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O PARADOXO da TOLERÂNCIA EXPLICADO — Transcript

by Ciência Todo Dia · 3,011 words · 300 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:00Esse vídeo é polêmico,
  2. 0:01e ao invés de fazer uma introdução, eu quero  jogar logo a pergunta que vai ser discutida aqui
  3. 0:04Existem opiniões que são tão  extremas que deveriam ser proibidas?
  4. 0:09Talvez você pense que sim, existem limites para o  que é razoável expressar dentro de uma sociedade
  5. 0:13Ou talvez você pense que não,  todas as ideias merecem vir ao ar
  6. 0:16E eu não tô aqui pra discordar de você, e  sim pra tentar te dar uma perspectiva um
  7. 0:20pouco mais aprofundada sobre essa discussão,  porque honestamente eu acho que todos meio que
  8. 0:25estamos precisando.
  9. 0:26E pra fazer isso, nós vamos conversar  sobre a versão mais tradicional desse
  10. 0:30problema, que é conhecido  como o paradoxo da tolerância.
  11. 0:33O paradoxo da tolerância foi apresentado
  12. 0:34pelo filósofo Karl Popper e ele  diz mais ou menos o seguinte.
  13. 0:38Imagine uma sociedade com tolerância ilimitada.
  14. 0:41Ela aceita e tolera todas as opiniões possíveis.
  15. 0:43Sim, eu disse TODAS as opiniões possíveis.
  16. 0:46Parem e pensem em uma opinião bem absurda.
  17. 0:48De preferência a coisa mais  extrema que passa pela sua cabeça.
  18. 0:50Pensou?
  19. 0:51Então não escreve nos comentários.
  20. 0:53Mas se você quiser se inscrever  no canal, isso seria bem legal.
  21. 0:56Pra continuar esse exemplo, eu vou imaginar que
  22. 0:58a opinião extrema é a de que quem  toma com açúcar merece ser preso.
  23. 1:02Ei!
  24. 1:03Tá bom. Isso é extremo.
  25. 1:05As pessoas deviam poder tomar café como quiserem,  mesmo as que tomam errado porque colocam açúcar.
  26. 1:09Mas esse não é o ponto.
  27. 1:11O ponto aqui é que uma sociedade que tem  tolerância ilimitada vai tolerar essa opinião.
  28. 1:16Mas não é muito difícil de brincar com  esse exemplo pra ver que a situação pode
  29. 1:19entortar de vez muito rápido.
  30. 1:21Vamos supor que, no início, poucas pessoas  concordem que quem toma café com açúcar
  31. 1:25deveria ser preso.
  32. 1:26Mas com o tempo, essa opinião vai ganhando  tração e entra até pro debate público.
  33. 1:30Em não muito tempo, começam a surgir vídeos na  internet de pessoas sendo expulsas de cafeterias
  34. 1:35por outros clientes justamente  por pedirem café com açúcar.
  35. 1:37E aí você, que ama colocar açúcar no café  porque a vida já é amarga o suficiente,
  36. 1:42começa a esconder sua preferência.
  37. 1:44Você se sente mal de falar isso em público  porque não sabe qual vai ser a reação das
  38. 1:47outras pessoas.
  39. 1:48No fim, você esconde completamente o que  pensa e prefere por pura pressão social.
  40. 1:53É óbvio que esse é só um exemplo bobo,  porque se eu colocasse opiniões extremas
  41. 1:56de verdade aqui, esse vídeo  não duraria um dia no ar.
  42. 1:59Mas ele me ajuda a ilustrar como a sociedade com
  43. 2:01tolerância ilimitada acaba ficando  exposta a opiniões intolerantes,
  44. 2:05que por sua vez, acabam  suprimindo outras opiniões.
  45. 2:08Então a solução é simples, certo?
  46. 2:11Nós devemos parar de tolerar quem é intolerante.
  47. 2:13Voltando pro nosso exemplo, talvez a nossa  salvação fosse multar ou prender quem
  48. 2:18expressasse opinião de que pessoas que  tomam café com açúcar merecem ser presas.
  49. 2:22Quem sabe a saída seja termos pelo menos um  pouco de intolerância com os intolerantes,
  50. 2:27pra garantir que pessoas que tomam café com  açúcar sejam deixadas em paz, mesmo estando
  51. 2:31erradas.
  52. 2:31Calma ai, Pedro não dá mais, você  vai falar isso pra você ser multado.
  53. 2:38Mas não, isso não faz sentido.
  54. 2:40E aqui eu preciso pedir desculpas por esse  exemplo ser bobo, mas troquem a opinião extrema
  55. 2:45por qualquer outra que vocês ouviram  ultimamente, ele ainda vai valer.
  56. 2:48Se você achou que me remover de apresentador  foi uma atitude extrema, bom, é por isso
  57. 2:52que o paradoxo da tolerância é um paradoxo.
  58. 2:55Se a solução pro paradoxo da tolerância fosse  simplesmente ser completamente intolerante
  59. 3:00com qualquer opinião intolerante, o  próprio Popper teria pensado nisso.
  60. 3:04Tanto a tolerância quanto a intolerância  podem sair do controle e acabarem criando
  61. 3:08uma sociedade menos livre, ou,  como diria o Popper, menos aberta.
  62. 3:12O grande argumento de Popper é que a sociedade  maximamente livre se encontra em algum meio
  63. 3:17termo entre a intolerância extrema e a tolerância  extrema, com os dois extremos gerando uma
  64. 3:23sociedade que não é a ideal.
  65. 3:24Mas responder onde está o grau perfeito  ou limite de tolerância não é fácil.
  66. 3:30E pra fazer isso, nós precisamos responder  três perguntas difíceis e perigosas, que são...
  67. 3:34Como decidimos quais ideias passaram dos limites?
  68. 3:37Como nós podemos punir ou restringir essas ideias?
  69. 3:40E quem é que pode executar essas punições?
  70. 3:43Essas perguntas não são hipotéticas.
  71. 3:45Em algum momento, todos os países e sociedades  do mundo precisaram ou vão precisar responder
  72. 3:49essas perguntas na prática.
  73. 3:51Por exemplo, geralmente quem decide quais
  74. 3:53ideias passaram dos limites e como devemos  puni-las são os corpos legislativos dos países,
  75. 3:58que podem fazer leis  limitando formas de expressão,
  76. 4:01que vão desde ser mandante de um assassinato até
  77. 4:03proibir de gritar fogo em  uma sala de cinema cheia.
  78. 4:05E quem executa essas punições,  na maioria das vezes,
  79. 4:07é o poder judiciário, que é o responsável  por lidar com quem viola as leis.
  80. 4:11Tanto é que boa
  81. 4:12parte das discussões sobre  o paradoxo da tolerância
  82. 4:14acabam usando política institucional como grande
  83. 4:16exemplo.
  84. 4:17Mas hoje, nós vamos fazer diferente.
  85. 4:19Antes de eu continuar, eu preciso fazer um  apelo pro seu lado sonolento que gosta de dormir
  86. 4:23Se você é como eu e ama uma boa noite de  sono, investir em um colchão é essencial
  87. 4:27O problema é que trocar de colchão sempre  dá aquela ansiedade e dor de cabeça
  88. 4:30Primeiro porque se você mora num apartamento,  você tem que subir um trambolho enorme pela escada
  89. 4:34Aí você tem que virar nos corredores,  aí tem que enfiar no elevador, se passar
  90. 4:37Mas com Emma, isso mudou
  91. 4:39Os colchões Emma vem dentro dessa caixa aqui.
  92. 4:42Você só abre, desenrola numa superfície  plana, espera 4 horinhas e pronto.
  93. 4:46Tá liberado pra ter as melhores  noites de sono da sua vida.
  94. 4:48E levando em conta que você passa 1 terço  da sua vida dormindo, isso é bem importante.
  95. 4:51E não é só a praticidade. O Emma  Original tem bloqueio de movimento,
  96. 4:55capa removível lavável e suporte ergonômico.
  97. 4:57E durante a Black Week da Emma, os  descontos os pontos chegam até 65%
  98. 5:02e usando o meu cupom você ainda ganha 10% extra
  99. 5:05Ah, e se você não curtiu o  colchão tá tudo bem porque
  100. 5:08são 100 noites de teste e 10 anos de garantia
  101. 5:11Não precisa esperar novembro para dormir bem,
  102. 5:13a Emma trouxe a Black Friday  para julho, literalmente
  103. 5:16E agora sim, de volta ao vídeo
  104. 5:18Eu vou te explicar o paradoxo da  tolerância de Popper e algumas
  105. 5:21ideias importantes para entendê-lo melhor.
  106. 5:23E também vou dar alguns exemplos que  você pode literalmente aplicar em casa.
  107. 5:26E pra isso, eu preciso começar  explicando o que é Cosmovisão.
  108. 5:30Todos nós nascemos dentro de uma Cosmovisão.
  109. 5:32É através dela que nós interpretamos a realidade  ao nosso redor e damos sentido às coisas que
  110. 5:37experienciamos.
  111. 5:38Mas aqui eu preciso fazer  uma distinção importante.
  112. 5:41Cosmovisão não é sinônimo de  cultura, mesmo que uma possa
  113. 5:44influenciar a outra.
  114. 5:46A cultura é a que dita hábitos  e costumes específicos.
  115. 5:49O que comemos,
  116. 5:50como nos vestimos ou por que celebramos certas  datas faz parte da cultura na qual nós estamos
  117. 5:55inseridos.
  118. 5:56A cosmovisão nos dá o valor  que nós atribuímos às coisas.
  119. 6:00Por exemplo,
  120. 6:00dependendo da cosmovisão,  o casamento pode ser visto
  121. 6:03como uma união sagrada ou como um contrato social.
  122. 6:07O carnaval, que é uma parte importante  da cultura brasileira, pode ser visto
  123. 6:10como uma excelente oportunidade de  ir em uma festa em uma cosmovisão
  124. 6:14ou como um bom feriado para descansar em outra.
  125. 6:16A cosmovisão é mais sobre como  você percebe e avalia o mundo ao
  126. 6:19seu redor do que exatamente  sobre o que você faz nele.
  127. 6:22De certa forma, a cosmovisão funciona como se  fossem óculos com os quais você enxerga o mundo.
  128. 6:27Imagine que cada um desses  representa diferentes cosmovisões.
  129. 6:31Qual delas representa melhor  como eu penso sobre o mundo?
  130. 6:35Ah! Um terremoto!
  131. 6:37Essa é uma ótima oportunidade  para experimentar os óculos.
  132. 6:39Esse terremoto tem uma razão física e geológica.
  133. 6:42Ele aconteceu porque placas tectônicas se moveram.
  134. 6:48Esse terremoto foi uma mensagem  pra nós darmos mais valor à vida.
  135. 6:53E a prova disso é que os  óculos ficaram no mesmo lugar.
  136. 7:01Nem um nem outro.
  137. 7:02Isso foi só a câmera se mexendo.
  138. 7:04No livro Os tipos de concepção de mundo  e sua formação nos sistemas metafísicos,
  139. 7:08o filósofo Wilhelm Dilthey argumenta que nós  nascemos em uma cosmovisão e a nossa forma
  140. 7:13de pensar é profundamente moldada por ela.
  141. 7:15Somos, em grande parte, produtos do contexto  histórico-temporal em que estamos inseridos.
  142. 7:20Por exemplo, alguém que viveu na idade  média em um feudo teria uma visão muito
  143. 7:24diferente sobre coisas como a vida, a  arte e a morte se comparado com alguém
  144. 7:28que nasceu e mora em uma  grande cidade como São Paulo.
  145. 7:31O espírito do tempo no qual nascemos
  146. 7:33define os nossos horizontes de pensamento.
  147. 7:35Ou seja, um homem medieval europeu não teve
  148. 7:38à sua disposição os avanços  científicos, as mudanças do globo,
  149. 7:42as grandes guerras e o mundo tecnológico de hoje,
  150. 7:44mas isso não quer dizer que a  sua cosmovisão tenha menos valor
  151. 7:48ela faz parte daquele contexto  e pode até sobreviver ao tempo,
  152. 7:51além disso nós podemos mudar  de cosmovisão ao longo da vida
  153. 7:54podemos adotar novos valores, novas  crenças e até mudar as nossas respostas
  154. 7:59para as grandes questões como  por exemplo o mistério da morte
  155. 8:02como que o Flamengo conseguiu tomar  aquele gol em 5 minutos de jogo
  156. 8:04É possível por exemplo que alguém que  antes acreditava em uma vida após a morte
  157. 8:08passe a negar essa possibilidade ou vice-versa
  158. 8:11tá...
  159. 8:13bem bonito
  160. 8:14mas...
  161. 8:14o que que isso tem a ver com  o paradoxo da tolerância?
  162. 8:17o conceito de cosmovisão nos dá uma forma mais  precisa de apresentar o paradoxo da tolerância
  163. 8:21que na verdade é na forma de uma pergunta.
  164. 8:23Existem cosmovisões que não podem ser toleradas?
  165. 8:27Isso é, existem formas de ver o  mundo que são fundamentalmente
  166. 8:31incompatíveis com uma sociedade tolerante
  167. 8:34e que por isso precisam ser desprezadas mesmo  por uma sociedade que quer ser inclusiva?
  168. 8:39Popper sugere que a tolerância  não pode ser um caminho sem fim.
  169. 8:42Precisa existir um limite em que  a intolerância seja enfrentada.
  170. 8:46Mas isso é uma resposta muito curta  para uma pergunta bem complicada.
  171. 8:50Porque a pergunta que segue é...
  172. 8:51Se nós não podemos tolerar  cosmovisões intolerantes,
  173. 8:55então como classificamos  quais delas são inaceitáveis?
  174. 8:58Ou, em outras palavras, qual  que é a linha da intolerância.
  175. 9:02Porque sim, em exemplos diretos, é fácil  de decidir quando alguém cruzou a linha.
  176. 9:05Que pena que esse terremoto não  quebrou esses outros óculos.
  177. 9:09Não, esse aqui tá quebrado.
  178. 9:11Esse era um exemplo direto.
  179. 9:13É fácil de ver que a linha  da intolerância foi cruzada,
  180. 9:16mas no mundo real,
  181. 9:17as ideias muitas vezes não são expressadas
  182. 9:19de formas tão diretas e óbvias.
  183. 9:21As vezes pessoas verdadeiramente intolerantes  se escondem por trás do eufemismo
  184. 9:25Outras vezes, pessoas são  intolerantes por razões não maliciosas
  185. 9:29Simplesmente por terem uma cosmovisão que  contrasta demais com o mundo em que elas habitam
  186. 9:33O suficiente para essas pessoas sentirem  que certas mudanças não podem ser toleradas
  187. 9:38Ou ainda, nós podemos ter opiniões  que a princípio são mais moderadas
  188. 9:42Mas que podem servir como um ponto  de entrada pra visões intolerantes.
  189. 9:45E eu sei que esse tempo todo você  provavelmente deve estar pensando em política.
  190. 9:48E é justo.
  191. 9:49Esse é um exemplo que se aplica à política.
  192. 9:51Mas ao invés de ir direto pra um exemplo macro  e que envolve diversas variáveis complicadas,
  193. 9:55por que que nós não tentamos olhar  pra um exemplo mais perto de casa?
  194. 9:58Você já parou ou diminuiu o convívio com um amigo  ou um familiar pelo que eles falam ou pensam?
  195. 10:04Se sim, isso foi você exercendo, na prática,  sua resposta pro paradoxo da tolerância.
  196. 10:08Mas você acha que essa pessoa da qual  você se afastou se considera intolerante?
  197. 10:12Provavelmente não.
  198. 10:13Eles devem se achar os certos da história.
  199. 10:15E acreditam que você é chato por ter se afastado.
  200. 10:18A realidade é que a maior parte  das pessoas acha que é uma pessoa
  201. 10:21normal e perfeitamente razoável  dentro da sua própria cosmovisão.
  202. 10:24Todo mundo acha que tem uma boa  razão para acreditar no que acredita.
  203. 10:28Quase ninguém acha que é um  vilão ou uma pessoa ruim.
  204. 10:30Mas se as pessoas não pudessem tomar escolhas  intolerantes que às vezes machucam outras pessoas,
  205. 10:36a história do mundo seria bem diferente.
  206. 10:38A realidade é que muitas vezes pensamos  que restrições de liberdade só existem
  207. 10:42quando impostas de cima pra baixo,  como por um governo autoritário.
  208. 10:46E sim, isso acontece e é um problema.
  209. 10:48Mas essa não é a única forma de restringir  liberdades e de impor cosmovisões.
  210. 10:53Existe uma forma mais sutil disso que surge  não através de uma imposição estrutural,
  211. 10:57mas sim através de uma imposição social.
  212. 10:59Isso é algo que qualquer pessoa  que já conviveu com familiares
  213. 11:03ou colegas de trabalho com cosmovisões  completamente diferentes sentiu um pouco.
  214. 11:07Talvez, quando cercados por essas pessoas  muito diferentes, você sentiu que não podia
  215. 11:12expressar suas verdadeiras ideias e tinha  que se limitar pra manter a paz ou evitar
  216. 11:17ser excluído do grupo.
  217. 11:19Ou quem sabe você mesmo tenha sido excluído de  um grupo por ter opiniões diferentes demais.
  218. 11:23Isso é um microcosmo do paradoxo da tolerância.
  219. 11:26E sim, esses exemplos são menos dramáticos do  que um governo autoritário censurando notícias,
  220. 11:31mas são em momentos como esse que você pode  exercitar sua resposta ao paradoxo da tolerância.
  221. 11:36A boa notícia é que o debate sobre tolerância  evoluiu muito desde que Popper o propôs.
  222. 11:41Existem pesquisas científicas tentando  estudar melhor o conceito de tolerância.
  223. 11:44E um dos pontos centrais do debate é  o que exatamente nós queremos dizer
  224. 11:49quando chamamos alguma coisa de tolerância.
  225. 11:51Na definição mais simples, tolerância  é o oposto de intolerância.
  226. 11:55Quando você tolera algo, você permite que  aquele algo esteja ao seu lado na sociedade.
  227. 11:59Quando você é intolerante, você é incapaz  de coexistir com as coisas que não tolera.
  228. 12:03Mas essa não é uma definição boa o suficiente  para estudar e analisar nossa sociedade.
  229. 12:07Uma pesquisa realizada em 2019
  230. 12:09apontou que modelos sociológicos que usam essa  definição simples de tolerância são incapazes
  231. 12:14de modelar a intolerância na prática.
  232. 12:16O estudo realizou uma pesquisa  com um número grande de
  233. 12:18pessoas.
  234. 12:18E aí, estudando a resposta de só uma  pequena parcela dos participantes,
  235. 12:22tentou prever o grau de tolerância do resto deles.
  236. 12:25O principal resultado foi que pensar em tolerância
  237. 12:28só como o oposto direto de  intolerância não gera boas previsões.
  238. 12:32O estudo, então,
  239. 12:33propôs um modelo mais robusto, em  que tolerância é dividida em três
  240. 12:37qualidades.
  241. 12:38Respeito,
  242. 12:39aceitação e apreciação.
  243. 12:41E o grau de tolerância de indivíduos e comunidades  é melhor explicado por esse modelo de 3 graus
  244. 12:46de tolerância.
  245. 12:47Por exemplo, indivíduos podem respeitar uma  cultura diferente, mas não aceitar que essa
  246. 12:52cultura exista próxima deles.
  247. 12:54Ou eles podem aceitar que essa cultura coexista  próxima a eles, mas evitar contato com ela.
  248. 13:00Ou eles podem apreciar o fato de  viverem próximos de culturas diferentes.
  249. 13:03Usando esse modelo, eles tentaram avaliar o  quão dispostas as pessoas estavam a respeitar,
  250. 13:08aceitar e apreciar diferenças.
  251. 13:10Uma das conclusões mais importantes do  estudo é que dos três tipos de tolerância,
  252. 13:15apenas a apreciação por outras  culturas e outros grupos acaba
  253. 13:18levando a reduções significativas  de preconceitos e intolerância.
  254. 13:21Ou seja, respeito e aceitação são  o ponto de partida para superar as
  255. 13:25diferenças, mas só fazemos isso de fato quando nós  aprendemos a valorizar pessoas que são diferentes
  256. 13:30de nós.
  257. 13:31Mas claro, esse é só um estudo recente, e o  próprio estudo pede cuidado ao generalizar as
  258. 13:35conclusões do modelo.
  259. 13:37Um outro estudo de 2013 tentou criar  uma sociedade e modelo em computador
  260. 13:40com dinâmicas sociais de tolerância e  intolerância usando teoria dos jogos.
  261. 13:44E sim, os resultados desse estudo não podem  ser diretamente traduzidos para o mundo real.
  262. 13:49Mas o estudo também chegou em resultados que  favorecem uma ideia similar sobre a apreciação
  263. 13:53de outras culturas como a  melhor cura para preconceitos.
  264. 13:56Essa é a chamada hipótese do contato  intergrupal, que sugere que indivíduos
  265. 14:01deixam seus preconceitos de lado só após contatos  positivos com o grupo que eles tinham preconceito.
  266. 14:06Mas parem e pensem no que isso quer dizer.
  267. 14:09É muito mais fácil ser intolerante de longe.
  268. 14:11E isso até faz certo sentido.
  269. 14:13Humanos têm mais semelhanças  entre si do que diferenças,
  270. 14:16mesmo que sejam essas diferenças que  normalmente se destaquem na sociedade.
  271. 14:20Para finalizar,
  272. 14:21é realmente desafiador encontrar uma maneira  de garantir que a diversidade de cosmovisões
  273. 14:25possa coexistir sem que a intolerância  de uns impeça a liberdade de outros.
  274. 14:31Eu não tenho essa resposta.
  275. 14:32E talvez ninguém tenha.
  276. 14:34Nem mesmo o Popper.
  277. 14:36Só que me preocupa um pouco que quando eu  vejo o paradoxo da tolerância sendo discutido,
  278. 14:40muitas pessoas entendem que a solução do  próprio Popper é simplesmente que nós devemos
  279. 14:44ser intolerantes com pessoas intolerantes
  280. 14:46O que nem de longe é verdade
  281. 14:47O ponto do paradoxo é justamente o quão complicado
  282. 14:50é balancear a tolerância  em uma sociedade na prática
  283. 14:53E tem uma outra pergunta  ainda mais perigosa que surge
  284. 14:55O que exatamente nós devemos fazer  com as cosmovisões intoleráveis?
  285. 15:00Se algum indivíduo passa dos limites  sociais e expressa ideias perigosas,
  286. 15:03como ele deve ser tratado?
  287. 15:05E isso serve pra mostrar como nós podemos ir  longe em pouco tempo falando desse problema.
  288. 15:10Nós começamos falando sobre opiniões polêmicas e
  289. 15:12chegamos em perguntas sobre  usos legítimos de violência.
  290. 15:15Mas isso serve pra mostrar que  o paradoxo da tolerância não é
  291. 15:18uma pergunta que requer uma resposta definitiva.
  292. 15:21Pelo contrário, nós esperamos  que conforme o mundo mude, as
  293. 15:25respostas para o paradoxo também mudem.
  294. 15:27O desafio é justamente conseguirmos
  295. 15:28construir um mundo em que damos liberdade  o suficiente para as pessoas serem livres,
  296. 15:32mas evitamos dar a oportunidade para pessoas  mal-intencionadas destruírem essa liberdade.
  297. 15:37Mas como exatamente isso deve ser feito na prática  talvez seja um dos maiores desafios da humanidade.
  298. 15:42Na sua opinião, o que nós precisamos fazer para  diferenças não escalarem para a intolerância?
  299. 15:47Bora ter uma conversa profunda e  sadia sobre isso nos comentários.
  300. 15:50Muito obrigado e até a próxima!

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