40pode parar numa aula e falar sobre
- 31:42qualquer coisa que é tudo é filosofia,
- 31:44>> é questionamento.
- 31:45>> E numa aula dele que eu fui aprender que
- 31:47a escola não foi feita para ensinar,
- 31:49irmão. na aula dele, eu com 40 anos de
- 31:52idade, 30 e tal.
- 31:53>> Na verdade, só para um ajuste, né? Na
- 31:56verdade, a escola foi feita para
- 31:57ensinar, a escola não foi feita para
- 31:58você aprender, que aí é diferente, né?
- 32:00Porque é isso, porque o ensino, o ensino
- 32:02é essa coisa de fora para dentro, né? O
- 32:04aprender que ele ele vem de de dentro,
- 32:06né? Então eu aprendi mais nessa
- 32:08diferenciação entre aprendizagem e
- 32:10ensino que a pedagogia já tenta passar
- 32:13pra gente como algo junto, duas faces
- 32:15uma mesma moeda, mas para mim são coisas
- 32:17bem diferentes.
- 32:18>> Conversa, vídeo, coisas que prendem o
- 32:21aluno, coisas que o aluno quer fazer,
- 32:22que é menos chato do que escrever, tá
- 32:26entendendo?
- 32:28Eh, eu aprendi que foi na na Revolução
- 32:30Francesa para poder, né? Revolução
- 32:33Francesa, Revolução Industrial, Francesa
- 32:36também
- 32:38for para poder fazer aquelas pessoas ali
- 32:42que não eram domesticadas para poder
- 32:44>> principalmente para não voltar à
- 32:45monarquia, né?
- 32:46>> Então você fica na escola para poder
- 32:48estar dentro de uma empresa depois e
- 32:50quando você termina a escola é a Matrix.
- 32:54Isso aí eu vi no documentário, você já
- 32:57tá formado para reproduzir aquele aquela
- 32:59mesma. Então, é um sistema que não tem
- 33:02como eh ser quebrado,
- 33:04porque o você se quando você se forma,
- 33:07você aí é a hora que você vai reproduzir
- 33:09aquilo ali,
- 33:10>> você se torna pe você ficou anos
- 33:12aprendendo que aquilo ali é o correto e
- 33:14você vai ficar até o fim reproduzindo
- 33:17aquilo ali. Em cima disso é um fato
- 33:20também muito interessante também, cara,
- 33:22porque é muito real isso, cara. O único
- 33:25lugar que a escola funciona é dentro da
- 33:29cadeia. Isso para mim é
- 33:30>> só quem tá dentro da cadeia, ninguém,
- 33:32quem nunca teve na cadeia, nunca vai
- 33:34entender, vai achar que isso aqui é
- 33:37>> só quem passou pela cadeia entende que o
- 33:39único lugar que a história faz o que se
- 33:42propõe a fazer é na cadeia, irmão. E
- 33:44dentro disso daí para você entrar, não
- 33:45para [risadas] você falar sobre isso
- 33:46mesmo, para para pegar nesse gancho
- 33:48dele,
- 33:49>> como foi essa sua entrada na cadeia
- 33:52>> dando aula e para sentir essa diferença
- 33:56que o que o Guto acabou de falar aqui?
- 33:58Como foi essa transformação, esse
- 34:00choque? Faz esse link para já introduzir
- 34:03a parte acadêmica anterior, você já
- 34:05falou. Agora, quando você entra na
- 34:07cadeia para ter essa percepção,
- 34:09>> cara, a a cadeia, cara, a cadeia me
- 34:13pacificou,
- 34:15>> tá ligado? assim, essa angústia, esse
- 34:16desespero que eu tinha na escola da rua,
- 34:18assim, com essa coisa, dessa
- 34:19inadequação, essa sensação de, caraca,
- 34:22isso aqui é uma máquina de moer gente,
- 34:24de moer, pô, consciência, de moer
- 34:25singularidade, de moer individualidade.
- 34:28A cadeia é na na cadeia eu consegui
- 34:30ficar em paz como professor. Na cadeia
- 34:33eu foi na cadeia que eu consegui começar
- 34:36a me relacionar com professores. Hoje eu
- 34:38consigo, mano, tem amizade dentro da
- 34:40cadeia, consigo, mano. Não, eu, eu
- 34:41sério, era era a escola era um lugar
- 34:45relacionalmente muito difícil para mim.
- 34:47Eu nunca parei em sala de professor. Eu
- 34:50>> eu acho que é o único lugar com aluno
- 34:52que est na escola e na cadeia.
- 34:53>> Conseguia parar em sala de professor.
- 34:56Era um ambiente extremamente doent para
- 34:58mim. E na cadeia eu consigo porque
- 35:00existe esse entendimento. Realmente na
- 35:02cadeia é diferente. E por que que é
- 35:04diferente? Porque a escola da rua é
- 35:08exatamente isso. A escola da rua ela ela
- 35:10é a prisão. É o lugar onde o aluno não
- 35:12quer tá. O aluno é é o lugar onde nada
- 35:14faz sentido. O aluno quer matar aula,
- 35:16ele quer ir pra praia, ele quer fazer
- 35:18qualquer [ __ ] menos está ali ouvindo
- 35:19aquela merda que ele não pediu para
- 35:21ouvir. Então ainda que ele esteja ali
- 35:23comportado, domesticado, adestrado,
- 35:25[ __ ] todo mundo já foi aluno, tu tá
- 35:27ali, mano, tua mente tá em Nárnia, tu tá
- 35:29em outro lugar, tu teu, né, tua mente se
- 35:32transporta dali. Então, na rua a escola
- 35:35é a prisão e tu tem que se libertar
- 35:37daquilo de alguma forma. Na cadeia tudo
- 35:40se inverte. E uma das, eu já ouvi isso
- 35:43várias vezes lá dentro, mas eu lembro da
- 35:45primeira vez que eu ouvi isso, que foi
- 35:47de um moleque inclusive que saiu também,
- 35:49eh, que virou meu amigo também, que
- 35:51infelizmente depois ele acabou
- 35:52falecendo, infartou. Não sei exatamente
- 35:54o que que foi, mas ele enfartou. Enfim,
- 35:56mas eu lembro do dia que ele chegou, ele
- 35:58virou: "Porra, professor,
- 36:00te falar, bonzão vir pra escola, pô, a
- 36:03gente só de tá aqui a gente já muda os
- 36:05papos. Lá dentro é só papo de morte, de
- 36:07roubar, de matar, de picotar. Aqui, pô,
- 36:09tem papo de futuro. Aqui a gente pode,
- 36:11pô, pensar na vida, pode falar outras
- 36:12coisas, tá ligado? Ter alguma
- 36:14perspectiva. Então, é muito isso. E a e
- 36:17a e a escola na cadeia, se você está
- 36:19dentro de um presídio, [ __ ] não
- 36:21adianta. Só que ao mesmo tempo é como se
- 36:23fosse uma bolha de vida. dentro de um
- 36:26inferno, porque a cadeia é esse inferno.
- 36:32Esteticamente falando, qual foi a
- 36:33primeira?
- 36:34>> Calma aí, calma aí, calma aí. É isso, é
- 36:35isso.
- 36:37Eu eu não sei se quem não conhece cadeia
- 36:39consegue imaginar, né, o interior de uma
- 36:41cadeia, mas é, mano, é é a visão do
- 36:43inferno mesmo, assim. O o som da cadeia,
- 36:48tu tem essa perspectiva assim?
- 36:50>> Somir do som. É som, cheiro, assim, é,
- 36:53é, é. Enxofre ranger de dentes assim,
- 36:55né?
- 36:56>> Deixa eu p [risadas] uma coisa para
- 36:57explicar isso aí. Eu fiz uma analogia
- 36:59perfeita para isso. Daí a escola na
- 37:02cadeia, irmão, é como se fosse um
- 37:04consulado.
- 37:05>> É isso.
- 37:05>> É um é um terreno,
- 37:07>> é um território.
- 37:08>> Você não tá mais na cadeia.
- 37:09>> Na escola você não pode fazer um monte
- 37:11de coisa. Na escola se tu tiver para
- 37:13morrer, a escola dá para tu escapar
- 37:15porque lá não pode, tá entendendo? A
- 37:17escola é o lugar tipo você tá dentro da
- 37:20cadeia, mas não faz parte da cadeia. É
- 37:22um refúgio.
- 37:23>> É, é um consulado. No consulado não é
- 37:25assim, tá dentro do Brasil, mas não, mas
- 37:27não pode, tá entendendo? Não pode,
- 37:29irmão. Lá na escola é um lugar que você
- 37:31sai da cadeia quando você tá na escola.
- 37:34E e todo mundo que tá na escola da
- 37:36cadeia quer tá ali. Ninguém tá ali sem
- 37:38querer tá, tá entendendo?
- 37:40>> É, vai quem quer.
- 37:41>> É muito interessante. E qual foi a
- 37:43primeira coisa que que te impactou
- 37:44quando você entrou?
- 37:46>> A primeira coisa, eu acho engraçado, eu
- 37:48não sei se é exatamente esse tipo de
- 37:49coisa que você quer saber, mas foi a
- 37:50primeira coisa que me impactou. Na
- 37:52verdade, eu vou falar as duas primeiras
- 37:53coisas que me impactaram, que foi a
- 37:56primeira cadeia que eu cheguei foi uma
- 37:57cadeia de seguro lá no no galpão. E a
- 37:59primeira coisa que te impacta é é a
- 38:01frente da cadeia, a porta da família.
- 38:04Então, a primeira coisa que me chocou
- 38:06foi a pô os familiares, mãe, mãe, aquela
- 38:08mulherada toda na porta da cadeia,
- 38:10sacola. E é isso. E a interação entre
- 38:13família e o próprio presídio é é é uma
- 38:15interação geralmente difícil.
- 38:17Tratamento, não é? O tratamento talvez
- 38:19como devesse ser. Embora hoje eu ache,
- 38:22eu não sei se melhorou ou se eu
- 38:23acostumei, mas eu sei que hoje eu acho
- 38:26melhor do que quando eu cheguei, por
- 38:27exemplo. Enfim, mas o primeiro impacto
- 38:29essa essa questão assim do sofrimento da
- 38:31família. Primeira coisa em que tu fala:
- 38:33"Caraca, que que triste". E a segunda
- 38:37coisa que me impactou foi quando eu
- 38:39cheguei na sala de aula para dar aula
- 38:42e não tinha um preto.
- 38:45>> Que isso?
- 38:46>> E eu cheguei com essa ideia, [ __ ]
- 38:48sociológica.
- 38:49>> [risadas]
- 38:50>> de que cadeia é lugar de preto. E no
- 38:53seguro, na turma que eu cheguei, pelo
- 38:55menos, não tinha um preto. E é uma
- 38:57cadeia que além de na cadeia não tem
- 38:59preto, óbvio que tem preto, mas na sala
- 39:01é isso, porque a escola é um
- 39:02microambiente do presídio e a sala que
- 39:05eu estava é um microambiente da escola.
- 39:07Naquela sala não tinha um preto e me
- 39:12chamou atenção. Não é só o fato de não
- 39:14de não ter um preto, mas é porque a
- 39:16cadeia é
- 39:18naquele tempo não tinha nem banho de
- 39:19sol. Não sei como tá hoje, se tá tendo,
- 39:21mas enfim. Não, não, não. Essas coisas
- 39:22às vezes não funcionam como deveria ser,
- 39:24porque às vezes tem direito, mas não
- 39:25acontece. Então o o o cara que é branco
- 39:28na cadeia é um branco diferente. Ele
- 39:30fica branco igual um rato, mano. Ele é
- 39:31quase é tá ligado? Ele fica reluzente.
- 39:35Então chama muita atenção porque é um
- 39:36branco que quase brilha, irmão. Então
- 39:38aquilo me chamou muita atenção. Eu eu
- 39:40pensei comigo, eu falei: "Caralho, cadê
- 39:42o tal do navio negreiro?" [risadas]
- 39:46Já foi o primeiro impacto da o primeiro
- 39:48conflito entre teoria e prática.
- 39:51Entende? Eu não tô falando aqui que
- 39:52[ __ ] talvez a a maior parte da massa
- 39:54carcerária não seja negra. Não, não tô
- 39:55falando isso. Tô falando de um fato de
- 39:58um acontecimento, de uma percepção
- 40:00>> que te impactou. E por que depois você
- 40:02investigou isso? E por que que não tinha
- 40:05pretos na sala de aula, já que a maioria
- 40:09carcerária é é preta e parda?
- 40:12>> Cara, a gente tem algum algumas algumas
- 40:15questões nisso. Talvez a primeira delas
- 40:17seja a questão é isso. Na verdade, isso
- 40:19aí toca muitas coisas. A primeira delas
- 40:21questão de classificação, porque hoje
- 40:23com essa própria classificação do EBGE,
- 40:25juntando e preto e pardo, todo mundo é
- 40:28negro. E a gente acaba mascarando a
- 40:30própria realidade brasileira, na minha
- 40:31opinião, que no Brasil o que a gente tem
- 40:34é um povo 99% mestiço.
- 40:38O preto aqui não é preto, preto, né? O
- 40:41branco aqui não é branco. Branco. O que
- 40:43a gente tem é um povo, [ __ ]
- 40:45completamente misturado. Tem, [ __ ]
- 40:47amigo, negão, negão que fala preto. É
- 40:49isso. O pai dele é preto, africano.
- 40:52A mãe é branca, [ __ ] Da minha cor, da
- 40:54tua cor.
- 40:56Fenotipicamente ele é preto, mas é isso.
- 40:58Ele é mestiço. E não é nem aquele, pô,
- 41:01mulatinho, mas é mulato pela, pelo
- 41:03conceito que a gente estudava na época
- 41:05do colégio. Porque a gente aprendeu, pô.
- 41:07Preto mais branco é bolato.
- 41:09>> Branco mais índio é cabôlo. A gente
- 41:10aprendeu isso. Tinha um cafuzo, tinha um
- 41:11mameluco, tinha várias coisas. agora que
- 41:14a gente tá vivendo, né, por questões, na
- 41:16minha opinião, de de de manipulação
- 41:19ideológica mesmo, assim, de de
- 41:20engenharia social via, [ __ ] eh eh eh
- 41:24eh eh eh ideologia, que a gente tá
- 41:26vivendo essa essa guerra na sociedade em
- 41:28que, pô, ou o cara é preto ou é branco.
- 41:30E ser preto e ser branco deixou até de
- 41:33ser uma característica física para ser
- 41:34uma característica e e quase que moral,
- 41:39entende? nessa coisa do branco é ruim e
- 41:40o preto é tem é virtuoso só por ser
- 41:42oprimido.
- 41:45Então esse tipo de coisa tem essa
- 41:47questão da própria classificação,
- 41:50né, pra gente começar daí. E tem uma
- 41:52outra coisa que é eu eu chego na cadeia
- 41:55muito marcado por influências desse
- 41:56tipo, [ __ ] eu eu eu venho daí desse
- 41:58lugar. Eu não só venho da filosofia, que
- 42:01é uma área muito influenciada por esse
- 42:03tipo de pensamento. É óbvio que a
- 42:04filosofia não é só isso, mas os lugares
- 42:06por onde você passa, os seus iguais,
- 42:09eles, pô, circulam muito por esses
- 42:11ambientes que reproduzem esse tipo de
- 42:13ideologia.
- 42:14Só que tu chega na cadeia,
- 42:17tu descobre assim que é é uma realidade
- 42:20muito mais concreta assim. Ninguém na
- 42:22cadeia acha que tá preso porque é preto,
- 42:25filho. Todo mundo. Tu conhece alguém que
- 42:27acha que tá preso porque é preto? Eu sou
- 42:28preso porque eu fui porque eu sou preto.
- 42:30O cara sabe, mano, que ele matou, que
- 42:31ele roubou, que ele fez os [ __ ] Ele
- 42:34sabe. Ex. É mancada. Ele falar: "Porra,
- 42:36sou preso porque eu fui preso, [risadas]
- 42:37porque eu sou preso."
- 42:40Tá ligado? E com isso a gente
- 42:41>> na cadeia não tem mimimi,
- 42:43>> não tem, não tem essa parada assim, tá
- 42:45ligado?
- 42:45>> Não tem bullying, não tem. Mas não tem,
- 42:47não é que não tem que queria ter e não
- 42:49pode ter, não é realmente não tá na
- 42:52pessoas, não t esse lance. As pessoas
- 42:53não se perdem nesse tipo de perna é o
- 42:55perneta, o gordo é o gordo. Todo o que
- 42:58mais tem na cadeia é gordinho,
- 43:00>> gordão, gordola, tá entendendo?
- 43:02>> É isso. Caolho, é,
- 43:04>> ou seja, eles são mais utilizados hoje
- 43:06como massa de manobra política para para
- 43:09determinado grupo que fica parecendo
- 43:11isso do que realmente a proteção do que
- 43:14eles querem. É como é como a criança, o
- 43:16adolescente no colégio que você falou
- 43:19que ninguém pergunta se ele quer estudar
- 43:20aquilo, né? A mesma coisa. Ninguém
- 43:21pergunta, pô, você concorda com isso?
- 43:24Não, eles são utilizados para,
- 43:26>> na verdade, na verdade eu acho que é
- 43:30mais parte mais de uma falta de
- 43:33entendimento histórico, irmão, do que
- 43:35disso. Daí a pessoa já tá acostumada com
- 43:38aquele ritmo ali, porque eu acho que
- 43:41igual eu, eu não entendia um monte de
- 43:42coisa, então eu sou eu não sou ide essas
- 43:45ideologias e tal, mas eu entendo também
- 43:48a lógica desse lance de de de dívida
- 43:51histórica. Tem lógica, irmão, tá
- 43:53entendendo? Eu não tô negando com isso
- 43:54aqui a existência dos preconceitos. É
- 43:57importante deixar claro. A gente, pô,
- 43:59vive num país que até relativamente
- 44:01pouco tempo atrás, pô, tinha escravidão.
- 44:04Povo preto, [ __ ] foi trazido para cá,
- 44:06foi escravo. Os indígenas foram
- 44:08escravizados, dizimados.
- 44:10OK. A minha questão, e isso aqui a gente
- 44:13já tá saindo, né? Talvez, talvez da da
- 44:15questão com o professor, mas enfim,
- 44:16acabou indo para aí. Eh, é como tudo
- 44:19isso tem sido eh politicamente
- 44:21direcionado e que me parece que não tem
- 44:24sido politicamente direcionado pro bem
- 44:25do próprio povo. Parece que o reforço
- 44:28das diferenças eh tem sido usado muito
- 44:31mais no sentido de dividir a gente para
- 44:34fragilizar a gente enquanto povo e
- 44:36consequentemente tornar a gente cada vez
- 44:38mais dominável do que no sentido
- 44:41realmente da fazer a de de proporcionar
- 44:43que a gente supere as nossas
- 44:44dificuldades. Então, para mim é é essa
- 44:47questão. Eh, não é uma questão de negar
- 44:49o passado, mas é uma questão de como a
- 44:51gente metaboliza esse passado. E me
- 44:54parece que a gente vinha num processo
- 44:56natural de metabolização histórica,
- 44:59social.
- 45:00A gente, [ __ ] sei lá, nossa época de
- 45:04colégio era uma época que talvez tivesse
- 45:07mais preconceito, mas ao mesmo tempo a
- 45:09gente mesmo foi vivendo esse processo
- 45:10de, pô, ver o preconceito diminuir
- 45:13contra preto, contra [ __ ] [ __ ] nossa
- 45:15época de colégio, esse bagulho de, pô,
- 45:16de raça, de preto, pô, os pretos eram os
- 45:18que mais zoavam,
- 45:20era não é, [ __ ] os pretos eram os que
- 45:22mais, mano, só se chamava de preto, de
- 45:24negro, de macaco, dos [ __ ]
- 45:26>> Ninguém tinha olhar preconceituoso de
- 45:28pneu, só mesma chamar outro de narigudo,
- 45:32de gordo. Não sei se tu lembra, era toda
- 45:34aula toda aula que ficava cantando la
- 45:39[risadas] os pretos puxava, era tipo o
- 45:41hino da turma assim, né? Não, no meu
- 45:44tempo tinha eu tinha que ser preto.
- 45:45Quando o bagulho tinha que ser preto,
- 45:47parada, né, cara?
- 45:48>> E aí só que parece que em algum momento
- 45:52que a gente tava, é isso, quando a gente
- 45:53já tava aprendendo a brincar com isso. E
- 45:56me parece que aprender a brincar com a
- 45:58dor, eu tenho essa parada assim para
- 46:00mim, quando a gente começa a conseguir,
- 46:01pô, olhar pra dor assim, sem que aquilo,
- 46:03pô, machuque, a gente começa a rir,
- 46:05>> se tornar íntimo. Pô, eu acho que tu tá
- 46:07muito perto de, pô, de superar. E eu
- 46:10acho que a gente tava indo nesse
- 46:11caminho, tá ligado? Só que de repente me
- 46:15parece que pegaram algo que tava muito
- 46:17próximo assim de ser superado e quiseram
- 46:20botar o dedo na ferida que tava
- 46:22cristalizando. Ao ponto de hoje é isso.
- 46:25Existirem ideologias que dizem que
- 46:27querem dizer para mim que eu sou racista
- 46:30porque eu sou branco. Numa espécie de
- 46:33pecado original. Nasci branco, logo sou
- 46:36racista. Eu não consigo engolir uma
- 46:39coisa dessa, tá ligado? Vai falar para
- 46:41mim que eu sou racista, Gut, tá ligado?
- 46:43Tipo, dá dá da da onde essa ideia? Você
- 46:45é homem, então você é machista.
- 46:49>> Para eu para eu,
- 46:49>> eu sou um estuprador em potencial porque
- 46:52eu sou homem ou um agressor em potencial
- 46:54porque sou homem. E aí são coisas que
- 46:56você vê pessoas inteligentes falando.
- 46:58Tem pessoas que eu admiro, pessoas [ __ ]
- 47:01que eu já ouvi falando coisas desse
- 47:03tipo.
- 47:04>> Eu vou dar a última
- 47:04>> e rapidinho e que tu vê
- 47:08a falsidade daquilo. A pessoa, ela não
- 47:10tem como ela acreditar naquilo que ela
- 47:11tá falando. A pessoa branca falando:
- 47:13"Ah, eu sou racista porque eu sou
- 47:15branco". Falando: "Pô, não é, [ __ ] Tu
- 47:16sabe que não é. Todo mundo sabe que não
- 47:18é. Para de palhaçada. Para de palhaçada,
- 47:20rapaz. Acho que o preconceito no Brasil,
- 47:22se você tiver, é muito mais, se tu tiver
- 47:26dinheiro, tu quebra ele um pouco. E se
- 47:27tu não tiver, tu sendo branco,
- 47:29>> é uma outra questão. É uma outra
- 47:31questão. Exatamente.
- 47:32>> Entendeu? Por isso que tinha um branco
- 47:34ali. É mais uma coisa no Brasil, por ser
- 47:36tão mestiço assim,
- 47:38>> não tem essa parada de que até mesmo
- 47:39porque ninguém é branco.
- 47:40>> Exatamente. Ninguém é branco,
- 47:41>> tá entendendo? Se chegar lá nos nazistas
- 47:43lá, não tem branco aqui não, irmão. Vai
- 47:44morrer todo mundo.
- 47:45>> Tem. Ainda tem uma outra questão, porque
- 47:47tem essa questão social, mas tem uma
- 47:48questão que eu acho que as pessoas falam
- 47:50muito pouco. Eu até fiz um vídeo e não
- 47:53publiquei ainda falando sobre isso, até
- 47:55um react em cima de uma parada que um
- 47:56outro moleque falou que eu já tava para
- 47:58falar isso, eu aproveitei o gancho para
- 47:59falar jun junto com ele, reagindo a um
- 48:00vídeo dele, que para além dessa questão
- 48:03eh social, socioeconômica, assim do do
- 48:06dinheiro, de como o dinheiro mobiliza,
- 48:08né, esse teu lugar social, então o preto
- 48:10que ganha dinheiro, irmão,
- 48:13entende? Ele já não é mais tão preto
- 48:15assim,
- 48:16>> não é? Pô,
- 48:17>> e da mesma forma o branco, se for
- 48:19[ __ ] mano, não quer não quer saber.
- 48:21É. E na favela tem o quê? Tem o preto,
- 48:23tem o branco, tu vai na boca, tá de
- 48:25fuzil, tá o preto e tá o branco. E tem
- 48:27um dos primeiros vídeos meus a a
- 48:29viralizarem assim na internet, foi
- 48:31exatamente um desse de algo que eu ouvi
- 48:33lá em relação a isso, porque se por um
- 48:35lado na sociedade esses discursinhos
- 48:37ideológicos têm cada vez crescido mais e
- 48:39as pessoas, né, muitas vezes talvez eh
- 48:42apegadas à suas próprias dores, a
- 48:44percepção, enfim, das dificuldades da
- 48:45vida, acabam usando isso para justificar
- 48:47coisas maladas dentro de si. E ok, mas a
- 48:52galera mesmo que tá ali na na
- 48:54sobrevivência e a galera do crime muitas
- 48:56vezes é a galera que tá lutando por
- 48:57sobrevivência, é como se eles não
- 48:59tivessem tempo para isso. Não tem. Ele
- 49:01tá correndo atrás de outra coisa, ele
- 49:02precisa resolver a vida.
- 49:03>> Outras prioridades.
- 49:04>> Outras prioridades. E uma vez eu, a
- 49:07coordenadora pedagógica, ela abriu a
- 49:08porta da sala para falar, porque isso é
- 49:10uma agenda. É isso que eu tô falando.
- 49:12Por, né? Existe uma direção ideológica
- 49:15clara que vem de cima. Então, se você
- 49:17pega os projetos da escola hoje, todos
- 49:19falam da mesma coisa. E essa agenda 2030
- 49:21que tá aí, esse papo de
- 49:22sustentabilidade, dentistarismo, tudo
- 49:24isso, né? Porque isso tudo é é um design
- 49:26de um mundo novo. O mundo tá sendo
- 49:28desenhado dessa forma. A gente sabe que
- 49:29a gente tá num momento de virada de
- 49:31mundo. E para que a gente possa chegar
- 49:33nesse mundo novo, o mundo antigo precisa
- 49:36ser destruído.
- 49:38E uma das dos fundamentos da destruição
- 49:41desse mundo antigo é justamente a
- 49:42destruição da nossa sociabilidade. Eles
- 49:44precisam que a gente se odeie. Eles
- 49:46precisam ressaltar as nossas diferenças
- 49:48para que a gente não veja, pô, o quanto
- 49:49a gente é igual, o quanto a gente é a
- 49:51mesma porcaria, tá ligado? E aí chegou a
- 49:54a coordenadora pedagógica para falar
- 49:56mais um projetinho desse, ah, de
- 49:58racismo, de racismo, porque só se fala
- 50:01disso agora na escola,
- 50:02>> na cadeia.
- 50:03>> É porque é escola.
- 50:04>> É, mas na quando você fala em escola
- 50:06hoje em dia especial porque a diretriz é
- 50:08geral, a diretriz é geral, a diretriz é
- 50:11de secretaria, então o que vai pra
- 50:12cadeia vai para todas as escolas, é
- 50:14hierarquia. Então é questão de
- 50:17diversidade, é questão de
- 50:18sustentabilidade, é questão de racismo,
- 50:20é é todo o mesmo papo, né? Ninguém chega
- 50:23lá e pergunta: "Pô, qual o assunto que
- 50:24vocês acham interessante, pô, abordar
- 50:26pra gente fazer um projeto?" Nunca vem
- 50:27da escola, nunca nasce da realidade
- 50:29concreta, sempre é de uma imposição
- 50:31política de cima, né? No sentido de
- 50:35desenhar, de moldar, de adestrar as
- 50:36pessoas. E aí chegou a mulher com ah,
- 50:39mas o projetinho não sei que lá, o
- 50:41moleque já virou naquela. Dona fulana,
- 50:43com todo respeito, nós não quer saber se
- 50:46é preto, se é branco, se é amarelo e que
- 50:47cor que é. É só com nós, senhor não pode
- 50:49vacilar, senão nós mata mesmo. [risadas]
- 50:52E aí, [ __ ] geral rindo, aquelo, pô,
- 50:54aquele constrangimento, não tem o que
- 50:56falar.
- 50:57>> É o distanciamento da realidade com a
- 50:59teoria.
- 50:59>> Dist total entre realidade e teoria. E
- 51:02você vê que onde cola esse tipo de
- 51:04discurso, geralmente esse discurso é um
- 51:06discurso de elite. É isso. Porque a
- 51:08rapaziada mesmo que tá, pô, tentando
- 51:11sobrever tá interessado em outras
- 51:12coisas. A galera quer entrar no mercado,
- 51:13pô, poder fazer uma compra decente,
- 51:15cara. Tu entra no mercado hoje, faz duas
- 51:18sacolas de mercado, é R$ 150. Nego tá,
- 51:20[ __ ]
- 51:22falando da solidão da mulher negra,
- 51:24entende?
- 51:26>> Rodrigo, uma pergunta que acho que é a
- 51:29curiosidade de muita gente que te segue
- 51:31no Instagram, na nas redes sociais, como
- 51:34é a realidade do professor quando ele
- 51:36entra numa sala de aula para dar aula
- 51:40para presos? O cara condenado por
- 51:43homicídio, por roubo, diversos crimes,
- 51:47como que é o comportamento deles? Eh, é
- 51:50um aluno que te respeita? Você teve medo
- 51:53desses alunos? São curiosidades que que
- 51:56ficam implícitas?
- 51:58>> Eu queria perguntar uma coisa em cima.
- 52:00Eu já ia perguntar e acabou que você
- 52:02perguntou a mesma coisa que eu ia
- 52:04perguntar. Se eu não me engano, você
- 52:06trabalhou
- 52:08no numa cadeia de seguro.
- 52:10>> Trabalho ainda no seguro
- 52:11>> numa de comando. E trabalhou? Trabalha
- 52:14numa de comando, numa feminina.
- 52:16>> Trabalh feminina. Trabalhei no feminino.
- 52:18Não trabalho mais, mas já trabalhei em
- 52:19feminino.
- 52:19>> E eu queria saber em cima desse mesmo
- 52:22pensamento dele se tem diferença, quais
- 52:25são as diferenças.
- 52:27E se tem, não sei se você vai poder
- 52:31falar se é melhor alguma, se é uma
- 52:35melhor características, não é? Não é
- 52:37melhor ou pior? As cara,
- 52:38>> porque eu conheço menos a feminina,
- 52:40obviamente, mas eu consegui ver muitas
- 52:43diferenças lá dentro,
- 52:45>> né? Quem conhece minha história, quem
- 52:47não conhece, vê lá o primeiro episódio
- 52:49lá dentro. Agora quero saber como
- 52:50professor,
- 52:51>> tá?
- 52:53Eh, eu eu nunca tive problema com aluno
- 52:55assim, tipo de desrespeito assim, de
- 52:57achar que o aluno não me respeita,
- 52:58enfim, até porque eu sempre respeitei
- 53:00muito e não só sempre respeitei, mas
- 53:02sempre entendi. Então, mesmo o aluno na
- 53:04rua assim que era pouco considerado
- 53:06indisciplinado, na verdade eu sempre
- 53:08gostei, para mim sempre era um desafio
- 53:10assim, tipo, tentar, [ __ ] de alguma
- 53:13forma me aproximar e me conectar com
- 53:14aquilo ali. Para mim, a graça era essa.
- 53:17Então, os piores sempre me atraíram.
- 53:19Isso na rua. Mas a a a grande, né, a
- 53:23diferença assim é que na cadeia isso não
- 53:25existe, assim, não tem essa questão do
- 53:26desrespeito, da tentativa, do teste do
- 53:28cara que tá te testando. A cadeia é o
- 53:30lugar onde o professor é mais
- 53:31respeitado. Isso independente da cadeia.
- 53:35Toda cadeia você, pô, é muito
- 53:37respeitado,
- 53:39porque eh o próprio ambiente da cadeia
- 53:43ele e e ele desenha isso, né? cadeia,
- 53:46como [ __ ] o Guto entende bem essa essa
- 53:49expressão, cadeia, a maior parte delas
- 53:50tem ritmo, então a cadeia tem a sua
- 53:52própria organização interna e quanto
- 53:55mais organizada a cadeia, mais esse
- 53:57ritmo ele fica eh implícito no próprio
- 54:00ar assim do ambiente. Então, quando eu
- 54:03cheguei na na cadeia para dar aula, isso
- 54:05ainda era muito mais visível do que é
- 54:08hoje, por exemplo, porque só ao longo
- 54:11desses poucos anos, são 7 anos que eu tô
- 54:13lá dentro, eh, o mundo mudou muito
- 54:16nesses últimos 7 anos e
- 54:20o ritmo já tá muito mais frouxo, mas
- 54:23ainda assim nada que se compara à
- 54:26realidade de quem dá aula, por exemplo,
- 54:28na escola de favela na rua, como eu
- 54:30tenho vários amigos, pô, que dão aula
- 54:32que, mano, é o salve-se quem puder, o
- 54:35Deus nos acuda, né? É igual um vídeo que
- 54:37eu postei outro dia também, o professor,
- 54:39[ __ ] falando, caraca, parecia que eu
- 54:40tava no ritual satânico, um apertando
- 54:43baseado, três meninas se beijando no
- 54:44canto, [ __ ] a cadeira voando e os
- 54:46bagulhos fala: "Caralho, mané, [risadas]
- 54:49na cadeia não." Na cadeia é isso. Existe
- 54:52realmente uma um ambiente assim de muito
- 54:55respeito, que é um ambiente de respeito
- 54:57pelo eh que vem um pouco dessa
- 55:01imposição.
- 55:02Você não tem opção de não respeitar, mas
- 55:05existe também um respeito que eu
- 55:07identifico assim que vem de um de um de
- 55:09um de uma valorização real.
- 55:12É o que o Guto falou, quem tá ali, tá
- 55:13ali porque quer. Quem tá ali, escolheu,
- 55:15tá ali. É diferente do moleque que tá na
- 55:17rua que vai porque é obrigado aí. Se não
- 55:19for o conselho tutelar para remena para
- 55:21remissão de pena.
- 55:22>> Mas é uma opção, ele não é obrigado aí
- 55:24>> não. Ele não é, mas ele não, ele não vai
- 55:26naquele sentido, ah, vou ficar aqui
- 55:27porque eu vou remir minha pena, eu não
- 55:29quero ficar aqui nessa merda dessa aula.
- 55:31É,
- 55:31>> mas é igual o aluno fala assim: "Ah, eu
- 55:33estudo porque eu quero passar de ano,
- 55:35senão minha senão vou vou ser cobrar
- 55:37dentro de casa". Não, aluno da rua é
- 55:38não, mas é diferente
- 55:39>> na cadeia o cara fala: "Pô, tô aqui,
- 55:41então ele pode, eu tô trazendo as
- 55:43dúvidas que, que rolam na cabeça da
- 55:46sociedade. Eu acredito, pô, tô aqui
- 55:48obrigado porque eu vou remir minha pena.
- 55:50Cada Ninguém faz isso. Ninguém faz isso.
- 55:53Para remir a pena.
- 55:53>> Deixa explicar uma parada. Tu na, tu ir
- 55:55pra escola na cadeia, para muita gente,
- 55:57é até vacilação.
- 55:58>> Vacilação. É vergonha.
- 55:59>> Que isso? Porque na cadeia, cara, existe
- 56:02uma parada assim que aí é difícil para
- 56:04quem tá na rua entender que o o bonito,
- 56:07o feio é bonito. É bonito ser feio.
- 56:09>> É bonito ser feio. [risadas]
- 56:10>> É bonito ser feio,
- 56:11>> tá entendendo? O cara que é valorizado
- 56:13na cadeia é o cara que matou mais. Então
- 56:16eu eu sou um cara que eu me amarrava ir
- 56:19pra escola e muita gente vai porque pra
- 56:21pessoa que tem uma personalidade
- 56:22formada, nenhuma gracinha vai me abalar.
- 56:26Mas os outros fala: "Vai, vai, vai, vai
- 56:28estudar na rua, vai estudante e tal". É
- 56:31uma parada que você não é bandido se
- 56:33você tá na escola tirado de otário.
- 56:34>> Tirado de otário. E isso muitas vezes
- 56:37até pelos polícias assim existe, não são
- 56:39todos, mas até pelos tem os polícias que
- 56:41são assim, vai lá o futuro do Brasil.
- 56:44[risadas]
- 56:44>> Não tem um ditado que fala muito na
- 56:45cadeia, tudo que tu vai fazer na cadeia,
- 56:47os outros fala para tu na rua tu não
- 56:48quis.
- 56:49>> É, [risadas]
- 56:50>> e agora quer estudar na rua tu não quis
- 56:51estudar e tal. Então se o cara só quer
- 56:55remir a pena, não vai, irmão. Ele vai
- 56:57fazer o qu só para remera, remia a pena
- 56:59vai um dia, vai remir três dias.
- 57:01>> Não vou falar que até tenho, tem um cara
- 57:03que vai pra escola só para remim, mas
- 57:05ainda assim eu acho legítimo, cara. Ele
- 57:08quer alguma coisa. É diferente do cara
- 57:10que for nem a italiado. Ele não tá
- 57:13entendiado não, irmão.
- 57:14>> Não, mas mas é porque tem isso também,
- 57:16cara, essa questão do deslocamento no
- 57:18ambiente, cara.
- 57:20Eh, e às vezes isso pode ser até talvez
- 57:23não não percebido objetivamente pela
- 57:25pessoa assim, mas o cara ele muda de
- 57:26ambiente, não tem como ele não sentir
- 57:29que ele tá num outro ambiente social,
- 57:31que ele tá interagindo com outro tipo de
- 57:32gente, com o professor, com com a
- 57:34professora lá que vai, pô, que e é isso.
- 57:35Na cadeia tem isso, tem tem professores
- 57:38que realmente gostam do que fazem, como
- 57:40eu nunca vi na rua. Não tô falando que
- 57:41não tem, que os professores não gostam
- 57:42do que fazem, mas na cadeia é mais fácil
- 57:45você encontrar gente que gosta do que
- 57:46faz, que vê sentido no que faz do que na
- 57:48rua. que ver a transformação.
- 57:49>> Então, foi interessante, professor,
- 57:51falar que tem gente que reme a pena, que
- 57:52eu tô falando até uma besteira. O
- 57:54principal da maioria é remera, pena
- 57:57cara. Mas se for só para remar de ir, o
- 58:00cara não vai não, irmão. Só vai ali quem
- 58:03gosta de estar ali, porque ali ele vai
- 58:05aprender. Muitas vezes rola um um um
- 58:08filme ali, eh, educativo ali, uma parada
- 58:11que uma forma de aprendizado diferente.
- 58:13Se o cara não é não tem uma cobrança,
- 58:15irmão, ali propriamente dita que você
- 58:18tem que fazer, tem que
- 58:21>> é, tá entendendo? Você vai lá, muitas
- 58:23vezes você quer aprender porque às vezes
- 58:24tu não sabe ler, às vezes você não sabe
- 58:26fazer uma conta. Então tá rolando ali um
- 58:28ensinamento ali, tu quer aprender aquela
- 58:30parada ali mesmo, tá entendendo? E tem o
- 58:33esse professor aqui e tem outro
- 58:35professor que também era, eu falava
- 58:37desse cara para ele, professor André de
- 58:39história. Professor André, pô, [risadas]
- 58:41esse cara também era demais, irmão,
- 58:43porque ele também dava uma aula também.
- 58:45Então você aprende ali, você aprende a
- 58:48aprender. O cara que nunca foi paraa
- 58:50escola ou então porque foi, não gostava,
- 58:52ali, o cara aprende a aprender, irmão.
- 58:54Aprende que é maneiro você aprender as
- 58:56paradas da
- 58:56>> Isso falha no no sistema educacional
- 58:58para para você, porque olha que é é uma
- 59:00contradição. Você tem a o aluno livre,
- 59:05eh, uma família que pode ter alguns
- 59:07problemas, com qual família não tem e um
- 59:09sistema educacional ali que ele não
- 59:11funciona, que ele não funciona na rede
- 59:13pública na maior parte. Vamos colocar
- 59:15assim pelos índices do IDEB. Eu acho que
- 59:18é o que marca ali o Brasil. Acho que
- 59:20matemática tá o pior. Enfim,
- 59:22>> aí você vai pra cadeia, você tem um
- 59:24aluno extremamente interessado e é o
- 59:25mesmo professor, o mesmo concurso que
- 59:27que passou esse professor é um professor
- 59:29que tá na cadeia, que agora o Guto tá
- 59:30falando aqui, professor de história, pô,
- 59:32referência para mim, você referência.
- 59:34>> E aí, onde para você, onde é que tá,
- 59:37onde é que tá essa quebra aí com a tua
- 59:39opinião sobre isso para para romper? O
- 59:42maior problema da escola é a escola.
- 59:45Essa que é a questão assim, entendeu?
- 59:48Então, eh eh quando você tá na cadeia,
- 59:50irmão, você já o cara já chegou no fim
- 59:52da linha, ninguém espera mais nada de
- 59:54ninguém, assim, só tem a verdade para
- 59:57acontecer, tá ligado? A escola da CAD é
- 59:59uma escola muito livre, é de pura
- 1:00:02liberdade.
- 1:00:02>> E na verdade lá você conquista as
- 1:00:05coisas, você já começa ganhando um
- 1:00:06lanche e a pessoa um lugar que
- 1:00:08>> no colégio público também tem lanche. É
- 1:00:10lanche.
- 1:00:11>> O que que é o lanche no colégio público
- 1:00:13se minha geladeira tá cheia, irmão? Na
- 1:00:15cadeia você para passando fome, irmão.
- 1:00:17>> A comida não é boa e é pouca, tá
- 1:00:20entendendo? Então, a maioria das pessoas
- 1:00:23passam fome, como eu já passei, tá
- 1:00:25entendendo? Por por motivos diversos.
- 1:00:28Mas na verdade se você só tiver que
- 1:00:29comer a comida da cadeia, você tá
- 1:00:31constantemente com fome. Então as
- 1:00:34pessoas zoavam isso muito. Vai lá comer
- 1:00:36merenda, pá. E os outros t neuróes de
- 1:00:37falar que vai para comer merenda. Não
- 1:00:39quero saber de comida não. Mas no fundo,
- 1:00:40no fundo, muita gente no colégio
- 1:00:42público, na na comunidade que eu o
- 1:00:44professor p a briga pelo bolo do
- 1:00:46professor, irmão, que ele não come
- 1:00:48açúcar e tal e ele dá para um dia, dá
- 1:00:51para outro outro dia. É uma coisa
- 1:00:52marcante ali, um bolinho, tá entendendo?
- 1:00:54E tal. Então tem, eu tô eu falando um
- 1:00:57exemplo que é o meu outro exemplo é tu
- 1:00:59conversar com a pessoa que tá vindo da
- 1:01:01rua, irmão, com outro papo, com outra
- 1:01:03mente, com outro, não é só
- 1:01:04>> questão de afeto, um ambiente é isso que
- 1:01:06você vai tá, pô, se relacionando com
- 1:01:09alguém por outros afetos assim. É isso,
- 1:01:10porque eu acho que eu pego muito a a o
- 1:01:13papo do Guto aqui quando a gente fez o
- 1:01:15episódio com ele, essa coisa, porque o o
- 1:01:18Guto falou aquilo que que ele foi um
- 1:01:19bandido fracassado, que ele encenava o
- 1:01:21papel, não sei quê, mas o bandido ele tá
- 1:01:22o tempo inteiro encenando aquele papel.
- 1:01:25Então eu eu sinto como se na escola ali
- 1:01:27ele descansasse
- 1:01:29>> na escola cadeia faz essa separação para
- 1:01:30ele. Na
- 1:01:31>> escola cadeia. É porque isso porque você
- 1:01:32sabe, você se desloca, você sai, pô,
- 1:01:35você saiu da tua cela, que é um lugar
- 1:01:36onde tu tá ali, pô, tendo que
- 1:01:37interpretar um personagem. Tu tem é é
- 1:01:40tenso ser bandido, irmão. Tu tá sempre
- 1:01:42tendo que impressionar alguém de alguma
- 1:01:44coisa o tempo inteiro, sustentar uma
- 1:01:46casca, uma máscara, tá ligado? Então, na
- 1:01:49escola, me parece assim, eu perce
- 1:01:51olhando de fora assim, que é o lugar
- 1:01:52onde você consegue dar uma relaxada.
- 1:01:55Tá ligado? Tem também, tu sabe que tu tá
- 1:01:57na cadeia, mas ao mesmo tempo, [ __ ] tu
- 1:02:01como se tu respirasse assim, pudesse,
- 1:02:02pô, ver outras coisas aí, se relacionar
- 1:02:04com outro tipo de gente, a partir de
- 1:02:06outros afetos. E é isso, a relação com o
- 1:02:08professor na cadeia é isso, você tá se
- 1:02:09relacionando com outro tipo de gente.
- 1:02:12Isso foi uma coisa que eu aprendi na
- 1:02:13cadeia, algo que é difícil falar, mas eu
- 1:02:16acho que todo mundo entende.
- 1:02:19Porque
- 1:02:21se por um lado a gente tem essa ideia,
- 1:02:22todo mundo é ser humano. E é, todo mundo
- 1:02:25é ser humano, mas eu acho que foi só
- 1:02:28trabalhando na cadeia que eu entendi que
- 1:02:30nem todo mundo é ser humano da mesma
- 1:02:32forma.
- 1:02:33Existem tipos realmente muito diferentes
- 1:02:36de humano, mano. Existe, pô, existe a
- 1:02:38pessoa que é ruim mesmo assim, que vive
- 1:02:42na maldade, numa reprodução constante de
- 1:02:44maldade, que a mente dela gira na
- 1:02:46engrenagem da maldade. E eu tenho para
- 1:02:49mim que uma pessoa que vive nesse lugar
- 1:02:51é uma pessoa que vive num sofrimento
- 1:02:53muito grande dentro de si, porque é deve
- 1:02:55ser muito duro assim, tá ligado? tu tu
- 1:02:57viver nesse inferno. Então eu eu imagino
- 1:03:01estudo especulações assim de coisas que
- 1:03:02eu observo. Então eu imagino quando essa
- 1:03:04pessoa ela ela tem uma oportunidade de
- 1:03:06se conectar a outras coisas, a outras
- 1:03:08frequências, a outras relações, enfim,
- 1:03:10outros lugares existenciais,
- 1:03:13aquilo ali alimenta ela de alguma forma,
- 1:03:15mais do que o lanchinho.
- 1:03:17Aquilo ali, [ __ ] de alguma forma para
- 1:03:19elas, [ __ ] ainda que ela não tenha
- 1:03:22consciência disso que tá acontecendo,
- 1:03:24mas eu eu observo, eu vejo isso. Para
- 1:03:26mim é é é algo que talvez o principal
- 1:03:29papel da escola assim, você proporcionar
- 1:03:31um ambiente baseado em outros valores,
- 1:03:33em outras emoções,
- 1:03:36tá ligado? em outros tipos de
- 1:03:37pensamento, um outro mundo. Porque muita
- 1:03:40gente que tá ali, o que falta assim, a
- 1:03:42grande carência assim para muita gente
- 1:03:44que tá ali é isso, é uma falta de
- 1:03:46repertório de de mundo, falta mundo pro
- 1:03:48bandido. O bandido às vezes ele continua
- 1:03:51sendo bandido e sai da cadeia e volta
- 1:03:53pro crime porque ele não tem mundo. O
- 1:03:56mundo em que ele nasceu e que ele
- 1:03:57aprendeu e que ele é desse tamanho, é
- 1:04:00muito pequeno. A gente tem vários
- 1:04:02exemplos. Um moleque, a gente tava te
- 1:04:03falando que, [ __ ] ficou dois meses na
- 1:04:04rua, voltou lá agora.
- 1:04:06É isso, é falta de mundo. Não tem para
- 1:04:09onde ir, só que não tem para onde ir
- 1:04:11dentro da própria mente. Não tem outras
- 1:04:13possibilidades. E a escola te dá isso.
- 1:04:16>> E por que não pode dar isso pro garoto
- 1:04:18que tá entrando ali no ensino
- 1:04:19fundamental e vai pro ensino médio?
- 1:04:22>> Mas pode, pode,
- 1:04:24>> tem jeito. Assim como você fez
- 1:04:26questionamentos para mim com relação a
- 1:04:28corrupção, polícia, tem jeito, esse
- 1:04:30sistema educacional público
- 1:04:33>> teria ali um norte disso? Para mim tudo
- 1:04:35tem jeito, cara. Tudo tem jeito. A
- 1:04:37questão eu vou devolver, eu vou vou dar
- 1:04:39a mesma [risadas]
- 1:04:40a mesma resposta que você. Pô, precisa
- 1:04:41de quê? Precisa de vontade.
- 1:04:44Você precisa querer resolver o problema.
- 1:04:46E a questão é que simplesmente me parece
- 1:04:48que não há vontade. Pelo contrário, me
- 1:04:50parece que a a grande vontade política
- 1:04:52que a gente tem é justamente uma uma uma
- 1:04:55vontade de submissão do povo, de
- 1:04:59dominação. Então a gente precisa ou
- 1:05:02jogar o povo na ignorância, que é uma
- 1:05:05opção que talvez aqui seja que a gente
- 1:05:07viva de maneira mais forte, assim, mais
- 1:05:09latente, ou dar ao povo um tipo de
- 1:05:13educação que vai manter ele escravo, que
- 1:05:17não é uma educação que realmente liberta
- 1:05:18ele no sentido de eh eh proporcionar ele
- 1:05:21que ele entre em contato com a potência
- 1:05:23dele, com os dons, com os talentos, que
- 1:05:24ele possa expressar o ser dele de
- 1:05:26maneira integral e que ele possa
- 1:05:28encontrar a felicidade
- 1:05:29Para mim, esse é o sentido da educação,
- 1:05:31que é o sentido da vida, [ __ ] E não
- 1:05:33felicidade no sentido hedonista, mas
- 1:05:34felicidade no sentido de você se
- 1:05:35conectar com seu com seu sentido de
- 1:05:37vida. Uma escola que não te proporciona
- 1:05:41é eh um encontro com você mesmo, assim,
- 1:05:43no sentido de autoconhecimento, uma
- 1:05:44escola que não te proporciona por saber
- 1:05:46quem você é, qual é a sua função no
- 1:05:48mundo, para mim é uma escola que falhou.
- 1:05:50E não tem como a escola te proporcionar
- 1:05:52isso se ela já tá com modelo pronto,
- 1:05:54engessado, se ela já tem um currículo de
- 1:05:57antemão antes de saber quem você é.
- 1:05:59Então a escola não tá interessada em
- 1:06:01saber quem você é. Esse é o problema.
- 1:06:04Isso não importa se a escola é boa ou se
- 1:06:05a escola é ruim. E nesse sentido, eu
- 1:06:07acho que a escola boa acaba sendo até
- 1:06:09pior do que a ruim, porque a escola boa
- 1:06:11não é boa porque é boa. A escola é boa,
- 1:06:13ela é boa porque ela exclui mais, porque
- 1:06:15ela tira aqueles que não cabem. E esse é
- 1:06:18o grande e problema da escola pública,
- 1:06:20porque a escola pública ela é obrigada a
- 1:06:22aceitar todo mundo. Então você pega um
- 1:06:24colégio particular de elite, mano, se
- 1:06:26você não chegou lá, você não tinha, sai,
- 1:06:28[ __ ] [ __ ] Sai, simplesmente sai.
- 1:06:31Você, a gente não quer você aqui.
- 1:06:33>> A escola pública tem que abraçar por
- 1:06:36lei. Aí, como que tu lida com uma [ __ ]
- 1:06:38dessa?
- 1:06:39>> Com a porrada de porque a estrutura é a
- 1:06:41mesma. Você pegou, se você pega pessoas
- 1:06:45que se adequam e põe ela numa estrutura
- 1:06:47na qual elas se adequam, pode parecer
- 1:06:49que funciona. Agora, se você pega
- 1:06:52pessoas que não se adequam, mano, e põe
- 1:06:54nessa mesma estrutura, isso nunca vai
- 1:06:56funcionar, irmão. Isso vai ser uma
- 1:06:57guerra, que é a guerra que a escola. a
- 1:07:00guerra do professor aluno. O professor
- 1:07:01odeia o aluno e o aluno odeia o
- 1:07:03professor. Não tem respeito e não tem
- 1:07:06respeito de ambas as partes. É, é
- 1:07:08importante se dizer isso, porque hoje a
- 1:07:10gente vive uma crise muito grande nesse
- 1:07:11sentido de respeito, de mudança de
- 1:07:12geração e tem uma uma tá tá muito
- 1:07:16complexo isso, realmente os professores
- 1:07:17têm sido muito desrespeitados, mas eu eu
- 1:07:20sempre prefiro enfatizar na autocrítica.
- 1:07:22E como professor eu falo, o professor
- 1:07:23ele também não respeita o aluno, nunca
- 1:07:25respeitou. A maioria pelo menos. Mas é
- 1:07:28óbvio que não dá para generalizar, mas é
- 1:07:30importante dizer isso. É muito difícil
- 1:07:32que as coisas aconteçam gratuitamente,
- 1:07:36entende? Que a gente chegue numa
- 1:07:37agressão, num negócio bizarro, sem que,
- 1:07:39[ __ ] tenha começado em algum lugar. E
- 1:07:42a própria escola é isso, é uma escola
- 1:07:44que já parte de um ambiente meio que
- 1:07:47estruturado no desrespeito assim. Você e
- 1:07:50essa obrigação constante de você tá
- 1:07:52sendo sendo obrigado a se encaixar num
- 1:07:54negócio, pô, que não, você não cabe,
- 1:07:56para mim já é desrespeitoso, assim, pelo
- 1:07:58menos do ponto de vista existencial. E
- 1:08:00eu não tô falando que a gente não tem
- 1:08:01que aprender, especialmente a criança e
- 1:08:03o adolescente, a lidar com os
- 1:08:05desconfortos da vida. Tem, tem que ter
- 1:08:07desconforto, tem que aprender a lidar
- 1:08:09com isso, sim. Só que se a vida for
- 1:08:11isso, você não consegue se desenvolver
- 1:08:14também, porque aí começa a bloquear
- 1:08:17provação.
- 1:08:17>> O desconfort, o desconforto é isso, ele
- 1:08:19pode te ajudar a crescer. Um pouquinho
- 1:08:21de desconforto para você superar aquilo
- 1:08:23e crescer. Agora, desconforto em cima de
- 1:08:25desconforto, em cima desconforto,
- 1:08:26desconforto, só desconforto, aquilo te
- 1:08:28bloqueia, aquilo vai te minguar, vai te
- 1:08:29atrofear. E é assim que a escola é. A
- 1:08:31escola é é um é um atrofiador de
- 1:08:33existências. E a aprovação automática tá
- 1:08:36dentro desse desconforto constante na na
- 1:08:39tua visão ou não? Aprovação automática é
- 1:08:43é cara é é
- 1:08:47>> é mais é é é é é a consequência natural
- 1:08:49de tudo isso assim do
- 1:08:51>> Mas você é contra ou a favor?
- 1:08:53>> [ __ ] tanto faz
- 1:08:55>> aprovar ou não, tanto faz. É porque é
- 1:08:58irrelevante, porque não tá aprendendo
- 1:09:00nada de qualquer jeito. É isso. É, não é
- 1:09:02sobre isso, [risadas]
- 1:09:05>> entende? É, é isso. Porque não não é
- 1:09:07sobre isso.
- 1:09:09Eh,
- 1:09:10>> porque a sociedade quer algo objetivo. A
- 1:09:12gente é acostumado com isso. Faz a
- 1:09:14prova, é o caderno. É questão do caderno
- 1:09:16que você falou. fez a prova, passou,
- 1:09:18beleza. Se não fez, não passou, tá
- 1:09:21reprovado, continua aqui. E aí é um
- 1:09:23desconforto que eu acho que é
- 1:09:24interessante, porque se não chega no
- 1:09:26final do ensino médio, analfabeto
- 1:09:29funcional praticamente e sem fazer
- 1:09:31contas básicas que tem acontecido.
- 1:09:33>> É melhor, vamos, vamos tentar ser
- 1:09:35objetivo assim, então. Eh, é melhor tu,
- 1:09:38[ __ ] tu ser um tu virar um bandido
- 1:09:42ou tu virar um, uma pessoa socialmente
- 1:09:44reconhecida e infeliz?
- 1:09:47Que que tu acha melhor?
- 1:09:49>> Pergunta retórica.
- 1:09:50>> Não, eu quero saber que que que vocês
- 1:09:51acham melhor assim,
- 1:09:53>> pô. Eu acho que é melhor virar uma
- 1:09:55pessoa infeliz e reconhecida.
- 1:09:57>> Eu também tendo achar que é. OK. Mas
- 1:10:00>> a não ser que eu sendo bandido não
- 1:10:02morresse, aí já vale mais a pena.
- 1:10:04>> Nem fosse preso, né?
- 1:10:05>> Pô, ser preso dependendo vale mais a
- 1:10:07pena do que ser infelizes. Porque tu é
- 1:10:09preso ali um depende, se não for aquele
- 1:10:11porradão que tu vai ficar 30. Se for vai
- 1:10:13ficar 12 depois, tá entendendo? Mas o
- 1:10:15que eu quero dizer com isso?
- 1:10:16>> Problema de ser bandido que a morte é
- 1:10:17iminente, irmão. Então não vai dizer com
- 1:10:19isso é é que você entende que que vocês
- 1:10:22entendem que tem duas opções muito ruins
- 1:10:24assim.
- 1:10:24>> Uhum.
- 1:10:25>> E que, pô, não é possível que só existam
- 1:10:27essas
- 1:10:29que, [ __ ] ou tu vai se [ __ ] na vida
- 1:10:31assim, ter que, pô, viver uma vida
- 1:10:32totalmente marginal, assim, de, pô,
- 1:10:34romper com a sociedade, ou então tu vai
- 1:10:36se adequar. Só que se adequar não
- 1:10:37significa, pô, tá bem. Se adequar também
- 1:10:40é uma infelicidade que você pode não
- 1:10:43morrer assassinado no crime, mas você
- 1:10:45pode, pô, se suicidar porque a tua vida
- 1:10:46se tornou insustentável, você pode
- 1:10:47querer se matar e pode se matar, como
- 1:10:49acontece, pô, nos países mais envolvidos
- 1:10:50que tem,
- 1:10:53entende?
- 1:10:54>> Não,
- 1:10:55>> então
- 1:10:58parece que é melhor tu estudar numa boa
- 1:11:00escola. Parece, eu entendo que parece,
- 1:11:03talvez seja mesmo. Sim, só que parece
- 1:11:08também que existe coisa para além disso.
- 1:11:11E parece também que ninguém tá muito
- 1:11:13interessado no que existe para além
- 1:11:14disso. E me parece que é o mais
- 1:11:17importante, o que tá para além disso.
- 1:11:19>> E parece que o estado não tá se
- 1:11:22importando com o que você quer, mas é
- 1:11:24com que ele quer.
- 1:11:25>> Porque se a gente chega aí, quem é que
- 1:11:27fica fraco? Estado.
- 1:11:28>> É o estado. É o poder.
- 1:11:30>> Poder atual. começa a vir para você.
- 1:11:32Porque se você começa a saber quem você
- 1:11:34é, se você começa a a a a se conectar
- 1:11:37com o poder que existe em você
- 1:11:40e você com teu poder, pô, forte em você,
- 1:11:44se conectando com você, se conectando
- 1:11:46comigo e a gente, [ __ ] entendendo que
- 1:11:48a gente pode,
- 1:11:50é ele que fica fraco.
- 1:11:53Então, a gente precisa para ele ser
- 1:11:55forte, ele precisa enfraquecer a gente.
- 1:11:57Essa é a questão. Essa é a questão.
- 1:12:00Então eu sou muito reticente em relação
- 1:12:02a esse papo de, ah, educação salva
- 1:12:04educação que é [ __ ] que educação? Essa
- 1:12:06é a questão.
- 1:12:08Qualquer educação não, educação não
- 1:12:10salva ninguém. Educação adestra. E você
- 1:12:13pega aí a e eh o cara, pô, não tem
- 1:12:16escola, não vai pra escola, ele entra
- 1:12:17pro crime. Verdade. Verdade. A gente tá
- 1:12:19vendo, pô, qualquer favela, boca de
- 1:12:20fura, né?
- 1:12:23Só quem são os maiores criminosos?
- 1:12:26São os mais escolarizados.
- 1:12:30os mais bandidos
- 1:12:33que são os que não usam arma,
- 1:12:36entende?
- 1:12:38Não é estudar
- 1:12:40que faz a pessoa, [ __ ] ser uma pessoa
- 1:12:43boa no sentido de uma pessoa maneira, no
- 1:12:44sentido de uma pessoa inteira, de uma
- 1:12:45pessoa, [ __ ] eh, que que consegue se
- 1:12:48situar no mundo e e e encontrar o seu
- 1:12:51lugar e e dançar junto com a vida de
- 1:12:55maneira harmônica. tem uma teoria
- 1:12:56chamada teoria da associação criminosa,
- 1:12:59em que o crime ele se aprende em todas
- 1:13:01as camadas, seja o furto, seja o o
- 1:13:06roubo, ali, você vai aprender, seja a
- 1:13:08corrupção dentro da de instituições,
- 1:13:11como no colarinho branco, como o caso
- 1:13:13que a gente vê hoje em dia do banco
- 1:13:15master que tá em todos os jornais, que é
- 1:13:17um crime de topo, que pegou a galera
- 1:13:19ali. É um crime,
- 1:13:20>> nem parece bandido, pô. Tu sabe
- 1:13:22objetivamente, racionalmente, tu entende
- 1:13:24que o cara é bandido, mas tu olha e
- 1:13:25fala: "Ah,
- 1:13:27os caras estão cheio do dinheiro, né?"
- 1:13:29[risadas]
- 1:13:30>> Uma pessoa que não entende assim,
- 1:13:33>> é um bandido aceitável, porque aí aí vai
- 1:13:36vir aquelas questões dos estereótipos do
- 1:13:38do criminoso. O criminoso tem que não
- 1:13:40ter só instrução. É, é, é. Toda vai
- 1:13:43falar o que? Foi falta de educação.
- 1:13:45>> Não, não tem como alegrar. educação que
- 1:13:47tira as pessoas do crime,
- 1:13:50que salvam a sociedade, porque os caras
- 1:13:51são extremamente educados,
- 1:13:54escolarizados para [ __ ] com altos
- 1:13:56níveis.
- 1:13:57Questão que educação, que paradigma, que
- 1:14:00mundo você quer construir? Essa é a
- 1:14:01questão.
- 1:14:03Isso ninguém discute. A galera fica
- 1:14:06sempre, é isso, é por isso que me
- 1:14:07irrita.
- 1:14:07As as questões políticas me irritam
- 1:14:09porque são sempre eh eh eh discussões
- 1:14:11idiotas no sentido de você tá discutindo
- 1:14:13a mesma dois polos sempre de uma mesma
- 1:14:15moeda. Ninguém discute paradigma,
- 1:14:17ninguém discute realmente outras
- 1:14:18possibilidades de mundo.
- 1:14:21Ah, é capitalismo ou é socialismo?
- 1:14:23[ __ ] Ah, um é melhor que o outro. É,
- 1:14:26também acho que é. Mas, pô, é a solução.
- 1:14:28Não,
- 1:14:29existe uma mesma linha que sustenta os
- 1:14:31dois.
- 1:14:33Você escolher entre um ruim e um muito
- 1:14:34ruim.
- 1:14:36Não sei se é a solução. Não me parece se
- 1:14:38é a solução, realmente.
- 1:14:40>> Vou voltar agora aqui a pergunta que o
- 1:14:42Guto tinha feito sobre essas
- 1:14:45classificações, né? Classificações não,
- 1:14:47esses tipos de de presídio. E eu tenho a
- 1:14:50curiosidade especial com o presídio
- 1:14:51feminino. É o Guto falou, né, de tem
- 1:14:54duas facções, o seguro e o presídio
- 1:14:56feminino. Tem diferença na sala de aula
- 1:14:58desses alunos ou não?
- 1:15:00Cara, eh, para além até, eu acho, da das
- 1:15:03diferenças entre tipos de presídio, eu
- 1:15:06acho que cada cadeia individualmente é
- 1:15:08muito diferente, às vezes até mesmo
- 1:15:10dentro da mesma classificação. Eu não
- 1:15:13tive oportunidade de dar aula em cadeias
- 1:15:16diferentes da mesma classificação, mas
- 1:15:18ouvindo histórias de outros professores,
- 1:15:20eu eu percebo isso. Mas dentro do que eu
- 1:15:22conheço, eh,
- 1:15:26isso muda também, porque a cadeia também
- 1:15:28muda, porque às vezes por causa da
- 1:15:29questão do ritmo. Então, por exemplo,
- 1:15:32eh, quando eu cheguei na cadeia, uma das
- 1:15:35coisas que eu ouvi da diretora, essa
- 1:15:36história que eu já já falei também em
- 1:15:38várias outras oportunidades, que foi a
- 1:15:40única diretora que me deu um papo, falou
- 1:15:41assim: "Ó, Rodrigo, isso aqui é falar,
- 1:15:43enfim, não tem não tem nada a ver. Isso
- 1:15:44aqui é uma cadeia de comando vermelho.
- 1:15:46Aqui professor respeita aluno, aluno
- 1:15:48respeita professor. Se você entender
- 1:15:49isso, você vai se dar muito bem aqui. E
- 1:15:51de fato era muito gritante isso no
- 1:15:53ambiente. E quando eu cheguei e era
- 1:15:57eles comunicavam no olhar assim e e o
- 1:15:59que me chamava atenção era é isso. Um
- 1:16:02não atravessava a fala do outro. Depois
- 1:16:05já mudou. Hoje já tá muito mais mais
- 1:16:06solto. Não sei se é intimidade comigo
- 1:16:07também, que a minha aula eu já tá já
- 1:16:10some assim. Mas eu lembro que às vezes
- 1:16:13um quando entrava na fala do outro era
- 1:16:14só assim, ó.
- 1:16:17[risadas]
- 1:16:18Já encaixava rapidinho, já encaixa. Não
- 1:16:22sei se tu tem essa percepção, tu chegou
- 1:16:24a pegar esse tipo de coisa assim na na
- 1:16:27escola.
- 1:16:27>> É igual tu tá falando, cara. É ritmo. Os
- 1:16:29ritmos são colocados de acordo com quem
- 1:16:31tá ali na gestão ali.
- 1:16:32>> De quem tá na gestão. É isso. Porque
- 1:16:34depende de como tá. Às vezes é de um
- 1:16:36momento para outro de quem tá na cadeia,
- 1:16:37porque a cadeia tem a ordem, tem
- 1:16:40a cadeia, tem quem manda, [ __ ] na
- 1:16:41cadeia. Simples assim, diretor, né, do
- 1:16:44>> presetor, [risadas]
- 1:16:48né?
- 1:16:48>> É, pá, é,
- 1:16:51>> é. Também é faz parte da
- 1:16:55>> da direção
- 1:16:55>> da organização.
- 1:16:57>> Eh, mas enfim, isso varia. Pode ter
- 1:17:01períodos que a cadeia tá mais frouxa.
- 1:17:03Isso varia da da cadeia paraa cadeia.
- 1:17:06Por exemplo, no seguro teve uma época da
- 1:17:09cadeia tá correndo frouxa mesmo. Toda
- 1:17:12hora causadinha na escola. Coisa que
- 1:17:16some uma lâmpada, some um negocinho ali,
- 1:17:18que é mancada, que é merda, aí fica tem
- 1:17:20que ficar correndo atrás de
- 1:17:23Agora deu uma organizada. Eles mesmos.
- 1:17:27Cadê? Ó, fluxo [risadas]
- 1:17:30>> e na caria feminina. Na verdade, o
- 1:17:32seguro tende a acontecer e essas par.
- 1:17:35>> Mas tá, mas eu vou te falar
- 1:17:38agora, especificamente nesse momento,
- 1:17:42tá mais ritmado, filho.
- 1:17:44>> Sim,
- 1:17:44>> tá mais ritmado que
- 1:17:45>> Mas a repressão tem que ser fortíssima.
- 1:17:48>> Repressão, observação. Se panguá, tomou,
- 1:17:51filho.
- 1:17:52>> Qualquer coisa, a madeira, a madeira já
- 1:17:54canta assim, entendeu? muito. E eu vi às
- 1:17:57vezes tipo assim umas paradas
- 1:17:58acontecendo e depois que eu fui entender
- 1:18:01que lá no seguro é necessário ser
- 1:18:03daquele jeito ali, irmão. Não tem como
- 1:18:04comparar uma pessoa querendo organizar
- 1:18:06uma cadeia determinada facção com a
- 1:18:09pessoa tentando organizar o seguro.
- 1:18:11Então eu vi umas paradas sendo feita de
- 1:18:13certa forma. Eu falava que isso, irmão
- 1:18:15esses cara. Depois eu entendi que tem
- 1:18:17que ser porque ali é o tipo de pessoas
- 1:18:19de todos os tipos, de todos os lugares.
- 1:18:21E falando isso é para ser bem doce para
- 1:18:24não falar, tá entendendo? Ali tem. Foi
- 1:18:27isso que eu entendi na cadeia quando eu
- 1:18:28falei que existe tipo de gente.
- 1:18:31Foi isso assim, porque eu quando eu
- 1:18:33cheguei na cadeia, cara, eu achava que a
- 1:18:36cadeia tinha que ser tipo um spa assim
- 1:18:37para as pessoas terem pro preso, pô, pro
- 1:18:39cara ter acesso a tudo aquilo que ele
- 1:18:40não teve na rua, ser amado, ser bem
- 1:18:42alimentado, ser, [ __ ] ter acesso às
- 1:18:45coisas e para poder experimentar, para
- 1:18:46poder se transformar. Eu achava isso de
- 1:18:48verdade, assim, eu entendi que não,
- 1:18:51filho. E eu já ouvi uma uma vez uma vez
- 1:18:52um moleque me falou isso lá no seguro. O
- 1:18:54moleque falou: "Pô, professor, na moral,
- 1:18:55cadê ruim assim? Nego já volta. Imagina
- 1:18:57se tivesse filhar com fritas. [risadas]
- 1:19:01Deixa eu te falar, sabe? Por que que no
- 1:19:02seguro tem muito rouo?" Mas é da teoria
- 1:19:04do [risadas] do Bolsonaro tem aquela
- 1:19:07fala célebre dele. Acho que ele tava
- 1:19:08discutindo com a
- 1:19:10Maria do Rosário. Aí ele fala: "Pô, não
- 1:19:12quer falando sobre o presídio de
- 1:19:14pedrinhas, né? Ele não quer vir para cá,
- 1:19:16então não comete crime porque tem que
- 1:19:18passar a necessidade, tem que ele
- 1:19:20massacre. Parte da sociedade também
- 1:19:22pensa isso,
- 1:19:23>> que tem que sofrer, tá ali, tem que
- 1:19:25sofrer muito porque cometeu um crime.
- 1:19:30Esse pensamento seu, o que que você,
- 1:19:32como professor, você vê iria aumentar a
- 1:19:37criminalidade, diminuir. Você viu já a
- 1:19:40recuperação? Eu sei já a resposta, maior
- 1:19:42resposta do meu lado esquerdo de
- 1:19:44recuperação através do do ensino do que
- 1:19:46você passa lá. Mas você vê que dá para
- 1:19:49mudar ou não quem tá ali dentro do
- 1:19:52sistema, dentro da cadeia hoje,
- 1:19:54independente do crime, eu queria que tu
- 1:19:56passasse essa tua experiência de
- 1:19:57professor.
- 1:19:58>> Dá porque é isso, tem dá para mudar
- 1:20:00independente de qualquer coisa. a gente
- 1:20:01tá tá tá aqui com o Rud vários exemplos
- 1:20:03assim
- 1:20:05>> eh dentro dessa perspectiva, pô, da
- 1:20:08própria trajetória da pessoa. Então, pô,
- 1:20:10a pessoa querendo mudar, ela vai mudar
- 1:20:11de qualquer jeito, irmão.
- 1:20:13>> Não adianta, não adianta.
- 1:20:14>> Não é, não é de fora para dentro. Não,
- 1:20:16mas calma aí, mas aí que tá, mas né, eh,
- 1:20:20não dá para negar
- 1:20:22que, [ __ ] já que o estado existe, é
- 1:20:27isso, isso é sustentado, isso é nosso
- 1:20:28dinheiro. Isso, [ __ ] teoricamente pelo
- 1:20:31menos tem uma função. Então, a questão
- 1:20:32de tu perguntar qual é a função disso
- 1:20:34nesse jogo.
- 1:20:36E existe uma função que tá escrita.
- 1:20:39Eu sou
- 1:20:40>> mentira ou não tá escrito lá. E tá
- 1:20:44escrito que a missão é ressocializar,
- 1:20:46porque de fato é importante, pô, tu tem
- 1:20:49que entender. Aqui não tem pena de
- 1:20:50morte, não tem prisão perpétua. Então,
- 1:20:53por maior que seja a pena do cara, o
- 1:20:54cara entrou na cadeia, mas ele vai sair.
- 1:20:57Então, a questão principal não é
- 1:20:58aprender, é como devolver o cara pra
- 1:21:00rua. Essa é a questão, é como devolver
- 1:21:02essa pessoa pra rua, cara. E se você não
- 1:21:05investe nisso, você tá com problema,
- 1:21:07você tá aumentando o problema. Então,
- 1:21:10[ __ ] só aprender é é é de uma
- 1:21:12estupidez
- 1:21:14absurda. Então, o discurso baseado só em
- 1:21:18cadeia é muito estúpido, porque não é
- 1:21:21discurso de combate à criminalidade, é
- 1:21:23produção de criminalidade. Tu sabe,
- 1:21:25mano, cadeia é faculdade do crime, é
- 1:21:27isso. Não é clichê, não é isso. É lá
- 1:21:30dentro que tu vai fazer network, é lá
- 1:21:31dentro que tu vai conhecer, é lá dentro
- 1:21:33que tu vai perder o verniz. Tu foi pra
- 1:21:34primeira cadeia, irmão, nada te assusta
- 1:21:36mais. Tu já viu como que é. Tu tinha,
- 1:21:38pô, se tu tinha medo de ir agora, mano,
- 1:21:40foi ruim, mas tu já viu, agora dá para
- 1:21:43ir de novo, entendeu? Então, se tu não
- 1:21:46se preocupa realmente, [ __ ] em como
- 1:21:49vai ser a saída da pessoa do crime em
- 1:21:51outro dia mesmo de um moleque, pô,
- 1:21:53maneiro, moleque que eu gosto para
- 1:21:54caramba dele e tu sabe disso, todo mundo
- 1:21:56sabe, acho que todo mundo, pô, capaz de
- 1:21:58reconhecer isso. O moleque falou isso
- 1:22:00assim no meio da sala assim, falou: "Pô,
- 1:22:01na moral, se for dar o papo mesmo aí, a
- 1:22:03maioria se pudesse sair saía.
- 1:22:09Aí tu vai questionar, por se pudesse,
- 1:22:10como assim não pode? Pô, claro que pode,
- 1:22:13sempre pode, mas a questão é, [ __ ] tu
- 1:22:15tá interessado em facilitar isso ou em
- 1:22:17atrapalhar? Qual é o interesse da
- 1:22:19sociedade real?
- 1:22:22É mais maneiro pra sociedade porque a
- 1:22:24pessoa se [ __ ] e que seja cada vez mais
- 1:22:26difícil para ela, pô, retornar à
- 1:22:28sociedade. É isso, porque quanto mais a
- 1:22:29pessoa se for, é, é a questão do próprio
- 1:22:31fenômeno social, é a sociedade entender
- 1:22:33o que que é o fenômeno social. Então,
- 1:22:35quando você torce para alguém se [ __ ]
- 1:22:37não tem como você torcer para alguém se
- 1:22:38[ __ ] sem se você sem você se [ __ ]
- 1:22:40junto,
- 1:22:42porque o social é exatamente aquilo que
- 1:22:43nos conecta. Então, quando você se [ __ ]
- 1:22:45eu me fodo junto com você, cara. Eu não
- 1:22:47posso torcer para você se [ __ ] Eu
- 1:22:49tenho que torcer para tu se dar bem,
- 1:22:51porque tu se dando bem, eu vou me dar
- 1:22:52bem junto. Se tu for feliz, eu vou ser
- 1:22:53feliz. atribuirse então esse ciclo de
- 1:22:55violência atual que a gente vive é é é
- 1:22:57essa essa repressão do para para se dar
- 1:23:01mal cada vez mais e tá retornando isso
- 1:23:05>> sim porque é é isso. Eu acho que o
- 1:23:06estado ele tem um papel que poderia ser
- 1:23:08muito positivo. Então se você chega, pô,
- 1:23:11é o básico, não é nada de outro mundo
- 1:23:12não, cara. Se você chega, cara, boa
- 1:23:14parte do você você às vezes pega mo
- 1:23:16mulerleque assim, pô, o próprio Guto,
- 1:23:18cara, Guto tá com a minha idade, passou,
- 1:23:21pô, 20 anos preso,
- 1:23:25eh, vivendo crime.
- 1:23:28Que que ele aprendeu na vida a fazer
- 1:23:33hoje? Assim, que que ele tem para
- 1:23:34oferecer assim, cara, que que eu sei
- 1:23:35fazer no mundo?
- 1:23:38Tá ligado? Entende? E é isso, tá
- 1:23:41>> falando no sentido que esse tempo
- 1:23:42poderia ter sido aproveitado. É. E eu
- 1:23:45sou um cara que eu sou e eu eu eu me
- 1:23:47sujeitaria. Tem gente que não,
- 1:23:49>> entendeu?
- 1:23:49>> Mas a maioria
- 1:23:52ter duas, três profissões aíando agora
- 1:23:55aqui no mercado de trabalho.
- 1:23:56>> É isso. Muita coisa necessária, uma
- 1:23:57demanda enorme que pô, sei lá, curso
- 1:23:59técnico, pô, é o básico do básico, pô.
- 1:24:02Um eletricista, uma mecânica, alguma
- 1:24:03coisa. Escola, cara. É, tem. Se pudesse
- 1:24:06as pessoas iriam duas vezes. Eu ia duas
- 1:24:08vezes, eu tinha ajudava lá e tal, não
- 1:24:10sei o quê. E as pessoas ficavam que
- 1:24:12isso? Como é que tu faz duas vezes? Que
- 1:24:13as pessoas querem ir de manhã, mas quer
- 1:24:15ir de tarde também. É uma parada. E
- 1:24:17>> e só que a galera quando pensa nisso,
- 1:24:19ela el as pessoas tendem a pensar isso
- 1:24:21sempre com com uma raiva, é uma parada,
- 1:24:23sei lá, que as pessoas vingança assim,
- 1:24:25né? Então, enfim,
- 1:24:27>> as pessoas acham que o cara tem que
- 1:24:28trabalhar como escravo, como para pagar
- 1:24:31e [ __ ]
- 1:24:33>> [ __ ] como vai trabalhar, entende?
- 1:24:35Mas, mas é só porque ele vai, é só
- 1:24:37porque é só porque ele vai voltar pra
- 1:24:38rua, cara. E é melhor que ele volte, pô,
- 1:24:40tendo o que fazer, como se encaixar na
- 1:24:43sociedade. Exatamente. Para que, [ __ ]
- 1:24:45mano, depois de tanto sofrer, ele não se
- 1:24:47veja com, pô, sem saída. Fala, [ __ ]
- 1:24:49sofri para [ __ ] Só que agora eu faço
- 1:24:51o quê? Como no caso desse amigo aí que
- 1:24:53ficou que ficou dois meses na rua.
- 1:24:54Então, sobre esse amigo aí e até uma uma
- 1:24:57pergunta minha para você,
- 1:25:00>> a relação entre pessoas que são presas e
- 1:25:03uma coisa que marca muito a minha vida,
- 1:25:05mas qual é a tua impressão com as
- 1:25:07drogas? O que que a droga tem de esse
- 1:25:11relacionamento? A droga
- 1:25:14>> é, cara, tem costuma ter uma relação
- 1:25:16muito direta, né? A gente falou aqui em
- 1:25:19outra oportunidade também, a boa parte
- 1:25:21da pessoa que tem da galera que tá
- 1:25:23envolvida com crime hoje tem relação com
- 1:25:24com droga, ser viciado mesmo assim e
- 1:25:27acaba se perdendo nisso e acaba na
- 1:25:30doideira do vício, no ciclo destrutivo
- 1:25:32do vício, acaba entrando no ciclo
- 1:25:35destrutivo do do crime também. Só que
- 1:25:38talvez, cara, eh, me parece que a
- 1:25:40própria droga também
- 1:25:43às vezes já aparece como uma falta de
- 1:25:45opção, porque às vezes pessoas que
- 1:25:49procuram na droga ali algum alívio,
- 1:25:51alguma coisa, talvez se tivesse outra
- 1:25:52opção
- 1:25:54também. Eh, aproveitaria e eu não vou
- 1:25:57saber citar aqui agora exatamente o nome
- 1:25:58da galera, mas tem, se eu não me engano,
- 1:26:00foi em Nova York esse estudo que fizeram
- 1:26:02estudo com os cracudos Nova York, eh,
- 1:26:05que davam para eles opções assim, ó, só
- 1:26:08tu quer uma pedra de craque ou uma
- 1:26:09parada que o maluco, pô, não não
- 1:26:10costumava fazer, pô, ou quer ir pro
- 1:26:12cinema ou quer ir, pô, visitar um lugar,
- 1:26:14pô, que tu nunca fez. A maioria escolhi
- 1:26:16outra coisa assim,
- 1:26:18tá ligado? Então, muitas vezes esses
- 1:26:22caminhos de repetição
- 1:26:24é só aquele caminho que, mano, tu já tá
- 1:26:26acostumado, tu já sabe. É o que eu falei
- 1:26:28da falta de mundo, da falta de
- 1:26:30repertório.
- 1:26:32Porque muitas vezes na na cadeia ali, um
- 1:26:35cara desse é um cara que, pô, não é
- 1:26:37bandido,
- 1:26:40para usar droga, ele precisa ter
- 1:26:41dinheiro. Então, na cadeia ele vai parar
- 1:26:44de usar droga, pô, forçado pela própria
- 1:26:46vida.
- 1:26:48Então ele para, [ __ ] para, entende?
- 1:26:52Então, saindo dali muitas vezes já
- 1:26:54parado, se ele tivesse uma oportunidade
- 1:26:57e aí eu volto pra fala do moleque. Se
- 1:27:00pôra, se a galera tivesse oportunidade,
- 1:27:02pô, fiquei, [ __ ]
- 1:27:05talvez muitos continuassem, mas talvez
- 1:27:07muitos outros não. Talvez muitos outros
- 1:27:09aproveitassem a oportunidade. E se o
- 1:27:11estado tem algum papel, pô, o estado me
- 1:27:13parece que seria um papel interessante,
- 1:27:15pô, contribuir
- 1:27:18socialmente com alguma coisa nesse
- 1:27:19sentido. Então são coisas básicas assim,
- 1:27:21não é nada, pô, sobrenatural um projeto
- 1:27:23revolucionário, não, cara. É, é, é, é
- 1:27:25isso, é educação técnica, é educação, é,
- 1:27:27é, proporcionar
- 1:27:30aprendizado para as pessoas para que
- 1:27:31quando elas saíssem e e ela elas possam,
- 1:27:34pô, se reintegrar. Inclusive existem
- 1:27:36outras, a gente tá muito acostumado com
- 1:27:39realidade do Rio de Janeiro, né? E o Rio
- 1:27:41de Janeiro não é a realidade do Brasil.
- 1:27:43Existem cadeias aí ao redor do Brasil e
- 1:27:45a galera costuma falar muito. Eu já tive
- 1:27:46alunos presos lá, um exemplo famoso, a
- 1:27:50cadeia do Espírito Santo, que parece que
- 1:27:52funciona bem para [ __ ] assim, que tem
- 1:27:54tudo. Preso tem acesso a todos os
- 1:27:57direitos, preso vai comer bem, vai ter
- 1:28:00roupa, vai receber as coisas que tem que
- 1:28:01receber, que teoricamente ele recebe,
- 1:28:03mas que nem sempre recebe.
- 1:28:04>> Muita gente ouvindo isso daí fica com
- 1:28:06aquele sentimento de repulsa quando você
- 1:28:08fala: "Pô, cometeu crime, vai se dar
- 1:28:10bem". É, é, infelizmente
- 1:28:11>> não. Mas, mas aí que tá, mas aí que tá,
- 1:28:13mas não é se bem. Calma aí, calma aí,
- 1:28:16concordo.
- 1:28:17>> Calma aí, mas aí talvez a gente consiga
- 1:28:19até voltar na questão que ficou faltando
- 1:28:20na no no na coisa do ponte, no na na
- 1:28:23entrevista do Ponte, porque, cara, eh,
- 1:28:27essa coisa da cadeia ser boa ou ser ruim
- 1:28:30é relativa, cara.
- 1:28:33Porque essa cadeia aí em que o preso tem
- 1:28:35direitos, que os direitos dele são
- 1:28:37resguardados mesmo,
- 1:28:39mano, ele só tem os direitos. É a cadeia
- 1:28:42que não tem sacanagem.
- 1:28:46>> E existe um jogo,
- 1:28:47>> então é boa para você. O preso não é
- 1:28:49>> quanto mais direito você tem,
- 1:28:52>> menos sacanagem rola. Uma cadeia que não
- 1:28:54tem direito, mano, é a cadeia da
- 1:28:56sacanagem.
- 1:28:59Porque é Brasil, é assim que funciona.
- 1:29:02>> Aqui se compensa, as coisas se
- 1:29:04compensam. Então os moleque fala: "Tu
- 1:29:05chega nessa cadeia aí, eu pergunto para
- 1:29:07você: "Você fuma? Fuma cigarro? Fuma.
- 1:29:09Fumava. Não entra cigarro na cadeia.
- 1:29:12[risadas]
- 1:29:13Acabou, filho. Esquece. E os que os
- 1:29:15moleques falavam que não tem essa de
- 1:29:17que, pô, tu entrou e ah, tu já sabe, ah,
- 1:29:20daqui a tantos anos eu progrido, sem
- 1:29:21aberto. Não, tu conquista. Não sei se se
- 1:29:24é assim mesmo, mas eles falam que
- 1:29:26depende do que você vai fazendo lá
- 1:29:27dentro. Você tem que meio que
- 1:29:28conquistando assim, você vai saindo aos
- 1:29:30poucos assim, dependendo de como tu vive
- 1:29:32lá dentro. Me parece uma parada
- 1:29:34interessante. E o curioso, sabe o que
- 1:29:36que é?
- 1:29:37>> É o que tá na lei, né? É que os moleques
- 1:29:38falam que lá, e eu não sei exatamente
- 1:29:41como funciona isso, mas que é uma cadeia
- 1:29:43gerida pela iniciativa privada,
- 1:29:45>> que é que a galera morre de medo. Ah,
- 1:29:47vai privatizar presídio que vai, pô,
- 1:29:48virar
- 1:29:49>> isso.
- 1:29:50>> E obviamente acredito que deve ser uma
- 1:29:52parceria públicoprivada, que não deve
- 1:29:53ser 100% privada, que acho que não dá,
- 1:29:55nem sei juridicamente como que acontece
- 1:29:57isso, mas enfim. A concessão mesmo,
- 1:30:00concessão 100% privada, é só regular,
- 1:30:03regulada pelo estado, mas é privada
- 1:30:05privada, privada, privada mesmo. Estados
- 1:30:07Unidos também é assim,
- 1:30:08>> é nos Estados Unidos também isso.
- 1:30:09>> E a cadeia simplesmente, mano, funciona.
- 1:30:12E aí, voltando na questão para dar
- 1:30:15oportunidade da da aqui, que é a questão
- 1:30:17da da carceragem,
- 1:30:20>> porque a carceragem antigamente, pô, tu
- 1:30:22pegou a carcerem
- 1:30:24era, mano, o bagulho de tu não tinha
- 1:30:26direito, era nego pendurado na rede,
- 1:30:28tinha direitos humanos, mas tinha tudo,
- 1:30:29>> tinha reportagem, isso 60º dentro da
- 1:30:32Polinter e os bagulho, nego estourado de
- 1:30:35furunculo, os bagulho
- 1:30:37[risadas]
- 1:30:38de desumano,
- 1:30:39>> mas o que tu quisesse dentro do t
- 1:30:41>> só que os moleque falam: "Se Se tu
- 1:30:42quisesse comer três [ __ ] no dia, tu
- 1:30:43comia, irmão. Era tudo, era sacanagem
- 1:30:46solta, era tudo. É isso. O polícia ali,
- 1:30:49ó. Vai,
- 1:30:51vai, vai. Simplesmente vai.
- 1:30:53>> Tem o feminino. Eu tô querendo bater
- 1:30:55nessa tecla dessa diferença. O presídio
- 1:30:56feminino, até porque tem tem se abordado
- 1:30:58muito essa essas questões de violência
- 1:31:01contra a mulher. Como elas vem isso?
- 1:31:03[roncando] Você falou o eles não têm
- 1:31:05essa questão na cadeia de sua vítima,
- 1:31:07mas e a e as mulheres
- 1:31:09>> no no presídio, como ela tem
- 1:31:11>> o feminino é engraçado porque é é isso,
- 1:31:13é o único presídio que que eu conheço,
- 1:31:15pelo menos que não tem ritmo, que é
- 1:31:17selva mesmo, assim, selvageria mesmo,
- 1:31:18cada uma por si.
- 1:31:20E não não tem organização mesmo assim,
- 1:31:22não tem
- 1:31:25lá lá é a cadeia mais sofrida mesmo de
- 1:31:28verdade. Até porque tem uma questão que
- 1:31:29já começa assim, a questão de tipo
- 1:31:31quando você olha a porta de presídio,
- 1:31:3499% é mulher, é mãe, é mulher, irmã
- 1:31:37visitando.
- 1:31:39E quando a mulher é presa, eh, é óbvio
- 1:31:42que tem mãe também coisa, mas é isso. Os
- 1:31:44caras muitas vezes elas, pô, é mulher de
- 1:31:47um cara que tá fazendo, então o cara já
- 1:31:48não pode visitar. Então já já não tem já
- 1:31:51já tem essa questão do abandono que já
- 1:31:52tá dado assim na no ato da prisão, tá
- 1:31:55ligado? A mulher do preso, por mais que
- 1:31:57ao longo do caminho da cadeia possa
- 1:31:58abandonar ele também, mas às vezes ainda
- 1:32:00vai um pouco. A mulher que é presa,
- 1:32:03mano, já sabe na ali quando ela é presa,
- 1:32:05geralmente ela já é abandonada,
- 1:32:06>> poucas presas tem visita,
- 1:32:07>> ela já é abandonada ali mesmo.
- 1:32:09>> Tem graçita feminina é pouca pessoa,
- 1:32:12masculina lota,
- 1:32:13>> tá ligado? Então tem essa já uma questão
- 1:32:16e tem uma questão da da própria questão
- 1:32:19relacional assim delas da organização
- 1:32:20que não tem organização,
- 1:32:22eh, que é uma guerra porradeira o dia
- 1:32:25inteiro. Então, na cadeia masculina você
- 1:32:27não, você não tem agressão, pô. Tu não
- 1:32:28pode levantar a mão pros outros.
- 1:32:29>> É mais violenta, então, a cadeia
- 1:32:31[risadas] feminina do que a masculina. É
- 1:32:33porque na cadeia não pode brigar,
- 1:32:35[limpando a garganta] irmão. Isso daí
- 1:32:35foi revolucionário pra cadeia. Aquela
- 1:32:37cadeia que você vê na televisão, que
- 1:32:39isso, que aquilo, não existe aquilo ali,
- 1:32:41irmão. Você chegou, você não pode
- 1:32:42brigar, ninguém pode. Se alguém te
- 1:32:44bater, existem pessoas que vão bater
- 1:32:46nessa pessoa por você. Você não precisa
- 1:32:49se defender na cadeia já, na feminina
- 1:32:51não, irmão.
- 1:32:51>> Pau quebra.
- 1:32:52>> Na feminina é você por você. E se alguém
- 1:32:54quiser brigar com você, você vai ter que
- 1:32:55saber se defender.
- 1:32:57>> E na feminina tem uma questão também que
- 1:32:58é a questão da sexualidade que é
- 1:33:01diferente, né? Perguntar isso.
- 1:33:02>> No seguro tem a questão dos [ __ ] Sim,
- 1:33:05que também tem. Só que ainda assim, só
- 1:33:07que a questão do [ __ ] no seguro também
- 1:33:08é organizado.
- 1:33:10Na feminina não, porque elas se pegam e
- 1:33:13aí tem os termos, né, que elas usam, que
- 1:33:15são termos diferentes daqui de fora.
- 1:33:16Quando eu cheguei lá com esses termos
- 1:33:17todos de transído
- 1:33:20diferente.
- 1:33:21>> Então lá é é o tal do tratar de
- 1:33:23pederastia.
- 1:33:25>> Hã?
- 1:33:25>> É, elas tu trata de pederastia, que as
- 1:33:27mulheres se pegam. Tratar de pederastia.
- 1:33:30[risadas]
- 1:33:31E aí é é a sapatão, é a figura da
- 1:33:34sapatão, que a sapatão é o que aqui fora
- 1:33:37a gente chama estão chamando agora de de
- 1:33:39homem trans.
- 1:33:40>> Homem
- 1:33:40>> que só que lá
- 1:33:42>> só que lá é é algo muito específico. É a
- 1:33:44mulher que raspa o cabelo, é carequinha
- 1:33:47e que fica, pô, andando igual um
- 1:33:48machinho na academia mesmo. Fica andando
- 1:33:49e é que é que põe bronca, é que quer dar
- 1:33:52porrada em todo mundo. E é e é e é são
- 1:33:55as donas do caô. Esse sapatão é o que
- 1:33:57toca tem rua na cadeia, porque qualquer
- 1:34:00coisa tá olhando pra minha mulher, tá
- 1:34:01olhando pra minha mulher, o pau quebra e
- 1:34:02uma homem que um homem,
- 1:34:03>> [ __ ] É, mas é isso, mas é isso, mas é
- 1:34:06isso. E
- 1:34:09>> uma tema, uma frase que eu que eu ouvi
- 1:34:11de uma de uma de uma menina, ela virou
- 1:34:12minha amiga, inclusive, gente boa, que
- 1:34:15ela fala
- 1:34:17fala: [risadas]
- 1:34:18"Professor, sabe o que que falta para
- 1:34:19essas mulher aqui dentro?" Falei:
- 1:34:21"Crime."
- 1:34:24Então, as mulher é isso, ó. ronca,
- 1:34:25ronca, ronca tudo que falar que fez, que
- 1:34:27aconteceu, [ __ ] Uma falação do
- 1:34:29[ __ ] tudo abre os braços, tudo
- 1:34:33e essa questão da da sexualidade que é
- 1:34:35pau quebra que uma tá querendo pegar a
- 1:34:37mulher da outra. E e ao ponto de chegar
- 1:34:39lá, tem uma parada que que é
- 1:34:40interessante até falar, não é todo dia,
- 1:34:42toda hora, mas acontece o o estupro
- 1:34:47feminino,
- 1:34:48moleque
- 1:34:51estupra moleque. Moleque agora diz que é
- 1:34:52homem, que é sapatão, enfim, mas que
- 1:34:54pega e agarra mesmo os outros. E
- 1:34:56>> e como elas vem o o a violência contra a
- 1:34:59mulher aqui fora? Porque como a gente
- 1:35:01sempre fala que parece é um é um outro
- 1:35:03mundo dentro da cadeia, né? Como é que
- 1:35:05elas vêm? Ela vem essa questão da
- 1:35:07violência do homem contra elas. Já já
- 1:35:09abordou esse tema ou não?
- 1:35:10>> Cara, é [suspirando]
- 1:35:13a cadeia. O que o Guto falou, que a
- 1:35:14gente já falou aqui antes, a cadeia não
- 1:35:15tem muito mimimi,
- 1:35:19então essa parada ninguém se vê muito
- 1:35:21como coitado, assim, tu resolve teus
- 1:35:23problemas assim, tá ligado? Então na al
- 1:35:25e ali na cadeia tu encontra mulheres
- 1:35:26violentas. a mulher que, pô, e a
- 1:35:30violência da mulher, ela é uma violência
- 1:35:32meio diferenciada assim, porque o homem
- 1:35:33é violento no sentido de ele, pô, é mais
- 1:35:35ele, pô, pratica violento, talvez mais
- 1:35:37quantidade de violência, mas eu eu acho,
- 1:35:40me parece assim, posso estar sendo
- 1:35:41preconceituoso, mas me parece que a
- 1:35:43profundidade da violência da mulher, a
- 1:35:45mulher fazas paradas que só a mulher
- 1:35:46faz, tipo tu tacar óleo fervendo no
- 1:35:48ouvido do teu marido dormindo assim, é
- 1:35:50um bagulho p, né?
- 1:35:51>> Cortar o pênis. [risadas] Cortar o pênis
- 1:35:54porque traiu.
- 1:35:55>> É, então ess
- 1:35:56>> a mulher tem mais requin de tem. Vai,
- 1:35:58vai nos lugares assim que, pô, tu fala,
- 1:35:59pô, is só mulher faz um bagulho desse,
- 1:36:01irmão, [risadas]
- 1:36:04entende assim? Então, então tu tem essas
- 1:36:07paradas assim e ali a a mulher a mulher
- 1:36:10a a mulher presa ali assim, é a mulher
- 1:36:12que, mano, é a mulher que resolve o
- 1:36:14problema. Ela tá roncando para [ __ ]
- 1:36:16ali, por muito menos ela já tá querendo
- 1:36:17sair. Para te explicar isso, tem um um
- 1:36:22eu gosto de pensar nisso. Tem tem um tem
- 1:36:24um ponto de macumba, cara, que eu acho
- 1:36:25maneiríssimo, porque eu acho que resume
- 1:36:27essa tua essa tua ideia, né? É um ponto
- 1:36:30de pombogira que que fala assim:
- 1:36:32"Chorei, chorei, o homem que eu amava,
- 1:36:35eu matei, matei com sete facadas em cima
- 1:36:39do coração. Sou pombogira menina e não
- 1:36:41aceito traição." É, é, é assim que
- 1:36:44funciona.
- 1:36:45>> Tem o lado espiritual também, innegável.
- 1:36:47É, não sei, não sei. Não, não nesse
- 1:36:50sentido assim, porque também acho que a
- 1:36:51gente já pode acabar caindo no no num
- 1:36:54preconceito assim, mas no sentido de que
- 1:36:57eh que muito se fala hoje do
- 1:36:59empoderamento.
- 1:37:00>> Uhum.
- 1:37:00>> Eu acho que se perdeu essa história. Eu
- 1:37:02acho que essa história de empoderamento
- 1:37:03caiu num lugar vazio, assim, entendeu?
- 1:37:07Então, no sentido dessa mulher, mano,
- 1:37:08que ela vai matar a bronca dela no
- 1:37:10peito. Ela não vai botar culpa em
- 1:37:12ninguém. Ela não é vítima de macho.
- 1:37:15Se ela apanhar, ela vai bater, filho. Se
- 1:37:17ela tomar, ela vai dar. Se ela ela vai
- 1:37:19fazer os caralhos se precisar,
- 1:37:23entende? Então é aquela mulher, mano,
- 1:37:25que ela não quer ser coitada, ela tá
- 1:37:28pagando para não ser coitada, entende?
- 1:37:31>> Interessante. Tá quase acabando, hein,
- 1:37:33Guto. Faz mais uma pergunta aí. O que
- 1:37:36que você tem para jogar pro pro
- 1:37:39[roncando] professor? Então, professor,
- 1:37:42eh, você acha que tem dado certo
- 1:37:46o teu trabalho? Você acha que tem
- 1:37:51não assim do resultado como o meu assim,
- 1:37:53mas no dia a dia tem funcionado para
- 1:37:56você
- 1:37:58e pros alunos?
- 1:37:59Eh, eu vou voltar lá na fala do Ponte lá
- 1:38:02do início assim do que o Ponte meteu o
- 1:38:04papo de Jesus no início.
- 1:38:07Eh, quando eu falei que gostava de de
- 1:38:09vagabundo, de tralha, [ __ ]
- 1:38:13Apesar disso, assim, eu eu eu entendo
- 1:38:16essa parada, mas ao mesmo tempo eu eu
- 1:38:18não tenho muito uma essa pegada
- 1:38:20messiânica assim, sabe? Eu não acho
- 1:38:22realmente que eu vou ali dentro para
- 1:38:24salvar ninguém.
- 1:38:26Eu acredito muito na transformação mesmo
- 1:38:30das, não só acredito na transformação
- 1:38:32das pessoas, mas eu acho que a a
- 1:38:35transformação ela é o grande motor da
- 1:38:37vida.
- 1:38:38E talvez até porque eu me transforme
- 1:38:40muito, tu me conhece, [ __ ] há muitos
- 1:38:42anos, então tu sabe que eu, [ __ ] sou
- 1:38:43uma pessoa que muda, eu mudo, eu mudo
- 1:38:46constantemente. Eu tô mudando. E talvez
- 1:38:48pelo fato de eu estar mudando o tempo
- 1:38:49inteiro, eu acredito que os outros
- 1:38:50possam mudar também.
- 1:38:52Então, quando eu chego ali para dar
- 1:38:54aula, pô, eu eu tô
- 1:38:59me expondo a interação com pessoas
- 1:39:01diferentes, com essa diferença que me
- 1:39:03fascina.
- 1:39:05E em algum sentido eu tô buscando o meu
- 1:39:08próprio conhecimento, tá ligado? Pare,
- 1:39:11eu sei que pode parecer clichezinho,
- 1:39:13papo, pô, demagogo assim, mas eu vou ali
- 1:39:16muito mais buscar conhecimento do que
- 1:39:18dar. E é óbvio que eu sei que eu dou,
- 1:39:21que eu deixo muita coisa de mim ali
- 1:39:22também, tá ligado? Mas quando eu paro
- 1:39:26para olhar assim em quem eu sou hoje e
- 1:39:28quem eu era, quando eu cheguei ali, eu
- 1:39:29vejo que eu já peguei muita coisa dali,
- 1:39:31muita coisa positiva, muita coisa que eu
- 1:39:33incorporo na minha vida, que eu trago
- 1:39:34muita coisa, tá ligado? eu já cresci
- 1:39:36muito ali naquele ambiente e justamente
- 1:39:39por me expor a um mundo que é diferente
- 1:39:41do meu. Então, a do mesmo jeito que eu
- 1:39:44falei que a a os moleques lá dentro o
- 1:39:45que falta para eles é mundo. Todo mundo
- 1:39:48pode acrescentar mundos ao seu mundo.
- 1:39:51Então, o que eu faço ali para mim é
- 1:39:53isso. Eu vou ali buscar mundos também.
- 1:39:55Eu acho que para além de você alguém se
- 1:39:58ressocializar ou não, eu acho que é
- 1:40:00muito mais o resumo da escola na cadeia,
- 1:40:04é muito mais um alento
- 1:40:06para aquele para aquele mundo ali. É um
- 1:40:08alento para aquela, para e para você
- 1:40:12viver melhor, pelo menos ali dentro,
- 1:40:15porque a questão de você se
- 1:40:17ressocializar vai vir muito mais de você
- 1:40:20próprio.
- 1:40:21>> Sim. Você vai usar a escola como
- 1:40:23mecanismo que vai te conduzir, mas se
- 1:40:25você já tiver com a mente, se não tiver
- 1:40:27afim, irmão, não. Agora, fora a parte
- 1:40:30isso de você levar para aquelas pessoas
- 1:40:34ali um alento para aquele sofrimento,
- 1:40:36não sentido de amenizar o sofrimento,
- 1:40:38mas no sentido deles terem uma direção
- 1:40:41legítima e digna ali, eu acho que é
- 1:40:43100%, irmão. Inclusive, eu falei aqui,
- 1:40:46ó, para não ser injusto todos os
- 1:40:48professores, mandar um abraço para todos
- 1:40:50aí que verem. Professor da Margarete de
- 1:40:52inglês também 100%. Todos, todos para
- 1:40:55não ser justo com ninguém, tá?
- 1:40:56>> Nosso tempo se encerrou, foi excelente,
- 1:41:00né? Foi muito bom. Acredito que todos
- 1:41:02que te seguem
- 1:41:04>> tiveram a oportunidade de conhecer um
- 1:41:05pouco melhor e como entrou, como fica
- 1:41:08aquele gosto de que falta mais coisas.
- 1:41:09Mas acompanhe o o Rodrigo na nas redes
- 1:41:12sociais. O Rodrigo tem feito palestras
- 1:41:14também, tem tido a oportunidade de
- 1:41:17entrar em novos ambientes e ajudar
- 1:41:20transformações de de mentes. E isso pode
- 1:41:24ser bom para todos os segmentos, tanto
- 1:41:26no dentro de uma empresa, quanto dentro
- 1:41:29de um de um colégio, dentro de de uma
- 1:41:31cultura de uma forma geral. Final desse
- 1:41:34vídeo vai ter o Instagram dele para
- 1:41:36vocês entrarem em contato e sigam no no
- 1:41:40próprio Instagram, sigam a gente no
- 1:41:41YouTube e vai ser ótimo ter essa
- 1:41:44parceria. Obrigado, Ruto. Nota 10.
- 1:41:47>> Tamos junto,
- 1:41:48>> Rodrigo. Nem nem se fala bolinha, né?
- 1:41:51[risadas]
- 1:41:52Os apelidos da antiga. Meu vulgo de
- 1:41:55infância. Vo, voo. [risadas]
- 1:41:57>> Um abraço aí.
- 1:41:58>> Valeu. Valeu, galera. Valeu, Ponte.
- 1:42:00Valeu, Gut, tamamo junto.
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