Interview with Clarice Lispector - São Paulo, 1977 (English subtitles) — Transcript
Full transcript
- 0:06Caris Lispector, de onde vem esse
- 0:09Lispector?
- 0:11Eu não sei. Eu perguntei, é um nome
- 0:13latino, né? E eu perguntei a meu pai,
- 0:20desde quando havia ele espectro na na
- 0:23Ucrânia? Ele disse que de gerações e
- 0:25gerações anteriores, eu suponho que o
- 0:28nome foi rolando, rolando, rolando,
- 0:31perdendo algumas sílabas
- 0:34e transformando nessa coisa que é parece
- 0:37uma coisa lis no peito em latim,
- 0:41flor de lis. Quer dizer, é uma um um
- 0:45nome que que quando aparece quando eu
- 0:49escrevi o meu primeiro livro, Sérgio
- 0:52Milier, eu era então completamente
- 0:55desconhecida, é claro. O Sérgil disse
- 0:58assim: "Esta escritora de nome
- 1:01desagradável, certamente um pseudônimo e
- 1:05não era meu nome mesmo.
- 1:08Você chegou a conhecer o Sérgio Miri
- 1:10pessoalmente? Nunca, porque eu publiquei
- 1:13meu livro e fui embora do Brasil
- 1:16para viajar, porque eu me casei com um
- 1:19diplomata brasileiro,
- 1:22de modo que eu não conheci
- 1:25as pessoas que escreveram sobre mim, eu
- 1:26não não conheci.
- 1:29Clar, seu pai fazia o quê
- 1:31profissionalmente?
- 1:33representação de firmas, coisas assim,
- 1:36quando ele, na verdade, dava era para
- 1:41coisas de espírito. Há alguém na família
- 1:44LCTR que chegou a escrever alguma coisa?
- 1:47Bom,
- 1:51eu soube ultimamente, para minha enorme
- 1:54surpresa, que minha mãe escrevia,
- 1:58não publicava, mas escrevia. Eu tenho
- 2:02uma irmã Elisa Spectro que escreve
- 2:04romances e tenho uma irmã chamada Tânia
- 2:07CFAN que escreve livros técnicos.
- 2:11Você chegou a ler as coisas que sua mãe
- 2:13escreveu? Não, eu só soube há poucos
- 2:15meses, mas não teve condições de ler?
- 2:17Não.
- 2:19Sou informação de uma de uma tia. Ele
- 2:22sabe que sua mãe fazia um diário e
- 2:25escuia poesia. Eu fiquei bobo.
- 2:28Em diversas entrevistas que você tem
- 2:31concedido, surge quase que
- 2:33necessariamente a pergunta de como você
- 2:36começou, quando isso é mais conhecido.
- 2:39Você começou aos 7 anos de idade. Antes
- 2:41dos 7 anos eu já fabulava, já inventava
- 2:44estão. Por exemplo, inventei uma
- 2:45história que não acabava nunca.
- 2:50É muito complicado para explicar essa
- 2:51história com ergon. Ah, quando eu
- 2:53comecei a a ler e escrever, comecei a
- 2:56escrever também pequenas histórias.
- 3:00Quando a jovem, a praticamente
- 3:03adolescente Clarice Lispector descobre
- 3:06que realmente é a literatura, aquele
- 3:09campo de criação humana que mais a
- 3:11atrai,
- 3:13a jovem Clarice tem algum objetivo
- 3:16específico ou apenas escrever sem
- 3:18determinar um tipo de público? Apenas
- 3:21escrever. Você
- 3:24podia nos dar uma ideia do que era a
- 3:26produção da adolescente Clarissa Lector?
- 3:30Caótica,
- 3:33intensa,
- 3:36inteiramente fora da realidade
- 3:39da vida.
- 3:42Desse período, você se lembra do nome de
- 3:44alguma produção? Bom, eu escrevi um
- 3:47várias coisas antes de publicar meu
- 3:50primeiro livro. Eu já escrevia para
- 3:52revistas, contos, jornais. Eu ia com uma
- 3:55timidez enorme, mas uma timidez de
- 3:58ousada. Eu era, eu sou tímida e ousada
- 4:01ao mesmo tempo. Eu chegava lá na revista
- 4:04e dizia: "Eu tenho um conto, senhor quer
- 4:06publicar?"
- 4:08Aí eu me lembro que uma vez foi o
- 4:10Raimundo Magalhães Júnior
- 4:13que olhou, lei um pedaço, olhou para mim
- 4:15e disse: "Você copiou isso de quem?" Eu
- 4:18disse: "Ninguém é meu". você traduziu?
- 4:20Eu disse: "Não é isso, então vou
- 4:23publicar".
- 4:24Era assim, era nessa base. Você
- 4:26publicava essas obras em quais
- 4:28publicações? Ah, não me lembro. Jornais,
- 4:32revistas.
- 4:34Clarice, a partir de qual momento você
- 4:38efetivamente decide assumir a carreira
- 4:41de escritor? Nun assumir. Eu nunca
- 4:43assumi. Eu não sou uma profissional. Eu
- 4:45sou cebo quando eu quero.
- 4:49Eu sou uma amadura e faço questão de
- 4:50continuar a ser amadura. Profissional é
- 4:53aquele que
- 4:55tem uma obrigação consigo mesma, consigo
- 4:58mesmo de escrever ou então com o outro
- 5:01em relação ao outro.
- 5:03Agora eu
- 5:05faço questão de não ser um profissional
- 5:08para manter minha liberdade.
- 5:11Eh, a sua produção ocorre com frequência
- 5:15ou você tem períodos de produzir
- 5:17intensamente? Tem período, tem período
- 5:18de produzir intensamente e tem períodos
- 5:21eatos em que a vida fica intolerável.
- 5:26Esses viatos são longos ou não?
- 5:29Dependem. Pode ser longos. E e o Vegeto
- 5:32nessa nesse período
- 5:35ou então eu por para me salvar me lanço
- 5:39logo uma outra coisa, como por exemplo,
- 5:40acabei a novela, tô meioca, então tô
- 5:44fazendo uma história de para criança.
- 5:48Como que você explique, explica a
- 5:49Clarice Lispector voltada para a
- 5:52literatura infantil? Eu não sei. Começou
- 5:54com meu filho,
- 5:57com meu filho,
- 6:00quando ele tinha 6 anos de idade, seis
- 6:03anos ou cinco, me ordenando
- 6:09que eu escrevesse uma sola para ele. Eu
- 6:12escrevi,
- 6:14depois guardei e nunca mais liguei. Até
- 6:18que me pediram um livro infantil e eu
- 6:20disse que eu não tinha. que inteiramente
- 6:22esquecida daquilo. Era tão pouco
- 6:25literatura para mim, eu não queria usar
- 6:27isso para publicar nada, era pro meu
- 6:30filho.
- 6:32Mas aí
- 6:33lembrei, bom, tenho sim, então foi
- 6:36publicado. Eu tenho três livros de
- 6:39literatura infantil e tô fazendo quarto
- 6:41agora. É mais difícil você se comunicar
- 6:43com o adulto ou com a criança?
- 6:49Quando eu me comunico com criança,
- 6:54é fácil, porque eu sou muito maternal.
- 6:58Quando eu comunico com adulto, na
- 7:00verdade, tô me comunicando com o mais
- 7:02secreto de mim mesma. Aí é difícil, né?
- 7:08O adulto é sempre solitário.
- 7:13O adulto é triste e solitário.
- 7:16E a criança?
- 7:19A criança
- 7:22tem a fantasia, né? Solta.
- 7:25A partir de que momento, de acordo com a
- 7:28escritora, o ser humano vai se
- 7:30transformando em triste e solitário?
- 7:37Isso é segredo.
- 7:43Desculpa, não vou responder.
- 7:47A qualquer momento da vida basta um
- 7:52um choque
- 7:54um pouco inesperado
- 7:58e isso acontece.
- 8:00Mas eu não sou solitária, não. Tem
- 8:02muitos amigos.
- 8:06E só tô triste hoje porque tô cansada.
- 8:09De modo geral, sou alegre.
- 8:27R em seu cartas a um jovem poeta,
- 8:30respondendo a uma das missivas,
- 8:33perguntava
- 8:35ao jovem que pretendia se tornar
- 8:36escritor:
- 8:38"Se você não pudesse mais escrever, você
- 8:43morreria?"
- 8:45A mesma pergunta eu transfiro a você. Eu
- 8:50acho que enquando não escrevo, eu tô
- 8:51morta.
- 8:56Esse período
- 8:58é muito duro. Período entre um trabalho
- 9:01e outro
- 9:03e ao mesmo tempo é necessário para ver
- 9:05um uma espécie de esvaziamento da da
- 9:08cabeça para poder nascer alguma outra
- 9:11coisa. Se nascer é tudo tão incerto.
- 9:17Clarissa, como é que você escreve seus
- 9:20seus trabalhos? Existe algum horário
- 9:22específico? Não, em geral é de manhã
- 9:25cedo, né? É, são minhas horas
- 9:27preferidas, são as da manhã. Você acorda
- 9:30aqui? Madrugada, 4:30, 5 horas acordo,
- 9:34fico fumando, tomando café sozinha, sem
- 9:40sem uma interferência.
- 9:42Quando eu estou escrevendo alguma coisa,
- 9:46eu anoto a qualquer hora do dia ou da
- 9:48noite coisas que me vem,
- 9:53o que se chama inspiração, né?
- 9:56Agora, quando eu tô no ato de concatenar
- 10:00as a as inspirações, aí eu sou obrigada
- 10:04a trabalhar diariamente.
- 10:07Você se consideram uma escritora
- 10:08popular?
- 10:09Não. Por qual razão? Bom, me chama até
- 10:13de hermética. Como é que posso ser
- 10:15popular sendo hermética? E como você vê
- 10:17essa observação que nós colocamos entre
- 10:20aspas hermética?
- 10:22Eu me compreendo
- 10:25de modo que eu não sou hermética para
- 10:27mim. Bom, tem um conto meu que que eu
- 10:30não compreendo muito bem. Que conto? O
- 10:32ovo e a galinha.
- 10:36Entre os seus diversos trabalhos.
- 10:39Sempre existe isso natural, um filho
- 10:41predileto. Qual aquele que você vê com
- 10:43maior carinho até hoje?
- 10:51O ovo e a galinha, que é um mistério
- 10:53para mim. Uma coisa que eu escrevi sobre
- 10:58um bandido,
- 11:00sobre um
- 11:02criminoso
- 11:04chamado Mineirinho,
- 11:06que morreu com 13 balas quando uma só
- 11:09bastava
- 11:12e que era devoto de São Jorge e tinha
- 11:15uma namorada
- 11:18que me deu uma revolta enorme.
- 11:22que eu vi isso
- 11:27sobre esse seu trabalho em torno de
- 11:29Mineirinho, qual o enfoque que você deu?
- 11:34Eu não me lembro muito bem, já foi
- 11:35bastante tempo.
- 11:39Qualquer coisa assim, com o primeiro
- 11:41tiro me espanta, o segundo tiro, não sei
- 11:44que o terceiro tiro, coisa.
- 11:47O 12º
- 11:49me atinge. O 13º sou eu.
- 11:56Eu era me transformei no menuinho,
- 11:59massacrado pela polícia.
- 12:02Qualquer que tivesse sido o câmio dele,
- 12:03uma bala bastava. O resto era vontade de
- 12:06matar,
- 12:08era prepotência.
- 12:11Em que medida
- 12:12o trabalho de Clarice Spector, no caso
- 12:15específico de Mineirm
- 12:18pode alterar a ordem das coisas? Não
- 12:21altera em nada.
- 12:24Não altera em nada.
- 12:27Eu escrevo sem esperança que que eu
- 12:31escrevo alter qualquer coisa.
- 12:35Não alter em nada.
- 12:38Então, por que continuar escrevendo,
- 12:39Clarissa?
- 12:41E eu sei
- 12:47porque no fundo a gente não é, não tá
- 12:49querendo alterar as coisas, a gente tá
- 12:52querendo
- 12:53desabrochar de um modo ou de outro, né?
- 12:56No seu entender, qual é o papel do
- 12:58escritor brasileiro hoje em dia?
- 13:02O de falar o menos possível.
- 13:05Você
- 13:10tem mantido o contato com outros
- 13:12escritores brasileiros, eventualmente
- 13:17e mesmo, acredito, latino-americanos.
- 13:19Latino-americanos.
- 13:21Quais aqueles que você acredita serem os
- 13:23mais significativos deste tempo atual?
- 13:26Eu prefiro não citar nomes porque eu vou
- 13:28esquecer alguns vai ofender, vai ferir
- 13:31assim eu não cito ninguém.
- 13:34Mas aquele que a toque mais de perto,
- 13:36que lhe diga mais intensamente não falar
- 13:38nada.
- 13:40Antes de nós entrarmos aqui no estúdio,
- 13:42você me dizia que está começando um novo
- 13:44trabalho agora, uma novela. Não, eu
- 13:47acabei a novela. Que novela é essa,
- 13:49Clarissa?
- 13:52Só de uma
- 13:55de uma moça
- 13:58tão pobre que
- 14:01só comia cachorro quente.
- 14:05Mas a história não é isso, só não. A
- 14:06história é de uma inocência pisada.
- 14:12Tô uma miséria
- 14:15anônima.
- 14:20O cenário dessa novela é em é Rio de
- 14:22Janeiro, mas o personagem é nordestino,
- 14:26é de Alagoas.
- 14:32Onde é que você foi buscar dentro de si
- 14:34mesma? Eu morei em Recife.
- 14:38Eu morei no Nordeste, eu me criei no
- 14:40Nordeste
- 14:43e depois no Rio de Janeiro tem uma feira
- 14:45dos nordestinos.
- 14:48no campo Cristóv. Uma vez eu fui lá
- 14:52e peguei o ardo
- 14:56meio perdido do do nord destino no Rio
- 14:59de Janeiro.
- 15:00Daí começou a nascer a ideia de um
- 15:05Depois eu fui a uma cartomante
- 15:07e imaginei
- 15:10a mí várias coisas boas que iam me
- 15:12acontecer e imaginei quando tomei o táxi
- 15:15volta.
- 15:17Seria muito engraçado se um táxi me
- 15:18pegasse, me atropelasse e eu morresse
- 15:20depois de ter ouvido todas essas coisas
- 15:23boas. Então daí foi nascendo também
- 15:26a trama da história. Qual o nome da
- 15:31heroína da novela? Não quero dizer, é
- 15:34segredo. E o nome da novela você poderia
- 15:36revelar? 13 nomes,
- 15:3913 títulos. Você
- 15:44entra em contato, eu acredito que com
- 15:46frequência com jovens estudantes
- 15:48universitários. De vez em quando me
- 15:49procuram, mas ele tem muito assim medo
- 15:52de me atrapalhar.
- 15:54Eles tem muito medo de de de
- 15:58que eu não receba. Por qual razão? Eu
- 16:01não sei, não sei porquê,
- 16:05mas aqueles que conseguem ou romper a
- 16:08timidez aí, ficam perfeitamente à
- 16:10vontade comigo e tomam um café comigo e
- 16:14entram na minha casa e eu recebo como
- 16:17como amigo. Normalmente o contato do
- 16:21jovem estudante com você revela que tipo
- 16:24de preocupação?
- 16:26Revela uma coisa surpreendente, que eles
- 16:28estão na minha.
- 16:29O que que significa estar na sua?
- 16:33É que eu pensar, penso às vezes que eu
- 16:36tô isolado é quando vejo, tô tô tendo
- 16:38universitário, gente muito jovem
- 16:42que tá completamente ao meu lado.
- 16:46Aí me espanta e
- 16:49e é gratificante, né?
- 16:52Eh, nós ouvimos com frequência de que as
- 16:55novas gerações pouco leem no Brasil.
- 16:58Você confirma isso?
- 17:01Bom, os universitários são obrigados a
- 17:03ler porque impõe ele a obra, né? Agora
- 17:07não tô a par de
- 17:09dos outros.
- 17:11De seus trabalhos, qual aquele que você
- 17:13acredita que mais
- 17:16atinja o público jovem?
- 17:18Depende, depende inteiramente. Por
- 17:20exemplo, o meu livro A Paixão Segundo
- 17:22DH, um professor de português do Pedro
- 17:25II veio lá em casa e disse que leu
- 17:28quatro vezes o livro e não sabe do que
- 17:29se trata. No dia seguinte, uma jovem de
- 17:3217 anos universitária, diz que este
- 17:35livro é o livro de cabeceira dela.
- 17:38Quer dizer, não dá para entender. Isso
- 17:41aconteceu em relação a outros seus
- 17:43trabalhos também. Em relação a outros
- 17:45meus trabalhos. Qual que você se lembra
- 17:47agora? ou não toca,
- 17:50ou quer dizer, supõe que me entender não
- 17:53é uma questão de inteligência, de fim,
- 17:55de sentir, de entrar em contato.
- 18:00Tanto que o professor de português e
- 18:02literatura, que era devia ser o mais
- 18:04apto a me entender, não me entendia. E a
- 18:07moça 17 anos lia e relia o livro.
- 18:12Parece que eu ganho na releitura, né?
- 18:14que é um um alívio.
- 18:17Você acredita que essa dificuldade é
- 18:20própria para apenas algumas camadas de
- 18:23nosso tempo e com novas gerações, ela
- 18:27será entendida de imediato ou
- 18:29continuará? Não tenho menor ideia. Não
- 18:31tenho menor ideia.
- 18:33Eu sei que antes ninguém me entendia,
- 18:35agora me entende. A que a que você
- 18:37atribui isso? Eu acho que tudo mudou,
- 18:40porque eu não mudei não.
- 18:44O que teria mudado com isso? Não fiz,
- 18:45que eu saiba, eu não fiz concessões. Mas
- 18:48o que teria mudado nas pessoas que as
- 18:50levassem a compreender o seu trabalho?
- 18:51Eu realmente não sei. É uma pergunta que
- 18:54eu faço a você, porque eu não sei
- 18:57responder.
- 19:01Você discute muito com a Clarice
- 19:03Lispector, escritora? Não,
- 19:06eu me deixo ser.
- 19:09e convivem em paz.
- 19:11Às vezes não em paz, mas normalmente que
- 19:15tipo de problema a Clarisspector,
- 19:17escritora, traz a você?
- 19:23Às vezes, o fato de me considerar
- 19:25escritora me isola. Por qual razão?
- 19:29Me põe um rótulo.
- 19:31E você acredita que as pessoas olham
- 19:34para você através desse rótul? às vezes
- 19:36através desse hck. Tudo que eu digo, a
- 19:39maior bobagem então é considerada como
- 19:42ou um uma coisa linda ou uma coisa
- 19:47boba. Tudo na base do de ser escritora.
- 19:52É por isso que eu não ligo muito essa
- 19:54coisa de ser escritor e de dar
- 19:55entrevista de tudo.
- 19:58É porque eu não sou isso.
- 20:00Se essa é a tendência do público, qual
- 20:03você acredita que deva ser o perfil
- 20:06médio de seu leitor?
- 20:09Sabe que eu não sei? Você não tem ideia?
- 20:11Não.
- 20:15Você acredita que uma pessoa vá a uma
- 20:17livraria especificamente comprar um
- 20:19livro de Clarice Lpector? Parece que
- 20:21isso acontece.
- 20:24Eu sei porque às vezes me telefonam, me
- 20:26perguntam em que livraria encontra meu
- 20:28livro.
- 20:30Então eu sei que as pessoas tem pessoas
- 20:33que vão procurar exatamente meu livro.
- 20:39É que no fundo é esc muito simples,
- 20:41sabe?
- 20:44E será que as coisas simples hoje são
- 20:46recebidas de maneira complicada? Talvez,
- 20:49talvez. Mas eu escrevo simples,
- 20:54eu não enfeito.
- 20:58Na sua formação como escritora, quais
- 21:01aqueles escritores que você sente que
- 21:03realmente influenciaram, que marcaram?
- 21:05Eu não sei realmente porque eu pass, eu
- 21:08misturei tudo. Eu li livro,
- 21:13Romance de para pra mocinha,
- 21:16livro cor- de rosa misturada com
- 21:19Dooyevski. Eu escolhia pel os livros,
- 21:22pelos títulos
- 21:25e não pelos autores que eu não tinha
- 21:27conhecimento em nenhum. Misturei tudo,
- 21:32fui ler aos 13 anos. É. É, mano. Tomei
- 21:36um choque.
- 21:38O lobo na step
- 21:41ou da step, não sei.
- 21:44Aí comecei a escrever um conto que não
- 21:46acabava nunca mais. Terminei rasgando,
- 21:49jogando fora.
- 21:56Isso acontece ainda agora de você
- 21:58produzir alguma coisa e rasgar?
- 22:01Eu deixo de lado ou não, eu rasgo sim.
- 22:04[Aplausos]
- 22:06É produto de reflexão ou uma emoção?
- 22:08Raiva. Um pouco de raiva. Com quem?
- 22:11Comigo mesmo. Por que, Clarissa?
- 22:14Sei lá, tô meio cansada.
- 22:17Do quê? De mim mesmo.
- 22:23Mas você não renasce e se renova a cada
- 22:25trabalho novo.
- 22:27Bom, eu agora eu morri.
- 22:32Vamos ver se eu renasço de novo. Por
- 22:34enquanto eu tô morta.
- 22:39Tô falando de meu túmulo. M.
About this transcript
This page contains the full transcript of Interview with Clarice Lispector - São Paulo, 1977 (English subtitles) by Penguin Books UK, generated from the public captions YouTube serves with the video. The transcript has 2,561 words across 460 segments, with the original timestamps preserved so you can click any line to jump to that moment in the embedded player.
What you can do with it
Use the transcript to take notes, quote the speaker, build a study guide, generate a summary with ChatGPT or Claude via the YouTube Summary tool, or export it as a timed subtitle file with YouTube to SRT. You can also re-open it in the transcriber to translate the transcript into 100+ languages.
Free YouTube transcript tool
YouTube2Text is a free YouTube transcript generator — no signup, no daily limit. Paste any YouTube link and get the full transcript instantly, with timestamps, click-to-jump, translation to 100+ languages, AI prompts for ChatGPT, Claude, and Gemini, and exports to TXT, SRT, VTT, or Markdown.