Identidade líquida: quem somos quando tudo muda? - Rossandro Klinjey #aovivo — Transcript
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- 0:04[música]
- 0:22[música]
- 0:47[música]
- 0:53Imagine sua história como uma linha do
- 0:55tempo. Quantos altos e baixos já viveu
- 0:58alegrias.
- 1:00superações, obstáculos. A verdade
- 1:02[música] é que essa linha não é assim
- 1:04tão linear. Inúmeros fatores internos e
- 1:07externos influenciam o tempo todo nossas
- 1:10jornadas e as tornam únicas e complexas.
- 1:14Mas e se pudéssemos ser responsáveis por
- 1:16um pequeno estímulo capaz de impactar de
- 1:19forma positiva uma vida inteira? E se
- 1:21criássemos oportunidades de minimizar
- 1:24vulnerabilidades e de alguma forma
- 1:26mudássemos uma trajetória? Acreditamos
- 1:29que sim, isso é possível.
- 1:31>> E por isso, desde 2003, apoiamos
- 1:34projetos inspiradores com objetivo de
- 1:37incentivar o protagonismo social.
- 1:39Acreditamos que podemos gerar um impacto
- 1:41hoje para que versões cada vez mais
- 1:43felizes dessas histórias possam ser
- 1:45escritas no futuro próximo.
- 1:48Instituto CPFL, energia que transforma
- 1:51realidades.
- 1:53>> Boa noite, está começando mais uma
- 1:55gravação do programa Café Filosófico
- 1:57CPFL. Queria agradecer a todo mundo que
- 1:59veio hoje aqui em Campinas por essa
- 2:01gravação e também quem está acompanhando
- 2:03a gente pelo YouTube. Já fazer um
- 2:04convite a vocês para se inscreverem no
- 2:07nosso canal, para terem acesso a mais de
- 2:0920 anos de café filosófico e também para
- 2:11saberem da nossa programação futura. E o
- 2:14Café Filosófico CPFL começa agora.
- 2:28>> [música]
- 2:32[música]
- 2:52>> E o nosso convidado de hoje é Rossandro
- 2:54Clingei. Rossandro é psicólogo,
- 2:57professor, palestrante, consultor em
- 2:59educação e desenvolvimento humano e
- 3:02fundador da EDUCA, empresa de educação
- 3:04socioemocional e do Instituto Pleno Ser,
- 3:07que trabalha com desenvolvimento
- 3:09emocional. Ele é também professor
- 3:11convidado do curso de felicidade da
- 3:13Unicamp e do mestrado em psicologia
- 3:15organizacional da PUC do Rio Grande do
- 3:18Sul. Seu olhar humanista e sua narrativa
- 3:20convidativa resultaram em bestsellers
- 3:23como As quatro Estações da Alma com
- 3:26Mário Sérgio Cortela e vamos conversar
- 3:28sobre felicidade com Lucia Helena Galvão
- 3:30e Vanessa Rodriguez. Então, por favor,
- 3:33recebam com aplausos o nosso convidado
- 3:35de hoje. [aplausos]
- 3:44[aplausos]
- 3:46Rossandro, prazer te receber aqui. Vou
- 3:48dar um spoiler já da palestra para
- 3:50vocês. Daqui a pouco ele explica. Uma
- 3:51palestra um pouco musical. Então,
- 3:53Rossandro, agora é com você. Felipe,
- 3:56obrigado. Obrigado a todos vocês que
- 3:57vieram, a quem tá nos assistindo. É uma
- 4:00alegria e uma honra táar aqui. É um
- 4:01lugar em que a gente honra por todas as
- 4:04pessoas que passaram há mais de 20 anos
- 4:05no café e que nutriu a gente de
- 4:07conhecimento, elevou o nosso padrão de
- 4:10consciência coletiva, que é o que a
- 4:11gente precisa no mundo. E o tema de hoje
- 4:13é provocativo, porque vivemos uma época
- 4:15de muitas transformações, só que agora
- 4:17ela ganhou um status meio que de loucura
- 4:19pela velocidade dessas transformações.
- 4:22Eu quero refletir um pouco sobre o
- 4:23impacto que isso tem sobre nossas
- 4:25identidades, sobre quem somos, como nos
- 4:27vemos e nos percebemos. Aí Felipe estava
- 4:29falando dessa coisa provocativa que ele
- 4:31passou para mim. Certafeita, eu tava
- 4:33conversando com uma pessoa sobre as
- 4:34muitas queixas que durante muito tempo
- 4:37eu tinha consultório. E uma das queixas
- 4:39mais comuns de consultório é: "Meu pai
- 4:42gosta mais do meu irmão do que de mim. A
- 4:45minha mãe gosta mais da minha irmã do
- 4:47que de mim". A vida começa com a gente
- 4:49colocando copo de refrigerante junto do
- 4:51irmão, da irmã, para ver se tem a mesma
- 4:53quantidade de Coca-Cola. E quando não
- 4:55tem, e às vezes nunca tem, a gente
- 4:58começa a sentir que a vida é injusta e o
- 5:00quanto isso vai impactar a nossa vida. E
- 5:03aí a gente entra pra identidade, a
- 5:05formatação dela num lugar de acusação,
- 5:08em que a gente acusa quem veio antes de
- 5:10não nos ter fornecido o que a gente
- 5:12acreditava que a gente merecia.
- 5:15Existe uma diferença entre o que as
- 5:16pessoas são e o que a gente idealizou
- 5:18sobre o que elas deveriam ser, sobre o
- 5:20que a gente imaginava que o pai deveria
- 5:22ser, a mãe deveria ser. Mas ainda assim,
- 5:25sendo idealização ou não, aquilo vai
- 5:27formando um conjunto de princípios e
- 5:29valores que vão norteando a forma como a
- 5:30gente vai se definindo. E uma vez numa
- 5:34conversa com uma paciente que insistia
- 5:35muito no discurso em que ela era vítima
- 5:38e a gente quando escuta nunca tá tirando
- 5:40a dor que cada um passa, mas tentando
- 5:43fazer o indivíduo sair do lugar em que
- 5:45ela se caracteriza apenas como dor. Tem
- 5:48pessoas que é como se elas construíssem
- 5:50a identidade colada no evento da dor.
- 5:52Então eu atendia muitas pessoas que não
- 5:54eram o João, o a Maria era o João, não
- 5:59era João. Ele era sempre o filho do
- 6:00Paulcólatra. A Maria não era a Maria,
- 6:03era sempre a filha da mãe narcisista. Ou
- 6:06então a Marta não era Marta. A Marta era
- 6:08a ex do Pedro. Mesmo que se Pedro
- 6:10tivesse sido ex há 30 anos. Você tava
- 6:14falando sobre a lua e ela fala: "É, eu
- 6:15vi a lua ontem. Eu lembrei daquele
- 6:17traste do Pedro. 30 anos depois.
- 6:20A minha identidade foi colada com a
- 6:21dessa pessoa e você às vezes sente que
- 6:24se tirar a pessoa, a narrativa sobre si
- 6:27se desmonta, porque quem sou eu senão a
- 6:30que acusa a dor que me provocaram?
- 6:33E eu comecei a refletir um pouco sobre
- 6:34isso e comecei a perceber e a gente quer
- 6:37falar aqui um pouco sobre o espírito do
- 6:39tempo, um conceito alemão filosófico,
- 6:41Zidcast, é que cada geração recebe um
- 6:44desafio. E eu fiquei refletindo sobre
- 6:46nossos bisavós, tataravoz, enfim. Quero
- 6:49fazer uma divisão da plateia aqui. Quem
- 6:50tiver no YouTube também, sinta-se à
- 6:52vontade para levantar a mão
- 6:53silenciosamente em casa que eu não vou
- 6:54ver
- 6:56aqui. Eu quero dividir plateia aqui Vila
- 6:58Sésamo. Por favor, levante a mão. Quem
- 7:00assistiu a Vila Sésamo sem
- 7:01constrangimento, muito bem, fiquem
- 7:03tranquilos.
- 7:04Balé CO Picapó Amarelo. Aí a gente já
- 7:08Balão Mágico,
- 7:10TV Colosso, e Planeta. Vai
- 7:13Castelo Ratimbum. Aí vamos. OK. Então, a
- 7:16gente tem todo um leque de gerações aqui
- 7:18pra gente ter uma ideia, mas é como se
- 7:20cada geração recebesse um desafio ao seu
- 7:23tempo. Eh, os nossos tataravaisóis aqui
- 7:27no Brasil, no início do século XX, eles
- 7:29tinham um grande desafio. A mortalidade
- 7:32infantil era muito alta no país, de um
- 7:34modo geral e as pessoas chegavam a ter
- 7:3720, 25 filhos, era uma coisa muito
- 7:38comum. E morria cinco filhos. até diziam
- 7:41assim: "Ah, eu tive, eu tive 20, cinco
- 7:44morreu, não vingou. Parecia uma planta
- 7:46que não pegou". Até que uma geração
- 7:48olhou para si e disse: "É impossível
- 7:51enterrar cinco filhos". É desumano isso.
- 7:54Então, um homem e uma mulher em qualquer
- 7:56rincão desse país, maior parte nos
- 7:59interiores, ainda não nas grandes
- 8:00cidades, se olharam e de forma não
- 8:02verbal se comunicaram como: "Meu desafio
- 8:05é o seguinte: eu morro nessa roça aqui.
- 8:08A gente morre nessa roça, mas nossos
- 8:10filhos vão sobreviver."
- 8:12E uma geração de homens e mulheres
- 8:14começam a fazer tudo para que os filhos
- 8:15não morram de coisas bestas, coisas como
- 8:18falta de nutrição, de água potável e o
- 8:20esforço descomunal. O que ninguém pode
- 8:22esperar desse homem, dessa mulher, que
- 8:24se reúnam esses 20 filhos ao final de um
- 8:26dia de líder de roça e pergunte assim:
- 8:29"Meu amor, como é que você tá se
- 8:30sentindo? Como foi seu dia? Você tá
- 8:33triste porque seu irmãozinho nasceu?
- 8:36Conceitos como trauma, angústia,
- 8:37pertencimento, nem tava rodando nem nas
- 8:39academias. Talvez Freud tivesse em Viena
- 8:42formatando a psicanálise. E aí essa
- 8:44geração consegue cair a mortalidade
- 8:47infantil. E aí essa geração que
- 8:50sobrevive se torna então pais.
- 8:53E quando se tornam pais, começam a
- 8:55perceber que vem um outro desafio. O
- 8:58desafio é que essa geração que
- 8:59sobrevive, continua nas roças, mas se
- 9:01sente um pouco angustiada e às vezes se
- 9:03sente pequeno diante de uma situação
- 9:05social em que precisam assinar um
- 9:07documento e por não saberem ler, pega
- 9:09uma almofada de carimbo e coloca uma
- 9:12digital, uma polegar e assina um
- 9:14documento sem saber o que tá escrito e
- 9:16se lança um desafio. Eu morro nessa
- 9:18roça, mas os meus filhos vão pra escola.
- 9:21e começa a abrir grupos escolares em
- 9:23todo o país, nos interiores, nos sítios.
- 9:26As pessoas pegam transportes precários,
- 9:28animais, cavalos, burros para chegar nas
- 9:33escolas.
- 9:34E também não pode esperar que esse pai e
- 9:37essa mãe pergunte como foi na escola? O
- 9:39que você aprendeu? Porque ao mesmo tempo
- 9:41havia um desejo de que o filho e a filha
- 9:43aprendesse, mas ao mesmo tempo uma
- 9:45angústia de que eu não tive oportunidade
- 9:47disso. Mas eu tô te entregando um pouco
- 9:49mais além do que eu recebi. Entende?
- 9:52Cada geração vem antes, faz um esforço e
- 9:55diz: "Marvin, agora é com você. Eu fiz o
- 9:58meu melhor. Eu posso ficar no discurso
- 10:01da queixa ou eu posso ficar no discurso
- 10:03de foi o melhor que pôde. Essa geração
- 10:06que vai pra escola, ela é tomada da do
- 10:08sentimento do mito da caverna de Platão.
- 10:10Descobrem que tem um lugar para além da
- 10:11roça. Existem cidades grandes no Brasil,
- 10:14oportunidades de não morrer na enchada e
- 10:16de serem assim: "Eu vou me embora desse
- 10:18lugar. Eu vou pegar um ônibus de Tapé
- 10:21Mirim e vou lotar as metrópoles desse
- 10:23país, porque eu não vou ficar aqui na
- 10:25roça. E saem e chegam nas grandes
- 10:27cidades, lotampe Rio e São Paulo, mas
- 10:31começam a ter uma vida difícil e não era
- 10:34tão encantador assim a grande cidade,
- 10:37né? Havia uma poesia dura da força da
- 10:41grana que ergue e destrói coisas belas
- 10:43na Paulisséia, onde a gente vai, nas
- 10:45metrópoles do Brasil, e uma periferia
- 10:47imensa de dor, de de pouca condição
- 10:51social. E aquele jovem, aquela jovem
- 10:54casal que se casa e descobre que muitas
- 10:57vezes é um porteiro de um prédio onde
- 11:00jamais os filhos morarão. Ou é uma
- 11:02pessoa que senta pisa e porcelanatos que
- 11:04jamais vai pisar ou constrói escolas que
- 11:07os filhos não vão frequentar ou
- 11:09hospitais que também não terão acesso e
- 11:11dizem: "Eu morro aqui trabalhando nesse
- 11:13trânsito infernal. Eu pego 3 horas de
- 11:15trem, metrô e ônibus para chegar no
- 11:17trabalho, mas meus filhos vão ser
- 11:18doutor.
- 11:20Eles vão pra universidade e vem a
- 11:22primeira geração que vai pra
- 11:23universidade, entra na classe média e
- 11:26descobre uma coisa incrível na classe
- 11:27média, terapia.
- 11:30É. e vão paraa terapia falar dos
- 11:34>> sem saber toda essa cota de dor que veio
- 11:36antes. Não é que não exista dores nas
- 11:39famílias, não é que não existam traumas,
- 11:41abusos e todas as coisas, mas é que se a
- 11:43gente quer formar a identidade a partir
- 11:45desse princípio, a gente vai formar a
- 11:48identidade a partir da mágoa. Isso tem
- 11:50um custo gigantesco. Mas aqui eu vou só
- 11:53perpassar sobre isso porque eu quero
- 11:55contar aqui três histórias e trazer uma
- 11:58citação para que a gente possa aqui
- 11:59aprofundando um pouco mais a temática.
- 12:01Essa foi a primeira de Marvin, ou seja,
- 12:03de que cada geração vem e cumpre uma uma
- 12:06trajetória. E eu me lembro de uma
- 12:08paciente que eu atendi que chegou no
- 12:10consultório e ela falou assim: "Ah, eu
- 12:12já fiz terapia com várias pessoas".
- 12:14Geralmente quando a pessoa diz isso, ela
- 12:16quer dizer assim: "Você não pode ser o
- 12:1711º que eu vou dizer que é
- 12:19incompetente". Tipo assim, eu fiz com
- 12:2110, então você tem que resolver a minha
- 12:23vida, né?
- 12:26Porque eu tenho um filho adotivo e as
- 12:27coisas não funcionam, porque o bichinho
- 12:30ele é muito travado. Tá bom, já entendi.
- 12:34Ela, calma, eu comecei a sessão. Não,
- 12:35mas eu já entendi. Começa de novo. Ela
- 12:37começou. Então, eu tenho filho e o
- 12:40bichinho é travado. Tá. Você não se
- 12:42referir aos seus filhos de gestação como
- 12:45bichinhos, mas eu filho adotivo como
- 12:47bichinho. E é assim que ele se sente na
- 12:49sua casa. Ele não se sente pertencente.
- 12:52Esse é o drama.
- 12:54Mas é porque ele sofreu tanto. Então eu
- 12:55tenho pena dele. Mas assim que você
- 12:57adotou acabou.
- 12:59Então como é que você trata seus filhos?
- 13:00Ah, eu sou muito dura. E com ele não.
- 13:03Então ele não se sente seu filho. Esse é
- 13:05o problema. Ele não tem um lugar de
- 13:06identidade na sua casa. Eu acho que ele
- 13:09não viaja com vocês. Como é que você
- 13:11sabe disso? Bom, eu não vi não viajaria
- 13:13no lugar dele, numa família que eu não
- 13:15sinto que é minha. Eu acho que ele não
- 13:17sai para jantar num restaurante com
- 13:19vocês, vocês estão de uma classe social
- 13:21abastada, ele não se sente pertencente,
- 13:23ele não vai. Aí ele sempre pede
- 13:24delivery. Então trata ele como filho,
- 13:27trata como os outros. E ela me disse que
- 13:30chegou em casa, contou pro marido, aí
- 13:31disse assim: "A gente já tentou de tudo,
- 13:33né? Vamos tentar isso também, vai que
- 13:34ele tá certo". [risadas]
- 13:37E aí primeira cena era aquela clássico,
- 13:39no sábado à noite não tinha uma pessoa
- 13:42que ajudava em casa, porque era sábado à
- 13:43noite, ela fazia uma coisa mais simples
- 13:45e dizia: "Ó, vai ter tal coisa, tipo um
- 13:48yame, uma sopa". E aí o filho sempre
- 13:52pedia comida japonesa com a namorada na
- 13:54sala, pediu o cartão da mãe, ela: "Eu
- 13:56vou seguir o conselho dele, ó, tem sopa
- 13:58hoje? Cadê o cartão?" Não, não tem
- 14:00cartão, é sopa. Eu não quero começou
- 14:03aquela briga, tal. ou come a sopa ou não
- 14:05come nada. Foi pro quarto, mandou na
- 14:07hora ir embora, ficou chorando, fez o
- 14:09drama e não comeu a sopa, nem a comida
- 14:12japonesa. Acordou de manhã, de manhã ela
- 14:14sempre acordava os filhos para ajudar no
- 14:15domingo na casa e nunca acordava o
- 14:18bichinho.
- 14:20Mas ela acordou, abriu a porta, vamos
- 14:23lá, tá todo mundo lavando a louça, eu
- 14:25não vou, vai, levanta, eu não quero mais
- 14:26esse drama aqui. Chega de drama, não sei
- 14:28o quê. foi lá, o menino lavou a louça,
- 14:30não sei o quê, ajudou, fez o café,
- 14:32depois terminou, os irmãos saíram, a
- 14:34relação com os irmãos era ótima, porque
- 14:36os irmãos chatavam ele igual. E quando
- 14:38todos saíram, ele pediu pra mãe fazer
- 14:41mais um café. Aí sentou e começou a
- 14:44chorar.
- 14:45E aí a mãe perguntou: "Por que você tá
- 14:46chorando?" Ela disse assim: "Você me
- 14:49adotou há 20 anos.
- 14:51Hoje foi a primeira vez na vida que eu
- 14:53me senti seu filho.
- 14:56Pertencer é se sentir igual,
- 15:00é ter a mesma quantidade de Coca-Cola e
- 15:02de afeto. É não ser menosprezado
- 15:05ou subestimado como ser humano, como
- 15:08capaz. Nesse processo tem um pensador
- 15:11chamado Grumsk. E hoje em dia, no mundo
- 15:13dos cancelamentos sociais, eu quero
- 15:15dizer que falar disso não quer dizer
- 15:16vamos dividir a plateia entre direita e
- 15:18esquerda. Pelo amor de Deus, o mundo de
- 15:20rim quantra esqueleto, derces contra
- 15:22camurrá, pipi contra frajola, tá
- 15:24cansativo demais. Estou citando ele
- 15:26apenas porque a o conceito dele é muito
- 15:29bem-vindo aqui agora. Ele fala sobre
- 15:30crise, que é o que a gente vive hoje. Eu
- 15:32acho que o conceito dele é o mais bem
- 15:34acabado sobre crise. Ele vai dizer o
- 15:35seguinte, em grosso modo, ele vai dizer
- 15:38que nós temos uma crise quando o modelo
- 15:40velho em sepulco, já não dirige mais os
- 15:43vivos e o modelo novo não está pronto,
- 15:46por isso ele não está qualificado para
- 15:48orientar o presente. Traduzindo em bom
- 15:50português, o modelo antigo não funciona
- 15:53mais e o modelo novo não tá pronto para
- 15:55substituir. Por exemplo, o modelo de
- 15:58educação familiar do passado, ele dá
- 16:00certo hoje?
- 16:02O de hoje tá dando certo?
- 16:04>> OK.
- 16:06Vamos lá. O modelo político do Brasil do
- 16:09passado funcionava?
- 16:10>> O de hoje tá funcionando.
- 16:13>> Oremos. É crise, isso é crise, entende?
- 16:15Ou seja, o que tinha não dava conta, o
- 16:17que chegou não tá pronto. Só que o que a
- 16:20gente tinha antigamente era que até
- 16:21havia um platô de adaptação,
- 16:24havia uma crise. Isso na ciência,
- 16:26formação de um novo paradigma,
- 16:27constiução de um novo saber, de uma nova
- 16:29epistemologia. Você vê uma crise, aquela
- 16:32crise gerava uma transformação, uma
- 16:34crise tem que gera uma nova identidade
- 16:36social, cultural. Aí depois que a gente
- 16:39construí esse novo, tinha um platô de
- 16:41adaptação, imagina como batente.
- 16:44Aí vinha outra crise, outro batente. O
- 16:46que foi acontecendo é que esse batente
- 16:48foi diminuindo o tamanho, ou seja, o
- 16:51tempo de platô de crise e adaptação,
- 16:54crise e adaptação, foi ficando cada vez
- 16:56mais curto, cada vez mais crises
- 16:58próximas da outra e cada vez menos tempo
- 17:00de adaptação. E hoje como é? Acabou o
- 17:03batente.
- 17:05É só a crise, a crise, a crise, a crise,
- 17:08a crise. Formamos identidade em meio à
- 17:10transformação constante.
- 17:14E olha que a gente, quando pessoal
- 17:15disse, nem tinha Ia, não tinha chete CPT
- 17:18para fazer terapia, não dá conta, porque
- 17:21é a transformação do ser humano enquanto
- 17:23tudo acontece. Nesse processo, eu lembro
- 17:26quando eu tava na aula da saudade de
- 17:28formatura do curso de psicologia, quando
- 17:29o professor falou assim: "Vocês estão
- 17:32para entrar no mercado de terapeutas e
- 17:34algumas coisas devem ser ditas. Por
- 17:36exemplo, vocês terão exceções clínicas,
- 17:39por exemplo, vocês talvez nunca atendam
- 17:41ao longo de toda a vida de vocês uma
- 17:43criança que atende contra a própria
- 17:45existência.
- 17:47E vocês talvez atendam raríssimas vezes
- 17:49adolescentes que pensam isso, porque
- 17:52crianças e adolescentes tem sede de
- 17:54vida. Isso há 22 anos atrás. E hoje é
- 17:58café com arroz de consultório
- 18:00psicológico, crianças e adolescentes
- 18:03atentando contra a própria vida. Porque
- 18:06quando aquilo que nos sustenta se
- 18:08dissolve e a família no processo também
- 18:11deixa de cumprir o seu papel de ser o
- 18:12adulto na sala, as identidades ficam a
- 18:15deriva. E a deriva, qualquer tempestade
- 18:19vira crise profunda. Eu não dou conta. E
- 18:22aí é preciso entender que nesse
- 18:23movimento a gente tem que dar um
- 18:24conselho à geração, um conselho em que a
- 18:27gente não cancela a juventude, em que a
- 18:29gente não ignora suas dores. Mas talvez
- 18:32dizer para essa geração que é ansiosa,
- 18:35que quer entrar numa empresa em três
- 18:37meses virar CEO, que quer abrir a nova
- 18:40startup do Vale do Silf e um tr 2 3 anos
- 18:43tem uma um unicórnio que é uma empresa
- 18:45que vale 1 bilhão de dólares. As pessoas
- 18:47que entram num relacionamento agora em 6
- 18:49meses querem ter intimidade de 20 anos
- 18:51de casamento.
- 18:53É o conselho que Cartola deu a filha
- 18:55adotiva. Ainda é cedo, amor.
- 18:58Ainda é cedo. Mal começastes a conhecer
- 19:01a vida. Ainda é cedo, mas a ansiedade é
- 19:04muito grande. Dizer ainda é cedo não é
- 19:07cancelar, não é dizer que eu tô
- 19:09ignorando sua angústia, sua vontade de
- 19:11dar certo. Mas é que não vem só porque
- 19:13você tá com vontade que você tá com
- 19:14pressa. É como se fosse ao mesmo tempo
- 19:17um sentimento que ele coloca aqui uma
- 19:19tesitura, porque ainda é cedo e se você
- 19:22for antes do tempo, você vai enfrentar
- 19:25lá fora o moinho,
- 19:28o moinho da vida que tritura os sonhos
- 19:31mais mesquinhos e reduz a ilusão a pó.
- 19:33Então, ainda é cedo para que você não
- 19:35cometa os erros que eu cometi. E mesmo
- 19:38que você não queira escutar o meu
- 19:39conselho e muitos de nós não escutou os
- 19:41conselhos do nossos pais até nos
- 19:43tornarmos pais e cantar, a minha dor é
- 19:45perceber que, apesar de termos feito
- 19:48tudo que fizemos, ainda somos os mesmos
- 19:50e vivemos como os nossos pais. E a gente
- 19:53diz pros filhos ainda é cedo, mas eles
- 19:55querem a ânsia do mundo. Eles querem
- 19:57viver a experiência. Só que eles vivem
- 20:00no mundo e que a identidade ela começa a
- 20:02mudar de olhar. Porque o que ele pede
- 20:04aqui quando diz ainda é cedo não é um
- 20:06amaldiçoamento
- 20:07do presente, mas é um conselho. A ideia
- 20:10de que você quer que você amadureça
- 20:13antes de ir pro caminho, porque o
- 20:16caminho tem desafios, nem sempre são
- 20:18dados, nem sempre são eh previstos por
- 20:22nós. Tem uma música muito conhecida de
- 20:23um poeta pernambucano chamado Acioli
- 20:25Neto, que diz assim: "Se a veste não,
- 20:28porque amanhã pode acontecer tudo,
- 20:30inclusive nada.
- 20:33Mas no mundo de hoje, quando não
- 20:34acontece nada, ainda é lucro.
- 20:37E quando acontece tudo de ruim?
- 20:39E quando vem câncer da mãe, desemprego
- 20:41do pai, fim de namoro, tudo ao mesmo
- 20:44tempo. Agora, como é que esse eu dá
- 20:46conta disso?
- 20:48Nós somos de uma época em que a gente,
- 20:49por exemplo, quando vivia a ruptura de
- 20:51um relacionamento, a gente pegava aquela
- 20:53nossa fita cassete basse anos novela,
- 20:56novela anos 80, que a gente gravava,
- 20:58quase um mês para gravar, escutava, né,
- 21:02e chorava pros amigos, contava pros
- 21:04amigos. E se a gente tivesse muita raiva
- 21:08e a ideia de morte vinesse na cabeça,
- 21:09era de matar a pessoa que deixou a
- 21:11gente. Nunca, nunca de tirar a própria
- 21:14existência, né? Mas aí a gente tem uma
- 21:16sociedade em que, especialmente nós
- 21:19homens, não somos treinados por
- 21:21desabafo, para conversa, para encontrar
- 21:23alguém, para sentar, como aqui a gente
- 21:25tá hoje, como se fosse numa espécie de
- 21:28fogueira e conversando, né? Os homens
- 21:31eles tinham vergonha de mostrar
- 21:32fragilidade. Ainda hoje têm vergonha de
- 21:34mostrar fragilidade. Não é à toa que
- 21:36muitos quando estavam numa dor chegava
- 21:39num lugar e dizia: "Gaçom, aqui nessa
- 21:41mesa de bar, eu sei que você já cansou
- 21:44de estudar centenas de história de amor.
- 21:47Ou seja, eu vou para um estranho para me
- 21:50expor, porque eu não quero me expor pr
- 21:51os amigos, porque nos amigos a gente só
- 21:52conta vantagem. Eu não tenho identidade
- 21:55num lugar em que eu não posso ser eu,
- 22:00em que eu não posso ser autêntico.
- 22:03E se a minha família é um lugar que eu
- 22:04não posso ser autêntico, eu não formei a
- 22:06identidade mínima viável de enfrentar a
- 22:07vida. Se quando tem rebon na família, a
- 22:10gente se reúne para mostrar que irmão tá
- 22:12mais bem-sucedido do que o outro, isso
- 22:14não é uma família,
- 22:16isso é um lugar em que as pessoas
- 22:17convivem para se exibir, para competir.
- 22:20Família é um lugar em que a gente
- 22:21encontra os irmãos para ver como é que
- 22:22eu te apoio, como é que foi teu ano,
- 22:24como é que a gente pode continuar junto
- 22:26nessa jornada desse lugar que a família
- 22:28é um lugar que a gente se suporta.
- 22:32Não só se suportar no sentido de ter de
- 22:34ter que se aguentar, mas de dar suporte
- 22:37a o outro para que ele aconteça como
- 22:39sujeito na formatação de suas
- 22:41identidades. Mas é um lugar imperfeito
- 22:43por natureza. Nesse processo, a gente
- 22:45percebe que a esse pertencimento vai
- 22:48ficando pobre. Ou seja, a gente vive
- 22:51hoje uma profunda construção de
- 22:53identidade em que eu preciso dar um
- 22:55conselho duro para você, mas sem
- 22:57cancelar tua juventude e teus sonhos.
- 22:59Porque essa esse moinho do mundo não é
- 23:01somente muinho interno da tua dor, da
- 23:03tua angústia, da sua narrativa, da sua
- 23:06memória, do que te faltou ou do abuso
- 23:10que foi feito e físico emocional na tua
- 23:13história. Mas tem muito do moinho que é
- 23:15lá fora. É uma sociedade em que
- 23:17precarizou os trabalhadores e que deixou
- 23:19as pessoas em condições difíceis. E o
- 23:21moinho tá lá fora e aqui dentro. É
- 23:24aquilo que eu discuti com Cortela no
- 23:26livro As quatro estações da alma. O
- 23:27grande risco é quando o inverno do mundo
- 23:30conhecido com o inverno da alma, que
- 23:32pelo menos quando tiver inverno lá fora,
- 23:33eu acendo um sol aqui dentro. E quando o
- 23:36inverno bater, que esteja um sol lá
- 23:38fora, eu possa compensar tudo isso.
- 23:40Porque quando os invernos combinam, eu
- 23:42tô em risco emocional, eu tô em risco de
- 23:44enfrentar a própria vida. E aí chegamos
- 23:47no momento em que para deixar tudo isso
- 23:49muito mais com requente de crueldade,
- 23:52criamos as redes sociais.
- 23:55No começo era legal, porque na época do
- 23:57Orcut a gente até se amava, né? Hoje o
- 24:00esporte predileto é se odiar nas redes
- 24:02sociais. É um prazer imenso de você
- 24:04lacrar lá e fazer os comentários que
- 24:06você jamais faria se fosse face to face,
- 24:09frente à frente pra pessoa. As pessoas
- 24:11são agressivas. Aliás, o melhor da da
- 24:13internet não é o post, é o comentário.
- 24:17Quem não passou aqui uma hora lendo os
- 24:18comentários assim assim, como nós
- 24:21podemos ser tão baixos, tão ridículos,
- 24:23tão cômicos e tão criativos ao mesmo
- 24:25tempo nos comentários. Tudo isso ao
- 24:27mesmo tempo, agora as mesmas almas
- 24:28enfrentando as mesmas coisas. Mas esse é
- 24:30um tema que o Silvio Meira vai
- 24:32aprofundar muito aqui nesse nosso café
- 24:34quando falar de tecnologias, identidade,
- 24:36o self digital e o vazio existencial. Eu
- 24:39convidei para que a gente possa
- 24:40aprofundar essa temática. que ele é um
- 24:41dos grandes nomes no Brasil, senão um
- 24:44dos maiores nomes que fala sobre mundo
- 24:46digital, tecnologia e tem uma capacidade
- 24:48incrível de fala e vai poder refletir um
- 24:51pouco mais sobre o impacto disso. Quanto
- 24:53do cute para cá, a gente saiu de um
- 24:55ambiente em que a gente encontrou os
- 24:57amigos de infância, em que a gente
- 24:59encontrou os colegas de faculdade e que
- 25:01agora a gente desencontrou todo mundo,
- 25:04em que a gente odeia só porque se você
- 25:07acordar de mim, você virou um inimigo.
- 25:09Porque nessa busca de identidade a
- 25:12fragilidade tomou tanto conta das
- 25:14pessoas, o pertencimento ficou tão pobre
- 25:17que eu rompo com os familiares, com os
- 25:19amigos de infância para ficar no meu
- 25:21grupo de WhatsApp com as pessoas que
- 25:22acreditam como eu vejo o mundo. Só que
- 25:25são essas pessoas que vão se ocorrer no
- 25:27dia da dor,
- 25:29no dia do luto.
- 25:31as pessoas que estariam do teu lado,
- 25:34você tá queimando pontes para ficar
- 25:36junto de um monte de pessoas que pensam
- 25:38na tua bolha, não importa de que
- 25:40espectro político você esteja falando.
- 25:42Estamos tão adoecidos que qualquer
- 25:44pessoa que fala o contrário disso é tida
- 25:47como omisso em cima do muro. Você tem
- 25:50que escolher um lado.
- 25:52E é engraçado porque o grupo de WhatsApp
- 25:54de família é um ecossistema profundo da
- 25:57sociedade. É uma representação do
- 25:59microcosmo do que é o mundo. Existe no
- 26:01grupo do WhatsApp de família uma
- 26:03necessidade da gente antes de entrar
- 26:05nele talvez até fazer a oração do São
- 26:07Francisco atribuída a ela. Senhor, fazei
- 26:10de mim um instrumento da tua paz. onde
- 26:14houver fake news que eu leve a verdade.
- 26:16[risadas]
- 26:18E aí a gente vive aquele universo em que
- 26:22as pessoas estão queimando pontes, ao
- 26:24mesmo tempo querem ter paz, querem ter a
- 26:27capacidade de dormir sem tomar remédio.
- 26:30Mas é complicado porque eu vivo nessa
- 26:32acusação o tempo inteiro e o tempo ele
- 26:35vira um rito. que sem a gente ter as
- 26:38passagens dos ritos que nos definia da
- 26:42adolescência para fazer adulta nas
- 26:43chamadas crises normativas ou crises
- 26:46normais das identidades, a gente tá
- 26:49agora num eternamente processo, um
- 26:52eterno processo de estreantes. Como o
- 26:54platô acabou, a gente tá só numa numa
- 26:57ladeira íngreme, subindo, subindo,
- 26:59subindo, a minha identidade tá sempre em
- 27:01formatação. O que que eu faço? Como é
- 27:03que eu vou? E é esse movimento que a
- 27:06gente tem que pensar, onde é que eu
- 27:07busco algum recurso para sair do caos? A
- 27:13gente vai agora ver uma encíclica do
- 27:16Papa eh Francisco, que vai nos ajudar a
- 27:19refletir um pouco sobre isso.
- 27:21>> Cada geração deve fazer suas as lutas e
- 27:25as conquistas às gerações anteriores e
- 27:27levá-las a metas ainda mais altas.
- 27:31Ele disse de outro jeito, Marvin, agora
- 27:33é com você. Cada geração recebe
- 27:38as lutas dos outros, traz para si essas
- 27:41próprias lutas para levar a metas mais
- 27:43altas. Ou seja, eu olho porque você me
- 27:47ofereceu, entendo que foi possível.
- 27:49Porque quando você tá no discurso da
- 27:50queixa, você fica olhando só o que
- 27:52faltou.
- 27:53Uma vez uma pessoa tava num avião comigo
- 27:55e só reclamando, reclamando, reclamando
- 27:57da mãe. E tem hora que você fica no
- 27:59discurso da racionalização e você não
- 28:01consegue quebrar porque a pessoa tá tão
- 28:03convencida da narrativa dela que nada
- 28:05quebra, não é argumento. Aí eu olhei
- 28:07para ela e fiz: "Seus dentes são tão
- 28:08bonitos, essa prótese você comprou
- 28:10aonde?" Ela fez: "Não, não é meu". Até
- 28:13ela deu uma puxada para mostrar aquela
- 28:14dela mesmo. Disse: "Sua mãe também tem
- 28:16dentes assim?" Não, minha mãe, ela é
- 28:18banguela, ela usa prótese. É isso. A
- 28:20vida a sua mãe ficou sem dente para que
- 28:22você tivesse. Agora é fácil reclamar.
- 28:26Foi isso o único argumento que fez ela
- 28:28parar.
- 28:30Ela parou de reclamar da mãe porque tem
- 28:33moda, né? Agora é moda é mãe narcisista.
- 28:36Agora eu entendi porque minha vida não
- 28:38funcionou. A minha mãe é narcisista.
- 28:42Nada como ter um malvado favorito. O
- 28:45malvado favorito, ele faz com que você
- 28:47não tenha que bancar tua própria
- 28:48identidade, não tenha que construir sua
- 28:50própria história, porque você fica no
- 28:51lugar da acusação. É conveniente,
- 28:54mas é paralisante,
- 28:57é estagnador da própria identidade. Você
- 29:00não avança, não sai desse lugar. E a
- 29:02gente vai nesse movimento. O que o Papa
- 29:04Francisco chama aqui é chamada de
- 29:06genealogia, ou seja, entender que a
- 29:08nossa origem tem traços, tem história,
- 29:11tem pessoas que vieram antes,
- 29:12sacrifícios que foram feitos, histórias
- 29:15muitas vezes não percebida. Eu tenho um
- 29:17TDAH e deste atenção, hoje diagnosticado
- 29:20na minha adolescência, infância, não
- 29:22tinha nenhum tipo de medicamento, nem
- 29:25diagnóstico, nem laudo para levar pra
- 29:27escola. O único diagnóstico que minha
- 29:28mãe ouvia era: "Ele não vai dar para
- 29:30nada, se conforme, ele não termina a
- 29:32quinta série". E numa dessas
- 29:35desesperada, a minha mãe foi conversar
- 29:36com o pai dela, o meu avô materno.
- 29:39E ele, sabendo que eu tinha dificuldade
- 29:40de estudar, de concentração e foco,
- 29:42chegou para mim e disse assim: "Eu quero
- 29:43contar uma história para você".
- 29:46Eu nasci em 1914.
- 29:48Eu pensei: "Meu Deus, daqui que chega os
- 29:50dias atuais."
- 29:51Mas ele foi muito objetivo. E quando eu
- 29:54tinha sua idade, 14 anos, teve uma seca
- 29:56muito grande aqui no Nordeste. E meus
- 29:57pais dormiam chorando não porque estavam
- 29:59com fome, eles já eram acostumados. Eles
- 30:02choravam porque os filhos estavam com
- 30:04fome. E eu fugi de casa porque eu não
- 30:06queria aquilo para os meus filhos.
- 30:07Passei três dias perdido até trabalhar
- 30:10numa fazenda como capais. Eu voltei 10
- 30:12anos depois, meus pais tinham morrido,
- 30:14mas resolvi vir uma para uma cidade como
- 30:15essa, Campina Grande, que tem um centro
- 30:18universitário para que vocês tivessem
- 30:20acesso ao que eu não tive. E eu como
- 30:23caminho, trabalhava nesse país, não
- 30:26tomava nenhum tipo de medicamento para
- 30:27não dormir, para não deixar a família
- 30:29órfão, dirigia com a mão e batia a mão
- 30:31na testa com a outra para ficar
- 30:33acordada. Então, não desonre meu
- 30:35esforço.
- 30:37Não desonre meu esforço. Mas eu fiz um
- 30:40poema para você. Meu avô era poeta
- 30:41repentista também. Para que você leia
- 30:44ele como uma espécie de mantra. Eu fiz:
- 30:46"O que é mantra?" Vô 14 anos. Mantra são
- 30:49orações repetidas que tem várias
- 30:51religiões do mundo, que é algo que você
- 30:53faz até virar comportamento e conduta.
- 30:56E qual é essa poesia? Vô se estude e não
- 30:59esmureça, pois traz erguida a cabeça
- 31:02quem sempre cumpre o dever. A vida é
- 31:05luta e batalha, e nela só quem trabalha
- 31:08merece e deve vencer. Eu descobri
- 31:10naquele dia que a minha história não era
- 31:13a minha história, era a nossa história.
- 31:16Não era sobre eu,
- 31:19era sobre nós. Não existe a identidade
- 31:21do Rossandro, existe as identidades dos
- 31:24amores imperfeitos que antes de mim me
- 31:25deram um pouco mais do que tiveram para
- 31:27que eu seja quem eu sou.
- 31:29E só reconhecendo toda essa história que
- 31:31tem atrás de mim, eu consigo ser. Não
- 31:35reconhecer é cair no campo da
- 31:37ingratidão.
- 31:38E a ingratidão aqui não como uma falha
- 31:41moral, sabe? mas como imaturidade
- 31:43emocional de olhar pro que foi possível
- 31:45ser entregue por cada um que veio antes.
- 31:48Essa é uma história que vai construir
- 31:49identidades. A gente vai percebendo
- 31:51isso. Eh, ao mesmo tempo a humildade se
- 31:54perguntar:
- 31:55"O que veio antes de mim? Quem veio
- 31:58antes de mim? Que esforço foi feito
- 32:00antes de mim? para que eu entenda isso,
- 32:03para que eu valide isso e para que eu
- 32:06perceba e dê agora o meu passo. E mesmo
- 32:09que o que tenha vindo antes de mim tenha
- 32:10sido uma carga de dor profunda, de muita
- 32:13dor, talvez pensando como Sartre, não se
- 32:15perguntando o que fizeram de mim, mas o
- 32:17que eu vou fazer com o que fizeram de
- 32:18mim, eu posso me perguntar se tiver
- 32:20vindo muita dor, muita mágua. Eu repito
- 32:23tudo isso e a dor do que aconteceu
- 32:26comigo me fazendo sangrar vai fazer com
- 32:28que eu sangre no presente,
- 32:30inviabilizando todas as relações que
- 32:31chegam perto de mim. Ou eu decido, em
- 32:34mim encerra a dor e eu me curo
- 32:38e construo identidade de cura a partir
- 32:40daqui. Em mim encerra isso. E eu liberto
- 32:43em mim e quem vem depois de mim da
- 32:46reprodução do ciclo de dor. Entendendo
- 32:48que eu, como diz o Papa Francisco, eu
- 32:51tenho que receber das gerações
- 32:53anteriores e levar a metas mais altas. E
- 32:57se eu recebi dor, eu entrego cura.
- 33:01Se eu recebi abandono, eu entrego zelo.
- 33:03Cuidado. Mas para isso é preciso
- 33:07construir identidade a partir de um
- 33:09elemento fundante da estabilidade
- 33:12emocional, que é um desafio e é um
- 33:14processo, mas é curativo, que é o
- 33:15perdão.
- 33:17Em que eu olho e digo foi o que for
- 33:19possível, talvez entendendo de forma bem
- 33:21histórica, históica mesmo, aceitando que
- 33:24eu não mudo o passado. O presente ainda
- 33:27não se deu, mas a forma como eu escolho
- 33:29ver o presente é a diferença. Talvez
- 33:31resumindo toda a filosofia histórica
- 33:33para vocês, #ceita que dói menos.
- 33:37É sobre isso. É a vida. Ou você reclama
- 33:42fica numa eterna negociação com o
- 33:44passado que já tá dado e nunca constrói
- 33:46um futuro. Dorme na porta do agora na
- 33:48expectativa da amanhã que nunca chega ou
- 33:50você constrói uma identidade de cura a
- 33:53partir de você. Esse é um processo em
- 33:54que a gente começa a perguntar isso.
- 33:56Identidade, então aqui não é mais um
- 33:58ponto fixo, é um processo histórico, é
- 34:00um processo que vai se desenvolvendo. Eu
- 34:03é um tecido de transmissão familiar da
- 34:05cidade, da comunicação, da cultura, dos
- 34:08seus lugares, dos seus gostos, sabe? do
- 34:11cuscuz ou do chimarrão. É esses lugares
- 34:15que vão marcando você, construindo sua
- 34:17história. Ao mesmo tempo, a gente evita
- 34:20nesse processo um certo anacronismo
- 34:23moral, que seria julgar o passado com a
- 34:25régua do hoje, porque isso empobrece,
- 34:30muito empobrece, porque nessa genealogia
- 34:32a vida tem contexto, tem história. O seu
- 34:35pai distante
- 34:38a redil. Um dia foi uma criança muito
- 34:41ferida, também desejando seu visto.
- 34:44Vista. A sua mãe
- 34:47difícil, depressiva, sei lá o que que
- 34:49você pode falar dela também. Um dia foi
- 34:52uma menina abandonada. Uma vez um
- 34:55parente numa reunião familiar, não sei
- 34:57se já aconteceu de vocês, tá todo mundo
- 34:58muito feliz no meio de uma reunião
- 34:59familiar de reveião e um parente dizer
- 35:01uma coisa nada a ver para quebrar todo o
- 35:03clima.
- 35:05E um parente chegou para mim, disse:
- 35:06"Sua vó era uma louca".
- 35:09E eu respirei e pensei: "E o que que eu
- 35:12faço? Porque
- 35:14eu fico em silêncio, concordo. Eu
- 35:17pergunto de onde ele ter essa ideia e em
- 35:19vez de ter uma briga, por que você diz
- 35:20isso?" Eu olhei para que você diz isso?
- 35:22Porque ela sempre foi uma mulher
- 35:23descompensada.
- 35:25Eu disse, eu achava durante muito tempo
- 35:27que você tinha razão, até porque eu já
- 35:29disse isso sobre ela, mas hoje eu revi
- 35:30meu conceito. Por quê? Porque olhando a
- 35:33história da minha avó, eu percebi que a
- 35:35minha avó faz parte de uma geração de
- 35:36mulher que resolveu dizer não uma coisa
- 35:38que era comum. O meu avô materno, esse
- 35:41que leu, que recitou a poesia para mim,
- 35:43não deixou para mim uma herança
- 35:45importante, a beleza. E ele era um homem
- 35:47muito bonito. E a minha avó, por causa
- 35:50disso, sofria muito, porque ele de fato
- 35:52era alguém que tinha muitas amantes. Ele
- 35:54era caminhoneiro, logo ele tinha um em
- 35:55cada paragem. Ela tinha estratégias.
- 35:58Ele um dia perguntou: "Como é que ela
- 36:00sabe que eu não cheguei agora?" Ela
- 36:02assim que ele entrava para tomar banho,
- 36:03colocava a mão no pneu. Se tivesse
- 36:04quente, ele tinha acabado de chegar
- 36:06desse viagem, senão ele tinha passado na
- 36:08casa de alguém antes. Mas por que que
- 36:10ela é chamada de louca e muitas
- 36:12mulheres? Porque é a primeira geração
- 36:14que não aceita a traição e grita.
- 36:18E é mais fácil esse carimbo, é mais
- 36:19fácil essa identidade, é mais fácil esse
- 36:21rótulo de das pessoas que começam a
- 36:23dizer: "Eu não me submeto a isso." Eu
- 36:26não aceito essa identidade de quem quer
- 36:28questionar o establishment, o status qu.
- 36:31Você é louco, você é louca. Louco sempre
- 36:35aquele que diz assim: "Eu não aceito
- 36:36isso que tá dado como normal. Não é
- 36:37normal, não é justo, não é humano, eu
- 36:40não aceito. E nesse processo a gente vem
- 36:42entendendo que existe uma construção de
- 36:45identidade que vai, inclusive demandar
- 36:47desconstruir o que tá posto e não
- 36:49aceitar mais tudo que tá acontecendo.
- 36:52Isso a gente tem como se fosse uma
- 36:55ruptura, nem é uma nostalgia sem crítica
- 36:57do passado, nem muito menos uma ruptura
- 36:59sem memória. E a gente passa a a
- 37:02entender aqui a identidade como um
- 37:04verbo. Ela deixa de ser uma tarefa e
- 37:08passa a ser uma continuidade, um
- 37:09processo, uma construção. E eu preciso
- 37:11estar me desafiando nesse processo.
- 37:13Nesse mundo que exig um vai chamar de
- 37:16mundo líquido, a gente percebe que é uma
- 37:18angústia está se refazendo no processo.
- 37:21E ainda tem dito isso, que a gente
- 37:24pensou até aqui muito antes, o próprio
- 37:26Sigmund Freud na formatação da
- 37:28psicanálise pensar sobre a construção da
- 37:31identidade como provocando
- 37:32malçoilizatório sobre nós, entre o que a
- 37:35cultura diz e preconiza para mim como o
- 37:37que eu tenho que fazer e ser e o que eu
- 37:40decido ser. Talvez de forma mais
- 37:42poética, como dizia Fernando Pessoa, eu
- 37:45sou algo entre aquilo que eu quis ser e
- 37:46o que quiseram fazer de mim.
- 37:49Se eu só sou o que os outros querem, eu
- 37:50sou um dispersonalizado.
- 37:53Se eu só sou apenas o que eu quero, eu
- 37:55sou um ser antisocial. O equilíbrio não
- 37:58é fácil, mas é o que a vida exige da
- 38:00gente todos os dias. Como se fosse um
- 38:03uma pessoa que tá fazendo malabar no no
- 38:06sinal, um monte de pratinho, equilibra
- 38:08aqui, equilíbra aqui. Às vezes cai tudo
- 38:09e você tem que começar de novo e ninguém
- 38:11dá uma moeda, senão abre, a vida segue,
- 38:13você não conseguiu chamar atenção de
- 38:14ninguém. é o que você vai fazendo o
- 38:16tempo inteiro. Porque muitas vezes não é
- 38:18sobre o que as pessoas estão vendo sobre
- 38:20você, mas é o que você tá vendo para
- 38:22você, sobre a coerência do que você é
- 38:25como pessoa, independente da plateia.
- 38:27Quem é você quando a luz se apaga? Quem
- 38:30é você quando ninguém tá vendo? Quem é
- 38:32você quando não tá postando nada? Quem é
- 38:35você quando tá só? O que você sente
- 38:38sobre você? O que sobra de todas as
- 38:41impressões que te cercam? É essa
- 38:43identidade que vai te dar
- 38:44sustentabilidade para suportar o mundo
- 38:46com as demandas o tempo inteiro que vem
- 38:48lá o tempo inteiro. Mas sobre esse tema,
- 38:51Ricardo Guimarães, outro convidado para
- 38:53fazer parte desse bloco de reflexão, vai
- 38:55falar sobre identidade frágil, negação e
- 38:58conflito e atrofia da negação.
- 39:01Ele vai poder aprofundar essa questão. E
- 39:04aqui como bússola, eu traria um trecho
- 39:07poético do poema Eternidade de Juan
- 39:10Rames e Ramon Jimenees de 1918, que ele
- 39:13diz assim: "Não corras, ainda é cedo,
- 39:17amor. Não corras, vai devagar, porque
- 39:21onde tens de ir é a ti mesmo."
- 39:27Para que correr se o encontro é com
- 39:30você? Parece que o encontro é com o
- 39:32mundo, né? pelas caras aqui, eu achei
- 39:34que já tem muita gente da minha idade,
- 39:35então tem muita gente aqui que já passou
- 39:37daquela fase que dava tudo para ir para
- 39:41fora de casa e agora dá tudo para est em
- 39:44casa. Nós somos os homosexuais, ou seja,
- 39:48nós adoramos estar em casa, [risadas]
- 39:52ou seja, a ideia da casa, do lar, né? Eu
- 39:56tava ouvindo uma pessoa dizer assim:
- 39:57"Ah, eu encontrei uma pessoa que eu
- 39:59sou", ela me contando, eu sou 40 mais
- 40:01encontrei uma pessoa roçando e a gente
- 40:03saiu e depois ele me levou pra casa
- 40:04dele, fez um jantar e depois se viu o
- 40:06café com bolo. Que coisa excitante, eu
- 40:09não vou abrir mão nunca desse cara. Ele
- 40:11serviu um café com bolo de noite. É tudo
- 40:14que eu preciso, não é? As identidades
- 40:17elas vão mudando. Aquilo que a gente vai
- 40:19querendo vai mudando. A gente vai
- 40:20querendo às vezes somente café, porque
- 40:23no fundo a gente já tá percebendo a a
- 40:26carreira é para mim mesmo.
- 40:28Talvez eu tenha que rodar o mundo para
- 40:31encontrar em mim aquilo que eu busquei
- 40:33lá fora. E o que a gente espera quando a
- 40:37gente tá mais maduro é que os nossos
- 40:38filhos não gaste tanto tempo como a
- 40:40gente para encontrar essa verdade, para
- 40:42que eles cheguem mais cedo. Saramago vai
- 40:44dizer: "Não tenha pressa, mas não
- 40:46percamos tempo nem ficar no ainda é cedo
- 40:50eterno e daqui a pouco ter aquelas
- 40:52pessoas com 40 anos morando com os pais,
- 40:54eternos adotescentes, nem pessoas que se
- 40:57precipitam nos moinhos da existência."
- 40:59E aí a gente tem nesse processo uma
- 41:02coisa que eu queria trazer aqui para
- 41:04vocês, que é a percepção de um poeta
- 41:09brasileiro que consegue com muita
- 41:12antecedência vislumbrar a crise na qual
- 41:15nós nos encontramos. Porque entenda, a
- 41:16ciência ela pega um monte de dados,
- 41:18analisa para a partir dali chegar a
- 41:21conclusões sobre o que aconteceu ou
- 41:24muito pouco do que pode acontecer. Mas o
- 41:26poeta tem uma sensibilidade de antecipar
- 41:29cenários por ver microtendências
- 41:32que virarão tendências. É um poeta
- 41:34conhecido de vocês que a gente vai ver
- 41:35agora no trecho aqui, Renato Russo.
- 41:40E há tempos nem os santos tm ao certo a
- 41:43medida da maldade. E há tempos são os
- 41:46jovens que adoecem. E há tempos o
- 41:49encanto está ausente e a ferrugem nos
- 41:51sorrisos.
- 41:54Nos perderemos entre monstros da nossa
- 41:56própria criação. Serão noites inteiras,
- 41:59talvez com medo da escuridão. Ficaremos
- 42:02acordados imaginando alguma solução para
- 42:06que esse nosso egoísmo não destrua o
- 42:09nosso coração.
- 42:10>> Percebe? Eu juntei duas músicas dele,
- 42:13mas essa música a tempo é incrível,
- 42:15porque a gente vive um universo em que
- 42:17se prometeu tantas coisas pra gente.
- 42:20Muitos de nós aqui tem uma geração de
- 42:21profundas privações. Quem aqui só tinha
- 42:23na infância conga, que chuta e bamba
- 42:25para usar, levante a mão, por favor. Já
- 42:28me sinto mais confortável. Eu pensei que
- 42:29tava só nessa idade. A gente que só
- 42:32tinha pouca coisa. Imagina se a gente
- 42:35vivesse a época da pandemia só com
- 42:37sessão da tarde. Imagina ver a fábrica
- 42:40de chocolate pela décima vez curtindo a
- 42:43vida. A lagoa azul. Ninguém aguentava
- 42:45mais alagoa azul.
- 42:47Mas hoje você pode chegar aqui, terminou
- 42:49o café filosófico, vai para casa, vai
- 42:51ver uma série, um dorama
- 42:56e aí você começa a sua, o seu desafio,
- 42:59entra num stream, aí olha lá 10 mais, aí
- 43:03eu vou olhar outro, aí entra no outro
- 43:04stream, vai lá às 10 mais, depois no
- 43:07depois de uma hora você vai dormir. Já
- 43:10passou por isso? [risadas]
- 43:12Chama-se fadiga de escolha. São tantas
- 43:15opções que você cansa. É como se fosse
- 43:17na praça de alimentação de um shopping,
- 43:19olhasse o cardápio de toda a praça de
- 43:21alimentação, mas não almoçasse. É o que
- 43:23a gente faz. São tantas possibilidades,
- 43:26né, que parece cocaína, mas é só
- 43:29tristeza.
- 43:31Parece o a supercitação prometida, mas o
- 43:35rebote que vem depois.
- 43:38E nessa sociedade em que nós nos
- 43:40isolamos, criamos um smartphone que
- 43:42coloca nossa vida ali dentro com rede
- 43:44social e tudo em que cada um de nós está
- 43:47conectado nessa espécie de Black Mirror,
- 43:49fazer alusão à sédede disruptiva da
- 43:50Netflix e distópica, estamos aqui dentro
- 43:54no nosso Black Mirror nos ignorando uns
- 43:56aos outros em casa, filhos ignorando
- 43:58pais, pais ignorando os filhos. Então,
- 44:00no mundo que tanta possibilidade, mas
- 44:02tanta solidão, parece cocaína, mas é só
- 44:05tristeza. E por causa disso, muitos
- 44:07temores nascem do cansaço e da solidão.
- 44:11E uma geração por causa disso entra em
- 44:13descompasso,
- 44:15desperdício,
- 44:17e se tornam por não reconhecerem o
- 44:19passado, por não reconhecerem quem veio
- 44:22antes, por não reconhecer o Marvem agora
- 44:25com você, se tornam herdeiros das
- 44:27virtudes que perderam
- 44:30e se sentem vazios, angustiados e querem
- 44:33falar, mas não são escutados. Porque
- 44:36muitos pais são pais que se tornaram
- 44:39pais sem competência para sê-los.
- 44:41Não são que Winicot, grande psicanalista
- 44:44e pediatra inglês, dizia: "Uma mãe ou um
- 44:46pai suficientemente bons, não são
- 44:49suficientes".
- 44:50E dizem assim: "E as minhas coisas, eu
- 44:52tenho que cuidar de mim, filhos
- 44:54abandonados em casa?" E que dizem assim
- 44:56na música: "Dissestes que se a tua voz
- 44:59fosse escutada, tu acordarias a tua
- 45:01casa, não somente ela, mas a vizinhança
- 45:03inteira.
- 45:05E no mundo em que tudo vira pó, no mundo
- 45:08líquido, em que tudo é questionado, como
- 45:09diz Balmer, tudo, a mídia, a ciência,
- 45:13até a terra pode ficar plana para
- 45:15algumas pessoas. Tudo passa a não ter
- 45:17sentido. Tudo é guerra de narrativa,
- 45:20tudo é destruído. Tudo vai pro pó a
- 45:23templo. Nenhum os santos sabem ao certo
- 45:25a medida da maldade. E por isso há
- 45:28tempos são jovens que adoecem. Porque
- 45:31sim, trazendo agora outra música, nós
- 45:34vivemos entre monstros das nossas
- 45:35próprias criações. Mas ele faz uma
- 45:38promessa de cura. Ele não fica no
- 45:40diagnóstico que é fácil fazer, mas meu
- 45:42amor,
- 45:44disciplina é liberdade,
- 45:48compaixão é fortaleza.
- 45:51Mas Renato Rusco, que licença poética
- 45:53para colocar na mesma frase, disciplina
- 45:56e liberdade, palavras, palavras que
- 45:58parecem ser antagônicas, né? disciplina
- 46:00ter que fazer liberdade. Bem, vocês que
- 46:03são aí dos 40 para trás, como eu, tô
- 46:05sendo gentil, né?
- 46:08Sabem que só quem tem disciplina de
- 46:09fazer o que tem que ser feito é quem
- 46:11terá liberdade de ser quem deseja ser.
- 46:16É preciso isso, é preciso essa força,
- 46:19esse esforço, é esse movimento que a
- 46:22gente faz o tempo inteiro.
- 46:24E aí eu queria trazer para vocês um
- 46:26quadro, pra gente fazer uma análise
- 46:28desse quadro que ele chama atenção,
- 46:29porque ele é um quadro de 1942,
- 46:33tá?
- 46:35Aí é um quadro que trata de um vazio
- 46:37profundo. Percebam que
- 46:39estão numa rua em Nova York, são quatro
- 46:42pessoas, elas nenhuma tá olhando paraa
- 46:44outra. Elas são vistas, mas não veio o
- 46:48vazio lá fora. É um quadro do Edward
- 46:51Hoper chamado Night Walker. Seria mais
- 46:53ou menos Falcões noturnos.
- 46:55São corpos próximos, mas distantes.
- 46:59É quando a gente entra num elevador de
- 47:01condomínio que porque a gente tá tão
- 47:03próximo naquele ambiente que a gente não
- 47:04quer nem falar com o outro para
- 47:05preservar nossa identidade. A cidade
- 47:08grande provoca isso. Fica no teu mundo
- 47:10que eu fico no meu. Eu fiz uma montagem
- 47:12com I desse quadro. Olha só,
- 47:15acrescentei o novo elemento
- 47:19que nos isola. Se antes a gente até
- 47:21poderia passar o olho no outro, agora
- 47:24não mais. A gente se isola
- 47:27profundamente. A promessa da conexão é
- 47:29uma ironia, porque a promessa foi: "Eu
- 47:31vou te conectar com o mundo". E conectou
- 47:34de fato, mas o custo, o custo foi quase
- 47:38que demoníaco. Eu te conecto com o mundo
- 47:41ao custo de te desconectar com quem
- 47:43importa, quem tá do teu lado, na tua
- 47:46casa. Eu te desconecto dos parentes, dos
- 47:49pais, dos filhos, dos amigos. Você passa
- 47:53o dia dando atenção a quem não tá perto,
- 47:55ignorando quem tá perto. E essa
- 47:57desconexão vai gerando mais identidade
- 47:59fluida. E a partir daí você se sente
- 48:01completamente abandonado só e busca
- 48:04identidades supérflas, pertencimentos
- 48:06pobres, o grupo de inimigo político, a
- 48:08pessoa da crença que vira negócio, as
- 48:11manipulações ou alguém que te promete em
- 48:1310 passos como ficar rico.
- 48:16Aliás, o Brasil é um dos países em que
- 48:17mais se faz curso para ficar rico. E se
- 48:201% das pessoas que fazem curso para
- 48:22ficar rico tivessem ricas, nós já éramos
- 48:24no mínimo a Coreia do Sul.
- 48:27Só tem uma pessoa ficando rica.
- 48:31Aqui te promete o atalho.
- 48:34As pessoas sempre vão querer livros de
- 48:35rodoviário, de aeroporto. 10 passos para
- 48:39Ninguém quer a angústia de construir a
- 48:42própria história.
- 48:44A angústia de saber que a identidade é o
- 48:46dia que eu sonho. Tô aqui na ponta dessa
- 48:48mesa. O dia que eu realizo, o dia que eu
- 48:51digo, eu quero ser isso e o dia que eu
- 48:53penso, quando eu fui isso, eu farei
- 48:55isso. Pouca gente suporta o longo
- 48:57segundo dia, silencioso, deserto, que
- 49:01solitário, que separa o dia que você
- 49:04sonhou ter uma outra identidade e o dia
- 49:06que você construiu essa identidade, em
- 49:09que ninguém tá vendo você estudando só
- 49:11sem passar no concurso, ninguém tá vendo
- 49:14você tentando se reconstruir depois de
- 49:15uma traição, ninguém tá vendo você se
- 49:18recuperar depois de um luto.
- 49:20Mas é essa trajetória aqui que define
- 49:22quem você é, o quanto você suporta esse
- 49:25lugar. E não sonhar ou imaginar o que
- 49:29fazer com o sonho realizado. É suportar
- 49:31aqui no meio. Esse cenário do quadro
- 49:34mostra ao mesmo tempo corpos que são
- 49:37distantes uns dos outros. É a solidão da
- 49:39alienação da cidade. O vidro é
- 49:42exatamente esse lugar em que você vive
- 49:44numa vitrina teatral. Você tem uma
- 49:45espécie de voerismo em que você é
- 49:47observado, mas você não vê quem tá lá
- 49:49fora. É a coreografia dos quase
- 49:52Encontros,
- 49:55em que a gente começa a criar até uma
- 49:56espécie de cardápio humano em
- 49:58aplicativos de relacionamento, que você
- 49:59vai lá, gostei desse perfil, clica aqui,
- 50:03aí marca e o date não é legal porque a
- 50:05foto não revela a identidade da pessoa.
- 50:07Às vezes a promessa é linda, a foto tem
- 50:09filtro, quando você vê e chega perto,
- 50:11que coisa estranha, não bate o caracraxá
- 50:13e você já começa o estranhamento,
- 50:17porque a realidade tem que ser
- 50:19suportada.
- 50:23As pessoas estão com indisponibilidade
- 50:25de suportar a realidade. A gente vive
- 50:27esse mundo da metrópole que ela ao mesmo
- 50:31tempo nos faz criar uma subjetividade.
- 50:33Ela nos joga para a gente tirar um
- 50:35filtro dos excessos. Eu preciso filtrar
- 50:37tanta coisa, sabe? Imagina você chegar
- 50:39na paulista de do começo ao fim, você
- 50:41tem tanta informação ali, tantas coisas
- 50:44acontecendo que ao final você tem que
- 50:47filtrar para voltar para casa. E esse
- 50:49filtro que é uma estratégia de eu
- 50:50preciso ficar no meu lugar, preciso
- 50:51preservar minha identidade, preciso
- 50:53ficar em seu lugar, mas ao mesmo tempo a
- 50:55gente vai para um isolamento.
- 50:57É como se, na verdade nós não nos
- 51:00envolvemos porque eu preciso preservar a
- 51:02minha identidade. Que identidade?
- 51:06E se a identidade foi o encontro, o
- 51:09encontro com o passado que precisa ser
- 51:11percebido como o passado possível ou
- 51:14como passado reverenciado
- 51:16ou como a gratidão pelo que foi vivido e
- 51:19a construção de um eu que está no nós.
- 51:22Quando eu fui o ano passado, ali esse
- 51:24ano, eu fui para eh a África, para um
- 51:27campo de refugiados
- 51:29na dealeca, que fica no Malau e que
- 51:32recebe pessoas que vem da República
- 51:33Democrática do Congo e de muitas guerras
- 51:35ali na África e entrava em casas em que
- 51:37as mulheres vendiam o próprio corpo por
- 51:39R centavos de real para comprar folha de
- 51:42batata doce para dar pros filhos. E às
- 51:44vezes tinham 10 crianças e eu perguntava
- 51:46que se eram todas delas. Muitas falavam
- 51:49francês, outras hil outras línguas.
- 51:51Tinham pessoas de várias religiões.
- 51:54E comigo junto com os membros da
- 51:56Fraternidade Sem Fronteiras, uma
- 51:57organização internacional humanitária da
- 52:00qual faço parte, tava Patrick, que é
- 52:03também do Congo. E eles têm uma
- 52:05facilidade incrível de falar idiomas.
- 52:07Patrick fala 11 línguas e Patrick
- 52:10traduzindo comigo, ela disse: "Ó Sandro,
- 52:11é parte desses filhos, ela tá dizendo
- 52:13que não é dela, é da vizinha que morreu
- 52:15e ela tá criando e agora são delas".
- 52:17Porque ela lá eles tm um conceito de
- 52:20umbunto, eu sou porque você é. Fizemos
- 52:23uma experiência de colocar uma caixa de
- 52:25chocolate no fim, colocar as crianças
- 52:27para correr para quem pegava primeiro.
- 52:28Vamos lá. Já elas se deram as mãos para
- 52:31chegar juntas. E a gente perguntou ao
- 52:33maior que tinha uma perna comprida e
- 52:35poderia correr e ganhar: "Por que você
- 52:37não veio logo?" Ele disse: "Que graça
- 52:38teria comer sozinho?"
- 52:40É, que graça tem?
- 52:44Qual é a graça? Seria a graça de Sartro,
- 52:47o inferno são os outros
- 52:50ou o inferno é a solidão?
- 52:53A solidão que hoje seifa 10 anos da vida
- 52:55de alguém com pesquisas fundamentadas já
- 52:5810 anos a menos de vida na solidão.
- 53:01Estar só é como fumar uma cartro por
- 53:03dia. Então eu prefiro isso do que o
- 53:06desafio de construir as identidades
- 53:08juntos, suportar você, receber suporte
- 53:11de você, ter que te aguentar, você ter
- 53:12que me aguentar, estarmos juntos.
- 53:15Não, eu prefiro um cachorro.
- 53:19Nada contra criar animais. Maravilhoso.
- 53:21Não vamos me cancelar na internet
- 53:22fazendo logo o disclaimer aqui. O mundo
- 53:24hoje é complicado, lindo. Adoro, né? Mas
- 53:28e os seres humanos? A construção das
- 53:31identidades, estarmos juntos esse
- 53:32processo. Aí a gente vai precisando
- 53:35lugares. Eu vou pro hotel, pro
- 53:36aeroporto, pro shopping para suportar a
- 53:39vida, os lugares em que a gente tá
- 53:41junto, mas não é lugar. Não é lugar de
- 53:42estar. Quando a gente chega no hospital
- 53:45público, que a pessoa tá doente numa
- 53:46enfermaria com 20 leitos, ela cria jeito
- 53:50ali de criar sua própria identidade. Ela
- 53:52pega, nem que seja aquele móvel do lado
- 53:54da cama para colocar suas coisas, para
- 53:56dizer: "Nesse cantinho aqui já um eu".
- 53:59que é diferente disso aqui.
- 54:02Eu preciso ao mesmo tempo estar me
- 54:04preservando e ao mesmo tempo estar
- 54:05construindo
- 54:07e olhar para esse passado com que foi
- 54:09possível ser dado. Tem uma ministério
- 54:11que eu gosto muito chamada The Last of
- 54:12Us. E na última temporada tem uma cena
- 54:16icônica que abre o último episódio. É do
- 54:20personagem principal Joel.
- 54:22E aí eu vou dar spoiler para quem não
- 54:24viu, mas estão aqui. Não posso fazer
- 54:26nada. Depois vocês faz de conta que não
- 54:28não fazem de conta que não ouviu.
- 54:31Ele tá ali como um adolescente de 14
- 54:32anos, o irmão de 7 anos que meio que
- 54:36tava vendendo drogas, o pai é um
- 54:38policial. E a formatação cinematográfica
- 54:42é para você sentir toda a angústia que
- 54:43aqueles dois adolescentes sentem. uma
- 54:46casa dos anos 50, 60, com aquela luz
- 54:49lugrob amarela, pequena na cozinha
- 54:51pendurada numa noite tempestuosa e o
- 54:54irmão mais novo de 7 anos, ele vai bater
- 54:56em mim, ele vai me bater. Não se
- 54:58preocupe de Joel com 14, eu vou assumir
- 55:00toda a culpa. Vá dormir. E o pai entra
- 55:03em casa parecendo Jubar, a porta, um
- 55:06relâmpago atrás, ele entra, toda a
- 55:07impressão cinematográfica para você
- 55:09sentir um pouco da angústia dele. E aí o
- 55:12pai entra, cadê seu irmão? Não, não, não
- 55:15fale com ele. Pode falar comigo. Eu sei
- 55:17que foi ele. Não fui eu. Foi eu que tava
- 55:19tentando vender droga. Não, eu sei que
- 55:20foi seu irmão. Por que você tá assumindo
- 55:22a culpa dele? E como se fosse a primeira
- 55:25vez ele
- 55:27confronta o pai. É porque a gente não
- 55:30aguenta mais ser espancado por você.
- 55:33Ele só tem 7 anos. Bate em mim, eu dou
- 55:35conta.
- 55:36E como se o primeiro confronto gerasse o
- 55:38primeiro ganho de consciência, o pai
- 55:41para, vai na geladeira, pega duas
- 55:43cervejas, abre uma para ele, pro filho,
- 55:46faz um silêncio, uma pausa e diz:
- 55:50"Quando eu tinha sua idade, meu pai me
- 55:52bateu, mas ele batia tanto que uma vez
- 55:55ele deslocou meu queixo e eu passei se
- 55:58meses sem na escola.
- 56:01Acredite, meu filho, eu bato em você
- 56:04muito menos do que eu apanhei. E tudo
- 56:07que eu espero um dia que quando você for
- 56:08pai, que você bata menos ainda.
- 56:12Marvin agora é com você.
- 56:16No fundo, no fundo, as pessoas elas dão
- 56:18o que podem. No fundo, no fundo, o mundo
- 56:20te entrega aquilo que pode. O que eu
- 56:22faço com isso? Define. A curadoria que
- 56:25eu faço, que o mundo me entrega. define
- 56:29quem você, o que repete ou que constrói
- 56:33uma nova história. E finalmente uma
- 56:34identidade curada, o que fica no ciclo
- 56:37da dor, o que flica na comparação, o que
- 56:40fica no lamento ou que diz: "Bom, eu
- 56:44entendo que foi possível comigo agora
- 56:46faço minha própria história".
- 56:48Essa é uma escolha de libertação do lado
- 56:52patológico das identidades, das heranças
- 56:54culturais, familiares, para que a gente
- 56:56possa finalmente construir uma
- 56:58trajetória digna de eu escolho.
- 57:03Eu olho todo o panorama, vejo tudo que
- 57:05foi possível, mas eu faço uma escolha.
- 57:08Um dia eu tava perto da casa onde meu
- 57:10pai morava. Meus pais separaram quando
- 57:13eu tinha 6 anos de idade. Aos 6 anos eu
- 57:16não tinha nem o cachorro mais, nem a mãe
- 57:18que tentou suicídio, nem meu irmão mais
- 57:20velho, nem meu pai. Eu tava morando na
- 57:22casa dos meus avós maternos e tudo tinha
- 57:24se perdido.
- 57:26E eu tentei aos 6 anos visitar meu pai.
- 57:28Ele não me recebeu porque ele tava na
- 57:30casa do pai dele, não era a casa dele. E
- 57:31aí eu anos depois, décadas depois estava
- 57:34lá do lado e pensei: "Meu Deus, ele não
- 57:35poôde me receber". Eu imagino que a dor
- 57:37que eu senti nesse dia foi tão grande
- 57:39quanto a dele.
- 57:41Mas de algum modo, tendo ele morrido por
- 57:43causa do álcool muito cedo, de algum
- 57:46modo foi uma forma de dizer para mim:
- 57:49"Meu filho, não vem por aqui."
- 57:52Existe muitas formas de amar.
- 57:55Existe o homem que foi possível ele ser
- 57:57casar com 17 anos, com a mulher com 16
- 58:00anos, na verdade duas crianças.
- 58:03E no fundo, no fundo, gratidão, porque
- 58:05eles toparam criar uma família, ainda
- 58:09que o projeto, conforme a gente
- 58:11imaginando, deu certo com casamento
- 58:13longevo,
- 58:15somos o resultado desse encontro de
- 58:18pessoas imperfeitas com suas dores, suas
- 58:20feridas, que tentaram, mesmo com
- 58:23identidades quebradas formar outras
- 58:25identidades, tentaram entregar o que
- 58:27podiam e recebemos da cultura, do país,
- 58:31de todos os lugares. lugares e resta nós
- 58:34a pergunta: "O que eu faço com isso? O
- 58:36que que eu construo com isso? Um
- 58:38lamento, uma acusação, um apontamento de
- 58:41dedos ou uma responsabilidade?
- 58:45ou eu me torno adulto e maduro. Ou como
- 58:47diz Margaro Sená,
- 58:49escritora belga, o nosso lugar de
- 58:51nascimento, né, onde a gente nasceu, mas
- 58:53o lugar e dia em que pela primeira vez
- 58:55lançamos um olhar de lucidez sobre a
- 58:57vida.
- 58:58no mundo de hoje, em que tudo vai mudar
- 59:00o tempo inteiro de forma ininterrupta,
- 59:03a fluidez vai exigir entender o que é
- 59:05que fica depois de todas essas demandas,
- 59:07todas essas solicitações, todas essas
- 59:10impressões do passado, do presente, da
- 59:12internet, de todo mundo, ao mesmo tempo.
- 59:14Agora, o que fica em mim? O que é que eu
- 59:16faço?
- 59:19É esse o nosso desafio, é essa a nossa
- 59:21construção. É uma responsabilidade
- 59:25intransferível.
- 59:26Ter quem culpar, ter a quem culpar é
- 59:28confortável,
- 59:30é verdade. Mas se libertar e assumir a
- 59:33própria história é muito mais
- 59:35confortável, porque faz com que você
- 59:37deixe de ser direcionado por eventos
- 59:39externos
- 59:41e de fato comece a amadurecer. E como eu
- 59:44costumo dizer paraa contrariedade de
- 59:46muitas pessoas, a maturidade não vem com
- 59:48tempo.
- 59:50Você tiver esperando ela acontecer com
- 59:52tempo, esqueça. Ela é uma escolha que
- 59:55você tem que fazer.
- 59:57A escolha de alguém que finalmente olha
- 1:00:00pra vida e dirige ela. Ela finalmente
- 1:00:03torna alguém maduro, porque o indivíduo
- 1:00:05maduro é alguém que deixa de ser
- 1:00:07regulado e apoiado externamente pelos
- 1:00:09eventos externos e passa a ser um
- 1:00:11indivíduo autorregulado e autoapoiado.
- 1:00:15Então não corra,
- 1:00:18porque você tem que chegar no lugar que
- 1:00:20é você mesmo. Obrigado pela atenção até
- 1:00:23aqui de vocês.
- 1:00:26[aplausos]
- 1:00:32[aplausos]
- 1:00:35>> Obrigado,
- 1:00:40>> Rossandro, muito obrigado pelo café
- 1:00:42filosófico, pela essa primeira parte do
- 1:00:44café, né? Agora a parte que a gente faz
- 1:00:45uma interação, as pessoas fazem
- 1:00:47perguntas para você. Aqui em Campinas
- 1:00:49duas formas de fazer perguntas. Se vocês
- 1:00:51quiserem fazer pergunta no microfone, só
- 1:00:53levantar a mão. Alguém da produção vai
- 1:00:55até vocês. Tem um papelzinho também,
- 1:00:57caso queiram que eu leia. Só escrever o
- 1:00:59papelzinho também. Alguém da produção
- 1:01:00traz aqui para mim o papel, eu leio.
- 1:01:03Algumas perguntas já chegaram também
- 1:01:04pelo YouTube, a gente tá selecionando. E
- 1:01:06a gente vai abrir com uma pergunta que
- 1:01:07chegou do público da Deusar Serra. Ela é
- 1:01:10uma professora do Maranhão que tá aqui
- 1:01:12com a gente hoje e ela diz que ela tá
- 1:01:14feliz pela oportunidade da da sua
- 1:01:16palestra. E a pergunta dela é a
- 1:01:18seguinte: as marcas negativas podem ser
- 1:01:22superadas ao longo da vida em qualquer
- 1:01:25fase, aos 50 mais ou 60 mais, a vida
- 1:01:29continua. E como construir essa
- 1:01:31identidade mesmo numa sociedade líquida?
- 1:01:35Quem somos quando tudo muda? Pois é,
- 1:01:39nós podemos a qualquer momento fazer
- 1:01:42isso.
- 1:01:44É claro que quanto mais demora, mais o
- 1:01:47trabalho é intenso. Abrir mão da sua
- 1:01:50identidade antiga, ela dá muito mais
- 1:01:52trabalho quando essa identidade há muito
- 1:01:54tempo está em você. Mas não é uma
- 1:01:56condenação. O seu passado não é uma
- 1:01:58condenação a você. Você pode sim fazer
- 1:02:00essa transformação.
- 1:02:03E imagine que você só tivesse mais 10
- 1:02:05anos ou 5 anos. E se fosse os 5 anos
- 1:02:08finalmente curados, não valeria a pena?
- 1:02:12Se fosse os últimos 5 anos, finalmente,
- 1:02:14sem nenhuma pretensão de provar nada
- 1:02:16para ninguém. Se fosse os últimos 5
- 1:02:19anos, sem que você tivesse mais
- 1:02:20preocupado e que o teu passado não
- 1:02:22tivesse mais pautando o teu presente, em
- 1:02:24que teu passado não tivesse destruindo o
- 1:02:26teu presente e inviabilizando o teu
- 1:02:28futuro, em que você apenas lembrasse do
- 1:02:31que aconteceu. Perdão como processo, não
- 1:02:34como uma escolha intelectual.
- 1:02:36em que eu não mudo o outro, não espero
- 1:02:38que o outro reconheça que me machucou,
- 1:02:40em que eu não romantizo a possibilidade
- 1:02:43ou não de uma reconexção, mas
- 1:02:44simplesmente abrir mão de continuar
- 1:02:46trazendo a dor, como quem diz assim:
- 1:02:50"Ei, dor, eu não te escuto mais, você
- 1:02:54não me leva a nada".
- 1:02:58Uma pergunta do público lá no fundo, lá
- 1:03:00no corredor, pode se apresentar e fazer
- 1:03:02a pergunta.
- 1:03:04Oi, eu sou Clarissa. Eu sou de Campina
- 1:03:07Grande também.
- 1:03:08>> Olha,
- 1:03:09>> é, sou engenheira. Inclusive a sua
- 1:03:11esposa ia tocar no dia do meu casamento
- 1:03:13se eu não tivesse cancelado o casamento.
- 1:03:15>> Uau!
- 1:03:17Depois queremos saber mais sobre isso,
- 1:03:18Clarissa, [risadas]
- 1:03:21>> eh, você toca, toca, né, a gente de
- 1:03:24várias formas e eu tô muito orgulhosa de
- 1:03:26estar bem cheio aqui hoje.
- 1:03:29Eh,
- 1:03:31eu queria que você trouxesse uma luz pra
- 1:03:33gente, tanto no trabalho como na
- 1:03:36família, né? Eh, sobre eh esse revidar
- 1:03:41com amor, né?
- 1:03:43revidar de formas melhores, porque você
- 1:03:46traz na a esperança pra gente, né, de de
- 1:03:49poder fazer melhor do que fizeram.
- 1:03:52>> Certo, Clariss? Depois eu quero saber
- 1:03:54detalhes desse porque aqui não rolou a
- 1:03:57festa lá com a Janine, minha esposa
- 1:04:00Clarice, eh,
- 1:04:03a gente na verdade tá conseguindo mais
- 1:04:06resultados do que a gente imagina
- 1:04:09no fundo, no fundo.
- 1:04:11Uma vez eu tava com educadores aqui no
- 1:04:13espaço Unimed, São Paulo, né, e tinha
- 1:04:16mais ou menos 4.500 educadores numa
- 1:04:18palestra. Eu tava falando um pouco sobre
- 1:04:20superação e eu disse assim, pela essa
- 1:04:22plateia aqui de 4500 educadores, tem no
- 1:04:25mínimo estatisticamente umas 800 pessoas
- 1:04:27foram abusadas sexualmente na infância.
- 1:04:31Tem marcas,
- 1:04:33tem cicatriz,
- 1:04:35tem memórias. Você pode ter afetado a
- 1:04:38sua autoestima, a sua vida sexual, seus
- 1:04:41relacionamentos,
- 1:04:43mas você é tão maior do que quem tentou
- 1:04:45te destruir que você resolveu
- 1:04:49cuidar de crianças.
- 1:04:51Você resolveu tocá-las não para
- 1:04:54abusá-las, você resolveu tocá-las para
- 1:04:57instruí-las,
- 1:04:58para deixá-las maior. E se isso não é
- 1:05:01uma prova de você é maior do que tentou
- 1:05:03de destruir, você não entendeu ainda a
- 1:05:05vida.
- 1:05:06Nós somos maiores do que quem tentou nos
- 1:05:08destruir. De algum modo a gente já tem
- 1:05:10dado uma resposta, mas ter consciência
- 1:05:13disso e dar mais assertividade à vida
- 1:05:17faz com que eu tenha mais
- 1:05:18intencionalidade no que eu tô fazendo,
- 1:05:20em reconhecer a minha trajetória, em
- 1:05:24fazer em mim novas escolhas. Talvez por
- 1:05:27isso eu não beba, porque o que aconteceu
- 1:05:30com meu pai tenha me ensinado que
- 1:05:32trajetória eu não deva repetir. Talvez
- 1:05:34por isso você como educador chegue a
- 1:05:36crianças para ajudá-las e não para
- 1:05:38abusá-las, porque você com isso mostrou
- 1:05:42que você é maior do que quem tentou te
- 1:05:44destruir. Nós somos. Mas ganhar essa
- 1:05:47consciência nos dá um poder de sermos
- 1:05:49mais assertivos em fazer essa escolha
- 1:05:53todos os dias. E é um pouco do que eu
- 1:05:56faço todos os dias. meu movimento, seja
- 1:05:58escrevendo, publicando conteúdos na
- 1:06:00internet, estando aqui com vocês, é
- 1:06:02sempre um compromisso diário de estou
- 1:06:04aqui como alguém que trabalha saúde
- 1:06:05mental com compromisso diário de no
- 1:06:07mundo ajudar na elevação da consciência
- 1:06:09das pessoas sobre elas mesmas, porque
- 1:06:12sempre é possível.
- 1:06:16>> Mais uma pergunta no microfone. Vou
- 1:06:17pedir para se apresentar e fazer a
- 1:06:19pergunta.
- 1:06:20>> Boa noite, Rossandro. Quem tá falando
- 1:06:22aqui é Raniele da Fraternidade Sem
- 1:06:24Fronteiras. Fala, meu amigo.
- 1:06:26>> Queria te agradecer já, né, por falar um
- 1:06:28pouquinho do projeto, mas ainda nessa
- 1:06:31questão de identidade e na tua viagem
- 1:06:34que você teve lá em Zaleca, né, a gente
- 1:06:37já esteve, então
- 1:06:39é levantar a bola para você cortar, na
- 1:06:41verdade essa, né, e puxar a sardinha pro
- 1:06:43nosso lado, né, a falta de propósito
- 1:06:46hoje para jovens e adolescentes,
- 1:06:49talvez por tanta opção, né, como como a
- 1:06:52tecnologia, como o digital oferece,
- 1:06:55O que que você pode falar para quem aqui
- 1:06:57nunca foi na África e e principalmente
- 1:07:00dentro de um campo de refugiado onde as
- 1:07:02crianças não têm energia elétrica, não
- 1:07:04tem não tem internet, não tem água, não
- 1:07:09tem não tem nada do que a gente tem
- 1:07:11aqui.
- 1:07:12>> Uhum.
- 1:07:12>> E mesmo naquelas condição de de
- 1:07:14violência, né, tem um sorriso e tem uma
- 1:07:17alegria abundante, né? É, aquilo chega a
- 1:07:21ser constrangedor, Raniel. A sensação é
- 1:07:24de constrangimento.
- 1:07:26É como a falta
- 1:07:28de coisas geram acesso de afetos para
- 1:07:31suportar essa falta, enquanto que há o
- 1:07:35excesso de coisas gera uma anestesia dos
- 1:07:37afetos que faz com que a gente não
- 1:07:39suporte a vida.
- 1:07:42A ironia que a gente vê chega lá e olhar
- 1:07:44para aquele lugar e e uma favela no
- 1:07:47Brasil parecer uma rata perto deles. Mas
- 1:07:51ao mesmo tempo vê esse lugar em que as
- 1:07:53pessoas se encontram para poder suportar
- 1:07:55a falta, enquanto que a gente pelo
- 1:07:57excesso se desencontra e vive numa
- 1:07:59profunda falta em que as pessoas estão
- 1:08:02muito mais preocupadas com os filhos em
- 1:08:04dar presentes do que serem presentes do
- 1:08:06que estarem lá. e gerando uma geração
- 1:08:09que talvez se tivessem a oportunidade de
- 1:08:11ir lá, eu até sugeri algumas escolas com
- 1:08:14quais que trabalham com Educa que seria
- 1:08:16interessante a gente pegar adolescência
- 1:08:19do ensino médio e levar para viagens
- 1:08:21como essa, para conhecer essa realidade,
- 1:08:23para ver as pessoas estudando, tentando
- 1:08:26fazer o melhor, construindo a identidade
- 1:08:27e que estão no limbo, ficam no campo
- 1:08:30refugiados, você nem tá naquele país,
- 1:08:32nem pode trabalhar, nem pode sair, nem
- 1:08:34pode voltar pro seu. é um iato histórico
- 1:08:38civilizatório e daí eu tenho que
- 1:08:40construir minhas identidades. E a gente
- 1:08:42fez uma pergunta, né, alguns de nós
- 1:08:44caravaneiros, que a gente chama as
- 1:08:45pessoas que vão para lá, que a gente tem
- 1:08:47que bancar a própria viagem para não
- 1:08:48custar isso pra organização.
- 1:08:51E a gente perguntou: "E se em vez de eu
- 1:08:53vir para aqui, além do que a gente já
- 1:08:54oferece de donativo, a gente desse o
- 1:08:56dinheiro da viagem?
- 1:08:58Não seria melhor para vocês?" Eles
- 1:09:01disseram assim pra gente: "Mas nós
- 1:09:03queremos ser vistos".
- 1:09:06Nós queremos ser vistos. Nós queremos
- 1:09:08que vocês falem do que acontece com a
- 1:09:10gente. Nós queremos que o mundo nos
- 1:09:11enxergue, porque todo mundo fala de
- 1:09:12guerras em lugares onde os brancos estão
- 1:09:14morrendo, na Ucrânia.
- 1:09:17Mas morre muito mais gente, somente
- 1:09:20naquela região, muito mais gente, mas
- 1:09:23não dá hipop, não dá notícia. Então, ser
- 1:09:27visto e ao mesmo tempo ver isso é uma
- 1:09:30forma de refletir sobre nossas próprias
- 1:09:32identidades. Voltar para casa de uma
- 1:09:34viagem que é muito diferente quando você
- 1:09:36vai paraa Disney e passa no outlet.
- 1:09:39É completamente oposta. É uma viagem que
- 1:09:43você volta abastecido de outras coisas
- 1:09:45com a mala cheia de memórias, de força e
- 1:09:48de superação.
- 1:09:50Às vezes é preciso que a gente encontre
- 1:09:51todas essas diferenças
- 1:09:54dos excessos às faltas. para fazer as
- 1:09:56nossas próprias escolhas e entender que
- 1:09:59nossas identidades se constróem a partir
- 1:10:01do momento em que você se coloca como
- 1:10:02instrumento pro outro de conexão, de
- 1:10:05servir, de estar próximo. E aí você vê
- 1:10:08sentido,
- 1:10:09porque de fato nesse grande hospital que
- 1:10:12é o mundo, nessa grande UTI que é o
- 1:10:15planeta, às vezes eu acho que a gente se
- 1:10:18cura quando a gente se levanta para
- 1:10:20cuidar do paciente mais grave do lado. O
- 1:10:23medicamento de nossas almas combalidas é
- 1:10:27o outro
- 1:10:29que hoje virou nosso inimigo a ser
- 1:10:31combatido, gerando uma sociedade
- 1:10:34adoecida e doente. Não à toa que a gente
- 1:10:36tem a época de maior prosperidade e
- 1:10:39excessos e a época mais depressiva, em
- 1:10:42que as pessoas mais atentam contra a
- 1:10:44própria vida, em que os adolescentes
- 1:10:45mais se cortam, em que as pessoas estão
- 1:10:48distantes. Porque sim, estamos vivendo
- 1:10:51entre monstros da nossa própria criação,
- 1:10:55com a noite inteira esperando que haja
- 1:10:57alguma solução para que esse nosso
- 1:10:59egoísmo não destrua o nosso coração.
- 1:11:04Uma pergunta que chegou pelo YouTube,
- 1:11:06Rossandro, da Jaqueline Nagão. Ela
- 1:11:09pergunta: "Quando que a simplicidade
- 1:11:11virou sinônimo de incompletude?"
- 1:11:14>> Pois é, né?
- 1:11:16A gente tá até procurando entender o
- 1:11:18conceito de minimalismo e ampliar o
- 1:11:20conceito de minimalismo, não somente
- 1:11:21para uma casa com poucas coisas, mas
- 1:11:23como uma pessoa com poucas necessidades,
- 1:11:25que é a grande libertação. Porque o o
- 1:11:28quando a gente pensa nessa sociedade do
- 1:11:30excesso, a gente começa a imaginar que a
- 1:11:33identidade, o sucesso é formado quando
- 1:11:35você consegue atingir as metas do mundo.
- 1:11:38E há um mantra que perpassa nas redes
- 1:11:41sociais, sobretudo de que as pessoas que
- 1:11:43têm uma vida digna de nota, uma
- 1:11:45identidade digna de aplauso, são as
- 1:11:48pessoas celebradas ou as celebridades,
- 1:11:51que tem muitos seguidores, que ganham
- 1:11:53bem, que tem visibilidade, como se as
- 1:11:56pessoas que tm uma vida comum ou uma
- 1:11:58vida ordinária fossem ordinárias.
- 1:12:02A grande ironia é que eu conheço pessoas
- 1:12:04celebradas que são ordinárias.
- 1:12:09E conheço pessoas que tm uma vida
- 1:12:10ordinária, que são almas que celebram a
- 1:12:13vida.
- 1:12:14Aqui vocês vão terminar o café
- 1:12:16filosófico e vão voltar para casa. A
- 1:12:18pergunta que eu faço para vocês que
- 1:12:19estão aqui, quem tá nos assistindo, ao
- 1:12:22voltar para casa, tem alguém que te ama,
- 1:12:23que te espera?
- 1:12:26Não tem. E o que é que tem de de
- 1:12:29ordinário nisso? Isso é extraordinário.
- 1:12:34Não precisa se despedir dessa pessoa no
- 1:12:36leito de morte para descobrir o quão
- 1:12:38extraordinário ela tá te esperando em
- 1:12:40casa. A vida comum ela é extraordinária.
- 1:12:44Esse canto da sereia de que só
- 1:12:46alcançando metas e performando o tempo
- 1:12:49inteiro,
- 1:12:51sabe? Daquela do tipo a acorda enquanto
- 1:12:55os outros dormem.
- 1:12:57Uma vez eu tava num voo e uma pessoa
- 1:12:59tava fazendo uns uma stories, ligou o
- 1:13:02computador,
- 1:13:04foi lá, lavou o rosto, tirou a
- 1:13:06almofadinha de pescoço, tirou a máscara
- 1:13:08de dormir e fez assim: "Tô aqui manar os
- 1:13:10Guarulhos, mas ó, trabalhando, foco,
- 1:13:14acorda enquanto os outros dormem. Mas o
- 1:13:15bando derrotado o avião, ó, dormindo."
- 1:13:19[risadas] Era 3 da manhã, só para você
- 1:13:21saber, tá?
- 1:13:22E eu do lado com ódio, porque eu não
- 1:13:24tinha filmado. Se eu soubesse essa
- 1:13:25palhaçada, eu tinha feito assim.
- 1:13:28E quando terminou uma filmagem, porque
- 1:13:30não tinha Wi-Fi na época no voo,
- 1:13:31desligou o telefone, fechou o
- 1:13:33computador, botou a almofadinha e foi
- 1:13:35dormir.
- 1:13:39Viver da aparência da performance e não
- 1:13:41da realidade. Entregar a mentira e não a
- 1:13:44verdade.
- 1:13:46Então, no fundo, no fundo essa
- 1:13:48construção, o simples, a suficiência.
- 1:13:52Sabe, já tem demais. Para que tanto?
- 1:13:56Para que o excesso? E fazer esse a
- 1:13:58pergunta: O que é que esse excesso fala
- 1:14:01sobre a minha falta?
- 1:14:04O que eu tô tentando comprar com mais
- 1:14:06uma camisa, com mais um sapato, com mais
- 1:14:08uma bolsa?
- 1:14:10Que buraco eu tô tentando tamponar com
- 1:14:12tudo isso? Quem sabe preenchendo ou já
- 1:14:16vendo que tá cheio, eu não precise mais
- 1:14:19da falta. Quem sabe eu não preciso mais
- 1:14:21nem olhar porque tão dizendo para mim
- 1:14:23que é meta desligar tudo e simplesmente
- 1:14:25se encontrar comigo e perceber toda a
- 1:14:27abundância que já jais na minha própria
- 1:14:30vida.
- 1:14:33>> Temos mais pergunta no microfone. Pode
- 1:14:35se apresentar e fazer a pergunta.
- 1:14:37>> Boa noite, Rossandro. Sou o Tarso.
- 1:14:41Minha dúvida é a seguinte. eh fazer esse
- 1:14:44filtro que a gente recebeu do passado e
- 1:14:47tentar melhorar daqui pra frente é bem
- 1:14:49desafiador, né? Acredito que a terapia
- 1:14:52tem um grande papel aqui.
- 1:14:54>> Uhum.
- 1:14:54>> Muitas pessoas são fechadas à terapia e
- 1:14:59até resistentes, né? Menusprezam a
- 1:15:01terapia e tal. Como essas pessoas podem
- 1:15:05de alguma forma conseguir, se elas já
- 1:15:07não fazem sozinhas e se fecham para a
- 1:15:10terapia?
- 1:15:12O que que pode ajudá-las a destravar de
- 1:15:15alguma forma e começar a dar pequenos
- 1:15:18passos nessa nessa caminhada de se
- 1:15:22autoconhecer, automelhorar e tal e fazer
- 1:15:25sua transformação? É, Tu, o preconceito
- 1:15:28contra eh a construção de competências
- 1:15:30emocionais
- 1:15:32eh vem do fato de que a sociedade não
- 1:15:34tem nenhum único estímulo sobre você ser
- 1:15:36melhor como pessoa. Eh, você coloca seu
- 1:15:39filho para ele passar no ITA, na
- 1:15:41medicina da USP, mas não para ser
- 1:15:43gentil.
- 1:15:44Às vezes você valoriza mais o seu filho
- 1:15:45que tira nota 10 do que o que tira sete,
- 1:15:47mas é o mais cooperativo em casa, porque
- 1:15:49a métrica da família virou nota e a
- 1:15:52gente esquece que o que salva as pessoas
- 1:15:54são as emoções.
- 1:15:56E nós temos pessoas que têm competências
- 1:15:58incríveis, mas não suportam o fim do
- 1:16:00namoro porque nunca passaram por um
- 1:16:02letramento emocional. A sociedade só
- 1:16:05estimula você pra próxima série, pra
- 1:16:07próxima compra, pra próxima viagem, pra
- 1:16:10próxima balada, pra próxima cachaça,
- 1:16:12nunca para o encontro consigo. Porque o
- 1:16:16sistema, e aí eu não tô dizendo que tem
- 1:16:18alguma pessoa, um monte de gente reunido
- 1:16:19para fazer o sistema, o sistema ele tem
- 1:16:21uma vida própria, ele é orgânico. O
- 1:16:23sistema ganha com a nossa inconsciência.
- 1:16:26As pessoas despertas são menos vítimas
- 1:16:28do sistema de que manipula você, seja
- 1:16:30político, religioso, mal visto, não a
- 1:16:32religião transcendente que liberta, né?
- 1:16:35E aí as pessoas precisam entender que o
- 1:16:37primeiro movimento para essa cura, para
- 1:16:39esse encontro, é o movimento mínimo
- 1:16:41inicial de qualquer processo de
- 1:16:43autoconsciência. Imagina que eu tivesse
- 1:16:45chegando aqui, ligasse para Felipe,
- 1:16:47Felipe, tô chegando aí na na no café
- 1:16:49filosófico, como é que eu faço para
- 1:16:51chegar? Ele ia fazer uma pergunta óbvia
- 1:16:53para mim. Você tá vindo de onde?
- 1:16:56do interior de São Paulo, tá vindo,
- 1:16:58pousou aqui em Viracopos, tá vindo de
- 1:17:01São Paulo, porque dependendo de onde eu
- 1:17:03tivesse, ele me dá um endereço
- 1:17:04diferente. Ou seja, para onde eu vou, eu
- 1:17:07preciso pelo menos saber onde eu estou.
- 1:17:09E onde eu estou é história, é
- 1:17:12genealogia, é família, é herança
- 1:17:13cultural, é tudo que me entregaram de do
- 1:17:15e de amor. Sem esse lugar inicial, eu
- 1:17:18não consigo nem saber minha direção,
- 1:17:20sabe? Eu preciso ter esse movimento
- 1:17:22inicial. E eu acho que no fundo do fundo
- 1:17:24fazer terapia é uma prova de humildade.
- 1:17:27É preciso você ter a humildade eh de
- 1:17:30reconhecer que você não tem dado conta,
- 1:17:32que a sua estratégia não tem funcionado
- 1:17:34até então. Não dizendo que somente
- 1:17:36através de um processo terapêutico você
- 1:17:38consegue. Tem pessoas que conseguem, mas
- 1:17:40elas vão fazendo um processo de
- 1:17:42autoconhecimento, de busca interna. E é
- 1:17:45angustiante, é trabalhoso por uma
- 1:17:47questão, porque quando eu vou fazer essa
- 1:17:50busca, nem sempre o que eu vejo lá é
- 1:17:53agradável, porque eu não só tenho luzes,
- 1:17:56todos nós temos sombras.
- 1:18:00>> A Adriana, ela tá aqui com a gente no
- 1:18:02público, te faz a seguinte pergunta:
- 1:18:04"Rossandro, como trazer a cura sobre
- 1:18:07coisas que ainda não temos consciência,
- 1:18:09temos apenas a consequência dessa dor em
- 1:18:12nossa vida?"
- 1:18:13É, o primeiro movimento então seria se
- 1:18:15você v consequência, você por uma
- 1:18:18analogia, pensa nas na consciência do
- 1:18:20que provocou essa consequência.
- 1:18:23Às vezes nós não queremos tomar
- 1:18:24consciência pelo medo que essa
- 1:18:26consciência pode trazer como cota de
- 1:18:28dor. Por exemplo, eu vi muitas pessoas
- 1:18:31que não perdoavam os pais porque nem
- 1:18:33sabia que odiavam,
- 1:18:35não tinham nem chegado no nível de
- 1:18:37consciência de chegar com perceber que
- 1:18:39tinha um ressentimento para poder
- 1:18:41trabalhar o ressentimento pro perdão.
- 1:18:43Então odiavam inconscientemente.
- 1:18:46Eu amo meu pai porque eu não suporto
- 1:18:48ele. Eu escutava muito isso. a gente não
- 1:18:50se dá bem, mas eu amo meu pai. Não. Ah,
- 1:18:54tá. Mas via uma mágoa ali. Havia algo.
- 1:18:56As pessoas não não é como se elas não
- 1:18:57dessem conta de, ah, porque é feio
- 1:19:00admitir esse esse sentimento em relação
- 1:19:01a essas pessoas, mas eu não posso me
- 1:19:03curar do que eu não admito. Não existe
- 1:19:06cura sem diagnóstico. Então, o primeiro
- 1:19:08movimento é diagnóstico,
- 1:19:11é descobrir causas. Não é para ficar
- 1:19:14numa arqueologia do passado, sabe?
- 1:19:16cavando ossos da dor, é entender onde
- 1:19:19ela começou para entender que esse
- 1:19:22começo não define o fim do teu roteiro,
- 1:19:25mas se você não tiver consciência, você
- 1:19:28fica reproduzindo como processo de
- 1:19:30autossabotagem emocional nas relações
- 1:19:32tudo que você passou. Portanto, tomar
- 1:19:34consciência aumenta a carga de dor
- 1:19:36inicialmente, mas depois é processo
- 1:19:39curativo, como processo inicial, porque
- 1:19:41diagnóstico não traz cura, mas indica
- 1:19:43por onde começar.
- 1:19:47pergunta no microfone aqui.
- 1:19:49>> Boa noite, Randro. Sou o Artur Hermoso
- 1:19:51de Pirastrulunga.
- 1:19:53>> Eh, gostaria de perguntar como suportar
- 1:19:55o preso de ser ordinário em tempos em
- 1:19:58que todos aparentam ser excepcionais?
- 1:20:01Artur, acho que uma das coisas que mais
- 1:20:04ajuda é você descobrir que a maior parte
- 1:20:06dos excepcionais são ordinários
- 1:20:10e que estão fingindo. Tem filtro, tem
- 1:20:12edição de texto, edição de imagem, tem
- 1:20:15pessoas filmando. Tem gente que quando
- 1:20:17faz corta revela uma crueza de alma, uma
- 1:20:20pequenez
- 1:20:22absoluta.
- 1:20:24A gente precisa ser menos pautado pelo
- 1:20:26mundo das redes sociais e pelas pessoas
- 1:20:29que fingem. Essas pessoas, elas não têm
- 1:20:31relacionamentos, elas têm network,
- 1:20:35elas não sentam com uma pessoa porque
- 1:20:36elas gostam, elas sentam porque elas se
- 1:20:38perguntam que vantagem eu vou tirar
- 1:20:40dela.
- 1:20:42E para mim isso é uma vida ordinária.
- 1:20:45Não é ordinária para mim aquela vida em
- 1:20:47que numa noite de reveon, com uma crise
- 1:20:49danada financeira na família, de repente
- 1:20:52você só tem um frango para dividir com a
- 1:20:54galera e vai ver o revião de Copacabana
- 1:20:56pela televisão sentado numa mesa de
- 1:20:58plástico, mas com quem você ama. Um dia
- 1:21:01eu tava voltando de viagem, a gente
- 1:21:02passou por uma cidade do interior de
- 1:21:04Pernambuco chamado Juripiranga, que
- 1:21:06significa em Tupi Guarani, ave que
- 1:21:07canta. Uma clássica cidade pequenininha,
- 1:21:09tipo, né, e Itabira da do poema de
- 1:21:14Drumon.
- 1:21:15Itabira hoje é só um retrato na parede,
- 1:21:17mas como dói, porque Itabira tem minha
- 1:21:19história, ou seja, é lá o minha, no meu
- 1:21:21caso Campina Grande, no seu caso, a sua
- 1:21:22cidade pela Sununga. E a gente passou
- 1:21:25naquela cidade clássica brasileira que
- 1:21:26tem mais ou menos 5000 habitantes, uma
- 1:21:28rua no meio, uma praça e uma igreja. Era
- 1:21:31um domingo de tarde, tinha um senhor com
- 1:21:32a uma senhora numa cadeirinha daquelas
- 1:21:34de aramezinho que as pessoas se
- 1:21:36balançam, sabe, no interior. Os filhos e
- 1:21:38os netos ao redor. A gente tava vindo de
- 1:21:39uma viagem de Nova York fazendo
- 1:21:41palestras e um amigo tava vindo comigo e
- 1:21:42ele olhou pensando assim: "Olha, a gente
- 1:21:44vem de Nova York, olha que ridículo esse
- 1:21:46homem sentado com essa mulher aqui nessa
- 1:21:48cadeira no domingo à tarde. Acho que
- 1:21:49nunca saiu daqui. Que vida ordinária." E
- 1:21:52eu disse: "Cara, se com essa idade eu
- 1:21:55ainda tiver de mãos dadas com minha
- 1:21:57esposa, cercada de filhos de neto, eu
- 1:21:59sou um sucesso de pessoa. Eu terei uma
- 1:22:01vida extraordinária, porque ter vindo de
- 1:22:04Nova York não nos torna extraordinários.
- 1:22:06Não é o que a gente tem no currículo,
- 1:22:08não é o currículo látis latindo,
- 1:22:11sabe? São os afetos, são as pessoas que
- 1:22:14nos cercam. É aquele olhar, sabe? É
- 1:22:17aquele café. Porque quando a gente
- 1:22:19enterra alguém que a gente ama, a gente
- 1:22:20lembra o que é extraordinário. Quando a
- 1:22:22gente enterra alguém que a gente ama, a
- 1:22:24gente não lembra se aquela pessoa nos
- 1:22:25deu um tá vermelho ou a gente foi pra
- 1:22:27Disney.
- 1:22:29A gente só lembra de uma mão na sua
- 1:22:31testa até a febre baixar.
- 1:22:34A gente só lembra de um cheiro de café
- 1:22:35da manhã dizendo que o seu dia já está
- 1:22:37pronto antes que você acorde, porque o
- 1:22:39amor se antecipou a você.
- 1:22:42A pessoa que te recebe da escola, que
- 1:22:44lava a tua farda, o que te ensina a
- 1:22:46andar de bicicleta,
- 1:22:49tudo que a gente quer no dia de um
- 1:22:50velório, de alguém que a gente ama, é
- 1:22:52uma coisa completamente ordinária. A
- 1:22:53gente só quer um mais Deus te abençoe.
- 1:22:56A gente daria todo o extraordinário ouro
- 1:22:59do mundo para escutar só mais um. Deus
- 1:23:01te abençoe. Então, quando chegar em casa
- 1:23:03hoje, olhe pro seu extraordinário e pega
- 1:23:07teu celular e deixa de seguir um monte
- 1:23:09de gente extraordinária que vi, que
- 1:23:11finge uma vida extraordinária que nunca
- 1:23:14teve nem vai ter. Certo?
- 1:23:19Ô, Sandro, eu vou aproveitar esse
- 1:23:21momento aqui da do café filosófico para
- 1:23:23fazer uma propaganda, né?
- 1:23:25>> Claro,
- 1:23:25>> porque normalmente quem frequenta já o
- 1:23:27café filosófico sabe que o café
- 1:23:28filosófico é de quinta-feira. Estamos
- 1:23:30fazendo hoje excepcionalmente com
- 1:23:32Rossandro na terça-feira, porque
- 1:23:34quinta-feira a gente vai ter café
- 1:23:35filosófico, mas não vai ser aqui, vai
- 1:23:37ser em Jundiaí. Jundiaí é minha Itabira,
- 1:23:40eu sou [risadas] eh 30, mas é 30 minutos
- 1:23:43de Campinas, então acho que fazer o
- 1:23:44convite a todo mundo aqui, quem quer,
- 1:23:46quem quiser. A partir de amanhã tem um
- 1:23:49ingresso no Simpla, dá para retirar ele
- 1:23:51de graça, vai ser bem concorrido, então
- 1:23:53fiquem atentos ali para retirar esse
- 1:23:55ingresso. E vai ser uma palestra
- 1:23:58especial do Cloves de Barros com a
- 1:24:00Luelena Galvão. Por que que eu falei
- 1:24:02isso? Porque temos uma pergunta da
- 1:24:03Luelena Galvão para você.
- 1:24:05Olá, Rossandro, eu gostaria de te
- 1:24:08encaminhar uma pergunta. No meio dessa
- 1:24:11constante mudança de papéis, desse
- 1:24:13bombardeio de informações e de
- 1:24:15influências que recebemos, o que sobra
- 1:24:18em nós, que a gente realmente poderia
- 1:24:20chamar de eu?
- 1:24:23É, pois é, mas eu preciso umas 3 horas
- 1:24:24para responder a Luela, mas a gente vai
- 1:24:26tentar aqui. O que é que sobra depois
- 1:24:31de todas as demandas sociais sobre mim,
- 1:24:34de todas as exigências? O que que você
- 1:24:36vai ser quando crescer? O que é que
- 1:24:39sobra de todas as dores? Das mágoas, dos
- 1:24:42ressentimentos, das memórias, dos dias
- 1:24:44ruins? O que que sobra depois de tanta
- 1:24:48exposição a conteúdo da internet? Cada
- 1:24:50um prometendo uma solução. Não coma
- 1:24:52glúten. Coma glúten. Beba água. Não beba
- 1:24:55tanta água. Cada um com a receita paraa
- 1:24:58vida. O que sobra de mim? No fundo, no
- 1:25:00fundo, o eu é a curadoria disso. É o eu
- 1:25:04que suporta toda essa demanda e escolhe
- 1:25:07com consciência o que cabe a mim, o que
- 1:25:09eu suporto da conta.
- 1:25:11O que sobra é aquilo que eu faço em
- 1:25:13silêncio, não é aquilo que eu vendo para
- 1:25:15fora. O eu é esse que resiste a todas
- 1:25:18essas demandas e faz escolhas e que
- 1:25:21também sabe que as escolhas vão mudar,
- 1:25:24porque seu grado de consciência muda. E
- 1:25:26muitas vezes o que você não escolhia
- 1:25:27antes, você passa a escolher agora. E o
- 1:25:30que você tava escolhendo também não faz
- 1:25:32mais sentido, que às vezes nessa
- 1:25:35trajetória a vida bifurca e quem tava do
- 1:25:37teu lado não dá mais para caminhar
- 1:25:38junto, porque você resolveu crescer e
- 1:25:41crescer gera perda de pertencimento.
- 1:25:44Quando você resolve ficar mais
- 1:25:46desenvolvido moralmente, tem pessoas que
- 1:25:48não combinam mais com você. Não é só
- 1:25:50roupa que não combina. Quando você
- 1:25:52resolve ficar mais culto, tem mesas que
- 1:25:55já não te recebem mais.
- 1:25:57Quando você resolve ficar curado, o
- 1:26:00mundo adoecido te rejeita, mas continua.
- 1:26:04Esse é o e sobretudo um eu que quando
- 1:26:07faz isso, como na pirâmide da
- 1:26:09necessidade de Maslow, que é muito que a
- 1:26:11gente descobre na fraternidade sem
- 1:26:12fronteiras, que ele falava que nós temos
- 1:26:14as necessidades fisiológicas
- 1:26:18que é alimentação, sono sexualidade,
- 1:26:20depois necessidade de segurança, tem um
- 1:26:22lugar para voltar, uma casa, depois
- 1:26:25necessidade de afeto, alguém que te
- 1:26:27espera lá amando, necessidade de status,
- 1:26:30que é o que você mostra pro mundo e suas
- 1:26:32conquistas. Aqui na quarta camada o povo
- 1:26:35fica e fica só dobrando a aposta. Agora
- 1:26:37é um carro de 1 milhão. Agora é um
- 1:26:39jatinho. Agora é um jatinho com banheiro
- 1:26:41foliado a ouro e fica aqui. Pouca gente
- 1:26:43chega ao quinto patamar que é a
- 1:26:46autorrealização. E a curiosidade é que
- 1:26:49na autorrealização se descobre que o
- 1:26:50segredo é chega lá em cima e diz: "O
- 1:26:54mais incrível é a jornada.
- 1:26:57O mais bonito é descer para ajudar todo
- 1:27:00mundo a subir essa pirâmide. Não tem
- 1:27:02graça ficar estorando champanhe só
- 1:27:04enquanto a humanidade sofre. Aí você se
- 1:27:07torna um servidor da humanidade. Sua
- 1:27:10identidade agora é uma identidade que
- 1:27:12ela tá difusa, não porque você perdeu
- 1:27:13seus contornos, mas porque ela vive a
- 1:27:16serviço do outro, no qual você encontra
- 1:27:19inclusive o sagrado.
- 1:27:24A Jaqueline Hitchen, ela ela diz assim,
- 1:27:27né, que se se amadurecermos
- 1:27:31quando tomamos a rédia de nossa vida,
- 1:27:34quando caímos de pé, somos acolhidos, o
- 1:27:38ciclo começa ou acaba, ou esperamos a
- 1:27:42estação certa para cumprir o nosso
- 1:27:44propósito?
- 1:27:46Não existe uma estação certa para
- 1:27:47cumprir o nosso propósito. Eu acho que
- 1:27:50todos nós aqui já experimentamos num dia
- 1:27:51viver as quatro estações, igual o clima
- 1:27:53de São Paulo, né? Começa com frio,
- 1:27:56termina no calor. Então começa no calor
- 1:27:57e termina no frio. Tem dia que você
- 1:27:58amanhece alegre, no final do dia você tá
- 1:28:00mal para caramba. Tem dia que você
- 1:28:02acorda mal e no final do dia tá bem. As
- 1:28:05estações estão acontecendo o tempo
- 1:28:06inteiro. Não posso esperar um momento
- 1:28:08para acontecer e florir.
- 1:28:12Se trata de ser uma pessoa capaz de
- 1:28:15suportar qualquer que seja intempério.
- 1:28:18Não se trata de querer que o mar seja
- 1:28:20calmo para poder navegar. Se trata de
- 1:28:22ter competência para navegar em qualquer
- 1:28:24condição atmosférica de clima.
- 1:28:27A vida não é fácil, é desafiadora para
- 1:28:29todos nós. Mas sobre a queda, bom, a
- 1:28:32queda exige um tipo de curadoria e
- 1:28:35também um tipo de diagnóstico. É por
- 1:28:37isso que a música tão conhecida diz
- 1:28:39assim: "Sacode, levanta a poeira e dá
- 1:28:43volta por cima". Mas antes diz:
- 1:28:45"Reconhece a queda".
- 1:28:47Se eu não reconheço a queda, se eu não
- 1:28:50reconheço a dor, se eu não reconheço os
- 1:28:52dias ruins, se eu não reconheço a sombra
- 1:28:54que há em mim, eu só projeto lá fora.
- 1:28:57Reconhecer para se levantar,
- 1:29:00perceber que caiu para se erguer,
- 1:29:02entender que aquilo não define, olhar
- 1:29:04pro passado e entender que ele não
- 1:29:06define, que doeu, mas não é a única
- 1:29:07trajetória disponível. Há outros
- 1:29:09caminhos para serem percorridos. E assim
- 1:29:12a gente vai direcionando, Jaqueline, a
- 1:29:14forma como a gente quer viver a vida.
- 1:29:17E mesmo quando a pressão lá fora é muito
- 1:29:19grande, como dizia eh grandes pensadores
- 1:29:22do comportamento humano, existe um eu
- 1:29:24aqui que consegue definir que mesmo
- 1:29:27quando você quer me escravizar como
- 1:29:28pessoa, a minha mente tá liberta. Mas
- 1:29:31quando eu não sou uma pessoa capaz de me
- 1:29:33conhecer e construir minha própria
- 1:29:34identidade,
- 1:29:36eu vou viver uma relação subalterna com
- 1:29:39o mundo.
- 1:29:41Eu vou ser uma pessoa que se desama e se
- 1:29:42desrespeita tanto que vou virar uma
- 1:29:45espécie de terreno baldio pro lixo
- 1:29:47afetivo dos outros, porque não aprendi a
- 1:29:49me amar na dignidade, ainda que seja
- 1:29:51inicialmente na própria solidão.
- 1:29:54Portanto, a construção da identidade
- 1:29:56exige a força de caráter para ser você,
- 1:29:59mesmo quando não é agradável pro mundo,
- 1:30:01mesmo quando o mundo não te aplaude,
- 1:30:03mesmo quando você perde os amigos porque
- 1:30:05você não conta mais a piada racista,
- 1:30:08é ser você.
- 1:30:11Pagar esse preço, ele é difícil, mas é
- 1:30:15mais barato do que o apagamento de você
- 1:30:19para um pertencimento pobre que nunca
- 1:30:21vai ser de respeito, nem de amor, mas
- 1:30:24sempre subalterno.
- 1:30:26Então, o eu exige a força de caráter,
- 1:30:30porque o eu é um convite à ética.
- 1:30:35O eu real é um convite à ética. Só
- 1:30:38alguém que se dissolve no grupo é
- 1:30:39convidado a ser mais um ser humano
- 1:30:43indecente no mundo e que tenha muito,
- 1:30:45terá muita companhia, né? Certamente
- 1:30:50estar aqui e usufruir um conteúdo como
- 1:30:53esse fala muito quem vocês são, né? Do
- 1:30:57clubinho das pessoas que querem um mundo
- 1:30:59melhor e querem ser esse instrumento.
- 1:31:01Como diz uma música de Nand Cordel, a
- 1:31:04paz do mundo começa em mim. Nós somos
- 1:31:06esse ser que movimenta esse processo. Em
- 1:31:08nós começa esse movimento. Não importa
- 1:31:11em que estação ou mesmo no inverno, às
- 1:31:14vezes é num dia de profunda dor que
- 1:31:15finalmente a gente acorda, porque a vida
- 1:31:17tem um caráter pedagógico incrível,
- 1:31:19sobretudo nos dias de sofrimento.
- 1:31:24A Tatiana, ela pergunta: "Como podemos
- 1:31:27atuar na atual sociedade para
- 1:31:30equilibrarmos empatia e revide para
- 1:31:33diminuir a violência na sociedade?
- 1:31:36É, tem dia que é namastê, tem dia que
- 1:31:39vocês sabem o que é, né?
- 1:31:44Não diz para não dar um pi,
- 1:31:48tem dia que a gente olha assim, faz, tem
- 1:31:50uma figurinha que eu adoro do WhatsApp.
- 1:31:52Aquelas figurinhas do WhatsApp eu
- 1:31:53coleciono elas. Dá para conversar só com
- 1:31:54aquelas figurinhas, mas tem uma que é
- 1:31:57assim, eu ia fazer um comentário, mas
- 1:31:58Jesus tocou meu coração e disse: "Filho,
- 1:32:00pare".
- 1:32:02Então, tem dia que tem gente que você
- 1:32:04faz
- 1:32:05silêncio, né? Como diz os mestres
- 1:32:08orientais, às vezes silêncio é estupidez
- 1:32:11da pergunta do discípulo, né?
- 1:32:15Mas quando a gente faz isso, a gente
- 1:32:19aprende que nós vamos aprender a agir.
- 1:32:23Maturidade é aprender a agir e
- 1:32:25maturidade é só reagir ao que o outro
- 1:32:27faz.
- 1:32:29A forma como eu ajo, a forma como eu ajo
- 1:32:33faz com que quem queira que eu reaja
- 1:32:35muda o comportamento.
- 1:32:37Quando, por exemplo, você cometeu um
- 1:32:39erro num casamento, por exemplo, e a
- 1:32:42pessoa te acusa,
- 1:32:44enquanto você não se perdoa, ela te
- 1:32:46manipula. Olha que eu falei aqui, ó. Não
- 1:32:49é enquanto ela não te perdoa,
- 1:32:52é enquanto você não se perdoa, ela te
- 1:32:54manipula. Ela nem vai te perdoar porque
- 1:32:58é conveniente não te perdoar para sempre
- 1:33:01usar o seu erro como um cheque mat em
- 1:33:03qualquer Dr.
- 1:33:06Então é preciso que você se perdoe.
- 1:33:09Quando você se perdoa, aquilo deixa de
- 1:33:12fazer sentido. A pessoa vem acusa e você
- 1:33:13faz. Você pode continuar falando isso,
- 1:33:15mas não me afeta mais, porque eu não sou
- 1:33:17essa pessoa que fiz isso. Porque se eu
- 1:33:20entrar no rio hoje, o rio não é o mesmo,
- 1:33:22nem eu sou. Eu reconheço, já pedi
- 1:33:25perdão. Se você não dá, problema seu,
- 1:33:27porque por mim já tá curado, então não
- 1:33:29me afeta mais. A pessoa te bucha de
- 1:33:32ódio, espuma e depois muda. Porque
- 1:33:35quando você faz um movimento de ação,
- 1:33:38você provoca uma mudança no outro, mas
- 1:33:40quando você reage, você reforça o viés
- 1:33:42do outro.
- 1:33:44É claro que nessa hora você tem que
- 1:33:45aprender a respirar, a tomar uma
- 1:33:47atitude. Eu lembro de coisas simples.
- 1:33:49Uma vez eu tava no num cruzamento, eu
- 1:33:52entrei de vez, eu não esperei e quando
- 1:33:56eu entrei vi um carro com a família e o
- 1:33:58cara quase que batia.
- 1:34:00Ele parou na frente e ficou esperando
- 1:34:02para me esculhambar
- 1:34:04com razão. E eu, em vez de passar direto
- 1:34:07para ele sair me perseguindo, que
- 1:34:09provavelmente aconteceria,
- 1:34:11eu parei do lado, abri meu carro, ele
- 1:34:13olhou para mim e quando ele ia gritar,
- 1:34:14eu fiz: "O senhor pode dizer o que o
- 1:34:16senhor quiser comigo que eu vou escutar
- 1:34:18porque eu mereço". Ele fez,
- 1:34:24"Preste atenção ao trânsito, com
- 1:34:26certeza." E foi embora. Ou seja, meu
- 1:34:30comportamento mudou dele.
- 1:34:33Eu, em vez de reagir, eu agi. Você v uma
- 1:34:35coisa simples como essa para coisas mais
- 1:34:37complexas. É quando você direciona.
- 1:34:41E é, né, momento que você respira. Nem
- 1:34:44todo dia, gente, acontece da gente
- 1:34:47conseguir, óbvio, nem todo dia a gente
- 1:34:50tem paciência, nem todo dia a gente tá
- 1:34:51com consciência. Mas o o ideal é que
- 1:34:55você a cada dia primórve o seu nível de
- 1:34:57consciência para ser uma pessoa que cada
- 1:34:59vez mais age e menos reage, saindo do
- 1:35:03animalesco pro humano.
- 1:35:06É o que a gente quer, né? É que nós
- 1:35:08sejamos digno do título de raça humana,
- 1:35:12porque tem algumas pessoas que ainda
- 1:35:14parece que não chegaram nesse lugar.
- 1:35:16Como dizia minha sogra, Deus tem uns
- 1:35:18inquilinos estranhos.
- 1:35:23Mais uma pergunta que veio aqui do
- 1:35:25público no papel da Adriana.
- 1:35:27Eh, ela te pergunta: "O que você tem
- 1:35:29para nos dizer sobre essa geração que
- 1:35:32está recebendo muito mais bens materiais
- 1:35:35e pouco, poucos bens culturais?
- 1:35:40>> É um sentimento de compaixão
- 1:35:45pelas pobres crianças ricas. Eu tava
- 1:35:48dando aula na universidade um tempo
- 1:35:50atrás, aí chegou uma aluna minha, filha
- 1:35:52de família rica, me convidando pro
- 1:35:54casamento com outro aluno meu na época.
- 1:35:58Ela chegou para mim, professor, não vou
- 1:35:59casar com fulano tal. Ela esperou todo
- 1:36:02mundo ir, né? A gente gosta muito do
- 1:36:05senhor, queria que o senhor fosse pro
- 1:36:06casamento. O senhor vai? Claro, vou sim,
- 1:36:09com certeza. Ela faz, mas deixa eu fazer
- 1:36:11uma pergunta pro senhor, não tem ninguém
- 1:36:13aqui. O que é que o senhor acha? Vai dar
- 1:36:14certo?
- 1:36:16É uma pergunta que eu não gosto que me
- 1:36:18façam porque eu me sinto obrigada a
- 1:36:20dizer minha opinião.
- 1:36:22E aí eu quis disfarçar. Vai ser quando?
- 1:36:24Tá, deixa eu botar aqui na minha agenda
- 1:36:25do Google. Não, mas mas fale professor,
- 1:36:27você não tá fugindo, tá? Então vamos lá.
- 1:36:29Ó, você se acha a menina mais bonita da
- 1:36:32universidade. E é, ele se acha o menino
- 1:36:35mais bonito. E é
- 1:36:38o passado dele é bem complicado, você
- 1:36:40sabe disso. Traiu todas as namoradas. Aí
- 1:36:43ela falou aquela frase clássica, mas
- 1:36:45comigo será diferente?
- 1:36:48Pois é, a minha experiência é de que não
- 1:36:50é bem assim. E outra coisa, nesse
- 1:36:52casamento de Heros e Apolo, tem duas
- 1:36:54deidades. Quem vai prestar culto?
- 1:36:59Porque eu descobri, já sou casado há
- 1:37:01algum tempo, que o casamento começa a
- 1:37:03funcionar quando você está menos
- 1:37:05disposto a esperar que a pessoa que você
- 1:37:06casou se torne feliz, está mais
- 1:37:09disponível para torná-la feliz.
- 1:37:13É quando a gente entra para servir, não
- 1:37:14para ser servido.
- 1:37:16Mas eu vou pro casamento
- 1:37:20e fui, comi muito camarão
- 1:37:24e seis meses depois, como era de se
- 1:37:26esperar, uma separação não simples com
- 1:37:29delegacia da mulher e tudo. Porque
- 1:37:31quando João mimado casa com Maria que se
- 1:37:33acha,
- 1:37:35a família começa a sentir o preço que
- 1:37:38foi acreditar que era somente o preço
- 1:37:41que definia a educação,
- 1:37:45que é o tamanho da mensalidade da escola
- 1:37:47que define a competência do teu filho.
- 1:37:50É você que define. Escola não substitui
- 1:37:53família, escola colabora. Mas para que a
- 1:37:57escola possa vir a ser o que todo mundo
- 1:37:59quer, um segundo lar, a família precisa
- 1:38:02ser a primeira escola. Essa é uma regra
- 1:38:04que não muda. Portanto, quando eu vejo
- 1:38:07as crianças que têm todas as coisas
- 1:38:10menos presença, eu sinto uma pobreza no
- 1:38:12olhar,
- 1:38:14uma distância de alguém que tá cheio de
- 1:38:17coisas, mas vazia de afetos.
- 1:38:20E os brinquedos não fazem companhia,
- 1:38:24sabe? O último telefone não te supre as
- 1:38:27carências.
- 1:38:29O acesso a todas as coisas e a todas as
- 1:38:31viagens não tiram de você a viagem de
- 1:38:35uma pessoa comum na vida comum, um
- 1:38:38trabalhador qualquer que chega em casa
- 1:38:41cansado ou a esposa e sentam com um
- 1:38:44filho numa casa simples para ler uma
- 1:38:47historinha num livro,
- 1:38:50enquanto que tem pessoas que vão com
- 1:38:51motorista em carro blindado de terno
- 1:38:54preto pra escola sem a presença dos
- 1:38:57pais.
- 1:38:58Engraçado porque a carência é tão grande
- 1:39:01que eu lembro de uma escola que
- 1:39:02demitiram o porteiro que diga passagem é
- 1:39:05a figura mais amada das escolas.
- 1:39:08Demitiram o porteiro e a escola
- 1:39:09concorrente penalizada pelo porteiro
- 1:39:11contratou o porteiro
- 1:39:13e com o porteiro 60 crianças foram de
- 1:39:16uma escola paraa outra para seguir o
- 1:39:17porteiro.
- 1:39:19Porque o porteiro tinha mais eh
- 1:39:22importância afetiva do que os pais.
- 1:39:26O porteiro sabe antes do dono da escola,
- 1:39:28da dona da escola que o casal tá
- 1:39:29separando, que a criança tá se cortando
- 1:39:31no banheiro, que ela tá indo só para
- 1:39:33casa.
- 1:39:36As pessoas precisam de afeto, de lugar,
- 1:39:38de pertencimento, de coração. É o que as
- 1:39:41pessoas precisam. Então, tenham muita
- 1:39:42compaixão das pessoas que pensam que vão
- 1:39:45suprir suas faltas com coisas, que dar
- 1:39:49pros filhos coisas é uma forma de
- 1:39:51comprar suas próprias ausências. O preço
- 1:39:54é muito alto. Por isso eu não critico
- 1:39:55alguém como a Deli, que simplesmente
- 1:39:57interrompeu a carreira para ser mãe.
- 1:40:00Claro, nem todo mundo pode ser isso. E
- 1:40:02ser mãe não é interromper a carreira.
- 1:40:03Uma pessoa comum dá para deixar o
- 1:40:05trabalho, deixar de pagar os boletos,
- 1:40:07porque não é não é sobre o tempo que
- 1:40:10você fica com seu filho, mas é a
- 1:40:11qualidade do tempo que você fica.
- 1:40:13Às vezes é meia hora, mas é intensa. Tem
- 1:40:16gente que tá o dia inteiro em casa
- 1:40:17ignorando, porque o que a gente quer só
- 1:40:20se olhado, a gente quer presença. Quando
- 1:40:22fizeram as primeiras pesquisas sobre,
- 1:40:23por exemplo, maternagem e sobre dade de
- 1:40:26mamar as crianças, se imaginava no
- 1:40:28começo que as crianças mamavam por
- 1:40:30egoísmo, que o amor vinha desse afeto,
- 1:40:33do leite que era dado. Até que
- 1:40:35descobriram que o que a o mais a criança
- 1:40:37quer naquele momento é a troca do olhar.
- 1:40:40E tem mãe que dá de mamar com telefone
- 1:40:42na mão. A criança está buscando o olhar
- 1:40:47de ser vista, de pertencer e dizer que
- 1:40:50eu te amo. Não é sobre o que você dá,
- 1:40:53seja leito, seja presente, mas sobre o
- 1:40:55que você se dá como pessoa.
- 1:41:00A Meira, ela também tá aqui com a gente,
- 1:41:01ela te faz a seguinte pergunta: Como
- 1:41:04fica a pessoa que lutou a infância paraa
- 1:41:06mãe não se matar, conseguiu eh a duras
- 1:41:10penas, tentou sempre ser otimista e
- 1:41:13agora luta pra filha não se mutilar? Ela
- 1:41:17consegue se manter mais quantos anos?
- 1:41:19Sã? É a pergunta da Me
- 1:41:21>> Vamos lá.
- 1:41:25Nós estamos diante de um caso em que
- 1:41:28você foi adultizada precocemente para
- 1:41:30salvar a própria mãe e queimou toda a
- 1:41:33sua infância e adolescência.
- 1:41:37E talvez, e obviamente não tenho dados
- 1:41:40para falar disso com mais com mais
- 1:41:42força, talvez a sua filha esteja
- 1:41:45exatamente com a mãe tão ferida que ela
- 1:41:47se fere.
- 1:41:50E o que você precisa é finalmente ser só
- 1:41:52uma mãe agora, não a salvadora de todos.
- 1:41:56Quando a gente é só o salvador de todos,
- 1:41:58um dia a gente não dá conta, até porque
- 1:42:01tem gente que não quer ser salvo.
- 1:42:04Existe um paradoxo nessa busca de salvar
- 1:42:06quem nós amamos. É que tem gente que
- 1:42:09resolve pular no mar e você joga uma
- 1:42:10corda, a pessoa não vem.
- 1:42:13Você estende o remo, a pessoa não vem.
- 1:42:15Você joga o bote, a pessoa não vem. Você
- 1:42:18finalmente estende a mão e a pessoa não
- 1:42:19pega na sua mão para subir, mas para te
- 1:42:21puxar para afundar no mar. E a pergunta
- 1:42:23é: afundar junto é uma prova de amor?
- 1:42:27Não é. Alguém tem que salvar-se para
- 1:42:30pegar o náfrago. Depois
- 1:42:32é preciso que você pare de ficar no modo
- 1:42:35cuidar sempre para cuidar-se também. Não
- 1:42:37é não cuidar da sua filha no momento de
- 1:42:39fragilidade. Porque diga despassagem,
- 1:42:41mesmo pessoas que têm filhos e que amam
- 1:42:44profundamente que acolhe, não está
- 1:42:47isento dos filhos entrarem em crises
- 1:42:49porque o espírito do tempo está
- 1:42:51adoecido.
- 1:42:54Às vezes você tem uma excelente
- 1:42:55educação, mas o seu filho tá se
- 1:42:56cortando, tá pensando em ter a própria
- 1:42:58vida por causa do ambiente. E às vezes
- 1:43:01tem que tirar da escola porque o
- 1:43:02ambiente está adoecido.
- 1:43:04Como disse Crist, um grande filósofo
- 1:43:06pensador indiano, não é saudável estar
- 1:43:09bem num mundo adoecido.
- 1:43:13O mundo tá adoecido. Então significa
- 1:43:16dizer que eu tenho que cuidar dos meus,
- 1:43:17mas eu tenho que cuidar de mim, senão eu
- 1:43:18vou virar o paciente.
- 1:43:21Tem gente que fica no modo cuidado de
- 1:43:23tal modo que cria identidade. Quando a
- 1:43:24pessoa que você tá cuidando morre, você
- 1:43:26não sabe mais o que fazer.
- 1:43:28Porque aquela pessoa que ficou cuidando
- 1:43:30da mãe, da avó, do avô, do pai, e você
- 1:43:32deixou sua própria vida. Você não pode
- 1:43:34se abandonar no processo de cuidar.
- 1:43:37Cuidar de você não é egoísmo.
- 1:43:40Tudo que sua filha precisa e tudo que
- 1:43:42seu filho precisa, tudo que as pessoas
- 1:43:43precisam, que nós amamos, é que nós
- 1:43:46sejamos o mais inteiro possível, os mais
- 1:43:48felizes possíveis. Melhor coisa que um
- 1:43:51filho precisa é de um casal feliz,
- 1:43:56é de uma mãe inteira, não destruída.
- 1:43:59Maior presente que nós podemos dar a
- 1:44:00quem tá perto da gente é que a gente
- 1:44:02também se cuide e se cure para poder ser
- 1:44:04agente de cura.
- 1:44:08Rossandro, eh, essa é a hora do programa
- 1:44:10que a gente dá uma olhada no nosso
- 1:44:12acervo. E para quem não sabe, essa
- 1:44:13segunda vez do Rossandro aqui, primeira
- 1:44:15em Campinas. Ano passado ele esteve com
- 1:44:17a gente em Ribeirão no Especial. A gente
- 1:44:19tem um trecho do Rossandro aqui ano
- 1:44:21passado pro Rossandro dialogar com ele
- 1:44:24mesmo.
- 1:44:25>> Um grande pensador da psicologia, Carl
- 1:44:27Rogers, criador de uma das forças da
- 1:44:29psicologia, ele diz que existe um
- 1:44:31paradoxo na autoaceitação, é que somente
- 1:44:34quando o indivíduo se aceita, ele muda.
- 1:44:38Porque quando você se aceita, você deixa
- 1:44:39de ser seu pior inimigo, seu pior
- 1:44:41acusador, a pessoa que mais se culpa.
- 1:44:43que toda essa energia que você utilizava
- 1:44:46para se destruir, para se menusprezar,
- 1:44:49ela fica disponível para você finalmente
- 1:44:51se transformar. E quando você se
- 1:44:54transforma, é que você finalmente deixa
- 1:44:56de sentir a culpa por um comportamento
- 1:44:57que você não quer mais ter. Mas é claro,
- 1:45:01existe uma um delay, né, uma espécie de
- 1:45:05entre o que eu quero ser e o que eu
- 1:45:06gostaria de ser. Existe uma dinâmica em
- 1:45:09que você vai meio que abandonando a
- 1:45:12velha criatura para que a nova criatura
- 1:45:15se estabeleça. Mas há um processo
- 1:45:18angustiante que Paulo coloca quando diz
- 1:45:20assim: "O bem que sei quero fazer, não
- 1:45:23faço e o mal que já sei que é mal, não
- 1:45:25quero fazer e ainda faço."
- 1:45:27Porque existe uma um diagnóstico em que
- 1:45:29eu percebo padrões de comportamento que
- 1:45:31eu tenho que abrir mão para que eu seja
- 1:45:33um novo ser, mas leva tempo para que
- 1:45:36esse novo venha e o novo sempre vem, a
- 1:45:41não ser você que ama o passado e que não
- 1:45:44vê que o novo sempre vem.
- 1:45:47>> Você sabe que essa música eu só cantava
- 1:45:49assim, mas é você que é mal passado e
- 1:45:51que não vê. Eu sempre pensei que era uma
- 1:45:53licença poética, uma pessoa que não era
- 1:45:54engomada, bem passada, mas é você que
- 1:45:57ama o passado e que não vê que o novo
- 1:46:00sempre vem quando você permite. Senão o
- 1:46:02velho fica estagiando na sua vida o
- 1:46:04tempo todo e o novo não se desdobra e as
- 1:46:06portas não se abrem
- 1:46:08e as velhas feridas encontram, aliás, os
- 1:46:11velhos medos e as velhas feridas
- 1:46:13encontram as as outras portas abertas
- 1:46:16que não se abrem por causa dos medos.
- 1:46:19Aceitasse
- 1:46:21na construção dessa identidade,
- 1:46:22aceitar-se plenamente. Chama-se
- 1:46:24aceitação radical de si. Como dizia Car
- 1:46:26Rogers, só quando eu me aceito, eu mudo.
- 1:46:29Por que eu deixo de lutar contra mim?
- 1:46:31Porque eu deixo de ser meu inimigo?
- 1:46:35Eu deixo de ser a pessoa que se
- 1:46:36menospreza. Tem gente que gasta tanta
- 1:46:38energia para administrar o caos do
- 1:46:40passado que o que resta é só para pagar
- 1:46:43boleto
- 1:46:45e viver a vida comum. Mesmo assim da
- 1:46:46vida, levar pra escola. até sonha, mas
- 1:46:49não tem força para realizar, porque todo
- 1:46:51dia acorda com um passado cobrando uma
- 1:46:52conta gigante, o caos te visitando
- 1:46:55diariamente. Portanto, deixar lar para
- 1:46:58estar aqui inteiro agora me permite
- 1:47:01fazer isso. E o paradoxo é esse, é
- 1:47:03porque, ah, mas você não sabe o que eu
- 1:47:04fiz e quem eu sou para me amar e me
- 1:47:06aceitar. Pois é, só quando você se
- 1:47:08aceita, ou seja, para ser seu pior
- 1:47:10inimigo, é que você vai ter energia para
- 1:47:13ser quem você deseja.
- 1:47:16parando de se culpar e se aceitando,
- 1:47:18você se transforma, você muda, vem
- 1:47:22força, finalmente vem energia, eu
- 1:47:25consigo de fato agir. Enquanto não, eu
- 1:47:27fico numa repetição constante de padrões
- 1:47:30e vou me tornando dor. Por isso que a
- 1:47:33música bola de meia, bola de good, fala
- 1:47:35que tem um menino, tem um moleque
- 1:47:37morando solto no meu coração e toda vez
- 1:47:40que o adulto balança, ele vem para me
- 1:47:41dar a mão, para se dar a mão, para se
- 1:47:44apoiar, não para empurrar, não para
- 1:47:46fazer você se tropeçar. Você é o seu
- 1:47:50pior inimigo ou é o seu melhor amigo?
- 1:47:53Que conselho você daria, por exemplo, a
- 1:47:55uma pessoa que chegasse para você e
- 1:47:57disse que tá num emprego terrível sendo
- 1:47:59humilhado diariamente, ou que tá num
- 1:48:01casamento tóxico vivendo gás light, ou
- 1:48:04que vive uma situação assim que tá
- 1:48:07pensando em não suportar a própria vida,
- 1:48:10você diria o quê? Aguenta é isso mesmo?
- 1:48:15Ou você diria: "Você tem que sair dessa,
- 1:48:18tem que dar um jeito? O que que eu posso
- 1:48:21fazer para te ajudar?
- 1:48:23Agora, quando é você, você é tão
- 1:48:24carinhoso assim?
- 1:48:27Você é tão acolhedor assim? Ou vai
- 1:48:28empurrando com a barriga e aceitando
- 1:48:29essa condição? Isso mostra se você tá se
- 1:48:33aceitando ou não. Porque uma coisa é
- 1:48:35certa, quando você não se aceita, você
- 1:48:38aceita tudo que o mundo te impõe para te
- 1:48:40destruir.
- 1:48:42Quando você não diz não e só diz sim,
- 1:48:45você diz muito não pro mundo, você diz
- 1:48:48muito sim pro mundo, as custas de muito
- 1:48:51não para si mesmo. Isso tem um preço
- 1:48:54profundo na identidade.
- 1:48:56É uma identidade subalterna formada a
- 1:48:58partir da satisfação de tentar comprar
- 1:49:00os outros. Porque talvez você aprendeu
- 1:49:02que só seria amada ou amado se prestasse
- 1:49:06algum tipo de serviço para alguém, nunca
- 1:49:09por ser você mesmo.
- 1:49:11Só se você fosse a filha boazinha, o
- 1:49:13filho estudante, só assim você seria
- 1:49:15amado. Você se acostumou a só entregar,
- 1:49:18nada a receber, mas a conta fica.
- 1:49:20Entrego 90, recebo 10,
- 1:49:23acho pouco, ninguém dá nada. Faço tudo
- 1:49:26por todos e ninguém faz nada por mim.
- 1:49:30Mal acostumei o mundo.
- 1:49:33Me deixo ser abusado, mas procuro ter
- 1:49:36paz, mas não pago o preço de finalmente
- 1:49:40ser eu. Porque eu tenho medo de perder
- 1:49:42esse lugar
- 1:49:44que é pobre, que é doloroso, que é
- 1:49:46sofrido, mas é um lugar. Porque eu tenho
- 1:49:49medo do deserto que separa a crise de um
- 1:49:53velho que não é mais, que suporta, que
- 1:49:55não dá conta disso para que esse novo
- 1:49:57finalmente surja. Ainda que no mundo
- 1:49:59líquido, de constante mudança. Suportar
- 1:50:02esse percurso entre a pessoa abusada que
- 1:50:05não dizia nenhum não, a finalmente a
- 1:50:07pessoa que se ama entender que no
- 1:50:09percurso muita gente vai embora. E para
- 1:50:11essas você canta, vai com Deus
- 1:50:16porque elas nunca tiveram com você
- 1:50:17porque te amam. Mas só porque usavam tua
- 1:50:19carência para te abusar quando você
- 1:50:22achava que tava comprando afeto.
- 1:50:27Rossandro, ah, são duas pessoas que
- 1:50:28estão acompanhando a gente pelo YouTube,
- 1:50:30a Juliana e o Varlei Santos, que te
- 1:50:32perguntam como lidar com quando
- 1:50:34familiares nos desacreditam e nos
- 1:50:37colocam para baixo. Isso seria uma forma
- 1:50:39de tirarem nossa autoestima e motivação
- 1:50:42para ficarmos dependentes deles?
- 1:50:45Tem frases que na nossa cabeça, né,
- 1:50:48assim, tipo, você pensa que você é quem?
- 1:50:52Eu não vejo o futuro para você. Você não
- 1:50:55vai dar para nada. Quem você pensa que
- 1:50:58você é? Isso não é dito uma vez, duas
- 1:51:01vezes, três vezes. E saber disso é
- 1:51:06também tentar não ficar com ódio dessas
- 1:51:08pessoas, porque essas pessoas talvez tão
- 1:51:11somente estão reproduzindo padrões do
- 1:51:13que receberam.
- 1:51:15dos bisavós, dos tataravós, dos avós,
- 1:51:18dos pais. Aqui volta a pergunta inicial.
- 1:51:21Eu repito isso ou eu digo: "Em mim
- 1:51:23encerra". E eu me curo?
- 1:51:27Eu escuto isso e acredito ou eu digo:
- 1:51:30"Farei ouvidos mocos?"
- 1:51:33Porque tem gente que insiste e não vê
- 1:51:35que você caminhou,
- 1:51:37que continua vivendo naquele lugar da
- 1:51:39adolescência.
- 1:51:41Você cresceu, conseguiu um monte de
- 1:51:43coisa, mas a pessoa continua, aquele seu
- 1:51:45tio chato, todo reveon, sabe? Chama
- 1:51:48naquele período que você detestava
- 1:51:49quando tinha 14 anos. Você venceu,
- 1:51:52cresceu, mas ele não quer enxergar,
- 1:51:54porque no fundo acontece uma coisa,
- 1:51:58as pessoas não suportam o teu processo
- 1:52:02porque você provou que é possível.
- 1:52:06Então, das formas de te menosprezar é
- 1:52:07dizer que você não conseguiu,
- 1:52:10que você não é bom. Se você ficar na
- 1:52:12briga tentando convencê-las, você vai
- 1:52:15perder energia de fazer. Então, não se
- 1:52:17preocupe em fazê-las parar de dizer
- 1:52:19isso. Seja você, cresça. Acho que a
- 1:52:23melhor vingança mesmo é ser feliz,
- 1:52:27é conseguir. Porque toda pessoa que
- 1:52:29tenta crescer, ela enfrenta
- 1:52:32forças contrárias a elas. E tem uma
- 1:52:35força surpreendente, tem uma força
- 1:52:36amorosa
- 1:52:38que é contra teu crescimento. Como assim
- 1:52:40uma força amorosa contra meu
- 1:52:41crescimento? É aquela pessoa que te ama
- 1:52:43diz assim: "E se der errado, não tenta?
- 1:52:47Eu já tentei, sofri muito, para que
- 1:52:50mais? Já tá bom. Ela tá fazendo isso
- 1:52:53porque ela te ama, tá querendo cuidar de
- 1:52:55você, mas tá inibindo teu crescimento.
- 1:52:57Tem a galera que odeia porque você tá
- 1:52:59fazendo movimento. Tá pensando que você
- 1:53:01é quem? Você é daqui da turma? Não vai
- 1:53:03não. E tem que entrar lá em cima onde
- 1:53:06você quer ir. Nem todo mundo que tá lá é
- 1:53:08parceiro, tá gente? Muita gente diz
- 1:53:11assim: "Não vem, não cabe mais ninguém.
- 1:53:13Fica aí no teu mundinho. A decisão é
- 1:53:16sua,
- 1:53:17escutar, ceder, temer e parar. Ou eu
- 1:53:23continuarei? Mesmo que vocês não me
- 1:53:25apoiem, mesmo que você não me entenda,
- 1:53:27mesmo que você me inveje, mesmo que você
- 1:53:29não me reconheça, eu vou continuar.
- 1:53:33É a escolha que é feita por você. Não
- 1:53:36espere que as pessoas mudem a narrativa
- 1:53:39para vir um estímulo para você agir.
- 1:53:41Continue com o sem apoio. A maior parte
- 1:53:45nem tem. É assim que a gente vence. E o
- 1:53:49convencimento nunca é um discurso. É
- 1:53:51somente a sua história, assinando a
- 1:53:53rubrica de que você conseguiu. E ainda
- 1:53:56assim vai ter gente que vai fazer 10d.
- 1:53:59Mas aí você não tá mais nem aí paraas
- 1:54:01suas pessoas. Você entende que é somente
- 1:54:04uma insatisfação com o teu processo,
- 1:54:06porque invejosos invejam resultados,
- 1:54:10nunca procuram saber o teu processo.
- 1:54:12Quem quem procura saber o teu processo
- 1:54:14são os ambiciosos que querem que você
- 1:54:17ensine como você conseguiu. E é natural
- 1:54:19porque elas querem também. Elas não têm
- 1:54:21raiva do que você conseguiu. Elas querem
- 1:54:23que você explique como foi o processo.
- 1:54:26Então não espere que todos os parentes
- 1:54:28reconheçam, que digam, que valorizem.
- 1:54:31Tem pessoas que de propósito vão
- 1:54:33continuar falando como se eu tivesse 14
- 1:54:35anos para ver se desharmoniza você.
- 1:54:38Simplesmente tem hora que a gente tem
- 1:54:40que ignorar e seguir.
- 1:54:45A Eliane Tonon, ela te pergunta, eh,
- 1:54:48para fazer enxergar o que realmente tem
- 1:54:50valor, a gente precisa voltar ou
- 1:54:53ultrapassar a dependência tecnológica?
- 1:54:57A gente precisa
- 1:54:59tecnológica. Ela falou, a tecnologia ela
- 1:55:04é instrumento, tá gente?
- 1:55:07Alguém capaz pega o chat GPT e faz muita
- 1:55:10coisa e agiliza processos e dá mais
- 1:55:15resultados e consegue fazer mais
- 1:55:17conexões e consegue conversar com a IA e
- 1:55:20consegue aprender, consegue ver nela
- 1:55:22tutora. É como se você tivesse à sua
- 1:55:24disposição todos os PhDs e Harvard para
- 1:55:26te responder qualquer pergunta a
- 1:55:27qualquer momento. Pessoas que não têm
- 1:55:30mínimo de competência, elas vão pedir
- 1:55:31para fazer tudo e não vão aprender
- 1:55:33absolutamente nada. Não se trata do
- 1:55:36instrumento, mas do uso que eu dou. Não
- 1:55:38é nem ser tecnofóbico contra a
- 1:55:40tecnologia, nem muito menos técnico
- 1:55:42apaixonados, mas entender tecnologia
- 1:55:45como instrumento. Estamos diante de um
- 1:55:47desafio histórico civilizatório, talvez
- 1:55:49a maior transformação de toda a história
- 1:55:50humana. Iá vai mudar e varrer a história
- 1:55:53humana. E é por isso que pela primeira
- 1:55:55vez na história humana, pela primeira
- 1:55:57vez na história humana, nós não sabemos
- 1:56:00dizer como será o mundo em 2 anos. É
- 1:56:03impossível.
- 1:56:05Só pra gente ter uma ideia do impacto
- 1:56:06disso, o Albert Einstein tinha um
- 1:56:08cérebro equivalente a dois seres humanos
- 1:56:10e meio.
- 1:56:12E é o que ele fez com esse cérebozinho
- 1:56:14dele, dois seres humanos e meio, né? Ele
- 1:56:18descreveu a teoria especial da
- 1:56:19relatividade para provar a tese dele sem
- 1:56:23nenhum telescópio para fotografar o
- 1:56:25universo. Ele num quadro negro provou
- 1:56:29que havia a possibilidade da luz da
- 1:56:30curva. E para isso ele teorizou a ideia
- 1:56:34de que havia pontos no universo em que a
- 1:56:35luz era traída por um buraco negro. E só
- 1:56:37depois o Robo fotografou isso. E que
- 1:56:40implicação isso tem para minha vida,
- 1:56:41Rossand? Por causa disso, a gente criou
- 1:56:43a fibra ótica que faz a luz da curva.
- 1:56:46E quando você vai fazer uma cirurgia
- 1:56:47laparoscópica, ou seja, sem te cortar só
- 1:56:50com três pontinhos, é porque Einstein
- 1:56:52fez uma prova física de que a luz dava
- 1:56:54curva e depois se concretizou no na
- 1:56:58fibra ótica que ilumina a carvidade, o
- 1:56:59teu abdômen para que um médico ou uma
- 1:57:01médica faça cirurgia. Porque Einstein
- 1:57:03calculou isso com um cérebro duas vezes
- 1:57:06e meia de um ser humano. Quanto terá um
- 1:57:08IAG geral?
- 1:57:1275 bilhões de cérebros humanos.
- 1:57:15O que ela vai fazer?
- 1:57:18Oremos.
- 1:57:22Ô Sandro, essa é a hora que vocês não
- 1:57:24querem ouvir, mas eu vou falar que o
- 1:57:25café filosófico acabou, infelizmente.
- 1:57:28>> Poxa,
- 1:57:29>> vocês devem estar pensando, ainda é
- 1:57:30cedo, já diria Renato Russo, mas a gente
- 1:57:32tem que a gente tem que entregar o café
- 1:57:34filosófico aqui. Mas eu não vou encerrar
- 1:57:36por aqui antes de te passar a palavra,
- 1:57:38caso queira fazer um encerramento,
- 1:57:40Rossandro, palavra toda sua.
- 1:57:42>> Bom, que me não tem outra palavra para
- 1:57:45encerrar esse café filosófico senão
- 1:57:47gratidão.
- 1:57:49Gratidão ao Café Filosófico que me
- 1:57:50convidou, porque isso aqui é um lugar de
- 1:57:53fato de humildade, porque aqui nós somos
- 1:57:57meros transmitores de conhecimento.
- 1:58:00Nenhum conhecimento que a gente
- 1:58:01inventou, mas aquilo que a gente leu,
- 1:58:03viveu e observou e traz aqui e traduz.
- 1:58:07agradecer a vocês que gentilmente vieram
- 1:58:09aqui me escutar, pegaram e me deram aqui
- 1:58:12uma coisa tão preciosa que é a atenção e
- 1:58:16a presença. Então, muito obrigada a
- 1:58:18todos vocês aqui presentes e online que
- 1:58:20estão me dando honrosamente a atenção e
- 1:58:22a presença de vocês. ao mesmo tempo, o
- 1:58:25desejo de que algo, uma frase, uma
- 1:58:29palavra, um conceito, uma dessas
- 1:58:31histórias toque você, mova você em busca
- 1:58:37de você,
- 1:58:39que finalmente você se conecte consigo,
- 1:58:41se encontre
- 1:58:43a grande viagem que a gente viu fazer
- 1:58:45para aqui nesse mundo é uma viagem
- 1:58:47interna em que quando a gente se
- 1:58:49descobre, a gente finalmente consegue
- 1:58:51encontrar o outro lá fora, porque isso
- 1:58:53senão vamos continuar nesse
- 1:58:54estranhamento e ódio. E o convite da
- 1:58:57humanidade é um convite para harmonia,
- 1:58:59fraternidade e o amor. Que nós possamos
- 1:59:02continuar sendo aqueles que acreditam,
- 1:59:04acreditam ainda numa utopia, talvez, né,
- 1:59:07de que a gente possa finalmente não
- 1:59:09somente cantar imagine all the people
- 1:59:11living live in peace, que as pessoas
- 1:59:14possam viver a vida com amor e paz, que
- 1:59:17nós possamos ser instrumento disso, a
- 1:59:19começar por nós esse percurso. Então,
- 1:59:22muito obrigado por vocês terem vindo.
- 1:59:25[aplausos]
- 1:59:34[aplausos]
- 1:59:43[aplausos]
- 1:59:44>> Já tô ficando constrangido. Tá bom.
- 1:59:48Ô Sandro, muitíssimo obrigado mesmo pela
- 1:59:50esse café filosófico tão especial pra
- 1:59:52gente hoje. Obrigado a vocês que vieram
- 1:59:54aqui hoje, quem acompanhou a gente
- 1:59:55também pelo YouTube. Recadinhos já falei
- 1:59:58aqui no meio do café, mas quinta-feira a
- 2:00:00gente tem café filosófico especial com a
- 2:00:03Lucelena e o Cloves em Jundiaí. E na
- 2:00:05semana que vem a gente volta com o
- 2:00:08módulo que é o módulo pensado pelo
- 2:00:10Rossandro, né? é, recebendo o Ricardo
- 2:00:12Guimarães. Então é isso, gente.
- 2:00:14Muitíssimo obrigado. Nos vemos em
- 2:00:16Jundiaí ou semana que vem aqui.
- 2:00:18Obrigadão.
- 2:00:19>> Domingo.
- 2:00:20>> O Brasil é considerador o país mais
- 2:00:22ansioso do mundo, né? [música]
- 2:00:24E e é o quinto país mais depressivo do
- 2:00:27mundo.
- 2:00:28>> O neurologista Ivar Brande fala sobre
- 2:00:32novas sinapses, saúde mental e [música]
- 2:00:35redes sociais. Nós caímos na armadilha
- 2:00:38da identidade, né, da sensação de
- 2:00:40pertencimento, né? A gente ainda
- 2:00:42acredita que o povo brasileiro é um povo
- 2:00:44alegre, festeiro, cordial, né? Mas a
- 2:00:47realidade não é bem isso. [música] Há
- 2:00:49uma identidade que nós incorporamos, mas
- 2:00:52sobre a qual nós não refletimos muito.
- 2:00:54Café Filosófico, domingo, 8 da [música]
- 2:00:57noite.
- 2:01:15>> [música]
- 2:01:35>> H
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