ESPECIAL MULHERES - PERAÍ, DEIXA EU LER MEUS POSTS #ep4 — Transcript
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- 0:07Pera aí, pera aí, deixa eu ler os meus
- 0:09posts, deixa a gente ler os nossos
- 0:11posts. Tá começando aqui mais um
- 0:12episódio. Esse episódio acho que todo
- 0:14mês de março a gente vai fazer um
- 0:16especial mulheres, afinal de contas, com
- 0:19temas muito relacionados. Mas hoje,
- 0:22especificamente, a gente vai falar das
- 0:24mulheres num aspecto que nós três
- 0:26falamos muito, que é a questão da saúde
- 0:27mental das mulheres. E existem dados
- 0:29muito tristes em relação a isso, porque
- 0:31a Organização Mundial da Saúde diz que
- 0:34eh uma em cada duas mulheres têm algum
- 0:38problema de saúde mental. É o dobro do
- 0:40que acontece entre os homens. E a gente
- 0:43sabe que isso não é apenas uma questão
- 0:44biológica, mas uma questão de construção
- 0:46social por causa dos nossos papéis, por
- 0:48causa das nossas eh dos nossos
- 0:51trabalhos, das nossas funções, de como a
- 0:53sociedade nos coloca, das nossas
- 0:55oportunidades ou falta de oportunidades,
- 0:57enfim, vamos discutir um pouquinho sobre
- 0:59isso e queria ouvir um pouco vocês eh
- 1:02sobre primeiro essas questões mais
- 1:03técnicas, né? Sabemos que depressão,
- 1:06ansiedade, burnout e tentativa de
- 1:09suicídio acometem mais as mulheres,
- 1:10certo? Que mais? Dos dados de de
- 1:15incidência mesmo de doenças mentais,
- 1:17essas são as mais prevalentes em
- 1:18mulheres. Elas estão intimamente
- 1:20associadas à rotina e à sobrecarga de
- 1:23papéis. Então, um subdado, vamos dizer
- 1:26assim, um derivado desse dado é de que
- 1:28as profissões de cuidado, elas são
- 1:30predominantemente femininas. Então,
- 1:32enfermagem, eh profissionais da área de
- 1:34educação, eh a saúde como um todo, né? E
- 1:38de alguma forma eh as profissões de
- 1:40cuidado exigem, saturam e nem sempre são
- 1:44reconhecidas, valorizadas, levam a um
- 1:47excesso de dedicação que faz com que a
- 1:50mulher passe a ser sempre a cuidadora e
- 1:52e nunca tem quem cuide dela, né? você
- 1:54contar na posição de cuidado, naquela
- 1:56profissão de cuidado que é 24 horas
- 1:58por7, não remunerado, que acontece exato
- 2:01dentro de casa o tempo inteiro, né?
- 2:03>> Com certeza.
- 2:04>> Interessante, né? Porque eu contei para
- 2:06vocês aqui, né? os bastidores que eu
- 2:08participei de um evento recente com a
- 2:09Vera e a Conelli psicanalista e ela usou
- 2:12uma expressão sobre essa história do
- 2:13cuidado que ela disse assim: "Nós
- 2:15mulheres estamos a serviço do outro,
- 2:20mas os outros não estão para nós na
- 2:23mesma proporção". Então, eu achei isso
- 2:25fantástico, porque essa é a verdade e e
- 2:28talvez essa sensação de dar mais do que
- 2:31receber, não tô dizendo que isso
- 2:32acontece com todas, eh, mas seja um uma
- 2:36condição que
- 2:39que ajuda, né, o adoecimento, não
- 2:42>> ajuda, né? Eu eu também compartilho
- 2:44dessa impressão, [suspirando]
- 2:46eh,
- 2:48e é uma é uma coisa que a gente observa
- 2:51nos estudos, o que a OMS [roncando]
- 2:53traz, a maioria dos estudos
- 2:55populacionais, eles mostram que sim, a
- 2:58depressão, ansiedade, suicídio, burnout,
- 3:01eles ocorrem mais em mulheres. Eh,
- 3:03>> mas o suicídio tem impressão que não,
- 3:04porque na verdade a tentativa sim, mas a
- 3:06concretização não. Homens concretizam
- 3:08mais pelos últimos dados.
- 3:10>> Não tenho certeza. Você sabe desse dado?
- 3:13Se
- 3:13>> eu tô confusa, eu acabei de ler, mas
- 3:15acho que é uma é uma chance maior delas
- 3:18se exporem, delas delas pensarem
- 3:22ação suicida, mas eu os últimos dados
- 3:24que eu li, eu acho que ainda homens
- 3:26concretizam mais. É,
- 3:27>> sim. A mulher ela tem mais uma questão
- 3:29de automutilação
- 3:30>> do que o homem, mas a a efetividade do
- 3:34do ato em si, ela ainda é mais por
- 3:36homem. E a gente tem observado, né,
- 3:38depois da pandemia, uma crescente de
- 3:40piora dos transtornos mentais, só que
- 3:42até pela fase que a gente passou, eh,
- 3:46né, que agora, agora não, mas desde o
- 3:48ano passado a gente tá, eh, voltando ali
- 3:52ao normal e tal, e aí pesquisas voltaram
- 3:55a acontecer nesse sentido, a gente ainda
- 3:58não tem muito número sobre o impacto do
- 4:00de tudo isso que a gente viveu na
- 4:03prática, né, de que forma essa tragédia,
- 4:06essa avalanche, que foi a COVID,
- 4:09impactou na nossa vida, eh, eh, na nossa
- 4:12saúde mental. Então, eh o que temos eh a
- 4:16gente tem ali eh observações de grupos
- 4:19de 500, 1000 pessoas e tal, onde eh eh
- 4:24se relata, não são coisas muito grandes,
- 4:27mas se observa maior uso de álcool em
- 4:31mulheres que começaram a beber na
- 4:34pandemia, né? Eh, até para acalmar um
- 4:38pouco aquela ansiedade que surgiu por
- 4:41várias questões, medo da doença,
- 4:43questões de ansiedade, eh para de
- 4:45repente não comer tudo aquilo que ela
- 4:47comia estando em casa, então ela
- 4:50resolveu começar a beber para não comer,
- 4:52para acalmar um pouco a compulsão.
- 4:54Enfim,
- 4:54>> antes só de você continuar, só é
- 4:56importante dizer, para acalmar é uma
- 4:57tentativa de acalmar, mas depois o
- 4:59álcool traz mais ansiedade, né? O álcool
- 5:01também engorda, enfim, tem uma série de
- 5:03consequências. Então, só para pontuar, é
- 5:05>> a sensação de que você tá compensando ou
- 5:07recompensando, mas é um ciclo que que se
- 5:10mantém, né? é um prazer imediato e eh
- 5:12que libera ali, né, os
- 5:14neurotransmissores ligados ao prazer. É
- 5:16como um um jogo, uma barra de chocolate,
- 5:19né, super prejudicial o álcool, mas que
- 5:22também engoda, que também como as
- 5:25pessoas que fazem cirurgia bariátrica e
- 5:27começam a beber, que a gente sabe que
- 5:28acontece muito. [suspirando]
- 5:30E então na hora ali da pandemia a gente
- 5:33tinha, né, as pessoas com mais ansiedade
- 5:36ou comiam ou bebiam. Infelizmente muitas
- 5:39mulheres começaram, desenvolveram o
- 5:41alcoolismo e desenvolveram também
- 5:44compulsões alimentares, eh, assim como
- 5:47reativaram transtornos mentais que
- 5:50estavam guardadinhos ou que estavam até
- 5:53que controlados, né? E é interessante
- 5:55isso que você tá trazendo, porque nessa,
- 5:56digamos assim, entre aspas, divisão de
- 5:58gênero da saúde mental, a compulsão
- 6:01alimentar ou os transtornos alimentares
- 6:03em geral, eles são mais frequentes nas
- 6:05mulheres. Mas a questão do álcool até
- 6:08agora era algo muito mais frequente
- 6:10entre os homens, como o jogo é mais
- 6:11frequente entre os os homens e também
- 6:14outros comportamentos arriscados,
- 6:15digamos assim, como se envolver em
- 6:17brigas, como ter acessos de raiva, como
- 6:19dirigir alcoolizado. Então isso ainda
- 6:21tava mais, digamos assim, no campo
- 6:24masculino.
- 6:24>> No campo masculino. É, eu tenho uma uma
- 6:27grande amiga que é uma das maiores
- 6:29pesquisadoras do país a respeito disso,
- 6:31a Dra. Camila Magalhães, a a Cíntia
- 6:33conhece, que ela é do Núcleo
- 6:35epidemiológico da USP, ela trabalha com
- 6:38o professor Artur Guerra e e eles eh a
- 6:42Camila já falou muito, né? E
- 6:45>> outras Camila. Ah, maravilhosa. Nossa, a
- 6:47Camila tem uns dados incríveis sobre
- 6:49saúde mental de uma forma geral e e a
- 6:53Camila sempre fala que o alcoolismo, eh,
- 6:56como ela estuda epidemiologia, ela e a e
- 6:59a tese do doutorado, pós-doutorado dela,
- 7:02eh, é essa pesquisa populacional e ela
- 7:04tem falado muito como isso tá
- 7:06preocupando o pessoal do do da de álcool
- 7:10e drogas em relação ao uso abusivo entre
- 7:14mulheres.
- 7:15Sabe o que eu fico pensando que eh isso
- 7:17também eh pode ser um fator que tá um
- 7:20pouco mais eh um na verdade um fator
- 7:23não, uma informação que tá um pouco mais
- 7:25disponível hoje. Eu acho que a pandemia
- 7:27ela lançou luz a coisas que já
- 7:29aconteciam, mas as pessoas conseguiam
- 7:31esconder ou eram menos gritantes e
- 7:33claro, sem dúvida, potencializou,
- 7:34aumentou em muito, mas eu eu sinto que
- 7:38tem coisas que nos colocam na
- 7:40predisposição para hoje ter
- 7:42comportamentos de risco ou
- 7:44compensatórios.
- 7:45de de sei lá, recompensa mais imediata
- 7:49que o próprio ser mulher, né, na na
- 7:51nossa cultura é eh já é um fator
- 7:54predisponente, porque a gente sofre
- 7:56várias violências. A violência de
- 7:58gênero, ela tá para além do fato de você
- 8:01eh ser julgada por absolutamente tudo
- 8:04tudo que você faz, como se fosse pouco,
- 8:05né? Então, se você é mãe, é porque você
- 8:07é mãe, se você não é porque não é, mas
- 8:09com que idade você teve filhos ou terá
- 8:11ou não terá? Então, por que você é
- 8:13mulher se você opta por não ser mãe ou
- 8:16não pode ser mãe? E aí tem outros
- 8:19fatores ainda, né, de qual é a roupa que
- 8:21você veste, como assim você vai se
- 8:23dedicar a uma carreira e e tem a questão
- 8:25da violência em si, psicológica,
- 8:28emocional, eh o risco da segurança
- 8:31pública ligada ao corpo da mulher e uma
- 8:34série de outras coisas que são
- 8:36predisponentes
- 8:37para uma ansiedade, um clima de
- 8:40insegurança
- 8:41e e de vulnerabilidade
- 8:44que eh precisa ser mais estudado, na
- 8:46minha opinião. a gente sabe pouco ainda
- 8:49sobre o impacto do social e dessa
- 8:53construção cultural sobre a saúde que a
- 8:56gente vive, né?
- 8:57>> Eu acho que a gente sabe cada vez mais,
- 8:59mas eu concordo com você. E você falou
- 9:01da segurança física ou da insegurança
- 9:03física. Eu queria também trazer o
- 9:05aspecto financeiro, porque eu acho que é
- 9:07muito importante a gente dizer, né,
- 9:09também recente tive a oportunidade de
- 9:11ver a Margarete Goldenberg, que é uma
- 9:13mulher que trabalha muito pela pela
- 9:15inclusão de outras mulheres nas
- 9:16corporações, dados que ela sempre mostra
- 9:19quando ela apresenta, que é uma curva,
- 9:21né, de mulheres entram mais nas
- 9:23faculdades, mulheres se formam mais do
- 9:26que os homens em geral, mulheres entram
- 9:28mais no mundo corporativo, o número de
- 9:30mulheres que entra por ano no mundo
- 9:31corporativo nas áreas de estagiária,
- 9:33treino,
- 9:34nesse começo de carreira é muito maior
- 9:36do que a dos homens. E aí quando a gente
- 9:38passa, é a chamada do do ela fala da
- 9:41escada que falta um degrau, porque
- 9:42quando a gente vai pro nível de gerência
- 9:44e de gerência ainda também mais
- 9:46mulheres, mas aí diretoria e aquele
- 9:48nível de liderança, isso se inverte, né,
- 9:51na mesma proporção. Então os homens em
- 9:53número entram menos no mercado de
- 9:55trabalho, se formam menos, entram menos
- 9:57no mercado de trabalho. Eh, só que daí
- 9:59na hora que chega ali na na nos cargos
- 10:02de alta liderança, eles invertem a
- 10:04curva. E isso tá direcionado, tá tá tá
- 10:07totalmente relacionado com a questão
- 10:09financeira de remuneração, né? mulheres
- 10:12também a gente sabe em posições
- 10:15semelhantes, ganhando salários
- 10:17absolutamente diferentes, muito menores
- 10:18do que os homens, mas ainda assim também
- 10:20mulheres que ainda não estão num número
- 10:22tão significativo nas posições de
- 10:24liderança e alta liderança nas
- 10:26corporações. Então, eh, o fato de
- 10:28algumas mulheres, outro dia tava
- 10:30mentorando uma uma moça e ela relatou
- 10:33para mim assim: "Eu me sinto culpada
- 10:36porque eu casei com um cara que tinha
- 10:38muito dinheiro e esperei, já sabia que
- 10:42meu relacionamento tava indo por água
- 10:44baixo, mas eu esperei que eu me formasse
- 10:48e que eu pudesse construir minha
- 10:50profissão e ter a minha independência
- 10:51financeira para me separar."
- 10:54E ela tava com culpa e com vergonha de
- 10:56sentir isso, mas havia sido um acordo
- 11:00entre eles, que ela não ia trabalhar
- 11:02enquanto eles estivessem eh juntos e que
- 11:06ela abria mão daquilo que ela fazia
- 11:09antes do casamento para poder estar
- 11:10junto. Então, não é que ela tinha tomado
- 11:12aquela decisão sozinha, era um acordo.
- 11:14Daí em algum momento ela falou: "Não,
- 11:15preciso rever esse acordo porque o
- 11:17negócio tá indo por água baixa". refez o
- 11:19acordo e ele eh continuava pagando as
- 11:21contas, mas ela se sentiu muito mal de
- 11:22usar o dinheiro dele para se formar. Mas
- 11:25aí me pergunto, que outra opção essa
- 11:27mulher tinha, né, nesse lugar em que
- 11:29algo foi construído entre ambos, não só
- 11:32pela mulher, né? E aí a gente pode
- 11:34discutir que talvez ela tivesse algumas
- 11:35outras opções, mas esse lugar da mulher
- 11:38que fica presa em relacionamentos porque
- 11:41não conseguiu construir independência
- 11:42financeira, ele não é um lugar de você
- 11:45como como a você, a pessoa que você é.
- 11:48Ele é um lugar social, ele é um lugar
- 11:49nosso construído socialmente, quase
- 11:52imposto, eu diria. Eu me lembro que eu
- 11:55tinha, sei lá, 18, 19, 20 anos e assim,
- 12:00casar tarde já significava depois dos
- 12:0224, 25 anos, você já tava casando tarde,
- 12:05entre aspas, naquele micronúcleo ali que
- 12:07eu participava. Eu lembro disso. Eh, eh,
- 12:10e eu tô falando de coisas de, sei lá, de
- 12:1220 anos atrás. A gente não tá falando
- 12:13de, sei lá, 50, 100 anos atrás. Hum.
- 12:16>> E eu acho que tem a questão da
- 12:17construção da identidade nesse lugar
- 12:19também, da autonomia financeira, né?
- 12:21Então, quem eu sou quando eu produzo,
- 12:23quando eu não é só levar dinheiro para
- 12:25casa e poder escolher onde gastar o seu
- 12:26dinheiro, é quem você é fora daquela
- 12:29identidade eh do lar, que também veja,
- 12:32ela é legítima, ela é genuína, né? é uma
- 12:34opção também e que deve obviamente ser
- 12:37respeitada, mas que também é colocada
- 12:40sobre julgamento. Quer dizer, quantas
- 12:42vezes a gente se vê julgando um homem
- 12:44porque ele resolveu fazer um sabático,
- 12:47não? O que que a gente faz? Uau, isso
- 12:48mesmo, ele precisa parar porque afinal o
- 12:50homem trabalhou tanto, ele tem esse
- 12:52direito. Fala que a mulher vai fazer um
- 12:53sabático, ai que legal, corajosa. Ela
- 12:55não
- 12:55>> não tem filhos, né?
- 12:56>> É, vem sempre um legal, mais legal, só
- 13:00que, né? Então eu acho que nós mulheres
- 13:03como mulheres muitas vezes temos
- 13:05dificuldade
- 13:06de sair desse lugar um pouco até
- 13:09biológico e social, sem dúvida, mas da,
- 13:12sabe, da competição e de estender a mão
- 13:14para outra mulher que tá sendo julgada e
- 13:16que tá sofrendo esse estress e que tem a
- 13:18sua saúde mental obviamente impactada.
- 13:22Claro. E a gente tem essa e esse
- 13:26eh esse lugar hoje de poder trabalhar
- 13:30com aquilo que a gente ama, com aquilo
- 13:32que a gente sabe que faz melhor, a gente
- 13:34poôde escolher, né? E quantas mulheres
- 13:38que, infelizmente
- 13:40vivem [limpando a garganta] nesse mundo,
- 13:42não só no país, que não tiveram escolha,
- 13:46que gostariam de fazer outras coisas
- 13:49profissionais ou, né? e estar morando em
- 13:52outros lugares e outras condições, mas
- 13:55que a vida não permitiu muito pela
- 13:57questão social, né,
- 13:59>> de sobrevivência, né, nem tempo de se
- 14:01perguntar nada porque tava gastando toda
- 14:03a energia que tinha para sobreviver, né,
- 14:05>> de sobrevivência. E aí o que a Cíntia
- 14:07trouxe, né? Ela falou do sabático,
- 14:10é isso assim, né? Por exemplo, eh, nós
- 14:14vamos fazer uma viagem, né, de de
- 14:16mulheres agora em abril pra Chapada, o
- 14:18grupo lá da Sou Mi. [roncando] E aí a
- 14:21maioria do grupo é de mulheres, enfim. E
- 14:23aí, nossa, mas não só as mulheres, mas
- 14:26eh mas o Ricardo tudo bem assim
- 14:29tranquilo? Sim, tranquilo, porque se ele
- 14:32for viajar para pescar, ninguém vai
- 14:33perguntar se tudo bem, tranquilo
- 14:35>> para ele,
- 14:36>> né? Eh, nossa, mas você sai para Eu ouço
- 14:39isso, é engraçado, né? E eu faço isso
- 14:41com uma certa frequência, por exemplo,
- 14:42de sair para jantar ou estar com as
- 14:44minhas amigas.
- 14:45>> Uhum.
- 14:46>> Ele ele não liga, o R não liga, mas é
- 14:48uma coisa assim total, sabe? Passa sã
- 14:51assim uma coisinha no meio da conversa.
- 14:53Nossa, ele é bacana. Seu marido, ele não
- 14:55liga, né? Que você faz isso? Não, ele
- 14:57não liga, mas ninguém pergunta se quando
- 14:58ele sai com os amigos dele eu ligo, né?
- 15:01E e é doido isso, né?
- 15:03>> Essa coisa da gente parece ainda
- 15:04pertencer a alguém, né? Assim, ao ao
- 15:07cônjuge de alguma forma, porque tem essa
- 15:09coisa, acho que é bem sexista mesmo, a
- 15:12gente parecia que
- 15:13>> posse,
- 15:14>> esse senso de posse, mas não sei nem se
- 15:15nesse caso é alguém ou
- 15:17>> a alguém e mais a função.
- 15:19>> Sim, sim.
- 15:21É mais a função, não é a função. Tipo,
- 15:22você vai abandonar sua casa, isso de
- 15:24dona de casa. É isso.
- 15:25>> Você vai abandonar sua casa por uma
- 15:27semana que você vai pra chapada. Mas mas
- 15:29e e como é que vai ficar?
- 15:31>> Mas como é que vai ser? Ué, vai ficar,
- 15:32vai ser tranquilo. Vai ser. O Ricardo
- 15:35vai dar conta do que ele tiver que dar.
- 15:37Eu vou deixar a coisa, claro,
- 15:38minimamente organizada. Tem uma moça que
- 15:39me ajuda. Obviamente que não é todo
- 15:42mundo que vai ter esse privilégio de
- 15:43poder fazer isso. Eu entendo, super
- 15:45entendo.
- 15:45>> Mas aí você tá falando da sua história.
- 15:47Cada um tem uma, essa é sua, né?
- 15:48>> Exato. Mas, mas eu mas eu gostaria que o
- 15:51fato de ser uma mulher fazendo isso não
- 15:54estivesse em pauta, entende? Que fosse
- 15:57só o fato de uma pessoa está, uma pessoa
- 15:59dessa relação está saindo, tanto faz ser
- 16:02o homem, tanto faz ser a mulher.
- 16:03>> Ah, um caminho longo pra gente chegar
- 16:05lá, né? Mas eu quero chamar o seu post
- 16:07para você ler o relato de uma mulher,
- 16:09>> de uma de uma pessoa que eu acho que
- 16:12pode trazer outras outras luzes aqui
- 16:14para essa conversa nesse lugar dessa
- 16:17sobrecarga, porque tudo isso acaba
- 16:18virando uma sobrecarga, uma camada mais
- 16:21de sofrimento,
- 16:22>> de de coisa que precisa tá o tempo todo
- 16:27sendo provado que a gente pode, que a
- 16:30gente também tá igual, que a gente faz
- 16:33por onde. Ah, mas nossa, eu já ouvi
- 16:36isso. Nossa, mas você é médica? Nossa,
- 16:39mas você é tão bonita. Você devia ser
- 16:41modelo. [risadas] Juro pr você, isso
- 16:43isso é uma coisa que me irrita
- 16:44profundamente.
- 16:46Profundamente.
- 16:46>> Você pode escrever que ela devia ser
- 16:47modelo na ela vai,
- 16:49>> cara. Não, agora pode. Agora já tô, eu
- 16:52já fiz terapia bastante sobre isso. Mas
- 16:54assim, cara, por que, entendeu? Não que
- 16:56modelo, pelo amor de Deus, gente, não é
- 16:57preconceito. Aliás, eu eu modelava
- 17:00quando eu era menina. Eu fazia umas
- 17:02coisinhas de TV, de teatro e tal, eu
- 17:04curtia muito. Mas, cara, por que alguém
- 17:07que teoricamente tá nos padrões, que tem
- 17:10uma beleza e tal, por que que essa
- 17:11pessoa não pode ser médica, entende?
- 17:13>> Porque a mulher não pode ser.
- 17:14>> Por que que a mulher não pode ser
- 17:16médica? Tem aquela piada maravilhosa,
- 17:18piada que não é uma piada, mas enfim,
- 17:19aquela historinha maravilhosa
- 17:21>> que funciona só em inglês. Mas você já
- 17:24deve ter ouvido que
- 17:27o pai tava com filho dentro do carro
- 17:31e aí o filho sofre um acidente e chega
- 17:34ao hospital
- 17:36e aí
- 17:38os pessoas dizem, o médico que tá de
- 17:40plantão lá fala assim: "Eu não posso
- 17:42atender porque é meu filho". Qual é o
- 17:44segredo da história?
- 17:48Nunca nunca tinha ouvido.
- 17:49>> Nunca tinha ouvido. Essa essa é uma
- 17:51história que que eu ouvi de uma
- 17:52americana que estudava em Harvard. E na
- 17:54verdade o segredo da história é era mãe
- 17:58>> Hum
- 17:59>> que tava no hospital. Só que quando você
- 18:01conta fala: "Como assim? Mas o pai não
- 18:03tava com ele no carro?
- 18:04>> Como é que o médico tava lá de plantão?
- 18:06Era o neurocirurgião que ia operar. É,
- 18:08quem era que a neurocirurgia
- 18:11era mãe? Funciona melhor em inglês, mas
- 18:12eu não vou contar inglês, mas
- 18:14>> eh então assim, fabuloso, isso,
- 18:16>> é tão o nosso o nosso viés é tão absurdo
- 18:19que muitas pessoas escutam essa história
- 18:21e não conseguem imaginar que quem tava
- 18:23de plantão era mãe e a mãe era
- 18:24neurocirurgiã porque não tá no
- 18:26imaginário, no inconsciente coletivo, de
- 18:28que a a médica, essa posição pode ser
- 18:30ocupada por uma mulher.
- 18:32>> Exato.
- 18:32>> Vai leia.
- 18:33>> Decontroladora a observadora.
- 18:36A identidade dessa pessoa que fez o
- 18:38relato se mantém em sigilo e a sua
- 18:40história fica como inspiração para quem
- 18:41precisa colocar mais calma nos seus
- 18:43processos. Abre aspas. Eu demorei a me
- 18:46perceber controladora. Havia sempre
- 18:49formas mais aceitáveis de enxergar meus
- 18:51comportamentos, até porque eu sabia que
- 18:54minha intenção era sempre boa. Na
- 18:56família cuidar de todos, garantir sua
- 18:58segurança, proteger. No trabalho, ser
- 19:00extremamente responsável, trabalhar por
- 19:03três, impedir todos os riscos. pensar
- 19:06sempre em tudo, antecipar todos os
- 19:08problemas, prestar atenção, viver
- 19:11cansada, esgotada, não dava mais. Na
- 19:14minha busca pela terapia sobre porque eu
- 19:17sempre tinha que dar conta de tudo
- 19:18sozinha, a explicação era quase fácil.
- 19:22Os fatos da realidade davam explicações
- 19:24plausíveis e ter que cuidar de tudo era
- 19:27quase uma estratégia de sobrevivência.
- 19:30Eu não tinha escolha. Hum, será mesmo?
- 19:33Foi então que percebi que acreditar que
- 19:35não ter escolha também é uma escolha e
- 19:38que cuidar dos outros pode ser invasivo
- 19:40e desrespeitoso na verdade e que fazer
- 19:43tudo no trabalho pode barrar o
- 19:45crescimento do time e que tudo isso
- 19:47envolviu uma falta enorme de confiança.
- 19:51De repente, de vítima batalhadora
- 19:53sobrevivente, me vi como algose em
- 19:55muitas situações. Isso foi terrível,
- 19:58porque estava totalmente desalinhado com
- 20:00minhas intenções. Foi terrível. mas
- 20:03libertador,
- 20:04porque me empurrou finalmente para
- 20:07começar a experimentar outras formas de
- 20:09lidar com as situações. Em um esforço
- 20:12consciente de experimentação, comecei a
- 20:15não interferir aqui nem ali, coisa
- 20:17difícil para uma mulher. Somos
- 20:19convidadas e convocadas a resolver tudo
- 20:22a todo momento. É automático.
- 20:25Assegurar um pouquinho mais a ansiedade
- 20:26antes de falar, a esperar, a não segurar
- 20:29minha própria tristeza e deixar ver o
- 20:31que vinha. Comecei me observando mais
- 20:34antes de me julgar ou de agir. Foi muito
- 20:37desconfortável, até desagradável, mas
- 20:39também transformador. Emoções e
- 20:42lembranças
- 20:43e memórias que estavam guardadas há
- 20:45muito tempo começaram a ter espaço para
- 20:47vir simplesmente porque já não precisava
- 20:49de mais nada com elas ou abrir espaço
- 20:53para elas e cuidar e resolvê-las. Eu não
- 20:56podia só observar. divino e comecei a
- 21:00conseguir exercitar, a fazer isso com o
- 21:03meu entorno. E se eu disser não? E se eu
- 21:05deixar ele ir por ali? E se eu falhar? E
- 21:08se eu simplesmente faltar? E se eu
- 21:11deixar eles errarem? E se eu deixar as
- 21:14crianças brigarem? E si, e si, e si. E
- 21:19de repente me vejo observando e não
- 21:21controlando? Uau! Me vejo participando e
- 21:24não interferindo. Me vejo respeitando
- 21:27espaços dos outros e, finalmente,
- 21:29ocupando o meu. Qual é o meu espaço como
- 21:31mulher? Eu me pergunto. É difícil saber.
- 21:34Sempre ocupei o que me deram. Me vejo me
- 21:37preocupando menos e sendo mais leve e
- 21:39permitindo que a vida me mostre ao invés
- 21:42de moldá-la. De repente, uma ova deu
- 21:44muito trabalho. [roncando] Eu que achava
- 21:46que não tinha escolha e que controlar
- 21:48tudo me faria ser importante
- 21:50protagonista. Hoje observe e escolho em
- 21:52qual lugar da cena quero estar e assim
- 21:54me sinto protagonista no único lugar
- 21:56possível, o da minha vida.
- 22:00Eu acho esse relato incrível porque para
- 22:02mim ele traz várias questões que são
- 22:04muito femininas, né? Então quando ela
- 22:07fala cuidar de todos, garantir a
- 22:10segurança e proteger, que normalmente
- 22:13esse é um lugar mais atrelado ao homem,
- 22:15né? garantias, mas ela assumiu e muitas
- 22:16de nós assumimos também esse garantir da
- 22:18segurança e proteger. Trabalhar por
- 22:20três,
- 22:21>> fazer tudo por todo mundo no trabalho,
- 22:23né? Viver cansada, esgotada, dar conta
- 22:26de tudo para sobreviver.
- 22:28Somos convidadas a resolver tudo a todo
- 22:31momento. Prato perfeito pro burnout, né?
- 22:33>> Perfeito. Prato cheio, né? É a pessoa
- 22:35que é a mulher maravilha, né? Hum.
- 22:38>> Ela teve um burnout depois disso.
- 22:41>> Claro. É, é, é a história da tragédia
- 22:44anunciada, né? Porque e é o que a gente
- 22:46vê muitas vezes, não é uma crítica ela,
- 22:49tá? Que deve estar nos ouvindo. Eh, eh,
- 22:52muito pelo contrário, acho muito
- 22:53corajoso ela ter escrito e ela ter
- 22:56>> entendido, feito esse processo,
- 22:58entendido o que precisava mudar e agora
- 23:00tá conseguindo fazer a o tá caminhando
- 23:03pr para outra direção, né? Não. E essa
- 23:06outra direção vinha em forma de
- 23:08questionamento, né? E se eu falhar? E se
- 23:11eu faltar?
- 23:12>> Maraviloso.
- 23:13>> E isso foi algo que eu ouvi num retiro
- 23:15que eu tava, que eu achei incrível. Uma
- 23:17mulher de mais ou menos uns 70 que tava
- 23:19participando da do retiro. E aí aquela
- 23:21roda de abertura, ah, como é que você
- 23:23chega até aqui, né? Qual sua Aí ela
- 23:25falou assim: "Eu não chego até aqui
- 23:27porque na verdade eu não tô aqui ainda".
- 23:29Não, porque é o seguinte, assim, para eu
- 23:30sair da minha casa, você não tem noção
- 23:32do que eu tive que fazer para chegar até
- 23:33aqui, porque assim, meu filho depende de
- 23:35mim, meu marido depende de mim, meus
- 23:36netos dependem de mim, não sei se não
- 23:37sei qu, aliás, eu não sei como é que
- 23:38eles vão sobreviver essa semana sem mim.
- 23:41E no final desse retiro, essa mulher
- 23:44incrível vira e fala assim: "Eu não fiz
- 23:47falta nenhuma e não fazer falta foi a
- 23:50melhor coisa que aconteceu na minha
- 23:52vida".
- 23:53Então, e aí ligando com essa história do
- 23:56quanto a vítima e o algó são dois lados
- 23:59da mesma moeda, porque esse lugar de se
- 24:02colocar, né, como insubstituível,
- 24:06né, e infalível e infaltável, digamos
- 24:10assim, né, que não pode faltar, traz um
- 24:13lugar de confortinho na
- 24:14>> É um ganho, é um ganho secundário, né,
- 24:16que a gente tem, porque isso conforta.
- 24:18Olha a sua importância, Mariana Ferrão,
- 24:22tamanho da sua importância.
- 24:24Tá muito ligado nesse lugar e egóico e
- 24:27só que ao mesmo tempo é você quer manter
- 24:30um lugar que envaidece e que engrandece
- 24:33o seu ego, mas que destrói a sua
- 24:36essência. E essa é a pergunta, né? ou e
- 24:39ao mesmo tempo te machuca e te pode
- 24:42colocar num adoecimento como um burnout
- 24:45ou você quer abrir mão disso e poder
- 24:47realmente faltar para atender a si
- 24:49mesma? Eu acho que essa é a pergunta que
- 24:51a gente tem que se fazer e que sedutor e
- 24:53ao mesmo tempo quanto isso te aprisiona,
- 24:55né? te mantém enredada nisso. E essa
- 24:58essa mulher, ela ela mudou muito a si e
- 25:02ao lugar em que ela trabalha, ela foi a
- 25:04primeira pessoa a levar para o RH uma
- 25:08proposta de políticas de promoção de
- 25:09saúde mental e a a levantar a bandeira
- 25:13de como assim não tem hora para sair,
- 25:14tem hora para entrar e não tem hora para
- 25:15sair. Sim, tem hora para sair. Sim, a
- 25:18gente precisa pensar em em arranjos que
- 25:20respeitem a dinâmica que a mulher tem e
- 25:22que o homem a hoje já tá diferente,
- 25:25então sei lá, tem existe licença
- 25:27paternidade com mais de 5 dias já em
- 25:29muitas empresas, né, sendo aplicadas,
- 25:31mas isso ainda não é uma uma realidade
- 25:34nem nem da metade, nem perto disso, né?
- 25:37Mas o fato é que ela levou algumas
- 25:39propostas, ela realmente fez o processo
- 25:42dela se estender a quem tava perto. Mas
- 25:45o mais interessante disso, eu acho que a
- 25:48gente enxergar que pra nossa geração,
- 25:51pelo menos eu vou colocar assim, do que
- 25:53eu cresci ouvindo, né? que a mulher
- 25:55tinha que trabalhar, que ela tinha que
- 25:57buscar independência. Só que a gente
- 25:58nunca parou para pensar que eh isso
- 26:02significava que ela ia deixar ou dividir
- 26:04as tarefas que eram só dela antes. Não,
- 26:06só a gente passou a acumular funções.
- 26:09>> E é muito sedutor esse lugar do
- 26:10superpoder, de você ser diferente das
- 26:13mulheres da sua da geração da sua da das
- 26:15nossas mães e avós e e ah, então a gente
- 26:18veio mudando a história dela, sem
- 26:21dúvida, né? E aí tem e bônus disso. Mas
- 26:25qual é a sua identidade? Qual é a função
- 26:28do que você tá fazendo e vivendo desse
- 26:30lugar criativo? Que eu acho que como
- 26:33mulher a gente tem esse poder assim de
- 26:35olhar e falar: "Pera, o que que eu quero
- 26:38criar? O que que eu quero viver? E e eu
- 26:39tô me desconectando do feminino". Porque
- 26:42para tem, né, esse estigma de que para
- 26:44ocupar posições de liderança, para ser
- 26:46chefe, para eu preciso ser mais
- 26:48masculina ou eu preciso renegar as
- 26:50minhas emoções, quer dizer tudo aquilo
- 26:53que a gente tem projetado, né, dentro da
- 26:57nossa cultura, que faz parte muitas
- 26:59vezes das nossas dinâmicas e que a gente
- 27:00tem que fingir que não é com a gente,
- 27:01que a gente tem que renegar, porque
- 27:03afinal como uma mulher ou uma chefe tem
- 27:06burnout.
- 27:07>> Uhum. Hum.
- 27:08>> Posso ler um texto que não é meu, um
- 27:10post que não é meu, mas é da Daniela
- 27:12Leal,
- 27:13>> eh, que é a companheira do Alexandre
- 27:15Coimbra, eh, falando sobre mulher que eu
- 27:19acho lindo muito sobre essa desconexão
- 27:21com o nosso feminino, né, e essa
- 27:23reflexão aqui, como envelhecem as nossas
- 27:26rebeldias, especialmente sobre as
- 27:28mulheres. Perceba uma ideia central da
- 27:30cultura de domesticação dos corpos e
- 27:33mentes, de que o amadurecimento da
- 27:35rebeldia é a conformidade, a adaptação e
- 27:38o cabimento, que tudo que é disruptivo
- 27:41eventualmente se cansa, se dobra, se
- 27:43encaixa e se acalma. O curso de uma
- 27:46expectativa estereotípica.
- 27:49Conectadas aos dias biográficas das mais
- 27:52corajosas dentre nós, respiram no alívio
- 27:54de que existam caminhos e escolhas que
- 27:56aprofundam as formas não convencionais
- 27:58de se habitar a vida, do corpo ao palco
- 28:02social e do público às profundezas de
- 28:05si. Do mais simples ao mais complexo, do
- 28:08questionamento daquilo que aperta ideias
- 28:10e comportamentos do lado de fora, a
- 28:12desconstrução de muros que nos contém
- 28:14por dentro. Esse me parece o percurso de
- 28:16envelhecimento da rebeldia profunda que
- 28:18se prepara em fogo lento, ganha poder na
- 28:21dança com o tempo e não se cansa de
- 28:24desconstruir mais sobre seus limites e
- 28:26renovar sentidos quanto mais respostas
- 28:29prontas descarta ao longo de uma vida.
- 28:32Poder envelhecer como feiticeira, como
- 28:35nos contava Ritali, é recobrar acesso ao
- 28:38que nos estava interdito, tomar nas mãos
- 28:40nossa força uterina de criar mundos
- 28:43nesse mundo, mergulhando até se misturar
- 28:46a sua essência. Eu me nutro dessas
- 28:49trajetórias autorais que se ofereceram
- 28:51como patrimônio
- 28:53para sobreviver as fogueiras que ainda
- 28:55minam nossas potências e as amarras que
- 28:58ainda temos que romper. Com tantas
- 29:01dionisíacas,
- 29:03relembramos que o fogo é a nossa própria
- 29:06matéria e dele podemos renascer
- 29:08libertas. Eu reverencio e agradeço
- 29:12sempre a aquelas que queimaram mapas e
- 29:14cordas e abriram caminhos de poder ser
- 29:17no facão, sopradas pela bússola de suas
- 29:20perguntas indomáveis e de desejos em
- 29:23busca de continente pro seu tamanho.
- 29:25Herdeiras de rebeldia que nos pariu até
- 29:29aqui. Sigamos filhas e netas da natureza
- 29:32dessa coragem que não morre e nem se
- 29:35rende ao encolhimento.
- 29:38Maravilhoso de si.
- 29:40>> Me lembrei desse post que eu vi no Dia
- 29:43das Mulheres, eh, quando você falou
- 29:45disso tudo assim, e para mim ele traz um
- 29:48lugar assim, ele é ele é denso, né?
- 29:50>> Uau.
- 29:51>> Ele é denso, mas ele traz esse lugar
- 29:53também que eu acho que a gente não falou
- 29:55ainda aqui desse aspecto da saúde
- 29:57mental, que é o envelhecimento
- 29:59>> e da natureza
- 30:00>> da natureza biológica aí, né? Trazendo
- 30:03pra mesa a menopausa.
- 30:04>> Total, total.
- 30:07a nossa pauta, porque estou passando por
- 30:08esse processo
- 30:09>> e o quanto isso também pode impactar a
- 30:10nossa saúde mental, né, do ponto de
- 30:12vista aí sim físico, químico, né,
- 30:14biológico e da imagem, né, que se
- 30:16projeta que a gente tem que ter, né,
- 30:19então a desde a branquitude dos cabelos,
- 30:21né, então a as cabeças grisalhas até que
- 30:25tipo de experiência é permitido que as
- 30:26mulheres tenham eh depois dos 50. Outro
- 30:29dia eu tava entrevistando a Ingrid
- 30:30Guimarães num evento, né, e ela virou
- 30:32produtora de conteúdo e e ela tava
- 30:35contando, né, de grandes streamings, né,
- 30:38e ela tava contando que ela foi propor
- 30:39uma série eh para pra empresa que ela
- 30:42trabalha. E aí ela queria e ela ia atuar
- 30:45também na série. Não sei se nessa série
- 30:47exatamente ela ia atuar, mas ela falou
- 30:49assim: "Não, e aí eu queria que uma
- 30:50mulher de 50 mais tivesse uma cena de
- 30:53sexo, mas não sexo sexo pro sexo, mas um
- 30:55sexo com amor e tal, não sei o que, sei
- 30:57lá". E as pessoas que estavam na mesa,
- 30:58todas mais jovens, falaram: "Não, vamos,
- 31:00já que, já que a gente precisa encurtar,
- 31:02vamos tirar essa cena de sexo da". Ela
- 31:04falou: "Não, a gente pode tirar qualquer
- 31:05coisa, mas a cena, por que mulher de
- 31:07mais de 50 não pode ter prazer, não pode
- 31:10ser sexualmente ativa, não pode tá
- 31:13>> atraente,
- 31:14>> não pode ser atraente e não pode estar
- 31:16eh expondo isso num conta pra gente
- 31:19quantas cenas de mulheres mais velhas a
- 31:21gente viu?" A gente não vê, né?
- 31:23>> A gente não viu na TV quando a gente era
- 31:25criança, não tinha, né? existe, né? É
- 31:27verdade.
- 31:28>> Tem poucas ainda. [roncando] E como é
- 31:29que a gente reconstrói, como é que a
- 31:31gente reconstrói, né, essa essa imagem?
- 31:34Porque são essas imagens sociais que vão
- 31:36ajudando, eu acho, as pessoas a a
- 31:39entenderem que sim, existe, que a mulher
- 31:41ela tem essa opção, essa fase da
- 31:44menopausa, né, do envelhecimento, vamos
- 31:46dizer do envelhecimento, né? Eh, eu eu
- 31:50vou vou falar por mim e pelas minhas
- 31:51amigas médicas que a gente troca muito
- 31:54confidências e todo mundo passando ali
- 31:56mais ou menos pela mesma fase. É
- 31:59[roncando] uma fase que mexe muito assim
- 32:01com nossa parte emocional, sabe?
- 32:04Sei não. É, e aí por mais que e aí o que
- 32:08eu quero trazer aqui é que mesmo estando
- 32:11nesse lugar de privilégio, de acesso à
- 32:13informação, somos médicas, eh sabemos
- 32:17que biologicamente tá acontecendo uma
- 32:19coisa, queda de estrógeno e tudo mais,
- 32:22temos acesso à reposição hormonal, se
- 32:24for o caso, e tiri boró.
- 32:27Eh, a maioria faz terapia, a maioria
- 32:31tenha já um tem já um processo de auto
- 32:34eh eh de autoconhecimento e tal. Ainda
- 32:37assim,
- 32:38eh algumas mudanças físicas e e
- 32:44oscilações de humor que o climatério
- 32:46traz
- 32:48enlouquecedoras,
- 32:50>> não? E agora já a ciência já consegue
- 32:52ver isso no cérebro, né? através de
- 32:54ressonância funcional, o impacto da
- 32:56redução hormonal e da da própria TPM e
- 32:59da menopausa em diminuição de área
- 33:01cerebral. Eu fiquei eu fiquei esquecida,
- 33:05>> meninas, eu fiquei esquecida
- 33:08>> sem contrar palavras. Eu tenho uma
- 33:10facilidade relativa aí de me comunicar.
- 33:13Eu fiquei, eu fiquei com dificuldade de
- 33:16encontrar palavras que me tava me
- 33:18atrapalhando no meu dia a dia, no meu
- 33:20atendimento e tava me atrapalhando até
- 33:23na gravação do podcast. Os os episódios
- 33:25que eu gravei com vocês. Muitas vezes eu
- 33:28ficava tentando achar as palavras que eu
- 33:30queria usar e e muitas vezes que eu tava
- 33:32quietinha é [roncando] porque eu não
- 33:34tava conseguindo achar, acessar o que eu
- 33:36queria falar.
- 33:37E eu vinha percebendo isso, mas eu tava
- 33:40achando, né, antes das férias eu achava
- 33:42que pudesse ser estress, né? Aí eu
- 33:46depois do retiro que eu dei uma
- 33:47desacelerada, eu falei: "Put, não é, não
- 33:49pode ser só estresse, porque eu continuo
- 33:51esquecida e [suspirando]
- 33:54eh agora não tô mais estressada". Aí
- 33:56tirei férias e nas férias eu continuava
- 33:59assim de trocar palavras. Eu fui motivo
- 34:01de chacota na minha casa e até que eu vi
- 34:04um vídeo de uma amiga minha que é minha
- 34:05ginecologista falando do nevoeiro mental
- 34:08da menopausa, que é quedógeno pura. E aí
- 34:12eu falei: "Pronto, é isso que eu tenho".
- 34:14E aí já liguei para ela na hora e tal,
- 34:16marquei e aconteceu, né? Eh, eh, depois
- 34:19de muitos meses de emoação,
- 34:23acabou que fiquei menstruada e aí deu
- 34:26uma aliviada tal, hormonal e agora tô
- 34:29repondo. Gente, eu não tenho mais essa
- 34:32dificuldade. É, é louco, é maluco a
- 34:34coisa.
- 34:35>> Então, eu quero retomar dois dois
- 34:37aspectos disso. Um que você falou da sua
- 34:39médica, eu me lembro da primeira
- 34:40consulta que eu fiz para falar sobre
- 34:42isso com a minha Gneco. E ela falou
- 34:44assim: "Sabe qual é o lance?
- 34:47o lance mulher não interessa pra
- 34:48indústria farmacêutica.
- 34:50E ela falou e assim, aí eu olhei pra
- 34:52cara dela, mas nós somos mais da metade
- 34:55da população do mundo. Eh, e ela falou
- 34:58assim, sabe por que não interessa? Não é
- 34:59que não interessa que as mulheres não
- 35:00comprem medicação, porque a gente sabe
- 35:02que muitas mulheres, né, a o potencial
- 35:05do mercado feminino, ele é para tudo,
- 35:07né, ainda mais paraa indústria
- 35:08farmacêutica. Mas o que acontece é nós
- 35:10ciclamos por ciclar, isso palavras dela,
- 35:13tá? Por ciclar, nós
- 35:17temos muita diferença ao longo de um mês
- 35:21no nosso próprio corpo. Como é que a
- 35:23gente faz estudo sobre isso? Se um
- 35:25estudo bem feito já é super caro com um
- 35:30grupo, né, controlado de indivíduos,
- 35:33>> imagina com mulheres sobre essa questão
- 35:35da variação hormonal, como é que você
- 35:38estuda isso? Então, eu acho que isso é
- 35:39um caminho que tá melhorando cada vez
- 35:41mais e muito graças a mulheres que
- 35:44realmente começaram a colocar a voz para
- 35:46fora para falar eh sobre essas questões,
- 35:49né, da menopausa, do quanto elas são eh
- 35:51absolutamente ainda tabu, né? E uma
- 35:54delas, que eu sou mega fã, é a Opra, né?
- 35:57E a Opra foi uma das pessoas que achou
- 35:59que tava com problema no coração e na
- 36:00verdade era menopausa, né? E ela começou
- 36:02a chamar pessoas para falar sobre isso,
- 36:04começou a investigar sobre isso e a
- 36:05gente segue muito, né, a questão
- 36:07americana, né, do desse e as pessoas que
- 36:10falam de lá, essas grandes vozes, né, no
- 36:12sentido da gente acaba copiando. Então,
- 36:13esse movimento tá vindo pro Brasil, acho
- 36:15que já tem vários perfícios específicos
- 36:17falando sobre menopausa. Então, acho que
- 36:19esse é um aspecto de que por pela
- 36:22dificuldade de medir, entre aspas, aí
- 36:24uma mulher, porque a mulher tem
- 36:26variações muito grandes ao longo de um
- 36:28mês, é mais difícil estudar uma droga
- 36:30boa pras mulheres. E aí a gente também
- 36:33sabe, a gente não tá falando, né, eh eh
- 36:36disso aqui, mas porque a gente também
- 36:37sabe a dificuldade real de fazer um
- 36:40estudo bem feito, inclusive financeira,
- 36:43porque um estudo bem feito desse tipo,
- 36:44ele é muito caro, né?
- 36:47Mas por outro lado tem um outro aspecto
- 36:50que é o fato de que esse ciclo que pode
- 36:54ser tão lindo se a gente tiver em
- 36:55harmonia com a nossa natureza, com a
- 36:57nossa essência e conectado com isso,
- 37:00quando ele acontece nesse mundo que a
- 37:04gente vive hoje, rápido, veloz, que
- 37:07exige cada vez mais performance da gente
- 37:10num sentido masculino da palavra, porque
- 37:12acho que a performance e a potência
- 37:14estão muito ligadas ao masculino ainda.
- 37:16A gente quer ignorar esse ciclo, esses
- 37:19ciclos todos,
- 37:21>> a gente quer negar, a gente quer passar
- 37:22por cima, porque afinal de contas o
- 37:23mercado, e eu acho que isso tem a ver
- 37:24com o seu post, né? O mercado tá
- 37:26cobrando da gente a potência e a
- 37:27performance. Então eu acho que isso
- 37:30também precisa ser colocado nesse bolo
- 37:32aí do que a gente tá falando sobre a
- 37:33saúde mental. E é um momento, né, quando
- 37:37eh essa fase do climatério, é um momento
- 37:40em que a mulher tem uma queda de
- 37:42energia, tem uma queda de rendimento,
- 37:44porque algumas não podem fazer reposição
- 37:46hormonal e além da questão cognitiva,
- 37:49como eu disse, que a gente fica
- 37:51realmente esquecida. Eu experimentei
- 37:52isso na pele e tive umas questões de
- 37:55calor, de sono e tal, mas o que mais
- 37:57pegou para mim foi oscilação de humor e
- 38:00esquecimento. E
- 38:01>> mas o sono também é atrelado ao sono
- 38:03também atrelado ao esquecimento, né?
- 38:04Porque a gente sabe o quanto o sono é
- 38:06importante para pra memória, né?
- 38:07>> Total, total. E aí eu posso trazer um um
- 38:10você quer falar alguma coisa assim?
- 38:11>> Eu queria só acrescentar que uma coisa
- 38:13que eu acho que a mulher experimenta
- 38:15para além de tudo isso é a vergonha. E a
- 38:17gente experimenta a vergonha dos ciclos
- 38:18biológicos desde a menarca, né? até a
- 38:22menopausa. Então, se você menstrua,
- 38:25ainda fala baixo, ainda é motivo de
- 38:28brincadeiras, jocosas, enfim, coisas,
- 38:30comentários desnecessários, de muito
- 38:33tabu, ainda existe muito isso. Depois,
- 38:36eh, ao longo da vida, os processos
- 38:39biológicos ainda são vistos, eh, assim,
- 38:42com julgamento, com cobrança. Acho que a
- 38:44gente acaba tendo dificuldade de lidar
- 38:47com o próprio corpo, que não deveria,
- 38:49né, ter um padrão préestabelecido para
- 38:51todo mundo, porque qual é o Nenhum corpo
- 38:54é exatamente igual ao outro, mas aquele
- 38:55padrão que sempre te deixa com vergonha
- 38:58de si, do seu corpo, daquilo que você tá
- 39:00vivendo. E aí quando você chega na na
- 39:02menopauseia, na velice, sendo mulher, eh
- 39:07se você comparar o padrão eh de hábitos
- 39:10de saúde, de autocuidado, de até
- 39:13aparência mesmo, né? O cuidado com a
- 39:15própria aparência, comparando homens e
- 39:17mulheres, não lugar de competição, pelo
- 39:19amor de Deus, porque eu acho que a gente
- 39:21tem que tirar essa coisa de que é mulher
- 39:22contra homem, né? Eu acho que a gente
- 39:24tem que entender que a gente vive num
- 39:25lugar, numa sociedade que é mista e
- 39:28ponto, né? Isso é bom. Vamos lidar com o
- 39:30que cada um tem para trazer. Mas a gente
- 39:32acaba ficando num lugar que é isso. A
- 39:35gente não tem assistência, não tem
- 39:36medicação, não tem eh a qualidade de
- 39:39vida que a gente poderia ter. E isso
- 39:42tudo traz vergonha. Essa vergonha faz
- 39:44com que a gente eh se feche e aumente aí
- 39:48a probabilidade de ter negação e com
- 39:50isso não se cuidar, né? E desculpa,
- 39:53Mari,
- 39:53>> não, eu só acho que a gente tem que
- 39:54voltar no tema da vergonha depois, não
- 39:56nesse episódio, mas eu acho que ele é um
- 39:58tema bem importante pra gente voltar.
- 40:00>> Eu gosto muito desse tema, sim, porque a
- 40:03coisa da menopausa, de falar disso é um
- 40:05baita de um tabu, né? E e
- 40:09eu ia falar alguma coisa que agora eu me
- 40:11perdi. Vamos colocar o post, então.
- 40:13>> Vamos. É para [risadas] provar o seu
- 40:14ponto, né?
- 40:15>> Pronto, pronto, pronto. Para comprovar
- 40:16que eu tô em recuperação, mas ainda não
- 40:18totalmente. [risadas]
- 40:20Então o post é assim, né? a beira do
- 40:22burnout, que é o que eu postei no Dia da
- 40:24Mulher, a beira do burnout, mulheres se
- 40:26sentem mais sobrecarregadas com excesso
- 40:29de trabalho, né? É uma pesquisa que
- 40:31apontou eh que as mulheres entre 35 e 44
- 40:36anos, elas
- 40:39são mais suscetíveis e a apresentarem
- 40:41sintomas relacionados ao burnout. É um
- 40:44um print de uma notícia que saiu na
- 40:47revista Exame. É praticamente impossível
- 40:50não conhecer uma mulher que já esteve no
- 40:51seu limite ou tenha sofrido um apagão. O
- 40:54estresse no trabalho é apenas uma das
- 40:56muitas faces dessa realidade. São muitos
- 40:59obstáculos enfrentados, como falta de
- 41:01apoio, tripla jornada, disparidade
- 41:02salarial, casos cada vez mais frequentes
- 41:05de de assédio, violência e
- 41:06discriminação. [roncando] Acho
- 41:08importante que exista uma data como a de
- 41:10hoje, que celebra a nossa importância,
- 41:12nossa força e nosso trabalho. Mas o
- 41:14motivo de hoje ser o Dia Internacional
- 41:16da Mulher é que milhares de mulheres
- 41:19protestaram por melhores condições de
- 41:20trabalho um dia. A questão agora é:
- 41:23quando vamos ter a pauta da saúde mental
- 41:25presente no mercado de trabalho de forma
- 41:27realmente efetiva? Quando vamos pensar
- 41:30em maneiras de garantir que todos
- 41:31aqueles obstáculos sejam destruídos? Não
- 41:34é fácil. Não é algo que será construído
- 41:36de hoje para amanhã.
- 41:38Mas eu sei que já podemos contar com
- 41:40vocês que me acompanham aqui, né, na no
- 41:42meu Instagram, eh, para ajudar outras
- 41:44pessoas a cuidarem da própria saúde
- 41:47mental. Muito obrigada a todos e todas
- 41:49vocês, em especial para nós, mulheres,
- 41:51meus parabéns. Quero pegar uma frase do
- 41:54que você falou, que é assim, quando
- 41:56teremos a questão da saúde mental no
- 41:58mercado de trabalho tratada de maneira
- 42:00mais efetiva? E eu quero trocar essa
- 42:04palavra por quando teremos a questão de
- 42:07saúde mental no mercado de trabalho de
- 42:09maneira mais afetiva?
- 42:12Porque para mim o efetivo e o afetivo
- 42:16estão absolutamente conectados e não o
- 42:19afetivo nesse lugar, talvez que a gente
- 42:21possa
- 42:23>> carinhoso, não é isso, mas é no que nos
- 42:25afeta de verdade, porque as as
- 42:27corporações precisam entender que a
- 42:29saúde mental é uma questão
- 42:32>> de saúde pública e que está afetando não
- 42:36só o seu resultado, porque já está
- 42:38impactando no resultado, não apenas
- 42:39pelos processos que você vai sofrer,
- 42:41você dono de empresa de pessoas que
- 42:44estão afastadas por burnout que depois
- 42:45podem processar você. Não por isso, mas
- 42:47porque uma pessoa com burnout dentro de
- 42:49uma equipe afeta a equipe inteira.
- 42:52>> Com certeza. Isso significa menos lucro
- 42:54para você que só visa lucro. [risadas]
- 42:56>> Para você que só Mas se você está entre
- 42:58nós e você não visa só lucro e e sabe
- 43:02que como gestor e como dono de uma
- 43:04corporação, o sua maior responsabilidade
- 43:06é com as pessoas, né? Acima de tudo, as
- 43:09pessoas, porque é muito bonito colocar
- 43:11que as pessoas são um grande valor de
- 43:12empresa lá na dual lista de pilares, né?
- 43:14Mas a gente sabe que na prática isso não
- 43:16funciona assim, que as pessoas elas são
- 43:21muitas vezes meras peças da engrenagem
- 43:24que que as corporações usam para fazer
- 43:27dinheiro
- 43:28>> e de todos os cargos,
- 43:30todas as categorias profissionais de
- 43:32líderes, começando talvez até por chamar
- 43:36as pessoas profissionais, as pessoas
- 43:38colaboradoras de recursos humanos,
- 43:40porque recurso é uma coisa, é difícil
- 43:42você falar de um recurso inesgotável,
- 43:44né, assim, recursos naturais, se não bem
- 43:46cuidados, também serão esgotados. Então,
- 43:48como é que a gente trata a humanidade?
- 43:51Quer dizer, a pessoa que tá ali
- 43:52oferecendo a própria vida, sua força de
- 43:54trabalho, né? É claro que ela tem a
- 43:55recompensa, o acordo que foi feita, foi
- 43:57feito para listar ali a final, mas eh
- 44:00essa ideia de que o o ser humano é um
- 44:02recurso a ser explorado, né, como a
- 44:05gente faz, aliás, com muitos dos
- 44:07recursos naturais que existem, sem ser
- 44:09cuidado, sem ser respeitado, sem a
- 44:11relação de troca que faz que faça
- 44:15sentido. E aí quando você falou da da do
- 44:16afeto, eu fiquei pensando, gente, até a
- 44:18memória para ser efetiva, ela tem que
- 44:20ser afetiva. Não existe memória que não
- 44:23tenha passado pelo afeto. Se não tem
- 44:25afeto, você não tem registro
- 44:27>> da da experiência.
- 44:28>> E é importante a gente ressaltar o afeto
- 44:30não no lugar do carinho, mas o afeto
- 44:31nesse lugar daquilo que nos afeta, né?
- 44:33>> Exato. Isso. Do impacto.
- 44:34>> Do impacto. Então eu acho que como é que
- 44:36a gente faz, porque aí é uma pergunta
- 44:38mesmo, assim, como é que a gente faz
- 44:39para que as pessoas que estão eh com o
- 44:41poder de decisão nas mãos
- 44:44saibam e percebam que elas estão sendo
- 44:47afetadas por isso
- 44:48>> através de dados? Assim, hoje não sei.
- 44:51>> Eu eu não vejo eh porque a gente tá
- 44:53falando de um público que eh é muito
- 44:57pragmático. É um público que vai pedir
- 45:00para que você ao ao querer implementar
- 45:04uma política de saúde mental dentro de
- 45:06uma empresa, ela vai querer saber de que
- 45:08forma isso vai impactar positivamente
- 45:11o resultado final, né? Porque eles
- 45:13trabalham com produtividade e tal. E eu
- 45:16acho que nada melhor do que trazer
- 45:18dados. Então, olha, de 25 a 35% das
- 45:22mulheres da sua empresa tem sintomas de
- 45:25burnout. Ainda não estão todas que
- 45:27porque isso é dado, ainda não estão
- 45:29todas afastadas, mas se a gente não
- 45:31cuidar, elas vão se afastar. Quanto isso
- 45:34vai impactar para você que vai ter que
- 45:35treinar novos colaboradores, que vai ter
- 45:38que treinar, contratar, eh, substituir e
- 45:43tá tatá. E processo trabalhista que tá
- 45:46hoje em dia chovendo, chovendo o
- 45:48processo trabalhista de burnout, porque
- 45:50foi considerado um acidente de trabalho
- 45:52pelo Ministério da Saúde. Ou seja, então
- 45:55assim, vamos falar, infelizmente no
- 45:58corporativo falando de números também,
- 46:01né? Sim, quando você [risadas] afasta a
- 46:03pessoa e acha que você afastou o
- 46:05problema, você tá dizendo que aquela
- 46:06pessoa é despreparada, que aquela pessoa
- 46:09não tem capacidade, que aquela pessoa tá
- 46:11doente e que ela tá adoecendo o
- 46:13ambiente. Quando, na verdade, não
- 46:15adianta você continuar gastando mais
- 46:17para contratar mais, treinar mais, se a
- 46:19causa e muitos do das causas
- 46:22relacionadas ao burnout, elas são
- 46:24principalmente prioritariamente causadas
- 46:27pelos relacionamentos, pela qualidade do
- 46:29vínculo, pelo ambiente,
- 46:30>> pela falta de recurso, de autonomia,
- 46:32>> ex por coisas que são, meu Deus,
- 46:35modificáveis,
- 46:36nem sempre a gente vai encontrar
- 46:38problemas que a gente tem de fato uma
- 46:40grande influência sobre as causas, né,
- 46:42da daquele problema. Nesse caso a gente
- 46:45tem
- 46:46>> Uhum.
- 46:46>> Sim.
- 46:47>> E a gente não acessa, não adianta
- 46:48demitir, não adianta afastar e
- 46:50contratar. Se a causa for a estrutura, a
- 46:53falta de estratégia, a maneira como é
- 46:55entendido o cuidado, aquilo vai se
- 46:58perpetuar como cultura.
- 46:59>> E a gente tem cada vez mais, né, se eu
- 47:01tenho estudado muito esse tema, a gente
- 47:04tem cada vez mais o assédio
- 47:05organizacional, né? Eh, então a gente já
- 47:08sabe quais são as instituições ou os
- 47:11ramos onde o risco é maior.
- 47:14>> O risco é maior. Então tem determinadas
- 47:17empresas que eu não vou citar que
- 47:19paciente chega e fala que ah, eu
- 47:20trabalho nessa empresa, dessa
- 47:21multinacional gigante. Falou
- 47:22>> acendeu seu sinal laranja já.
- 47:25>> Eu quase que acendo um cigarro aqui. Fal
- 47:27[risadas] lá vem.
- 47:29Porque pronto. Não, não, não, não tô,
- 47:31não tô fumando. Já fumei um dia lá
- 47:32atrás, mas agora não fumo.
- 47:34>> Eh, e, e então assim, sabe, quase que
- 47:37você fala, pronto, já sabia, né? É, é,
- 47:40é, é complexo. Então, assim, são
- 47:43estruturas que precisam ser modificadas
- 47:46e a gente precisa realmente debater
- 47:49muito a respeito de todas essas causas
- 47:52aí do esgotamento. E eu só queria
- 47:54reforçar antes da gente acabar, porque
- 47:56nossa produtora já tá aqui olhando pra
- 47:58gente com óleos de tandera. Lembra dos
- 48:00óleos de tandera? Não é dessa época, né,
- 48:02Ta? É da época do Ama. entregou a idade.
- 48:05Mauri, Mauri. Hã, gostei. Olha o de
- 48:08Tandera vermelhinho assim, ele sai
- 48:11>> visão além da alcance.
- 48:12>> Eh,
- 48:14só para reforçar, tá, pessoal, que a
- 48:15gente tem uma questão aí de terminologia
- 48:18que é importante a gente falar que
- 48:19burnout a gente reserva pro esgotamento
- 48:22mental relacionado ao trabalho, né? O
- 48:24burnout se tornou uma doença
- 48:26ocupacional.
- 48:27Eh, então, para que a gente não eh eh
- 48:31use de maneira inapropriada,
- 48:33eh para que o tema não seja, tem até um
- 48:36nome agora que tá me fugindo, olha de
- 48:37novo a menopausa aqui. É, mas a gente
- 48:41precisa usar, por exemplo, no caso de o
- 48:44esgotamento materno, a gente não fala em
- 48:46burnout materno ou em burnout parental,
- 48:49a gente fala em esgotamento materno,
- 48:52esgotamento, exaustão parental, exaustão
- 48:54do estudante que tá prestando um
- 48:56vestibular e tudo mais, tá? Então é só
- 48:59pra gente deixar claro.
- 49:00>> Eu acho que só pra gente poder fechar,
- 49:03porque é uma conversa densa essa, né?
- 49:04né? Uma conversa triste por muitos
- 49:06aspectos, porque a gente de verdade,
- 49:08assim, eu sinto que a gente já evoluiu
- 49:10muito até pela coragem de vir eh, e
- 49:14dizer coisas que estão incomodando e e
- 49:17abrir, né, a menopausa, a depressão, a
- 49:20ansiedade, o burnout, a vulnerabilidade,
- 49:23vulnerabilidade. Mas há estruturas
- 49:26realmente que precisam ser modificadas,
- 49:28mas muito naquele lugar também do que eu
- 49:32acredito que é a autorresponsabilidade,
- 49:36é também puxar um pouco para você o que
- 49:39que tá dentro de você, né, e que você
- 49:42consegue de verdade fazer. Porque às
- 49:44vezes também só olhar pra estrutura e
- 49:46pra organização e colocar a culpa fora,
- 49:49a gente volta lá naquele texto entre o
- 49:51vilão e a vítima, que são duas faces
- 49:53muito parecidas da mesma moeda. Então,
- 49:56sim, tô esgotada. Primeiro reconhece que
- 49:58tá esgotada, depois, ah, meu chefe me
- 50:01manda e-mail às 11 horas da noite. Tá,
- 50:03mas você responde, você responde. Se
- 50:06você responde, tá errado. Ah, mas eu não
- 50:08respondo. Você demitida. Será?
- 50:10>> Testa, testa, né? E eu acho que tem
- 50:13todos os argumentos plausíveis do mundo
- 50:16e do universo desse de todos os outros
- 50:18que podem existir para você não
- 50:20responder um e-mail, um WhatsApp às 11
- 50:21horas da noite, né? A não ser que seja
- 50:23algo, né, muito fora da curva. Então, há
- 50:27pequenos gestos de autocuidado que
- 50:29passam pelo autoconhecimento. Você
- 50:30precisa saber quais são os seus os
- 50:31limites para conseguir colocar isso do
- 50:33lado de fora também. Então, só para não
- 50:36deixar tudo para fora.
- 50:38Eu
- 50:38>> eu fico com vontade de fazer dois
- 50:39convites, né? um para as pessoas eh
- 50:42acompanharem o outro podcast que a Mari
- 50:44tem com o Rodrigo, que é o porque você
- 50:46faz o que você faz.
- 50:47>> Verdade.
- 50:47>> Conversas sinceram me interessam, se
- 50:50interessa vocês,
- 50:52>> vão lá conferir esses papos. sabe que
- 50:54ele recomendou o nosso marketing
- 50:56[risadas]
- 51:00é marketing cruzado. Marketing cruzado.
- 51:02É, não foi nem combinado. É verdade.
- 51:04Porque eu eu tenho escutado e eu tenho
- 51:07percebido esse lugar assim de de dar
- 51:09pras pessoas novas opções, repertórios.
- 51:12E eu acho que falta um pouco, sabe,
- 51:14dessa oxigenação, porque a pessoa que tá
- 51:15ali no ambiente viciado, ela tem
- 51:17dificuldade às vezes de saber até pensar
- 51:20sobre isso. Ela se ela nem se permite se
- 51:22questionar porque não tem esperança de
- 51:24mudança, só se adequa e é válido, é um
- 51:27recurso. Mas começar por talvez escutar
- 51:30o que outras pessoas falam e fazem ou
- 51:33contam que poderia ser feito, é um
- 51:35caminho. A segunda e provocação e
- 51:38convite é para vocês ouvirem uma música
- 51:39da Mariana No lasco
- 51:42para Todas as mulheres. Se a gente puder
- 51:43colocar aqui para encerrar.
- 51:46Eh, claro, se você segundo pra gente não
- 51:47ter que pagar o ECAD. [risadas]
- 51:50>> E a gente se vê então
- 51:52>> semana que vem.
- 51:55Nossa [canto]
- 51:55[música] voz,
- 51:57mas se esqueceram de que não [canto]
- 52:00estamos sós.
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