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Interview with Clarice Lispector - São Paulo, 1977 (English subtitles) — Transcript

by Penguin Books UK · 2,561 words · 460 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:06Caris Lispector, de onde vem esse
  2. 0:09Lispector?
  3. 0:11Eu não sei. Eu perguntei, é um nome
  4. 0:13latino, né? E eu perguntei a meu pai,
  5. 0:20desde quando havia ele espectro na na
  6. 0:23Ucrânia? Ele disse que de gerações e
  7. 0:25gerações anteriores, eu suponho que o
  8. 0:28nome foi rolando, rolando, rolando,
  9. 0:31perdendo algumas sílabas
  10. 0:34e transformando nessa coisa que é parece
  11. 0:37uma coisa lis no peito em latim,
  12. 0:41flor de lis. Quer dizer, é uma um um
  13. 0:45nome que que quando aparece quando eu
  14. 0:49escrevi o meu primeiro livro, Sérgio
  15. 0:52Milier, eu era então completamente
  16. 0:55desconhecida, é claro. O Sérgil disse
  17. 0:58assim: "Esta escritora de nome
  18. 1:01desagradável, certamente um pseudônimo e
  19. 1:05não era meu nome mesmo.
  20. 1:08Você chegou a conhecer o Sérgio Miri
  21. 1:10pessoalmente? Nunca, porque eu publiquei
  22. 1:13meu livro e fui embora do Brasil
  23. 1:16para viajar, porque eu me casei com um
  24. 1:19diplomata brasileiro,
  25. 1:22de modo que eu não conheci
  26. 1:25as pessoas que escreveram sobre mim, eu
  27. 1:26não não conheci.
  28. 1:29Clar, seu pai fazia o quê
  29. 1:31profissionalmente?
  30. 1:33representação de firmas, coisas assim,
  31. 1:36quando ele, na verdade, dava era para
  32. 1:41coisas de espírito. Há alguém na família
  33. 1:44LCTR que chegou a escrever alguma coisa?
  34. 1:47Bom,
  35. 1:51eu soube ultimamente, para minha enorme
  36. 1:54surpresa, que minha mãe escrevia,
  37. 1:58não publicava, mas escrevia. Eu tenho
  38. 2:02uma irmã Elisa Spectro que escreve
  39. 2:04romances e tenho uma irmã chamada Tânia
  40. 2:07CFAN que escreve livros técnicos.
  41. 2:11Você chegou a ler as coisas que sua mãe
  42. 2:13escreveu? Não, eu só soube há poucos
  43. 2:15meses, mas não teve condições de ler?
  44. 2:17Não.
  45. 2:19Sou informação de uma de uma tia. Ele
  46. 2:22sabe que sua mãe fazia um diário e
  47. 2:25escuia poesia. Eu fiquei bobo.
  48. 2:28Em diversas entrevistas que você tem
  49. 2:31concedido, surge quase que
  50. 2:33necessariamente a pergunta de como você
  51. 2:36começou, quando isso é mais conhecido.
  52. 2:39Você começou aos 7 anos de idade. Antes
  53. 2:41dos 7 anos eu já fabulava, já inventava
  54. 2:44estão. Por exemplo, inventei uma
  55. 2:45história que não acabava nunca.
  56. 2:50É muito complicado para explicar essa
  57. 2:51história com ergon. Ah, quando eu
  58. 2:53comecei a a ler e escrever, comecei a
  59. 2:56escrever também pequenas histórias.
  60. 3:00Quando a jovem, a praticamente
  61. 3:03adolescente Clarice Lispector descobre
  62. 3:06que realmente é a literatura, aquele
  63. 3:09campo de criação humana que mais a
  64. 3:11atrai,
  65. 3:13a jovem Clarice tem algum objetivo
  66. 3:16específico ou apenas escrever sem
  67. 3:18determinar um tipo de público? Apenas
  68. 3:21escrever. Você
  69. 3:24podia nos dar uma ideia do que era a
  70. 3:26produção da adolescente Clarissa Lector?
  71. 3:30Caótica,
  72. 3:33intensa,
  73. 3:36inteiramente fora da realidade
  74. 3:39da vida.
  75. 3:42Desse período, você se lembra do nome de
  76. 3:44alguma produção? Bom, eu escrevi um
  77. 3:47várias coisas antes de publicar meu
  78. 3:50primeiro livro. Eu já escrevia para
  79. 3:52revistas, contos, jornais. Eu ia com uma
  80. 3:55timidez enorme, mas uma timidez de
  81. 3:58ousada. Eu era, eu sou tímida e ousada
  82. 4:01ao mesmo tempo. Eu chegava lá na revista
  83. 4:04e dizia: "Eu tenho um conto, senhor quer
  84. 4:06publicar?"
  85. 4:08Aí eu me lembro que uma vez foi o
  86. 4:10Raimundo Magalhães Júnior
  87. 4:13que olhou, lei um pedaço, olhou para mim
  88. 4:15e disse: "Você copiou isso de quem?" Eu
  89. 4:18disse: "Ninguém é meu". você traduziu?
  90. 4:20Eu disse: "Não é isso, então vou
  91. 4:23publicar".
  92. 4:24Era assim, era nessa base. Você
  93. 4:26publicava essas obras em quais
  94. 4:28publicações? Ah, não me lembro. Jornais,
  95. 4:32revistas.
  96. 4:34Clarice, a partir de qual momento você
  97. 4:38efetivamente decide assumir a carreira
  98. 4:41de escritor? Nun assumir. Eu nunca
  99. 4:43assumi. Eu não sou uma profissional. Eu
  100. 4:45sou cebo quando eu quero.
  101. 4:49Eu sou uma amadura e faço questão de
  102. 4:50continuar a ser amadura. Profissional é
  103. 4:53aquele que
  104. 4:55tem uma obrigação consigo mesma, consigo
  105. 4:58mesmo de escrever ou então com o outro
  106. 5:01em relação ao outro.
  107. 5:03Agora eu
  108. 5:05faço questão de não ser um profissional
  109. 5:08para manter minha liberdade.
  110. 5:11Eh, a sua produção ocorre com frequência
  111. 5:15ou você tem períodos de produzir
  112. 5:17intensamente? Tem período, tem período
  113. 5:18de produzir intensamente e tem períodos
  114. 5:21eatos em que a vida fica intolerável.
  115. 5:26Esses viatos são longos ou não?
  116. 5:29Dependem. Pode ser longos. E e o Vegeto
  117. 5:32nessa nesse período
  118. 5:35ou então eu por para me salvar me lanço
  119. 5:39logo uma outra coisa, como por exemplo,
  120. 5:40acabei a novela, tô meioca, então tô
  121. 5:44fazendo uma história de para criança.
  122. 5:48Como que você explique, explica a
  123. 5:49Clarice Lispector voltada para a
  124. 5:52literatura infantil? Eu não sei. Começou
  125. 5:54com meu filho,
  126. 5:57com meu filho,
  127. 6:00quando ele tinha 6 anos de idade, seis
  128. 6:03anos ou cinco, me ordenando
  129. 6:09que eu escrevesse uma sola para ele. Eu
  130. 6:12escrevi,
  131. 6:14depois guardei e nunca mais liguei. Até
  132. 6:18que me pediram um livro infantil e eu
  133. 6:20disse que eu não tinha. que inteiramente
  134. 6:22esquecida daquilo. Era tão pouco
  135. 6:25literatura para mim, eu não queria usar
  136. 6:27isso para publicar nada, era pro meu
  137. 6:30filho.
  138. 6:32Mas aí
  139. 6:33lembrei, bom, tenho sim, então foi
  140. 6:36publicado. Eu tenho três livros de
  141. 6:39literatura infantil e tô fazendo quarto
  142. 6:41agora. É mais difícil você se comunicar
  143. 6:43com o adulto ou com a criança?
  144. 6:49Quando eu me comunico com criança,
  145. 6:54é fácil, porque eu sou muito maternal.
  146. 6:58Quando eu comunico com adulto, na
  147. 7:00verdade, tô me comunicando com o mais
  148. 7:02secreto de mim mesma. Aí é difícil, né?
  149. 7:08O adulto é sempre solitário.
  150. 7:13O adulto é triste e solitário.
  151. 7:16E a criança?
  152. 7:19A criança
  153. 7:22tem a fantasia, né? Solta.
  154. 7:25A partir de que momento, de acordo com a
  155. 7:28escritora, o ser humano vai se
  156. 7:30transformando em triste e solitário?
  157. 7:37Isso é segredo.
  158. 7:43Desculpa, não vou responder.
  159. 7:47A qualquer momento da vida basta um
  160. 7:52um choque
  161. 7:54um pouco inesperado
  162. 7:58e isso acontece.
  163. 8:00Mas eu não sou solitária, não. Tem
  164. 8:02muitos amigos.
  165. 8:06E só tô triste hoje porque tô cansada.
  166. 8:09De modo geral, sou alegre.
  167. 8:27R em seu cartas a um jovem poeta,
  168. 8:30respondendo a uma das missivas,
  169. 8:33perguntava
  170. 8:35ao jovem que pretendia se tornar
  171. 8:36escritor:
  172. 8:38"Se você não pudesse mais escrever, você
  173. 8:43morreria?"
  174. 8:45A mesma pergunta eu transfiro a você. Eu
  175. 8:50acho que enquando não escrevo, eu tô
  176. 8:51morta.
  177. 8:56Esse período
  178. 8:58é muito duro. Período entre um trabalho
  179. 9:01e outro
  180. 9:03e ao mesmo tempo é necessário para ver
  181. 9:05um uma espécie de esvaziamento da da
  182. 9:08cabeça para poder nascer alguma outra
  183. 9:11coisa. Se nascer é tudo tão incerto.
  184. 9:17Clarissa, como é que você escreve seus
  185. 9:20seus trabalhos? Existe algum horário
  186. 9:22específico? Não, em geral é de manhã
  187. 9:25cedo, né? É, são minhas horas
  188. 9:27preferidas, são as da manhã. Você acorda
  189. 9:30aqui? Madrugada, 4:30, 5 horas acordo,
  190. 9:34fico fumando, tomando café sozinha, sem
  191. 9:40sem uma interferência.
  192. 9:42Quando eu estou escrevendo alguma coisa,
  193. 9:46eu anoto a qualquer hora do dia ou da
  194. 9:48noite coisas que me vem,
  195. 9:53o que se chama inspiração, né?
  196. 9:56Agora, quando eu tô no ato de concatenar
  197. 10:00as a as inspirações, aí eu sou obrigada
  198. 10:04a trabalhar diariamente.
  199. 10:07Você se consideram uma escritora
  200. 10:08popular?
  201. 10:09Não. Por qual razão? Bom, me chama até
  202. 10:13de hermética. Como é que posso ser
  203. 10:15popular sendo hermética? E como você vê
  204. 10:17essa observação que nós colocamos entre
  205. 10:20aspas hermética?
  206. 10:22Eu me compreendo
  207. 10:25de modo que eu não sou hermética para
  208. 10:27mim. Bom, tem um conto meu que que eu
  209. 10:30não compreendo muito bem. Que conto? O
  210. 10:32ovo e a galinha.
  211. 10:36Entre os seus diversos trabalhos.
  212. 10:39Sempre existe isso natural, um filho
  213. 10:41predileto. Qual aquele que você vê com
  214. 10:43maior carinho até hoje?
  215. 10:51O ovo e a galinha, que é um mistério
  216. 10:53para mim. Uma coisa que eu escrevi sobre
  217. 10:58um bandido,
  218. 11:00sobre um
  219. 11:02criminoso
  220. 11:04chamado Mineirinho,
  221. 11:06que morreu com 13 balas quando uma só
  222. 11:09bastava
  223. 11:12e que era devoto de São Jorge e tinha
  224. 11:15uma namorada
  225. 11:18que me deu uma revolta enorme.
  226. 11:22que eu vi isso
  227. 11:27sobre esse seu trabalho em torno de
  228. 11:29Mineirinho, qual o enfoque que você deu?
  229. 11:34Eu não me lembro muito bem, já foi
  230. 11:35bastante tempo.
  231. 11:39Qualquer coisa assim, com o primeiro
  232. 11:41tiro me espanta, o segundo tiro, não sei
  233. 11:44que o terceiro tiro, coisa.
  234. 11:47O 12º
  235. 11:49me atinge. O 13º sou eu.
  236. 11:56Eu era me transformei no menuinho,
  237. 11:59massacrado pela polícia.
  238. 12:02Qualquer que tivesse sido o câmio dele,
  239. 12:03uma bala bastava. O resto era vontade de
  240. 12:06matar,
  241. 12:08era prepotência.
  242. 12:11Em que medida
  243. 12:12o trabalho de Clarice Spector, no caso
  244. 12:15específico de Mineirm
  245. 12:18pode alterar a ordem das coisas? Não
  246. 12:21altera em nada.
  247. 12:24Não altera em nada.
  248. 12:27Eu escrevo sem esperança que que eu
  249. 12:31escrevo alter qualquer coisa.
  250. 12:35Não alter em nada.
  251. 12:38Então, por que continuar escrevendo,
  252. 12:39Clarissa?
  253. 12:41E eu sei
  254. 12:47porque no fundo a gente não é, não tá
  255. 12:49querendo alterar as coisas, a gente tá
  256. 12:52querendo
  257. 12:53desabrochar de um modo ou de outro, né?
  258. 12:56No seu entender, qual é o papel do
  259. 12:58escritor brasileiro hoje em dia?
  260. 13:02O de falar o menos possível.
  261. 13:05Você
  262. 13:10tem mantido o contato com outros
  263. 13:12escritores brasileiros, eventualmente
  264. 13:17e mesmo, acredito, latino-americanos.
  265. 13:19Latino-americanos.
  266. 13:21Quais aqueles que você acredita serem os
  267. 13:23mais significativos deste tempo atual?
  268. 13:26Eu prefiro não citar nomes porque eu vou
  269. 13:28esquecer alguns vai ofender, vai ferir
  270. 13:31assim eu não cito ninguém.
  271. 13:34Mas aquele que a toque mais de perto,
  272. 13:36que lhe diga mais intensamente não falar
  273. 13:38nada.
  274. 13:40Antes de nós entrarmos aqui no estúdio,
  275. 13:42você me dizia que está começando um novo
  276. 13:44trabalho agora, uma novela. Não, eu
  277. 13:47acabei a novela. Que novela é essa,
  278. 13:49Clarissa?
  279. 13:52Só de uma
  280. 13:55de uma moça
  281. 13:58tão pobre que
  282. 14:01só comia cachorro quente.
  283. 14:05Mas a história não é isso, só não. A
  284. 14:06história é de uma inocência pisada.
  285. 14:12Tô uma miséria
  286. 14:15anônima.
  287. 14:20O cenário dessa novela é em é Rio de
  288. 14:22Janeiro, mas o personagem é nordestino,
  289. 14:26é de Alagoas.
  290. 14:32Onde é que você foi buscar dentro de si
  291. 14:34mesma? Eu morei em Recife.
  292. 14:38Eu morei no Nordeste, eu me criei no
  293. 14:40Nordeste
  294. 14:43e depois no Rio de Janeiro tem uma feira
  295. 14:45dos nordestinos.
  296. 14:48no campo Cristóv. Uma vez eu fui lá
  297. 14:52e peguei o ardo
  298. 14:56meio perdido do do nord destino no Rio
  299. 14:59de Janeiro.
  300. 15:00Daí começou a nascer a ideia de um
  301. 15:05Depois eu fui a uma cartomante
  302. 15:07e imaginei
  303. 15:10a mí várias coisas boas que iam me
  304. 15:12acontecer e imaginei quando tomei o táxi
  305. 15:15volta.
  306. 15:17Seria muito engraçado se um táxi me
  307. 15:18pegasse, me atropelasse e eu morresse
  308. 15:20depois de ter ouvido todas essas coisas
  309. 15:23boas. Então daí foi nascendo também
  310. 15:26a trama da história. Qual o nome da
  311. 15:31heroína da novela? Não quero dizer, é
  312. 15:34segredo. E o nome da novela você poderia
  313. 15:36revelar? 13 nomes,
  314. 15:3913 títulos. Você
  315. 15:44entra em contato, eu acredito que com
  316. 15:46frequência com jovens estudantes
  317. 15:48universitários. De vez em quando me
  318. 15:49procuram, mas ele tem muito assim medo
  319. 15:52de me atrapalhar.
  320. 15:54Eles tem muito medo de de de
  321. 15:58que eu não receba. Por qual razão? Eu
  322. 16:01não sei, não sei porquê,
  323. 16:05mas aqueles que conseguem ou romper a
  324. 16:08timidez aí, ficam perfeitamente à
  325. 16:10vontade comigo e tomam um café comigo e
  326. 16:14entram na minha casa e eu recebo como
  327. 16:17como amigo. Normalmente o contato do
  328. 16:21jovem estudante com você revela que tipo
  329. 16:24de preocupação?
  330. 16:26Revela uma coisa surpreendente, que eles
  331. 16:28estão na minha.
  332. 16:29O que que significa estar na sua?
  333. 16:33É que eu pensar, penso às vezes que eu
  334. 16:36tô isolado é quando vejo, tô tô tendo
  335. 16:38universitário, gente muito jovem
  336. 16:42que tá completamente ao meu lado.
  337. 16:46Aí me espanta e
  338. 16:49e é gratificante, né?
  339. 16:52Eh, nós ouvimos com frequência de que as
  340. 16:55novas gerações pouco leem no Brasil.
  341. 16:58Você confirma isso?
  342. 17:01Bom, os universitários são obrigados a
  343. 17:03ler porque impõe ele a obra, né? Agora
  344. 17:07não tô a par de
  345. 17:09dos outros.
  346. 17:11De seus trabalhos, qual aquele que você
  347. 17:13acredita que mais
  348. 17:16atinja o público jovem?
  349. 17:18Depende, depende inteiramente. Por
  350. 17:20exemplo, o meu livro A Paixão Segundo
  351. 17:22DH, um professor de português do Pedro
  352. 17:25II veio lá em casa e disse que leu
  353. 17:28quatro vezes o livro e não sabe do que
  354. 17:29se trata. No dia seguinte, uma jovem de
  355. 17:3217 anos universitária, diz que este
  356. 17:35livro é o livro de cabeceira dela.
  357. 17:38Quer dizer, não dá para entender. Isso
  358. 17:41aconteceu em relação a outros seus
  359. 17:43trabalhos também. Em relação a outros
  360. 17:45meus trabalhos. Qual que você se lembra
  361. 17:47agora? ou não toca,
  362. 17:50ou quer dizer, supõe que me entender não
  363. 17:53é uma questão de inteligência, de fim,
  364. 17:55de sentir, de entrar em contato.
  365. 18:00Tanto que o professor de português e
  366. 18:02literatura, que era devia ser o mais
  367. 18:04apto a me entender, não me entendia. E a
  368. 18:07moça 17 anos lia e relia o livro.
  369. 18:12Parece que eu ganho na releitura, né?
  370. 18:14que é um um alívio.
  371. 18:17Você acredita que essa dificuldade é
  372. 18:20própria para apenas algumas camadas de
  373. 18:23nosso tempo e com novas gerações, ela
  374. 18:27será entendida de imediato ou
  375. 18:29continuará? Não tenho menor ideia. Não
  376. 18:31tenho menor ideia.
  377. 18:33Eu sei que antes ninguém me entendia,
  378. 18:35agora me entende. A que a que você
  379. 18:37atribui isso? Eu acho que tudo mudou,
  380. 18:40porque eu não mudei não.
  381. 18:44O que teria mudado com isso? Não fiz,
  382. 18:45que eu saiba, eu não fiz concessões. Mas
  383. 18:48o que teria mudado nas pessoas que as
  384. 18:50levassem a compreender o seu trabalho?
  385. 18:51Eu realmente não sei. É uma pergunta que
  386. 18:54eu faço a você, porque eu não sei
  387. 18:57responder.
  388. 19:01Você discute muito com a Clarice
  389. 19:03Lispector, escritora? Não,
  390. 19:06eu me deixo ser.
  391. 19:09e convivem em paz.
  392. 19:11Às vezes não em paz, mas normalmente que
  393. 19:15tipo de problema a Clarisspector,
  394. 19:17escritora, traz a você?
  395. 19:23Às vezes, o fato de me considerar
  396. 19:25escritora me isola. Por qual razão?
  397. 19:29Me põe um rótulo.
  398. 19:31E você acredita que as pessoas olham
  399. 19:34para você através desse rótul? às vezes
  400. 19:36através desse hck. Tudo que eu digo, a
  401. 19:39maior bobagem então é considerada como
  402. 19:42ou um uma coisa linda ou uma coisa
  403. 19:47boba. Tudo na base do de ser escritora.
  404. 19:52É por isso que eu não ligo muito essa
  405. 19:54coisa de ser escritor e de dar
  406. 19:55entrevista de tudo.
  407. 19:58É porque eu não sou isso.
  408. 20:00Se essa é a tendência do público, qual
  409. 20:03você acredita que deva ser o perfil
  410. 20:06médio de seu leitor?
  411. 20:09Sabe que eu não sei? Você não tem ideia?
  412. 20:11Não.
  413. 20:15Você acredita que uma pessoa vá a uma
  414. 20:17livraria especificamente comprar um
  415. 20:19livro de Clarice Lpector? Parece que
  416. 20:21isso acontece.
  417. 20:24Eu sei porque às vezes me telefonam, me
  418. 20:26perguntam em que livraria encontra meu
  419. 20:28livro.
  420. 20:30Então eu sei que as pessoas tem pessoas
  421. 20:33que vão procurar exatamente meu livro.
  422. 20:39É que no fundo é esc muito simples,
  423. 20:41sabe?
  424. 20:44E será que as coisas simples hoje são
  425. 20:46recebidas de maneira complicada? Talvez,
  426. 20:49talvez. Mas eu escrevo simples,
  427. 20:54eu não enfeito.
  428. 20:58Na sua formação como escritora, quais
  429. 21:01aqueles escritores que você sente que
  430. 21:03realmente influenciaram, que marcaram?
  431. 21:05Eu não sei realmente porque eu pass, eu
  432. 21:08misturei tudo. Eu li livro,
  433. 21:13Romance de para pra mocinha,
  434. 21:16livro cor- de rosa misturada com
  435. 21:19Dooyevski. Eu escolhia pel os livros,
  436. 21:22pelos títulos
  437. 21:25e não pelos autores que eu não tinha
  438. 21:27conhecimento em nenhum. Misturei tudo,
  439. 21:32fui ler aos 13 anos. É. É, mano. Tomei
  440. 21:36um choque.
  441. 21:38O lobo na step
  442. 21:41ou da step, não sei.
  443. 21:44Aí comecei a escrever um conto que não
  444. 21:46acabava nunca mais. Terminei rasgando,
  445. 21:49jogando fora.
  446. 21:56Isso acontece ainda agora de você
  447. 21:58produzir alguma coisa e rasgar?
  448. 22:01Eu deixo de lado ou não, eu rasgo sim.
  449. 22:04[Aplausos]
  450. 22:06É produto de reflexão ou uma emoção?
  451. 22:08Raiva. Um pouco de raiva. Com quem?
  452. 22:11Comigo mesmo. Por que, Clarissa?
  453. 22:14Sei lá, tô meio cansada.
  454. 22:17Do quê? De mim mesmo.
  455. 22:23Mas você não renasce e se renova a cada
  456. 22:25trabalho novo.
  457. 22:27Bom, eu agora eu morri.
  458. 22:32Vamos ver se eu renasço de novo. Por
  459. 22:34enquanto eu tô morta.
  460. 22:39Tô falando de meu túmulo. M.

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