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Interculturalidade e Saúde: luto migratório e seus impactos na saúde mental de mulheres migrantes — Transcript

by EEAAC UFF · 19,099 words · 2,945 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:00a gente vai embarcar aqui um pouco nesse
  2. 0:02diálogo.
  3. 0:03Eh, se tiverem dúvidas ou alguma coisa
  4. 0:07quando eu tiver apresentando, por favor,
  5. 0:08né, se expressem. A gente pode parar e
  6. 0:11conversar, mas depois da minha
  7. 0:12apresentação a gente vai poder bater aí
  8. 0:14esse papo bacana, trocar, né, ouvir de
  9. 0:17vocês também. Eh, e vai ser passo bem
  10. 0:20legal. Vamos lá. Deixa eu dividir aqui
  11. 0:22com vocês.
  12. 0:31Calma aí, deixa eu
  13. 0:43tentar me encontrar aqui, né? Como que
  14. 0:45eu divido a tela?
  15. 0:57Cadê, gente? Cadê a minha apresentação
  16. 0:59do PowerPoint?
  17. 1:04>> Tranquilo.
  18. 1:07>> Eu tô tentando achar. Ela tá aqui no meu
  19. 1:10na minha, mas ela não tá. Deixa eu ver
  20. 1:14eu faço. Ah, calma aí, talvez um share.
  21. 1:16Não.
  22. 1:24Que não aparece aqui para aparece só o
  23. 1:26meu. Acho que você
  24. 1:28>> Ah, entend. Eu já achei. Tinha que tinha
  25. 1:30que mostrar num outro lugar. Eu tava no
  26. 1:33na internet.
  27. 1:39Vocês
  28. 1:45conseguem visualizar?
  29. 1:48>> Sim, sim.
  30. 1:49>> Tá. Tá ótimo. Vamos lá, então.
  31. 1:54Vou deixar baixinho aqui
  32. 1:57para eu poder visualizar, mas vamos lá.
  33. 2:00Qualquer coisa me me chamem, me acessem,
  34. 2:02me me parem por aqui. Mas vamos lá.
  35. 2:05Então, hoje a gente vai falar bastante
  36. 2:07sobre uma temática que eu gosto muito,
  37. 2:11não só por ser uma uma mulher migrante
  38. 2:15eh e profissional, mas porque também faz
  39. 2:17parte aí do da do meus estudos nos
  40. 2:20últimos anos, né, quando realmente
  41. 2:22comecei a trabalhar muito mais com essa
  42. 2:24demanda, eh, principalmente aqui na
  43. 2:26Irlanda, né? Então, a gente vai falar
  44. 2:28sobre interculturalidade e saúde, o luto
  45. 2:30migratório e aspectos, né, impactos da
  46. 2:34saúde mental de mulheres migrantes e
  47. 2:36suas famílias. vou focar muito mais,
  48. 2:39talvez, nas mulheres e nas famílias ali
  49. 2:42em alguns aspectos também, né, do do
  50. 2:45adentrar da maternidade, da
  51. 2:46perinatalidade,
  52. 2:48mas acho que é uma temática que a gente
  53. 2:50pode expandir aí para para todo mundo,
  54. 2:53né, só que é um pouco mais da minha
  55. 2:55área, essa área mais eh mulheres e
  56. 2:58famílias.
  57. 3:00Então, tá, né, já tava me apresentando
  58. 3:01ali, mas quem sou eu? Sou uma psicóloga
  59. 3:05com formação aí no Brasil. Já tô
  60. 3:07erradicada aqui na Irlanda há 16 anos. É
  61. 3:10um pouquinho mais do que isso, mas, né,
  62. 3:12traduzo aí paraos 16 anos.
  63. 3:15Eh, sou a mãe da Helena. Eh, tenho uma
  64. 3:21uma clínica eh multicultural de saúde
  65. 3:23mental multicultural aqui, né? Porque
  66. 3:25também quando eu validei os meus
  67. 3:28processos, né, as minhas os meus
  68. 3:29diplomas aqui, comecei a trabalhar com
  69. 3:31psicologia aqui na Irlanda, eh eu achei
  70. 3:35esse nicho interessante porque era o meu
  71. 3:38nicho. Então hoje em dia, eh, aqui na
  72. 3:41clínica nós atendemos, eh, famílias, né,
  73. 3:44indivíduos, demandas coletivas aí nesse
  74. 3:47muito mais nesse contexto multicultural,
  75. 3:50principalmente porque eu moro em Dublin.
  76. 3:52Então, Dublin, aqui como capital a gente
  77. 3:54tem muito, muito multi, né? Eh, vai e
  78. 3:58vem de pessoas e de formações aí de
  79. 4:00famílias eh multiculturais. Então, por
  80. 4:03isso aí eh a abertura desse espaço que
  81. 4:07eu que eu gosto muito, né? E daí a minha
  82. 4:09trajetória toda profissional, individual
  83. 4:12hoje em dia, ela acontece então entre o
  84. 4:15Brasil e a Irlanda.
  85. 4:17eh
  86. 4:19e também eh
  87. 4:22de de acessos e de de trabalhos
  88. 4:24coletivos, né? Faço vários eh
  89. 4:26voluntariados aí em grupos eh de
  90. 4:30imigrantes, não só irlandeses, mas
  91. 4:32também de grupos brasileiros, né? De
  92. 4:34auxílio, principalmente a mulher
  93. 4:36imigrante aí, mulheres, mães também
  94. 4:38migrantes, né? Eh, isso é legal.
  95. 4:43essa oficina, então, ela nasce, né,
  96. 4:45dessa minha experiência profissional
  97. 4:47entre os territórios. E aí eu vou falar
  98. 4:50muito dessa dessa travessia, né, entre
  99. 4:53língua, afeto, eh, e até de continente,
  100. 4:56que que me fez ter essa reconstrução,
  101. 5:00né, vivida longe de casa, entre aspas,
  102. 5:03do ninho, né, e que foi aí, claro,
  103. 5:05atravessada pela migração e pela
  104. 5:07interculturalidade. A gente vai explorar
  105. 5:09bastante esses temas.
  106. 5:12Eh,
  107. 5:13antes de trabalhar então com a migração,
  108. 5:16né, aqui eh enquanto psicóloga, eu
  109. 5:19também precisei aprender a ser migrante.
  110. 5:23Então, isso para mim é é importante
  111. 5:25demais. Então, falo muito da da das
  112. 5:27minhas falas pessoais aqui do território
  113. 5:29que eu fui percorrendo também como
  114. 5:31pessoa. E foi aí nesse atravessamento,
  115. 5:34né, de cultura, de mundo, que eu comecei
  116. 5:37a compreender o quanto migrar eh traz
  117. 5:41dimensões profundas, né? tem camadas e
  118. 5:43camadas, processos ali de reconstrução,
  119. 5:47eh, de ressignificação dupla, de
  120. 5:50encontros surpreendentes, mas também das
  121. 5:52ausências presentes, das distâncias e
  122. 5:55principalmente de desraisamento, né?
  123. 5:57Vamos falar um pouquinho de tudo isso aí
  124. 5:59nesse tempo que a gente tem.
  125. 6:03Gosto de começar sim, né, trazendo
  126. 6:05alguma coisa que
  127. 6:08aquilo que nos parece natural muitas
  128. 6:10vezes também é cultural.
  129. 6:13Então, acho bacana a gente colocar isso,
  130. 6:16né? A gente traz a naturalidade da
  131. 6:18imigração, de se locomover, de ir e vir.
  132. 6:20Isso tudo hoje em dia é tão mais
  133. 6:22acessível ou acontece por outras
  134. 6:25questões também, né, mundiais ali de
  135. 6:27deslocamento.
  136. 6:28Eh, mas a cultura ela permeia muito isso
  137. 6:32e a gente vai precisar falar bastante da
  138. 6:34questão cultural. Eh, e ela está ali
  139. 6:39intrínseca em todos os nossos processos
  140. 6:42praticamente, né, do imigrante, eh, do
  141. 6:45cuidar, do nascer, do construir, seja
  142. 6:48qualquer tipo de construção que a gente
  143. 6:50vá fazer eh no novo lugar, do morrer, do
  144. 6:53sofrer, do ser mãe, do criar filhos, do
  145. 6:57pedir ajuda, do pertencer, né? Tudo isso
  146. 7:00parece uma coisa tão natural, mas também
  147. 7:03é totalmente peremeada pelo cultural.
  148. 7:06Eh, a grande pergunta aqui é: o que
  149. 7:09acontece, né, quando essas referências
  150. 7:11todas atravessam fronteiras.
  151. 7:14Eh,
  152. 7:15é algo entre o desraisamento e a
  153. 7:18construção do próprio self, né? Então, a
  154. 7:20gente precisa aí trabalhar com as raízes
  155. 7:24que saem de um solo conhecido e que vai
  156. 7:27ser reconstruído em um outro lugar que
  157. 7:30às vezes não é tão eh,
  158. 7:34né, é árido, não é tão interessante
  159. 7:36quanto aquilo que a gente já conhecia.
  160. 7:40Algo que eu acho bem legal trazer,
  161. 7:42principalmente para quem trabalha aí,
  162. 7:44né, na saúde, na saúde mental, que a
  163. 7:46gente não pode de jeito nenhum falar
  164. 7:48que, né, associar talvez migração com
  165. 7:52patologia, né? Migração não é
  166. 7:54diagnóstico.
  167. 7:55Às vezes a gente vai estudar muito eh
  168. 7:59questões de migração e muitos dos nossos
  169. 8:02estudos tá muito pautada no luto, na
  170. 8:04perda, né, na na na desconstrução, então
  171. 8:09da da angústia até, né, muitas muitas
  172. 8:12muitas coisas que a gente estuda vai
  173. 8:13estar muito pautada nisso e isso às
  174. 8:16vezes nos leva direto ali para achar que
  175. 8:19talvez é uma forma de patologia, mas não
  176. 8:22é, né? Então, a gente não pode eh a
  177. 8:24gente precisa diferenciar, né, de
  178. 8:27migração, de algo patológico, eh porque
  179. 8:30a migração ela pode significar muita
  180. 8:32coisa legal e na e muitas vezes
  181. 8:34significa, né, a minha migração, por
  182. 8:36exemplo, foi algo interessante. Eh, pode
  183. 8:39ser uma oportunidade, processo de
  184. 8:41autonomia, de segurança, de crescimento,
  185. 8:44de liberdade, de reconstrução mesmo, eh,
  186. 8:47consciente, eh, procura de, né, de
  187. 8:50oportunidade novamente, eh, mas também
  188. 8:53pode envolver rupturas e, e geralmente
  189. 8:56envolve adaptação turbulenta, perdas,
  190. 9:00né, mesmo que seja as perdas simbólicas,
  191. 9:02ambivalência, reconstrução identitária,
  192. 9:05dor. Eh, e é interessante colocar aqui
  193. 9:08também que não existe eh uma única
  194. 9:12experiência migratória. Isso é muito
  195. 9:14legal e muito importante pra gente
  196. 9:16entender quando a gente tá trabalhando
  197. 9:18neste contexto eh e com pessoas eh
  198. 9:21migrantes. Não existe. A gente não pode
  199. 9:24colocar a migração somente num potinho.
  200. 9:26A gente precisa às vezes singularizar e
  201. 9:29identificar de que imigração que a gente
  202. 9:31tá falando, que sujeito que entrou, né,
  203. 9:34no nosso cuidado de assistência. né? Eh,
  204. 9:37da onde ele vem, eh, da onde surgiu essa
  205. 9:43imigração dele, né? Em que contextos.
  206. 9:45Então, ela não é uma única experiência.
  207. 9:48a gente não pode falar somente de uma
  208. 9:50migração, mas a gente precisa e olhar
  209. 9:52aquele sujeito um pouco mais para
  210. 9:54entender é o lugar de fala dele e poder
  211. 9:56acessar muito mais ali um tratamento eh
  212. 10:01eh ou qualquer tipo de assistência que a
  213. 10:04gente esteja prestando para aquele
  214. 10:05indivíduo, né, ou para aquela família.
  215. 10:08Migrar não é só deslocar.
  216. 10:11Eh, migrar não é só mudar de país, né?
  217. 10:14Ou quando a gente vai falar de Brasil,
  218. 10:16por exemplo, não é só mudar de estado.
  219. 10:19Brasil é um, como se diz, cabe uma
  220. 10:21Europa dentro. Então também quando a
  221. 10:23gente migra dentro de um de um lugar tão
  222. 10:26rico culturalmente, tão diferente, né? A
  223. 10:30gente não pode falar que só é eh a a
  224. 10:33deslocação eh o deslocamento eh
  225. 10:37logístico, né? A gente desloca-se das
  226. 10:40próprias referências de existência.
  227. 10:43Então isso é é o deslocar do migrar, né,
  228. 10:47da língua, dos vínculos, da cultura, dos
  229. 10:51modos de significar o mundo. Então, por
  230. 10:54mais que seja árido o lugar onde a gente
  231. 10:57saiu, a gente desenvolveu muita coisa, a
  232. 11:00gente desenvolveu referências de
  233. 11:02existência ali. Então, aquilo por si só
  234. 11:04vai ser importante, por mais que eu
  235. 11:06esteja abandonando, né? Então aquilo vai
  236. 11:09entrar ali no meu subjetivo eh de
  237. 11:11indivíduo. Eh,
  238. 11:15trata-se, né, então migrar de uma
  239. 11:17experiência de reorganização subjetiva
  240. 11:19profunda. A migração, ela pode ser
  241. 11:21compreendida, né, como uma experiência
  242. 11:23de ruptura, no qual o que sustentava,
  243. 11:26né, o nosso eu, o nosso self, deixa de
  244. 11:29estar disponível de forma imediata.
  245. 11:32Então, por isso que muitos migrantes aí
  246. 11:35eh, principalmente quando vão para
  247. 11:36outros países, né, outros continentes aí
  248. 11:40diferentes, a gente se sinta um pouco
  249. 11:42perdido porque parece que ali que o que
  250. 11:44tava eh nos sustentando ficou meio
  251. 11:46chacoalhado porque as referências não
  252. 11:48estão ali o tempo inteiro, não estão
  253. 11:51presentes de forma imediata e eu vou ter
  254. 11:53que reaprender a lidar com isso.
  255. 11:58Eh, a experiência migratória ela
  256. 12:02ela acontece e em contexto, né? Então,
  257. 12:05interessante a gente colocar isso aqui
  258. 12:07também. Tem o antes, tem o durante e tem
  259. 12:09o depois. Eu preciso, quando eu tô aí
  260. 12:12trabalhando com assistência migratória
  261. 12:14intercultural, entender esse contexto
  262. 12:16aonde que o indivíduo ou o coletivo ali
  263. 12:19que tá vindo pra gente, ele se encontra.
  264. 12:22Então, tem contexto da pré-migração, que
  265. 12:25são ainda, né, as pessoas eh que tão que
  266. 12:29pretendem, né, emigrar, que tão com que
  267. 12:32trazem medos, que trazem angústias ou
  268. 12:34que ainda tão ali naquele processo do
  269. 12:36pré eh entender história pessoal e
  270. 12:38familiar, condições sociais, eh,
  271. 12:41violência ou traumas prévios, motivos
  272. 12:44para emigrar, às vezes vem muito, né, o
  273. 12:46trabalho, né, claro, postório privado,
  274. 12:49vem muito às vezes, eh, pessoas Ah, eu
  275. 12:52eu vou eu vou me mudar, queria, né,
  276. 12:54pegar aqui um auxílio, eh, para poder
  277. 12:57fazer isso da melhor forma. Então, são
  278. 12:59esse tipo de de coisa que vem, né, as
  279. 13:02histórias, eh, por que tá saindo, qual é
  280. 13:05o motivo para emigrar, né, as condições
  281. 13:08também com que essa pessoa vai emigrar.
  282. 13:10Então, isso vem muito. Daí tem o
  283. 13:12percurso migratório, né? Então, a gente
  284. 13:14às vezes atende também aí as pessoas que
  285. 13:16tão nesse percurso, eh, questões de
  286. 13:20segurança, de separações, a condição do
  287. 13:23deslocamento, né? Como que tá sendo
  288. 13:25isso? E claro, acho que todos os
  289. 13:27processos a incerteza, o saber, o ter
  290. 13:30ali um um ponto, né, onde eu possa
  291. 13:33falar, não, realmente é isso aqui, né?
  292. 13:36tem muita incerteza ainda dentro do
  293. 13:38processo. E depois o pós-migração, que
  294. 13:41aí entram mais as questões de onde eu
  295. 13:43moro, qual é o meu trabalho, questões de
  296. 13:46idioma, né? principalmente quando você
  297. 13:48vai para um outro país eh de uma fala
  298. 13:51diferente, você vai ter que reaprender.
  299. 13:52Por mais que você saiba um pouco daquela
  300. 13:55língua, quando você entra num contexto
  301. 13:56nativo, é diferente.
  302. 13:59eh documentação, aí entram questões de
  303. 14:02de eh migratórios mesmos, de visto, né,
  304. 14:05ou de documentação legal, rede de apoio
  305. 14:08e comunidade, né, aonde eu pertenço, eh
  306. 14:11quem tá comigo por aqui, procurar ali as
  307. 14:14referências, talvez que sejam
  308. 14:16interessantes naquele momento. Questões
  309. 14:19de discriminação, isso claro, eh muito.
  310. 14:22e as questões de acessos também, porque
  311. 14:25às vezes eh eh dependendo da da onde
  312. 14:28aquele imigrante vai, ele tem a
  313. 14:30oportunidade de ter acessos a muita
  314. 14:32coisa na maioria dos, né, dos lugares e
  315. 14:34tal, mas ele não tem talvez a
  316. 14:37possibilidade de acessar aquilo por n
  317. 14:39motivos. Então, a gente vai entender
  318. 14:40isso um pouquinho também. É interessante
  319. 14:42que o profissional eh entenda. Eh, a
  320. 14:45saúde mental, que é da onde eu falo, não
  321. 14:47pode ser compreendida fora deste
  322. 14:49contexto. A gente precisa contextualizar
  323. 14:52a experiência migratória desse
  324. 14:54indivíduo, desse coletivo, dessa
  325. 14:56família.
  326. 15:02Agora a gente vai entrar, né, falando um
  327. 15:04pouco mais sobre luto migratório. Quero
  328. 15:06expandir esse conceito. Eh, mas primeiro
  329. 15:09eu queria trazer um pouco do conceito de
  330. 15:11luto, que é importante, né? é algo que a
  331. 15:14gente tem que estudar muito quando a
  332. 15:16gente vai falar e trabalhar com
  333. 15:18imigração, porque é como se viesse de
  334. 15:20mãozinha dada, né, com com com sair de
  335. 15:24um lugar.
  336. 15:26Eh, e aí o luto não é apenas sobre a
  337. 15:29morte, né? que a gente precisa falar
  338. 15:31sobre o que a todas as questões que
  339. 15:33atravessam, né, esse esse esse sentir. O
  340. 15:37luto em sua dimensão mais profunda, né,
  341. 15:39não se refere apenas ausências de
  342. 15:41alguém, né, de um objeto, de algo que se
  343. 15:44foi, mas a reorganização do mundo
  344. 15:47interno diante da ruptura de um vínculo
  345. 15:49significativo, que é aquilo que eu tava
  346. 15:52falando um pouquinho antes, né, do lugar
  347. 15:53de referência eh para alguém, né? Então,
  348. 15:58quando a gente perde alguém, a gente
  349. 16:00sente muito porque a gente vinculou
  350. 16:02significativamente com essa pessoa.
  351. 16:05Então, quando a gente sai de um país,
  352. 16:06quando a gente perde um objeto, a
  353. 16:08criança que perdeu um brinquedo, né, a
  354. 16:10gente tá vivendo eh uma forma de luto
  355. 16:13também, porque tinha um uma porque teve
  356. 16:15uma ruptura de um vínculo significativo.
  357. 16:18Eh, o sofrimento do luto, ele emerge da
  358. 16:21quebra de uma ligação afetiva, né, que
  359. 16:23sustentava a experiência desse sujeito.
  360. 16:26Quando essa ligação ela se rompe, não é
  361. 16:29apenas o outro, né, ou a outra coisa que
  362. 16:31se pede. Pede-se também a forma como o
  363. 16:34mundo era vivido na presença desse
  364. 16:37vínculo. É como se o mundo tivesse eh
  365. 16:41sido remexido, né? soltei um monte de
  366. 16:44coisa no ar e aí ela precisa assentar
  367. 16:46com o tempo e isso às vezes leva
  368. 16:49bastante tempo. Eh, num contexto, por
  369. 16:53exemplo, da maternidade, essa dinâmica
  370. 16:55assume eh contornos particularmente
  371. 16:58intensos, né? Então eu vou falar isso
  372. 16:59daí um pouquinho mais paraa frente. Não
  373. 17:03se perde apenas alguém, né? Perde-se um
  374. 17:05modo de existir com esse alguém também,
  375. 17:09né? Com essas coisas. Eh, se você, né,
  376. 17:13eh, eh, eh, me perguntaram sobre o calor
  377. 17:16aqui, então assim, um dos meus grandes
  378. 17:17lutos eh aqui morando na Irlanda é a
  379. 17:21falta de sol, é a falta do calor, é a
  380. 17:24falta de entrar numa praia aqui com água
  381. 17:26quentinha, sabe? Então assim, é o meu
  382. 17:28luto, eh, porque eu perdi esse modo de
  383. 17:32existir, eh,
  384. 17:35porque a Irlanda, sei lá, se meses no
  385. 17:37ano, ela é gelada, então não tem aquele
  386. 17:40calor, né? Eu vou pro Brasil, procuro ir
  387. 17:43em épocas de verão, todo mundo
  388. 17:44reclamando do calor e eu assim, ai que
  389. 17:47gostoso, vou voltar recarregada. É, esse
  390. 17:50essa é a minha fala, né? Porque eu perdi
  391. 17:52algo que para mim era muito gostoso. Já
  392. 17:55tem outras pessoas, né? Por isso que tem
  393. 17:57que ter um contexto, né? Luto e a
  394. 17:59migração é diferente que não gosta do
  395. 18:02calor e aí sai do Brasil também, vai
  396. 18:05para um lugar mais gelado e adora e
  397. 18:07fala: "Ai, me encontrei porque, nossa,
  398. 18:1040º não consigo lidar, quero ficar de
  399. 18:13casaco e tá ótimo isso aqui para mim,
  400. 18:15né?" Então, olha o lugar de referência.
  401. 18:18Então vamos adentrar algo aqui que é
  402. 18:20muito muito legal, assim, gosto muito de
  403. 18:22falar sobre isso, que é o luto cultural
  404. 18:25ou luto migratório, né? Eh, a migração
  405. 18:29ela pode ser compreendida, né, como uma
  406. 18:31forma de luto.
  407. 18:33Aqui nas nas referências eh
  408. 18:37em inglês, né, de autores de língua
  409. 18:39inglesa, eles falam muito de cultural
  410. 18:41berevement, que é como se fosse um pouco
  411. 18:44dessa desse luto cultural, né, muito
  412. 18:47mais do que o luto migratório, porque
  413. 18:49eles falam que a cultura permeia, né,
  414. 18:52totalmente eh, esse processo.
  415. 18:56Eh, mas outros autores trazem luto
  416. 18:58migratório, né? Eles já coloca um pouco
  417. 19:00mais do que somente a cultura. Eh,
  418. 19:04migrar também implica elaborar perdas,
  419. 19:06né? E é um luto particular, é o luto do
  420. 19:10que foi perdido que continua existindo,
  421. 19:14né? Não é assim, eu perdi porque
  422. 19:16quebrou, porque morreu, porque não
  423. 19:19existe mais. Não, continua existindo,
  424. 19:22mas deixa de estar acessível. Então é
  425. 19:25difícil isso porque eu consigo acessar
  426. 19:28de tempos em tempos, né, quem consegue
  427. 19:30voltar para esses lugares e aquilo
  428. 19:33também vai se modificando, né? E o que
  429. 19:35fica é uma lembrança que não é mais
  430. 19:37acessível. Então é aquele luto meio
  431. 19:40particular.
  432. 19:42Eh, surge a experiência de ausência
  433. 19:45presente. Isso aqui todo o imigrante vai
  434. 19:48viver, né? Todo imigrante vai viver. a
  435. 19:50ausência presente, o luto migratório,
  436. 19:54então, né, o luto por tudo que ficou do
  437. 19:56outro lado, do oceano, do estado, do
  438. 19:59país, do lugar de referência eh materna,
  439. 20:04né, o ninho materno, o lugar de
  440. 20:06referência de nascimento, talvez daquele
  441. 20:08lugar de construção primária.
  442. 20:11Eh, é também o luto por tudo que não se
  443. 20:14poôde trazer, levar tempero regional, o
  444. 20:18cheiro, os rituais.
  445. 20:21É uma dor que atravessa o tempo e o
  446. 20:23espaço e que se mistura a maternidade, a
  447. 20:26parentalidade, aos marcos vividos eh
  448. 20:29longe da terra natal. A gente reacessa
  449. 20:32esse luto
  450. 20:34toda vez que a gente vai viver um marco,
  451. 20:37porque a gente tem referências que não
  452. 20:40são desse lugar onde a gente escolheu
  453. 20:43ficar, né? Eh, a gente vai falar um
  454. 20:46pouquinho mais sobre isso. Então, é o
  455. 20:48tempo todo, né? é o sol. Ai, queria essa
  456. 20:52comida nesse determinado
  457. 20:55momento, Natal, por exemplo, né? Uma
  458. 20:57Páscoa, não sei, alguma coisa que a
  459. 20:59gente comemore. Eh, um carnaval que aqui
  460. 21:02não existe, não tem, a não ser que a
  461. 21:04gente vá para uma comunidade brasileira,
  462. 21:07até os cheiros assim, ai que cheiro, não
  463. 21:09sei do quê. Eh, e claro, os rituais de
  464. 21:12passagem ou rituais interessantes que
  465. 21:14são determinadas ali também pela cultura
  466. 21:17daquele lugar.
  467. 21:20Vamos expandir um pouco mais fundamentos
  468. 21:22do luto migratório, então, né? É um
  469. 21:24processo psicológico complexo que
  470. 21:27acompanha o deslocamento de uma pessoa
  471. 21:29de seu país, né? Eh, cultura ou
  472. 21:32território de origem para outro contexto
  473. 21:35sociocultural. Embora nem sempre seja
  474. 21:38reconhecido como uma forma de luto, né,
  475. 21:40no sentido tradicional, trata-se de uma
  476. 21:43vivência de perdas múltiplas e contínuas
  477. 21:45que atravessa dimensões concretas e
  478. 21:48simbólicas da existência, né, contínuas,
  479. 21:50porque é aquilo que eu tava falando,
  480. 21:52sempre vai existir, não é uma coisa que
  481. 21:55cessa. Por mais que eu esteja
  482. 21:56completamente adaptado ao outro lugar,
  483. 21:59vai ter resquícios de coisas que eu vou
  484. 22:01sentir falta, que vai est esburacado.
  485. 22:04Eh, isso não me impede, né, de ser
  486. 22:06feliz, de viver, de reconstruir, mas vai
  487. 22:09ter alguma coisa ali o tempo inteiro e
  488. 22:12vai entrar eh na subjetividade daquela
  489. 22:15pessoa. Esse luto, né, ele não se limita
  490. 22:18somente ao momento da partida, ele se
  491. 22:21atualiza constantemente nas pequenas
  492. 22:23rupturas cotidianas, nas ausências de
  493. 22:26referência, nas dificuldades de
  494. 22:27comunicação e na sensação de não
  495. 22:30pertencimento, que acontece muito,
  496. 22:33principalmente num luto, eh, numa
  497. 22:36migração, eh, mais recente, assim, né,
  498. 22:38nos primeiros anos, tal.
  499. 22:41A imigração, né, ela implica um tipo de
  500. 22:44luto que não se encerra, um luto parcial
  501. 22:47e crônico, porque o objeto perdido, a
  502. 22:50terra natal, a língua, os vínculos, a
  503. 22:53identidade social permanece vivo na
  504. 22:55memória, mas inacessível no cotidiano.
  505. 22:59Acho que isso assim traduz muito eh o
  506. 23:02conceito de luto migratório, né? Esse
  507. 23:04luto parcial e crônico, ele vai ser para
  508. 23:08sempre.
  509. 23:09Diferentemente do luto pela morte, em
  510. 23:11que há uma delimitação temporal e
  511. 23:13concreta da perda, né? O luto
  512. 23:16migratório, ele se caracterica pela
  513. 23:17ausência presente. O que foi deixado
  514. 23:20continua a existir, mas distante,
  515. 23:23gerando uma dor que se renova a cada
  516. 23:25lembrança e a cada comparação. Então aí
  517. 23:28por isso que elas afetam os processos,
  518. 23:30né? os processos vividos ao longo do
  519. 23:33tempo, eh, uma, né, uma gestação, eh, a
  520. 23:37troca de um emprego, a compra de uma
  521. 23:39casa, eh, uma nova um novo novo
  522. 23:42deslocamento. Então, vai sendo afetado
  523. 23:45aí eh a partir das da das vivências
  524. 23:47daquela pessoa que migrou
  525. 23:53que pode ser perdido quando migramos.
  526. 23:58Essa ruptura do ambiente, ela impacta na
  527. 24:00continuidade do nosso self, né, do nosso
  528. 24:03eu. Então, o sujeito imediatamente ele
  529. 24:06vai precisar reorganizar internamente
  530. 24:09identidade, pertencimento
  531. 24:12e e e conseguir ali de alguma forma a
  532. 24:15estabilidade emocional para poder viver
  533. 24:18tudo aquilo, né? Eh, a migração ela
  534. 24:21desorganiza
  535. 24:23antes de reorganizar.
  536. 24:25você pode ter, claro, tem tem duas
  537. 24:28coisas, né? Mas no começo aqui eu
  538. 24:29trabalhava muito com estudantes,
  539. 24:31estudantes eh de intercâmbio
  540. 24:35brasileiros, então eh
  541. 24:39e trabalhava muito com estudantes que
  542. 24:40ainda não tinha não tinham vindo, então
  543. 24:42fazia todo um uma preparação para essas
  544. 24:45pessoas migrarem. E aí, claro, né, era
  545. 24:48na minha cabeça era muito aquela coisa
  546. 24:49assim, a gente precisa organizar aqui
  547. 24:51minimamente, mas vai tá tudo
  548. 24:54desorganizado quando a pessoa chegar. É
  549. 24:56mais fácil ela vir já, né,
  550. 24:58pré-organizada do que chegar aqui e ser
  551. 25:00aquilo. Eh, porque vai acontecer muita
  552. 25:03coisa que ela não tá, não tem como
  553. 25:05organizar antemão, né? Então, por isso
  554. 25:07que a gente fala que a migração ela
  555. 25:08desorganiza quando ela acontece antes de
  556. 25:12de de te organizar qualquer coisa, de
  557. 25:14reorganizar, porque ela precisa disso,
  558. 25:16ela precisa chacoalhar para que a pessoa
  559. 25:18olhe e fala: "Uau, aqui tem muita coisa
  560. 25:21que eu ainda não conheço, não desse
  561. 25:23jeito vivido". E aí eu vou começar a
  562. 25:26organizar a partir do que faz sentido
  563. 25:28para mim, né? Pros meus pares que estão
  564. 25:31aqui, até a formação de pares, né? Nesse
  565. 25:33sentido, né? né? A imigração, ela pode
  566. 25:35ser pensada como um processo de
  567. 25:37desraizamento psíquico, no qual o
  568. 25:40sujeito se vê privado das bases, né, que
  569. 25:42sustentavam a experiência de
  570. 25:44pertencimento. Mas, no entanto, esse
  571. 25:47desraisamento não é apenas uma perda,
  572. 25:49né? Ele também abre espaço paraa
  573. 25:51criação. Isso que é legal também, né?
  574. 25:53Por isso que não pode ser alguma coisa,
  575. 25:55né, patológica ali de causa e
  576. 25:57consequência, todo imigrante vai sofrer,
  577. 25:59não, porque também ali pode destravar
  578. 26:03muita potencialidade, o que é legal.
  579. 26:06Então, a experiência do migrante, né,
  580. 26:09eh, os Nesteruk aponta, né, que os que
  581. 26:11os migrantes frequentemente desenvolvem
  582. 26:14formas híbridas de pertencimento. Eu
  583. 26:16acho isso muito legal, eh, e é verdade,
  584. 26:20na nas quais elementos da cultura de
  585. 26:23origem e da cultura acolhida, elas são
  586. 26:26articuladas de maneira singular. Eh,
  587. 26:30é verdade. Aqui na Irlanda, por exemplo,
  588. 26:33eu descobri um lugar que vem de acarajé.
  589. 26:37Nossa, o meu marido que é irlandês, ele
  590. 26:42ele come a caraje adora, mas ele come
  591. 26:46Guines, com a bebida irlandesa daqui,
  592. 26:48gente, assim, na minha cabeça não é uma
  593. 26:51coisa que não vai com a outra, né? Mas é
  594. 26:54uma forma híbrida de pertencimento.
  595. 26:56Então eu pertenço aquilo ali também, né?
  596. 26:59A gente vai misturando uma coisa com a
  597. 27:01outra até fazer um pouco de sentido de
  598. 27:04algo que a gente já tem na história e de
  599. 27:06algo que a gente agora passa a ser
  600. 27:09pertencente também. Eh, mas às vezes
  601. 27:12esses processos não ocorrem sem tensão,
  602. 27:15né? A identidade imigrante é
  603. 27:17frequentemente marcada por contradições,
  604. 27:19muitas, exigindo aí um trabalho psíquico
  605. 27:22constante de negociação. A gente negocia
  606. 27:25coisas o tempo inteiro, né? Então,
  607. 27:28porque a gente tá vivendo com
  608. 27:29ambivalência, fico, volto, mudo de novo.
  609. 27:33Eh, o que que é isso, né? Porque os
  610. 27:35buraquinhos estão sempre ali. A gente tá
  611. 27:36achando que ai não é aquele lugar, né?
  612. 27:39Nostalgia intensa, idealização do país
  613. 27:42de origem, isso acontece demais. Eh, e
  614. 27:46aí às vezes a gente volta e a gente
  615. 27:48fala: "Calma aí, mas também não pertenço
  616. 27:50mais a isso aqui". Então dá um nó.
  617. 27:53Sensação de não pertencimento em lugar
  618. 27:55nenhum acontece às vezes até quando a
  619. 27:57gente volta de férias para algum lugar,
  620. 27:59quem tem essa possibilidade,
  621. 28:01eh, e uma fragmentação identitária,
  622. 28:03então acontece por aí. Novamente, não
  623. 28:06são sintomas, isso são processos, né?
  624. 28:09Então, a gente tem que sair dessa coisa
  625. 28:11patológica e colocar muito nessa coisa
  626. 28:13do processo do migrante, né? Isso vai
  627. 28:16acontecer e talvez tenha que acontecer
  628. 28:19novamente de uma forma ou de vários
  629. 28:22tipos de forma. Quando a gente fala
  630. 28:24também de experiência migrante, eh, a
  631. 28:27gente precisa pensar assim que imagina a
  632. 28:29migração ela ela é se jogar num oceano,
  633. 28:33né? Eu eu gosto de visualizar as coisas,
  634. 28:36só que cada pessoa que vai entrar ali
  635. 28:37naquele oceano, ela vai entrar de uma
  636. 28:39forma. Tem gente que vai entrar de
  637. 28:41lancha, tem gente que vai entrar de
  638. 28:44barquinho a remo, tem gente que vai ir
  639. 28:47nadando e tem gente que vai ser jogado.
  640. 28:50Então eu preciso entender que processo é
  641. 28:52esse, né, que aquela pessoa, que aquele
  642. 28:54indivíduo, que aquela família tá
  643. 28:56experienciando, porque são distintas
  644. 28:59completamente a partir do mesmo do mesmo
  645. 29:02ponto
  646. 29:05entre a perda e a transformação, né? Eh,
  647. 29:09tô falando muito de literatura
  648. 29:10internacional porque é o que eu costumo
  649. 29:13muito mais aqui, né? Eh, mas ela tem
  650. 29:16demonstrado assim de forma consistente
  651. 29:18que a migração ela tá associada eh
  652. 29:20também ao aumento de vulnerabilidade
  653. 29:22psíquica, especialmente em contextos de
  654. 29:25desigualdade social, discriminação e de
  655. 29:28instabilidade.
  656. 29:30Eh, a migração é simultaneamente, né,
  657. 29:33eh, perda ruptura, mas também
  658. 29:35possibilidade. Então é aquele, a gente
  659. 29:38não sabe direito o que que tá
  660. 29:39acontecendo ali na na vida daquele
  661. 29:41indivíduo, mesmo que seja uma migração
  662. 29:43completamente consciente e planejada,
  663. 29:45né?
  664. 29:47É uma perda, né? Muito particular. Eh,
  665. 29:50novamente, aquilo que eu deixei continua
  666. 29:52existindo, a família continua lá, a
  667. 29:54cidade continua lá, a língua continua
  668. 29:56lá, a vida continua acontecendo, mas já
  669. 29:59não estão disponíveis para mim da mesma
  670. 30:01maneira, né? é uma experiência de
  671. 30:04ausência e presenças simultâneas.
  672. 30:07Eh, mas é legal é que abre espaço
  673. 30:10também, né, para novas formas de
  674. 30:12existir, mesmo sejam híbridas.
  675. 30:15Eh, e é interessante, né, coisas que a
  676. 30:18gente pega muito trabalhando com
  677. 30:20imigrantes, que é quando eu volto pro
  678. 30:23lugar de origem, eu percebo que eu
  679. 30:25também mudei e que o lugar também mudou.
  680. 30:28Porque às vezes, né, imagina, você tá 5
  681. 30:31anos num lugar fora e aí você tá ali o
  682. 30:33tempo inteiro, não, não quero isso
  683. 30:35porque ali é melhor, porque aquilo ali
  684. 30:37era melhor, porque a comida não é
  685. 30:39melhor. E aí você volta. às vezes tem um
  686. 30:42choque, uma experiência muito
  687. 30:44complicada, porque a pessoa mudou os
  688. 30:47gostos, aquilo também não é daquele
  689. 30:50jeito com que a pessoa formulou. A às
  690. 30:54vezes até vem formulações muito
  691. 30:56primárias da infância que a gente
  692. 30:58mistura tudo no mesmo barco e parece,
  693. 31:01né, como se fosse ali o lugar. E a gente
  694. 31:04volta para uma realidade ali da onde a
  695. 31:06gente saiu, mas que também aconteceu
  696. 31:08transformações e a gente tem um choque
  697. 31:11porque aí a gente se confronta com algo
  698. 31:13que
  699. 31:15não tá mais ali, não é mais daquele
  700. 31:17jeito, tá na meu imaginário, né, entre
  701. 31:19dois lugares. Eh, e às vezes daí você
  702. 31:23quando faz esse tipo de de de coisa, eh,
  703. 31:27você se sente não pertencente a nenhum e
  704. 31:30não precisa nem ir para esse lugar. às
  705. 31:32vezes você não se vê mais naquele lugar,
  706. 31:34mas você também não se vê, não se vê
  707. 31:36totalmente nesse lugar eh de chegada,
  708. 31:39né? Aqui a gente, eu trago um conceito
  709. 31:42também que é interessantíssimo, né, de
  710. 31:44poder falar, que é a questão eh da
  711. 31:48importância de construção da identidade
  712. 31:51transnacional, né, que o que é que é a
  713. 31:54possibilidade
  714. 31:56eh de construir pertencimentos múltiplos
  715. 31:59sem precisar pagar uma parte da da
  716. 32:02própria história. Então, às vezes eu
  717. 32:04trabalho muito isso em consultório ou,
  718. 32:07né, no no nos nos projetos eh coletivos
  719. 32:11e sociais, né, de construção eh de
  720. 32:15identidade transnacional, porque eu
  721. 32:17posso ser muita coisa, eu posso gostar
  722. 32:19de dois lugares igualmente. Eu posso
  723. 32:22amar muita coisa no meu país e gostar de
  724. 32:25muita coisa aqui. Eu não preciso ser só
  725. 32:27uma coisa ou outra. eu posso ter dupla
  726. 32:29cidadania, eu posso, né, eh, e eu não
  727. 32:33preciso apagar parte da minha história
  728. 32:34para viver outra história. Então, às
  729. 32:36vezes, eh, isso acontece, né? Já peguei,
  730. 32:41por exemplo, eu trabalho muito com
  731. 32:42criança, já peguei casos eh
  732. 32:46infantis aqui eh em que a criança que
  733. 32:50tinha mudado com a família se recusava a
  734. 32:53fazer alguns rituais, algumas coisas,
  735. 32:55até a mesma fala na língua inglesa,
  736. 32:58porque era como se ela tivesse ali eh
  737. 33:03negando a existência brasileira dela,
  738. 33:06né? Ela sentia muita falta da avó, da
  739. 33:09casa, do quarto, então ela tava ali
  740. 33:11afastando tudo que não era aquilo. Ao
  741. 33:13invés de falar: "Não, né, não precisa
  742. 33:16pagar isso da minha história, eu posso
  743. 33:18fazer o multi, né, posso ter um
  744. 33:21pertencimento múltiplo." E aí era o meu
  745. 33:22trabalho, é o meu trabalho com esse tipo
  746. 33:25de de demanda aqui também, né, que é a
  747. 33:28construção da identidade transnacional,
  748. 33:34língua, cultura e identidade. Acho isso
  749. 33:36muito bacana, a gente poder falar um
  750. 33:38pouquinho, eh, porque acho que a língua,
  751. 33:41né, principalmente essa a linguagem
  752. 33:43verbal aí, a de comunicação, eh, quando
  753. 33:45a gente muda de país, é o que é afetado
  754. 33:48assim logo de início, né? Então,
  755. 33:51imagina, eu vi, vim para cá, eu não
  756. 33:53tinha inglês, eh, aquele inglês básico
  757. 33:56ali da escola, né, de poder ler alguma
  758. 33:58coisa, de falar o hello, mas assim,
  759. 34:02naquele choque quando você tá aqui, é
  760. 34:05interessantíssimo. Assim, eu não consigo
  761. 34:06nem me comunicar, aquilo que eu tinha
  762. 34:09ali foi tá tá zero, né? Então, é
  763. 34:12interessante a gente poder falar sobre
  764. 34:14isso. A língua ela não é apenas
  765. 34:16comunicação, né? A língua ela é memória,
  766. 34:19ela é afeto, infância, humor,
  767. 34:21identidade, pertencimento.
  768. 34:24Eh, e quando a gente trabalha com
  769. 34:27sofrimento, com saúde, talvez saúde
  770. 34:29mental, em qual língua essa pessoa
  771. 34:31consegue sofrer?
  772. 34:33eh coisas às vezes que porque às vezes
  773. 34:37eh profissionais é profissionais,
  774. 34:39indivíduos procuram muito eh assistência
  775. 34:41brasileira mesmo dentro da Irlanda, né,
  776. 34:44para fazer uma terapia, eh procuram
  777. 34:46médicos ou isso, aquilo tudo ali ou
  778. 34:49outros profissionais que vão auxiliar,
  779. 34:51porque ela traz muito isso, né? Eu não
  780. 34:53consigo eh falar de sofrimento sem ser
  781. 34:57na minha língua. Eu não aprendi isso,
  782. 34:59então não não não não traduzo essa
  783. 35:03verdade. A tradução é pobre quando eu
  784. 35:05falo numa outra língua, né? Então é
  785. 35:08difícil. Imagina, a gente vai falar
  786. 35:09alguma coisa numa outra língua já é
  787. 35:11difícil. Falar de sofrimento eh é é mais
  788. 35:15complicado, né? Então a língua também é
  789. 35:18casa, né? Ela faz com que a gente se eh
  790. 35:20vá se construindo ali através do que a
  791. 35:23gente consegue expressar.
  792. 35:25Falar uma língua, né? é diferente de
  793. 35:28conseguir sentir nela. Eh, eu fiquei por
  794. 35:31anos aqui, eu não significava palavrão,
  795. 35:35por exemplo, em inglês. A pessoa falava,
  796. 35:39eu entendia, né? Não tá falando para
  797. 35:41mim, mas eu entendia o significado do
  798. 35:43palavrão, porque você traduz, mas aquilo
  799. 35:45não tinha sentido. Agora, se fosse
  800. 35:48alguém falando em português, eu até, né,
  801. 35:50aquilo ali entrava de uma forma. Por
  802. 35:53quê? porque eu conseguia sentir o que eu
  803. 35:56tava escutando. Então, falar uma língua,
  804. 35:58né, quando a pessoa aprende uma língua,
  805. 36:00não é, não é eh eh um mais um, são dois,
  806. 36:05que ela vai conseguir sentir aquela
  807. 36:07língua. Isso leva tempo. E às vezes, eh,
  808. 36:11as traduções assim na outra língua, ela
  809. 36:14vai ter que adaptar também, né? Por
  810. 36:16exemplo, no inglês eles usam, sei lá,
  811. 36:19amchas, né? Eu posso traduzir como, ah,
  812. 36:21eu tô ansioso, mas o brasileiro às vezes
  813. 36:23vai falar: "Ai, tô sem chão, né? Como eu
  814. 36:26vou traduzir isso? Eu não consigo." É
  815. 36:27uma expressão, né? Então tem muito isso
  816. 36:30também que às vezes a gente não consegue
  817. 36:33sentir,
  818. 36:34né? A proficiência linguística não é
  819. 36:37necessariamente segurança emocional na
  820. 36:39língua. Tem gente que vem para cá, é
  821. 36:42fluente na língua, né? porque já estudou
  822. 36:44no Brasil ou porque já eh morou e tal e
  823. 36:48sofre muito com a imigração. Então, as
  824. 36:50pessoas às vezes até fala: "Nossa, mas
  825. 36:52você fala tão bem, mas você não deveria,
  826. 36:55né, um trabalho, uma mudança?" Mas é
  827. 36:57porque às vezes ela não tá sentindo
  828. 36:59ainda a língua daquele lugar, né? Então
  829. 37:02o cuidado intercultural, ele precisa
  830. 37:04considerar não apenas o que foi dito,
  831. 37:06mas o significado cultural e afetivo
  832. 37:09daquilo que tá sendo comunicado.
  833. 37:11É meu tempo aqui, gente, que senão eu
  834. 37:13vou e falo, falo, falo, falo, OK?
  835. 37:17Para quem trabalha na assistência, né,
  836. 37:19eh, com com eh migrante, fiquem longe de
  837. 37:24duas armadilhas, né, que eu acho
  838. 37:27interessante falar
  839. 37:29patologizar a diferença, né? é diferente
  840. 37:32do que conheço. Então, portanto, é
  841. 37:34patológico, né? Já vi profissionais
  842. 37:36fazerem isso eh em sistemas de
  843. 37:40assistência ali. Então, assim, é
  844. 37:43diferente do que eu conheço. Deixa eu
  845. 37:44dar uma conhecida, deixa eu entender o
  846. 37:46que que é isso aqui, né? E não colocar
  847. 37:48num lugar eh de patologização só porque
  848. 37:52é diferente. Deixa eu ver o que que que
  849. 37:54essa pessoa também quer quer comunicar
  850. 37:56aqui comigo, né? E culturalizar o
  851. 37:59sofrimento, né? por exemplo, é da
  852. 38:01cultura dela, portanto, então não é
  853. 38:03clínico. Nossa, de jeito nenhum. Eu
  854. 38:06trabalho muito na cena do pato aqui, né?
  855. 38:09Na cena da assistência perinatal.
  856. 38:12Ai, mas isso é Brasil. Ai, você, né?
  857. 38:16Nossa, como assim? Ela tá, né? Eh, é uma
  858. 38:19coisa cultural, mas assim, não é porque
  859. 38:22só é cultural, ela tá vivendo, ela tá
  860. 38:24sentindo aquilo, né? Por mais que não
  861. 38:26seja algo daqui. Então, deixa eu
  862. 38:28entender isso aqui também, né? Isso é
  863. 38:30muito importante. Eh, a cultura
  864. 38:33contextualiza a avaliação, claro, mas
  865. 38:36não substitui a avaliação clínica, né?
  866. 38:39Mas ela faz parte.
  867. 38:41Então aqui algumas perguntinhas assim,
  868. 38:43né, para para quem trabalha aí na
  869. 38:45assistência de de não de fazer
  870. 38:48diretamente ali, mas de poder tentar
  871. 38:50entender talvez ali, né, quando vai
  872. 38:52fazer uma triagem, quando vai fazer um
  873. 38:54trabalho com grupos, né, importante
  874. 38:56entender eh como essa pessoa foi chegar
  875. 38:59aqui, o que que ela sentiu e perdeu ao
  876. 39:02migrar, mas também o que que ela ganhou,
  877. 39:04quem faz parte da tua rede hoje, quem
  878. 39:06cuidaria de você no teu país de origem,
  879. 39:09quem cuida de você aqui?
  880. 39:10se existe alguma prática cultural ou
  881. 39:12religiosa importante para você, que
  882. 39:15língua, né, é mais fácil falar sobre o
  883. 39:18que você tá sentindo.
  884. 39:20Isso é são, né, são coisas assim que são
  885. 39:23importantes demais para aquela pessoa.
  886. 39:30Vamos falar então um pouquinho de
  887. 39:31mulheres, né, em contextos migratórios,
  888. 39:33eh, quando o gênero e a migração ela se
  889. 39:36encontram, né? Eh, a experiência
  890. 39:39migratória também é atravessada pelo
  891. 39:41gênero, né? O gênero, hoje aqui vou
  892. 39:43trazer muito no gênero, gênero mulher,
  893. 39:47eh, elas podem coexistir, né? Então, às
  894. 39:51vezes entra muito eh responsabilidade
  895. 39:54pelo cuidado familiar, dependência
  896. 39:57econômica ou migratória,
  897. 39:59isolamento social, violência violência
  898. 40:03baseada em gênero, né? Desigualdade no
  899. 40:05trabalho, aumento às vezes em vários
  900. 40:09contextos de racismo e xenosfobia,
  901. 40:12sobrecarga doméstica e barreiras
  902. 40:14linguísticas institucionais agravados.
  903. 40:17Eh, dá para falar muito sobre todas
  904. 40:20essas aqui, porque são coisas que eu
  905. 40:22trabalho bastante, a gente não vai ter
  906. 40:24tempo, mas às vezes, por exemplo, num
  907. 40:27contexto de migração grande aqui na
  908. 40:30Irlanda, são eh eh pessoas que vêm com
  909. 40:34vistos de trabalho de outro país. A
  910. 40:36Irlanda é muito forte com TI e
  911. 40:38engenharia, por exemplo. Então, vem
  912. 40:40muita gente nesse nesse nicho de
  913. 40:43trabalho, eh, com famílias.
  914. 40:46E aí vem, eh, geralmente quem trabalha,
  915. 40:50né, muito, acho que talvez 70 30%, eh,
  916. 40:5470%, 30% sejam talvez homens ali com
  917. 40:57engenharia, TI, pelo menos é o que
  918. 41:00aparece aqui na Irlanda, eh, e aí vem,
  919. 41:03trazem as famílias. Então, a pessoa, o
  920. 41:05homem tem o visto de trabalho, a mulher
  921. 41:07vem como dependente do visto, né, com as
  922. 41:10crianças. Então, ele está trabalhando,
  923. 41:12ela está em casa, eh, e às vezes, né, o
  924. 41:16que aparece depois de um tempo são essas
  925. 41:19barreiras linguísticas institucionais
  926. 41:22agravadas, porque ela não consegue
  927. 41:23desenvolver, né, porque ela não tem
  928. 41:25nenhum visto de trabalho para, né, tem
  929. 41:28que aplicar, tem que, então tem um rolê
  930. 41:30ainda, né, quando vem nesse sentido, eh,
  931. 41:33a dependência econômica, né, ou a
  932. 41:35dependência migratória, o isolamento
  933. 41:37social, porque às vezes não consegue,
  934. 41:39né, encontrar grupos ou ir ouvir porque
  935. 41:41tem criança pequena ou porque engravidou
  936. 41:44ou porque tem que fazer as coisas ali,
  937. 41:46não sei, também depende da relação. Eh,
  938. 41:50e aí violências baseadas em gênero, né,
  939. 41:52que acabam acontecendo e eu trabalho
  940. 41:54bastante com isso aqui.
  941. 41:59Nicho então aí nas mulheres, né, vamos
  942. 42:01falar um pouquinho de maternidade nos
  943. 42:02contextos migratórios, né? Tornar-se mãe
  944. 42:06na imigração é construir identidade sem
  945. 42:08referências, familiares próximas,
  946. 42:11eh sustentar cuidado, muitas vezes sem
  947. 42:14rede afetiva e efetiva, existir entre
  948. 42:17culturas é maternári em deslocamento,
  949. 42:20né, e muitas vezes em solidão.
  950. 42:23Eh, tem a grande citação que é preciso
  951. 42:27uma aldeia para criar uma criança, né?
  952. 42:29Mas o que que acontece quando a aldeia
  953. 42:31está a milhares de quilômetros?
  954. 42:34Às vezes a referência dessa mulher é a
  955. 42:36aldeia dela de rede de apoio familiar,
  956. 42:39de amigos, das amigas, das primas, dos
  957. 42:42primos, né, do do do médico que ela já
  958. 42:45vai desde criança. Então, quando ela
  959. 42:47emigra e ela enfrenta aí talvez uma
  960. 42:50gestação ou então trazem as crianças,
  961. 42:53ela acaba ficando um pouco desamparada
  962. 42:55desses lugares de referência.
  963. 42:59Eh, aqui eu trago um pouco da
  964. 43:01maternidade como processo psíquico, mas
  965. 43:04acho que a gente não vai ter tempo para
  966. 43:06falar de tanta coisa. Eh,
  967. 43:12né, acho que, né, só para dar uma
  968. 43:14encutada. Então, eh, a maternidade eh,
  969. 43:17não é,
  970. 43:19>> Caro? Fica, fica tranquila que eu acho
  971. 43:22que tá bem rico, né? Eu acho que a gente
  972. 43:24tem tempo. Pode.
  973. 43:27>> Ah, tá bom então. Tá. Então, então tá
  974. 43:29bom. Vou lá.
  975. 43:31>> Eh, que eu tava aqui pautada na hora,
  976. 43:32mas acho que tô um pouco Não. Vamos lá
  977. 43:35então. Não, se ultrapassar um pouco a
  978. 43:37gente ajusta e abre também, né, para
  979. 43:39garantir também a troca, que eu acho que
  980. 43:41é importante.
  981. 43:41>> Tá ótimo. Tá ótimo. Perfeito. Eu tô, eu
  982. 43:43tô com tempo aqui também. Eh, então
  983. 43:46vamos lá. Vamos falar de maternidade
  984. 43:47como processo psíquico. Eh, que a
  985. 43:50maternidade não é só um evento
  986. 43:51biológico, né? ela constitui ali num
  987. 43:53processo psíquico mais complexo, que aí
  988. 43:56atravessa, é atravessada, né, por
  989. 43:58dimensões históricas, culturais,
  990. 44:00relacionais, né? Ela vai envolver ali
  991. 44:03identidade, história pessoal, vínculos
  992. 44:06primários, representações do bebê, né?
  993. 44:09Então, depende, né? é uma mistura, um
  994. 44:12balaco baco. Ali eh, quando esse
  995. 44:15processo ele ocorre num contexto, talvez
  996. 44:19de estabilidade relacional e cultural,
  997. 44:22ele pode ser sustentado por uma rede que
  998. 44:24oferece apoio, validação e continuação
  999. 44:28simbólica. Por exemplo, engravidei, vou
  1000. 44:31lá no médico que é da família, que eu
  1001. 44:35passo há muito tempo, né? Ou então, ai
  1002. 44:38aqui tem uma UBS maravilhosa, tem um
  1003. 44:41sistema, né, de saúde que minhas primas
  1004. 44:43frequentaram, vou lá também que tiveram,
  1005. 44:46sabe? ou então minha mãe tá aqui, ah, já
  1006. 44:48vou organizar isso aqui, já eu já tenho
  1007. 44:51aquilo ali. Porém, no entanto, em
  1008. 44:53contextos migratórios, às vezes essa
  1009. 44:55base, ela encontra-se frequentemente
  1010. 44:58fragilizada, porque, principalmente
  1011. 45:01quando a gente fala de primeiras que vão
  1012. 45:03eh
  1013. 45:05ter o primeiro bebê, talvez ali num país
  1014. 45:08diferente, ela ainda não percorreu
  1015. 45:10aquele sistema porque ninguém antes
  1016. 45:14dela, às vezes amigas, né, eh, passaram
  1017. 45:17por aquilo, ela não teve aquela
  1018. 45:18experiência de juntando coisas. Então,
  1019. 45:21ela vai ter que, né, desbravar este
  1020. 45:24lugar.
  1021. 45:26Eh, tornar-se mãe, né, implica não
  1022. 45:29apenas a dar a luz a um bebê, mas também
  1023. 45:31atravessar uma profunda reorganização
  1024. 45:33interna, no qual o sujeito ele é
  1025. 45:35convocado a revisitar a sua própria
  1026. 45:37história, suas identificações e as suas
  1027. 45:40experiências de cuidado. Eh, isso dói
  1028. 45:44demais quando a gente migra, porque
  1029. 45:47geralmente as nossas experiências de
  1030. 45:48cuidado primário é com os nossos, né? E
  1031. 45:51geralmente é num país eh de origem, né?
  1032. 45:56Quando eu tô falando de adultos, né? Que
  1033. 45:57que emigraram, constituição da criança é
  1034. 45:59diferente, mas nossa, aquilo dá até um
  1035. 46:04como assim? Nossa, eu eu eu sou mãe
  1036. 46:07aqui, tive minha filha aqui, então eu
  1037. 46:09passei muito por isso, porque tudo que
  1038. 46:11eu buscava de referência, não tudo, né,
  1039. 46:13porque eu eu trabalho também com isso,
  1040. 46:16mas muita das coisas era de um contexto
  1041. 46:20vivido na minha infância, né, indo eh
  1042. 46:24verificando e vendo aquilo acontecer,
  1043. 46:26né, principalmente o meu cuidado.
  1044. 46:29Então, sobreposição de transições, né?
  1045. 46:32Na migração, a mulher mãe atravessa duas
  1046. 46:34transições simultâneas, a de tornar-se
  1047. 46:37mãe e adaptar-se a um novo território
  1048. 46:40como mãe, né? Essa sobreposição, ela
  1049. 46:43intensifica vulnerabilidade emocional de
  1050. 46:46segurança e sensação de instabilidade.
  1051. 46:50Nesse caso aqui, não é soma, é uma
  1052. 46:53sobrecarga psíquica, né? Então, coisas
  1053. 46:56que a migração também trazem ali às
  1054. 46:58vezes como sobrecarga.
  1055. 47:01Eh, a mulher migrante frequentemente ela
  1056. 47:03se vê confrontada com expectativas
  1057. 47:05culturais distintas, né, tanto do país
  1058. 47:08de origem quanto do país que ela foi
  1059. 47:10acolhida,
  1060. 47:11sem necessariamente, né, se reconhecer
  1061. 47:13plenamente nenhuma delas, né, essa
  1062. 47:16condição, ela pode gerar ali uma
  1063. 47:18experiência de deslocamento materno, na
  1064. 47:20qual a mulher ela não se encontra em
  1065. 47:22nenhum lugar claro para sustentar
  1066. 47:26novamente a sua identidade como mãe que
  1067. 47:28está sendo construída. Então imagina, é
  1068. 47:31uma coisa, é camada após camada, né, de
  1069. 47:34de questões.
  1070. 47:37E aqui tô pegando só um nicho
  1071. 47:38maternidade, né? Pode ser colocado para
  1072. 47:41eh carreira, eh outras coisas, né?
  1073. 47:46Ausência de rede. Então, eh a
  1074. 47:48maternidade ela é sustentada por uma
  1075. 47:50rede, né? Então, no contexto do
  1076. 47:52migratório, essa rede às vezes ela não
  1077. 47:54tá disponível.
  1078. 47:56ausência de figuras como a própria mãe
  1079. 47:59ou outras mulheres da família, outras
  1080. 48:01pessoas ali da família, representa uma
  1081. 48:04perda significativa, ainda que nem
  1082. 48:06sempre nomeada como tal, né? Eh,
  1083. 48:11há muita ausência de familiares,
  1084. 48:12ausência de figuras maternas, ausência
  1085. 48:14de suporte cotidiano, né? Até de
  1086. 48:17comunicar com alguém da assistência numa
  1087. 48:19outra língua. Eh, é, é, é mais
  1088. 48:22complicado às vezes o choque da cultura,
  1089. 48:24de como as coisas acontecem naquele
  1090. 48:26sistema é muito diferente, né? A mãe
  1091. 48:29precisa sustentar sem ser sustentada.
  1092. 48:32Isso acontece demais aqui,
  1093. 48:34principalmente quando eu trabalho com as
  1094. 48:35mulheres brasileiras aqui, eh, e aí
  1095. 48:38outros profissionais falam, né, ao redor
  1096. 48:40do mundo. Eu recebo às vezes pessoas no
  1097. 48:43Brasil que estão atendendo pessoas que
  1098. 48:45estão fora ou que migraram dentro do
  1099. 48:48Brasil e que elas procuram ali entender
  1100. 48:51um pouquinho do que tá acontecendo,
  1101. 48:52porque tá difícil, né? é uma, ela não
  1102. 48:54consegue nem explicar direito o que tá
  1103. 48:56acontecendo ali na angústia dela.
  1104. 49:00Eh,
  1105. 49:03interessante também aqui o processo.
  1106. 49:06Alguma coisa que apitou,
  1107. 49:10eu não consigo ver aqui. Ai, tem alguém
  1108. 49:12com mão levantada.
  1109. 49:14Não, não.
  1110. 49:16Ai,
  1111. 49:21tá ouvindo
  1112. 49:22>> agora? Tô. Aham.
  1113. 49:24Não, é só porque nesse ponto assim e uma
  1114. 49:27coisa que eu vi aí eu não sei como é que
  1115. 49:29é para você, como é que você vê e como é
  1116. 49:32que é aí na Irlanda também, que eu vi
  1117. 49:34algumas experiências na Suécia com as
  1118. 49:38doulas bilíngues, né? E aí é
  1119. 49:41interessante porque eu acho que dialoga
  1120. 49:43muito com o que você tá trazendo no
  1121. 49:45sentido assim que é uma mulher que eh é
  1122. 49:49migrante, né? E aí também dialoga muito
  1123. 49:51com a questão da mediação intercultural,
  1124. 49:53que eu acho que é uma estratégia aí
  1125. 49:56muito interessante, né? E que vivencia
  1126. 50:00não só a não é só a doula no sentido
  1127. 50:03desse suporte, mas é uma mulher que
  1128. 50:05vivencia a cultura, que vivenciou a
  1129. 50:08migração, então ela dialoga em tudo isso
  1130. 50:11que você tá trazendo aqui, né? Então
  1131. 50:13assim, queria de repente acho que
  1132. 50:15complemento ouvir um pouquinho você.
  1133. 50:17>> Total, total. E aí, eh eh é é onde a
  1134. 50:21gente escuta as mulheres buscando esse
  1135. 50:23tipo de referência, né? O que nesse
  1136. 50:25momento me faz sentir sustentada.
  1137. 50:29Eu, por exemplo, a minha doula era uma
  1138. 50:31doula bilíngue,
  1139. 50:33né? Eu tive. Por quê? Porque eu tive
  1140. 50:35exatamente esse tipo de pensamento. Eu
  1141. 50:38preciso alguém na cena do parto irlandês
  1142. 50:41que me entenda, porque quando eu tiver
  1143. 50:44na Partoolândia eu vou querer falar
  1144. 50:46português, eu tenho certeza, porque
  1145. 50:48quando eu, né, tô doente ou aquilo, o
  1146. 50:51português é que sai, mesmo estando 16
  1147. 50:53anos aqui. Mas também preciso que alguém
  1148. 50:55que entenda o sistema, que fale inglês,
  1149. 50:58que se comunique com alguém, se alguma
  1150. 51:00intercorrência acontecer, que se
  1151. 51:01comunique com meu marido. Então, foi a
  1152. 51:04minha a minha procura, né? Então, acho
  1153. 51:07importantíssimo quando tem esse tipo de
  1154. 51:11profissional eh que complementa a
  1155. 51:14necessidade daquela pessoa eh ser
  1156. 51:17acionada, porque vai fazer uma diferença
  1157. 51:20gigantesca.
  1158. 51:22Eh, assim, e aí a minha doula depois
  1159. 51:24falando depois do meu pato, falou: "Ah,
  1160. 51:25você quase não falava em português, você
  1161. 51:27falava muito inglês, né?" Eh, eu falava,
  1162. 51:30sério, para mim a minha cabeça tava
  1163. 51:32funcionando automático.
  1164. 51:35Não sabia que língua eu tava falando,
  1165. 51:37mas acho porque eu tava ali, marido
  1166. 51:38também tava. Aí eu fui para uma língua
  1167. 51:41eh que já é hoje em dia, né, muito muito
  1168. 51:44eh eu tô acostumada, mas é sim,
  1169. 51:47importantíssima a tua a tua contribuição
  1170. 51:50aí, né? Eh,
  1171. 51:54OK, né? Então assim, novamente, né,
  1172. 51:56complementando, quando esse holding, né,
  1173. 51:58ele não tá presente, né, esse esse
  1174. 52:00ambiente que sustenta, a mulher, ela
  1175. 52:03pode experimentar então essa sensação de
  1176. 52:04desamparo. Esse desamparo não é apenas
  1177. 52:07uma condição externa, mas uma vivência
  1178. 52:09psíquica dela, né, que pode impactar
  1179. 52:12diretamente na sua capacidade de
  1180. 52:13sustentar o cuidado. É, novamente, olha
  1181. 52:17lá, no meu parto, eu falei inglês, acho
  1182. 52:18que o parto, né, falando ali
  1183. 52:20minimamente, mas eu queria que tivesse
  1184. 52:22alguém que me entendesse se eu fosse pro
  1185. 52:24português, né, porque a minha língua
  1186. 52:25mãe, eu achava que eu ia estar
  1187. 52:27totalmente ali. Eh, ter vínculos, né, às
  1188. 52:32vezes não significa necessariamente ter
  1189. 52:34suportes disponíveis.
  1190. 52:36Então, eh, o que que que isso quer dizer
  1191. 52:38aqui? Quer dizer assim que eh às vezes
  1192. 52:42eu conheço, né, eu me vinculei com o
  1193. 52:45sistema, né, mas não necessariamente
  1194. 52:48aquilo é o suficiente, né, como suporte
  1195. 52:52para mim indivíduo naquele momento. Eu
  1196. 52:54preciso trabalhar ali com uma construção
  1197. 52:57que às vezes vai além daquilo, né, a
  1198. 52:59doula bilíngue, né, uma outra pessoa eh
  1199. 53:02que esteja ali comigo, que que que me dê
  1200. 53:06essa essa essa sustentação, né? Tem
  1201. 53:08mulheres até que falam assim: "Ai, aqui
  1202. 53:10a gente tem muito a cultura da parteira,
  1203. 53:13né, a Midwife." Então tem mulheres às
  1204. 53:15vezes que falam assim: "Eh, ai não, não
  1205. 53:17tem midwi brasileira, acho que tem
  1206. 53:20agora, eh, mas eu procuro uma Midwi
  1207. 53:23estrangeira que não seja daqui, porque
  1208. 53:25eu acho que algum ponto ela vai me
  1209. 53:27entender." Então, olha só, né? Ela vai
  1210. 53:29costurando algo ali através da
  1211. 53:31necessidade dela.
  1212. 53:37Língua, né? como experiência emocional.
  1213. 53:40Eh, essa língua materna é também língua
  1214. 53:42afetiva, né? A língua mãe, a língua de
  1215. 53:44origem. Eh,
  1216. 53:47quando uma mulher precisa, talvez, né,
  1217. 53:49mulher, e aí se expanda, eh, precisa
  1218. 53:52expressar uma experiência, um idioma que
  1219. 53:54não é seu, ocorre ali uma limitação na
  1220. 53:56capacidade de nomear sentimentos
  1221. 53:58complexos, né? E aí isso pode impactar
  1222. 54:02dificuldade de expressar emoção, eh, um
  1223. 54:04empobrecimento simbólico, né? Isso uma
  1224. 54:07questão bem imigrante. Eh, o maior
  1225. 54:09isolamento, a comunicação com
  1226. 54:11profissionais da saúde, a construção do
  1227. 54:13vínculo terapêutico e do cuidado. Nossa,
  1228. 54:16isso muito. Eh, a experiência emocional
  1229. 54:19pede tradução, né, do ponto de vista
  1230. 54:23psíquico, né, dessa dificuldade, ela
  1231. 54:25pode intensificar muito eh as
  1232. 54:27experiências se ela não eh não puder ser
  1233. 54:30amplamente compartilhada.
  1234. 54:32E é nesse espaço ali, né, entre perda e
  1235. 54:35criação que a assistência encontra o teu
  1236. 54:38lugar. Porque aqui eu faço exatamente
  1237. 54:40isso. Eu faço a ponte às vezes, né, da
  1238. 54:43tradução emocional, que não precisa ser
  1239. 54:45a tradução literal, mas às vezes ali,
  1240. 54:48né, de dar escuta paraa mulher que senta
  1241. 54:52aqui e vem falar português e e me traz
  1242. 54:55toda, sei lá, eh o a assistência eh
  1243. 55:00pré-natal dela, né? O que que ela tá
  1244. 55:02vivendo ali que às vezes ela não
  1245. 55:03entendeu ou que às vezes ela não
  1246. 55:05conseguiu expressar. Então, ela fala
  1247. 55:06aqui para mim e ela fala: "Ah, OK, né?
  1248. 55:09Consegui falar com alguém aqui. Não que
  1249. 55:11eu vá passar para para pra parteira ou
  1250. 55:14para obstetra, mas ela tem que ter esse
  1251. 55:17lugar".
  1252. 55:18Detalhe, gente, aqui tem um recorte que
  1253. 55:20eu acho muito importante quando a gente
  1254. 55:22tá falando de maternidade eh trazer para
  1255. 55:25quem trabalha com assistência imigrante,
  1256. 55:27né? A maternidade imigrante, ela não é
  1257. 55:30apenas, né, sobre desafios, ela também
  1258. 55:32fala sobre resiliência, criatividade e
  1259. 55:36redes de amor que que nascem mesmo longe
  1260. 55:38de casa. Quando nos apoiamos, né,
  1261. 55:40mutualmente, a gente consegue
  1262. 55:42transformar a vulnerabilidade
  1263. 55:44em potência.
  1264. 55:47Eh, a maternidade expatriada tem uma
  1265. 55:50característica muito específica,
  1266. 55:53porque muitas vezes a mãe é a única
  1267. 55:57representante da sua cultura e da sua
  1268. 55:59língua. Eh, que que por que que eu
  1269. 56:02coloquei isso aqui? Porque são os dados
  1270. 56:04eh maiores aqui na Irlanda,
  1271. 56:07principalmente pelo meu trabalho, né? eh
  1272. 56:11do das famílias multiculturais,
  1273. 56:13geralmente a mãe é brasileira, né? Eh,
  1274. 56:18ou então ela veio, fez fazer um
  1275. 56:19intercâmbio, turistar e aí conheceu eh
  1276. 56:23um irlandês, algum, né, um europeu,
  1277. 56:25alguma coisa nesse sentido. Então, tô
  1278. 56:27falando aqui desta mulher, né, talvez.
  1279. 56:30Eh, e isso por si só traz uma
  1280. 56:33responsabilidade a mais no cuidado do
  1281. 56:36filho, né? O maior desejo de uma mãe
  1282. 56:39espatriada é que seu filho se sinta
  1283. 56:41pertencente ao novo país, mas sem perder
  1284. 56:43o vínculo com a sua origem. Então
  1285. 56:45imagina, né? E é o meu caso, por
  1286. 56:47exemplo, eu sou a única representante na
  1287. 56:52minha família da cultura eh e da língua
  1288. 56:56da minha filha, né? Porque tudo que ela
  1289. 56:58tem de rede de apoio aqui da família é
  1290. 57:01da família do meu marido, que são
  1291. 57:02irlandeses. Então eu tenho que me
  1292. 57:06desdobrar.
  1293. 57:07para que ela aprenda português, para que
  1294. 57:10ela entenda a minha cultura, para que
  1295. 57:13ela se sinta pertencente eh de coisas do
  1296. 57:17Brasil que ela vai construindo também,
  1297. 57:20que ela possa se comunicar com a família
  1298. 57:22no Brasil. Então, assim, quando ela sai
  1299. 57:25ali um pouquinho daquilo, já entra uma
  1300. 57:28angústia do tipo, será que eu consigo? O
  1301. 57:29que que eu tenho que fazer? Eu sou a
  1302. 57:32representante dessa cultura, né? Porque
  1303. 57:34eu estou num país que não é o Brasil.
  1304. 57:36Então entra uma sobrecada
  1305. 57:39eh no estrangeiro, né? A gente vai
  1306. 57:42alinhavando coragem. Cada ponta é raiz,
  1307. 57:45cada raiz é um futuro e somos
  1308. 57:47costureiras de mundos. Alinhavamos a
  1309. 57:49saudade, a esperança, criando raízes aí
  1310. 57:52que sustentam o presente e o futuro dos
  1311. 57:55nossos filhos. Eh, e não é fácil, né,
  1312. 57:58você talvez ser a única representante de
  1313. 58:00uma cultura e de uma língua, porque se
  1314. 58:02eu não forço, né, e não é um forçar de
  1315. 58:05ter que fazer, né, se eu não me
  1316. 58:07disponibilizo
  1317. 58:09a a a trazer isso paraa minha filha, que
  1318. 58:11para mim é muito óbvio, né, para ela
  1319. 58:14não, ela tem que aprender, porque ela é
  1320. 58:17irlandesa, eh, morre, ela não vai saber
  1321. 58:21falar com os meus pais, ela vai eh
  1322. 58:24deixar de comer um pão de queijo. Ela
  1323. 58:26não vai entender porque a gente tá
  1324. 58:28fazendo arroz, feijão em casa. É, isso é
  1325. 58:30da mamãe, mas não é nosso, né? Então eu
  1326. 58:33e meu marido aqui, ele ele abarcou
  1327. 58:35completamente nessa. A gente tem que
  1328. 58:37manter isso vivo. E hoje em dia eu eu eu
  1329. 58:40divido com ele essa representatividade
  1330. 58:42do Brasil, da cultura e da língua, né?
  1331. 58:45Ele ele entende a importância, mas não é
  1332. 58:48fácil. Eh, os meus os a minha a meu
  1333. 58:52crescimento migrante, ele vai ali, ela
  1334. 58:54ela acabou de entrar na escolinha, né?
  1335. 58:56Quer dizer, ela fez quatro. Eh, e antes
  1336. 58:59ela falava muito português, muito mais.
  1337. 59:01Acabou de entrar na escolinha, uma
  1338. 59:03semana depois dela entrar na escolinha,
  1339. 59:05até o mundo imaginário, as brincadeiras,
  1340. 59:08começou a ir pro inglês direto. Assim,
  1341. 59:10ela hoje em dia, ela escolhe o inglês
  1342. 59:12como língua eh primária, né? Porque na
  1343. 59:15escola, no mundo social dela, tá todo
  1344. 59:17inglês. Aquilo me feriu de morte, porque
  1345. 59:21eu falava: "Como assim?
  1346. 59:24Ah, mas aí ela vem e fala assim: "Eu sou
  1347. 59:26brasileira, né?" Ela fala pros
  1348. 59:28amiguinhos na escola: "Eu sou
  1349. 59:29brasileira". E aí eu falo: "Ai, calma
  1350. 59:31aí, não tem algo aqui que gostoso". Ela
  1351. 59:34gosta de Brasil e conta e pergunta,
  1352. 59:37começa a palavra e fala português, mas
  1353. 59:39hoje, né? Mas aquilo me feriu de morte,
  1354. 59:41porque assim, pô, eu sou a única
  1355. 59:43representante disso, eu que tenho que
  1356. 59:45manter vivo. Então assim, tomem cuidado
  1357. 59:47às vezes também com a mulher
  1358. 59:48sobrecarregada, eh, migrante, eh porque
  1359. 59:52às vezes pode tá muito eh voltado a
  1360. 59:55isso, né, e do jeito com que ela maneja.
  1361. 59:59Alguns dados aqui somente, né, porque eh
  1362. 1:00:02os dados encontram as histórias, né,
  1363. 1:00:05estudos, né, mostram aqui. Então, vamos
  1364. 1:00:07falar um pouquinho de maternidade
  1365. 1:00:08imigrante em números. tá desatualizado
  1366. 1:00:11porque saiu agora, né, eh, coisas
  1367. 1:00:14recentes em 2026, eh, principalmente da
  1368. 1:00:17OMS, que acabou de lançar um uma
  1369. 1:00:20cartilha bem uma cartilha, não, né, um
  1370. 1:00:22uma um um uma atualização aqui de de de
  1371. 1:00:27dados e estatísticos, mas é do ano
  1372. 1:00:29passado até do ano passado. Então,
  1373. 1:00:31estudos mostram aqui, né, que mulheres
  1374. 1:00:33imigrantes têm índices eh maior altos
  1375. 1:00:36índices, né, de depressão, ansiedade e
  1376. 1:00:40estresse no ciclo gravítico corporal,
  1377. 1:00:42né, isso é recente, de 2022, né, um
  1378. 1:00:45nicho que tem ali vulnerabilidade
  1379. 1:00:47aumentada, risco aumentado de depressão,
  1380. 1:00:50ansiedade e estress, né, isso é da OMS
  1381. 1:00:52de 2023. Estou louca para ler agora de
  1382. 1:00:552026 que acabou de ser lançado, mas nada
  1383. 1:00:58muito longe disso. Imigrantes recentes
  1384. 1:01:01tem até sete vezes mais chances de
  1385. 1:01:02isolamento social. É uma pesquisa aí do
  1386. 1:01:04Canadá. Eh, imigrantes recentes, eles
  1387. 1:01:07falam aqueles imigrantes que emigraram
  1388. 1:01:09com até 2 anos de imigração, ainda é um
  1389. 1:01:13imigrante recente e tem às vezes
  1390. 1:01:16dependendo, né, de novamente do contexto
  1391. 1:01:18dessa imigração, sete vezes mais chance
  1392. 1:01:21de isolamento social, o que vai
  1393. 1:01:23agravando, né, porque aí eh imagina se
  1394. 1:01:26essa essa pessoa tá num num lado
  1395. 1:01:29perinatal, então ela vai ter um
  1396. 1:01:31isolamento perinatal e aí fator de risco
  1397. 1:01:34paraa depressão ppal
  1398. 1:01:36né? Ela vai ter lacunas de acesso à
  1399. 1:01:38saúde mental e perinatal,
  1400. 1:01:40né? Isso aqui foi uma pesquisa legal
  1401. 1:01:42também aqui da Irlanda e de UK de 2023
  1402. 1:01:45do British Journal, eh lacunas de
  1403. 1:01:49acesso, porque ela não vai conseguir se
  1404. 1:01:51comunicar, ela não vai eh tem muita
  1405. 1:01:53coisa disponível, mas ela não vai ter
  1406. 1:01:56acessibilidade à aquilo, né? Então tem
  1407. 1:01:58uma vulnerabilização maior.
  1408. 1:02:02O perinatal também é cultural, né? O
  1409. 1:02:05ciclo perinatal, gestação, páte
  1410. 1:02:07pós-páto, é um período de intensa
  1411. 1:02:10reorganização e ele também é bem eh
  1412. 1:02:15permeado aí com a imigração, né? E aí
  1413. 1:02:19coloquem mais coisas no perinatal, né?
  1414. 1:02:21Tudo em torno do nascimento, eh questões
  1415. 1:02:24de reprodução acestida, de
  1416. 1:02:25infertilidades, de perdas.
  1417. 1:02:28Então, né, senão não, se eu fosse
  1418. 1:02:29colocar tudo aqui, não ia dar, mas, né,
  1419. 1:02:33porque é corporal, é emocional, é
  1420. 1:02:35relacional, é cultural, é sociocultural,
  1421. 1:02:37então é muita coisa. Eh,
  1422. 1:02:42quem ajuda, né, o que ela come, quanto
  1423. 1:02:46deve descansar, cola, autonomia,
  1424. 1:02:48participação da família, assim, muitas
  1425. 1:02:50coisas, né, que também são permeadas
  1426. 1:02:52pela cultura. Aí a medicina também tem
  1427. 1:02:55cultura, né? A psicologia também tem
  1428. 1:02:58cultura. Então tudo isso ela vai ter que
  1429. 1:03:00acessar eh de um outro referencial, né?
  1430. 1:03:04Eh é um estado ali, né? Um estado
  1431. 1:03:06perinatal de maior abertura, mas também
  1432. 1:03:09de muita vulnerabilidade.
  1433. 1:03:12Coloquei aqui um um ponto interessante
  1434. 1:03:15porque dentro da perinatalidade eu
  1435. 1:03:17trabalho muito com luto, né? luto eh
  1436. 1:03:22perinatal, né? Perdas gestacionais,
  1437. 1:03:25perdas eh neonatais. E é dentro desse
  1438. 1:03:29nicho migratório uma das coisas mais
  1439. 1:03:31difíceis, talvez ali de se trabalhar
  1440. 1:03:34para mim. E acho interessante colocar
  1441. 1:03:37aqui para vocês um pouquinho para vocês
  1442. 1:03:39entenderem quando o luto perinatal se
  1443. 1:03:43intersecta com o luto migratório. Eu
  1444. 1:03:47terminei uma póstgrade agora esse ano e
  1445. 1:03:49era exatamente essa a minha tese, né,
  1446. 1:03:51quando o luto perinatal, a intersecção
  1447. 1:03:54do luto perinatal e do luto migratório,
  1448. 1:03:56né, o afeto dentro do da saúde mental de
  1449. 1:04:00mulheres migrantes.
  1450. 1:04:02Porque então o que o que que é isso, né?
  1451. 1:04:05O luto perinatal migratório, ele não é
  1452. 1:04:07apenas a dor pela perda de um bebê, mas
  1453. 1:04:10a fratura de um pertencimento. Ele se
  1454. 1:04:13instala dissolvendo fronteiras entre o
  1455. 1:04:15corpo e o território, entre o que nasce
  1456. 1:04:17e o que se perde. É um luto que se
  1457. 1:04:20instala entre dois lugares e dois
  1458. 1:04:21tempos, né? O país de origem, o país de
  1459. 1:04:25destino, o antes e o depois da perda. A
  1460. 1:04:28mãe, o pai, a família enlutada, eles
  1461. 1:04:31vivem num lugar simbólico, né? onde o
  1462. 1:04:33pertencimento se torna muito
  1463. 1:04:34fragmentado. É um pedaço permanece lá, o
  1464. 1:04:38outro tenta existir aqui. Eh,
  1465. 1:04:43essa fragmentação, ela cria uma dor, né?
  1466. 1:04:45Ela encontra eh que não encontra espelho
  1467. 1:04:48cultural, porque o entorno, né, muitas
  1468. 1:04:51vezes ele não reconhece nem a perda, nem
  1469. 1:04:54a forma de sentir, nem o idioma do
  1470. 1:04:57sofrimento. Então é complicado, né?
  1471. 1:04:59principalmente quando a gente tá falando
  1472. 1:05:01aí com uma família inteira migratória,
  1473. 1:05:03tendo uma perda eh num país às vezes
  1474. 1:05:06desconhecido.
  1475. 1:05:09Eh, é o luto pelo bebê, mas também do
  1476. 1:05:11colo que não veio, da mãe que não
  1477. 1:05:14chegou, do idioma que não acolheu, um
  1478. 1:05:16luto falando, falado em duas línguas e
  1479. 1:05:19sentidos no mesmo silêncio, né? Perda da
  1480. 1:05:22terra, da língua, da cultura, eh um luto
  1481. 1:05:24também sociocultural, né? dois lutos,
  1482. 1:05:28duas dores que se encontram, né? Quando
  1483. 1:05:30esses dois lutos eles se cruzam, a dor
  1484. 1:05:32ela é múltipla e exige um olhar muito
  1485. 1:05:34atento dos profissionais. Quando esses
  1486. 1:05:36dois lutos eh são camadas, né,
  1487. 1:05:39sobrepostas de dor, a mãe imigrante que
  1488. 1:05:41pede um bebê, ela não pede apenas a
  1489. 1:05:43criança, ela pede também a possibilidade
  1490. 1:05:46de viver essa essa maternidade,
  1491. 1:05:49né, ou essa perda cercada por sua rede e
  1492. 1:05:53sustentada por rituais significativos
  1493. 1:05:55culturais familiares. Isso é o que acho
  1494. 1:05:58que mais aparece pra gente aqui na
  1495. 1:06:00assistência eh de Peda. É um luto
  1496. 1:06:04expandido, falta de rituais e de
  1497. 1:06:06partilha, né? Muito diferente o jeito
  1498. 1:06:09que os lugares, né? Fazem aí rituais de
  1499. 1:06:11despedida. Eh, um luto às vezes vivido
  1500. 1:06:14em tradução. Já recebi em consultório,
  1501. 1:06:17por exemplo, carta, né? relatório de
  1502. 1:06:20óbito em que a mãe, a família não
  1503. 1:06:22entendeu nada porque tava tudo inglês,
  1504. 1:06:25eles não falam inglês. Eles pediram pra
  1505. 1:06:27gente poder, para eu ler em antemão para
  1506. 1:06:29poder traduzir que foi, qual foi a
  1507. 1:06:31causa, né, da perda, da da morte desse
  1508. 1:06:35bebê, dessa criança, né? Então, às vezes
  1509. 1:06:37ele é vivido em tradução literal mesmo,
  1510. 1:06:40às vezes em rodas eles conseguem colocar
  1511. 1:06:42alguma coisa nesse sentido, né? é a dor
  1512. 1:06:45do bebê, mas também a dor da cultura, da
  1513. 1:06:47rede ausente. É uma amplificação, de
  1514. 1:06:50certa forma de um de um sofrimento, né?
  1515. 1:06:53Porque ela é bilíngue.
  1516. 1:06:57Eh, aqui a falta às vezes, né, de
  1517. 1:07:00velórios, de sepultamento, de missa, da
  1518. 1:07:03reunião familiar, dificulta às vezes a
  1519. 1:07:05elaboração da perda. Eh, na Irlanda até
  1520. 1:07:10tem, né, mas eu já conheço alguns outros
  1521. 1:07:12lugares que talvez não tenha. eh esse
  1522. 1:07:15tipo, né, de de ritual, assim, dessa
  1523. 1:07:18forma, há também o luto do ninho vazio
  1524. 1:07:21no exílio, né? O bebê, ele não poôde ser
  1525. 1:07:24apresentado à comunidade, né? Não
  1526. 1:07:26recebeu o colo dos avós, não vestiu a
  1527. 1:07:29roupa bordada pela tia no Brasil, que
  1528. 1:07:31era uma tradição da família. Mesmo na
  1529. 1:07:34perda. Esses rituais eles vêm, né?
  1530. 1:07:38Eh, esse vazio, ele cria um lucro duplo,
  1531. 1:07:41né? da criança, a perda da criança e a
  1532. 1:07:43perda da possibilidade de viver a
  1533. 1:07:44maternidade sonhada em toda sua extensão
  1534. 1:07:48cultural e afetiva. O que falta pesa
  1535. 1:07:52quase tanto quanto a perda em si. O
  1536. 1:07:55ritual não realizado, o abraço que não
  1537. 1:07:58chegou, a maternidade que não se
  1538. 1:08:00contratizou.
  1539. 1:08:01Algo muito complicado aqui também,
  1540. 1:08:03quando a gente trabalha com uma família
  1541. 1:08:06completa migrante, é às vezes é a
  1542. 1:08:09experiência de não saber se vai ficar
  1543. 1:08:12naquele lugar. Então, por exemplo, com
  1544. 1:08:15uma experiência, é, de perda, né, de um
  1545. 1:08:17bebê que que teve, que nasceu, que foi
  1546. 1:08:19registrado, né, de um morto, por
  1547. 1:08:21exemplo, uma perda,
  1548. 1:08:24eh, nesse sentido que não seja uma perda
  1549. 1:08:26gestacional, eh, vai acontecer um
  1550. 1:08:28sepultamento.
  1551. 1:08:30Então, às vezes, a família fica num num
  1552. 1:08:33passe muito grande de que eu no Brasil
  1553. 1:08:38nós enterraríamos, né, no cemitério da
  1554. 1:08:40família ou qualquer coisa no tipo, mas e
  1555. 1:08:42aqui que que acontece se a gente vai
  1556. 1:08:45embora desse país porque a gente não tem
  1557. 1:08:47amarra. Então isso aparece às vezes, né,
  1558. 1:08:50no no no na na na quem tá na
  1559. 1:08:52assistência. Eh, e se a gente for
  1560. 1:08:54embora, o o bebê fica aqui, né? Então,
  1561. 1:08:57às vezes tem a opção por cremações, né,
  1562. 1:09:00muito e às vezes acontece até numa
  1563. 1:09:02tomada de decisão rápida, porque não tem
  1564. 1:09:05tempo, né, para poder elaborar isso
  1565. 1:09:07tudo, mas vem direto assim, né, esse
  1566. 1:09:10tipo de de questionamento.
  1567. 1:09:13Vamos falar um pouquinho de construção
  1568. 1:09:15familiar, parentalidade espatriada. Vou
  1569. 1:09:18correr aqui um pouquinho, tá gente?
  1570. 1:09:22Eh,
  1571. 1:09:24parentalidade, ela não é individual, né?
  1572. 1:09:26Vamos falar então um pouco mais de
  1573. 1:09:28família. Eh, é uma expressão aqui, né,
  1574. 1:09:31que se refere aos papéis em funções
  1575. 1:09:33parentais, ou seja, dos pais na vida dos
  1576. 1:09:36filhos. Esse termo ele ultrapassa o
  1577. 1:09:38fator biológico. Ele se conecta muito às
  1578. 1:09:40experiências infantis que já foram
  1579. 1:09:42vividas pelos pais e que envolvem suas
  1580. 1:09:44questões conscientes e inconscientes.
  1581. 1:09:47Eh, a parentalidade ela não se constrói
  1582. 1:09:49só e sozinha e ela depende de
  1583. 1:09:51referências culturais, de vínculos
  1584. 1:09:53intergeracionais e reconhecimento social
  1585. 1:09:56dela, né? Então, ser mãe e pai também é
  1586. 1:10:00ser reconhecido como tal e às vezes até
  1587. 1:10:02nas referências, né, interculturais.
  1588. 1:10:06ehura
  1589. 1:10:08de referências, né, na migração, a
  1590. 1:10:10quebra dessas bases, talvez a ausência
  1591. 1:10:13da própria mãe, das mulheres, né, das da
  1592. 1:10:15da das dos profissionais que a gente tá
  1593. 1:10:17acostumado, dos das ausências dos
  1594. 1:10:19saberes familiares, sabe aquela receita
  1595. 1:10:22que quando você tem um filho, você faz
  1596. 1:10:24desse jeito. Eh, minha filha tava com
  1597. 1:10:27soluço, minha mãe falou: "Ai, pega um
  1598. 1:10:29negocinho vermelho, põe na testa" assim.
  1599. 1:10:32Eu falei: "Nossa, escutei isso quando
  1600. 1:10:33era criança, sabe? Mas se eu não tivesse
  1601. 1:10:36ligado para ela, ela não tivesse visto,
  1602. 1:10:38aquilo não ia ter sido passado. E me deu
  1603. 1:10:40um quentinho, fiz, né, ritual, coisas de
  1604. 1:10:43saberes familiares que às vezes vai se
  1605. 1:10:45passando e aquilo vai construindo também
  1606. 1:10:47a minha parentalidade. E a ausência de
  1607. 1:10:49validação cotidiana, casais
  1608. 1:10:52multiculturais às vezes tem muita
  1609. 1:10:55diferenciação na própria parentalidade,
  1610. 1:10:57porque foi construída em contextos
  1611. 1:10:59diferentes. E aí quando vem um nenê, um
  1612. 1:11:02filho que tem que ir pelo caminho do
  1613. 1:11:04meio, aquilo entra em conflito total,
  1614. 1:11:07porque um fala a, o outro fala b. Em
  1615. 1:11:10vez, né, mas a gente precisa entrar aqui
  1616. 1:11:12novamente com negociações do que é
  1617. 1:11:14melhor paraa criança, pra família, né,
  1618. 1:11:17os combinados,
  1619. 1:11:19eh,
  1620. 1:11:20eh, né, os contextos que acontecem. Eh,
  1621. 1:11:25e aqui às vezes, né, na parentalidade
  1622. 1:11:27surge insegurança no exercício do
  1623. 1:11:29cuidado que já surge, né, na construção
  1624. 1:11:31de parentalidade normal, mas às vezes o
  1625. 1:11:34imigrante ele vai seguir, surgir, eh,
  1626. 1:11:36sentir isso muito, principalmente. Tô
  1627. 1:11:39dando aqui os exemplos, né? Eh, às vezes
  1628. 1:11:42vem muito paraa clínica ou nos grupos eh
  1629. 1:11:45que a família da pessoa que é daqui não,
  1630. 1:11:48nossa, não, não tá comigo nunca. Eu falo
  1631. 1:11:51que não é para fazer isso aqui, a
  1632. 1:11:53família fala que é, que aqui se faz
  1633. 1:11:55isso. Então entra, né, até, sei lá, no
  1634. 1:11:58cenário do parto assim, não faz isso
  1635. 1:12:01aqui, não, mas eu quero, né? entra muito
  1636. 1:12:03nas dualidades ali.
  1637. 1:12:07Eh, a parentalidade vivida no exílio,
  1638. 1:12:10né, ela já nasce deslocada e ela precisa
  1639. 1:12:12se reconstruir. Ser mãe ou pai, né, em
  1640. 1:12:15outro país, exige uma reconstrução de
  1641. 1:12:18práticas, de rituais e até da própria
  1642. 1:12:20identidade, né, de sentimento e de não
  1643. 1:12:22pertencimento.
  1644. 1:12:24Quais imigrantes eles precisam
  1645. 1:12:26reaprender aí a gestar, a parir, a
  1646. 1:12:28cuidar. Contextos diferentes, muitas
  1647. 1:12:30vezes sem o suporte da família extensa,
  1648. 1:12:33enfrentando aí olhares culturais que nem
  1649. 1:12:36sempre invalidam as suas escolhas, né?
  1650. 1:12:39Eh, isso aqui afeta para caramba, né?
  1651. 1:12:42Principalmente quando a gente vem com
  1652. 1:12:44algo assim muito já lapidadinho dentro
  1653. 1:12:46da gente e aí vem a cultura e fala:
  1654. 1:12:49"Aqui não tem isso? Como assim?", né? Ou
  1655. 1:12:52então quando, né, uma outra cultura vem
  1656. 1:12:55e fala: "Nossa, como que vocês fazem
  1657. 1:12:57esse tipo de processo?" Não, né? Eh, é
  1658. 1:13:00complicado um pouco disso. Eu lembro que
  1659. 1:13:03no meu resguardo, né? Isso nem se fala
  1660. 1:13:06mais, no meu porpério, eh, liguei, uma
  1661. 1:13:09tia me ligou, né? E ela falou assim:
  1662. 1:13:11"Não, você tá, você tá comendo eh sopa
  1663. 1:13:15de galinha caipira, caldo de galinha
  1664. 1:13:17caipira com pirão?"
  1665. 1:13:20A aquilo ali veio direto, né, para para
  1666. 1:13:23pr para pr pro meu lugar de referência,
  1667. 1:13:25mas ao mesmo tempo eu falava: "Tia, eu
  1668. 1:13:27nem sei onde encontrar uma galinha
  1669. 1:13:30caipira aqui, né? E quem vai fazer para
  1670. 1:13:32mim? Porque eu não tenho nem ideia como
  1671. 1:13:34se faz aqui, né? O pirão, tudo bem, mas
  1672. 1:13:36nossa, né? Sabe esse tipo de coisa
  1673. 1:13:39assim, eh, que se eu for colocar para
  1674. 1:13:42alguém aqui assim, né? Isso que seja
  1675. 1:13:44daqui, ela vai falar: "Como assim? Faz
  1676. 1:13:46outra coisa, né? come eh o que é para
  1677. 1:13:49comer, que aqui eles falam, né? Tem tem
  1678. 1:13:52uma comida que chama eh um um pudim
  1679. 1:13:54preto, black puding, que é muito rico em
  1680. 1:13:57ferro, porque ele é feito
  1681. 1:13:59eh com miúdos, com com é tipo como se
  1682. 1:14:03fosse o nosso churiço, sabe? Então eles
  1683. 1:14:05falam, eles dão muito isso paraas pras
  1684. 1:14:07puérperas comer porque tem muito ferro,
  1685. 1:14:10eh, dizeriam: "Me dá isso, né?" E eu ia
  1686. 1:14:13falar: "Nossa, não, isso aqui não. Como
  1687. 1:14:15assim?"
  1688. 1:14:16Quando a parentalidade então atravessa
  1689. 1:14:18esse cenário, instala-se o que a gente
  1690. 1:14:21chama de desraizamento eh parental.
  1691. 1:14:24Vamos falar um pouquinho disso
  1692. 1:14:27entre culturas, né? Eh,
  1693. 1:14:32ao migrar, né, esse sujeito, ele se
  1694. 1:14:33afasta das raízes simbólicas que
  1695. 1:14:35organizavam a sua experiência de
  1696. 1:14:37cuidado. A mulher passa a maternar entre
  1697. 1:14:40os dois mundos, né? Isso vai gerando
  1698. 1:14:43várias coisas e a necessidade constante
  1699. 1:14:46de negociação.
  1700. 1:14:48Eh, o Bob, né, ele fala que ao discutir
  1701. 1:14:51a formação do apego, destaca-se a
  1702. 1:14:53capacidade de cuidar tá profundamente
  1703. 1:14:56ligada às experiências de cuidado
  1704. 1:14:58internalizadas.
  1705. 1:14:59Quando o sujeito perde o acesso a essas
  1706. 1:15:01referências, mesmo o acesso, né, eh,
  1707. 1:15:05externas que reforçavam essas
  1708. 1:15:07experiências, talvez torne-se
  1709. 1:15:08rencessário um trabalho psíquico gigante
  1710. 1:15:11de reconstruação, deu de reconstrução,
  1711. 1:15:14né? Porque talvez ali naquele lugar,
  1712. 1:15:17naquele contexto, nenhuma referente tá
  1713. 1:15:18sendo totalmente suficiente.
  1714. 1:15:21Então, desraizamento parental, né, no
  1715. 1:15:24contexto expatriado, é um um conceito
  1716. 1:15:28que descreve a experiência emocional
  1717. 1:15:30simbólica e relacional de perder as
  1718. 1:15:33referências parentais e culturais que
  1719. 1:15:37sustentavam o exercício da maternidade,
  1720. 1:15:40da paternidade no país de origem, né?
  1721. 1:15:44Desraizamento parental. Sim,
  1722. 1:15:46>> em outras palavras, é o processo de
  1723. 1:15:48ruptura e reconstrução das raízes que
  1724. 1:15:52estruturavam a minha parentalidade, né,
  1725. 1:15:54que já foi sendo constituída desde o meu
  1726. 1:15:57nascimento, quando os pais se tornam
  1727. 1:16:00imigrantes ou expatriados,
  1728. 1:16:03né? Eh, aí vão ter questões também, né,
  1729. 1:16:09de como a parentalidade vai lidar com o
  1730. 1:16:11infantil entre culturas, né? A criança,
  1731. 1:16:14ela também vai construir a sua própria
  1732. 1:16:16identidade.
  1733. 1:16:18Eh, e que criança é essa? É uma criança
  1734. 1:16:21que veio já eh, com várias coisas
  1735. 1:16:25daquele país. É uma criança que nasceu
  1736. 1:16:27aqui, mas são pais que vieram desse
  1737. 1:16:30país. Então, depende também, né? Cultura
  1738. 1:16:33familiar, criança, cultura do país onde
  1739. 1:16:35cresce. L vai vão ter várias coisas que
  1740. 1:16:38vão atravessar aí língua, escola,
  1741. 1:16:40alimentação, valores, a própria
  1742. 1:16:42infância, família, pertencimento, né?
  1743. 1:16:46Como transmitir pertencimento sem formar
  1744. 1:16:48em obrigação também, né? Porque se a
  1745. 1:16:50criança nasce aqui, ela se identifica
  1746. 1:16:53com o daqui. Mas se os pais, por
  1747. 1:16:55exemplo, são brasileiros, né, como que
  1748. 1:16:57eu vou eh transmitir isso sem ser uma
  1749. 1:17:00obrigação, né? eh, de que a criança tem
  1750. 1:17:04que ter aquilo ali. Ela só tem se ela se
  1751. 1:17:05identificar, se aquilo significar para
  1752. 1:17:08ela, né? Então, às vezes o filho não
  1753. 1:17:10quer falar português, daí a mãe, ah, ele
  1754. 1:17:13começa a dar, né? Tem vergonha de mim,
  1755. 1:17:15não quer ser brasileira. A criança vem e
  1756. 1:17:18fala: "I'SIS, eu sou irlanda, né?" Então
  1757. 1:17:22assim, será que nesse diá diálogo elas
  1758. 1:17:24estão realmente discutindo sobre língua
  1759. 1:17:27ou elas estão negociando pertencimento?
  1760. 1:17:30Eu falo muito aqui, às vezes eu dou
  1761. 1:17:32algumas palestras eh em escola, né, que
  1762. 1:17:35tem o português como língua de herança e
  1763. 1:17:38eu entro muito nessa questão do
  1764. 1:17:40pertencimento. Não adianta eu ensinar um
  1765. 1:17:43português, eu falar pra criança comer um
  1766. 1:17:46pão de queijo, apresentar uma feijoada,
  1767. 1:17:48se ela não significar aquilo, se aquilo
  1768. 1:17:50não estiver significado para ela, se ela
  1769. 1:17:53não se sentir pertencente à aquele mundo
  1770. 1:17:55também, porque aquilo é meu, mas a minha
  1771. 1:17:58criança precisa ir internalizando aquilo
  1772. 1:18:01também como dela, porque senão ela vai
  1773. 1:18:04crescer e aí ela vai negar, ela vai
  1774. 1:18:06falar: "Não reconheço", né? E realmente
  1775. 1:18:09ela não sente aquilo, ela não tá
  1776. 1:18:11permeada pela aquilo, da forma de
  1777. 1:18:15pertencer como deveria ser, não é
  1778. 1:18:17verdade?
  1779. 1:18:21Parentalidade, então ela também migra,
  1780. 1:18:23né? Criar filhos em outra cultura exige
  1781. 1:18:27negociar referências o tempo inteiro.
  1782. 1:18:30Não é só meu, é o que agora é nosso, é o
  1783. 1:18:33que agora é daquela criança. Quem é essa
  1784. 1:18:36criança, né? Então, o que que eu
  1785. 1:18:38mantenho? O que que eu adapto? O que que
  1786. 1:18:41eu deixo para trás? O que que eu tento
  1787. 1:18:43transmitir pros meus filhos? É uma uma
  1788. 1:18:46negociação de referências o tempo
  1789. 1:18:48inteiro, né? As famílias multiculturais
  1790. 1:18:51que eu atendo na clínica, a maioria a
  1791. 1:18:54gente vai trabalhar muito
  1792. 1:18:56eh renegociar referências, né? Eh, das
  1793. 1:19:01duas partes, né? do que eu transmito
  1794. 1:19:03paraa criança, do que eu consigo eh
  1795. 1:19:05transmitir para mim, de abrir mão também
  1796. 1:19:08ou então de de pegar como algo a mais,
  1797. 1:19:11né?
  1798. 1:19:14Quase terminando, gente, saúde mental,
  1799. 1:19:16estrutura e acesso, né? Eh, nem todo
  1800. 1:19:20sofrimento aqui começa então dentro do
  1801. 1:19:22indivíduo, né? Eh, aí é uma coisa muito
  1802. 1:19:26mais coletiva. A habitação é saúde
  1803. 1:19:29mental, trabalho digno é saúde mental.
  1804. 1:19:32segurança migratória, é saúde mental,
  1805. 1:19:34rede de apoio à saúde mental, proteção
  1806. 1:19:36contra a violência é saúde mental,
  1807. 1:19:38acesso à língua é saúde mental, né? Eh,
  1808. 1:19:41isso aqui no sistema de de assistência é
  1809. 1:19:44é o básico, né, que a gente tem que
  1810. 1:19:46falar, mas a gente precisa eh pegar a
  1811. 1:19:50estrutura das coisas, né, os
  1812. 1:19:52profissionais e falar assim: "Olha, isso
  1813. 1:19:53aqui tem que ser eh
  1814. 1:19:56eh social, né? A gente tem que colocar
  1815. 1:19:58isso de caráter social. Não podemos
  1816. 1:20:01individualizar no sofrimento, que também
  1817. 1:20:03é produzido socialmente, né? Então, eh,
  1818. 1:20:06minha grande batalha aqui na Irlanda,
  1819. 1:20:08por exemplo, é trazer muito dados, né, e
  1820. 1:20:12levar, eh, conhecimento pros sistemas,
  1821. 1:20:14principalmente de saúde pública, eh
  1822. 1:20:17sobre, eh, a importância, né, deles
  1823. 1:20:19também, eh, se readaptarem, estudarem e
  1824. 1:20:24se eh atualizarem nos contextos
  1825. 1:20:27imigrantes, porque Dublin, por exemplo,
  1826. 1:20:29aonde eu moro, é a capital que tem maior
  1827. 1:20:32número de imigrantes aqui na Irlanda.
  1828. 1:20:34Então eles precisam eh minimamente saber
  1829. 1:20:37quem são essas pessoas, né? Como como
  1830. 1:20:40que tudo funciona também.
  1831. 1:20:45Eh,
  1832. 1:20:47né, algumas experiências aí, né, não
  1833. 1:20:50podem ser dita diretamente porque a
  1834. 1:20:51linguagem verbal ela foi eh impedida
  1835. 1:20:55ali, ela tá limitada, mas tem a
  1836. 1:20:57linguagem da experiência, né? Elas podem
  1837. 1:21:00vir como imagens, sensações, fragmentos.
  1838. 1:21:04silêncios, né? Talvez às vezes quem
  1839. 1:21:07trabalha aí na assistência, o que não
  1840. 1:21:08pode ser dito, ele precisa ser
  1841. 1:21:10simbolizado, acolhido, né? Eh, colocado
  1842. 1:21:13ali de alguma forma por essa pessoa que
  1843. 1:21:15chega. Eh, na clínica com mulheres
  1844. 1:21:18migrantes é muito comum ouvir, né?
  1845. 1:21:20Parece que eu tô em dois lugares ao
  1846. 1:21:21mesmo tempo, eu não pertenço
  1847. 1:21:23completamente a nenhum, é como viver
  1848. 1:21:25entre mundos, né? E essa experiência às
  1849. 1:21:28vezes aparece em forma de metáfora.
  1850. 1:21:30Cuidar aqui é traduzir esses afetos, né?
  1851. 1:21:34Eh, os afetos entre os mundos, né? Eh, a
  1852. 1:21:39clínica, né? A assistência qualificada,
  1853. 1:21:42a a saúde eh pública, né? Também é um
  1854. 1:21:47ato de tradução afetiva e cultural, né?
  1855. 1:21:50quando ela tá ali, principalmente para
  1856. 1:21:51para entender um pouco deste deste
  1857. 1:21:54lugar, né, onde a pessoa tá vindo e às
  1858. 1:21:57vezes não consegue se comunicar. Então,
  1859. 1:21:59narrar, deixar a pessoa narrar é
  1860. 1:22:01organizar para ela também, porque a
  1861. 1:22:04narrativa ela permite dar sentido à
  1862. 1:22:06experiência, organizar o vivido, eh,
  1863. 1:22:09integrar o que tá sendo fragmentado, né?
  1864. 1:22:12narrar é transformar experiência em
  1865. 1:22:14história presente. Um caso bem
  1866. 1:22:17rapidinho, meu caso. Eh, eu fui tirar
  1867. 1:22:20carta aqui na Irlanda há muito tempo
  1868. 1:22:22atrás e eu não tinha não tinha carta de
  1869. 1:22:25motorista no Brasil. Fui tirar aqui e aí
  1870. 1:22:28aqui na Irlanda é bem diferente como
  1871. 1:22:30você faz para para questão de nome, né?
  1872. 1:22:33Você não muda o nome, você tem que mudar
  1873. 1:22:35a quando você vai tirando documentos.
  1874. 1:22:38Então é diferente, né? No Brasil, você
  1875. 1:22:39escolhe o nome que você quer quando você
  1876. 1:22:41casa. E aí eu fui com o meu um nome, né,
  1877. 1:22:45para tirar esse documento, eh, da carta
  1878. 1:22:48provisória e o atendente tava ali bem
  1879. 1:22:51malmorado e ele falou assim: "Você não
  1880. 1:22:53pode colocar esse nome porque não não é
  1881. 1:22:56assim que faz. Ou você coloca teu nome
  1882. 1:22:58inteiro, eh,
  1883. 1:23:01meu nome é Caroene da Silva Santos, né?
  1884. 1:23:03nome de solteira. Ou você coloca Caroene
  1885. 1:23:06da Silva Santos Murray, que é o do meu
  1886. 1:23:08marido, ou você só coloca Caroeni
  1887. 1:23:10Murray. Você não pode colocar Caroen
  1888. 1:23:11Santos Mury, isso não existe. Daí eu
  1889. 1:23:14falei para ele, ai nossa, não sabia, né?
  1890. 1:23:16Então deixa a Caroene da Silva Santos,
  1891. 1:23:17vou ter que mudar na próxima carteira eu
  1892. 1:23:19faço. Mas daí fui falar para ele, mas no
  1893. 1:23:22Brasil a gente faz assim, a gente pega o
  1894. 1:23:24nosso nome familiar, né, o Santos, no
  1895. 1:23:26meu caso, e aí a gente coloca eh o nome
  1896. 1:23:30do marido quando isso é é desejado.
  1897. 1:23:33Então, Santos Murray virou para mim e
  1898. 1:23:35falou: "Eh, você não está no Brasil?"
  1899. 1:23:39Gente, aquilo é foi uma experiência
  1900. 1:23:41péssima. Eu saí de lá arrasada. Eu não
  1901. 1:23:44dirigi por muito tempo assim, nem queria
  1902. 1:23:46mais aprender a dirigir, sabe? Porque
  1903. 1:23:49ele não teve nenhum tipo de cuidado, né,
  1904. 1:23:51em deixar eu narrar algo que talvez,
  1905. 1:23:54claro, não ia mudar o sistema, eu não ia
  1906. 1:23:56poder colocar aquele nome, mas era uma
  1907. 1:23:58forma de eu falar como eu tava sendo
  1908. 1:24:00pertencente à aquilo por conta da minha
  1909. 1:24:02escolha, né? Então, escutem, escutem aí
  1910. 1:24:06que às vezes isso faz muito, para mim
  1911. 1:24:08era fazia muito sentido. Eh, para ele
  1912. 1:24:11ele já foi grosso, né? Nesse sentido,
  1913. 1:24:14então assim, disponível também não
  1914. 1:24:18significa acessível, né? Serviço tá
  1915. 1:24:22disponível, mas será que o serviço tá
  1916. 1:24:24acessível, né? Aqui na Irlanda, no
  1917. 1:24:26cenário de parto, muitos serviços
  1918. 1:24:29disponíveis, nem todos para imigrantes
  1919. 1:24:32estão acessíveis. Primeiro porque fazer
  1920. 1:24:34um curso de preparação em inglês, nem
  1921. 1:24:36todas têm inglês, então não tá
  1922. 1:24:38acessível. entender o que acontece ali e
  1923. 1:24:41dá os segundos passos, às vezes não tá
  1924. 1:24:43acessível. Tomar uma decisão ali rápido,
  1925. 1:24:47às vezes não tá acessível, né? Eh,
  1926. 1:24:51complicado. A gente tem nos nos
  1927. 1:24:53sistemas, né? eh públicos. Aqui a gente
  1928. 1:24:55pode eh pedir tradutor, por exemplo, mas
  1929. 1:24:59é por telefone na maioria das vezes. E
  1930. 1:25:02até os próprios tradutores falam, a
  1931. 1:25:04gente traduz literalmente, a gente não
  1932. 1:25:06coloca emoção, às vezes vai uma tradução
  1933. 1:25:09muito literal daquilo, então não é
  1934. 1:25:12interessante. Às vezes nem consegue
  1935. 1:25:14aquele tradutor eh ali. Então assim,
  1936. 1:25:17serviço disponível não significa serviço
  1937. 1:25:19acessível para imigrante, tá?
  1938. 1:25:21eh nem serviço culturamente aceitável,
  1939. 1:25:26né? Eh, e nem cuidado efetivo. Então, às
  1940. 1:25:30vezes tem algum lugar que tem muita
  1941. 1:25:32coisa, mas aquilo não tá acessível, não
  1942. 1:25:35tá culturalmente aceitável e não tem um
  1943. 1:25:38cuidado afetivo para aquela demanda de
  1944. 1:25:42idioma, de transporte, de horário, né,
  1945. 1:25:45documentação, de confiança, de
  1946. 1:25:46informação, de cultura, muita coisa.
  1947. 1:25:49Então assim, quando a gente olha nos
  1948. 1:25:51cuidados, principalmente de cuidado
  1949. 1:25:52coletivo, nem toda não adesão é
  1950. 1:25:55resistência. É simplesmente que talvez
  1951. 1:25:58aquilo não significou para aquela pessoa
  1952. 1:26:01porque ela não entendeu ou então porque
  1953. 1:26:03aquilo, né, novamente eh não tem talvez
  1954. 1:26:07na cultura dela ou não tá acessível para
  1955. 1:26:10ela, né? Eh, não posso falar para uma
  1956. 1:26:14paciente daqui falar: "Olha, tem grupos
  1957. 1:26:16de mães que se encontram toda
  1958. 1:26:18quinta-feira aqui no parque, vai lá, tem
  1959. 1:26:21café gratuito, as mães conversam, elas
  1960. 1:26:23trocam telefone. Se ela não fala inglês,
  1961. 1:26:27tem o serviço, mas não, né? Então assim,
  1962. 1:26:29vamos procurar algo na comunidade
  1963. 1:26:31brasileira, vamos procurar algo online
  1964. 1:26:34no Brasil, né? Então, a gente às vezes
  1965. 1:26:36ali também precisa contornar
  1966. 1:26:40eh a assistência nossa, né, ela serve
  1967. 1:26:43como esse espaço de tradução afetiva e
  1968. 1:26:45cultural, né? Então, é uma tradução não
  1969. 1:26:48só de palavras, mas de experiência.
  1970. 1:26:51Eh, preciso da minha mãe, vem a fala,
  1971. 1:26:54né? Talvez eu precise poder ser filha
  1972. 1:26:56novamente. Será que é isso? Eu quero ir
  1973. 1:26:59embora, né, desse país. Talvez eu não
  1974. 1:27:01reconheça quem eu me tornei aqui, né? O
  1975. 1:27:04meu filho tá ficando irlandês demais,
  1976. 1:27:06né? Famílias falam isso. Talvez eu tenha
  1977. 1:27:09medo de perder a nossa continuidade ou
  1978. 1:27:11então eu não tô dando conta de ser essa
  1979. 1:27:13representante eh de cultura aqui pro meu
  1980. 1:27:16filho, né? não são interpretações
  1981. 1:27:19prontas, mas são possibilidades para
  1982. 1:27:21perguntar, para desenvolver, para ver se
  1983. 1:27:25vem, né, no contato, principalmente em
  1984. 1:27:28clínicas privadas, né, que a gente tem o
  1985. 1:27:30tempo.
  1986. 1:27:32Eh,
  1987. 1:27:34aqui é só um uma uma palhinha de de
  1988. 1:27:37grupos, né, de de eu eu fiz aqui por
  1989. 1:27:41muito tempo grupos eh de perda eh
  1990. 1:27:44perinatal com famílias com as mulheres
  1991. 1:27:46brasileiras aqui. Então, eh esse aqui é
  1992. 1:27:49um é um um bastidor assim que eu pedi
  1993. 1:27:53para
  1994. 1:27:54uma artista criar para mim, que era
  1995. 1:27:56exatamente o que elas estavam traduzindo
  1996. 1:27:59ali, né? Eh, olha só que legal. E daí
  1997. 1:28:02ela foi me mandando assim a criação, mas
  1998. 1:28:05olha que legal, eh, os dois mundos, né,
  1999. 1:28:07os dois lugares, Brasil e Irlanda,
  2000. 1:28:10ligados por um cordão umbilical, mas ao
  2001. 1:28:12mesmo tempo separados, né? Parece que eu
  2002. 1:28:14tô com um pé em cada lugar, aquele
  2003. 1:28:16cordão que tá ali. Eh, e nos grupos, né,
  2004. 1:28:20que eu que eu que eu que eu tava
  2005. 1:28:21ofertando aqui, a gente fazia muito eh
  2006. 1:28:26muita questões de de ressignificação
  2007. 1:28:28simbólica, de arte mesmo, né? Eu sou
  2008. 1:28:30muito da ludoterapia, da arterapia.
  2009. 1:28:33Então, as artes que iam surgindo, eh,
  2010. 1:28:35iam dando continuidade, talvez, aos
  2011. 1:28:37vínculos, né? Pintar, abordar o amor
  2012. 1:28:40onde houve interrupção. Essas mães, elas
  2013. 1:28:43transformavam o luto em criação e
  2014. 1:28:46encontram força na própria delicadeza,
  2015. 1:28:48né? No nos grupos aqui tudo era
  2016. 1:28:51traduzido, né? E tudo se tornava
  2017. 1:28:53linguagem terapêutica. É o modo como
  2018. 1:28:56essas mães falam do que a palavra não
  2019. 1:28:58alcança. Então assim, se vocês puderem
  2020. 1:29:00trabalhar com grupos, isso é uma
  2021. 1:29:01alternativa também, é muito legal porque
  2022. 1:29:05elas se encontram ali, né? Imagina
  2023. 1:29:08grupos de mulheres imigrantes, tal, elas
  2024. 1:29:10se encontram ali com o mesmo talvez
  2025. 1:29:13referencial, nem que seja da dor, nem
  2026. 1:29:15que seja da angústia, nem que seja eh do
  2027. 1:29:18não pertencimento, né? elas encontram
  2028. 1:29:21alguma coisa, se unem e aí a gente
  2029. 1:29:23consegue eh transformar aquilo em alguma
  2030. 1:29:26coisa, em cuidado,
  2031. 1:29:28né? Mudança de posição aqui, né? Cuidar
  2032. 1:29:32em contextos migratórios exige
  2033. 1:29:34deslocamento do profissional. Não se
  2034. 1:29:37trata de aplicar modelos prontos.
  2035. 1:29:39Trata-se de construir a escuta a partir
  2036. 1:29:41da experiência da mãe, que eu coloquei,
  2037. 1:29:43mas do imigrante, né? Ampliar a nossa
  2038. 1:29:46escuta, né? A a escuta ela precisa
  2039. 1:29:49considerar o território que essa mulher
  2040. 1:29:52tá ou que, né, esse imigrante tá, o
  2041. 1:29:55sistema de saúde que o atravessa, o
  2042. 1:29:57contexto, né, talvez do pato, do
  2043. 1:29:59pós-pato, do porpero, da rede de apoio,
  2044. 1:30:02presença ou ausência de rede, que rede,
  2045. 1:30:05né, que a gente tá falando e as
  2046. 1:30:07experiências mesmo de acolhimento ou
  2047. 1:30:08exclusão, que isso é muito importante,
  2048. 1:30:11né? O sofrimento também é contextual,
  2049. 1:30:15né? eh, que que a gente pode fazer, né?
  2050. 1:30:18A gente faz muita coisa, né? Do
  2051. 1:30:21indivíduo pro sistema. O imigrante não é
  2052. 1:30:23o único que precisa se adaptar, né? É a
  2053. 1:30:26pessoa profissional, o serviço, a
  2054. 1:30:28comunidade, a política pública, o
  2055. 1:30:31cuidado, o cuidado intercultural também
  2056. 1:30:33exige instituições culturalmente
  2057. 1:30:36responsivas.
  2058. 1:30:38Isso acho que no mundo em que a gente
  2059. 1:30:40vive eh faz muito sentido, né? onde a
  2060. 1:30:43gente tenha essa esse deslocamento
  2061. 1:30:45acontecendo, ou por necessidade, ou por
  2062. 1:30:48vontade, ou por catástrofes, né, ou por
  2063. 1:30:51guerras. Então, a gente precisa eh
  2064. 1:30:55trazer isso, né, paraas nossas políticas
  2065. 1:30:57públicas, políticas comunitárias, pros
  2066. 1:30:59serviços, paraas atualizações
  2067. 1:31:01profissionais, né, paraas pessoas que
  2068. 1:31:03estão ali, eh, lidando com isso,
  2069. 1:31:06construir cuidado com a pessoa, né, não
  2070. 1:31:08apenas para ela, mas para que isso possa
  2071. 1:31:11se ampliar.
  2072. 1:31:13Só para finalizar, né, então, entre as
  2073. 1:31:15fronteiras e as presenças, aí a gente eh
  2074. 1:31:19o amor vai costurando presenças, né? O
  2075. 1:31:21amor pelo que a gente faz, pela
  2076. 1:31:23atualização, pela gente poder escutar. O
  2077. 1:31:26cuidado não é resolver, corrigir,
  2078. 1:31:28eliminar a dor, né? Mas o cuidado ele é
  2079. 1:31:31sustentar, reconhecer, dar lugar à
  2080. 1:31:34experiência. Isso é tão importante.
  2081. 1:31:36Cuidar nesse contexto é reconhecer a
  2082. 1:31:39complexidade, né? sustentar o que foi
  2083. 1:31:41interrompido, ajudar a reconstruir
  2084. 1:31:43pertencimento, porque mesmo entre
  2085. 1:31:45fronteiras é possível e muito possível
  2086. 1:31:48criar novas formas de existir e isso vai
  2087. 1:31:50ser muito bacana para aquela pessoa.
  2088. 1:31:53Nosso papel aí como profissionais é
  2089. 1:31:55costurar dignidade onde é rasgo, né? Por
  2090. 1:31:58dar presença no tecido das ausências.
  2091. 1:32:01aqui, né? Sempre eu falo, o cuidado
  2092. 1:32:03precisa ser construído não apenas paraa
  2093. 1:32:05mãe, pro pai, pra família, né, mas com
  2094. 1:32:10essas pessoas, porque mesmo entre
  2095. 1:32:12fronteiras, né, é possível reconstruir
  2096. 1:32:14pertencimento quando há espaço para
  2097. 1:32:16escuta, reconhecimento e elaboração, né?
  2098. 1:32:20Lembrando do meu caso aí da da ti do do
  2099. 1:32:23tirar a carteira de motorista, ele não
  2100. 1:32:25precisava reconhecer o meu nome e mudar
  2101. 1:32:27o sistema. ele podia falar: "Nossa, que
  2102. 1:32:30legal aqui, né, na Irlanda não funciona
  2103. 1:32:32dessa forma. Eh, da, gente, eram um 30
  2104. 1:32:37segundos de fala, né, de me escutar, de
  2105. 1:32:41reconhecer aquilo e de eh trocar uma
  2106. 1:32:44experiência positiva, né? Então, imagina
  2107. 1:32:47isso ultrapassado em lugares onde há
  2108. 1:32:50sofrimento, né, eh onde há rupturas
  2109. 1:32:55maiores, né? Então, a gente precisa
  2110. 1:32:57levar isso com a gente. Eh, deixo aqui
  2111. 1:33:01também depois as referências para vocês,
  2112. 1:33:03né? Trouxe aqui um pouquinho das
  2113. 1:33:04referências que eu uso aqui nos meus
  2114. 1:33:06estudos eh de contextos migratórios.
  2115. 1:33:11Eh, e obrigada, obrigada aí por terem
  2116. 1:33:15aqui, eh, comigo nesse tempinho que eu
  2117. 1:33:18passei para caramba, mas vamos aí
  2118. 1:33:20conversar um pouquinho se tivermos ainda
  2119. 1:33:23tempo, tá bom? Vamos lá.
  2120. 1:33:33Nossa, eh,
  2121. 1:33:35eu acho que com certeza temos tempo, né?
  2122. 1:33:37Eu acho que agora rodar a palavra, né?
  2123. 1:33:40Eh, mas assim, destacar, eu acho que a
  2124. 1:33:45delicadeza, né? Eu acho que o cuidado e
  2125. 1:33:48quantas questões importantes, né? Eu
  2126. 1:33:50fiquei pensando muito assim que não é
  2127. 1:33:54banalizar, né, a questão da da
  2128. 1:33:57experiência da migração e de todas as
  2129. 1:33:59questões que atravessam em termos de
  2130. 1:34:01sofrimento, de dor, mas eu acho que você
  2131. 1:34:04traz muito um olhar pra questão da vida,
  2132. 1:34:07né, no sentido assim, né, eu fiquei
  2133. 1:34:09pensando essa questão da subjetividade,
  2134. 1:34:12né, dessa questão que é trágica, né, e
  2135. 1:34:15como que a gente vai passando pelos
  2136. 1:34:17momentos, nos sustentando, isso não quer
  2137. 1:34:20dizer que não tenha dor, que não tenha
  2138. 1:34:22sofrimento, mas tem possibilidades, né?
  2139. 1:34:25Então assim, eh, fiquei pensando muito
  2140. 1:34:28nisso. E agora no final, eh, num
  2141. 1:34:31conceito também que eu me deparei, que
  2142. 1:34:34achei muito interessante, que é a
  2143. 1:34:36questão da humildade cultural, mais do
  2144. 1:34:38que a competência cultural, né, que eu
  2145. 1:34:41acho que é isso, não é você se apropriar
  2146. 1:34:44ou ter informação sobre, né, porque você
  2147. 1:34:46não vai ter da vivência, da cultura do
  2148. 1:34:49outro, mas você saber que é um encontro.
  2149. 1:34:51Então assim, eu também vou me modificar,
  2150. 1:34:53eu também vou me afetar por aquilo que é
  2151. 1:34:56a experiência que você traz carteira,
  2152. 1:34:58né? É isso, ó, né? Validar, entender que
  2153. 1:35:02tem uma outra vivência e como que a
  2154. 1:35:04gente compõe isso, que que é possível
  2155. 1:35:06nesse encontro de composição, né? Então,
  2156. 1:35:11achei muito interessante assim, fiquei
  2157. 1:35:13pensando, lembrei desse conceito aí, né?
  2158. 1:35:16>> Exato. E vai muito dos dois lados, né?
  2159. 1:35:19Porque tá fechada.
  2160. 1:35:21Ah, desculpa,
  2161. 1:35:24eu tô fechada. Não tão me escutando,
  2162. 1:35:27então? Ah, tá, tá bom. Não, eu penso
  2163. 1:35:30muito que é das, né, aquela, aquele
  2164. 1:35:32lugar de duas de duas vias, né, porque
  2165. 1:35:34eu falo muito para as pessoas aqui
  2166. 1:35:36também, né, gente, não nadaem contra a
  2167. 1:35:38maré, né? às vezes e eh tirem um
  2168. 1:35:43pouquinho do conceito já ali que você já
  2169. 1:35:45tem e dá uma uma olhada o que que tem
  2170. 1:35:48aqui, que legal que talvez seja, leva a
  2171. 1:35:51amiga que sabe um pouco mais de inglês
  2172. 1:35:53ou então vai lá só para experienciar,
  2173. 1:35:55né? Sentir pertencente. Você vai
  2174. 1:35:57construindo pertencimento também através
  2175. 1:35:59do se deixar ir, né? e não simplesmente
  2176. 1:36:02já vir com aquilo, ai não vai ser
  2177. 1:36:04gostosa a comida daqui. Nada é tão, nada
  2178. 1:36:07vai ser tão gostoso quanto a comida da
  2179. 1:36:09tua mãe, da tua avó, do, né, do boteco
  2180. 1:36:11da esquina, da feijoada de domingo. Não
  2181. 1:36:14vai, galera. Isso aí tá, né, para
  2182. 1:36:16quemigrou, isso já tá ali num lugar que
  2183. 1:36:19já foi afetado neurologicamente,
  2184. 1:36:21mas dá uma chance ali pro talvez pra
  2185. 1:36:24comidinha irlandesa, pra comidinha de
  2186. 1:36:26outros lugares. Tá tudo bem, né? Eh,
  2187. 1:36:29novamente a gente vai fazendo, não
  2188. 1:36:31precisa nadar contra amarelo o tempo
  2189. 1:36:32inteiro. Então é é essa coisa de duas de
  2190. 1:36:35duas de duas vias.
  2191. 1:36:38Sabrina tá com a mãozinha para cima aí.
  2192. 1:36:43Eh, boa tarde aí na Irlanda. Eh, queria
  2193. 1:36:47agradecer, né, essa essa rica palestra,
  2194. 1:36:51a forma que você expôs a imigração foi
  2195. 1:36:53perfeita de uma maneira muito real. Eu
  2196. 1:36:57me vi presente em vários contextos,
  2197. 1:36:59porque eu já fui imigrante, morei na
  2198. 1:37:01Noruega, um país frio também, onde o
  2199. 1:37:04local que eu me sentia mais acolhida era
  2200. 1:37:06o banheiro. E essa questão do
  2201. 1:37:09pertencimento
  2202. 1:37:10é é é um boom, assim, a gente nunca
  2203. 1:37:14acha, por mais organizado que seja essa
  2204. 1:37:17migração, a gente nunca acha que esse
  2205. 1:37:19boom vai ser um buraco, vai ser tão
  2206. 1:37:22intenso, né? E depois você traz isso,
  2207. 1:37:25né? Um segundo momento que eu não
  2208. 1:37:27resisti, eu voltei à minha terra e
  2209. 1:37:30quando eu vi, né, os barraquinhos no
  2210. 1:37:32avião, falei: "Ai, graças a Deus cheguei
  2211. 1:37:34ao Brasil, não vivenciei o segundo
  2212. 1:37:36momento que você mostra muito bem, que é
  2213. 1:37:39o momento onde as coisas começam a se
  2214. 1:37:41encaixar desde o momento que você se
  2215. 1:37:43coloca à disposição de de atravessamento
  2216. 1:37:47de cultura e assim". E aí eu tenho
  2217. 1:37:50algumas perguntas, né, sobre a questão
  2218. 1:37:52de saúde, né, tanto na Irlanda quanto na
  2219. 1:37:55Europa, né, e a questão do acesso, né,
  2220. 1:37:59como que funciona, porque hoje nós temos
  2221. 1:38:02no Brasil o SUS, né, que é o sistema
  2222. 1:38:04público de saúde. E pro migrante, eh,
  2223. 1:38:08que ele chega, né, ele não tem uma
  2224. 1:38:11formação acadêmica, ele chega com aquela
  2225. 1:38:13ideologia, né, que ele vai paraa Europa,
  2226. 1:38:16ele vai para um, pros Estados Unidos,
  2227. 1:38:18ele vai para um outro lugar que seja de
  2228. 1:38:20primeiro mundo e ele acha que vai viver
  2229. 1:38:23aquele sonho migratório, né, que não é
  2230. 1:38:25bem assim que você trouxe a realidade,
  2231. 1:38:28né? Eu costumo falar quando eu falo da
  2232. 1:38:30minha experiência, que terra estrangeira
  2233. 1:38:32é terra que filho chora e mãe não vê,
  2234. 1:38:34né? E, e, e, eu queria saber como é que
  2235. 1:38:38funciona esse, o que seria acessível
  2236. 1:38:41para todos, o que que seria o aqui é o
  2237. 1:38:44SUS, na Irlanda é o quê? Eu queria, eu
  2238. 1:38:47tenho outras perguntas também, mas eu
  2239. 1:38:50primeiro para poder formar um caminho,
  2240. 1:38:52eu queria que você me respondesse
  2241. 1:38:55>> essa essa esse acesso, né, à saúde.
  2242. 1:38:57>> Uhum. aqui na aqui na Irlanda, vou falar
  2243. 1:38:59pela Irlanda, claro, eh nós não temos um
  2244. 1:39:04Sistema Único de saúde. A saúde ela não
  2245. 1:39:06é pública nesse sentido, né? Às vezes
  2246. 1:39:09até as pessoas entendem que parece ser
  2247. 1:39:12pública, mas é para quando você já paga
  2248. 1:39:14taxas no país, então você tem
  2249. 1:39:16acessibilidade pública. Eh, aqui nós
  2250. 1:39:19temos o RSI HSE, que é um health
  2251. 1:39:22secretary executive, que é como se fosse
  2252. 1:39:25o o o sistema que que trabalha com a
  2253. 1:39:29saúde. Eh, você não vai ser negado, por
  2254. 1:39:33exemplo, né? Você vai num hospital,
  2255. 1:39:35aconteceu alguma coisa, você pode ir
  2256. 1:39:37para um hospital, você vai ser atendido,
  2257. 1:39:40você vai receber todo o auxílio, mas vai
  2258. 1:39:42chegar no endereço que você deu na hora
  2259. 1:39:45de fazer a inscrição uma conta, né, uma
  2260. 1:39:49conta de serviços que pode ser de
  2261. 1:39:51internação, disso. Então, não tem
  2262. 1:39:53questões, não tem o público, né, viva
  2263. 1:39:56longa ao SUS. Não existe um SUS aqui.
  2264. 1:40:00Eh, a única, eh, variante nisso é na no
  2265. 1:40:04cenário de parto, porque se você é um
  2266. 1:40:07estudante, se você é um imigrante, né,
  2267. 1:40:09um turistas, qualquer coisa, se você tem
  2268. 1:40:12que ter um bebê aqui, você pode eh
  2269. 1:40:15ingressar o sistema, né, as
  2270. 1:40:16maternidades, que todas são, entre
  2271. 1:40:19aspas, eh, regidas pelo RITSI, não tem
  2272. 1:40:22maternidades privadas totais. Então você
  2273. 1:40:25vai, você é assistida e aí não vai ter
  2274. 1:40:27uma conta, você vai passar todo pelo
  2275. 1:40:29sistema, entre aspas, público, né, pelas
  2276. 1:40:32parteiras, pelas pela por esse sistema
  2277. 1:40:34todo, mas você não vai receber uma conta
  2278. 1:40:36na tua casa, por exemplo, é o único, a
  2279. 1:40:39única exceção que acontece. toda a outra
  2280. 1:40:42você vai receber a conta, né, para você
  2281. 1:40:45pagar aquilo.
  2282. 1:40:46>> Entendi. A segunda que junta com a
  2283. 1:40:48terceira, eh, por exemplo, alguns países
  2284. 1:40:50europeus, como a Itália, quando você
  2285. 1:40:53quando há o nascimento de um bebê, de
  2286. 1:40:55dois filhos de imigrante, eles são
  2287. 1:40:57apátridas. Na Irlanda acontece isso. E a
  2288. 1:41:01pergunta que junta com essa é: você eh
  2289. 1:41:04falou muito da saúde da mulher muito
  2290. 1:41:06rico, é a minha eh minha vertente de
  2291. 1:41:08pesquisa também, meu eixo de pesquisa
  2292. 1:41:11também. Você sente dentro da saúde que é
  2293. 1:41:14para todos, né, desse seguro, uma
  2294. 1:41:16xenofilia, eh, que é uma preferência
  2295. 1:41:20racial dos profissionais de saúde?
  2296. 1:41:24eh crianças eh
  2297. 1:41:28de de casal brasileiro, eles têm a
  2298. 1:41:30nacionalidade dos pais, né? Então, se
  2299. 1:41:34você se os dois tiverem aqui, mesmo com
  2300. 1:41:36visto de trabalho, eh, e os dois
  2301. 1:41:38tiveram, se tiverem cidadanias
  2302. 1:41:40brasileiras, a criança vai ter que ser
  2303. 1:41:42registrada como brasileira. Se um dos
  2304. 1:41:45dois tiver uma cidadania europeia ou
  2305. 1:41:47irlandesa, que seja por tempo de de
  2306. 1:41:49visto aqui ou por ser eh ter uma outra
  2307. 1:41:52cidadania, os pais podem optar por dupla
  2308. 1:41:55cidadania ou pela cidadania europeia,
  2309. 1:41:57por exemplo. E a e a Irlanda, como tá na
  2310. 1:42:00União Europeia, né? Então essa criança
  2311. 1:42:02ela pode ter a todo o acesso a a
  2312. 1:42:04qualquer coisa que ela esteja, porque
  2313. 1:42:06porque estamos num país na União
  2314. 1:42:08Europeia. Eh, cuidado da mulher, como
  2315. 1:42:12que foi a pergunta? se
  2316. 1:42:13>> é se eh se você sente, né, dentro dos eh
  2317. 1:42:18do dos dos eixos, né, do seu trabalho,
  2318. 1:42:20se você sente com base dos profissionais
  2319. 1:42:23de saúde, né, principalmente no cuidado
  2320. 1:42:25da mulher, ou pré ou transósgestação,
  2321. 1:42:31xenofilia por parte dos profissionais,
  2322. 1:42:34>> xenofobia,
  2323. 1:42:35>> não, xenofilia é seria a preferência de
  2324. 1:42:38nacionalidade. Eu prefiro trabalhar com
  2325. 1:42:40essas eh com essa com essa
  2326. 1:42:43nacionalidade. Xenofobia já é o
  2327. 1:42:46preconceito mesmo. Se existe uma
  2328. 1:42:49preferência, né, que é a xenofilia, uma
  2329. 1:42:51preferência de nacionalidade,
  2330. 1:42:53>> tá? Conceito novo aqui para mim também,
  2331. 1:42:55o xenofilia. Eh,
  2332. 1:42:59com certeza, né? Não são todos, a gente
  2333. 1:43:01não pode expandir isso para todos os
  2334. 1:43:04profissionais, mas a gente escuta muito,
  2335. 1:43:06principalmente nas rodas, nos grupos,
  2336. 1:43:08né? de mulheres migrantes, eh, não que
  2337. 1:43:12isso é explícito, mas que elas sentem
  2338. 1:43:15que houve um tratamento diferente
  2339. 1:43:18eh para uma nacionalidade tal como para
  2340. 1:43:22outra nacionalidade. Eu posso falar
  2341. 1:43:24isso, por exemplo, com a psicologia, né?
  2342. 1:43:27Eu tô num processo aqui que já tá há
  2343. 1:43:30anos fazendo uma validação
  2344. 1:43:33que a Irlanda precisa reconhecer algumas
  2345. 1:43:35coisas aqui eh
  2346. 1:43:38da da minha psicologia clínica. E aqui
  2347. 1:43:41na Irlanda a gente não tem conselho de
  2348. 1:43:43psicologia,
  2349. 1:43:45eh, a gente tem somente associações.
  2350. 1:43:46Então é um vcu-vuco, não vou nem entrar
  2351. 1:43:48ali, mas assim, eh, eles dão
  2352. 1:43:51preferências quando eles vão fazer essa
  2353. 1:43:53validação.
  2354. 1:43:55É isso, né? Conversas internas para as
  2355. 1:43:59pessoas que vêm de UK, para as pessoas
  2356. 1:44:03que tem uma língua nativa inglês,
  2357. 1:44:05americanos, por exemplo, né? Estados
  2358. 1:44:07Unidos, do que eh sul-americanos,
  2359. 1:44:10brasileiros, venezuelanos, argentinos,
  2360. 1:44:13eh espanhóis. Então, tem sim, quando a
  2361. 1:44:17pessoa vem e já se formou em inglês,
  2362. 1:44:19aquilo o processo tá sendo levado de
  2363. 1:44:22outra forma, né? Então, até dentro da da
  2364. 1:44:25da própria da própria experiência
  2365. 1:44:27profissional, assim, de validação de
  2366. 1:44:30algo assim eh complicado. Então, imagina
  2367. 1:44:32nos nos sistemas mesmos de saúde eh
  2368. 1:44:36nesse tipo de contexto. Alguma outra
  2369. 1:44:39coisa também que eu noto aí, às vezes é
  2370. 1:44:42uma falta talvez ali, né, de preparo
  2371. 1:44:45talvez dos profissionais para lidar com
  2372. 1:44:47essa questão imigrante e do desconforto
  2373. 1:44:49que isso traz. Talvez o profissional ele
  2374. 1:44:52nem tenha essa questão da xenofilia ou
  2375. 1:44:54da xenofobia ali com aquilo, mas ele não
  2376. 1:44:57conseguiu deixar a pessoa falar, ele não
  2377. 1:45:00conseguiu ter essa questão culturalmente
  2378. 1:45:03sensível para lidar com aquilo. Então, a
  2379. 1:45:06experiência do paciente é muito ruim,
  2380. 1:45:08principalmente da mulher, né? Porque
  2381. 1:45:10aqui, por exemplo, novamente, nós não
  2382. 1:45:12temos especialistas na no setor da
  2383. 1:45:15saúde, em consultórios. A gente não vai
  2384. 1:45:17num ginecologista, a gente vai no médico
  2385. 1:45:19da família que tem ali talvez uma
  2386. 1:45:23especialidade maior em ginecologia. Se a
  2387. 1:45:26gente passa por ginecologista, são
  2388. 1:45:27dentro dos hospitais, quando a gente
  2389. 1:45:30recebe um encaminhamento para um cuidado
  2390. 1:45:32mais do especialista em alguma coisa,
  2391. 1:45:35né? foi eh determinou alguma coisa aqui
  2392. 1:45:39no teu eh Papa Nicolau, então você tem
  2393. 1:45:41que passar com o ginecologista e aí para
  2394. 1:45:43todos os serviços, né, nesse sentido.
  2395. 1:45:47Não sei se respondu.
  2396. 1:45:49>> Respondeu muito claramente. Muito
  2397. 1:45:51obrigado, porque sempre há, né, a gente
  2398. 1:45:54lê através da literatura, mas quando há
  2399. 1:45:58uma pessoa vivendo isso, né, fica muito
  2400. 1:46:01mais vívido, né, a experiência eh
  2401. 1:46:04pessoal da pessoa, né, traz muito mais
  2402. 1:46:07vida do que aquilo que lemos nas
  2403. 1:46:10literaturas aí expostas. Depois, no
  2404. 1:46:12final eu, por gentileza, eu queria que
  2405. 1:46:14você colocasse as suas referências, que
  2406. 1:46:16não deu tempo de eu fotografar porque eu
  2407. 1:46:18achei tão rico
  2408. 1:46:20>> e eu queria
  2409. 1:46:22>> queria que você compartilhasse as suas
  2410. 1:46:25referências, que assim foi excelente a
  2411. 1:46:28explanação. Obrigada.
  2412. 1:46:31>> Imagina eh as minhas, né, e aí coisas
  2413. 1:46:34que vão intercalando também as
  2414. 1:46:37experiências pessoais, né? Eu quando,
  2415. 1:46:40eu, né, estava no cenário de parto aqui,
  2416. 1:46:43eh, é muito diferente o sistema, muito
  2417. 1:46:46diferente. E eu tive, né, um privilégio
  2418. 1:46:49de poder trabalhar com assistência
  2419. 1:46:51perinatal, com a assistência da mulher,
  2420. 1:46:53né, de oferecer isso. Então, eu conhecia
  2421. 1:46:56muito o sistema daqui, consegui navegar
  2422. 1:46:58muito bem o sistema daqui. Eh, mas aí
  2423. 1:47:02entravam em lugares em que eu como
  2424. 1:47:06indivíduo negra vindo do Brasil
  2425. 1:47:10surgiu, né? Por exemplo, eu tive uma
  2426. 1:47:13necessidade gigantesca de botar tranças
  2427. 1:47:15na GO, trança Bods Braid quando eu tava
  2428. 1:47:18grávida porque me emponderou, me
  2429. 1:47:20assistias, sabe? fui no Brasil fazer com
  2430. 1:47:23a transcista da família, então teve que
  2431. 1:47:26ter tudo esse esse esse au. E aí eu
  2432. 1:47:28comecei a entrar em pânico, eh
  2433. 1:47:31eh na hora assim antes do pato, porque
  2434. 1:47:34eu falava: "Gente, eles vão mandar eu
  2435. 1:47:36cortar isso aqui se eu for para uma
  2436. 1:47:37cesárea, porque a literatura diz que
  2437. 1:47:40isso pode ter queima de não sei do que",
  2438. 1:47:42sabe? Então vem assim muita coisa na
  2439. 1:47:45cabeça, né? desse racismo enraizado
  2440. 1:47:48dentro de mim num sistema europeu, num
  2441. 1:47:51sistema médico que ainda tem ali na sua
  2442. 1:47:55literatura comparativos brancos, de
  2443. 1:47:57mulheres brancas, né, servindo para
  2444. 1:48:00aquilo tudo. E eu ficava assim, gente,
  2445. 1:48:02se me dá metástase, eles vão analisar o
  2446. 1:48:05mamilo e os mamilos de comparação são
  2447. 1:48:07rosas e o meu não é. E que que ele vai
  2448. 1:48:09fazer? colorar, descoloração. Então,
  2449. 1:48:11vinha também essa coisa do profissional
  2450. 1:48:14junto com a minha realidade. E aí não
  2451. 1:48:17aconteceu isso, né? Eu tava muito, muito
  2452. 1:48:19consciente, tinha ali um time bacana,
  2453. 1:48:23mas aquilo entrou nas minhas angústias,
  2454. 1:48:25né, de mulher imigrante, né? Daí vai
  2455. 1:48:28entrando os nichos, né, da onde você tá,
  2456. 1:48:31do contexto. Mulher negra, imigrante,
  2457. 1:48:34né? Mulher não sei o que, daí vai, né?
  2458. 1:48:36Imagina se eu não falasse inglês,
  2459. 1:48:38imagina se eu não tivesse a condição de
  2460. 1:48:40pegar uma doa bilíngue, né? Se o meu
  2461. 1:48:44marido não fosse tão presente, estivesse
  2462. 1:48:47comigo e falasse: "É o que você quer,
  2463. 1:48:49né? Você é a protagonista no negócio,
  2464. 1:48:52né? De falar: "Eu vou só tá ali fazendo
  2465. 1:48:55assim e você", né? Então é assim,
  2466. 1:48:59é experiências, né? tá aí também.
  2467. 1:49:06Mais alguém, gente, compartilhar alguma
  2468. 1:49:09coisa, perguntar alguma coisa?
  2469. 1:49:15Eh, eu imagino, né, que não tenha sido
  2470. 1:49:17fácil, principalmente esse período
  2471. 1:49:19gestacional e parto, né, porque a mulher
  2472. 1:49:22já no seu natural já tem todas suas seus
  2473. 1:49:25questionamentos, né, suas inseguranças,
  2474. 1:49:28né, e eu sei assim por escultas, né, que
  2475. 1:49:32na Europa é parto natural e aqui a gente
  2476. 1:49:36no Brasil é um país que culturalmente
  2477. 1:49:39que mais se há cirurgia cesárea, né, E
  2478. 1:49:43aí muitas vezes a gente se desloca, né,
  2479. 1:49:46e acha que vai escolher, né, o o o plano
  2480. 1:49:49de de parto e não é assim que funciona
  2481. 1:49:52na Europa. Eu creio, né, que não que não
  2482. 1:49:56deve ter sido fácil, né, e mas você tá
  2483. 1:49:59aí contando a sua história bem vívida e
  2484. 1:50:03aí é muito bacana.
  2485. 1:50:05>> É diferente, né? Então, por exemplo,
  2486. 1:50:07aqui a gente tem eh três opções. Não tem
  2487. 1:50:09maternidades privadas, não tem casas de
  2488. 1:50:11parto, tem as maternidades públicas e
  2489. 1:50:14todo mundo, seja eu que vou ter bebê ou
  2490. 1:50:17a presidente do país, a gente vai pra
  2491. 1:50:19mesma maternidade.
  2492. 1:50:20Eh, ou então tem o Homebirth, né, o o
  2493. 1:50:24parto domiciliar, eh, que pode ser e
  2494. 1:50:27pego dependendo da variável da da
  2495. 1:50:29gestação, pelo sistema público ou pelas,
  2496. 1:50:33eh, pelo sistema, tem parteiras
  2497. 1:50:36privadas, né, então elas têm que ter a
  2498. 1:50:37seguro e tal e elas podem fazer esse
  2499. 1:50:39tipo de trabalho. Eh, e aí tem três
  2500. 1:50:42tipos de de de de lugares que você vai
  2501. 1:50:46ou você vai totalmente pelo público que
  2502. 1:50:48você vai ter vai ser assistida pela
  2503. 1:50:51parteira, né, a Midwiffa e aí você vai
  2504. 1:50:53ter o parto, né, numa numa na salinha de
  2505. 1:50:55parto e aí você vai pro lugar com várias
  2506. 1:50:58outras eh mulheres e os bebês. Você pode
  2507. 1:51:02pegar o semi privado, que aí geralmente
  2508. 1:51:04é quando você tem o Health Insurance,
  2509. 1:51:06né, o convênio, e você pode ficar até
  2510. 1:51:09três qu dias no lugar. Você vai ser
  2511. 1:51:11também assistida pela parteira, talvez
  2512. 1:51:14em dobradinha com o obstetra em plantão
  2513. 1:51:17e aí você vai para um quarto que vai ter
  2514. 1:51:19menos pessoas, né? Ou você vai pro
  2515. 1:51:21privado, que aí não é o privado no
  2516. 1:51:24Brasil, né? Não é esse jeito que a gente
  2517. 1:51:26tem, que é simplesmente que você vai
  2518. 1:51:28passar pelo obstetra, né? daqui você vai
  2519. 1:51:31ver a mesma pessoa todo o tempo. Quando
  2520. 1:51:34a gente entende o sistema de parto aqui
  2521. 1:51:36na Irlanda, você entende que o obstetra
  2522. 1:51:38ele é muito mais o intervencionista do
  2523. 1:51:41que aquele que entende do cenário do
  2524. 1:51:43parto como as parteiras. Então assim, a
  2525. 1:51:45minha escolha foi as parteiras porque
  2526. 1:51:47elas estão fazendo aquilo ali o tempo
  2527. 1:51:49inteiro, mesmo indo para um semiprivado.
  2528. 1:51:51E no privado você pode ir para um quarto
  2529. 1:51:54separado, se estiver disponível, porque
  2530. 1:51:57às vezes não vai estar, como o hospital
  2531. 1:51:59é pequeno, talvez.
  2532. 1:52:01Eh, e tem quatro, cinco quartos
  2533. 1:52:02privados. Naquele dia teve uma mulher
  2534. 1:52:05com Covid, teve um caso mais complicado
  2535. 1:52:07e não vai estar disponível. Então, você
  2536. 1:52:09já sabe que é isso. As meninas às vezes
  2537. 1:52:11brasileiras vêm e acham isso muito
  2538. 1:52:13chocante, né, delas não poderem levar
  2539. 1:52:16fotógrafo, videógrafo, mesmo, mas mesmo
  2540. 1:52:19pagando não, né, não vai ter. Eh, a
  2541. 1:52:23Irlanda nos nos últimos 5 anos mudou um
  2542. 1:52:25pouco a realidade da comunicação com a
  2543. 1:52:29paciente por questões de ter recebido
  2544. 1:52:32muito paciente, né, de outros países em
  2545. 1:52:34que tem eh essa pegada, né, de de
  2546. 1:52:38cesárea eletiva e tal, porque a gente
  2547. 1:52:42tinha muito isso de ai na Irlanda você
  2548. 1:52:44não escolhe, se você tiver apta para um
  2549. 1:52:46parto natural vai ser o que começou a
  2550. 1:52:48dar muita, muito desconforto emocional,
  2551. 1:52:51principalmente pros estrangeiros, né,
  2552. 1:52:53que vinham de um lugar que não era isso.
  2553. 1:52:56Muitas mulheres voltavam, né, falando
  2554. 1:52:58das brasileiras, que eu trabalho demais
  2555. 1:53:00com isso, pro Brasil para ter o bebê,
  2556. 1:53:02eh, para ter a cesárea, né? E aí
  2557. 1:53:06começaram a mudar algumas políticas
  2558. 1:53:08aqui, mas não uma mudança de política
  2559. 1:53:10geral, mas da forma, né, de de verificar
  2560. 1:53:13caso a caso. Ah, já é uma uma gestante
  2561. 1:53:16que teve eh um um que já teve filho, já
  2562. 1:53:20teve uma cesárea, então ela pode optar,
  2563. 1:53:23né, por ter uma cesárea. A gente não vai
  2564. 1:53:25fazer um histórico gigantesco, mas ela
  2565. 1:53:27já teve uma cesárea. Pode ter sido
  2566. 1:53:29alguma coisa aqui. Vamos dar esse essa
  2567. 1:53:32opção para ela. Eh, já tive casos aqui
  2568. 1:53:35que eu mandei carta de encaminhamento
  2569. 1:53:37para quem estava cuidando no hospital
  2570. 1:53:38dizendo que tinha uma questão muito
  2571. 1:53:40traumática, de muito medo, de questões
  2572. 1:53:43emocionais eh eh fortes ali, né? E essa
  2573. 1:53:47pessoa não conseguiria talvez encarar um
  2574. 1:53:50parto natural que ela talvez tentaria,
  2575. 1:53:53né, mas dela ia escolher. Então a gente,
  2576. 1:53:55eu comecei a conversar com o time, né,
  2577. 1:53:58nesse sentido, né, nessa maternidade,
  2578. 1:54:00eles foram muito bacanas de escutar um
  2579. 1:54:03profissional que estava acompanha
  2580. 1:54:05acompanhando essa paturiente eh
  2581. 1:54:07emocionalmente, que tinha casos
  2582. 1:54:09complicados. Então assim, às vezes a
  2583. 1:54:10gente começa a a ver alguma coisa
  2584. 1:54:14mudando pela influência também de outras
  2585. 1:54:17culturas, né, de outras de outros
  2586. 1:54:20lugares. A comunidade brasileira aqui na
  2587. 1:54:22Irlanda é muito grande. Eu acho que se
  2588. 1:54:24eu não me engano, é a terceira maior
  2589. 1:54:26comunidade na Irlanda, em Dublin. Então
  2590. 1:54:28você não precisa sair sair do Brasil,
  2591. 1:54:31você tem tudo, né? Hoje em dia tem
  2592. 1:54:32carnaval, tem a Carajé, tem eh tem
  2593. 1:54:35festas, né? Tem o dia do Brasil, tem
  2594. 1:54:38comunidades, né? de língua, de português
  2595. 1:54:40como língua de herança brasileira. Então
  2596. 1:54:43tem tem muita coisa legal assim eh para
  2597. 1:54:46as pessoas eh sentirem ali também, o que
  2598. 1:54:50acaba influenciando, né, no sistema um
  2599. 1:54:53pouquinho, querendo ou não.
  2600. 1:55:00>> A Gabriela, eu não sei se ela não tá
  2601. 1:55:02conseguindo falar, que ela colocou uma
  2602. 1:55:04questão no chat.
  2603. 1:55:06>> Cadê o chat? pedindo para falar sobre
  2604. 1:55:10violência doméstica e a lei de Aia.
  2605. 1:55:13>> Ah, ok. Cadê o chat? Deixa eu ver. Será
  2606. 1:55:16que eu consigo ver aqui? Ah, tá aqui do
  2607. 1:55:18ladinho.
  2608. 1:55:21Ai, tem um monte coisa aqui. Eu não
  2609. 1:55:22consegui. Não tava vendo. Se der para
  2610. 1:55:24falar um pouco sobre violência doméstica
  2611. 1:55:26e lei Aia, eh, nossa, que é outra, é uma
  2612. 1:55:30outra palestra, né? Mas sim, né? Então,
  2613. 1:55:33como eu falei ali no no slides também,
  2614. 1:55:36né? questão de gênero, eh, atingem
  2615. 1:55:39demais as mulheres migrantes, né? Muitas
  2616. 1:55:43mulheres vêm às vezes, né, acompanhado
  2617. 1:55:45dos maridos ou se casam aqui, eh, ou tem
  2618. 1:55:48filhos aqui e aí tem essa
  2619. 1:55:51vulnerabilização,
  2620. 1:55:53eh, e tem intensificada, talvez ali por
  2621. 1:55:56dependência financeira, por dependência
  2622. 1:55:58emocional, aquela, né, esse tipo de
  2623. 1:56:00questões e também aumento de violência
  2624. 1:56:03doméstica às vezes por conta dessa
  2625. 1:56:05dependência, por conta de vários setores
  2626. 1:56:08aí da mulher ficar em casa e ser
  2627. 1:56:10dependente. eh às vezes até pela fala,
  2628. 1:56:14né, pela tradução de alguma coisa, eh,
  2629. 1:56:16desse marido, desse desse desse
  2630. 1:56:18companheiro. A Leid Aia, né, é uma coisa
  2631. 1:56:21que a gente bate muito na tecla aqui na
  2632. 1:56:23Irlanda de tentar fazer a
  2633. 1:56:25conscientização das mulheres eh
  2634. 1:56:28imigrantes, principalmente brasileiras,
  2635. 1:56:30para entender um pouco dos direitos, né,
  2636. 1:56:33e de tudo que atravessa quando ela
  2637. 1:56:35migra, quando elas têm, quando ela casa
  2638. 1:56:38e quando ela tem um filho, né? com quem
  2639. 1:56:41ela teve esse filho. Não só também só
  2640. 1:56:43com quem, porque a lei de A ela fala que
  2641. 1:56:45a criança ela tá respaldada pelas leis
  2642. 1:56:48da onde ela ela vive, né? Então imagina
  2643. 1:56:52se mesmo sendo casais de dois
  2644. 1:56:53brasileiros e eles moram aqui, eles têm
  2645. 1:56:56residência aqui e a criança está aqui há
  2646. 1:56:58um tempo, eh, e a mãe por n motivos
  2647. 1:57:03deseja sair do país, o marido pode
  2648. 1:57:06acionar a lei de Aia, porque a criança
  2649. 1:57:08tem a residência na Irlanda, né? Então,
  2650. 1:57:10a lei de AIA é
  2651. 1:57:13e eh é é uma lei que, entre aspas,
  2652. 1:57:17ampara o o tráfico, né, o a eh de a eh
  2653. 1:57:22não o tráfico, o sequestro internacional
  2654. 1:57:24de crianças, né? Eh, imagino porque um
  2655. 1:57:29caso brasileiro muito grande agora, né,
  2656. 1:57:31que tá tá sendo aí eh divulgado pelas
  2657. 1:57:34redes eh e já fez mudar algumas leis
  2658. 1:57:37brasileiras e até na questão de AIA eh
  2659. 1:57:39tá sendo divulgado.
  2660. 1:57:42Eh, algumas coisas talvez mudem, né? Uma
  2661. 1:57:45das coisas que agora tá sendo levada em
  2662. 1:57:46consideração paraa Lady Aia e a a
  2663. 1:57:50identificação, talvez de violência
  2664. 1:57:53doméstica, né, de violência contra a
  2665. 1:57:55mãe, de violência de abuso, qualquer
  2666. 1:57:58seja que tipo, com a criança. Se
  2667. 1:58:00conseguiu provar, então, né, a mãe não
  2668. 1:58:01cai mais na lei de aia de sequestro
  2669. 1:58:03internacional, ela vai ser julgada, né,
  2670. 1:58:06isso tudo vai ser amparado. Mas nossa,
  2671. 1:58:09tem muita coisa para falar aí sobre
  2672. 1:58:10violência doméstica e lei de áia, mas o
  2673. 1:58:13que a gente fala muito, principalmente
  2674. 1:58:16eh nos eventos ou nas nas questões
  2675. 1:58:19educacionais aqui que a gente vai
  2676. 1:58:21falando pra comunidade eh de mulheres
  2677. 1:58:24brasileiras aqui, eh que assim eh leiam,
  2678. 1:58:29entrem em contato, saibam do direito de
  2679. 1:58:32vocês, saibam do que acontece, se
  2680. 1:58:36informem com autoridades competentes,
  2681. 1:58:38Facebook, WhatsApp de rede, não é
  2682. 1:58:41informação eh oficial. Vocês não podem,
  2683. 1:58:45né, fazer esse tipo de de de julgamento.
  2684. 1:58:48Se tá em dúvida, vai lá, bate, né, na
  2685. 1:58:50embaixada, eh, num profissional
  2686. 1:58:53qualificado ali que fale a tua língua e
  2687. 1:58:55que possa te explicar. Tem comunidades
  2688. 1:58:57gigantescas. Nós temos aqui, por
  2689. 1:58:59exemplo, o grupo Mulheres do Brasil faz
  2690. 1:59:01um trabalho fantástico, né, eh, nos
  2691. 1:59:03direitos da mulher com violências de
  2692. 1:59:05gênero, violência doméstica. Então, tem
  2693. 1:59:08uma rede onde as mulheres podem ligar,
  2694. 1:59:10elas se conectam junto com as com o Mine
  2695. 1:59:14Grand Council aqui da Irlanda, junto com
  2696. 1:59:16as questões da Irlanda. Então, tem essas
  2697. 1:59:18pontes, né, vocês podem eh recorrer,
  2698. 1:59:22estão amparadas assim, assim como em
  2699. 1:59:24vários lugares, né? tem uma rede legal
  2700. 1:59:26aqui, principalmente europeia, e tem,
  2701. 1:59:29né, esses esses essas associações, esses
  2702. 1:59:32grupos em em vários e vários países de
  2703. 1:59:34auxílio a ao emigrante.
  2704. 1:59:40>> Caren,
  2705. 1:59:42a gente ficaria o dia inteiro te
  2706. 1:59:44ouvindo.
  2707. 1:59:46Eu falo muito. E a questão, né, da
  2708. 1:59:52possibilidade de contato remoto,
  2709. 1:59:56ela ela vem, né, assim, de uma maneira
  2710. 2:00:00interessante, porque a gente acaba
  2711. 2:00:02comprovando que não precisa de estar
  2712. 2:00:05fisicamente pra gente poder eh ter a
  2713. 2:00:09presença, colocando entre aspas, né,
  2714. 2:00:11daquela pessoa naquela troca de energia,
  2715. 2:00:14de conhecimento, de afeto e de
  2716. 2:00:17interação, né? né? E isso você consegue
  2717. 2:00:20fazer muito bem. E assim, a gente te
  2718. 2:00:22agradece pela disponibilidade, né, pela
  2719. 2:00:25sua atenção. Você tem eh um poder de
  2720. 2:00:29fazer a gente ficar grudado aí te
  2721. 2:00:32ouvindo e aprendendo com você, né? Eh,
  2722. 2:00:37eu estranhei quando Sabrina falou da
  2723. 2:00:39xenofilia porque é um conceito que fala
  2724. 2:00:42de um apego excessivo. E aí quando ela
  2725. 2:00:45empregou com os profissionais, eu logo
  2726. 2:00:47retruquei, porque eu tava acreditando
  2727. 2:00:49que eh ficaria mais esse comum, né, do
  2728. 2:00:52que a gente ouve da xenofobia.
  2729. 2:00:55E aí quando eh você coloca, né, que a
  2730. 2:00:58questão de um conceito novo, em alguma
  2731. 2:01:00medida mesmo contraditórios, eles podem
  2732. 2:01:02estar andando de modo singular, né, eh
  2733. 2:01:04paralelo, né, assim, porque acaba que se
  2734. 2:01:08a pessoa ela eh não tem a postura de
  2735. 2:01:13estar se vinculando uma pessoa
  2736. 2:01:15estrangeira por um interesse, ela pode
  2737. 2:01:18ter de alguma maneira algo de
  2738. 2:01:19resistência, né? ela pode se comportar
  2739. 2:01:22de uma maneira que faça uma resistência
  2740. 2:01:25que aí cai lá na questão excessiva de
  2741. 2:01:27aversão, que é lá na xenofobia.
  2742. 2:01:31Eh, um ponto também que eu acredito que
  2743. 2:01:34seja interessante
  2744. 2:01:36é assim, eh, você trouxe, né, temáticas
  2745. 2:01:40aí acordada com a Andreia. E aí, muito
  2746. 2:01:42obrigado, Andreia, Sabrina, Henrique, os
  2747. 2:01:45outros colegas do grupo de pesquisa por
  2748. 2:01:47eh estar eh terem organizado essa
  2749. 2:01:50oficina, né, e em contato com Caroen,
  2750. 2:01:54que aceitou prontamente o convite.
  2751. 2:01:57Mas o que eu quero destacar também é a
  2752. 2:02:00questão de eh como que Caroen conseguiu,
  2753. 2:02:04além da questão específica do luto,
  2754. 2:02:06trazer pra gente n outras possibilidades
  2755. 2:02:09de aprendizado, inclusive, né, com
  2756. 2:02:11embasamento teórico atualizado, com eh
  2757. 2:02:15questões que dialogam diretamente
  2758. 2:02:17conceituais com os processos de
  2759. 2:02:19investigação, com a questão acadêmica.
  2760. 2:02:21Isso é um ponto também que a gente tem
  2761. 2:02:23que destacar, porque todos nós estamos
  2762. 2:02:24em formação o tempo inteiro, né?
  2763. 2:02:28Não só eh quem está especificamente
  2764. 2:02:31naquela questão de formação lá estricto
  2765. 2:02:34senso, mas também a formação para
  2766. 2:02:36assistência, formação técnica. Então, de
  2767. 2:02:38um modo ou de outro, todos nós saímos,
  2768. 2:02:42acredito assim, com eh uma chance enorme
  2769. 2:02:46de acréscimo, né, de aprendizado para
  2770. 2:02:49nossa vida acadêmica e nossa vida
  2771. 2:02:51laboral também. E aí, Caroene? Eh, eu
  2772. 2:02:55quero deixar registrado, aproveitando,
  2773. 2:02:56né, que a gente tem outras pessoas
  2774. 2:02:58conosco e que não são do grupo de
  2775. 2:03:00pesquisa, também para deixar como
  2776. 2:03:02convite à disposição o nosso grupo de
  2777. 2:03:04pesquisa, você sabendo, né, de contato
  2778. 2:03:06de pessoas que têm interesse em fazer
  2779. 2:03:08formação de pós-graduação, pode estar
  2780. 2:03:11entrando em contato conosco, né, eh,
  2781. 2:03:13para a gente tem eh aí nesse momento,
  2782. 2:03:17né, uma pesquisa multicêntrica em
  2783. 2:03:19parceria com a Universidade Federal de
  2784. 2:03:21Roraima. sobre condições de saúde de
  2785. 2:03:24mulheres migrantes. Então, assim, todos
  2786. 2:03:26os nossos alunos que estão no grupo de
  2787. 2:03:28alguma maneira estão lendo, estão eh
  2788. 2:03:32investigando, estão estudando sobre essa
  2789. 2:03:35questão de saúde das mulheres. Então,
  2790. 2:03:37assim, eh você sabendo, né, de algum
  2791. 2:03:40colega que queira também fazer formação
  2792. 2:03:42nessa área, por gentileza, pode estar aí
  2793. 2:03:44eh socializando informação, né, que será
  2794. 2:03:47muito positivo pra gente. Espero ter
  2795. 2:03:50outra oportunidade de estar eh
  2796. 2:03:53encontrando com você e
  2797. 2:03:57depois, né, a comissão vai estar te
  2798. 2:03:59enviando, né, Andreia, eh, o certificado
  2799. 2:04:03e assim, muito obrigado. Devolvo a
  2800. 2:04:06palavra aí paraa Andreia.
  2801. 2:04:11Eh, alguém tem alguma questão, alguma
  2802. 2:04:13fala? Não teve oportunidade, gostaria de
  2803. 2:04:16colocar alguma coisa?
  2804. 2:04:21Eh, eu acho que é interessante a gente
  2805. 2:04:23fazer um print agora, tá tão bonito esse
  2806. 2:04:25momento com essas janelas abertas pra
  2807. 2:04:29gente registrar esse rico momento. Eh,
  2808. 2:04:32vai ser bem breve, tá gente? Alguns
  2809. 2:04:33segundos, só um segundo.
  2810. 2:04:37Quem puder manter as câmeras abertas
  2811. 2:04:39assim, sugiro.
  2812. 2:04:42Calma aí. Saiu falando. Só mais um
  2813. 2:04:44minuto.
  2814. 2:04:54Pronto, saiu um print lindo. Depois a
  2815. 2:04:57Andreia vai enviar para você.
  2816. 2:04:59>> Obrigada. E depois eh, eu ia pedir, vou
  2817. 2:05:03passar pra Andreia e você passa paraa
  2818. 2:05:05Andreia, vou falar com a Andreia e você
  2819. 2:05:07passa para Andreia, que a Andreia passa
  2820. 2:05:09pra gente o contato da sua clínica, o
  2821. 2:05:11seu contato profissional, porque é uma
  2822. 2:05:14via de mão dupla, né? Eh, a gente se
  2823. 2:05:17multiplica o tempo todo, né? Professor
  2824. 2:05:18Aldre já fez as suas considerações
  2825. 2:05:20acadêmicas e e aí você trazendo também a
  2826. 2:05:25sua clínica pra gente poder os seus
  2827. 2:05:27serviços que são prestados, né? A gente
  2828. 2:05:29lida muito com migrantes, né? A gente
  2829. 2:05:31tem acesso a grupos de migrantes, né?
  2830. 2:05:33Tanto aqui quanto fora. Temos as redes
  2831. 2:05:36sociais também, que é tudo redes de
  2832. 2:05:39comunicação. Mandar os seus serviços à
  2833. 2:05:41sua clínica também vai ser um prazer
  2834. 2:05:43divulgá-los.
  2835. 2:05:44>> Claro, com certeza. Eh, tia Andreia,
  2836. 2:05:48depois eu me despeço também.
  2837. 2:05:51>> Mas quer falar alguma coisa da clínica,
  2838. 2:05:53do trabalho, Carol?
  2839. 2:05:55Ah, não. Depois eu passo todos os os,
  2840. 2:05:58como se diz, né, os contatos.
  2841. 2:06:01Eh, temos redes sociais, temos site, né?
  2842. 2:06:03Tá tudo em português e inglês, assim,
  2843. 2:06:05né, nesse sentido, mas temos outros
  2844. 2:06:07profissionais com outras línguas aqui
  2845. 2:06:09também. Eh, e às vezes a gente, se a
  2846. 2:06:11gente não tem, a gente vai pra rede e
  2847. 2:06:14encontra. Mas assim, imensamente
  2848. 2:06:18obrigada pelo convite. Amo novamente,
  2849. 2:06:21né, amo participar de coisas no Brasil.
  2850. 2:06:24quando me chamam para fazer coisas no
  2851. 2:06:25Brasil, porque tapa um pouco esse meu
  2852. 2:06:27buraquinho, né, de não de conseguir
  2853. 2:06:30fazer tanta coisa aí. Eh, que bom, né,
  2854. 2:06:33que temos essa alternativa do online.
  2855. 2:06:35Eh, e fico aqui à disposição, super, né,
  2856. 2:06:38me procurem, eh, me entrem em contato,
  2857. 2:06:41né, eu e a clínica estamos super
  2858. 2:06:43disponíveis aí para qualquer tipo de
  2859. 2:06:45parceria, né, que que envolva aí o
  2860. 2:06:48aprendizado múo. Então isso é muito
  2861. 2:06:51legal e e é uma forma aí também de poder
  2862. 2:06:55contribuir eh estando aqui, né, falando
  2863. 2:06:59aqui também, né, desse desse lugar de
  2864. 2:07:01imigrante, de mulher e aí vai. Eh, e
  2865. 2:07:04muito obrigada, obrigada aí, né, por por
  2866. 2:07:06pela escuta, pelo tempo e se tiverem
  2867. 2:07:09qualquer dúvida também, né, Andreia pode
  2868. 2:07:11me mandar se alguma coisa que vocês
  2869. 2:07:13precisarem ali por e-mail. Ela tem meu
  2870. 2:07:15e-mail, meu WhatsApp. Eh, e depois eu
  2871. 2:07:17acho que vai ficar, se vocês quiserem,
  2872. 2:07:19eu deixo disponível também, né, o
  2873. 2:07:21material, os slides, alguma coisa nesse
  2874. 2:07:23sentido. Eh, eu sei que a Sabrina pediu
  2875. 2:07:25o as referências, eu posso mandar também
  2876. 2:07:28a referência por e-mail, ela pode passar
  2877. 2:07:30aí pro grupo para quem para quem
  2878. 2:07:32assistiu, que vocês quiserem. Eu tenho
  2879. 2:07:34em PDF também, eh, fica mais fácil, eu
  2880. 2:07:36acho. Eh, e tô aqui, tô disponível, tô
  2881. 2:07:40além, mas tô estamos aí nesse mesmo
  2882. 2:07:43barquinho de de propósitos. E é isso,
  2883. 2:07:46muito obrigada, gente. E alguém tem
  2884. 2:07:49alguma outra coisa antes da gente
  2885. 2:07:50terminar? Alguma fala, alguma pergunta?
  2886. 2:07:53Obrigada.
  2887. 2:07:56Alguém?
  2888. 2:08:00Queria agradecer, né? Eu acho que
  2889. 2:08:03reiterar aí a fala da Sabrina, do
  2890. 2:08:06Audrey, né? Eu acho que foi um bom
  2891. 2:08:08encontro assim, né? E poder estar de
  2892. 2:08:10novo com você. Acho que é sempre muito
  2893. 2:08:13rico, muito
  2894. 2:08:16eh muito bom te ouvir assim, a prática,
  2895. 2:08:19a experiência, delicadeza, né, o
  2896. 2:08:21cuidado, eu acho que e a troca, né?
  2897. 2:08:24Então, com certeza aprendemos muito.
  2898. 2:08:26Acho que foi muito rico e eu acho que
  2899. 2:08:29como o Aldre falou, né, o grupo tá
  2900. 2:08:30aberto, eu acho que essas trocas, então
  2901. 2:08:33você também poder, né, e a gente seguir
  2902. 2:08:36aí, que eu acho que é assim que a gente
  2903. 2:08:38vai se sustentando, né, aqui aí, né,
  2904. 2:08:43então agradecer e dizer que eh tá sendo
  2905. 2:08:47gravado, então vai tá disponível a
  2906. 2:08:49gravação, tá? Depois eu até te passo
  2907. 2:08:51também, Caroe. Vai, mas vai tá no canal
  2908. 2:08:53da Escola de Enfermagem aqui da UF, tá
  2909. 2:08:56no YouTube
  2910. 2:08:58>> e os certificados também vão ser
  2911. 2:09:00enviados. Então, por isso foi colocado o
  2912. 2:09:02link, caso alguém não tenha se inscrito,
  2913. 2:09:04conseguiu entrar, preenche um formulário
  2914. 2:09:07pra gente poder enviar o certificado
  2915. 2:09:09depois,
  2916. 2:09:11>> tá? Ótimo. E é e também aqui eu coloco à
  2917. 2:09:13disposição, né? Se vocês tiverem
  2918. 2:09:15procurar e precisarem de contatos aqui,
  2919. 2:09:18Europa, eh, UK, alguma coisa nesse
  2920. 2:09:21sentido, né, desse mundo imigrante,
  2921. 2:09:24assim, de alguma forma, às vezes entra
  2922. 2:09:26em contato, porque a gente tem uma rede
  2923. 2:09:28bem grande, né, de de profissionais da
  2924. 2:09:31saúde, da saúde mental, eh, que estão aí
  2925. 2:09:34espalhados. Eh, e aí faço parte também,
  2926. 2:09:37né, de uma campanha de saúde mental
  2927. 2:09:39materna internacional aí e e consigo às
  2928. 2:09:42vezes entrar na rede e falar, gente,
  2929. 2:09:44quem quem consegue aqui dar uma
  2930. 2:09:46indicação ou tem algum grupo, né, de de
  2931. 2:09:49alguma coisa que estão precisando aqui
  2932. 2:09:51nessa língua ou em português ou isso, e
  2933. 2:09:53a gente consegue se auxiliar nesse nesse
  2934. 2:09:57nessa forma coletiva. Eh, é isso, gente.
  2935. 2:10:00Tô tô muito feliz. Obrigada aí pela pela
  2936. 2:10:03atenção e pelo convite novamente.
  2937. 2:10:07Que bom.
  2938. 2:10:10Obrigada, gente. Audre,
  2939. 2:10:13>> muito obrigado mais uma vez. Encerrada.
  2940. 2:10:16>> Obrigada. Obrigada, gente. Tchau. Tchau.
  2941. 2:10:18>> Obe. Tudo de bom.
  2942. 2:10:19>> Tchau. Bom dia aí para vocês.
  2943. 2:10:22>> Boa tarde, boa noite. Qu
  2944. 2:10:24>> obrigada.
  2945. 2:10:26Ciao

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