O ERRO DE SOFTWARE MAIS LETAL DA HISTÓRIA | THERAC 25 — Transcript
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- 0:00Tudo começou na manhã de 3 de junho de
- 0:021985 no Centro Oncológico Regional de
- 0:05Kstone, no estado da Geórgia, onde uma
- 0:07paciente chamada Ctherinear Brw, de 61
- 0:10anos, deu entrada no hospital pela 11ª
- 0:12vez para concluir a sua etapa final de
- 0:14tratamento contra o câncer. Ctherine já
- 0:16havia passado por uma remoção
- 0:17bem-sucedida de um nódulo na mama
- 0:19esquerda alguns meses antes. E, ao que
- 0:21tudo indicava, o câncer já estava sob
- 0:23controle e restava apenas uma última
- 0:24sessão de radioterapia para evitar
- 0:26qualquer possibilidade dele voltar. O
- 0:28equipamento que seria utilizado para
- 0:30administrar a dose de radiação em
- 0:31Cathering seria um acelerador linear
- 0:34recém- adquirido pelo hospital chamado
- 0:36de Terac 25. Essa máquina era
- 0:38considerada a máquina mais avançada do
- 0:39mundo, sendo totalmente controlada por
- 0:41software e capaz de administrar doses
- 0:43precisas de radiação com uma taxa de
- 0:45confiabilidade de 100%. Só que o que
- 0:48ninguém sabia é que essa taxa de 100%
- 0:50estava prestes a ser reduzida a zero nos
- 0:52minutos seguintes. Isso porque no
- 0:54momento em que o operador apertou o
- 0:55botão para iniciar a sessão de
- 0:57radioterapia, Cathertherine começou a
- 0:59gritar desesperada dentro da máquina,
- 1:01dizendo que havia sido queimada e que
- 1:03alguma coisa invisível atravessou o
- 1:05peito dela. O operador então tentou
- 1:08acalmar Katherine dizendo que isso era
- 1:09impossível de acontecer e chegou a
- 1:11solicitar até alguns exames para mostrar
- 1:13para ela que estava tudo bem, que aquilo
- 1:14provavelmente era algo psicológico
- 1:16naquela manhã. Então, Ktherine passou
- 1:18por alguns exames no hospital e a única
- 1:20coisa que foi percebida é que a sua pele
- 1:22estava muito quente, mas nenhum problema
- 1:24foi encontrado de fato e ela foi
- 1:26liberada para ir paraa casa logo em
- 1:27seguida. Duas semanas depois, Ktherine
- 1:29dá entrada novamente no hospital, só que
- 1:31dessa vez pela emergência e agora com
- 1:33manchas extremamente vermelhas pelo
- 1:35corpo e sinais claros de alguém que
- 1:37estava morrendo por dentro. Novos exames
- 1:39foram realizados e foi constatado que
- 1:41ela recebeu uma dose de radiação de
- 1:43aproximadamente 20.000, 1000 R, quando a
- 1:45dose que ela deveria ter recebido era de
- 1:47apenas R0 R. Só para você ter uma noção,
- 1:50o limite máximo que um ser humano pode
- 1:52receber é de até 200 R. A dose que
- 1:54Catherine havia recebido era próxima da
- 1:56dose que os trabalhadores na usina
- 1:58nuclear de Chernobyl receberam no dia do
- 2:00acidente. Os médicos de plantão naquele
- 2:02dia ficaram horrorizados com a situação
- 2:04de Ctherine e entraram em contato
- 2:06imediatamente com a SL, que era
- 2:07fabricante do Terc 25, relatando o caso.
- 2:10Porém, a resposta da SL foi de que
- 2:12aquilo era impossível de acontecer e que
- 2:14eles só ligassem novamente quando eles
- 2:16estivessem provas do que eles estavam
- 2:18falando. As semanas então foram-se
- 2:20passando e Katherine piorava cada vez
- 2:22mais. Sua pele começou a necrosar e
- 2:24apodrecer. Um buraco se formou entre o
- 2:27peito e as costas dela, exatamente no
- 2:29local onde havia sido administrada a
- 2:30dose de radiação. E mesmo com tentativas
- 2:33médicas de enxertar a pele saudável no
- 2:35local da ferida, o problema se agravava
- 2:37cada vez mais. A radiação claramente
- 2:39estava matando Ctherine aos poucos e
- 2:41ninguém sabia exatamente o que havia
- 2:43acontecido com ela. Só que o pior dessa
- 2:45história toda é que ela tá apenas
- 2:47começando. E esse caso de Ctherine não
- 2:49era um caso isolado. Esse foi apenas o
- 2:51primeiro dos muitos outros casos que
- 2:54ficaram conhecidos como o erro de
- 2:55software mais letal e macabro de todos
- 2:58os tempos. Seja bem-vindo à história não
- 3:01contada do Terc.
- 3:14No final do século XIX, um físico alemão
- 3:16chamado Wilh percebeu algo estranho
- 3:18enquanto fazia experimentos com tubos de
- 3:20raios catódicos. Ele notou que um tipo
- 3:22de energia invisível era capaz de
- 3:24atravessar objetos sólidos e
- 3:26impressionar chapas fotográficas. Aquilo
- 3:28não era luz, não era eletricidade, não
- 3:30era nada conhecido até então. E ele
- 3:32simplesmente chamou aquilo de raio X.
- 3:34Pouco tempo depois na França, Marik e
- 3:37Pierre Curri aprofundaram essas
- 3:38descobertas ao estudar materiais
- 3:40naturalmente radioativos, como o rádio.
- 3:42Eles perceberam que certos elementos
- 3:44emitiam energia de forma contínua sem
- 3:46precisar de combustão nem movimento
- 3:48mecânico. Era simplesmente energia sendo
- 3:51liberada a partir do próprio átomo. No
- 3:53começo, ninguém entendia direito o que
- 3:54aquilo significava ou como que
- 3:56funcionava, mas uma coisa ficou evidente
- 3:58muito rápido. radiação tinha efeito
- 4:00direto sobre o corpo humano e tecidos
- 4:02que eram expostos a ela em excesso
- 4:04adoeciam, queimavam e morriam. Só que ao
- 4:07mesmo tempo os médicos começaram a notar
- 4:09algo curioso. Os tumores também
- 4:12encolhiam. Foi aí que surgiu uma das
- 4:13ideias mais importantes da história da
- 4:16medicina. Se a radiação era capaz de
- 4:18destruir células vivas, talvez ela
- 4:20também pudesse ser utilizada de forma
- 4:22controlada para destruir células
- 4:24cancerígenas. Então, em novembro de
- 4:261899,
- 4:28depois de muita tentativa e erro, surge
- 4:30o primeiro caso de uma paciente de 49
- 4:33anos que foi curada de um câncer no
- 4:34nariz através do tratamento com a
- 4:36radiação que foi realizada pelos médicos
- 4:38Story Stenbeck e Tog Huegren. Essa
- 4:40paciente foi a primeira pessoa da
- 4:42história a ser curada de um câncer
- 4:43através da radiação e mesmo com todo o
- 4:45procedimento sendo ainda muito
- 4:47rudimentar e artesanal e com risco
- 4:49enorme tanto pro paciente quanto pro
- 4:51médico por conta da falta de controle
- 4:53sobre a radiação, ainda assim ela foi
- 4:55curada. Após o caso dessa paciente, a
- 4:57radioterapia então começou a ser
- 4:58estudada no mundo inteiro e ao longo das
- 5:00décadas foi deixando de ser mera
- 5:02tentativa e erro para se tornar ciência
- 5:04de verdade, onde novas doses seguras de
- 5:06radiação começaram a surgir, novos
- 5:08limites começaram a ser definidos e o
- 5:09que antes era simplesmente expor alguém
- 5:11a radiação aleatória passou a ser
- 5:13administrar uma quantidade precisa de
- 5:16energia de acordo com o problema. E não
- 5:18demorou muito paraa engenharia também
- 5:19entrar nessa equação. Então, em 1950,
- 5:22surgiu a primeira máquina avançada de
- 5:24radioterapia, conhecida como acelerador
- 5:27linear. Essa máquina funciona
- 5:28basicamente acelerando partículas,
- 5:30principalmente elétrons a velocidades
- 5:32extremamente altas, próximas à
- 5:34velocidade da luz. E esses elétrons,
- 5:36eles podem ser usados de duas formas
- 5:38diferentes. Quando o feixe de elétrons é
- 5:40direcionado diretamente no corpo do
- 5:42paciente, ele deposita sua energia logo
- 5:44nas camadas iniciais do tecido, o que é
- 5:46muito bom para tratar tumores próximos
- 5:48da pele. Agora, quando esses elétrons
- 5:50são direcionados contra um alvo
- 5:52metálico, como uma placa de tugêno, por
- 5:54exemplo, eles desaceleram bruscamente. E
- 5:56nesse processo de desaceleração, eles
- 5:58geram o que chamamos de raio X, que são
- 6:01fótons de alta energia. E diferente dos
- 6:03elétrons, esses fótons penetram muito
- 6:05mais fundo no corpo humano, permitindo
- 6:07atingir tumores localizados em regiões
- 6:09muito mais profundas. Em outras
- 6:11palavras, elétrons são usados para
- 6:12tratamentos superficiais e fótons são
- 6:14usados para tratamentos profundos. dois
- 6:17tipos de radiação, dois tipos de
- 6:18aplicação e dois riscos diferentes,
- 6:20todos eles precisando de controle
- 6:22absoluto. Foi nesse cenário então que em
- 6:241970 a Atomic Energy of Canada Limited,
- 6:28conhecida como a SL, que era uma empresa
- 6:30estatal canadense profundamente ligada
- 6:32ao setor nuclear, resolveu entrar no
- 6:34campo da medicina com o seguinte
- 6:35argumento: se nós já dominamos os
- 6:37reatores nucleares, física de partículas
- 6:40e sistemas complexos de alta energia,
- 6:42também temos competência técnica
- 6:44suficiente para construir equipamentos
- 6:46seguros para hospitais. Então assim,
- 6:48surgiu o primeiro acelerador linear da
- 6:51SL, conhecido como Terax 6. uma máquina
- 6:53projetada apenas para tratamentos com
- 6:55feixes de elétrons e que tinha como
- 6:57principal filosofia segurança acima de
- 6:59tudo. O Tercia múltiplas camadas de
- 7:01proteção baseada em hardware, barreiras
- 7:03físicas, intertravamentos mecânicos e
- 7:05sensores independentes. Se alguma
- 7:07configuração perigosa fosse tentada, a
- 7:09própria máquina simplesmente se recusava
- 7:12a operar. E foi um grande sucesso.
- 7:14Hospitais adotaram teraxis em larga
- 7:15escala. pacientes foram tratados,
- 7:17resultados positivos se acumulavam e a
- 7:19máquina se mostrou extremamente
- 7:21confiável ao longo do tempo. Alguns anos
- 7:23depois, em 1978, veio o Terc 20, uma
- 7:26versão mais recente do Terc e que ainda
- 7:29mantinha sua segurança baseada em
- 7:30hardware, só que agora ela trabalhava
- 7:32com um conceito chamado de passagem
- 7:34dupla, que basicamente permitia ao Terc
- 7:3620 agora trabalhar não só com o modo de
- 7:38elétrons, mas também com o modo de raio
- 7:40X, gerando fótons. Isso permitia com que
- 7:42o Terc 20 tratasse uma variedade muito
- 7:45maior de tumores. E mais uma vez assim
- 7:47que foi lançado no mercado, foi uma
- 7:49grande explosão e funcionou por muitos e
- 7:51muitos anos sem nenhum incidente com a
- 7:53máquina ou nenhuma reclamação negativa.
- 7:56Só que quando algo funciona bem por
- 7:58muito e muito tempo, a primeira pergunta
- 8:00que surge quase que de maneira natural
- 8:02é: como tornar isso mais rápido, mais
- 8:04eficiente, mais moderno e,
- 8:06principalmente mais barato de ser
- 8:09produzido? Foi nesse ponto da história
- 8:11que em 29 de julho de 1983 surgiu TERAC
- 8:1625, o mais novo acelerador linear da SL
- 8:19que vem agora com a proposta totalmente
- 8:21revolucionária pro mercado, segurança
- 8:24baseada em software, ou seja, diferente
- 8:26dos seus antecessores que possuíam
- 8:28segurança baseada em hardware, sensores
- 8:31físicos e camadas mecânicas, a SL
- 8:33decidiu jogar toda a segurança e todo o
- 8:35controle do Terc e exclusivamente em
- 8:38código. Então agora era o computador que
- 8:41assumiria o papel de garantir que o
- 8:43equipamento nunca entrasse num estado
- 8:44perigoso e se algo desse errado, o
- 8:47próprio programa impediria a operação. E
- 8:49mais uma vez, assim que foi lançado no
- 8:51mercado, Terco.
- 8:54Os hospitais começaram a adotar sua mais
- 8:56nova máquina de radioterapia e nos
- 8:58primeiros meses de operação, mais de
- 9:0020.000 pacientes foram tratados com o
- 9:02Terac 25, sem nenhum tipo de incidente
- 9:05ou falha com a máquina. Mas diante dessa
- 9:07euforia toda tinha algo que ninguém
- 9:10talvez tivesse parado para pensar. O
- 9:12sistema que antes se recusava
- 9:14fisicamente a operar em condições
- 9:16perigosas agora dependia única e
- 9:18exclusivamente de decisões tomadas
- 9:20apenas por linhas de código. E se esse
- 9:23código, porventura falhasse, não haviam
- 9:25mais barreiras mecânicas e físicas para
- 9:28impedir que a máquina se transformasse
- 9:29num canhão de radiação. E é exatamente
- 9:32isso que nos leva pro primeiro caso
- 9:34registrado de uma overdose de radiação,
- 9:37que foi o caso da manicure Katherine de
- 9:3961 anos em Kenstone, na Geórgia, que
- 9:41perdeu sua vida por conta desse
- 9:43acidente. Só que o pior de tudo isso é
- 9:46que Katherine não estava sozinha nessa.
- 9:48Esse pesadelo chamado Ter 25 tinha
- 9:51acabado de começar
- 10:00no dia 26 de julho de 1985, exatas s
- 10:04semanas após o caso de Catherine, uma
- 10:06paciente chamada Francis Rio, de 40
- 10:08anos, da entrada no Hospital Regional do
- 10:10Câncer em Ontário, no Canadá, para fazer
- 10:12a sua 24ª sessão de radioterapia como
- 10:14parte do tratamento de um câncer no colo
- 10:16do útero. Frances, então é posicionada
- 10:18sobre o Terc 25 e no momento que a
- 10:20sessão é iniciada, a máquina desliga
- 10:22abruptamente uma mensagem de erro
- 10:24Malfunction 54 aparece no console do
- 10:26operador acompanhada de uma mensagem que
- 10:28dizia no dose, indicando que alguma
- 10:31coisa estava errada, mas que nenhuma
- 10:33dose de radiação havia sido entregue
- 10:35ainda. Como esse erro não existia na
- 10:37documentação nem no manual do Terc, o
- 10:39protocolo recomendado pela própria SL
- 10:41era apertar a tecla P para prosseguir
- 10:44com a operação. O operador, então,
- 10:45acreditando que nenhuma dose de radiação
- 10:47havia sido administrada em Frances,
- 10:49aperta a tecla P quatro vezes
- 10:51consecutivas na tentativa de iniciar o
- 10:53processo. Naquele momento, Francis
- 10:55começa a gritar desesperada de dor,
- 10:57descrevendo uma sensação de choque
- 10:58profundo, como se algo tivesse
- 11:00atravessado o seu quadril. Nas horas
- 11:02seguintes, a região irradiada começa a
- 11:04inchar, escurecer e se deteriorar de
- 11:06forma acelerada e com sinais claros de
- 11:08uma overdose de radiação levando à
- 11:10hospitalização imediata de Frances. O
- 11:12hospital então notifica a SL sobre o
- 11:15caso, mas a fabricante se recusa a
- 11:17reconhecer qualquer defeito comterac 25
- 11:19e depois de muita luta envia um técnico
- 11:21para examinar o equipamento. Porém, o
- 11:23técnico não consegue reproduzir o
- 11:25problema, mas sugere uma substituição em
- 11:27uma peça chamada Micrositch, que era
- 11:29responsável por girar o disco do Terc 25
- 11:32para alternar entre os modos de fotótons
- 11:34e elétrons da máquina. A SL então
- 11:36realiza a correção física nas máquinas
- 11:38em diversos hospitais, porém ela omite a
- 11:40informação de que a paciente havia sido
- 11:42gravemente ferida no hospital em
- 11:44Ontário. Poucos meses depois, Frances
- 11:46vem a óbito em decorrência das
- 11:47complicações e durante a autópsia foi
- 11:49constatado que o dano causado em seu
- 11:51quadril era tão grave que caso ela
- 11:52tivesse sobrevivido, ela teria que
- 11:54passar por uma substituição completa do
- 11:56próprio quadril por conta da overdose de
- 11:58radiação que ela recebeu de
- 12:00aproximadamente 17.000 r. Após esse
- 12:03evento, Terque continua em operação
- 12:05normalmente e ninguém é notificado ou
- 12:08responsabilizado pelo caso de Frances.
- 12:17No dia 3 de dezembro de 1985, dessa vez
- 12:20no Hospital Memorial do Vale do Yakima
- 12:22em Washington, uma mulher não
- 12:23identificada que estava em tratamento de
- 12:25um câncer desenvolve uma vermelhidão
- 12:27excessiva em forma de listras paralelas
- 12:29por todo o seu corpo uma semana após ter
- 12:32passado por uma sessão com o Terc 25. A
- 12:34equipe médica inicialmente descarta a
- 12:36possibilidade de uma overdose de
- 12:38radiação porque a máquina havia acabado
- 12:40de ser supostamente consertada pela SL
- 12:42com a troca do micrositch e decide então
- 12:44continuar tratando a paciente com a
- 12:46máquina até janeiro de 1986. Só que
- 12:49conforme as semanas foram passando, a
- 12:51pele da paciente começou a necrosar e
- 12:53ela desenvolveu uma úlcera crônica e
- 12:55também sofreu uma paralisia da perna
- 12:57direita. Dois meses após esse ocorrido,
- 12:59a paciente veio a falecer em decorrência
- 13:00da overdose de radiação que,
- 13:02posteriormente, nas investigações, foi
- 13:04constatado que chegava próximo dos
- 13:0614.000. O hospital agora com fortes
- 13:09evidências de uma overdose de radiação
- 13:11entra em contato com a SL que mais uma
- 13:14vez responde que uma overdose de
- 13:16radiação era impossível e que a
- 13:18instituição desconhecia qualquer outro
- 13:20incidente similar, o que não era
- 13:22verdade, pois a SL já tinha sido
- 13:24notificada sobre as mortes anteriores e
- 13:26também já estava sendo processada
- 13:28judicialmente pela família de Katherine,
- 13:30no estado da Geórgia. Desconfiados então
- 13:32da resposta da SL, os próprios médicos
- 13:35do Vale do Iaquima decidiram começar a
- 13:37trocar informações com médicos de outros
- 13:39hospitais que também tinham o Terac 25
- 13:41em operação. E eles decidem não só
- 13:43trocar essas informações, mas também
- 13:45formar um grupo para começar a mandar
- 13:47cartas paraa SL, cobrando soluções mais
- 13:49eficientes e ameaçando também uma
- 13:51denúncia formal no FDA, que é a Agência
- 13:54Federal Reguladora dos Estados Unidos e
- 13:56responsável por proteger a saúde
- 13:58pública. A SL, então, para tentar conter
- 14:00essa situação, lança alguns pets de
- 14:03atualização no software do Terc 25 e
- 14:05garante que a máquina agora é 9 milhões
- 14:08de vezes mais segura e que ninguém
- 14:10precisava mais se preocupar com qualquer
- 14:12possibilidade de acidente. Os hospitais
- 14:14então acreditam na SL e retomam suas
- 14:17operações normalmente e o tercando
- 14:21suas sessões sem nenhum tipo de
- 14:23interrupção.
- 14:28No dia 21 de março de 1986, agora no
- 14:31East Texas Cancer Center, localizado em
- 14:33Tyler, um homem chamado Von Ray Cox, de
- 14:3633 anos, dá entrada no hospital paraa
- 14:38sua nona sessão de radioterapia como
- 14:40parte do acompanhamento da remoção de um
- 14:42tumor nas suas costas. A prescrição
- 14:44daquele dia era muito clara, um feixe de
- 14:46elétrons aplicado à região esquerda da
- 14:48coluna para administrar uma dose de
- 14:50180º.
- 14:51No momento da configuração da máquina, a
- 14:53operadora, que já era bastante
- 14:55experiente, acabou cometendo um erro de
- 14:57digitação e apertou a letra X de raio X,
- 14:59ao invés da letra E de elétrons. Só que
- 15:02como ela já era bastante experiente com
- 15:04a máquina, ao notar o erro, ela usou a
- 15:06tecla seta para cima para corrigir o
- 15:08campo e em seguida apertou o enter
- 15:09várias vezes até chegar no final da tela
- 15:11e concluir a configuração. E tudo isso
- 15:14em menos de 8 segundos. Grava essa
- 15:16informação porque ela vai ser
- 15:17importante. Com tudo configurado, a
- 15:19operadora então inicia a sessão, só que
- 15:21nesse momento a máquina simplesmente
- 15:23dispara e interrompe a operação com a
- 15:25mensagem de erro na tela Malfunction 54.
- 15:29Segundo as recomendações da fabricante,
- 15:30a operadora então aperta a tecla P para
- 15:33prosseguir novamente. Só que no momento
- 15:34em que a operador aperta para
- 15:36prosseguir, o paciente que estava dentro
- 15:37da sala blindada é atingido por uma dose
- 15:40massiva de radiação que posteriormente
- 15:42ele descreveu como choque elétrico e
- 15:44como se alguém tivesse despejado café
- 15:46fervendo nas suas costas. Para piorar,
- 15:48nesse dia o monitor de vídeo da sala
- 15:50estava desconectado e o intercomunicador
- 15:52de áudio estava quebrado. A operadora
- 15:54não ouviu os gritos do paciente. Ele só
- 15:56foi retirado de dentro da sala quando
- 15:57começou a esmurrar a porta de chumbo,
- 15:59cambaleando e gritando que o corpo dele
- 16:02estava queimando por dentro. O paciente
- 16:04foi examinado por um médico que observou
- 16:05a vermelhidão intensa no local, mas não
- 16:08encontrou nenhum problema imediato. O
- 16:10físico do hospital Free Hager desconfia
- 16:12da situação e entra em contato com a SL
- 16:15informando o caso. Só que mais uma vez a
- 16:17SL se recusa em reconhecer qualquer
- 16:19possibilidade de overdose por radiação e
- 16:22disse que isso era um problema elétrico
- 16:24e de aterramento do próprio hospital.
- 16:26Convencidos pela SL sem saber dos outros
- 16:29acidentes em outros hospitais, a direção
- 16:31do hospital, depois de fazer uma
- 16:32inspeção na sua rede elétrica, manda
- 16:34religar novamente o Terac 25 e diversos
- 16:37pacientes foram atendidos pelo resto do
- 16:39dia normalmente. Duas semanas depois,
- 16:42Vonny Rayx retorna ao hospital pela
- 16:44emergência, tendo perdido o movimento do
- 16:46braço esquerdo e com paralisia nas
- 16:47pernas, nas cordas vocais e no
- 16:49diafragma. Ele foi hospitalizado às
- 16:51pressas, mas faleceu 5 meses após o
- 16:53acidente devido às complicações causadas
- 16:55pela radiação massiva que ele recebeu,
- 16:57que posteriormente nas investigações foi
- 16:59estimada em aproximadamente 25.000
- 17:02Rades. Nesse momento, Freeze Hager liga
- 17:05novamente pra SL, que mesmo ainda muito
- 17:07relotante em reconhecer qualquer defeito
- 17:09com Terc 25, acaba enviando os técnicos
- 17:12Range Hold e Dave Not para investigar o
- 17:14caso. Eles viajam então pro Texas e
- 17:16realizam os testes no Terc 25, mas
- 17:18acabam não encontrando nada errado com a
- 17:20máquina que permanece em operação mesmo
- 17:23assim.
- 17:28No dia 11 de abril de 1986, apenas três
- 17:31semanas após a tragédia com Vony Ray
- 17:33Cox, um motorista de ônibus chamado
- 17:35Verdon Kid, de 66 anos, dá entrada no
- 17:38mesmo hospital em Tyler, no Texas, para
- 17:40dar continuidade ao tratamento de um
- 17:41câncer de pele localizado do lado
- 17:43direito do seu rosto. Por coincidência,
- 17:45a operadora que controlava o Terc 25
- 17:47nesse dia era a mesma que havia
- 17:49participado da tragédia com Von Ray Cox.
- 17:51E exatamente como no caso anterior, na
- 17:54hora dela configurar a máquina, ela
- 17:55acabou cometendo o mesmo erro de
- 17:57digitação novamente, apertando X para
- 17:59modo de raio X, quando na verdade ela
- 18:01deveria ter apertado o E para modo de
- 18:03elétrons. Ela percebe o erro mais uma
- 18:05vez e repete o mesmo procedimento de
- 18:07trocar pra letra E de elétrons e aperta
- 18:09enter várias vezes para confirmar todas
- 18:12as outras configurações. Tudo isso mais
- 18:14uma vez em menos de 8 segundos. Agora
- 18:17com a máquina configurada, ela inicia
- 18:19então a operação e assim que o
- 18:21procedimento começa, o Tercabtamente
- 18:26e mais uma vez a mensagem de erro
- 18:28malfunction 54 aparece na tela. Só que
- 18:31diferente do caso de Von Ray Coxy, dessa
- 18:33vez o intercomunicador funcionava e a
- 18:35operadora ouviu Verdon Kid gritando por
- 18:38socorro e dizendo que havia fogo em seu
- 18:40rosto. Ele descreveu aos médicos que
- 18:42algo atingiu violentamente e que ele viu
- 18:44um flash de luz e ouviu o som de um
- 18:46chiado como se fosse ovos fritando. Mais
- 18:48tarde descobriu-se que esse som, na
- 18:50verdade, era o ruído físico das câmaras
- 18:52de ionização do Terc 25, sendo
- 18:55completamente saturadas pela radiação
- 18:57massiva que foi disparada. A saúde de
- 18:59Verdon Kid nos minutos seguintes começa
- 19:01a colapsar e ele entra em coma imediato,
- 19:04tendo febre constante de 40º. E mesmo
- 19:06hospitalizado às pressas, Verdon não
- 19:08resiste e acaba falecendo no dia 1o de
- 19:10maio de 1986, três semanas após o
- 19:14acidente. Essa foi a morte mais rápida
- 19:16de todos os casos envolvendo o terac 25.
- 19:18E na autópsia foi constatado que a causa
- 19:20da morte foi uma lesão aguda por
- 19:22radiação de altíssima dose que havia
- 19:24destruído o lobo temporal direito do seu
- 19:26cérebro e o seu tronco encefálico. A
- 19:29morte de Verdon Kid foi a gota d'água e
- 19:31diversos hospitais que já trocavam
- 19:32informações entre si ficaram sabendo do
- 19:35caso e agora se sentindo enganados pelas
- 19:37garantias anteriores da SL de que
- 19:39overdoses eram impossíveis. Eles
- 19:41começaram a formalizar denúncias para
- 19:43enviar o FDA, relatando as informações
- 19:45que a SL supostamente tentava manter em
- 19:48sigilo e também cobrar explicações sobre
- 19:50o erro Malfunction 54 e a relação direta
- 19:53que ele tinha com a morte de diversos
- 19:55pacientes. Paralelo a isso, o físico
- 19:57Freeze Haer do Hospital em Tyler, no
- 19:59Texas, onde Verdon Kid morreu, fica
- 20:01inconformado com a situação e se recusa
- 20:03a aceitar as desculpas esfarrapadas da
- 20:05SL e decide ele mesmo investigar o caso
- 20:08e tentar reproduzir o Malfunction 54
- 20:10para descobrir qual era a origem desse
- 20:12erro. Heer então passa dois dias
- 20:14inteiros dentro do hospital sem dormir,
- 20:16tentando reproduzir o erro. E depois de
- 20:18muita tentativa e um esforço
- 20:19considerável, ele finalmente consegue
- 20:21reproduzir o Malfunction 54 e descobre
- 20:24que a velocidade de digitação do
- 20:26operador era onde estava o problema.
- 20:28Basicamente o que acontecia era que o
- 20:30Terc era totalmente controlado via
- 20:32software e tudo rodava dentro de um
- 20:34PDP11 que era um mini computador
- 20:36industrial que controlava a máquina.
- 20:38Dentro desse PDP11, haviam várias
- 20:40rotinas rodando ao mesmo tempo e cada
- 20:42uma delas controlava uma parte do
- 20:44ecossistema do Terc 25. Então tinha a
- 20:46rotina que controlava as informações que
- 20:48eram digitadas no teclado, tinha a
- 20:49rotina que controlava o disco que
- 20:51alternava entre os modos de fótons e
- 20:52elétrons e a potência do disparo. Tinha
- 20:54a rotina que atualizava as informações
- 20:56que apareciam na tela e várias outras
- 20:58rotinas que garantiam o bom
- 21:00funcionamento da máquina. Só que todas
- 21:02essas rotinas eram completamente
- 21:03independentes umas das outras e elas só
- 21:05trocavam informações entre si através de
- 21:08algumas variáveis globais que ficavam na
- 21:10memória RAM do PDP11. Uma dessas
- 21:12variáveis globais era uma variável
- 21:14chamada MS, que significa mod energy
- 21:17offset, que basicamente era a variável
- 21:18que dizia em qual modo de energia a
- 21:20máquina tava, se era o modo de elétrons
- 21:22ou se era o modo de raio X. E tudo
- 21:24funcionava mais ou menos assim. Quando o
- 21:26operador selecionava no teclado a letra
- 21:28E de elétrons ou X de raio X, a rotina
- 21:31que lia as informações do teclado pegava
- 21:33esse valor e atualizava a variável MOS
- 21:35na memória do PDP11. Com essa variável
- 21:38atualizada, a rotina que ajustava o
- 21:40disco do Tercia o valor da variável e
- 21:43girava o disco pro modo selecionado. Só
- 21:46que o problema é que o Tercva
- 21:488 segundos para girar o disco entre os
- 21:50modos de elétrons e raio X. E um erro na
- 21:53lógica do código que rodava nessa rotina
- 21:55fazia com que ela ficasse cega por 8
- 21:58segundos sem buscar qualquer atualização
- 22:00na variável Mus enquanto o disco estava
- 22:02girando. Então o que acontecia era que
- 22:04quando o operador selecionava um modo
- 22:05por engano, como foi o caso do Verdon
- 22:07Kid, onde foi selecionado o modo de raio
- 22:09X primeiro, a rotina do teclado
- 22:11atualizou o valor da variável MOS e a
- 22:13rotina do disco pegou esse valor e
- 22:15iniciou o processo de girar o disco pro
- 22:17modo de raio X. Só que nesse momento a
- 22:20rotina parava de buscar atualizações na
- 22:22variável por 8 segundos. A partir daí,
- 22:24quando a operadora corrigia o modo de
- 22:26operação pro modo de elétrons dentro da
- 22:29janela de 8 segundos, a rotina do
- 22:31teclado pegava essa informação e
- 22:33atualizava a variável sem problemas. Só
- 22:35que a rotina do disco ainda estava
- 22:37inoperante e não lia essa atualização. E
- 22:40era exatamente isso que fazia com que a
- 22:42máquina entrasse num estado
- 22:43inconsistente, onde o disco estava no
- 22:45modo de fótons, que era o modo mais
- 22:47extremo e potente da máquina. E na tela
- 22:49do operador aparecia que a máquina
- 22:51estava em modo de elétrons. E aí quando
- 22:52era iniciado o disparo nesse estado
- 22:55inconsistente, a máquina disparava a
- 22:56quantidade máxima de radiação em cima do
- 22:59paciente. E era isso que significava o
- 23:01mal Function 54. Inclusive, essa
- 23:03descoberta de Haigar também respondeu
- 23:05por que mais de 20.000 pacientes foram
- 23:08tratados com Terak 25 nos primeiros
- 23:10meses de operação sem nenhum tipo de
- 23:12problema. Isso acontecia porque os
- 23:13operadores ainda estavam se acostumando
- 23:15com a máquina e levavam mais de 8
- 23:17segundos para configurar ela. A partir
- 23:19do momento que eles começaram a se
- 23:20tornar mais experientes e mais ágeis com
- 23:23a máquina, a configuração passou a ser
- 23:25feita dentro da janela de 8 segundos e
- 23:27era isso que transformava o Ter 25 num
- 23:30canhão de radiação extremamente letal. E
- 23:33as coisas só pioraram daqui pra frente.
- 23:35Depois das descobertas de Freeze Haiger
- 23:37e também com as denúncias do grupo de
- 23:38médicos e físicos de outros hospitais
- 23:40que não paravam de chegar, o FDA
- 23:42imediatamente cobra soluções da SL, que
- 23:45por sua vez propõe simplesmente remover
- 23:48a tecla de seta para cima do teclado dos
- 23:51operadores e cobrir os contatos com fita
- 23:53isolante para impedir que eles façam
- 23:55edições rápidas na máquina. O FDA então
- 23:58considera essa resposta como sendo
- 24:00extremamente afrontosa e absurda por
- 24:02parte da SL e no dia 26 de maio de 1986
- 24:06declara o tercfeituoso,
- 24:08ordenando a desativação de todas as
- 24:10máquinas em território nacional e obriga
- 24:12a SL a entregar um plano de ação
- 24:14corretivo, conhecido como CAP, para
- 24:16solucionar todos os problemas com a
- 24:18máquina e resolver de uma vez por todas
- 24:22relatados. Então, em 13 de junho de
- 24:241986, a SL então entrega a proposta de
- 24:28ação corretiva ao FDA e nesse plano de
- 24:30ação incluíam 23 alterações de software,
- 24:33além das várias outras necessárias para
- 24:35corrigir o Malfunction 54, e incluíam
- 24:37também pelo menos seis recursos de
- 24:39segurança baseado em hardware que haviam
- 24:41sido exigidos pelos físicos. O hardware
- 24:43tradicional então da linha Terac 6 e
- 24:45Terac 20 agora seria implementado no
- 24:48Terc 25, que até então era única e
- 24:50exclusivamente controlado somente por
- 24:52software. O plano de ação então foi
- 24:54revisado duas vezes antes do final do
- 24:56ano pelo FDA para atender a todas as
- 24:58novas exigências rigorosas da federação.
- 25:01E em dezembro de 1986, a SL, com seu
- 25:04mais novo Ter, agora completamente
- 25:07reformulado e pronto para voltar a
- 25:08funcionar, consegue a autorização do FDA
- 25:11e retoma as operações normalmente e os
- 25:14hospitais introduzem novamente a
- 25:16utilização do TERAC 25.
- 25:23No dia 17 de janeiro de 1987, novamente
- 25:27no hospital do Vale do Yakim em
- 25:29Washington, um paciente chamado Glendod,
- 25:31de 65 anos, deu entrada no hospital para
- 25:34continuação do tratamento de um câncer
- 25:36localizado na região torácica. O
- 25:37tratamento planejado para aquele sábado
- 25:39era complexo e envolviam três etapas
- 25:41para uma exposição total de 86 r, onde a
- 25:44primeira etapa seria de quatro radios, a
- 25:46segunda de três rades e uma etapa final
- 25:48de 79 rosses restantes. A sessão então
- 25:51começou conforme o esperado e o operador
- 25:53administrou a primeira exposição de
- 25:55quatro rádios e a segunda de três rádios
- 25:57normalmente. Mas em que o operador
- 25:59inicia a exposição dos 79 rádios
- 26:01restantes, a máquina simplesmente não
- 26:03executa nada e entra em modo de pause.
- 26:05Acreditando que nada havia acontecido, o
- 26:07operador então segue o protocolo
- 26:09habitual e pressiona a tecla P para
- 26:11proceder com a operação. A máquina então
- 26:13entra uma segunda vez em modo de pause,
- 26:15só que agora exibindo uma mensagem de
- 26:17erro flatness. Nesse momento, pelo
- 26:19intercomunicador, o operador ouviu o
- 26:21paciente dizer alguma coisa, mas não
- 26:22conseguiu entender o que era. Mas quando
- 26:24entrou na sala, encontrou Glendod
- 26:26deitado no chão em agonia. relatando uma
- 26:28sensação de queimação profunda e que seu
- 26:30peito estava pegando fogo. E embora o
- 26:32console do operador indicasse que apenas
- 26:34sete rádios iniciais haviam sido
- 26:35entregues, após os exames realizados,
- 26:37foi constatado que Glendod recebeu entre
- 26:398 e 10.000 1000 rades diretamente no
- 26:42peito. O paciente faleceu dia 11 de
- 26:44abril de 1987 devido às complicações
- 26:47causadas pela overdose de radiação.
- 26:49Durante as investigações, foi revelado
- 26:51que diferente do erro Malfunction 54,
- 26:53que era um problema de estado
- 26:54inconsistente entre software e hardware,
- 26:56esse erro agora era novo e era
- 26:57ocasionado porque o programador usou uma
- 26:59variável de 8 bits para funcionar como
- 27:01um contador interno que era responsável
- 27:03por monitorar falhas de flatness, que
- 27:05basicamente eram verificações de
- 27:07uniformidade do feixe de radiação.
- 27:09Então, toda vez que a máquina detectava
- 27:11um problema de uniformidade, esse
- 27:13contador era incrementado em mais um
- 27:15para ir registrando os erros e só
- 27:17permitir o disparo do feixe quando o
- 27:19valor desse contador fosse zero, ou
- 27:21seja, sem nenhuma uniformidade. Só que o
- 27:23problema é que o programador usou uma
- 27:25variável de 8 bits para representar esse
- 27:27contador e uma variável de 8 bits só
- 27:29consegue armazenar valores que vão de 0
- 27:31a 255.
- 27:33Então, durante os ajustes da máquina, o
- 27:35contador ia sendo incrementado com cada
- 27:37uniformidade encontrada. Só que quando
- 27:39esse número chegava em 255 e era
- 27:41incrementado em mais um, a variável de 8
- 27:44bits não suportava o valor de 256 e um
- 27:47erro de overflow acontecia e o contador
- 27:49era zerado novamente. No momento em que
- 27:51esse contador era zerado, o Terc 25
- 27:53acreditava que tava tudo certo e
- 27:54descarregava uma tonelada de radiação em
- 27:57cima do paciente. Essa foi a última
- 27:59morte causada pelo Terak 25. E após o
- 28:01caso de Glendod, o FDA ordenou que todas
- 28:03as máquinas fossem retiradas de
- 28:05circulação e iniciou uma chuva de
- 28:07investigações contra a SL que começou a
- 28:09se afundar em processos judiciais. Só
- 28:11que o pior dessa história toda ainda tá
- 28:13por vir. E nas investigações foi
- 28:15revelado que todo o código que rodava
- 28:17dentro do Terc foi desenvolvido por
- 28:20apenas um único programador e sem nenhum
- 28:22tipo de revisão, testes ou controle de
- 28:24qualidade, um único programador
- 28:27escrevendo, mantendo e validando o
- 28:28código de uma máquina radioativa capaz
- 28:30de matar um ser humano numa fração de
- 28:32segundo. Há relatos de que esse
- 28:34programador teria deixado a SL antes de
- 28:36tudo vir a público e a sua identidade
- 28:38permaneceu em sigilo e nem mesmo os
- 28:40investigadores do caso conseguiram
- 28:41descobrir quem era esse programador.
- 28:43Inclusive, nenhum dos funcionários da
- 28:45SL, quando questionados sobre ele, soube
- 28:47fornecer informações sobre o histórico
- 28:49educacional ou a experiência desse
- 28:51desenvolvedor. Há rumores de que para
- 28:53reduzir os custos da SL, um dos próprios
- 28:56diretores da empresa acumulava o papel
- 28:58de desenvolvedor principal do sistema,
- 29:00algo que nunca foi provado formalmente,
- 29:02mas que circulava entre físicos e
- 29:04médicos dos hospitais afetados, como
- 29:06mais um sintoma do nível de negligência
- 29:08que cercava esse projeto. No fim das
- 29:09contas, o caso do Terc 25 terminou da
- 29:11pior forma possível, com zero
- 29:13condenações e ninguém sendo
- 29:15responsabilizado pela morte de nenhum
- 29:17dos pacientes, mesmo com todas as provas
- 29:19da negligência e da omissão por parte da
- 29:22SL. A empresa que antes era uma empresa
- 29:24estatal canadense foi rapidamente
- 29:26privatizada e trocou seu nome para
- 29:28Teratronics International Limitada e
- 29:30depois foi transferida para uma holding
- 29:32estatal canadense chamada Canadá
- 29:34Development Invest Corporation, uma
- 29:36manobra jurídica que dificultava e
- 29:38burocratizava ainda mais os processos
- 29:41judiciais que corriam contra a então
- 29:43desaparecida SL. Só que no final das
- 29:46contas, o que eu quero que você tire
- 29:47dessa história toda é que esse caso do
- 29:49Terak 25 não é só um caso sobre uma arma
- 29:52radioativa construída por um único
- 29:54programador ou de uma empresa negligente
- 29:56e omissa, que por conta da sua omissão
- 29:58matou diversas pessoas ao longo dos
- 30:00anos. O que eu quero que você tire daqui
- 30:02é que essa história toda, na verdade, é
- 30:04uma história sobre consequências. é
- 30:06sobre a consequência que existe em cada
- 30:08linha de código que a gente escreve sem
- 30:10perceber. Porque Uterak 25 não matou
- 30:13pessoas por causa da radiação. Ele matou
- 30:15pessoas porque alguém em algum momento
- 30:18decidiu que código sem revisão era
- 30:20aceitável, que código sem teste era
- 30:22aceitável e que uma máquina que controla
- 30:24energia suficiente para atravessar
- 30:26carne, osso e cérebro poderia depender
- 30:28única e exclusivamente da cabeça de uma
- 30:30única pessoa. Então, se existe uma única
- 30:33lição verdadeira nessa história inteira
- 30:35é essa. Você não escreve apenas código,
- 30:38você escreve consequências. E toda vez
- 30:40que você aceita um sistema sem teste,
- 30:43sem revisão ou com aquele "Depois a
- 30:45gente vê isso, você tá aceitando viver
- 30:47num mundo onde casos como Terc 25 são
- 30:50normais. E eu sei que para muita gente
- 30:52por aí, esse caso do Terque 25 é só mais
- 30:54uma história antiga, mas ela só parece
- 30:56antiga porque a gente gosta de fingir
- 30:58que hoje em dia é tudo diferente. Até a
- 31:02próxima.
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