Interculturalidade e Saúde: luto migratório e seus impactos na saúde mental de mulheres migrantes — Transcript
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- 0:00a gente vai embarcar aqui um pouco nesse
- 0:02diálogo.
- 0:03Eh, se tiverem dúvidas ou alguma coisa
- 0:07quando eu tiver apresentando, por favor,
- 0:08né, se expressem. A gente pode parar e
- 0:11conversar, mas depois da minha
- 0:12apresentação a gente vai poder bater aí
- 0:14esse papo bacana, trocar, né, ouvir de
- 0:17vocês também. Eh, e vai ser passo bem
- 0:20legal. Vamos lá. Deixa eu dividir aqui
- 0:22com vocês.
- 0:31Calma aí, deixa eu
- 0:43tentar me encontrar aqui, né? Como que
- 0:45eu divido a tela?
- 0:57Cadê, gente? Cadê a minha apresentação
- 0:59do PowerPoint?
- 1:04>> Tranquilo.
- 1:07>> Eu tô tentando achar. Ela tá aqui no meu
- 1:10na minha, mas ela não tá. Deixa eu ver
- 1:14eu faço. Ah, calma aí, talvez um share.
- 1:16Não.
- 1:24Que não aparece aqui para aparece só o
- 1:26meu. Acho que você
- 1:28>> Ah, entend. Eu já achei. Tinha que tinha
- 1:30que mostrar num outro lugar. Eu tava no
- 1:33na internet.
- 1:39Vocês
- 1:45conseguem visualizar?
- 1:48>> Sim, sim.
- 1:49>> Tá. Tá ótimo. Vamos lá, então.
- 1:54Vou deixar baixinho aqui
- 1:57para eu poder visualizar, mas vamos lá.
- 2:00Qualquer coisa me me chamem, me acessem,
- 2:02me me parem por aqui. Mas vamos lá.
- 2:05Então, hoje a gente vai falar bastante
- 2:07sobre uma temática que eu gosto muito,
- 2:11não só por ser uma uma mulher migrante
- 2:15eh e profissional, mas porque também faz
- 2:17parte aí do da do meus estudos nos
- 2:20últimos anos, né, quando realmente
- 2:22comecei a trabalhar muito mais com essa
- 2:24demanda, eh, principalmente aqui na
- 2:26Irlanda, né? Então, a gente vai falar
- 2:28sobre interculturalidade e saúde, o luto
- 2:30migratório e aspectos, né, impactos da
- 2:34saúde mental de mulheres migrantes e
- 2:36suas famílias. vou focar muito mais,
- 2:39talvez, nas mulheres e nas famílias ali
- 2:42em alguns aspectos também, né, do do
- 2:45adentrar da maternidade, da
- 2:46perinatalidade,
- 2:48mas acho que é uma temática que a gente
- 2:50pode expandir aí para para todo mundo,
- 2:53né, só que é um pouco mais da minha
- 2:55área, essa área mais eh mulheres e
- 2:58famílias.
- 3:00Então, tá, né, já tava me apresentando
- 3:01ali, mas quem sou eu? Sou uma psicóloga
- 3:05com formação aí no Brasil. Já tô
- 3:07erradicada aqui na Irlanda há 16 anos. É
- 3:10um pouquinho mais do que isso, mas, né,
- 3:12traduzo aí paraos 16 anos.
- 3:15Eh, sou a mãe da Helena. Eh, tenho uma
- 3:21uma clínica eh multicultural de saúde
- 3:23mental multicultural aqui, né? Porque
- 3:25também quando eu validei os meus
- 3:28processos, né, as minhas os meus
- 3:29diplomas aqui, comecei a trabalhar com
- 3:31psicologia aqui na Irlanda, eh eu achei
- 3:35esse nicho interessante porque era o meu
- 3:38nicho. Então hoje em dia, eh, aqui na
- 3:41clínica nós atendemos, eh, famílias, né,
- 3:44indivíduos, demandas coletivas aí nesse
- 3:47muito mais nesse contexto multicultural,
- 3:50principalmente porque eu moro em Dublin.
- 3:52Então, Dublin, aqui como capital a gente
- 3:54tem muito, muito multi, né? Eh, vai e
- 3:58vem de pessoas e de formações aí de
- 4:00famílias eh multiculturais. Então, por
- 4:03isso aí eh a abertura desse espaço que
- 4:07eu que eu gosto muito, né? E daí a minha
- 4:09trajetória toda profissional, individual
- 4:12hoje em dia, ela acontece então entre o
- 4:15Brasil e a Irlanda.
- 4:17eh
- 4:19e também eh
- 4:22de de acessos e de de trabalhos
- 4:24coletivos, né? Faço vários eh
- 4:26voluntariados aí em grupos eh de
- 4:30imigrantes, não só irlandeses, mas
- 4:32também de grupos brasileiros, né? De
- 4:34auxílio, principalmente a mulher
- 4:36imigrante aí, mulheres, mães também
- 4:38migrantes, né? Eh, isso é legal.
- 4:43essa oficina, então, ela nasce, né,
- 4:45dessa minha experiência profissional
- 4:47entre os territórios. E aí eu vou falar
- 4:50muito dessa dessa travessia, né, entre
- 4:53língua, afeto, eh, e até de continente,
- 4:56que que me fez ter essa reconstrução,
- 5:00né, vivida longe de casa, entre aspas,
- 5:03do ninho, né, e que foi aí, claro,
- 5:05atravessada pela migração e pela
- 5:07interculturalidade. A gente vai explorar
- 5:09bastante esses temas.
- 5:12Eh,
- 5:13antes de trabalhar então com a migração,
- 5:16né, aqui eh enquanto psicóloga, eu
- 5:19também precisei aprender a ser migrante.
- 5:23Então, isso para mim é é importante
- 5:25demais. Então, falo muito da da das
- 5:27minhas falas pessoais aqui do território
- 5:29que eu fui percorrendo também como
- 5:31pessoa. E foi aí nesse atravessamento,
- 5:34né, de cultura, de mundo, que eu comecei
- 5:37a compreender o quanto migrar eh traz
- 5:41dimensões profundas, né? tem camadas e
- 5:43camadas, processos ali de reconstrução,
- 5:47eh, de ressignificação dupla, de
- 5:50encontros surpreendentes, mas também das
- 5:52ausências presentes, das distâncias e
- 5:55principalmente de desraisamento, né?
- 5:57Vamos falar um pouquinho de tudo isso aí
- 5:59nesse tempo que a gente tem.
- 6:03Gosto de começar sim, né, trazendo
- 6:05alguma coisa que
- 6:08aquilo que nos parece natural muitas
- 6:10vezes também é cultural.
- 6:13Então, acho bacana a gente colocar isso,
- 6:16né? A gente traz a naturalidade da
- 6:18imigração, de se locomover, de ir e vir.
- 6:20Isso tudo hoje em dia é tão mais
- 6:22acessível ou acontece por outras
- 6:25questões também, né, mundiais ali de
- 6:27deslocamento.
- 6:28Eh, mas a cultura ela permeia muito isso
- 6:32e a gente vai precisar falar bastante da
- 6:34questão cultural. Eh, e ela está ali
- 6:39intrínseca em todos os nossos processos
- 6:42praticamente, né, do imigrante, eh, do
- 6:45cuidar, do nascer, do construir, seja
- 6:48qualquer tipo de construção que a gente
- 6:50vá fazer eh no novo lugar, do morrer, do
- 6:53sofrer, do ser mãe, do criar filhos, do
- 6:57pedir ajuda, do pertencer, né? Tudo isso
- 7:00parece uma coisa tão natural, mas também
- 7:03é totalmente peremeada pelo cultural.
- 7:06Eh, a grande pergunta aqui é: o que
- 7:09acontece, né, quando essas referências
- 7:11todas atravessam fronteiras.
- 7:14Eh,
- 7:15é algo entre o desraisamento e a
- 7:18construção do próprio self, né? Então, a
- 7:20gente precisa aí trabalhar com as raízes
- 7:24que saem de um solo conhecido e que vai
- 7:27ser reconstruído em um outro lugar que
- 7:30às vezes não é tão eh,
- 7:34né, é árido, não é tão interessante
- 7:36quanto aquilo que a gente já conhecia.
- 7:40Algo que eu acho bem legal trazer,
- 7:42principalmente para quem trabalha aí,
- 7:44né, na saúde, na saúde mental, que a
- 7:46gente não pode de jeito nenhum falar
- 7:48que, né, associar talvez migração com
- 7:52patologia, né? Migração não é
- 7:54diagnóstico.
- 7:55Às vezes a gente vai estudar muito eh
- 7:59questões de migração e muitos dos nossos
- 8:02estudos tá muito pautada no luto, na
- 8:04perda, né, na na na desconstrução, então
- 8:09da da angústia até, né, muitas muitas
- 8:12muitas coisas que a gente estuda vai
- 8:13estar muito pautada nisso e isso às
- 8:16vezes nos leva direto ali para achar que
- 8:19talvez é uma forma de patologia, mas não
- 8:22é, né? Então, a gente não pode eh a
- 8:24gente precisa diferenciar, né, de
- 8:27migração, de algo patológico, eh porque
- 8:30a migração ela pode significar muita
- 8:32coisa legal e na e muitas vezes
- 8:34significa, né, a minha migração, por
- 8:36exemplo, foi algo interessante. Eh, pode
- 8:39ser uma oportunidade, processo de
- 8:41autonomia, de segurança, de crescimento,
- 8:44de liberdade, de reconstrução mesmo, eh,
- 8:47consciente, eh, procura de, né, de
- 8:50oportunidade novamente, eh, mas também
- 8:53pode envolver rupturas e, e geralmente
- 8:56envolve adaptação turbulenta, perdas,
- 9:00né, mesmo que seja as perdas simbólicas,
- 9:02ambivalência, reconstrução identitária,
- 9:05dor. Eh, e é interessante colocar aqui
- 9:08também que não existe eh uma única
- 9:12experiência migratória. Isso é muito
- 9:14legal e muito importante pra gente
- 9:16entender quando a gente tá trabalhando
- 9:18neste contexto eh e com pessoas eh
- 9:21migrantes. Não existe. A gente não pode
- 9:24colocar a migração somente num potinho.
- 9:26A gente precisa às vezes singularizar e
- 9:29identificar de que imigração que a gente
- 9:31tá falando, que sujeito que entrou, né,
- 9:34no nosso cuidado de assistência. né? Eh,
- 9:37da onde ele vem, eh, da onde surgiu essa
- 9:43imigração dele, né? Em que contextos.
- 9:45Então, ela não é uma única experiência.
- 9:48a gente não pode falar somente de uma
- 9:50migração, mas a gente precisa e olhar
- 9:52aquele sujeito um pouco mais para
- 9:54entender é o lugar de fala dele e poder
- 9:56acessar muito mais ali um tratamento eh
- 10:01eh ou qualquer tipo de assistência que a
- 10:04gente esteja prestando para aquele
- 10:05indivíduo, né, ou para aquela família.
- 10:08Migrar não é só deslocar.
- 10:11Eh, migrar não é só mudar de país, né?
- 10:14Ou quando a gente vai falar de Brasil,
- 10:16por exemplo, não é só mudar de estado.
- 10:19Brasil é um, como se diz, cabe uma
- 10:21Europa dentro. Então também quando a
- 10:23gente migra dentro de um de um lugar tão
- 10:26rico culturalmente, tão diferente, né? A
- 10:30gente não pode falar que só é eh a a
- 10:33deslocação eh o deslocamento eh
- 10:37logístico, né? A gente desloca-se das
- 10:40próprias referências de existência.
- 10:43Então isso é é o deslocar do migrar, né,
- 10:47da língua, dos vínculos, da cultura, dos
- 10:51modos de significar o mundo. Então, por
- 10:54mais que seja árido o lugar onde a gente
- 10:57saiu, a gente desenvolveu muita coisa, a
- 11:00gente desenvolveu referências de
- 11:02existência ali. Então, aquilo por si só
- 11:04vai ser importante, por mais que eu
- 11:06esteja abandonando, né? Então aquilo vai
- 11:09entrar ali no meu subjetivo eh de
- 11:11indivíduo. Eh,
- 11:15trata-se, né, então migrar de uma
- 11:17experiência de reorganização subjetiva
- 11:19profunda. A migração, ela pode ser
- 11:21compreendida, né, como uma experiência
- 11:23de ruptura, no qual o que sustentava,
- 11:26né, o nosso eu, o nosso self, deixa de
- 11:29estar disponível de forma imediata.
- 11:32Então, por isso que muitos migrantes aí
- 11:35eh, principalmente quando vão para
- 11:36outros países, né, outros continentes aí
- 11:40diferentes, a gente se sinta um pouco
- 11:42perdido porque parece que ali que o que
- 11:44tava eh nos sustentando ficou meio
- 11:46chacoalhado porque as referências não
- 11:48estão ali o tempo inteiro, não estão
- 11:51presentes de forma imediata e eu vou ter
- 11:53que reaprender a lidar com isso.
- 11:58Eh, a experiência migratória ela
- 12:02ela acontece e em contexto, né? Então,
- 12:05interessante a gente colocar isso aqui
- 12:07também. Tem o antes, tem o durante e tem
- 12:09o depois. Eu preciso, quando eu tô aí
- 12:12trabalhando com assistência migratória
- 12:14intercultural, entender esse contexto
- 12:16aonde que o indivíduo ou o coletivo ali
- 12:19que tá vindo pra gente, ele se encontra.
- 12:22Então, tem contexto da pré-migração, que
- 12:25são ainda, né, as pessoas eh que tão que
- 12:29pretendem, né, emigrar, que tão com que
- 12:32trazem medos, que trazem angústias ou
- 12:34que ainda tão ali naquele processo do
- 12:36pré eh entender história pessoal e
- 12:38familiar, condições sociais, eh,
- 12:41violência ou traumas prévios, motivos
- 12:44para emigrar, às vezes vem muito, né, o
- 12:46trabalho, né, claro, postório privado,
- 12:49vem muito às vezes, eh, pessoas Ah, eu
- 12:52eu vou eu vou me mudar, queria, né,
- 12:54pegar aqui um auxílio, eh, para poder
- 12:57fazer isso da melhor forma. Então, são
- 12:59esse tipo de de coisa que vem, né, as
- 13:02histórias, eh, por que tá saindo, qual é
- 13:05o motivo para emigrar, né, as condições
- 13:08também com que essa pessoa vai emigrar.
- 13:10Então, isso vem muito. Daí tem o
- 13:12percurso migratório, né? Então, a gente
- 13:14às vezes atende também aí as pessoas que
- 13:16tão nesse percurso, eh, questões de
- 13:20segurança, de separações, a condição do
- 13:23deslocamento, né? Como que tá sendo
- 13:25isso? E claro, acho que todos os
- 13:27processos a incerteza, o saber, o ter
- 13:30ali um um ponto, né, onde eu possa
- 13:33falar, não, realmente é isso aqui, né?
- 13:36tem muita incerteza ainda dentro do
- 13:38processo. E depois o pós-migração, que
- 13:41aí entram mais as questões de onde eu
- 13:43moro, qual é o meu trabalho, questões de
- 13:46idioma, né? principalmente quando você
- 13:48vai para um outro país eh de uma fala
- 13:51diferente, você vai ter que reaprender.
- 13:52Por mais que você saiba um pouco daquela
- 13:55língua, quando você entra num contexto
- 13:56nativo, é diferente.
- 13:59eh documentação, aí entram questões de
- 14:02de eh migratórios mesmos, de visto, né,
- 14:05ou de documentação legal, rede de apoio
- 14:08e comunidade, né, aonde eu pertenço, eh
- 14:11quem tá comigo por aqui, procurar ali as
- 14:14referências, talvez que sejam
- 14:16interessantes naquele momento. Questões
- 14:19de discriminação, isso claro, eh muito.
- 14:22e as questões de acessos também, porque
- 14:25às vezes eh eh dependendo da da onde
- 14:28aquele imigrante vai, ele tem a
- 14:30oportunidade de ter acessos a muita
- 14:32coisa na maioria dos, né, dos lugares e
- 14:34tal, mas ele não tem talvez a
- 14:37possibilidade de acessar aquilo por n
- 14:39motivos. Então, a gente vai entender
- 14:40isso um pouquinho também. É interessante
- 14:42que o profissional eh entenda. Eh, a
- 14:45saúde mental, que é da onde eu falo, não
- 14:47pode ser compreendida fora deste
- 14:49contexto. A gente precisa contextualizar
- 14:52a experiência migratória desse
- 14:54indivíduo, desse coletivo, dessa
- 14:56família.
- 15:02Agora a gente vai entrar, né, falando um
- 15:04pouco mais sobre luto migratório. Quero
- 15:06expandir esse conceito. Eh, mas primeiro
- 15:09eu queria trazer um pouco do conceito de
- 15:11luto, que é importante, né? é algo que a
- 15:14gente tem que estudar muito quando a
- 15:16gente vai falar e trabalhar com
- 15:18imigração, porque é como se viesse de
- 15:20mãozinha dada, né, com com com sair de
- 15:24um lugar.
- 15:26Eh, e aí o luto não é apenas sobre a
- 15:29morte, né? que a gente precisa falar
- 15:31sobre o que a todas as questões que
- 15:33atravessam, né, esse esse esse sentir. O
- 15:37luto em sua dimensão mais profunda, né,
- 15:39não se refere apenas ausências de
- 15:41alguém, né, de um objeto, de algo que se
- 15:44foi, mas a reorganização do mundo
- 15:47interno diante da ruptura de um vínculo
- 15:49significativo, que é aquilo que eu tava
- 15:52falando um pouquinho antes, né, do lugar
- 15:53de referência eh para alguém, né? Então,
- 15:58quando a gente perde alguém, a gente
- 16:00sente muito porque a gente vinculou
- 16:02significativamente com essa pessoa.
- 16:05Então, quando a gente sai de um país,
- 16:06quando a gente perde um objeto, a
- 16:08criança que perdeu um brinquedo, né, a
- 16:10gente tá vivendo eh uma forma de luto
- 16:13também, porque tinha um uma porque teve
- 16:15uma ruptura de um vínculo significativo.
- 16:18Eh, o sofrimento do luto, ele emerge da
- 16:21quebra de uma ligação afetiva, né, que
- 16:23sustentava a experiência desse sujeito.
- 16:26Quando essa ligação ela se rompe, não é
- 16:29apenas o outro, né, ou a outra coisa que
- 16:31se pede. Pede-se também a forma como o
- 16:34mundo era vivido na presença desse
- 16:37vínculo. É como se o mundo tivesse eh
- 16:41sido remexido, né? soltei um monte de
- 16:44coisa no ar e aí ela precisa assentar
- 16:46com o tempo e isso às vezes leva
- 16:49bastante tempo. Eh, num contexto, por
- 16:53exemplo, da maternidade, essa dinâmica
- 16:55assume eh contornos particularmente
- 16:58intensos, né? Então eu vou falar isso
- 16:59daí um pouquinho mais paraa frente. Não
- 17:03se perde apenas alguém, né? Perde-se um
- 17:05modo de existir com esse alguém também,
- 17:09né? Com essas coisas. Eh, se você, né,
- 17:13eh, eh, eh, me perguntaram sobre o calor
- 17:16aqui, então assim, um dos meus grandes
- 17:17lutos eh aqui morando na Irlanda é a
- 17:21falta de sol, é a falta do calor, é a
- 17:24falta de entrar numa praia aqui com água
- 17:26quentinha, sabe? Então assim, é o meu
- 17:28luto, eh, porque eu perdi esse modo de
- 17:32existir, eh,
- 17:35porque a Irlanda, sei lá, se meses no
- 17:37ano, ela é gelada, então não tem aquele
- 17:40calor, né? Eu vou pro Brasil, procuro ir
- 17:43em épocas de verão, todo mundo
- 17:44reclamando do calor e eu assim, ai que
- 17:47gostoso, vou voltar recarregada. É, esse
- 17:50essa é a minha fala, né? Porque eu perdi
- 17:52algo que para mim era muito gostoso. Já
- 17:55tem outras pessoas, né? Por isso que tem
- 17:57que ter um contexto, né? Luto e a
- 17:59migração é diferente que não gosta do
- 18:02calor e aí sai do Brasil também, vai
- 18:05para um lugar mais gelado e adora e
- 18:07fala: "Ai, me encontrei porque, nossa,
- 18:1040º não consigo lidar, quero ficar de
- 18:13casaco e tá ótimo isso aqui para mim,
- 18:15né?" Então, olha o lugar de referência.
- 18:18Então vamos adentrar algo aqui que é
- 18:20muito muito legal, assim, gosto muito de
- 18:22falar sobre isso, que é o luto cultural
- 18:25ou luto migratório, né? Eh, a migração
- 18:29ela pode ser compreendida, né, como uma
- 18:31forma de luto.
- 18:33Aqui nas nas referências eh
- 18:37em inglês, né, de autores de língua
- 18:39inglesa, eles falam muito de cultural
- 18:41berevement, que é como se fosse um pouco
- 18:44dessa desse luto cultural, né, muito
- 18:47mais do que o luto migratório, porque
- 18:49eles falam que a cultura permeia, né,
- 18:52totalmente eh, esse processo.
- 18:56Eh, mas outros autores trazem luto
- 18:58migratório, né? Eles já coloca um pouco
- 19:00mais do que somente a cultura. Eh,
- 19:04migrar também implica elaborar perdas,
- 19:06né? E é um luto particular, é o luto do
- 19:10que foi perdido que continua existindo,
- 19:14né? Não é assim, eu perdi porque
- 19:16quebrou, porque morreu, porque não
- 19:19existe mais. Não, continua existindo,
- 19:22mas deixa de estar acessível. Então é
- 19:25difícil isso porque eu consigo acessar
- 19:28de tempos em tempos, né, quem consegue
- 19:30voltar para esses lugares e aquilo
- 19:33também vai se modificando, né? E o que
- 19:35fica é uma lembrança que não é mais
- 19:37acessível. Então é aquele luto meio
- 19:40particular.
- 19:42Eh, surge a experiência de ausência
- 19:45presente. Isso aqui todo o imigrante vai
- 19:48viver, né? Todo imigrante vai viver. a
- 19:50ausência presente, o luto migratório,
- 19:54então, né, o luto por tudo que ficou do
- 19:56outro lado, do oceano, do estado, do
- 19:59país, do lugar de referência eh materna,
- 20:04né, o ninho materno, o lugar de
- 20:06referência de nascimento, talvez daquele
- 20:08lugar de construção primária.
- 20:11Eh, é também o luto por tudo que não se
- 20:14poôde trazer, levar tempero regional, o
- 20:18cheiro, os rituais.
- 20:21É uma dor que atravessa o tempo e o
- 20:23espaço e que se mistura a maternidade, a
- 20:26parentalidade, aos marcos vividos eh
- 20:29longe da terra natal. A gente reacessa
- 20:32esse luto
- 20:34toda vez que a gente vai viver um marco,
- 20:37porque a gente tem referências que não
- 20:40são desse lugar onde a gente escolheu
- 20:43ficar, né? Eh, a gente vai falar um
- 20:46pouquinho mais sobre isso. Então, é o
- 20:48tempo todo, né? é o sol. Ai, queria essa
- 20:52comida nesse determinado
- 20:55momento, Natal, por exemplo, né? Uma
- 20:57Páscoa, não sei, alguma coisa que a
- 20:59gente comemore. Eh, um carnaval que aqui
- 21:02não existe, não tem, a não ser que a
- 21:04gente vá para uma comunidade brasileira,
- 21:07até os cheiros assim, ai que cheiro, não
- 21:09sei do quê. Eh, e claro, os rituais de
- 21:12passagem ou rituais interessantes que
- 21:14são determinadas ali também pela cultura
- 21:17daquele lugar.
- 21:20Vamos expandir um pouco mais fundamentos
- 21:22do luto migratório, então, né? É um
- 21:24processo psicológico complexo que
- 21:27acompanha o deslocamento de uma pessoa
- 21:29de seu país, né? Eh, cultura ou
- 21:32território de origem para outro contexto
- 21:35sociocultural. Embora nem sempre seja
- 21:38reconhecido como uma forma de luto, né,
- 21:40no sentido tradicional, trata-se de uma
- 21:43vivência de perdas múltiplas e contínuas
- 21:45que atravessa dimensões concretas e
- 21:48simbólicas da existência, né, contínuas,
- 21:50porque é aquilo que eu tava falando,
- 21:52sempre vai existir, não é uma coisa que
- 21:55cessa. Por mais que eu esteja
- 21:56completamente adaptado ao outro lugar,
- 21:59vai ter resquícios de coisas que eu vou
- 22:01sentir falta, que vai est esburacado.
- 22:04Eh, isso não me impede, né, de ser
- 22:06feliz, de viver, de reconstruir, mas vai
- 22:09ter alguma coisa ali o tempo inteiro e
- 22:12vai entrar eh na subjetividade daquela
- 22:15pessoa. Esse luto, né, ele não se limita
- 22:18somente ao momento da partida, ele se
- 22:21atualiza constantemente nas pequenas
- 22:23rupturas cotidianas, nas ausências de
- 22:26referência, nas dificuldades de
- 22:27comunicação e na sensação de não
- 22:30pertencimento, que acontece muito,
- 22:33principalmente num luto, eh, numa
- 22:36migração, eh, mais recente, assim, né,
- 22:38nos primeiros anos, tal.
- 22:41A imigração, né, ela implica um tipo de
- 22:44luto que não se encerra, um luto parcial
- 22:47e crônico, porque o objeto perdido, a
- 22:50terra natal, a língua, os vínculos, a
- 22:53identidade social permanece vivo na
- 22:55memória, mas inacessível no cotidiano.
- 22:59Acho que isso assim traduz muito eh o
- 23:02conceito de luto migratório, né? Esse
- 23:04luto parcial e crônico, ele vai ser para
- 23:08sempre.
- 23:09Diferentemente do luto pela morte, em
- 23:11que há uma delimitação temporal e
- 23:13concreta da perda, né? O luto
- 23:16migratório, ele se caracterica pela
- 23:17ausência presente. O que foi deixado
- 23:20continua a existir, mas distante,
- 23:23gerando uma dor que se renova a cada
- 23:25lembrança e a cada comparação. Então aí
- 23:28por isso que elas afetam os processos,
- 23:30né? os processos vividos ao longo do
- 23:33tempo, eh, uma, né, uma gestação, eh, a
- 23:37troca de um emprego, a compra de uma
- 23:39casa, eh, uma nova um novo novo
- 23:42deslocamento. Então, vai sendo afetado
- 23:45aí eh a partir das da das vivências
- 23:47daquela pessoa que migrou
- 23:53que pode ser perdido quando migramos.
- 23:58Essa ruptura do ambiente, ela impacta na
- 24:00continuidade do nosso self, né, do nosso
- 24:03eu. Então, o sujeito imediatamente ele
- 24:06vai precisar reorganizar internamente
- 24:09identidade, pertencimento
- 24:12e e e conseguir ali de alguma forma a
- 24:15estabilidade emocional para poder viver
- 24:18tudo aquilo, né? Eh, a migração ela
- 24:21desorganiza
- 24:23antes de reorganizar.
- 24:25você pode ter, claro, tem tem duas
- 24:28coisas, né? Mas no começo aqui eu
- 24:29trabalhava muito com estudantes,
- 24:31estudantes eh de intercâmbio
- 24:35brasileiros, então eh
- 24:39e trabalhava muito com estudantes que
- 24:40ainda não tinha não tinham vindo, então
- 24:42fazia todo um uma preparação para essas
- 24:45pessoas migrarem. E aí, claro, né, era
- 24:48na minha cabeça era muito aquela coisa
- 24:49assim, a gente precisa organizar aqui
- 24:51minimamente, mas vai tá tudo
- 24:54desorganizado quando a pessoa chegar. É
- 24:56mais fácil ela vir já, né,
- 24:58pré-organizada do que chegar aqui e ser
- 25:00aquilo. Eh, porque vai acontecer muita
- 25:03coisa que ela não tá, não tem como
- 25:05organizar antemão, né? Então, por isso
- 25:07que a gente fala que a migração ela
- 25:08desorganiza quando ela acontece antes de
- 25:12de de te organizar qualquer coisa, de
- 25:14reorganizar, porque ela precisa disso,
- 25:16ela precisa chacoalhar para que a pessoa
- 25:18olhe e fala: "Uau, aqui tem muita coisa
- 25:21que eu ainda não conheço, não desse
- 25:23jeito vivido". E aí eu vou começar a
- 25:26organizar a partir do que faz sentido
- 25:28para mim, né? Pros meus pares que estão
- 25:31aqui, até a formação de pares, né? Nesse
- 25:33sentido, né? né? A imigração, ela pode
- 25:35ser pensada como um processo de
- 25:37desraizamento psíquico, no qual o
- 25:40sujeito se vê privado das bases, né, que
- 25:42sustentavam a experiência de
- 25:44pertencimento. Mas, no entanto, esse
- 25:47desraisamento não é apenas uma perda,
- 25:49né? Ele também abre espaço paraa
- 25:51criação. Isso que é legal também, né?
- 25:53Por isso que não pode ser alguma coisa,
- 25:55né, patológica ali de causa e
- 25:57consequência, todo imigrante vai sofrer,
- 25:59não, porque também ali pode destravar
- 26:03muita potencialidade, o que é legal.
- 26:06Então, a experiência do migrante, né,
- 26:09eh, os Nesteruk aponta, né, que os que
- 26:11os migrantes frequentemente desenvolvem
- 26:14formas híbridas de pertencimento. Eu
- 26:16acho isso muito legal, eh, e é verdade,
- 26:20na nas quais elementos da cultura de
- 26:23origem e da cultura acolhida, elas são
- 26:26articuladas de maneira singular. Eh,
- 26:30é verdade. Aqui na Irlanda, por exemplo,
- 26:33eu descobri um lugar que vem de acarajé.
- 26:37Nossa, o meu marido que é irlandês, ele
- 26:42ele come a caraje adora, mas ele come
- 26:46Guines, com a bebida irlandesa daqui,
- 26:48gente, assim, na minha cabeça não é uma
- 26:51coisa que não vai com a outra, né? Mas é
- 26:54uma forma híbrida de pertencimento.
- 26:56Então eu pertenço aquilo ali também, né?
- 26:59A gente vai misturando uma coisa com a
- 27:01outra até fazer um pouco de sentido de
- 27:04algo que a gente já tem na história e de
- 27:06algo que a gente agora passa a ser
- 27:09pertencente também. Eh, mas às vezes
- 27:12esses processos não ocorrem sem tensão,
- 27:15né? A identidade imigrante é
- 27:17frequentemente marcada por contradições,
- 27:19muitas, exigindo aí um trabalho psíquico
- 27:22constante de negociação. A gente negocia
- 27:25coisas o tempo inteiro, né? Então,
- 27:28porque a gente tá vivendo com
- 27:29ambivalência, fico, volto, mudo de novo.
- 27:33Eh, o que que é isso, né? Porque os
- 27:35buraquinhos estão sempre ali. A gente tá
- 27:36achando que ai não é aquele lugar, né?
- 27:39Nostalgia intensa, idealização do país
- 27:42de origem, isso acontece demais. Eh, e
- 27:46aí às vezes a gente volta e a gente
- 27:48fala: "Calma aí, mas também não pertenço
- 27:50mais a isso aqui". Então dá um nó.
- 27:53Sensação de não pertencimento em lugar
- 27:55nenhum acontece às vezes até quando a
- 27:57gente volta de férias para algum lugar,
- 27:59quem tem essa possibilidade,
- 28:01eh, e uma fragmentação identitária,
- 28:03então acontece por aí. Novamente, não
- 28:06são sintomas, isso são processos, né?
- 28:09Então, a gente tem que sair dessa coisa
- 28:11patológica e colocar muito nessa coisa
- 28:13do processo do migrante, né? Isso vai
- 28:16acontecer e talvez tenha que acontecer
- 28:19novamente de uma forma ou de vários
- 28:22tipos de forma. Quando a gente fala
- 28:24também de experiência migrante, eh, a
- 28:27gente precisa pensar assim que imagina a
- 28:29migração ela ela é se jogar num oceano,
- 28:33né? Eu eu gosto de visualizar as coisas,
- 28:36só que cada pessoa que vai entrar ali
- 28:37naquele oceano, ela vai entrar de uma
- 28:39forma. Tem gente que vai entrar de
- 28:41lancha, tem gente que vai entrar de
- 28:44barquinho a remo, tem gente que vai ir
- 28:47nadando e tem gente que vai ser jogado.
- 28:50Então eu preciso entender que processo é
- 28:52esse, né, que aquela pessoa, que aquele
- 28:54indivíduo, que aquela família tá
- 28:56experienciando, porque são distintas
- 28:59completamente a partir do mesmo do mesmo
- 29:02ponto
- 29:05entre a perda e a transformação, né? Eh,
- 29:09tô falando muito de literatura
- 29:10internacional porque é o que eu costumo
- 29:13muito mais aqui, né? Eh, mas ela tem
- 29:16demonstrado assim de forma consistente
- 29:18que a migração ela tá associada eh
- 29:20também ao aumento de vulnerabilidade
- 29:22psíquica, especialmente em contextos de
- 29:25desigualdade social, discriminação e de
- 29:28instabilidade.
- 29:30Eh, a migração é simultaneamente, né,
- 29:33eh, perda ruptura, mas também
- 29:35possibilidade. Então é aquele, a gente
- 29:38não sabe direito o que que tá
- 29:39acontecendo ali na na vida daquele
- 29:41indivíduo, mesmo que seja uma migração
- 29:43completamente consciente e planejada,
- 29:45né?
- 29:47É uma perda, né? Muito particular. Eh,
- 29:50novamente, aquilo que eu deixei continua
- 29:52existindo, a família continua lá, a
- 29:54cidade continua lá, a língua continua
- 29:56lá, a vida continua acontecendo, mas já
- 29:59não estão disponíveis para mim da mesma
- 30:01maneira, né? é uma experiência de
- 30:04ausência e presenças simultâneas.
- 30:07Eh, mas é legal é que abre espaço
- 30:10também, né, para novas formas de
- 30:12existir, mesmo sejam híbridas.
- 30:15Eh, e é interessante, né, coisas que a
- 30:18gente pega muito trabalhando com
- 30:20imigrantes, que é quando eu volto pro
- 30:23lugar de origem, eu percebo que eu
- 30:25também mudei e que o lugar também mudou.
- 30:28Porque às vezes, né, imagina, você tá 5
- 30:31anos num lugar fora e aí você tá ali o
- 30:33tempo inteiro, não, não quero isso
- 30:35porque ali é melhor, porque aquilo ali
- 30:37era melhor, porque a comida não é
- 30:39melhor. E aí você volta. às vezes tem um
- 30:42choque, uma experiência muito
- 30:44complicada, porque a pessoa mudou os
- 30:47gostos, aquilo também não é daquele
- 30:50jeito com que a pessoa formulou. A às
- 30:54vezes até vem formulações muito
- 30:56primárias da infância que a gente
- 30:58mistura tudo no mesmo barco e parece,
- 31:01né, como se fosse ali o lugar. E a gente
- 31:04volta para uma realidade ali da onde a
- 31:06gente saiu, mas que também aconteceu
- 31:08transformações e a gente tem um choque
- 31:11porque aí a gente se confronta com algo
- 31:13que
- 31:15não tá mais ali, não é mais daquele
- 31:17jeito, tá na meu imaginário, né, entre
- 31:19dois lugares. Eh, e às vezes daí você
- 31:23quando faz esse tipo de de de coisa, eh,
- 31:27você se sente não pertencente a nenhum e
- 31:30não precisa nem ir para esse lugar. às
- 31:32vezes você não se vê mais naquele lugar,
- 31:34mas você também não se vê, não se vê
- 31:36totalmente nesse lugar eh de chegada,
- 31:39né? Aqui a gente, eu trago um conceito
- 31:42também que é interessantíssimo, né, de
- 31:44poder falar, que é a questão eh da
- 31:48importância de construção da identidade
- 31:51transnacional, né, que o que é que é a
- 31:54possibilidade
- 31:56eh de construir pertencimentos múltiplos
- 31:59sem precisar pagar uma parte da da
- 32:02própria história. Então, às vezes eu
- 32:04trabalho muito isso em consultório ou,
- 32:07né, no no nos nos projetos eh coletivos
- 32:11e sociais, né, de construção eh de
- 32:15identidade transnacional, porque eu
- 32:17posso ser muita coisa, eu posso gostar
- 32:19de dois lugares igualmente. Eu posso
- 32:22amar muita coisa no meu país e gostar de
- 32:25muita coisa aqui. Eu não preciso ser só
- 32:27uma coisa ou outra. eu posso ter dupla
- 32:29cidadania, eu posso, né, eh, e eu não
- 32:33preciso apagar parte da minha história
- 32:34para viver outra história. Então, às
- 32:36vezes, eh, isso acontece, né? Já peguei,
- 32:41por exemplo, eu trabalho muito com
- 32:42criança, já peguei casos eh
- 32:46infantis aqui eh em que a criança que
- 32:50tinha mudado com a família se recusava a
- 32:53fazer alguns rituais, algumas coisas,
- 32:55até a mesma fala na língua inglesa,
- 32:58porque era como se ela tivesse ali eh
- 33:03negando a existência brasileira dela,
- 33:06né? Ela sentia muita falta da avó, da
- 33:09casa, do quarto, então ela tava ali
- 33:11afastando tudo que não era aquilo. Ao
- 33:13invés de falar: "Não, né, não precisa
- 33:16pagar isso da minha história, eu posso
- 33:18fazer o multi, né, posso ter um
- 33:21pertencimento múltiplo." E aí era o meu
- 33:22trabalho, é o meu trabalho com esse tipo
- 33:25de de demanda aqui também, né, que é a
- 33:28construção da identidade transnacional,
- 33:34língua, cultura e identidade. Acho isso
- 33:36muito bacana, a gente poder falar um
- 33:38pouquinho, eh, porque acho que a língua,
- 33:41né, principalmente essa a linguagem
- 33:43verbal aí, a de comunicação, eh, quando
- 33:45a gente muda de país, é o que é afetado
- 33:48assim logo de início, né? Então,
- 33:51imagina, eu vi, vim para cá, eu não
- 33:53tinha inglês, eh, aquele inglês básico
- 33:56ali da escola, né, de poder ler alguma
- 33:58coisa, de falar o hello, mas assim,
- 34:02naquele choque quando você tá aqui, é
- 34:05interessantíssimo. Assim, eu não consigo
- 34:06nem me comunicar, aquilo que eu tinha
- 34:09ali foi tá tá zero, né? Então, é
- 34:12interessante a gente poder falar sobre
- 34:14isso. A língua ela não é apenas
- 34:16comunicação, né? A língua ela é memória,
- 34:19ela é afeto, infância, humor,
- 34:21identidade, pertencimento.
- 34:24Eh, e quando a gente trabalha com
- 34:27sofrimento, com saúde, talvez saúde
- 34:29mental, em qual língua essa pessoa
- 34:31consegue sofrer?
- 34:33eh coisas às vezes que porque às vezes
- 34:37eh profissionais é profissionais,
- 34:39indivíduos procuram muito eh assistência
- 34:41brasileira mesmo dentro da Irlanda, né,
- 34:44para fazer uma terapia, eh procuram
- 34:46médicos ou isso, aquilo tudo ali ou
- 34:49outros profissionais que vão auxiliar,
- 34:51porque ela traz muito isso, né? Eu não
- 34:53consigo eh falar de sofrimento sem ser
- 34:57na minha língua. Eu não aprendi isso,
- 34:59então não não não não traduzo essa
- 35:03verdade. A tradução é pobre quando eu
- 35:05falo numa outra língua, né? Então é
- 35:08difícil. Imagina, a gente vai falar
- 35:09alguma coisa numa outra língua já é
- 35:11difícil. Falar de sofrimento eh é é mais
- 35:15complicado, né? Então a língua também é
- 35:18casa, né? Ela faz com que a gente se eh
- 35:20vá se construindo ali através do que a
- 35:23gente consegue expressar.
- 35:25Falar uma língua, né? é diferente de
- 35:28conseguir sentir nela. Eh, eu fiquei por
- 35:31anos aqui, eu não significava palavrão,
- 35:35por exemplo, em inglês. A pessoa falava,
- 35:39eu entendia, né? Não tá falando para
- 35:41mim, mas eu entendia o significado do
- 35:43palavrão, porque você traduz, mas aquilo
- 35:45não tinha sentido. Agora, se fosse
- 35:48alguém falando em português, eu até, né,
- 35:50aquilo ali entrava de uma forma. Por
- 35:53quê? porque eu conseguia sentir o que eu
- 35:56tava escutando. Então, falar uma língua,
- 35:58né, quando a pessoa aprende uma língua,
- 36:00não é, não é eh eh um mais um, são dois,
- 36:05que ela vai conseguir sentir aquela
- 36:07língua. Isso leva tempo. E às vezes, eh,
- 36:11as traduções assim na outra língua, ela
- 36:14vai ter que adaptar também, né? Por
- 36:16exemplo, no inglês eles usam, sei lá,
- 36:19amchas, né? Eu posso traduzir como, ah,
- 36:21eu tô ansioso, mas o brasileiro às vezes
- 36:23vai falar: "Ai, tô sem chão, né? Como eu
- 36:26vou traduzir isso? Eu não consigo." É
- 36:27uma expressão, né? Então tem muito isso
- 36:30também que às vezes a gente não consegue
- 36:33sentir,
- 36:34né? A proficiência linguística não é
- 36:37necessariamente segurança emocional na
- 36:39língua. Tem gente que vem para cá, é
- 36:42fluente na língua, né? porque já estudou
- 36:44no Brasil ou porque já eh morou e tal e
- 36:48sofre muito com a imigração. Então, as
- 36:50pessoas às vezes até fala: "Nossa, mas
- 36:52você fala tão bem, mas você não deveria,
- 36:55né, um trabalho, uma mudança?" Mas é
- 36:57porque às vezes ela não tá sentindo
- 36:59ainda a língua daquele lugar, né? Então
- 37:02o cuidado intercultural, ele precisa
- 37:04considerar não apenas o que foi dito,
- 37:06mas o significado cultural e afetivo
- 37:09daquilo que tá sendo comunicado.
- 37:11É meu tempo aqui, gente, que senão eu
- 37:13vou e falo, falo, falo, falo, OK?
- 37:17Para quem trabalha na assistência, né,
- 37:19eh, com com eh migrante, fiquem longe de
- 37:24duas armadilhas, né, que eu acho
- 37:27interessante falar
- 37:29patologizar a diferença, né? é diferente
- 37:32do que conheço. Então, portanto, é
- 37:34patológico, né? Já vi profissionais
- 37:36fazerem isso eh em sistemas de
- 37:40assistência ali. Então, assim, é
- 37:43diferente do que eu conheço. Deixa eu
- 37:44dar uma conhecida, deixa eu entender o
- 37:46que que é isso aqui, né? E não colocar
- 37:48num lugar eh de patologização só porque
- 37:52é diferente. Deixa eu ver o que que que
- 37:54essa pessoa também quer quer comunicar
- 37:56aqui comigo, né? E culturalizar o
- 37:59sofrimento, né? por exemplo, é da
- 38:01cultura dela, portanto, então não é
- 38:03clínico. Nossa, de jeito nenhum. Eu
- 38:06trabalho muito na cena do pato aqui, né?
- 38:09Na cena da assistência perinatal.
- 38:12Ai, mas isso é Brasil. Ai, você, né?
- 38:16Nossa, como assim? Ela tá, né? Eh, é uma
- 38:19coisa cultural, mas assim, não é porque
- 38:22só é cultural, ela tá vivendo, ela tá
- 38:24sentindo aquilo, né? Por mais que não
- 38:26seja algo daqui. Então, deixa eu
- 38:28entender isso aqui também, né? Isso é
- 38:30muito importante. Eh, a cultura
- 38:33contextualiza a avaliação, claro, mas
- 38:36não substitui a avaliação clínica, né?
- 38:39Mas ela faz parte.
- 38:41Então aqui algumas perguntinhas assim,
- 38:43né, para para quem trabalha aí na
- 38:45assistência de de não de fazer
- 38:48diretamente ali, mas de poder tentar
- 38:50entender talvez ali, né, quando vai
- 38:52fazer uma triagem, quando vai fazer um
- 38:54trabalho com grupos, né, importante
- 38:56entender eh como essa pessoa foi chegar
- 38:59aqui, o que que ela sentiu e perdeu ao
- 39:02migrar, mas também o que que ela ganhou,
- 39:04quem faz parte da tua rede hoje, quem
- 39:06cuidaria de você no teu país de origem,
- 39:09quem cuida de você aqui?
- 39:10se existe alguma prática cultural ou
- 39:12religiosa importante para você, que
- 39:15língua, né, é mais fácil falar sobre o
- 39:18que você tá sentindo.
- 39:20Isso é são, né, são coisas assim que são
- 39:23importantes demais para aquela pessoa.
- 39:30Vamos falar então um pouquinho de
- 39:31mulheres, né, em contextos migratórios,
- 39:33eh, quando o gênero e a migração ela se
- 39:36encontram, né? Eh, a experiência
- 39:39migratória também é atravessada pelo
- 39:41gênero, né? O gênero, hoje aqui vou
- 39:43trazer muito no gênero, gênero mulher,
- 39:47eh, elas podem coexistir, né? Então, às
- 39:51vezes entra muito eh responsabilidade
- 39:54pelo cuidado familiar, dependência
- 39:57econômica ou migratória,
- 39:59isolamento social, violência violência
- 40:03baseada em gênero, né? Desigualdade no
- 40:05trabalho, aumento às vezes em vários
- 40:09contextos de racismo e xenosfobia,
- 40:12sobrecarga doméstica e barreiras
- 40:14linguísticas institucionais agravados.
- 40:17Eh, dá para falar muito sobre todas
- 40:20essas aqui, porque são coisas que eu
- 40:22trabalho bastante, a gente não vai ter
- 40:24tempo, mas às vezes, por exemplo, num
- 40:27contexto de migração grande aqui na
- 40:30Irlanda, são eh eh pessoas que vêm com
- 40:34vistos de trabalho de outro país. A
- 40:36Irlanda é muito forte com TI e
- 40:38engenharia, por exemplo. Então, vem
- 40:40muita gente nesse nesse nicho de
- 40:43trabalho, eh, com famílias.
- 40:46E aí vem, eh, geralmente quem trabalha,
- 40:50né, muito, acho que talvez 70 30%, eh,
- 40:5470%, 30% sejam talvez homens ali com
- 40:57engenharia, TI, pelo menos é o que
- 41:00aparece aqui na Irlanda, eh, e aí vem,
- 41:03trazem as famílias. Então, a pessoa, o
- 41:05homem tem o visto de trabalho, a mulher
- 41:07vem como dependente do visto, né, com as
- 41:10crianças. Então, ele está trabalhando,
- 41:12ela está em casa, eh, e às vezes, né, o
- 41:16que aparece depois de um tempo são essas
- 41:19barreiras linguísticas institucionais
- 41:22agravadas, porque ela não consegue
- 41:23desenvolver, né, porque ela não tem
- 41:25nenhum visto de trabalho para, né, tem
- 41:28que aplicar, tem que, então tem um rolê
- 41:30ainda, né, quando vem nesse sentido, eh,
- 41:33a dependência econômica, né, ou a
- 41:35dependência migratória, o isolamento
- 41:37social, porque às vezes não consegue,
- 41:39né, encontrar grupos ou ir ouvir porque
- 41:41tem criança pequena ou porque engravidou
- 41:44ou porque tem que fazer as coisas ali,
- 41:46não sei, também depende da relação. Eh,
- 41:50e aí violências baseadas em gênero, né,
- 41:52que acabam acontecendo e eu trabalho
- 41:54bastante com isso aqui.
- 41:59Nicho então aí nas mulheres, né, vamos
- 42:01falar um pouquinho de maternidade nos
- 42:02contextos migratórios, né? Tornar-se mãe
- 42:06na imigração é construir identidade sem
- 42:08referências, familiares próximas,
- 42:11eh sustentar cuidado, muitas vezes sem
- 42:14rede afetiva e efetiva, existir entre
- 42:17culturas é maternári em deslocamento,
- 42:20né, e muitas vezes em solidão.
- 42:23Eh, tem a grande citação que é preciso
- 42:27uma aldeia para criar uma criança, né?
- 42:29Mas o que que acontece quando a aldeia
- 42:31está a milhares de quilômetros?
- 42:34Às vezes a referência dessa mulher é a
- 42:36aldeia dela de rede de apoio familiar,
- 42:39de amigos, das amigas, das primas, dos
- 42:42primos, né, do do do médico que ela já
- 42:45vai desde criança. Então, quando ela
- 42:47emigra e ela enfrenta aí talvez uma
- 42:50gestação ou então trazem as crianças,
- 42:53ela acaba ficando um pouco desamparada
- 42:55desses lugares de referência.
- 42:59Eh, aqui eu trago um pouco da
- 43:01maternidade como processo psíquico, mas
- 43:04acho que a gente não vai ter tempo para
- 43:06falar de tanta coisa. Eh,
- 43:12né, acho que, né, só para dar uma
- 43:14encutada. Então, eh, a maternidade eh,
- 43:17não é,
- 43:19>> Caro? Fica, fica tranquila que eu acho
- 43:22que tá bem rico, né? Eu acho que a gente
- 43:24tem tempo. Pode.
- 43:27>> Ah, tá bom então. Tá. Então, então tá
- 43:29bom. Vou lá.
- 43:31>> Eh, que eu tava aqui pautada na hora,
- 43:32mas acho que tô um pouco Não. Vamos lá
- 43:35então. Não, se ultrapassar um pouco a
- 43:37gente ajusta e abre também, né, para
- 43:39garantir também a troca, que eu acho que
- 43:41é importante.
- 43:41>> Tá ótimo. Tá ótimo. Perfeito. Eu tô, eu
- 43:43tô com tempo aqui também. Eh, então
- 43:46vamos lá. Vamos falar de maternidade
- 43:47como processo psíquico. Eh, que a
- 43:50maternidade não é só um evento
- 43:51biológico, né? ela constitui ali num
- 43:53processo psíquico mais complexo, que aí
- 43:56atravessa, é atravessada, né, por
- 43:58dimensões históricas, culturais,
- 44:00relacionais, né? Ela vai envolver ali
- 44:03identidade, história pessoal, vínculos
- 44:06primários, representações do bebê, né?
- 44:09Então, depende, né? é uma mistura, um
- 44:12balaco baco. Ali eh, quando esse
- 44:15processo ele ocorre num contexto, talvez
- 44:19de estabilidade relacional e cultural,
- 44:22ele pode ser sustentado por uma rede que
- 44:24oferece apoio, validação e continuação
- 44:28simbólica. Por exemplo, engravidei, vou
- 44:31lá no médico que é da família, que eu
- 44:35passo há muito tempo, né? Ou então, ai
- 44:38aqui tem uma UBS maravilhosa, tem um
- 44:41sistema, né, de saúde que minhas primas
- 44:43frequentaram, vou lá também que tiveram,
- 44:46sabe? ou então minha mãe tá aqui, ah, já
- 44:48vou organizar isso aqui, já eu já tenho
- 44:51aquilo ali. Porém, no entanto, em
- 44:53contextos migratórios, às vezes essa
- 44:55base, ela encontra-se frequentemente
- 44:58fragilizada, porque, principalmente
- 45:01quando a gente fala de primeiras que vão
- 45:03eh
- 45:05ter o primeiro bebê, talvez ali num país
- 45:08diferente, ela ainda não percorreu
- 45:10aquele sistema porque ninguém antes
- 45:14dela, às vezes amigas, né, eh, passaram
- 45:17por aquilo, ela não teve aquela
- 45:18experiência de juntando coisas. Então,
- 45:21ela vai ter que, né, desbravar este
- 45:24lugar.
- 45:26Eh, tornar-se mãe, né, implica não
- 45:29apenas a dar a luz a um bebê, mas também
- 45:31atravessar uma profunda reorganização
- 45:33interna, no qual o sujeito ele é
- 45:35convocado a revisitar a sua própria
- 45:37história, suas identificações e as suas
- 45:40experiências de cuidado. Eh, isso dói
- 45:44demais quando a gente migra, porque
- 45:47geralmente as nossas experiências de
- 45:48cuidado primário é com os nossos, né? E
- 45:51geralmente é num país eh de origem, né?
- 45:56Quando eu tô falando de adultos, né? Que
- 45:57que emigraram, constituição da criança é
- 45:59diferente, mas nossa, aquilo dá até um
- 46:04como assim? Nossa, eu eu eu sou mãe
- 46:07aqui, tive minha filha aqui, então eu
- 46:09passei muito por isso, porque tudo que
- 46:11eu buscava de referência, não tudo, né,
- 46:13porque eu eu trabalho também com isso,
- 46:16mas muita das coisas era de um contexto
- 46:20vivido na minha infância, né, indo eh
- 46:24verificando e vendo aquilo acontecer,
- 46:26né, principalmente o meu cuidado.
- 46:29Então, sobreposição de transições, né?
- 46:32Na migração, a mulher mãe atravessa duas
- 46:34transições simultâneas, a de tornar-se
- 46:37mãe e adaptar-se a um novo território
- 46:40como mãe, né? Essa sobreposição, ela
- 46:43intensifica vulnerabilidade emocional de
- 46:46segurança e sensação de instabilidade.
- 46:50Nesse caso aqui, não é soma, é uma
- 46:53sobrecarga psíquica, né? Então, coisas
- 46:56que a migração também trazem ali às
- 46:58vezes como sobrecarga.
- 47:01Eh, a mulher migrante frequentemente ela
- 47:03se vê confrontada com expectativas
- 47:05culturais distintas, né, tanto do país
- 47:08de origem quanto do país que ela foi
- 47:10acolhida,
- 47:11sem necessariamente, né, se reconhecer
- 47:13plenamente nenhuma delas, né, essa
- 47:16condição, ela pode gerar ali uma
- 47:18experiência de deslocamento materno, na
- 47:20qual a mulher ela não se encontra em
- 47:22nenhum lugar claro para sustentar
- 47:26novamente a sua identidade como mãe que
- 47:28está sendo construída. Então imagina, é
- 47:31uma coisa, é camada após camada, né, de
- 47:34de questões.
- 47:37E aqui tô pegando só um nicho
- 47:38maternidade, né? Pode ser colocado para
- 47:41eh carreira, eh outras coisas, né?
- 47:46Ausência de rede. Então, eh a
- 47:48maternidade ela é sustentada por uma
- 47:50rede, né? Então, no contexto do
- 47:52migratório, essa rede às vezes ela não
- 47:54tá disponível.
- 47:56ausência de figuras como a própria mãe
- 47:59ou outras mulheres da família, outras
- 48:01pessoas ali da família, representa uma
- 48:04perda significativa, ainda que nem
- 48:06sempre nomeada como tal, né? Eh,
- 48:11há muita ausência de familiares,
- 48:12ausência de figuras maternas, ausência
- 48:14de suporte cotidiano, né? Até de
- 48:17comunicar com alguém da assistência numa
- 48:19outra língua. Eh, é, é, é mais
- 48:22complicado às vezes o choque da cultura,
- 48:24de como as coisas acontecem naquele
- 48:26sistema é muito diferente, né? A mãe
- 48:29precisa sustentar sem ser sustentada.
- 48:32Isso acontece demais aqui,
- 48:34principalmente quando eu trabalho com as
- 48:35mulheres brasileiras aqui, eh, e aí
- 48:38outros profissionais falam, né, ao redor
- 48:40do mundo. Eu recebo às vezes pessoas no
- 48:43Brasil que estão atendendo pessoas que
- 48:45estão fora ou que migraram dentro do
- 48:48Brasil e que elas procuram ali entender
- 48:51um pouquinho do que tá acontecendo,
- 48:52porque tá difícil, né? é uma, ela não
- 48:54consegue nem explicar direito o que tá
- 48:56acontecendo ali na angústia dela.
- 49:00Eh,
- 49:03interessante também aqui o processo.
- 49:06Alguma coisa que apitou,
- 49:10eu não consigo ver aqui. Ai, tem alguém
- 49:12com mão levantada.
- 49:14Não, não.
- 49:16Ai,
- 49:21tá ouvindo
- 49:22>> agora? Tô. Aham.
- 49:24Não, é só porque nesse ponto assim e uma
- 49:27coisa que eu vi aí eu não sei como é que
- 49:29é para você, como é que você vê e como é
- 49:32que é aí na Irlanda também, que eu vi
- 49:34algumas experiências na Suécia com as
- 49:38doulas bilíngues, né? E aí é
- 49:41interessante porque eu acho que dialoga
- 49:43muito com o que você tá trazendo no
- 49:45sentido assim que é uma mulher que eh é
- 49:49migrante, né? E aí também dialoga muito
- 49:51com a questão da mediação intercultural,
- 49:53que eu acho que é uma estratégia aí
- 49:56muito interessante, né? E que vivencia
- 50:00não só a não é só a doula no sentido
- 50:03desse suporte, mas é uma mulher que
- 50:05vivencia a cultura, que vivenciou a
- 50:08migração, então ela dialoga em tudo isso
- 50:11que você tá trazendo aqui, né? Então
- 50:13assim, queria de repente acho que
- 50:15complemento ouvir um pouquinho você.
- 50:17>> Total, total. E aí, eh eh é é onde a
- 50:21gente escuta as mulheres buscando esse
- 50:23tipo de referência, né? O que nesse
- 50:25momento me faz sentir sustentada.
- 50:29Eu, por exemplo, a minha doula era uma
- 50:31doula bilíngue,
- 50:33né? Eu tive. Por quê? Porque eu tive
- 50:35exatamente esse tipo de pensamento. Eu
- 50:38preciso alguém na cena do parto irlandês
- 50:41que me entenda, porque quando eu tiver
- 50:44na Partoolândia eu vou querer falar
- 50:46português, eu tenho certeza, porque
- 50:48quando eu, né, tô doente ou aquilo, o
- 50:51português é que sai, mesmo estando 16
- 50:53anos aqui. Mas também preciso que alguém
- 50:55que entenda o sistema, que fale inglês,
- 50:58que se comunique com alguém, se alguma
- 51:00intercorrência acontecer, que se
- 51:01comunique com meu marido. Então, foi a
- 51:04minha a minha procura, né? Então, acho
- 51:07importantíssimo quando tem esse tipo de
- 51:11profissional eh que complementa a
- 51:14necessidade daquela pessoa eh ser
- 51:17acionada, porque vai fazer uma diferença
- 51:20gigantesca.
- 51:22Eh, assim, e aí a minha doula depois
- 51:24falando depois do meu pato, falou: "Ah,
- 51:25você quase não falava em português, você
- 51:27falava muito inglês, né?" Eh, eu falava,
- 51:30sério, para mim a minha cabeça tava
- 51:32funcionando automático.
- 51:35Não sabia que língua eu tava falando,
- 51:37mas acho porque eu tava ali, marido
- 51:38também tava. Aí eu fui para uma língua
- 51:41eh que já é hoje em dia, né, muito muito
- 51:44eh eu tô acostumada, mas é sim,
- 51:47importantíssima a tua a tua contribuição
- 51:50aí, né? Eh,
- 51:54OK, né? Então assim, novamente, né,
- 51:56complementando, quando esse holding, né,
- 51:58ele não tá presente, né, esse esse
- 52:00ambiente que sustenta, a mulher, ela
- 52:03pode experimentar então essa sensação de
- 52:04desamparo. Esse desamparo não é apenas
- 52:07uma condição externa, mas uma vivência
- 52:09psíquica dela, né, que pode impactar
- 52:12diretamente na sua capacidade de
- 52:13sustentar o cuidado. É, novamente, olha
- 52:17lá, no meu parto, eu falei inglês, acho
- 52:18que o parto, né, falando ali
- 52:20minimamente, mas eu queria que tivesse
- 52:22alguém que me entendesse se eu fosse pro
- 52:24português, né, porque a minha língua
- 52:25mãe, eu achava que eu ia estar
- 52:27totalmente ali. Eh, ter vínculos, né, às
- 52:32vezes não significa necessariamente ter
- 52:34suportes disponíveis.
- 52:36Então, eh, o que que que isso quer dizer
- 52:38aqui? Quer dizer assim que eh às vezes
- 52:42eu conheço, né, eu me vinculei com o
- 52:45sistema, né, mas não necessariamente
- 52:48aquilo é o suficiente, né, como suporte
- 52:52para mim indivíduo naquele momento. Eu
- 52:54preciso trabalhar ali com uma construção
- 52:57que às vezes vai além daquilo, né, a
- 52:59doula bilíngue, né, uma outra pessoa eh
- 53:02que esteja ali comigo, que que que me dê
- 53:06essa essa essa sustentação, né? Tem
- 53:08mulheres até que falam assim: "Ai, aqui
- 53:10a gente tem muito a cultura da parteira,
- 53:13né, a Midwife." Então tem mulheres às
- 53:15vezes que falam assim: "Eh, ai não, não
- 53:17tem midwi brasileira, acho que tem
- 53:20agora, eh, mas eu procuro uma Midwi
- 53:23estrangeira que não seja daqui, porque
- 53:25eu acho que algum ponto ela vai me
- 53:27entender." Então, olha só, né? Ela vai
- 53:29costurando algo ali através da
- 53:31necessidade dela.
- 53:37Língua, né? como experiência emocional.
- 53:40Eh, essa língua materna é também língua
- 53:42afetiva, né? A língua mãe, a língua de
- 53:44origem. Eh,
- 53:47quando uma mulher precisa, talvez, né,
- 53:49mulher, e aí se expanda, eh, precisa
- 53:52expressar uma experiência, um idioma que
- 53:54não é seu, ocorre ali uma limitação na
- 53:56capacidade de nomear sentimentos
- 53:58complexos, né? E aí isso pode impactar
- 54:02dificuldade de expressar emoção, eh, um
- 54:04empobrecimento simbólico, né? Isso uma
- 54:07questão bem imigrante. Eh, o maior
- 54:09isolamento, a comunicação com
- 54:11profissionais da saúde, a construção do
- 54:13vínculo terapêutico e do cuidado. Nossa,
- 54:16isso muito. Eh, a experiência emocional
- 54:19pede tradução, né, do ponto de vista
- 54:23psíquico, né, dessa dificuldade, ela
- 54:25pode intensificar muito eh as
- 54:27experiências se ela não eh não puder ser
- 54:30amplamente compartilhada.
- 54:32E é nesse espaço ali, né, entre perda e
- 54:35criação que a assistência encontra o teu
- 54:38lugar. Porque aqui eu faço exatamente
- 54:40isso. Eu faço a ponte às vezes, né, da
- 54:43tradução emocional, que não precisa ser
- 54:45a tradução literal, mas às vezes ali,
- 54:48né, de dar escuta paraa mulher que senta
- 54:52aqui e vem falar português e e me traz
- 54:55toda, sei lá, eh o a assistência eh
- 55:00pré-natal dela, né? O que que ela tá
- 55:02vivendo ali que às vezes ela não
- 55:03entendeu ou que às vezes ela não
- 55:05conseguiu expressar. Então, ela fala
- 55:06aqui para mim e ela fala: "Ah, OK, né?
- 55:09Consegui falar com alguém aqui. Não que
- 55:11eu vá passar para para pra parteira ou
- 55:14para obstetra, mas ela tem que ter esse
- 55:17lugar".
- 55:18Detalhe, gente, aqui tem um recorte que
- 55:20eu acho muito importante quando a gente
- 55:22tá falando de maternidade eh trazer para
- 55:25quem trabalha com assistência imigrante,
- 55:27né? A maternidade imigrante, ela não é
- 55:30apenas, né, sobre desafios, ela também
- 55:32fala sobre resiliência, criatividade e
- 55:36redes de amor que que nascem mesmo longe
- 55:38de casa. Quando nos apoiamos, né,
- 55:40mutualmente, a gente consegue
- 55:42transformar a vulnerabilidade
- 55:44em potência.
- 55:47Eh, a maternidade expatriada tem uma
- 55:50característica muito específica,
- 55:53porque muitas vezes a mãe é a única
- 55:57representante da sua cultura e da sua
- 55:59língua. Eh, que que por que que eu
- 56:02coloquei isso aqui? Porque são os dados
- 56:04eh maiores aqui na Irlanda,
- 56:07principalmente pelo meu trabalho, né? eh
- 56:11do das famílias multiculturais,
- 56:13geralmente a mãe é brasileira, né? Eh,
- 56:18ou então ela veio, fez fazer um
- 56:19intercâmbio, turistar e aí conheceu eh
- 56:23um irlandês, algum, né, um europeu,
- 56:25alguma coisa nesse sentido. Então, tô
- 56:27falando aqui desta mulher, né, talvez.
- 56:30Eh, e isso por si só traz uma
- 56:33responsabilidade a mais no cuidado do
- 56:36filho, né? O maior desejo de uma mãe
- 56:39espatriada é que seu filho se sinta
- 56:41pertencente ao novo país, mas sem perder
- 56:43o vínculo com a sua origem. Então
- 56:45imagina, né? E é o meu caso, por
- 56:47exemplo, eu sou a única representante na
- 56:52minha família da cultura eh e da língua
- 56:56da minha filha, né? Porque tudo que ela
- 56:58tem de rede de apoio aqui da família é
- 57:01da família do meu marido, que são
- 57:02irlandeses. Então eu tenho que me
- 57:06desdobrar.
- 57:07para que ela aprenda português, para que
- 57:10ela entenda a minha cultura, para que
- 57:13ela se sinta pertencente eh de coisas do
- 57:17Brasil que ela vai construindo também,
- 57:20que ela possa se comunicar com a família
- 57:22no Brasil. Então, assim, quando ela sai
- 57:25ali um pouquinho daquilo, já entra uma
- 57:28angústia do tipo, será que eu consigo? O
- 57:29que que eu tenho que fazer? Eu sou a
- 57:32representante dessa cultura, né? Porque
- 57:34eu estou num país que não é o Brasil.
- 57:36Então entra uma sobrecada
- 57:39eh no estrangeiro, né? A gente vai
- 57:42alinhavando coragem. Cada ponta é raiz,
- 57:45cada raiz é um futuro e somos
- 57:47costureiras de mundos. Alinhavamos a
- 57:49saudade, a esperança, criando raízes aí
- 57:52que sustentam o presente e o futuro dos
- 57:55nossos filhos. Eh, e não é fácil, né,
- 57:58você talvez ser a única representante de
- 58:00uma cultura e de uma língua, porque se
- 58:02eu não forço, né, e não é um forçar de
- 58:05ter que fazer, né, se eu não me
- 58:07disponibilizo
- 58:09a a a trazer isso paraa minha filha, que
- 58:11para mim é muito óbvio, né, para ela
- 58:14não, ela tem que aprender, porque ela é
- 58:17irlandesa, eh, morre, ela não vai saber
- 58:21falar com os meus pais, ela vai eh
- 58:24deixar de comer um pão de queijo. Ela
- 58:26não vai entender porque a gente tá
- 58:28fazendo arroz, feijão em casa. É, isso é
- 58:30da mamãe, mas não é nosso, né? Então eu
- 58:33e meu marido aqui, ele ele abarcou
- 58:35completamente nessa. A gente tem que
- 58:37manter isso vivo. E hoje em dia eu eu eu
- 58:40divido com ele essa representatividade
- 58:42do Brasil, da cultura e da língua, né?
- 58:45Ele ele entende a importância, mas não é
- 58:48fácil. Eh, os meus os a minha a meu
- 58:52crescimento migrante, ele vai ali, ela
- 58:54ela acabou de entrar na escolinha, né?
- 58:56Quer dizer, ela fez quatro. Eh, e antes
- 58:59ela falava muito português, muito mais.
- 59:01Acabou de entrar na escolinha, uma
- 59:03semana depois dela entrar na escolinha,
- 59:05até o mundo imaginário, as brincadeiras,
- 59:08começou a ir pro inglês direto. Assim,
- 59:10ela hoje em dia, ela escolhe o inglês
- 59:12como língua eh primária, né? Porque na
- 59:15escola, no mundo social dela, tá todo
- 59:17inglês. Aquilo me feriu de morte, porque
- 59:21eu falava: "Como assim?
- 59:24Ah, mas aí ela vem e fala assim: "Eu sou
- 59:26brasileira, né?" Ela fala pros
- 59:28amiguinhos na escola: "Eu sou
- 59:29brasileira". E aí eu falo: "Ai, calma
- 59:31aí, não tem algo aqui que gostoso". Ela
- 59:34gosta de Brasil e conta e pergunta,
- 59:37começa a palavra e fala português, mas
- 59:39hoje, né? Mas aquilo me feriu de morte,
- 59:41porque assim, pô, eu sou a única
- 59:43representante disso, eu que tenho que
- 59:45manter vivo. Então assim, tomem cuidado
- 59:47às vezes também com a mulher
- 59:48sobrecarregada, eh, migrante, eh porque
- 59:52às vezes pode tá muito eh voltado a
- 59:55isso, né, e do jeito com que ela maneja.
- 59:59Alguns dados aqui somente, né, porque eh
- 1:00:02os dados encontram as histórias, né,
- 1:00:05estudos, né, mostram aqui. Então, vamos
- 1:00:07falar um pouquinho de maternidade
- 1:00:08imigrante em números. tá desatualizado
- 1:00:11porque saiu agora, né, eh, coisas
- 1:00:14recentes em 2026, eh, principalmente da
- 1:00:17OMS, que acabou de lançar um uma
- 1:00:20cartilha bem uma cartilha, não, né, um
- 1:00:22uma um um uma atualização aqui de de de
- 1:00:27dados e estatísticos, mas é do ano
- 1:00:29passado até do ano passado. Então,
- 1:00:31estudos mostram aqui, né, que mulheres
- 1:00:33imigrantes têm índices eh maior altos
- 1:00:36índices, né, de depressão, ansiedade e
- 1:00:40estresse no ciclo gravítico corporal,
- 1:00:42né, isso é recente, de 2022, né, um
- 1:00:45nicho que tem ali vulnerabilidade
- 1:00:47aumentada, risco aumentado de depressão,
- 1:00:50ansiedade e estress, né, isso é da OMS
- 1:00:52de 2023. Estou louca para ler agora de
- 1:00:552026 que acabou de ser lançado, mas nada
- 1:00:58muito longe disso. Imigrantes recentes
- 1:01:01tem até sete vezes mais chances de
- 1:01:02isolamento social. É uma pesquisa aí do
- 1:01:04Canadá. Eh, imigrantes recentes, eles
- 1:01:07falam aqueles imigrantes que emigraram
- 1:01:09com até 2 anos de imigração, ainda é um
- 1:01:13imigrante recente e tem às vezes
- 1:01:16dependendo, né, de novamente do contexto
- 1:01:18dessa imigração, sete vezes mais chance
- 1:01:21de isolamento social, o que vai
- 1:01:23agravando, né, porque aí eh imagina se
- 1:01:26essa essa pessoa tá num num lado
- 1:01:29perinatal, então ela vai ter um
- 1:01:31isolamento perinatal e aí fator de risco
- 1:01:34paraa depressão ppal
- 1:01:36né? Ela vai ter lacunas de acesso à
- 1:01:38saúde mental e perinatal,
- 1:01:40né? Isso aqui foi uma pesquisa legal
- 1:01:42também aqui da Irlanda e de UK de 2023
- 1:01:45do British Journal, eh lacunas de
- 1:01:49acesso, porque ela não vai conseguir se
- 1:01:51comunicar, ela não vai eh tem muita
- 1:01:53coisa disponível, mas ela não vai ter
- 1:01:56acessibilidade à aquilo, né? Então tem
- 1:01:58uma vulnerabilização maior.
- 1:02:02O perinatal também é cultural, né? O
- 1:02:05ciclo perinatal, gestação, páte
- 1:02:07pós-páto, é um período de intensa
- 1:02:10reorganização e ele também é bem eh
- 1:02:15permeado aí com a imigração, né? E aí
- 1:02:19coloquem mais coisas no perinatal, né?
- 1:02:21Tudo em torno do nascimento, eh questões
- 1:02:24de reprodução acestida, de
- 1:02:25infertilidades, de perdas.
- 1:02:28Então, né, senão não, se eu fosse
- 1:02:29colocar tudo aqui, não ia dar, mas, né,
- 1:02:33porque é corporal, é emocional, é
- 1:02:35relacional, é cultural, é sociocultural,
- 1:02:37então é muita coisa. Eh,
- 1:02:42quem ajuda, né, o que ela come, quanto
- 1:02:46deve descansar, cola, autonomia,
- 1:02:48participação da família, assim, muitas
- 1:02:50coisas, né, que também são permeadas
- 1:02:52pela cultura. Aí a medicina também tem
- 1:02:55cultura, né? A psicologia também tem
- 1:02:58cultura. Então tudo isso ela vai ter que
- 1:03:00acessar eh de um outro referencial, né?
- 1:03:04Eh é um estado ali, né? Um estado
- 1:03:06perinatal de maior abertura, mas também
- 1:03:09de muita vulnerabilidade.
- 1:03:12Coloquei aqui um um ponto interessante
- 1:03:15porque dentro da perinatalidade eu
- 1:03:17trabalho muito com luto, né? luto eh
- 1:03:22perinatal, né? Perdas gestacionais,
- 1:03:25perdas eh neonatais. E é dentro desse
- 1:03:29nicho migratório uma das coisas mais
- 1:03:31difíceis, talvez ali de se trabalhar
- 1:03:34para mim. E acho interessante colocar
- 1:03:37aqui para vocês um pouquinho para vocês
- 1:03:39entenderem quando o luto perinatal se
- 1:03:43intersecta com o luto migratório. Eu
- 1:03:47terminei uma póstgrade agora esse ano e
- 1:03:49era exatamente essa a minha tese, né,
- 1:03:51quando o luto perinatal, a intersecção
- 1:03:54do luto perinatal e do luto migratório,
- 1:03:56né, o afeto dentro do da saúde mental de
- 1:04:00mulheres migrantes.
- 1:04:02Porque então o que o que que é isso, né?
- 1:04:05O luto perinatal migratório, ele não é
- 1:04:07apenas a dor pela perda de um bebê, mas
- 1:04:10a fratura de um pertencimento. Ele se
- 1:04:13instala dissolvendo fronteiras entre o
- 1:04:15corpo e o território, entre o que nasce
- 1:04:17e o que se perde. É um luto que se
- 1:04:20instala entre dois lugares e dois
- 1:04:21tempos, né? O país de origem, o país de
- 1:04:25destino, o antes e o depois da perda. A
- 1:04:28mãe, o pai, a família enlutada, eles
- 1:04:31vivem num lugar simbólico, né? onde o
- 1:04:33pertencimento se torna muito
- 1:04:34fragmentado. É um pedaço permanece lá, o
- 1:04:38outro tenta existir aqui. Eh,
- 1:04:43essa fragmentação, ela cria uma dor, né?
- 1:04:45Ela encontra eh que não encontra espelho
- 1:04:48cultural, porque o entorno, né, muitas
- 1:04:51vezes ele não reconhece nem a perda, nem
- 1:04:54a forma de sentir, nem o idioma do
- 1:04:57sofrimento. Então é complicado, né?
- 1:04:59principalmente quando a gente tá falando
- 1:05:01aí com uma família inteira migratória,
- 1:05:03tendo uma perda eh num país às vezes
- 1:05:06desconhecido.
- 1:05:09Eh, é o luto pelo bebê, mas também do
- 1:05:11colo que não veio, da mãe que não
- 1:05:14chegou, do idioma que não acolheu, um
- 1:05:16luto falando, falado em duas línguas e
- 1:05:19sentidos no mesmo silêncio, né? Perda da
- 1:05:22terra, da língua, da cultura, eh um luto
- 1:05:24também sociocultural, né? dois lutos,
- 1:05:28duas dores que se encontram, né? Quando
- 1:05:30esses dois lutos eles se cruzam, a dor
- 1:05:32ela é múltipla e exige um olhar muito
- 1:05:34atento dos profissionais. Quando esses
- 1:05:36dois lutos eh são camadas, né,
- 1:05:39sobrepostas de dor, a mãe imigrante que
- 1:05:41pede um bebê, ela não pede apenas a
- 1:05:43criança, ela pede também a possibilidade
- 1:05:46de viver essa essa maternidade,
- 1:05:49né, ou essa perda cercada por sua rede e
- 1:05:53sustentada por rituais significativos
- 1:05:55culturais familiares. Isso é o que acho
- 1:05:58que mais aparece pra gente aqui na
- 1:06:00assistência eh de Peda. É um luto
- 1:06:04expandido, falta de rituais e de
- 1:06:06partilha, né? Muito diferente o jeito
- 1:06:09que os lugares, né? Fazem aí rituais de
- 1:06:11despedida. Eh, um luto às vezes vivido
- 1:06:14em tradução. Já recebi em consultório,
- 1:06:17por exemplo, carta, né? relatório de
- 1:06:20óbito em que a mãe, a família não
- 1:06:22entendeu nada porque tava tudo inglês,
- 1:06:25eles não falam inglês. Eles pediram pra
- 1:06:27gente poder, para eu ler em antemão para
- 1:06:29poder traduzir que foi, qual foi a
- 1:06:31causa, né, da perda, da da morte desse
- 1:06:35bebê, dessa criança, né? Então, às vezes
- 1:06:37ele é vivido em tradução literal mesmo,
- 1:06:40às vezes em rodas eles conseguem colocar
- 1:06:42alguma coisa nesse sentido, né? é a dor
- 1:06:45do bebê, mas também a dor da cultura, da
- 1:06:47rede ausente. É uma amplificação, de
- 1:06:50certa forma de um de um sofrimento, né?
- 1:06:53Porque ela é bilíngue.
- 1:06:57Eh, aqui a falta às vezes, né, de
- 1:07:00velórios, de sepultamento, de missa, da
- 1:07:03reunião familiar, dificulta às vezes a
- 1:07:05elaboração da perda. Eh, na Irlanda até
- 1:07:10tem, né, mas eu já conheço alguns outros
- 1:07:12lugares que talvez não tenha. eh esse
- 1:07:15tipo, né, de de ritual, assim, dessa
- 1:07:18forma, há também o luto do ninho vazio
- 1:07:21no exílio, né? O bebê, ele não poôde ser
- 1:07:24apresentado à comunidade, né? Não
- 1:07:26recebeu o colo dos avós, não vestiu a
- 1:07:29roupa bordada pela tia no Brasil, que
- 1:07:31era uma tradição da família. Mesmo na
- 1:07:34perda. Esses rituais eles vêm, né?
- 1:07:38Eh, esse vazio, ele cria um lucro duplo,
- 1:07:41né? da criança, a perda da criança e a
- 1:07:43perda da possibilidade de viver a
- 1:07:44maternidade sonhada em toda sua extensão
- 1:07:48cultural e afetiva. O que falta pesa
- 1:07:52quase tanto quanto a perda em si. O
- 1:07:55ritual não realizado, o abraço que não
- 1:07:58chegou, a maternidade que não se
- 1:08:00contratizou.
- 1:08:01Algo muito complicado aqui também,
- 1:08:03quando a gente trabalha com uma família
- 1:08:06completa migrante, é às vezes é a
- 1:08:09experiência de não saber se vai ficar
- 1:08:12naquele lugar. Então, por exemplo, com
- 1:08:15uma experiência, é, de perda, né, de um
- 1:08:17bebê que que teve, que nasceu, que foi
- 1:08:19registrado, né, de um morto, por
- 1:08:21exemplo, uma perda,
- 1:08:24eh, nesse sentido que não seja uma perda
- 1:08:26gestacional, eh, vai acontecer um
- 1:08:28sepultamento.
- 1:08:30Então, às vezes, a família fica num num
- 1:08:33passe muito grande de que eu no Brasil
- 1:08:38nós enterraríamos, né, no cemitério da
- 1:08:40família ou qualquer coisa no tipo, mas e
- 1:08:42aqui que que acontece se a gente vai
- 1:08:45embora desse país porque a gente não tem
- 1:08:47amarra. Então isso aparece às vezes, né,
- 1:08:50no no no na na na quem tá na
- 1:08:52assistência. Eh, e se a gente for
- 1:08:54embora, o o bebê fica aqui, né? Então,
- 1:08:57às vezes tem a opção por cremações, né,
- 1:09:00muito e às vezes acontece até numa
- 1:09:02tomada de decisão rápida, porque não tem
- 1:09:05tempo, né, para poder elaborar isso
- 1:09:07tudo, mas vem direto assim, né, esse
- 1:09:10tipo de de questionamento.
- 1:09:13Vamos falar um pouquinho de construção
- 1:09:15familiar, parentalidade espatriada. Vou
- 1:09:18correr aqui um pouquinho, tá gente?
- 1:09:22Eh,
- 1:09:24parentalidade, ela não é individual, né?
- 1:09:26Vamos falar então um pouco mais de
- 1:09:28família. Eh, é uma expressão aqui, né,
- 1:09:31que se refere aos papéis em funções
- 1:09:33parentais, ou seja, dos pais na vida dos
- 1:09:36filhos. Esse termo ele ultrapassa o
- 1:09:38fator biológico. Ele se conecta muito às
- 1:09:40experiências infantis que já foram
- 1:09:42vividas pelos pais e que envolvem suas
- 1:09:44questões conscientes e inconscientes.
- 1:09:47Eh, a parentalidade ela não se constrói
- 1:09:49só e sozinha e ela depende de
- 1:09:51referências culturais, de vínculos
- 1:09:53intergeracionais e reconhecimento social
- 1:09:56dela, né? Então, ser mãe e pai também é
- 1:10:00ser reconhecido como tal e às vezes até
- 1:10:02nas referências, né, interculturais.
- 1:10:06ehura
- 1:10:08de referências, né, na migração, a
- 1:10:10quebra dessas bases, talvez a ausência
- 1:10:13da própria mãe, das mulheres, né, das da
- 1:10:15da das dos profissionais que a gente tá
- 1:10:17acostumado, dos das ausências dos
- 1:10:19saberes familiares, sabe aquela receita
- 1:10:22que quando você tem um filho, você faz
- 1:10:24desse jeito. Eh, minha filha tava com
- 1:10:27soluço, minha mãe falou: "Ai, pega um
- 1:10:29negocinho vermelho, põe na testa" assim.
- 1:10:32Eu falei: "Nossa, escutei isso quando
- 1:10:33era criança, sabe? Mas se eu não tivesse
- 1:10:36ligado para ela, ela não tivesse visto,
- 1:10:38aquilo não ia ter sido passado. E me deu
- 1:10:40um quentinho, fiz, né, ritual, coisas de
- 1:10:43saberes familiares que às vezes vai se
- 1:10:45passando e aquilo vai construindo também
- 1:10:47a minha parentalidade. E a ausência de
- 1:10:49validação cotidiana, casais
- 1:10:52multiculturais às vezes tem muita
- 1:10:55diferenciação na própria parentalidade,
- 1:10:57porque foi construída em contextos
- 1:10:59diferentes. E aí quando vem um nenê, um
- 1:11:02filho que tem que ir pelo caminho do
- 1:11:04meio, aquilo entra em conflito total,
- 1:11:07porque um fala a, o outro fala b. Em
- 1:11:10vez, né, mas a gente precisa entrar aqui
- 1:11:12novamente com negociações do que é
- 1:11:14melhor paraa criança, pra família, né,
- 1:11:17os combinados,
- 1:11:19eh,
- 1:11:20eh, né, os contextos que acontecem. Eh,
- 1:11:25e aqui às vezes, né, na parentalidade
- 1:11:27surge insegurança no exercício do
- 1:11:29cuidado que já surge, né, na construção
- 1:11:31de parentalidade normal, mas às vezes o
- 1:11:34imigrante ele vai seguir, surgir, eh,
- 1:11:36sentir isso muito, principalmente. Tô
- 1:11:39dando aqui os exemplos, né? Eh, às vezes
- 1:11:42vem muito paraa clínica ou nos grupos eh
- 1:11:45que a família da pessoa que é daqui não,
- 1:11:48nossa, não, não tá comigo nunca. Eu falo
- 1:11:51que não é para fazer isso aqui, a
- 1:11:53família fala que é, que aqui se faz
- 1:11:55isso. Então entra, né, até, sei lá, no
- 1:11:58cenário do parto assim, não faz isso
- 1:12:01aqui, não, mas eu quero, né? entra muito
- 1:12:03nas dualidades ali.
- 1:12:07Eh, a parentalidade vivida no exílio,
- 1:12:10né, ela já nasce deslocada e ela precisa
- 1:12:12se reconstruir. Ser mãe ou pai, né, em
- 1:12:15outro país, exige uma reconstrução de
- 1:12:18práticas, de rituais e até da própria
- 1:12:20identidade, né, de sentimento e de não
- 1:12:22pertencimento.
- 1:12:24Quais imigrantes eles precisam
- 1:12:26reaprender aí a gestar, a parir, a
- 1:12:28cuidar. Contextos diferentes, muitas
- 1:12:30vezes sem o suporte da família extensa,
- 1:12:33enfrentando aí olhares culturais que nem
- 1:12:36sempre invalidam as suas escolhas, né?
- 1:12:39Eh, isso aqui afeta para caramba, né?
- 1:12:42Principalmente quando a gente vem com
- 1:12:44algo assim muito já lapidadinho dentro
- 1:12:46da gente e aí vem a cultura e fala:
- 1:12:49"Aqui não tem isso? Como assim?", né? Ou
- 1:12:52então quando, né, uma outra cultura vem
- 1:12:55e fala: "Nossa, como que vocês fazem
- 1:12:57esse tipo de processo?" Não, né? Eh, é
- 1:13:00complicado um pouco disso. Eu lembro que
- 1:13:03no meu resguardo, né? Isso nem se fala
- 1:13:06mais, no meu porpério, eh, liguei, uma
- 1:13:09tia me ligou, né? E ela falou assim:
- 1:13:11"Não, você tá, você tá comendo eh sopa
- 1:13:15de galinha caipira, caldo de galinha
- 1:13:17caipira com pirão?"
- 1:13:20A aquilo ali veio direto, né, para para
- 1:13:23pr para pr pro meu lugar de referência,
- 1:13:25mas ao mesmo tempo eu falava: "Tia, eu
- 1:13:27nem sei onde encontrar uma galinha
- 1:13:30caipira aqui, né? E quem vai fazer para
- 1:13:32mim? Porque eu não tenho nem ideia como
- 1:13:34se faz aqui, né? O pirão, tudo bem, mas
- 1:13:36nossa, né? Sabe esse tipo de coisa
- 1:13:39assim, eh, que se eu for colocar para
- 1:13:42alguém aqui assim, né? Isso que seja
- 1:13:44daqui, ela vai falar: "Como assim? Faz
- 1:13:46outra coisa, né? come eh o que é para
- 1:13:49comer, que aqui eles falam, né? Tem tem
- 1:13:52uma comida que chama eh um um pudim
- 1:13:54preto, black puding, que é muito rico em
- 1:13:57ferro, porque ele é feito
- 1:13:59eh com miúdos, com com é tipo como se
- 1:14:03fosse o nosso churiço, sabe? Então eles
- 1:14:05falam, eles dão muito isso paraas pras
- 1:14:07puérperas comer porque tem muito ferro,
- 1:14:10eh, dizeriam: "Me dá isso, né?" E eu ia
- 1:14:13falar: "Nossa, não, isso aqui não. Como
- 1:14:15assim?"
- 1:14:16Quando a parentalidade então atravessa
- 1:14:18esse cenário, instala-se o que a gente
- 1:14:21chama de desraizamento eh parental.
- 1:14:24Vamos falar um pouquinho disso
- 1:14:27entre culturas, né? Eh,
- 1:14:32ao migrar, né, esse sujeito, ele se
- 1:14:33afasta das raízes simbólicas que
- 1:14:35organizavam a sua experiência de
- 1:14:37cuidado. A mulher passa a maternar entre
- 1:14:40os dois mundos, né? Isso vai gerando
- 1:14:43várias coisas e a necessidade constante
- 1:14:46de negociação.
- 1:14:48Eh, o Bob, né, ele fala que ao discutir
- 1:14:51a formação do apego, destaca-se a
- 1:14:53capacidade de cuidar tá profundamente
- 1:14:56ligada às experiências de cuidado
- 1:14:58internalizadas.
- 1:14:59Quando o sujeito perde o acesso a essas
- 1:15:01referências, mesmo o acesso, né, eh,
- 1:15:05externas que reforçavam essas
- 1:15:07experiências, talvez torne-se
- 1:15:08rencessário um trabalho psíquico gigante
- 1:15:11de reconstruação, deu de reconstrução,
- 1:15:14né? Porque talvez ali naquele lugar,
- 1:15:17naquele contexto, nenhuma referente tá
- 1:15:18sendo totalmente suficiente.
- 1:15:21Então, desraizamento parental, né, no
- 1:15:24contexto expatriado, é um um conceito
- 1:15:28que descreve a experiência emocional
- 1:15:30simbólica e relacional de perder as
- 1:15:33referências parentais e culturais que
- 1:15:37sustentavam o exercício da maternidade,
- 1:15:40da paternidade no país de origem, né?
- 1:15:44Desraizamento parental. Sim,
- 1:15:46>> em outras palavras, é o processo de
- 1:15:48ruptura e reconstrução das raízes que
- 1:15:52estruturavam a minha parentalidade, né,
- 1:15:54que já foi sendo constituída desde o meu
- 1:15:57nascimento, quando os pais se tornam
- 1:16:00imigrantes ou expatriados,
- 1:16:03né? Eh, aí vão ter questões também, né,
- 1:16:09de como a parentalidade vai lidar com o
- 1:16:11infantil entre culturas, né? A criança,
- 1:16:14ela também vai construir a sua própria
- 1:16:16identidade.
- 1:16:18Eh, e que criança é essa? É uma criança
- 1:16:21que veio já eh, com várias coisas
- 1:16:25daquele país. É uma criança que nasceu
- 1:16:27aqui, mas são pais que vieram desse
- 1:16:30país. Então, depende também, né? Cultura
- 1:16:33familiar, criança, cultura do país onde
- 1:16:35cresce. L vai vão ter várias coisas que
- 1:16:38vão atravessar aí língua, escola,
- 1:16:40alimentação, valores, a própria
- 1:16:42infância, família, pertencimento, né?
- 1:16:46Como transmitir pertencimento sem formar
- 1:16:48em obrigação também, né? Porque se a
- 1:16:50criança nasce aqui, ela se identifica
- 1:16:53com o daqui. Mas se os pais, por
- 1:16:55exemplo, são brasileiros, né, como que
- 1:16:57eu vou eh transmitir isso sem ser uma
- 1:17:00obrigação, né? eh, de que a criança tem
- 1:17:04que ter aquilo ali. Ela só tem se ela se
- 1:17:05identificar, se aquilo significar para
- 1:17:08ela, né? Então, às vezes o filho não
- 1:17:10quer falar português, daí a mãe, ah, ele
- 1:17:13começa a dar, né? Tem vergonha de mim,
- 1:17:15não quer ser brasileira. A criança vem e
- 1:17:18fala: "I'SIS, eu sou irlanda, né?" Então
- 1:17:22assim, será que nesse diá diálogo elas
- 1:17:24estão realmente discutindo sobre língua
- 1:17:27ou elas estão negociando pertencimento?
- 1:17:30Eu falo muito aqui, às vezes eu dou
- 1:17:32algumas palestras eh em escola, né, que
- 1:17:35tem o português como língua de herança e
- 1:17:38eu entro muito nessa questão do
- 1:17:40pertencimento. Não adianta eu ensinar um
- 1:17:43português, eu falar pra criança comer um
- 1:17:46pão de queijo, apresentar uma feijoada,
- 1:17:48se ela não significar aquilo, se aquilo
- 1:17:50não estiver significado para ela, se ela
- 1:17:53não se sentir pertencente à aquele mundo
- 1:17:55também, porque aquilo é meu, mas a minha
- 1:17:58criança precisa ir internalizando aquilo
- 1:18:01também como dela, porque senão ela vai
- 1:18:04crescer e aí ela vai negar, ela vai
- 1:18:06falar: "Não reconheço", né? E realmente
- 1:18:09ela não sente aquilo, ela não tá
- 1:18:11permeada pela aquilo, da forma de
- 1:18:15pertencer como deveria ser, não é
- 1:18:17verdade?
- 1:18:21Parentalidade, então ela também migra,
- 1:18:23né? Criar filhos em outra cultura exige
- 1:18:27negociar referências o tempo inteiro.
- 1:18:30Não é só meu, é o que agora é nosso, é o
- 1:18:33que agora é daquela criança. Quem é essa
- 1:18:36criança, né? Então, o que que eu
- 1:18:38mantenho? O que que eu adapto? O que que
- 1:18:41eu deixo para trás? O que que eu tento
- 1:18:43transmitir pros meus filhos? É uma uma
- 1:18:46negociação de referências o tempo
- 1:18:48inteiro, né? As famílias multiculturais
- 1:18:51que eu atendo na clínica, a maioria a
- 1:18:54gente vai trabalhar muito
- 1:18:56eh renegociar referências, né? Eh, das
- 1:19:01duas partes, né? do que eu transmito
- 1:19:03paraa criança, do que eu consigo eh
- 1:19:05transmitir para mim, de abrir mão também
- 1:19:08ou então de de pegar como algo a mais,
- 1:19:11né?
- 1:19:14Quase terminando, gente, saúde mental,
- 1:19:16estrutura e acesso, né? Eh, nem todo
- 1:19:20sofrimento aqui começa então dentro do
- 1:19:22indivíduo, né? Eh, aí é uma coisa muito
- 1:19:26mais coletiva. A habitação é saúde
- 1:19:29mental, trabalho digno é saúde mental.
- 1:19:32segurança migratória, é saúde mental,
- 1:19:34rede de apoio à saúde mental, proteção
- 1:19:36contra a violência é saúde mental,
- 1:19:38acesso à língua é saúde mental, né? Eh,
- 1:19:41isso aqui no sistema de de assistência é
- 1:19:44é o básico, né, que a gente tem que
- 1:19:46falar, mas a gente precisa eh pegar a
- 1:19:50estrutura das coisas, né, os
- 1:19:52profissionais e falar assim: "Olha, isso
- 1:19:53aqui tem que ser eh
- 1:19:56eh social, né? A gente tem que colocar
- 1:19:58isso de caráter social. Não podemos
- 1:20:01individualizar no sofrimento, que também
- 1:20:03é produzido socialmente, né? Então, eh,
- 1:20:06minha grande batalha aqui na Irlanda,
- 1:20:08por exemplo, é trazer muito dados, né, e
- 1:20:12levar, eh, conhecimento pros sistemas,
- 1:20:14principalmente de saúde pública, eh
- 1:20:17sobre, eh, a importância, né, deles
- 1:20:19também, eh, se readaptarem, estudarem e
- 1:20:24se eh atualizarem nos contextos
- 1:20:27imigrantes, porque Dublin, por exemplo,
- 1:20:29aonde eu moro, é a capital que tem maior
- 1:20:32número de imigrantes aqui na Irlanda.
- 1:20:34Então eles precisam eh minimamente saber
- 1:20:37quem são essas pessoas, né? Como como
- 1:20:40que tudo funciona também.
- 1:20:45Eh,
- 1:20:47né, algumas experiências aí, né, não
- 1:20:50podem ser dita diretamente porque a
- 1:20:51linguagem verbal ela foi eh impedida
- 1:20:55ali, ela tá limitada, mas tem a
- 1:20:57linguagem da experiência, né? Elas podem
- 1:21:00vir como imagens, sensações, fragmentos.
- 1:21:04silêncios, né? Talvez às vezes quem
- 1:21:07trabalha aí na assistência, o que não
- 1:21:08pode ser dito, ele precisa ser
- 1:21:10simbolizado, acolhido, né? Eh, colocado
- 1:21:13ali de alguma forma por essa pessoa que
- 1:21:15chega. Eh, na clínica com mulheres
- 1:21:18migrantes é muito comum ouvir, né?
- 1:21:20Parece que eu tô em dois lugares ao
- 1:21:21mesmo tempo, eu não pertenço
- 1:21:23completamente a nenhum, é como viver
- 1:21:25entre mundos, né? E essa experiência às
- 1:21:28vezes aparece em forma de metáfora.
- 1:21:30Cuidar aqui é traduzir esses afetos, né?
- 1:21:34Eh, os afetos entre os mundos, né? Eh, a
- 1:21:39clínica, né? A assistência qualificada,
- 1:21:42a a saúde eh pública, né? Também é um
- 1:21:47ato de tradução afetiva e cultural, né?
- 1:21:50quando ela tá ali, principalmente para
- 1:21:51para entender um pouco deste deste
- 1:21:54lugar, né, onde a pessoa tá vindo e às
- 1:21:57vezes não consegue se comunicar. Então,
- 1:21:59narrar, deixar a pessoa narrar é
- 1:22:01organizar para ela também, porque a
- 1:22:04narrativa ela permite dar sentido à
- 1:22:06experiência, organizar o vivido, eh,
- 1:22:09integrar o que tá sendo fragmentado, né?
- 1:22:12narrar é transformar experiência em
- 1:22:14história presente. Um caso bem
- 1:22:17rapidinho, meu caso. Eh, eu fui tirar
- 1:22:20carta aqui na Irlanda há muito tempo
- 1:22:22atrás e eu não tinha não tinha carta de
- 1:22:25motorista no Brasil. Fui tirar aqui e aí
- 1:22:28aqui na Irlanda é bem diferente como
- 1:22:30você faz para para questão de nome, né?
- 1:22:33Você não muda o nome, você tem que mudar
- 1:22:35a quando você vai tirando documentos.
- 1:22:38Então é diferente, né? No Brasil, você
- 1:22:39escolhe o nome que você quer quando você
- 1:22:41casa. E aí eu fui com o meu um nome, né,
- 1:22:45para tirar esse documento, eh, da carta
- 1:22:48provisória e o atendente tava ali bem
- 1:22:51malmorado e ele falou assim: "Você não
- 1:22:53pode colocar esse nome porque não não é
- 1:22:56assim que faz. Ou você coloca teu nome
- 1:22:58inteiro, eh,
- 1:23:01meu nome é Caroene da Silva Santos, né?
- 1:23:03nome de solteira. Ou você coloca Caroene
- 1:23:06da Silva Santos Murray, que é o do meu
- 1:23:08marido, ou você só coloca Caroeni
- 1:23:10Murray. Você não pode colocar Caroen
- 1:23:11Santos Mury, isso não existe. Daí eu
- 1:23:14falei para ele, ai nossa, não sabia, né?
- 1:23:16Então deixa a Caroene da Silva Santos,
- 1:23:17vou ter que mudar na próxima carteira eu
- 1:23:19faço. Mas daí fui falar para ele, mas no
- 1:23:22Brasil a gente faz assim, a gente pega o
- 1:23:24nosso nome familiar, né, o Santos, no
- 1:23:26meu caso, e aí a gente coloca eh o nome
- 1:23:30do marido quando isso é é desejado.
- 1:23:33Então, Santos Murray virou para mim e
- 1:23:35falou: "Eh, você não está no Brasil?"
- 1:23:39Gente, aquilo é foi uma experiência
- 1:23:41péssima. Eu saí de lá arrasada. Eu não
- 1:23:44dirigi por muito tempo assim, nem queria
- 1:23:46mais aprender a dirigir, sabe? Porque
- 1:23:49ele não teve nenhum tipo de cuidado, né,
- 1:23:51em deixar eu narrar algo que talvez,
- 1:23:54claro, não ia mudar o sistema, eu não ia
- 1:23:56poder colocar aquele nome, mas era uma
- 1:23:58forma de eu falar como eu tava sendo
- 1:24:00pertencente à aquilo por conta da minha
- 1:24:02escolha, né? Então, escutem, escutem aí
- 1:24:06que às vezes isso faz muito, para mim
- 1:24:08era fazia muito sentido. Eh, para ele
- 1:24:11ele já foi grosso, né? Nesse sentido,
- 1:24:14então assim, disponível também não
- 1:24:18significa acessível, né? Serviço tá
- 1:24:22disponível, mas será que o serviço tá
- 1:24:24acessível, né? Aqui na Irlanda, no
- 1:24:26cenário de parto, muitos serviços
- 1:24:29disponíveis, nem todos para imigrantes
- 1:24:32estão acessíveis. Primeiro porque fazer
- 1:24:34um curso de preparação em inglês, nem
- 1:24:36todas têm inglês, então não tá
- 1:24:38acessível. entender o que acontece ali e
- 1:24:41dá os segundos passos, às vezes não tá
- 1:24:43acessível. Tomar uma decisão ali rápido,
- 1:24:47às vezes não tá acessível, né? Eh,
- 1:24:51complicado. A gente tem nos nos
- 1:24:53sistemas, né? eh públicos. Aqui a gente
- 1:24:55pode eh pedir tradutor, por exemplo, mas
- 1:24:59é por telefone na maioria das vezes. E
- 1:25:02até os próprios tradutores falam, a
- 1:25:04gente traduz literalmente, a gente não
- 1:25:06coloca emoção, às vezes vai uma tradução
- 1:25:09muito literal daquilo, então não é
- 1:25:12interessante. Às vezes nem consegue
- 1:25:14aquele tradutor eh ali. Então assim,
- 1:25:17serviço disponível não significa serviço
- 1:25:19acessível para imigrante, tá?
- 1:25:21eh nem serviço culturamente aceitável,
- 1:25:26né? Eh, e nem cuidado efetivo. Então, às
- 1:25:30vezes tem algum lugar que tem muita
- 1:25:32coisa, mas aquilo não tá acessível, não
- 1:25:35tá culturalmente aceitável e não tem um
- 1:25:38cuidado afetivo para aquela demanda de
- 1:25:42idioma, de transporte, de horário, né,
- 1:25:45documentação, de confiança, de
- 1:25:46informação, de cultura, muita coisa.
- 1:25:49Então assim, quando a gente olha nos
- 1:25:51cuidados, principalmente de cuidado
- 1:25:52coletivo, nem toda não adesão é
- 1:25:55resistência. É simplesmente que talvez
- 1:25:58aquilo não significou para aquela pessoa
- 1:26:01porque ela não entendeu ou então porque
- 1:26:03aquilo, né, novamente eh não tem talvez
- 1:26:07na cultura dela ou não tá acessível para
- 1:26:10ela, né? Eh, não posso falar para uma
- 1:26:14paciente daqui falar: "Olha, tem grupos
- 1:26:16de mães que se encontram toda
- 1:26:18quinta-feira aqui no parque, vai lá, tem
- 1:26:21café gratuito, as mães conversam, elas
- 1:26:23trocam telefone. Se ela não fala inglês,
- 1:26:27tem o serviço, mas não, né? Então assim,
- 1:26:29vamos procurar algo na comunidade
- 1:26:31brasileira, vamos procurar algo online
- 1:26:34no Brasil, né? Então, a gente às vezes
- 1:26:36ali também precisa contornar
- 1:26:40eh a assistência nossa, né, ela serve
- 1:26:43como esse espaço de tradução afetiva e
- 1:26:45cultural, né? Então, é uma tradução não
- 1:26:48só de palavras, mas de experiência.
- 1:26:51Eh, preciso da minha mãe, vem a fala,
- 1:26:54né? Talvez eu precise poder ser filha
- 1:26:56novamente. Será que é isso? Eu quero ir
- 1:26:59embora, né, desse país. Talvez eu não
- 1:27:01reconheça quem eu me tornei aqui, né? O
- 1:27:04meu filho tá ficando irlandês demais,
- 1:27:06né? Famílias falam isso. Talvez eu tenha
- 1:27:09medo de perder a nossa continuidade ou
- 1:27:11então eu não tô dando conta de ser essa
- 1:27:13representante eh de cultura aqui pro meu
- 1:27:16filho, né? não são interpretações
- 1:27:19prontas, mas são possibilidades para
- 1:27:21perguntar, para desenvolver, para ver se
- 1:27:25vem, né, no contato, principalmente em
- 1:27:28clínicas privadas, né, que a gente tem o
- 1:27:30tempo.
- 1:27:32Eh,
- 1:27:34aqui é só um uma uma palhinha de de
- 1:27:37grupos, né, de de eu eu fiz aqui por
- 1:27:41muito tempo grupos eh de perda eh
- 1:27:44perinatal com famílias com as mulheres
- 1:27:46brasileiras aqui. Então, eh esse aqui é
- 1:27:49um é um um bastidor assim que eu pedi
- 1:27:53para
- 1:27:54uma artista criar para mim, que era
- 1:27:56exatamente o que elas estavam traduzindo
- 1:27:59ali, né? Eh, olha só que legal. E daí
- 1:28:02ela foi me mandando assim a criação, mas
- 1:28:05olha que legal, eh, os dois mundos, né,
- 1:28:07os dois lugares, Brasil e Irlanda,
- 1:28:10ligados por um cordão umbilical, mas ao
- 1:28:12mesmo tempo separados, né? Parece que eu
- 1:28:14tô com um pé em cada lugar, aquele
- 1:28:16cordão que tá ali. Eh, e nos grupos, né,
- 1:28:20que eu que eu que eu que eu tava
- 1:28:21ofertando aqui, a gente fazia muito eh
- 1:28:26muita questões de de ressignificação
- 1:28:28simbólica, de arte mesmo, né? Eu sou
- 1:28:30muito da ludoterapia, da arterapia.
- 1:28:33Então, as artes que iam surgindo, eh,
- 1:28:35iam dando continuidade, talvez, aos
- 1:28:37vínculos, né? Pintar, abordar o amor
- 1:28:40onde houve interrupção. Essas mães, elas
- 1:28:43transformavam o luto em criação e
- 1:28:46encontram força na própria delicadeza,
- 1:28:48né? No nos grupos aqui tudo era
- 1:28:51traduzido, né? E tudo se tornava
- 1:28:53linguagem terapêutica. É o modo como
- 1:28:56essas mães falam do que a palavra não
- 1:28:58alcança. Então assim, se vocês puderem
- 1:29:00trabalhar com grupos, isso é uma
- 1:29:01alternativa também, é muito legal porque
- 1:29:05elas se encontram ali, né? Imagina
- 1:29:08grupos de mulheres imigrantes, tal, elas
- 1:29:10se encontram ali com o mesmo talvez
- 1:29:13referencial, nem que seja da dor, nem
- 1:29:15que seja da angústia, nem que seja eh do
- 1:29:18não pertencimento, né? elas encontram
- 1:29:21alguma coisa, se unem e aí a gente
- 1:29:23consegue eh transformar aquilo em alguma
- 1:29:26coisa, em cuidado,
- 1:29:28né? Mudança de posição aqui, né? Cuidar
- 1:29:32em contextos migratórios exige
- 1:29:34deslocamento do profissional. Não se
- 1:29:37trata de aplicar modelos prontos.
- 1:29:39Trata-se de construir a escuta a partir
- 1:29:41da experiência da mãe, que eu coloquei,
- 1:29:43mas do imigrante, né? Ampliar a nossa
- 1:29:46escuta, né? A a escuta ela precisa
- 1:29:49considerar o território que essa mulher
- 1:29:52tá ou que, né, esse imigrante tá, o
- 1:29:55sistema de saúde que o atravessa, o
- 1:29:57contexto, né, talvez do pato, do
- 1:29:59pós-pato, do porpero, da rede de apoio,
- 1:30:02presença ou ausência de rede, que rede,
- 1:30:05né, que a gente tá falando e as
- 1:30:07experiências mesmo de acolhimento ou
- 1:30:08exclusão, que isso é muito importante,
- 1:30:11né? O sofrimento também é contextual,
- 1:30:15né? eh, que que a gente pode fazer, né?
- 1:30:18A gente faz muita coisa, né? Do
- 1:30:21indivíduo pro sistema. O imigrante não é
- 1:30:23o único que precisa se adaptar, né? É a
- 1:30:26pessoa profissional, o serviço, a
- 1:30:28comunidade, a política pública, o
- 1:30:31cuidado, o cuidado intercultural também
- 1:30:33exige instituições culturalmente
- 1:30:36responsivas.
- 1:30:38Isso acho que no mundo em que a gente
- 1:30:40vive eh faz muito sentido, né? onde a
- 1:30:43gente tenha essa esse deslocamento
- 1:30:45acontecendo, ou por necessidade, ou por
- 1:30:48vontade, ou por catástrofes, né, ou por
- 1:30:51guerras. Então, a gente precisa eh
- 1:30:55trazer isso, né, paraas nossas políticas
- 1:30:57públicas, políticas comunitárias, pros
- 1:30:59serviços, paraas atualizações
- 1:31:01profissionais, né, paraas pessoas que
- 1:31:03estão ali, eh, lidando com isso,
- 1:31:06construir cuidado com a pessoa, né, não
- 1:31:08apenas para ela, mas para que isso possa
- 1:31:11se ampliar.
- 1:31:13Só para finalizar, né, então, entre as
- 1:31:15fronteiras e as presenças, aí a gente eh
- 1:31:19o amor vai costurando presenças, né? O
- 1:31:21amor pelo que a gente faz, pela
- 1:31:23atualização, pela gente poder escutar. O
- 1:31:26cuidado não é resolver, corrigir,
- 1:31:28eliminar a dor, né? Mas o cuidado ele é
- 1:31:31sustentar, reconhecer, dar lugar à
- 1:31:34experiência. Isso é tão importante.
- 1:31:36Cuidar nesse contexto é reconhecer a
- 1:31:39complexidade, né? sustentar o que foi
- 1:31:41interrompido, ajudar a reconstruir
- 1:31:43pertencimento, porque mesmo entre
- 1:31:45fronteiras é possível e muito possível
- 1:31:48criar novas formas de existir e isso vai
- 1:31:50ser muito bacana para aquela pessoa.
- 1:31:53Nosso papel aí como profissionais é
- 1:31:55costurar dignidade onde é rasgo, né? Por
- 1:31:58dar presença no tecido das ausências.
- 1:32:01aqui, né? Sempre eu falo, o cuidado
- 1:32:03precisa ser construído não apenas paraa
- 1:32:05mãe, pro pai, pra família, né, mas com
- 1:32:10essas pessoas, porque mesmo entre
- 1:32:12fronteiras, né, é possível reconstruir
- 1:32:14pertencimento quando há espaço para
- 1:32:16escuta, reconhecimento e elaboração, né?
- 1:32:20Lembrando do meu caso aí da da ti do do
- 1:32:23tirar a carteira de motorista, ele não
- 1:32:25precisava reconhecer o meu nome e mudar
- 1:32:27o sistema. ele podia falar: "Nossa, que
- 1:32:30legal aqui, né, na Irlanda não funciona
- 1:32:32dessa forma. Eh, da, gente, eram um 30
- 1:32:37segundos de fala, né, de me escutar, de
- 1:32:41reconhecer aquilo e de eh trocar uma
- 1:32:44experiência positiva, né? Então, imagina
- 1:32:47isso ultrapassado em lugares onde há
- 1:32:50sofrimento, né, eh onde há rupturas
- 1:32:55maiores, né? Então, a gente precisa
- 1:32:57levar isso com a gente. Eh, deixo aqui
- 1:33:01também depois as referências para vocês,
- 1:33:03né? Trouxe aqui um pouquinho das
- 1:33:04referências que eu uso aqui nos meus
- 1:33:06estudos eh de contextos migratórios.
- 1:33:11Eh, e obrigada, obrigada aí por terem
- 1:33:15aqui, eh, comigo nesse tempinho que eu
- 1:33:18passei para caramba, mas vamos aí
- 1:33:20conversar um pouquinho se tivermos ainda
- 1:33:23tempo, tá bom? Vamos lá.
- 1:33:33Nossa, eh,
- 1:33:35eu acho que com certeza temos tempo, né?
- 1:33:37Eu acho que agora rodar a palavra, né?
- 1:33:40Eh, mas assim, destacar, eu acho que a
- 1:33:45delicadeza, né? Eu acho que o cuidado e
- 1:33:48quantas questões importantes, né? Eu
- 1:33:50fiquei pensando muito assim que não é
- 1:33:54banalizar, né, a questão da da
- 1:33:57experiência da migração e de todas as
- 1:33:59questões que atravessam em termos de
- 1:34:01sofrimento, de dor, mas eu acho que você
- 1:34:04traz muito um olhar pra questão da vida,
- 1:34:07né, no sentido assim, né, eu fiquei
- 1:34:09pensando essa questão da subjetividade,
- 1:34:12né, dessa questão que é trágica, né, e
- 1:34:15como que a gente vai passando pelos
- 1:34:17momentos, nos sustentando, isso não quer
- 1:34:20dizer que não tenha dor, que não tenha
- 1:34:22sofrimento, mas tem possibilidades, né?
- 1:34:25Então assim, eh, fiquei pensando muito
- 1:34:28nisso. E agora no final, eh, num
- 1:34:31conceito também que eu me deparei, que
- 1:34:34achei muito interessante, que é a
- 1:34:36questão da humildade cultural, mais do
- 1:34:38que a competência cultural, né, que eu
- 1:34:41acho que é isso, não é você se apropriar
- 1:34:44ou ter informação sobre, né, porque você
- 1:34:46não vai ter da vivência, da cultura do
- 1:34:49outro, mas você saber que é um encontro.
- 1:34:51Então assim, eu também vou me modificar,
- 1:34:53eu também vou me afetar por aquilo que é
- 1:34:56a experiência que você traz carteira,
- 1:34:58né? É isso, ó, né? Validar, entender que
- 1:35:02tem uma outra vivência e como que a
- 1:35:04gente compõe isso, que que é possível
- 1:35:06nesse encontro de composição, né? Então,
- 1:35:11achei muito interessante assim, fiquei
- 1:35:13pensando, lembrei desse conceito aí, né?
- 1:35:16>> Exato. E vai muito dos dois lados, né?
- 1:35:19Porque tá fechada.
- 1:35:21Ah, desculpa,
- 1:35:24eu tô fechada. Não tão me escutando,
- 1:35:27então? Ah, tá, tá bom. Não, eu penso
- 1:35:30muito que é das, né, aquela, aquele
- 1:35:32lugar de duas de duas vias, né, porque
- 1:35:34eu falo muito para as pessoas aqui
- 1:35:36também, né, gente, não nadaem contra a
- 1:35:38maré, né? às vezes e eh tirem um
- 1:35:43pouquinho do conceito já ali que você já
- 1:35:45tem e dá uma uma olhada o que que tem
- 1:35:48aqui, que legal que talvez seja, leva a
- 1:35:51amiga que sabe um pouco mais de inglês
- 1:35:53ou então vai lá só para experienciar,
- 1:35:55né? Sentir pertencente. Você vai
- 1:35:57construindo pertencimento também através
- 1:35:59do se deixar ir, né? e não simplesmente
- 1:36:02já vir com aquilo, ai não vai ser
- 1:36:04gostosa a comida daqui. Nada é tão, nada
- 1:36:07vai ser tão gostoso quanto a comida da
- 1:36:09tua mãe, da tua avó, do, né, do boteco
- 1:36:11da esquina, da feijoada de domingo. Não
- 1:36:14vai, galera. Isso aí tá, né, para
- 1:36:16quemigrou, isso já tá ali num lugar que
- 1:36:19já foi afetado neurologicamente,
- 1:36:21mas dá uma chance ali pro talvez pra
- 1:36:24comidinha irlandesa, pra comidinha de
- 1:36:26outros lugares. Tá tudo bem, né? Eh,
- 1:36:29novamente a gente vai fazendo, não
- 1:36:31precisa nadar contra amarelo o tempo
- 1:36:32inteiro. Então é é essa coisa de duas de
- 1:36:35duas de duas vias.
- 1:36:38Sabrina tá com a mãozinha para cima aí.
- 1:36:43Eh, boa tarde aí na Irlanda. Eh, queria
- 1:36:47agradecer, né, essa essa rica palestra,
- 1:36:51a forma que você expôs a imigração foi
- 1:36:53perfeita de uma maneira muito real. Eu
- 1:36:57me vi presente em vários contextos,
- 1:36:59porque eu já fui imigrante, morei na
- 1:37:01Noruega, um país frio também, onde o
- 1:37:04local que eu me sentia mais acolhida era
- 1:37:06o banheiro. E essa questão do
- 1:37:09pertencimento
- 1:37:10é é é um boom, assim, a gente nunca
- 1:37:14acha, por mais organizado que seja essa
- 1:37:17migração, a gente nunca acha que esse
- 1:37:19boom vai ser um buraco, vai ser tão
- 1:37:22intenso, né? E depois você traz isso,
- 1:37:25né? Um segundo momento que eu não
- 1:37:27resisti, eu voltei à minha terra e
- 1:37:30quando eu vi, né, os barraquinhos no
- 1:37:32avião, falei: "Ai, graças a Deus cheguei
- 1:37:34ao Brasil, não vivenciei o segundo
- 1:37:36momento que você mostra muito bem, que é
- 1:37:39o momento onde as coisas começam a se
- 1:37:41encaixar desde o momento que você se
- 1:37:43coloca à disposição de de atravessamento
- 1:37:47de cultura e assim". E aí eu tenho
- 1:37:50algumas perguntas, né, sobre a questão
- 1:37:52de saúde, né, tanto na Irlanda quanto na
- 1:37:55Europa, né, e a questão do acesso, né,
- 1:37:59como que funciona, porque hoje nós temos
- 1:38:02no Brasil o SUS, né, que é o sistema
- 1:38:04público de saúde. E pro migrante, eh,
- 1:38:08que ele chega, né, ele não tem uma
- 1:38:11formação acadêmica, ele chega com aquela
- 1:38:13ideologia, né, que ele vai paraa Europa,
- 1:38:16ele vai para um, pros Estados Unidos,
- 1:38:18ele vai para um outro lugar que seja de
- 1:38:20primeiro mundo e ele acha que vai viver
- 1:38:23aquele sonho migratório, né, que não é
- 1:38:25bem assim que você trouxe a realidade,
- 1:38:28né? Eu costumo falar quando eu falo da
- 1:38:30minha experiência, que terra estrangeira
- 1:38:32é terra que filho chora e mãe não vê,
- 1:38:34né? E, e, e, eu queria saber como é que
- 1:38:38funciona esse, o que seria acessível
- 1:38:41para todos, o que que seria o aqui é o
- 1:38:44SUS, na Irlanda é o quê? Eu queria, eu
- 1:38:47tenho outras perguntas também, mas eu
- 1:38:50primeiro para poder formar um caminho,
- 1:38:52eu queria que você me respondesse
- 1:38:55>> essa essa esse acesso, né, à saúde.
- 1:38:57>> Uhum. aqui na aqui na Irlanda, vou falar
- 1:38:59pela Irlanda, claro, eh nós não temos um
- 1:39:04Sistema Único de saúde. A saúde ela não
- 1:39:06é pública nesse sentido, né? Às vezes
- 1:39:09até as pessoas entendem que parece ser
- 1:39:12pública, mas é para quando você já paga
- 1:39:14taxas no país, então você tem
- 1:39:16acessibilidade pública. Eh, aqui nós
- 1:39:19temos o RSI HSE, que é um health
- 1:39:22secretary executive, que é como se fosse
- 1:39:25o o o sistema que que trabalha com a
- 1:39:29saúde. Eh, você não vai ser negado, por
- 1:39:33exemplo, né? Você vai num hospital,
- 1:39:35aconteceu alguma coisa, você pode ir
- 1:39:37para um hospital, você vai ser atendido,
- 1:39:40você vai receber todo o auxílio, mas vai
- 1:39:42chegar no endereço que você deu na hora
- 1:39:45de fazer a inscrição uma conta, né, uma
- 1:39:49conta de serviços que pode ser de
- 1:39:51internação, disso. Então, não tem
- 1:39:53questões, não tem o público, né, viva
- 1:39:56longa ao SUS. Não existe um SUS aqui.
- 1:40:00Eh, a única, eh, variante nisso é na no
- 1:40:04cenário de parto, porque se você é um
- 1:40:07estudante, se você é um imigrante, né,
- 1:40:09um turistas, qualquer coisa, se você tem
- 1:40:12que ter um bebê aqui, você pode eh
- 1:40:15ingressar o sistema, né, as
- 1:40:16maternidades, que todas são, entre
- 1:40:19aspas, eh, regidas pelo RITSI, não tem
- 1:40:22maternidades privadas totais. Então você
- 1:40:25vai, você é assistida e aí não vai ter
- 1:40:27uma conta, você vai passar todo pelo
- 1:40:29sistema, entre aspas, público, né, pelas
- 1:40:32parteiras, pelas pela por esse sistema
- 1:40:34todo, mas você não vai receber uma conta
- 1:40:36na tua casa, por exemplo, é o único, a
- 1:40:39única exceção que acontece. toda a outra
- 1:40:42você vai receber a conta, né, para você
- 1:40:45pagar aquilo.
- 1:40:46>> Entendi. A segunda que junta com a
- 1:40:48terceira, eh, por exemplo, alguns países
- 1:40:50europeus, como a Itália, quando você
- 1:40:53quando há o nascimento de um bebê, de
- 1:40:55dois filhos de imigrante, eles são
- 1:40:57apátridas. Na Irlanda acontece isso. E a
- 1:41:01pergunta que junta com essa é: você eh
- 1:41:04falou muito da saúde da mulher muito
- 1:41:06rico, é a minha eh minha vertente de
- 1:41:08pesquisa também, meu eixo de pesquisa
- 1:41:11também. Você sente dentro da saúde que é
- 1:41:14para todos, né, desse seguro, uma
- 1:41:16xenofilia, eh, que é uma preferência
- 1:41:20racial dos profissionais de saúde?
- 1:41:24eh crianças eh
- 1:41:28de de casal brasileiro, eles têm a
- 1:41:30nacionalidade dos pais, né? Então, se
- 1:41:34você se os dois tiverem aqui, mesmo com
- 1:41:36visto de trabalho, eh, e os dois
- 1:41:38tiveram, se tiverem cidadanias
- 1:41:40brasileiras, a criança vai ter que ser
- 1:41:42registrada como brasileira. Se um dos
- 1:41:45dois tiver uma cidadania europeia ou
- 1:41:47irlandesa, que seja por tempo de de
- 1:41:49visto aqui ou por ser eh ter uma outra
- 1:41:52cidadania, os pais podem optar por dupla
- 1:41:55cidadania ou pela cidadania europeia,
- 1:41:57por exemplo. E a e a Irlanda, como tá na
- 1:42:00União Europeia, né? Então essa criança
- 1:42:02ela pode ter a todo o acesso a a
- 1:42:04qualquer coisa que ela esteja, porque
- 1:42:06porque estamos num país na União
- 1:42:08Europeia. Eh, cuidado da mulher, como
- 1:42:12que foi a pergunta? se
- 1:42:13>> é se eh se você sente, né, dentro dos eh
- 1:42:18do dos dos eixos, né, do seu trabalho,
- 1:42:20se você sente com base dos profissionais
- 1:42:23de saúde, né, principalmente no cuidado
- 1:42:25da mulher, ou pré ou transósgestação,
- 1:42:31xenofilia por parte dos profissionais,
- 1:42:34>> xenofobia,
- 1:42:35>> não, xenofilia é seria a preferência de
- 1:42:38nacionalidade. Eu prefiro trabalhar com
- 1:42:40essas eh com essa com essa
- 1:42:43nacionalidade. Xenofobia já é o
- 1:42:46preconceito mesmo. Se existe uma
- 1:42:49preferência, né, que é a xenofilia, uma
- 1:42:51preferência de nacionalidade,
- 1:42:53>> tá? Conceito novo aqui para mim também,
- 1:42:55o xenofilia. Eh,
- 1:42:59com certeza, né? Não são todos, a gente
- 1:43:01não pode expandir isso para todos os
- 1:43:04profissionais, mas a gente escuta muito,
- 1:43:06principalmente nas rodas, nos grupos,
- 1:43:08né? de mulheres migrantes, eh, não que
- 1:43:12isso é explícito, mas que elas sentem
- 1:43:15que houve um tratamento diferente
- 1:43:18eh para uma nacionalidade tal como para
- 1:43:22outra nacionalidade. Eu posso falar
- 1:43:24isso, por exemplo, com a psicologia, né?
- 1:43:27Eu tô num processo aqui que já tá há
- 1:43:30anos fazendo uma validação
- 1:43:33que a Irlanda precisa reconhecer algumas
- 1:43:35coisas aqui eh
- 1:43:38da da minha psicologia clínica. E aqui
- 1:43:41na Irlanda a gente não tem conselho de
- 1:43:43psicologia,
- 1:43:45eh, a gente tem somente associações.
- 1:43:46Então é um vcu-vuco, não vou nem entrar
- 1:43:48ali, mas assim, eh, eles dão
- 1:43:51preferências quando eles vão fazer essa
- 1:43:53validação.
- 1:43:55É isso, né? Conversas internas para as
- 1:43:59pessoas que vêm de UK, para as pessoas
- 1:44:03que tem uma língua nativa inglês,
- 1:44:05americanos, por exemplo, né? Estados
- 1:44:07Unidos, do que eh sul-americanos,
- 1:44:10brasileiros, venezuelanos, argentinos,
- 1:44:13eh espanhóis. Então, tem sim, quando a
- 1:44:17pessoa vem e já se formou em inglês,
- 1:44:19aquilo o processo tá sendo levado de
- 1:44:22outra forma, né? Então, até dentro da da
- 1:44:25da própria da própria experiência
- 1:44:27profissional, assim, de validação de
- 1:44:30algo assim eh complicado. Então, imagina
- 1:44:32nos nos sistemas mesmos de saúde eh
- 1:44:36nesse tipo de contexto. Alguma outra
- 1:44:39coisa também que eu noto aí, às vezes é
- 1:44:42uma falta talvez ali, né, de preparo
- 1:44:45talvez dos profissionais para lidar com
- 1:44:47essa questão imigrante e do desconforto
- 1:44:49que isso traz. Talvez o profissional ele
- 1:44:52nem tenha essa questão da xenofilia ou
- 1:44:54da xenofobia ali com aquilo, mas ele não
- 1:44:57conseguiu deixar a pessoa falar, ele não
- 1:45:00conseguiu ter essa questão culturalmente
- 1:45:03sensível para lidar com aquilo. Então, a
- 1:45:06experiência do paciente é muito ruim,
- 1:45:08principalmente da mulher, né? Porque
- 1:45:10aqui, por exemplo, novamente, nós não
- 1:45:12temos especialistas na no setor da
- 1:45:15saúde, em consultórios. A gente não vai
- 1:45:17num ginecologista, a gente vai no médico
- 1:45:19da família que tem ali talvez uma
- 1:45:23especialidade maior em ginecologia. Se a
- 1:45:26gente passa por ginecologista, são
- 1:45:27dentro dos hospitais, quando a gente
- 1:45:30recebe um encaminhamento para um cuidado
- 1:45:32mais do especialista em alguma coisa,
- 1:45:35né? foi eh determinou alguma coisa aqui
- 1:45:39no teu eh Papa Nicolau, então você tem
- 1:45:41que passar com o ginecologista e aí para
- 1:45:43todos os serviços, né, nesse sentido.
- 1:45:47Não sei se respondu.
- 1:45:49>> Respondeu muito claramente. Muito
- 1:45:51obrigado, porque sempre há, né, a gente
- 1:45:54lê através da literatura, mas quando há
- 1:45:58uma pessoa vivendo isso, né, fica muito
- 1:46:01mais vívido, né, a experiência eh
- 1:46:04pessoal da pessoa, né, traz muito mais
- 1:46:07vida do que aquilo que lemos nas
- 1:46:10literaturas aí expostas. Depois, no
- 1:46:12final eu, por gentileza, eu queria que
- 1:46:14você colocasse as suas referências, que
- 1:46:16não deu tempo de eu fotografar porque eu
- 1:46:18achei tão rico
- 1:46:20>> e eu queria
- 1:46:22>> queria que você compartilhasse as suas
- 1:46:25referências, que assim foi excelente a
- 1:46:28explanação. Obrigada.
- 1:46:31>> Imagina eh as minhas, né, e aí coisas
- 1:46:34que vão intercalando também as
- 1:46:37experiências pessoais, né? Eu quando,
- 1:46:40eu, né, estava no cenário de parto aqui,
- 1:46:43eh, é muito diferente o sistema, muito
- 1:46:46diferente. E eu tive, né, um privilégio
- 1:46:49de poder trabalhar com assistência
- 1:46:51perinatal, com a assistência da mulher,
- 1:46:53né, de oferecer isso. Então, eu conhecia
- 1:46:56muito o sistema daqui, consegui navegar
- 1:46:58muito bem o sistema daqui. Eh, mas aí
- 1:47:02entravam em lugares em que eu como
- 1:47:06indivíduo negra vindo do Brasil
- 1:47:10surgiu, né? Por exemplo, eu tive uma
- 1:47:13necessidade gigantesca de botar tranças
- 1:47:15na GO, trança Bods Braid quando eu tava
- 1:47:18grávida porque me emponderou, me
- 1:47:20assistias, sabe? fui no Brasil fazer com
- 1:47:23a transcista da família, então teve que
- 1:47:26ter tudo esse esse esse au. E aí eu
- 1:47:28comecei a entrar em pânico, eh
- 1:47:31eh na hora assim antes do pato, porque
- 1:47:34eu falava: "Gente, eles vão mandar eu
- 1:47:36cortar isso aqui se eu for para uma
- 1:47:37cesárea, porque a literatura diz que
- 1:47:40isso pode ter queima de não sei do que",
- 1:47:42sabe? Então vem assim muita coisa na
- 1:47:45cabeça, né? desse racismo enraizado
- 1:47:48dentro de mim num sistema europeu, num
- 1:47:51sistema médico que ainda tem ali na sua
- 1:47:55literatura comparativos brancos, de
- 1:47:57mulheres brancas, né, servindo para
- 1:48:00aquilo tudo. E eu ficava assim, gente,
- 1:48:02se me dá metástase, eles vão analisar o
- 1:48:05mamilo e os mamilos de comparação são
- 1:48:07rosas e o meu não é. E que que ele vai
- 1:48:09fazer? colorar, descoloração. Então,
- 1:48:11vinha também essa coisa do profissional
- 1:48:14junto com a minha realidade. E aí não
- 1:48:17aconteceu isso, né? Eu tava muito, muito
- 1:48:19consciente, tinha ali um time bacana,
- 1:48:23mas aquilo entrou nas minhas angústias,
- 1:48:25né, de mulher imigrante, né? Daí vai
- 1:48:28entrando os nichos, né, da onde você tá,
- 1:48:31do contexto. Mulher negra, imigrante,
- 1:48:34né? Mulher não sei o que, daí vai, né?
- 1:48:36Imagina se eu não falasse inglês,
- 1:48:38imagina se eu não tivesse a condição de
- 1:48:40pegar uma doa bilíngue, né? Se o meu
- 1:48:44marido não fosse tão presente, estivesse
- 1:48:47comigo e falasse: "É o que você quer,
- 1:48:49né? Você é a protagonista no negócio,
- 1:48:52né? De falar: "Eu vou só tá ali fazendo
- 1:48:55assim e você", né? Então é assim,
- 1:48:59é experiências, né? tá aí também.
- 1:49:06Mais alguém, gente, compartilhar alguma
- 1:49:09coisa, perguntar alguma coisa?
- 1:49:15Eh, eu imagino, né, que não tenha sido
- 1:49:17fácil, principalmente esse período
- 1:49:19gestacional e parto, né, porque a mulher
- 1:49:22já no seu natural já tem todas suas seus
- 1:49:25questionamentos, né, suas inseguranças,
- 1:49:28né, e eu sei assim por escultas, né, que
- 1:49:32na Europa é parto natural e aqui a gente
- 1:49:36no Brasil é um país que culturalmente
- 1:49:39que mais se há cirurgia cesárea, né, E
- 1:49:43aí muitas vezes a gente se desloca, né,
- 1:49:46e acha que vai escolher, né, o o o plano
- 1:49:49de de parto e não é assim que funciona
- 1:49:52na Europa. Eu creio, né, que não que não
- 1:49:56deve ter sido fácil, né, e mas você tá
- 1:49:59aí contando a sua história bem vívida e
- 1:50:03aí é muito bacana.
- 1:50:05>> É diferente, né? Então, por exemplo,
- 1:50:07aqui a gente tem eh três opções. Não tem
- 1:50:09maternidades privadas, não tem casas de
- 1:50:11parto, tem as maternidades públicas e
- 1:50:14todo mundo, seja eu que vou ter bebê ou
- 1:50:17a presidente do país, a gente vai pra
- 1:50:19mesma maternidade.
- 1:50:20Eh, ou então tem o Homebirth, né, o o
- 1:50:24parto domiciliar, eh, que pode ser e
- 1:50:27pego dependendo da variável da da
- 1:50:29gestação, pelo sistema público ou pelas,
- 1:50:33eh, pelo sistema, tem parteiras
- 1:50:36privadas, né, então elas têm que ter a
- 1:50:37seguro e tal e elas podem fazer esse
- 1:50:39tipo de trabalho. Eh, e aí tem três
- 1:50:42tipos de de de de lugares que você vai
- 1:50:46ou você vai totalmente pelo público que
- 1:50:48você vai ter vai ser assistida pela
- 1:50:51parteira, né, a Midwiffa e aí você vai
- 1:50:53ter o parto, né, numa numa na salinha de
- 1:50:55parto e aí você vai pro lugar com várias
- 1:50:58outras eh mulheres e os bebês. Você pode
- 1:51:02pegar o semi privado, que aí geralmente
- 1:51:04é quando você tem o Health Insurance,
- 1:51:06né, o convênio, e você pode ficar até
- 1:51:09três qu dias no lugar. Você vai ser
- 1:51:11também assistida pela parteira, talvez
- 1:51:14em dobradinha com o obstetra em plantão
- 1:51:17e aí você vai para um quarto que vai ter
- 1:51:19menos pessoas, né? Ou você vai pro
- 1:51:21privado, que aí não é o privado no
- 1:51:24Brasil, né? Não é esse jeito que a gente
- 1:51:26tem, que é simplesmente que você vai
- 1:51:28passar pelo obstetra, né? daqui você vai
- 1:51:31ver a mesma pessoa todo o tempo. Quando
- 1:51:34a gente entende o sistema de parto aqui
- 1:51:36na Irlanda, você entende que o obstetra
- 1:51:38ele é muito mais o intervencionista do
- 1:51:41que aquele que entende do cenário do
- 1:51:43parto como as parteiras. Então assim, a
- 1:51:45minha escolha foi as parteiras porque
- 1:51:47elas estão fazendo aquilo ali o tempo
- 1:51:49inteiro, mesmo indo para um semiprivado.
- 1:51:51E no privado você pode ir para um quarto
- 1:51:54separado, se estiver disponível, porque
- 1:51:57às vezes não vai estar, como o hospital
- 1:51:59é pequeno, talvez.
- 1:52:01Eh, e tem quatro, cinco quartos
- 1:52:02privados. Naquele dia teve uma mulher
- 1:52:05com Covid, teve um caso mais complicado
- 1:52:07e não vai estar disponível. Então, você
- 1:52:09já sabe que é isso. As meninas às vezes
- 1:52:11brasileiras vêm e acham isso muito
- 1:52:13chocante, né, delas não poderem levar
- 1:52:16fotógrafo, videógrafo, mesmo, mas mesmo
- 1:52:19pagando não, né, não vai ter. Eh, a
- 1:52:23Irlanda nos nos últimos 5 anos mudou um
- 1:52:25pouco a realidade da comunicação com a
- 1:52:29paciente por questões de ter recebido
- 1:52:32muito paciente, né, de outros países em
- 1:52:34que tem eh essa pegada, né, de de
- 1:52:38cesárea eletiva e tal, porque a gente
- 1:52:42tinha muito isso de ai na Irlanda você
- 1:52:44não escolhe, se você tiver apta para um
- 1:52:46parto natural vai ser o que começou a
- 1:52:48dar muita, muito desconforto emocional,
- 1:52:51principalmente pros estrangeiros, né,
- 1:52:53que vinham de um lugar que não era isso.
- 1:52:56Muitas mulheres voltavam, né, falando
- 1:52:58das brasileiras, que eu trabalho demais
- 1:53:00com isso, pro Brasil para ter o bebê,
- 1:53:02eh, para ter a cesárea, né? E aí
- 1:53:06começaram a mudar algumas políticas
- 1:53:08aqui, mas não uma mudança de política
- 1:53:10geral, mas da forma, né, de de verificar
- 1:53:13caso a caso. Ah, já é uma uma gestante
- 1:53:16que teve eh um um que já teve filho, já
- 1:53:20teve uma cesárea, então ela pode optar,
- 1:53:23né, por ter uma cesárea. A gente não vai
- 1:53:25fazer um histórico gigantesco, mas ela
- 1:53:27já teve uma cesárea. Pode ter sido
- 1:53:29alguma coisa aqui. Vamos dar esse essa
- 1:53:32opção para ela. Eh, já tive casos aqui
- 1:53:35que eu mandei carta de encaminhamento
- 1:53:37para quem estava cuidando no hospital
- 1:53:38dizendo que tinha uma questão muito
- 1:53:40traumática, de muito medo, de questões
- 1:53:43emocionais eh eh fortes ali, né? E essa
- 1:53:47pessoa não conseguiria talvez encarar um
- 1:53:50parto natural que ela talvez tentaria,
- 1:53:53né, mas dela ia escolher. Então a gente,
- 1:53:55eu comecei a conversar com o time, né,
- 1:53:58nesse sentido, né, nessa maternidade,
- 1:54:00eles foram muito bacanas de escutar um
- 1:54:03profissional que estava acompanha
- 1:54:05acompanhando essa paturiente eh
- 1:54:07emocionalmente, que tinha casos
- 1:54:09complicados. Então assim, às vezes a
- 1:54:10gente começa a a ver alguma coisa
- 1:54:14mudando pela influência também de outras
- 1:54:17culturas, né, de outras de outros
- 1:54:20lugares. A comunidade brasileira aqui na
- 1:54:22Irlanda é muito grande. Eu acho que se
- 1:54:24eu não me engano, é a terceira maior
- 1:54:26comunidade na Irlanda, em Dublin. Então
- 1:54:28você não precisa sair sair do Brasil,
- 1:54:31você tem tudo, né? Hoje em dia tem
- 1:54:32carnaval, tem a Carajé, tem eh tem
- 1:54:35festas, né? Tem o dia do Brasil, tem
- 1:54:38comunidades, né? de língua, de português
- 1:54:40como língua de herança brasileira. Então
- 1:54:43tem tem muita coisa legal assim eh para
- 1:54:46as pessoas eh sentirem ali também, o que
- 1:54:50acaba influenciando, né, no sistema um
- 1:54:53pouquinho, querendo ou não.
- 1:55:00>> A Gabriela, eu não sei se ela não tá
- 1:55:02conseguindo falar, que ela colocou uma
- 1:55:04questão no chat.
- 1:55:06>> Cadê o chat? pedindo para falar sobre
- 1:55:10violência doméstica e a lei de Aia.
- 1:55:13>> Ah, ok. Cadê o chat? Deixa eu ver. Será
- 1:55:16que eu consigo ver aqui? Ah, tá aqui do
- 1:55:18ladinho.
- 1:55:21Ai, tem um monte coisa aqui. Eu não
- 1:55:22consegui. Não tava vendo. Se der para
- 1:55:24falar um pouco sobre violência doméstica
- 1:55:26e lei Aia, eh, nossa, que é outra, é uma
- 1:55:30outra palestra, né? Mas sim, né? Então,
- 1:55:33como eu falei ali no no slides também,
- 1:55:36né? questão de gênero, eh, atingem
- 1:55:39demais as mulheres migrantes, né? Muitas
- 1:55:43mulheres vêm às vezes, né, acompanhado
- 1:55:45dos maridos ou se casam aqui, eh, ou tem
- 1:55:48filhos aqui e aí tem essa
- 1:55:51vulnerabilização,
- 1:55:53eh, e tem intensificada, talvez ali por
- 1:55:56dependência financeira, por dependência
- 1:55:58emocional, aquela, né, esse tipo de
- 1:56:00questões e também aumento de violência
- 1:56:03doméstica às vezes por conta dessa
- 1:56:05dependência, por conta de vários setores
- 1:56:08aí da mulher ficar em casa e ser
- 1:56:10dependente. eh às vezes até pela fala,
- 1:56:14né, pela tradução de alguma coisa, eh,
- 1:56:16desse marido, desse desse desse
- 1:56:18companheiro. A Leid Aia, né, é uma coisa
- 1:56:21que a gente bate muito na tecla aqui na
- 1:56:23Irlanda de tentar fazer a
- 1:56:25conscientização das mulheres eh
- 1:56:28imigrantes, principalmente brasileiras,
- 1:56:30para entender um pouco dos direitos, né,
- 1:56:33e de tudo que atravessa quando ela
- 1:56:35migra, quando elas têm, quando ela casa
- 1:56:38e quando ela tem um filho, né? com quem
- 1:56:41ela teve esse filho. Não só também só
- 1:56:43com quem, porque a lei de A ela fala que
- 1:56:45a criança ela tá respaldada pelas leis
- 1:56:48da onde ela ela vive, né? Então imagina
- 1:56:52se mesmo sendo casais de dois
- 1:56:53brasileiros e eles moram aqui, eles têm
- 1:56:56residência aqui e a criança está aqui há
- 1:56:58um tempo, eh, e a mãe por n motivos
- 1:57:03deseja sair do país, o marido pode
- 1:57:06acionar a lei de Aia, porque a criança
- 1:57:08tem a residência na Irlanda, né? Então,
- 1:57:10a lei de AIA é
- 1:57:13e eh é é uma lei que, entre aspas,
- 1:57:17ampara o o tráfico, né, o a eh de a eh
- 1:57:22não o tráfico, o sequestro internacional
- 1:57:24de crianças, né? Eh, imagino porque um
- 1:57:29caso brasileiro muito grande agora, né,
- 1:57:31que tá tá sendo aí eh divulgado pelas
- 1:57:34redes eh e já fez mudar algumas leis
- 1:57:37brasileiras e até na questão de AIA eh
- 1:57:39tá sendo divulgado.
- 1:57:42Eh, algumas coisas talvez mudem, né? Uma
- 1:57:45das coisas que agora tá sendo levada em
- 1:57:46consideração paraa Lady Aia e a a
- 1:57:50identificação, talvez de violência
- 1:57:53doméstica, né, de violência contra a
- 1:57:55mãe, de violência de abuso, qualquer
- 1:57:58seja que tipo, com a criança. Se
- 1:58:00conseguiu provar, então, né, a mãe não
- 1:58:01cai mais na lei de aia de sequestro
- 1:58:03internacional, ela vai ser julgada, né,
- 1:58:06isso tudo vai ser amparado. Mas nossa,
- 1:58:09tem muita coisa para falar aí sobre
- 1:58:10violência doméstica e lei de áia, mas o
- 1:58:13que a gente fala muito, principalmente
- 1:58:16eh nos eventos ou nas nas questões
- 1:58:19educacionais aqui que a gente vai
- 1:58:21falando pra comunidade eh de mulheres
- 1:58:24brasileiras aqui, eh que assim eh leiam,
- 1:58:29entrem em contato, saibam do direito de
- 1:58:32vocês, saibam do que acontece, se
- 1:58:36informem com autoridades competentes,
- 1:58:38Facebook, WhatsApp de rede, não é
- 1:58:41informação eh oficial. Vocês não podem,
- 1:58:45né, fazer esse tipo de de de julgamento.
- 1:58:48Se tá em dúvida, vai lá, bate, né, na
- 1:58:50embaixada, eh, num profissional
- 1:58:53qualificado ali que fale a tua língua e
- 1:58:55que possa te explicar. Tem comunidades
- 1:58:57gigantescas. Nós temos aqui, por
- 1:58:59exemplo, o grupo Mulheres do Brasil faz
- 1:59:01um trabalho fantástico, né, eh, nos
- 1:59:03direitos da mulher com violências de
- 1:59:05gênero, violência doméstica. Então, tem
- 1:59:08uma rede onde as mulheres podem ligar,
- 1:59:10elas se conectam junto com as com o Mine
- 1:59:14Grand Council aqui da Irlanda, junto com
- 1:59:16as questões da Irlanda. Então, tem essas
- 1:59:18pontes, né, vocês podem eh recorrer,
- 1:59:22estão amparadas assim, assim como em
- 1:59:24vários lugares, né? tem uma rede legal
- 1:59:26aqui, principalmente europeia, e tem,
- 1:59:29né, esses esses essas associações, esses
- 1:59:32grupos em em vários e vários países de
- 1:59:34auxílio a ao emigrante.
- 1:59:40>> Caren,
- 1:59:42a gente ficaria o dia inteiro te
- 1:59:44ouvindo.
- 1:59:46Eu falo muito. E a questão, né, da
- 1:59:52possibilidade de contato remoto,
- 1:59:56ela ela vem, né, assim, de uma maneira
- 2:00:00interessante, porque a gente acaba
- 2:00:02comprovando que não precisa de estar
- 2:00:05fisicamente pra gente poder eh ter a
- 2:00:09presença, colocando entre aspas, né,
- 2:00:11daquela pessoa naquela troca de energia,
- 2:00:14de conhecimento, de afeto e de
- 2:00:17interação, né? né? E isso você consegue
- 2:00:20fazer muito bem. E assim, a gente te
- 2:00:22agradece pela disponibilidade, né, pela
- 2:00:25sua atenção. Você tem eh um poder de
- 2:00:29fazer a gente ficar grudado aí te
- 2:00:32ouvindo e aprendendo com você, né? Eh,
- 2:00:37eu estranhei quando Sabrina falou da
- 2:00:39xenofilia porque é um conceito que fala
- 2:00:42de um apego excessivo. E aí quando ela
- 2:00:45empregou com os profissionais, eu logo
- 2:00:47retruquei, porque eu tava acreditando
- 2:00:49que eh ficaria mais esse comum, né, do
- 2:00:52que a gente ouve da xenofobia.
- 2:00:55E aí quando eh você coloca, né, que a
- 2:00:58questão de um conceito novo, em alguma
- 2:01:00medida mesmo contraditórios, eles podem
- 2:01:02estar andando de modo singular, né, eh
- 2:01:04paralelo, né, assim, porque acaba que se
- 2:01:08a pessoa ela eh não tem a postura de
- 2:01:13estar se vinculando uma pessoa
- 2:01:15estrangeira por um interesse, ela pode
- 2:01:18ter de alguma maneira algo de
- 2:01:19resistência, né? ela pode se comportar
- 2:01:22de uma maneira que faça uma resistência
- 2:01:25que aí cai lá na questão excessiva de
- 2:01:27aversão, que é lá na xenofobia.
- 2:01:31Eh, um ponto também que eu acredito que
- 2:01:34seja interessante
- 2:01:36é assim, eh, você trouxe, né, temáticas
- 2:01:40aí acordada com a Andreia. E aí, muito
- 2:01:42obrigado, Andreia, Sabrina, Henrique, os
- 2:01:45outros colegas do grupo de pesquisa por
- 2:01:47eh estar eh terem organizado essa
- 2:01:50oficina, né, e em contato com Caroen,
- 2:01:54que aceitou prontamente o convite.
- 2:01:57Mas o que eu quero destacar também é a
- 2:02:00questão de eh como que Caroen conseguiu,
- 2:02:04além da questão específica do luto,
- 2:02:06trazer pra gente n outras possibilidades
- 2:02:09de aprendizado, inclusive, né, com
- 2:02:11embasamento teórico atualizado, com eh
- 2:02:15questões que dialogam diretamente
- 2:02:17conceituais com os processos de
- 2:02:19investigação, com a questão acadêmica.
- 2:02:21Isso é um ponto também que a gente tem
- 2:02:23que destacar, porque todos nós estamos
- 2:02:24em formação o tempo inteiro, né?
- 2:02:28Não só eh quem está especificamente
- 2:02:31naquela questão de formação lá estricto
- 2:02:34senso, mas também a formação para
- 2:02:36assistência, formação técnica. Então, de
- 2:02:38um modo ou de outro, todos nós saímos,
- 2:02:42acredito assim, com eh uma chance enorme
- 2:02:46de acréscimo, né, de aprendizado para
- 2:02:49nossa vida acadêmica e nossa vida
- 2:02:51laboral também. E aí, Caroene? Eh, eu
- 2:02:55quero deixar registrado, aproveitando,
- 2:02:56né, que a gente tem outras pessoas
- 2:02:58conosco e que não são do grupo de
- 2:03:00pesquisa, também para deixar como
- 2:03:02convite à disposição o nosso grupo de
- 2:03:04pesquisa, você sabendo, né, de contato
- 2:03:06de pessoas que têm interesse em fazer
- 2:03:08formação de pós-graduação, pode estar
- 2:03:11entrando em contato conosco, né, eh,
- 2:03:13para a gente tem eh aí nesse momento,
- 2:03:17né, uma pesquisa multicêntrica em
- 2:03:19parceria com a Universidade Federal de
- 2:03:21Roraima. sobre condições de saúde de
- 2:03:24mulheres migrantes. Então, assim, todos
- 2:03:26os nossos alunos que estão no grupo de
- 2:03:28alguma maneira estão lendo, estão eh
- 2:03:32investigando, estão estudando sobre essa
- 2:03:35questão de saúde das mulheres. Então,
- 2:03:37assim, eh você sabendo, né, de algum
- 2:03:40colega que queira também fazer formação
- 2:03:42nessa área, por gentileza, pode estar aí
- 2:03:44eh socializando informação, né, que será
- 2:03:47muito positivo pra gente. Espero ter
- 2:03:50outra oportunidade de estar eh
- 2:03:53encontrando com você e
- 2:03:57depois, né, a comissão vai estar te
- 2:03:59enviando, né, Andreia, eh, o certificado
- 2:04:03e assim, muito obrigado. Devolvo a
- 2:04:06palavra aí paraa Andreia.
- 2:04:11Eh, alguém tem alguma questão, alguma
- 2:04:13fala? Não teve oportunidade, gostaria de
- 2:04:16colocar alguma coisa?
- 2:04:21Eh, eu acho que é interessante a gente
- 2:04:23fazer um print agora, tá tão bonito esse
- 2:04:25momento com essas janelas abertas pra
- 2:04:29gente registrar esse rico momento. Eh,
- 2:04:32vai ser bem breve, tá gente? Alguns
- 2:04:33segundos, só um segundo.
- 2:04:37Quem puder manter as câmeras abertas
- 2:04:39assim, sugiro.
- 2:04:42Calma aí. Saiu falando. Só mais um
- 2:04:44minuto.
- 2:04:54Pronto, saiu um print lindo. Depois a
- 2:04:57Andreia vai enviar para você.
- 2:04:59>> Obrigada. E depois eh, eu ia pedir, vou
- 2:05:03passar pra Andreia e você passa paraa
- 2:05:05Andreia, vou falar com a Andreia e você
- 2:05:07passa para Andreia, que a Andreia passa
- 2:05:09pra gente o contato da sua clínica, o
- 2:05:11seu contato profissional, porque é uma
- 2:05:14via de mão dupla, né? Eh, a gente se
- 2:05:17multiplica o tempo todo, né? Professor
- 2:05:18Aldre já fez as suas considerações
- 2:05:20acadêmicas e e aí você trazendo também a
- 2:05:25sua clínica pra gente poder os seus
- 2:05:27serviços que são prestados, né? A gente
- 2:05:29lida muito com migrantes, né? A gente
- 2:05:31tem acesso a grupos de migrantes, né?
- 2:05:33Tanto aqui quanto fora. Temos as redes
- 2:05:36sociais também, que é tudo redes de
- 2:05:39comunicação. Mandar os seus serviços à
- 2:05:41sua clínica também vai ser um prazer
- 2:05:43divulgá-los.
- 2:05:44>> Claro, com certeza. Eh, tia Andreia,
- 2:05:48depois eu me despeço também.
- 2:05:51>> Mas quer falar alguma coisa da clínica,
- 2:05:53do trabalho, Carol?
- 2:05:55Ah, não. Depois eu passo todos os os,
- 2:05:58como se diz, né, os contatos.
- 2:06:01Eh, temos redes sociais, temos site, né?
- 2:06:03Tá tudo em português e inglês, assim,
- 2:06:05né, nesse sentido, mas temos outros
- 2:06:07profissionais com outras línguas aqui
- 2:06:09também. Eh, e às vezes a gente, se a
- 2:06:11gente não tem, a gente vai pra rede e
- 2:06:14encontra. Mas assim, imensamente
- 2:06:18obrigada pelo convite. Amo novamente,
- 2:06:21né, amo participar de coisas no Brasil.
- 2:06:24quando me chamam para fazer coisas no
- 2:06:25Brasil, porque tapa um pouco esse meu
- 2:06:27buraquinho, né, de não de conseguir
- 2:06:30fazer tanta coisa aí. Eh, que bom, né,
- 2:06:33que temos essa alternativa do online.
- 2:06:35Eh, e fico aqui à disposição, super, né,
- 2:06:38me procurem, eh, me entrem em contato,
- 2:06:41né, eu e a clínica estamos super
- 2:06:43disponíveis aí para qualquer tipo de
- 2:06:45parceria, né, que que envolva aí o
- 2:06:48aprendizado múo. Então isso é muito
- 2:06:51legal e e é uma forma aí também de poder
- 2:06:55contribuir eh estando aqui, né, falando
- 2:06:59aqui também, né, desse desse lugar de
- 2:07:01imigrante, de mulher e aí vai. Eh, e
- 2:07:04muito obrigada, obrigada aí, né, por por
- 2:07:06pela escuta, pelo tempo e se tiverem
- 2:07:09qualquer dúvida também, né, Andreia pode
- 2:07:11me mandar se alguma coisa que vocês
- 2:07:13precisarem ali por e-mail. Ela tem meu
- 2:07:15e-mail, meu WhatsApp. Eh, e depois eu
- 2:07:17acho que vai ficar, se vocês quiserem,
- 2:07:19eu deixo disponível também, né, o
- 2:07:21material, os slides, alguma coisa nesse
- 2:07:23sentido. Eh, eu sei que a Sabrina pediu
- 2:07:25o as referências, eu posso mandar também
- 2:07:28a referência por e-mail, ela pode passar
- 2:07:30aí pro grupo para quem para quem
- 2:07:32assistiu, que vocês quiserem. Eu tenho
- 2:07:34em PDF também, eh, fica mais fácil, eu
- 2:07:36acho. Eh, e tô aqui, tô disponível, tô
- 2:07:40além, mas tô estamos aí nesse mesmo
- 2:07:43barquinho de de propósitos. E é isso,
- 2:07:46muito obrigada, gente. E alguém tem
- 2:07:49alguma outra coisa antes da gente
- 2:07:50terminar? Alguma fala, alguma pergunta?
- 2:07:53Obrigada.
- 2:07:56Alguém?
- 2:08:00Queria agradecer, né? Eu acho que
- 2:08:03reiterar aí a fala da Sabrina, do
- 2:08:06Audrey, né? Eu acho que foi um bom
- 2:08:08encontro assim, né? E poder estar de
- 2:08:10novo com você. Acho que é sempre muito
- 2:08:13rico, muito
- 2:08:16eh muito bom te ouvir assim, a prática,
- 2:08:19a experiência, delicadeza, né, o
- 2:08:21cuidado, eu acho que e a troca, né?
- 2:08:24Então, com certeza aprendemos muito.
- 2:08:26Acho que foi muito rico e eu acho que
- 2:08:29como o Aldre falou, né, o grupo tá
- 2:08:30aberto, eu acho que essas trocas, então
- 2:08:33você também poder, né, e a gente seguir
- 2:08:36aí, que eu acho que é assim que a gente
- 2:08:38vai se sustentando, né, aqui aí, né,
- 2:08:43então agradecer e dizer que eh tá sendo
- 2:08:47gravado, então vai tá disponível a
- 2:08:49gravação, tá? Depois eu até te passo
- 2:08:51também, Caroe. Vai, mas vai tá no canal
- 2:08:53da Escola de Enfermagem aqui da UF, tá
- 2:08:56no YouTube
- 2:08:58>> e os certificados também vão ser
- 2:09:00enviados. Então, por isso foi colocado o
- 2:09:02link, caso alguém não tenha se inscrito,
- 2:09:04conseguiu entrar, preenche um formulário
- 2:09:07pra gente poder enviar o certificado
- 2:09:09depois,
- 2:09:11>> tá? Ótimo. E é e também aqui eu coloco à
- 2:09:13disposição, né? Se vocês tiverem
- 2:09:15procurar e precisarem de contatos aqui,
- 2:09:18Europa, eh, UK, alguma coisa nesse
- 2:09:21sentido, né, desse mundo imigrante,
- 2:09:24assim, de alguma forma, às vezes entra
- 2:09:26em contato, porque a gente tem uma rede
- 2:09:28bem grande, né, de de profissionais da
- 2:09:31saúde, da saúde mental, eh, que estão aí
- 2:09:34espalhados. Eh, e aí faço parte também,
- 2:09:37né, de uma campanha de saúde mental
- 2:09:39materna internacional aí e e consigo às
- 2:09:42vezes entrar na rede e falar, gente,
- 2:09:44quem quem consegue aqui dar uma
- 2:09:46indicação ou tem algum grupo, né, de de
- 2:09:49alguma coisa que estão precisando aqui
- 2:09:51nessa língua ou em português ou isso, e
- 2:09:53a gente consegue se auxiliar nesse nesse
- 2:09:57nessa forma coletiva. Eh, é isso, gente.
- 2:10:00Tô tô muito feliz. Obrigada aí pela pela
- 2:10:03atenção e pelo convite novamente.
- 2:10:07Que bom.
- 2:10:10Obrigada, gente. Audre,
- 2:10:13>> muito obrigado mais uma vez. Encerrada.
- 2:10:16>> Obrigada. Obrigada, gente. Tchau. Tchau.
- 2:10:18>> Obe. Tudo de bom.
- 2:10:19>> Tchau. Bom dia aí para vocês.
- 2:10:22>> Boa tarde, boa noite. Qu
- 2:10:24>> obrigada.
- 2:10:26Ciao
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