CAFÉ FILOSÓFICO | 05/07/26 | A terra também sonha: perspectivas indígenas e encantamento do mundo — Transcript
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- 0:26A terra me conta seus sonhos quando me
- 0:28acordo e recordo. que o Rio também está
- 0:31em nós. Esse poema é da nossa convidada
- 0:34de hoje, super especial, que fecha o
- 0:37último episódio da nossa série sobre
- 0:38reencantamento.
- 0:41Ela é escritora, psicóloga, pensadora
- 0:44guarani e hoje traz pra gente toda a
- 0:46beleza e sabedoria das cosmovisões
- 0:48indígenas, nos ajudando a sonhar e a
- 0:51reflorestar o pensamento, pelo menos por
- 0:53essa noite. Seja muito bem-vinda, Geni
- 0:56Niz.
- 1:05querida,
- 1:06obrigada pela sua presença.
- 1:09Eh, você lançou um livro Felizes por
- 1:12enquanto, escrito sobre outros mundos
- 1:14possíveis e você tem uma frase que é
- 1:17muito bonita que fala: "Antes emocionada
- 1:20que anestesiada vivo". De onde você acha
- 1:23que vem essa anestesia, Gen? Uma alegria
- 1:26estar aqui hoje, Tainá. Agradeço muito.
- 1:29E para mim essa frase, ela vem muito na
- 1:32direção de reconhecer que o cimento, que
- 1:35também está presente nas ruas, nas
- 1:38avenidas, também é um cimento que nos
- 1:40chega no nosso pensamento, na nossa
- 1:43sexualidade, na maneira como a gente se
- 1:45conecta com o outro. Então, para mim, a
- 1:48poesia, a arte e filosofia são maneiras
- 1:51da gente criar alguma rachadura nesse
- 1:53cimento.
- 1:55>> Perfeito. Bom, o primeiro bloco do café
- 1:58é todo seu. Eu vou te assistir ali da
- 2:00plateia e depois volto pra gente
- 2:02conversar.
- 2:03>> Obrigada, amada. Meu nome não indígena
- 2:06Jane Núes, meu nome é Guarani de
- 2:08Aucaretê.
- 2:09E o que eu quero compartilhar com vocês
- 2:11hoje vem da minha pesquisa, do meu
- 2:14ativismo, vem da minha luta e vem dos
- 2:17meus sonhos. Eu queria falar aqui hoje
- 2:21da invenção do humano e da invenção da
- 2:24humanidade. Essas duas noções na língua,
- 2:26né, do povo guaranê, a gente não tem uma
- 2:29palavra específica pra ideia do humano,
- 2:33mas a gente tem palavras que aludem a
- 2:35ideia de pessoa, de gente, que não é a
- 2:39mesma coisa que humano necessariamente.
- 2:42E durante a minha pesquisa, o meu
- 2:43ativismo, o meu trabalho, eu fui
- 2:46entendendo que humano, especialmente
- 2:49nesse material que eu estudo, né, que
- 2:51são as cartas jesuíticas, humano era
- 2:55aquele que não era animal, humano era
- 2:59aquele que era civilizado, aquele que
- 3:02não era selvagem. Então, humano, eu fui
- 3:05entendendo, não era simplesmente uma
- 3:08descrição biológica neutra. humano era
- 3:12parte de um projeto político colonial e
- 3:15racista de separação, de desigualdade
- 3:18entre um grupo, né, que nosso querido
- 3:22Aton Crenque chama de um clube VIP da
- 3:25humanidade que entra muito pouca gente.
- 3:28E esse clube VIP, ele estabelece quem
- 3:31conta ou não como gente, como vida, como
- 3:33pessoa.
- 3:35Dentro do meu trabalho, eu tenho buscado
- 3:37também fazer uma espécie de
- 3:40contraleitura
- 3:42e com e contra essas referências que nós
- 3:45entendemos que são muito importantes,
- 3:48mas que elas também tm seu limite.
- 3:50Então, nós temos essa dimensão
- 3:52intercultural como algo que é muito
- 3:55elementar nos nossos povos. Então, nós
- 3:58trocamos sementes, nós trocamos os
- 4:00cantos, os cuidados, os encontros.
- 4:04Então, quando eu entro na universidade
- 4:06eu busco também fazer esse diálogo
- 4:09possível e impossível com algumas dessas
- 4:10teorias. E um dos autores que eu estudo,
- 4:14que é o Platão, que é uma grande
- 4:16referência, né, dentro do pensamento
- 4:18hegemônico eh da filosofia, o Platão,
- 4:21ele fazia essa separação entre aquilo
- 4:24que seria o mundo ideal e o mundo real.
- 4:28E a partir dessa divisão se criou uma
- 4:31noção de que nesse mundo das ideias,
- 4:34nesse mundo idealizado,
- 4:36uma série de valores seriam defendidos.
- 4:39E um desses valores, trazendo agora pro
- 4:42contemporâneo, é o valor do humano.
- 4:45Então a gente vê o quanto que no
- 4:47cotidiano é muito comum que quando
- 4:50alguém quer ofender outra pessoa compare
- 4:52essa pessoa com algum bicho. O Frant
- 4:55Fanon, né, que foi um revolucionário
- 4:57martinicano, psiquiatra, psicanalista,
- 5:00ele dizia que o colonialismo tem um
- 5:03vocabulário zoológico que é justamente
- 5:06para marcar onde começa e onde termina o
- 5:09humano e excluindo uma série de povos
- 5:12desse clube, né? E hoje a minha minha
- 5:16partilha aqui com vocês também é no
- 5:18sentido de repensar o quanto que esse
- 5:21idealismo da defesa desses sistemas,
- 5:24eles muitas vezes é um empecílio pro
- 5:26sonho, mas também é um empecílio para
- 5:29que a gente reconheça as violências e
- 5:31que faça isso que eu também mais tarde
- 5:33vou comentar com vocês, que eu chamo de
- 5:35reflorestamento de imaginário, né? Então
- 5:38esse reflorestamento do imaginário
- 5:40envolve a gente fazer também uma
- 5:43revisão, uma análise crítica daquilo que
- 5:46nos foi apresentado como o bem, como o
- 5:49amor, a democracia, a civilização, o
- 5:53progresso, o desenvolvimento.
- 5:55Eu até trago aqui uma fala de uma
- 5:57liderança do nosso povo, a de Guarani,
- 6:00que ela diz, né, que por muito tempo
- 6:03falaram para nós, povos indígenas, que
- 6:06nós precisamos evoluir, que nós
- 6:08precisamos progredir. E aí ela faz o
- 6:11invés dessa pergunta, que é devolver a
- 6:13questão e dizer o seguinte: se boa parte
- 6:16das violências, das guerras, dos
- 6:19massacres, dos extermínios no mundo hoje
- 6:22tem acontecido
- 6:24com protagonismo dos ditos civilizados,
- 6:27talvez seja o momento da gente virar
- 6:29essa pergunta e convidar os civilizados
- 6:31a se tornarem selvagens. Talvez seja um
- 6:34movimento importante justamente de uma
- 6:37certa suspeita e de uma certa
- 6:38desconfiança em torno desse vocabulário
- 6:42que associa aquilo que é da ordem da
- 6:44violência, do massacre, do exterínio,
- 6:47como bem, como amor, como humano. Nós,
- 6:50povos indígenas, não somos uma utopia
- 6:54abstrata e genérica de um futuro que não
- 6:56se vê. Nós já existimos aqui e agora já
- 7:00existem outros jeitos de viver e de
- 7:02estar no mundo, né? Recentemente estive,
- 7:05né, com os nossos parentes e eu fiquei
- 7:07lembrando do dia que eu recebi o meu
- 7:10nome Guarani e eu recebi, a gente chama
- 7:13de Amongaraí, né, que é o nosso ritual
- 7:16de recebimento do nome guarani. E eu
- 7:20recebi o meu nome do Tiamoi, né, que a
- 7:23gente diz nosso avô, essa liderança
- 7:25espiritual. Eu recebi o meu nome
- 7:29cantando e dançando. E para mim a dança
- 7:32e o canto tem tudo a ver com o
- 7:34encantamento do mundo. Porque receber o
- 7:38meu nome dançando e cantando foi também
- 7:40um lembrete para eu não esquecer de que
- 7:43o mundo, esse mundo que dizem ser
- 7:46universal, ele não é nosso inimigo
- 7:49também, né? Então, a nossa liderança
- 7:52Juqueretiu, ela comenta o seguinte: "Nós
- 7:55guarani não acreditamos que o mundo, os
- 7:58muitos mundos são nossos inimigos e a
- 8:01gente diz isso porque nós não reduzimos
- 8:03o mundo ao humano." Então, quando dizem
- 8:06assim: "O mundo é muito cruel comigo, o
- 8:08mundo é muito terrível", a gente
- 8:11responde: "As borboletas também, o pôr
- 8:14do sol também, a chuva também. Como é
- 8:17que a gente faz? Como é que a gente
- 8:18chega a esse ponto de reduzir a
- 8:21experiência da vida e do mundo a um
- 8:24grupo tão pequeno quanto aquele a aquele
- 8:27do Clube VIP que eu comentava agora a
- 8:29pouco, né? Então, dentro do nosso povo,
- 8:33a gente tem o costume de chamar outros
- 8:36seres que nos acompanham de parentes,
- 8:39seres do rio, da floresta, da montanha,
- 8:43por entender que esse parentesco ele vai
- 8:45muito além novamente desse reducionismo
- 8:50que essa lógica do humano traz, né? Para
- 8:53mim, o sonho como essa experiência, não
- 8:56só da imaginação, do desejo, mas o sonho
- 9:00ele também muitas vezes é aquilo que
- 9:02irrompe essa expectativa de que tudo
- 9:05seria em linha reta, tudo seria muito
- 9:07bem linear. No sonho, muitas vezes a
- 9:10gente não tem um começo e meio e fim,
- 9:12não há uma nitidez tão exata e não há
- 9:15uma sequencialidade que o pensamento
- 9:17cartesiano supõe, né? Então o sonho para
- 9:20mim muitas vezes é aquele desvio, aquela
- 9:23brecha que mesmo a pessoa que se
- 9:26acredita a mais civilizada, a mais
- 9:28humana e a mais evoluída, ainda tem um
- 9:32um pouquinho de sonho que eventualmente
- 9:34aparece no seu caminho, né? Por outro
- 9:37lado, a gente sabe que essa monocultura
- 9:40do pensamento, da fé, da sexualidade,
- 9:43ela também aparece no sonho. Nosso
- 9:46parente, liderança
- 9:48Davi e a Nomami já pontuava e pontua
- 9:51isso, né, de que a mercadoria, a lógica
- 9:54do objeto, a lógica do esvaziamento dos
- 9:57vínculos também invade o sonho. E eu
- 10:00tenho chamado de reflorestamento do
- 10:02imaginário esse processo da gente
- 10:05entender que se nós também somos parte
- 10:08da terra e a terra quando machucada
- 10:10também pode ser reflorestada, então o
- 10:13nosso sonho também pode ser
- 10:14reflorestado. Ainda é possível que isso
- 10:18seja feito, né? Então, esse processo do
- 10:21reflorestamento de imaginário, eu tive
- 10:23esse insight sobre essa noção em um
- 10:26momento que nós estávamos fazendo um
- 10:28mutirão na aldeia e eu fui percebendo
- 10:31que conforme a terra era cuidada, nossos
- 10:34parentes riam mais, as crianças
- 10:36brincavam mais, os mais velhos também
- 10:38brincavam mais. Eu fui entendendo que
- 10:41não tem uma cura individual possível
- 10:43desse humano se a gente não reconhece
- 10:45essa rede indissociável de conexões que
- 10:49nos torna possível, né? Então eu lembro
- 10:52disso também porque na nossa língua a
- 10:56gente tem mais de um tipo de nós. E para
- 10:59mim esse é um dos efeitos da invenção do
- 11:01humano. O humano muitas vezes ele cria o
- 11:04eu e o outro como algo muito distante,
- 11:07quase como que houvesse de um lado
- 11:10humano e do outro lado a natureza, o
- 11:12humano de um lado e no restante os
- 11:14demais seres. E para mim repensar essa
- 11:18invenção do humano, esse com H
- 11:20maiúsculo, é uma maneira da gente
- 11:22contestar a própria ideia de eu. O eu,
- 11:26como essa invenção que supostamente
- 11:28daria conta de tudo e de si mesmo. Esse
- 11:30eu é uma invenção, porque dentro do
- 11:33nosso povo a gente reconhece que nós
- 11:36somos uma multidão. Então, cada ser tem
- 11:39milhões, milhares de outros seres que o
- 11:42compõem. E essa interrelação nos faz
- 11:44lembrar que mesmo no âmbito da política,
- 11:48no no âmbito da ética, quando a gente vê
- 11:51nas guerras essa oposição que coloca
- 11:54aqui somos nós e lá bem longe são eles.
- 11:57Para nós repensar a ideia do humano e do
- 12:00eu independente é uma maneira da gente
- 12:03aproximar esse abismo que foi criado e
- 12:05lembrar que às vezes esse eles, esse
- 12:07outro também é nós, também nos compõe.
- 12:11Sem eles a gente não caminha. né? Falei
- 12:13agora a pouco do Platão e ele tem como
- 12:16critério, né, que ele traz no trabalho
- 12:19dele
- 12:21a proposta de que o mundo ideal seria um
- 12:24mundo eterno,
- 12:26estável e sempre fixo, ao passo em que a
- 12:30vida seria aquilo do mundo imperfeito,
- 12:33que é movimento, que é caminhada, que
- 12:37não é eterna. Então, a partir do momento
- 12:40que nos nossos povos a gente não
- 12:42desqualifica algo por não ser fixo, por
- 12:46não ser eterno e por não ser imutável, é
- 12:49possível criar uma outra relação com a
- 12:51vida e dignificar aquilo que muda,
- 12:53aquilo que se transforma, a passagem do
- 12:55tempo. Eu até trago uma outra referência
- 12:59nossa que é a dona Lulu Cunhai Botu
- 13:02Caioá, que é uma liderança do povo
- 13:05Caioá. E conversando com ela, né, em
- 13:08muitos momentos, ela me traz justamente
- 13:11essa concepção de que uma folha, por
- 13:14exemplo, que um dia foi verde e agora é
- 13:16marrom, ela não é menos bonita. Por
- 13:19isso, a beleza não tá posta na
- 13:21juventude, mas tá na própria vida. Então
- 13:24a gente diz que essa frase que alguns
- 13:27comentam, né? Ah, a beleza passa, a
- 13:30beleza é passageira, né? A gente diz que
- 13:33a beleza de um bebê é diferente da
- 13:36beleza de um mais velho, mas a beleza
- 13:38continua conosco. Então é também honrar
- 13:42a possibilidade de que as nossas
- 13:43mudanças, o nosso movimento não é algo
- 13:47do qual a gente deve lastimar. Eu tenho
- 13:50feito um movimento no meu trabalho, que
- 13:52é reconhecer que a denúncia da violência
- 13:55que nossos povos vivem e até hoje
- 13:58vivenciamos em muitos territórios, né,
- 14:01pela limitação do acesso à água, pela
- 14:04invasão do agronegócio, pela invasão de
- 14:07uma série de monoculturas, isso é muito
- 14:09real e concreto. Só que algo também que
- 14:12as nossas lideranças lembram é que nós
- 14:15não somos resumidos à violência. Nós
- 14:17ainda estamos aqui inclusive para
- 14:20celebrar nosso sonho, nosso sorriso, né?
- 14:23Então eu lembro sempre de uma fala do
- 14:25Cacique Babal Tupinambá que ele diz: "O
- 14:29que mata nossos adversários é o
- 14:31sorriso". Até o Foucault tem um texto,
- 14:34né, conhecido sobre isso, de que o
- 14:36ativista, o militante não precisa fazer
- 14:38sua luta através da tristeza
- 14:40necessariamente, porque é também pelo
- 14:43nosso encontro, pelo riso, pela dança
- 14:45que a gente continua vivo, né? Pensar
- 14:48uma luta
- 14:50onde caibam muitos mundos, como diziam
- 14:52os parentes apatistas, é uma luta em que
- 14:55a gente não fica apenas no não e no
- 14:57contra, que são muito importantes, mas é
- 14:59também uma luta onde a gente pode ter
- 15:01espaço para afirmar o que a gente
- 15:03gostaria que fosse expandido, aquilo que
- 15:06a gente gostaria que fosse eh afirmado
- 15:08no mundo, o nosso sim, né? Então esse
- 15:11movimento para mim tem muito a ver com o
- 15:14reconhecimento de que
- 15:17as leis que foram criadas contra nós, os
- 15:20marcos temporais todos que já existiram
- 15:22até nós, eles não dão conta, não deram
- 15:25até hoje de fazer com que a gente
- 15:27desapareça. Enquanto existia um
- 15:29ecossistema de línguas indígenas, por
- 15:32exemplo, os outros ecossistemas também
- 15:34existirão, porque um ecossistema é irmão
- 15:37do outro. Então a gente diz que assim
- 15:40como uma monocultura fortalece a outra,
- 15:43também um ecossistema de diversidades
- 15:46fortalece outro. Na minha pesquisa,
- 15:48nesse material das cartas jesuíticas e
- 15:50outros documentos,
- 15:52os missionários falavam assim: "Os
- 15:54guarani vão aprender a ler e a escrever
- 15:57apenas para repetir e copiar aquilo que
- 16:00a gente disser para eles." Então eles
- 16:02não cogitavam que nós pudéssemos ter
- 16:05também uma autoria e uma invenção. E
- 16:08diziam, depois de perceber que os nossos
- 16:11parentes usavam a palavra de outra
- 16:13maneira, diziam que esses eram os
- 16:16infiéis. Esses eram os traidores. E é a
- 16:20partir desse orgulho de fazer parte
- 16:22dessa linhagem de traidores. Enfim, é
- 16:24isso que eu chego aqui também.
- 16:26Eh, eu também queria partilhar com vocês
- 16:30um um poema que eu escrevi também,
- 16:35especialmente aqui pro nosso encontro,
- 16:38por um mundo mais humano, dizem. A cada
- 16:41floresta destruída por humanos comentam
- 16:45que o mundo precisa de mais humanidade.
- 16:49A cada humano que violenta outros seres
- 16:52dizem que agiu como animal.
- 16:55A cada guerra que humanos começam,
- 16:57lamentam que ali faltou humanidade.
- 17:01Em sua elevada autoestima,
- 17:04o humano adora dizer que ele mesmo só
- 17:07significa coisas boas, que um bom
- 17:10atendimento, por exemplo, é um
- 17:12tratamento humanizado.
- 17:14Por isso, toma toda a devastação que ele
- 17:17mesmo pratica como uma falsa evidência
- 17:21sobre si mesmo.
- 17:23Aqueles povos que convivem bem com a
- 17:25diversidade, que reconhecem a
- 17:28concomitância,
- 17:29esses nem sempre foram reconhecidos como
- 17:32humanos. Afinal, dizem, precisavam
- 17:35evoluir.
- 17:37Mas nós, esses seres que a civilização
- 17:40acha que ofende quando chama de bicho,
- 17:43de selvagem, de animal, de criança, nós
- 17:47nos orgulhamos de não sermos tão humanos
- 17:50assim e convidamos a todos os demais
- 17:53vizinhos dessa casa planeta a sonharem
- 17:58conosco ou, em outras palavras, se
- 18:01tornarem selvagens também.
- 18:03Obrigada.
- 18:09>> Obrigada, Geni, por compartilhar de
- 18:12forma tão generosa toda essa sua
- 18:16cosmovisão, essa sabedoria
- 18:19da sua pesquisa e sabedoria ancestral
- 18:21também, que torcem, né, de uma forma tão
- 18:26tão necessária os nossos conceitos
- 18:29cartesianos tão arraigados.
- 18:32No próximo bloco, a gente vai pensar
- 18:34juntas aqui como semear e reflorestar
- 18:37nossas mentes.
- 18:53Voltamos com o Café Filosófico e com a
- 18:55nossa convidada Jeni Nunes, escritora e
- 18:57psicóloga, falando sobre como os povos
- 18:59indígenas entendem a função do sonho na
- 19:01nossa vida.
- 19:03Agora, Gen, eu queria chamar outro
- 19:05escritor para essa nossa conversa, que é
- 19:06o moçambicano Mia Culto.
- 19:09>> Pediram que eu falasse um pouco sobre
- 19:11como reencantar este nosso mundo, esta
- 19:14vida que é nossa, o que parece e que nos
- 19:17parece escapar a todo momento. Então,
- 19:19nós sabemos que há, evidentemente, há
- 19:22vários fatores que influenciaram para um
- 19:25certo desencantamento
- 19:27do que nos cerca. A dificuldade é pensar
- 19:30como é que nós próprios, nós, por
- 19:32exemplo, os do lado da ciência, fomos
- 19:35cómplices desse processo desencantamento
- 19:38e fomos cómplice porque
- 19:40de alguma maneira a narrativa chamada
- 19:43científica desqualificou outros saberes
- 19:46eh que estão esses outros saberes são,
- 19:48por exemplo, estes africanos, os os
- 19:50saberes indígenas da América, da
- 19:53Austrália, de todo lado. Esses saberes
- 19:56estão mais abertos àquilo que é a
- 19:58dimensão caótica, a dimensão invisível,
- 20:01a dimensão imprevisível do mundo e da
- 20:04vida. João Gameiras Rosa disse, falou,
- 20:07alertou-nos sobre essa
- 20:09quanto é que perdíamos como como seres
- 20:11humanos, como da nossa própria
- 20:13humanidade, se encarávamos a linguagem
- 20:16apenas no seu lado funcional. O físico
- 20:19de inamarquês Nils Bor, quando lhe
- 20:21perguntaram como é que ele podia
- 20:23descrever o átomo, ele disse: "Só existe
- 20:24uma maneira que é a poesia". Portanto,
- 20:26há uma maneira de reencantar o mundo,
- 20:29sim, que é aceitar que a dimensão
- 20:31artística, que ela ela seja literária,
- 20:33uma outra qualquer, pode dizer, pode
- 20:36traduzir a verdade do mundo e da vida
- 20:38tanto quanto a ciência.
- 20:41É muito bom escutar, né, minha culto. E
- 20:44eu fico lembrando do quanto muitas vezes
- 20:49a ciência, aquilo que se diz, essa
- 20:51ciência hegemônica, esteve a serviço da
- 20:54dominação em muitos momentos. Então, é
- 20:57muito importante que a gente reconheça
- 20:59esse lastro também que todas as áreas
- 21:02tiveram em algum momento de chamar de
- 21:04ciência o que era racismo, de chamar de
- 21:07ciência o que era colonialismo,
- 21:09misoginia. E também nesse tema do
- 21:12encantamento do mundo, o que eu percebo
- 21:16é que muitas vezes essa esse desejo de
- 21:19conhecer, quando ele não é feito de modo
- 21:23ético, ele se parece algo até que
- 21:25aparenta Linda Turriá comenta que ela
- 21:28diz que a busca por conhecimento, por
- 21:30vezes parece como um trator que que
- 21:33devasta uma floresta porque quer
- 21:35descobrir a verdade dela. Então, é como
- 21:37se tivesse tudo liso, tudo reto, tudo
- 21:40visível. Então, em muitos momentos,
- 21:43talvez mais do que a busca desenfriada
- 21:47desse conhecimento a qualquer custo, a
- 21:49gente possa também aprender com com
- 21:51desconhecimento,
- 21:53>> com o mistério, com aquilo que não se
- 21:56sabe. Eu até lembro de uma narrativa do
- 22:00nosso povo de que quando o mundo foi
- 22:03criado, ele foi criado numa assembleia e
- 22:07houve muita discussão, muita, muito
- 22:10dissenso, muita eh muito questionamento.
- 22:14E aí no final dessa assembleia ninguém
- 22:16chegou no consenso.
- 22:19E eu gosto muito dessa narrativa, porque
- 22:21ela nos coloca de que não é pensar o
- 22:25consenso como o final feliz de uma
- 22:27história,
- 22:28>> mas justamente quando é possível afirmar
- 22:30a diversidade, a pluralidade, né? A
- 22:33gente até brinca assim no nosso povo que
- 22:37a nossa maneira de pensar sabedoria,
- 22:39conhecimento, tecnologia, ela é uma
- 22:42maneira que reconhece a nossa humildade
- 22:45de ser parte, não deu o todo, não de ser
- 22:48o único. E isso também é um gesto de
- 22:50respeito, de entender que a nossa
- 22:53verdade não precisa ser imposta ao mundo
- 22:55todo. Quando que as tecnologias
- 22:58indígenas, porque ela hoje a gente
- 23:01consegue reconhecer como tecnologia, né?
- 23:03Quando que ela você acha que a gente vai
- 23:05chegar num momento que a gente vai de
- 23:07fato integrar
- 23:10>> Uhum.
- 23:10>> toda esse esse conhecimento aqui
- 23:12>> e até te ouvindo, Terná, eu lembrei, né,
- 23:14de um momento histórico que a gente
- 23:16viveu aqui no Brasil de que até a
- 23:18Constituição de 88, nossos povos tinham
- 23:21de decidir ou era brasileiro ou era
- 23:23indígena. E a ideia de Brasil era muito
- 23:26associada a uma certa adesão a uma única
- 23:30língua, a um único Deus, a um único modo
- 23:32de vida. E muitas das vezes a ideia da
- 23:35integração, quando não reconhece essa
- 23:37diversidade, né, como você bem trouxe, é
- 23:39uma integração que chega de um modo
- 23:41muito violento e é uma integração que
- 23:43ela sempre parte de um certo trânsito.
- 23:46Nunca é a sociedade de tá civilizada se
- 23:48integrar aos nossos povos, aos nossos
- 23:50modos de vida, né? Para mim só é
- 23:52possível pensar o encantamento, o
- 23:54encontro e outras tecnologias se a gente
- 23:57não parte do princípio da posse da
- 24:00propriedade. Então, pros nossos povos é
- 24:03muito causa muito estranhamento quando a
- 24:07gente vê uma notícia, né, de que uma
- 24:09determinada pessoa comprou uma praia,
- 24:11comprou um rio, comprou uma montanha,
- 24:13como se fosse possível que alguém
- 24:15adquirisse como um objeto essas
- 24:18entidades, esses seres, né? Então, a
- 24:20partir do momento que a gente não entra
- 24:23nessa conversa, nesse encontro,
- 24:26acreditando-se
- 24:27dono e proprietário de outro ser, é
- 24:29possível ter um encontro de verdade.
- 24:31>> Sensacional.
- 24:33Eh, você é uma, você é uma pesquisadora,
- 24:36né? Você faz parte da academia. E a
- 24:39gente tava falando aqui de Decarts, né?
- 24:41a inauguração do modernismo, onde usaram
- 24:44argumentos científicos para justificar
- 24:47atrocidades.
- 24:49Como é que você, indígena, lida com esse
- 24:54embate de de forças, de saberes na
- 24:57academia? Como você se sente vista?
- 25:00>> Ah, legal. Eu faço parte de uma das
- 25:04primeiras gerações, né, de doutores eh
- 25:07indígenas dentro desse espaço. Eu digo
- 25:11dentro desse espaço porque nós falamos
- 25:13bastante que os nossos doutores do
- 25:15território a gente sempre teve, né,
- 25:17essas lideranças, essas referências. E
- 25:20essa chegada na universidade ela vem
- 25:23acompanhada de uma série de entraves
- 25:25também de desafios, né? Porque para mim
- 25:30o movimento da interculturalidade é
- 25:32fundamental. Nós indígenas também
- 25:35estamos muito abertos a aprender com
- 25:37outros povos, com outras culturas, com
- 25:40outras formas de pensar. Agora, se uma
- 25:43certa epistemologia, se uma certa
- 25:46perspectiva se coloca contra nós e se
- 25:50afirma através da nossa destruição,
- 25:53então não há saída se não nos
- 25:54contrapormos a ela.
- 25:56>> E nesse sentido, algo que nós trazemos
- 25:59também é que essa separação binária,
- 26:01cartesiana, como você trouxe, ela não é
- 26:04apenas nociva pros nossos povos, mas
- 26:07também as pessoas não indígenas. Como
- 26:09psicóloga, algo que eu sempre comento é
- 26:12de que a divisão entre o mental e o
- 26:14físico, por exemplo, ela por vezes
- 26:17dificulta uma escuta mais ampla. Então,
- 26:20se alguém, por exemplo, sofre uma
- 26:22violência física, isso também não é uma
- 26:25violência psicológica?
- 26:27Se sofre uma violência psicológica, essa
- 26:29pessoa não sente isso no seu corpo, a
- 26:31separação enrijecida desses âmbitos nos
- 26:34impede muitas vezes de acolher aquilo
- 26:36que a gente vivencia. Então é uma
- 26:39caminhada que se faz muito, não nessa
- 26:41lógica de um crescer para cima, né, mas
- 26:44algo que me encanta muito assim aprender
- 26:47com os nossos mais velhos de que um
- 26:49crescimento muito importante é quando a
- 26:51gente cresce para baixo.
- 26:53>> Muito bom. E crescer para baixo também
- 26:55me lembra essa essa cultura que a gente
- 26:59encontra em vários povos, que é o a
- 27:01cultura da brincadeira. Eu acho incrível
- 27:04que os adultos indígenas brincam. Isso
- 27:06faz parte da comunidade, né, do estar em
- 27:09comunidade, tá? Faz tem uma importância
- 27:12não só simbólica, mas de saúde mesmo,
- 27:16eh, psíquica e cultural, muito
- 27:18importante. Conta pra gente um pouquinho
- 27:20como funciona essa função da
- 27:22brincadeira.
- 27:23>> E eu tive recentemente uma experiência
- 27:25com os parentes do povo Calapalo e o
- 27:28parente Faremá Calapalo me dizia o
- 27:30seguinte, que dentro do seu povo a
- 27:33brincadeira é um jeito de viver.
- 27:35>> Uhum. Se brinca para ir pescar, se
- 27:37brinca quando se vai dormir, se brinca
- 27:40para construir. E essa brincadeira é
- 27:42algo que não passa pela lógica
- 27:45do lucro, da compra, do objeto. Fazer o
- 27:49próprio brinquedo já é a parte da
- 27:50brincadeira. Então, pensar que esse
- 27:53processo de envolvimento e não de
- 27:55desenvolvimento é algo que nos traz
- 27:58saúde, porque nos lembra que a
- 28:01brincadeira tá muito mais no brincar do
- 28:03que no brinquedo, até porque o brincar é
- 28:05imaginar. Exato.
- 28:07>> E hoje eu penso observando assim, as
- 28:10crianças tem até as crianças têm uma
- 28:13dificuldade hoje de brincar por causa
- 28:16das telas, né? É difícil você chamar uma
- 28:18criança, vai pra rua, vai jogar uma
- 28:20bola, vai inventar alguma coisa ou lide
- 28:22com o tédio, né? Eu lembro, quando era
- 28:24criança, eu brincava com colheres e aí
- 28:26virava uma novela. Enfim. Você acha que
- 28:30o essa ruptura com a imaginação e com a
- 28:33brincadeira é um projeto
- 28:35>> perfeito
- 28:36>> de sustentação desse sistema que a gente
- 28:38vive?
- 28:39Perfeito. Assim, eu penso que assim como
- 28:42a Terra está muito machucada e nós como
- 28:46seres que fazem parte também da Terra,
- 28:48nós temos essa noção de corpo
- 28:50território, né? Então, o corpo também é
- 28:52parte desse território. Eh, é inevitável
- 28:55que esse essa exaustão, esse cansaço,
- 28:59essa exploração, as jornadas extenuantes
- 29:02de trabalho também tem a ver com o
- 29:04direito ao sonho, com o direito ao
- 29:05descanso. Como nós compreendemos que a
- 29:07terra também é gente, também a pessoa, é
- 29:11fundamental que a terra descanse.
- 29:13>> Uhum.
- 29:13>> Uma terra que não pode descansar não
- 29:15floresce. Eu queria te pedir para você
- 29:18ler mais um poema seu que faz parte
- 29:21desse brincar também para você eh criar
- 29:24esses poemas e escrever também é
- 29:26brincar.
- 29:27Para mim escrever é brincar também,
- 29:30porque eu não gosto de pensar as
- 29:33palavras apenas como um recurso. Assim
- 29:35como a gente diz que os rios, as
- 29:39montanhas, não são só recursos naturais,
- 29:42a gente também diz que a palavra também
- 29:44não é só esse veículo burocrático da
- 29:47comunicação. A palavra também é essa
- 29:50invenção, também é esse mote de mudança,
- 29:53né? Então eu vou compartilhar com vocês
- 29:55um pouquinho dessa brincadeira. É assim,
- 29:59os sonhos que tenho contigo não são
- 30:02esses dos filmes e novelas. Não precisa
- 30:05entrar de branco, nem sequer estamos em
- 30:08igrejas.
- 30:09Nem precisa trazer alianças de ouro ou
- 30:12de prata, porque é outro o pacto que
- 30:15quero contigo. Nos meus sonhos há muita
- 30:18gente, não estou sozinha. a vagalumes, a
- 30:22estrelas cadentes, a crianças, anciães,
- 30:26rios, montanhas e brisas, a cuidado
- 30:29compartilhado, a tempo de descanso,
- 30:32acolhimento, terra e amparo coletivo.
- 30:37Os muros já caíram e não precisamos mais
- 30:39de milagres, de exceções. E não é apenas
- 30:43o ouro que reluz. Sem fronteiras é nesse
- 30:46sonho de abundância que floresce o nosso
- 30:49encontro.
- 30:51Quando te conto um sonho coletivo, essa
- 30:54pode ser minha outra maneira de dizer
- 30:56que eu te amo.
- 30:58Que lindo, Gen.
- 31:01Incrível.
- 31:04Num cartesiano de monocultura do
- 31:07pensamento, como que a diversidade é
- 31:09fundamental para que a vida aconteça
- 31:12também para reflorestar os nossos
- 31:13sonhos? No próximo bloco.
- 31:30Voltamos com Jen Ninz do Café
- 31:32Filosófico, mostrando como a gente
- 31:34merece e precisa conhecer a visão dos
- 31:37povos indígenas paraa nossa
- 31:39sobrevivência desse planeta, não só
- 31:41biológica, mas também psíquica. Até
- 31:44porque as duas coisas nunca estiveram
- 31:46separadas, não é, Geni? Eu queria que
- 31:48você me contasse um pouquinho sobre esse
- 31:50seu conceito da descolonização dos
- 31:52afetos. Eu tive essa essa pesquisa, né,
- 31:57que ainda sigo, que foi justamente para
- 32:00entender que a colonização ela não foi
- 32:05simplesmente uma invasão territorial no
- 32:07sentido mais restrito da palavra, mas
- 32:11também foi uma uma invasão na maneira
- 32:14como a gente foi ensinado a amar, a se
- 32:16encontrar, a se conectar. Então, a
- 32:19partir dessa dessa noção, o que eu fui
- 32:22entendendo é que a ideia, por exemplo,
- 32:25de fidelidade ficou muito resumida a não
- 32:29concomitância.
- 32:30>> Então, os missionários diziam o
- 32:32seguinte: "Os infiéis, como eu falei
- 32:34antes, são aqueles que adoram vários
- 32:37deuses. Esses infiéis são povos
- 32:40adúlteros que não adoram apenas a um
- 32:42deus, são desleais, são infiéis."
- 32:45Então eu fui entendendo que dentro dessa
- 32:47lógica só cabe um. Só cabe um amor, só
- 32:51cabe um Deus, só cabe um encontro. E
- 32:53isso muitas vezes cria uma sensação
- 32:56quase que de perseguição,
- 32:58>> porque veja, se a única maneira de eu me
- 33:01sentir amada é mais ninguém ser, então a
- 33:04beleza do mundo se torna minha inimiga.
- 33:07Eu passo a me sentir antagonista de tudo
- 33:09aquilo que se torna algo que invada esse
- 33:13território de propriedade, né? Então eu
- 33:15fui entendendo o quanto que essa invasão
- 33:18simbólica também se apresentava na
- 33:21monocultura, né? Esse debate também é
- 33:23sobre uma certa ética de existência no
- 33:25mundo. Se a gente aprende que o mundo
- 33:27foi feito pro humano dominar e todo o
- 33:31resto tá abaixo da sua existência, então
- 33:34qual a surpresa quando há destruição
- 33:36desses seres? Já dentro do nosso povo,
- 33:39eu lembro de uma narrativa que eu
- 33:41escutei outra vez do parente Alberto,
- 33:44que ele contava que nós, gentes aqui,
- 33:48eh, de vez em quando podíamos emprestar
- 33:51a sombra da árvore, mas que as árvores
- 33:54tinham sido feitas para que os espíritos
- 33:56descansassem debaixo delas, mas que eles
- 33:59também deixavam a gente ficar ali.
- 34:03Então, é uma narrativa em que o também o
- 34:06com, o PAT tem muito mais lugar do que o
- 34:09apenas que o exclusivamente, que o tão
- 34:11somente.
- 34:12>> Uhum. Bom, existe toda essa democracia
- 34:15planetária que precisa ser respeitada,
- 34:17né? Tem até aquele livro da banda na
- 34:19Chiva, Earth Democracy, né, que falam
- 34:21bastante disso, desses seres que a gente
- 34:23habitam esse planeta junto com a gente e
- 34:25que precisam ser respeitados tanto
- 34:28quanto a gente tenta pelo menos
- 34:29respeitar o humano, porque a gente não
- 34:31tem conseguido nem isso, né?
- 34:33Mas pensando aqui no inconsciente
- 34:35coletivo que o Jung falou tanto, eu
- 34:37fiquei pensando uma coisa agora falando
- 34:40dos sonhos. Você acha que existe
- 34:44aqui uns um grande sonho humano e que a
- 34:49gente precisa estar conectado para
- 34:51acessar e conseguir sonhar coletivo esse
- 34:55futuro possível? Em alguns contextos, a
- 34:58ideia de esperança, ela aciona um
- 35:02imaginário de um falso otimismo. Eu digo
- 35:06falso otimismo porque em alguns casos,
- 35:09em determinados tipos de esperança, é
- 35:12como se a pessoa só gostasse da vida
- 35:15pelo que ela será, só gostasse de
- 35:18existir porque vai melhorar. Então é
- 35:20essa ideia de que você só consegue ter
- 35:23algum lampejo de alegria e de encanto
- 35:25pelo que será e não pelo que é. E muito
- 35:27da literatura psicológica e também em
- 35:30outros campos, nós povos indígenas fomos
- 35:33comparados à infância do humano. Então
- 35:35diziam que nós éramos as crianças e que
- 35:39os adultos seriam a fase civilizada.
- 35:42Então, esse processo de fase de
- 35:43desenvolvimento envolvia a adesão a esse
- 35:47projeto civilizatório. E eu sempre trago
- 35:49com muito orgulho assim de que, embora a
- 35:52gente saiba que a atribuição de que ai
- 35:55vocês são como crianças é feita no
- 35:57sentido pejorativo, pra gente é uma
- 35:59honra, né? Então, é também entender que
- 36:03esse ideal de evolução e de progresso,
- 36:06quando ele só coloca no amanhã, no
- 36:08futuro, na ideia de de um de um de um
- 36:13tempo que não veio a alegria, isso
- 36:15também pode ser um sinal, né? Então, até
- 36:17quero compartilhar com vocês mais um
- 36:20trechinho, eh, que é sobre esse debate
- 36:23da esperança. Não gosto muito de
- 36:26esperança, pelo menos não essa que é um
- 36:29jeito de me convencer de que só no
- 36:31amanhã que ainda não veio, que poderei
- 36:34ter alguma alegria. Alguém por acaso já
- 36:37teve esperança em relação ao que passou
- 36:39ao ontem e disse: "Tenho esperança que
- 36:43ano passado seja melhor?"
- 36:45Ou teve esperança sobre o que vivia no
- 36:48exato momento do presente e respirando
- 36:51disse: "Tenho esperança de respirar
- 36:53agora?" Não. Não me parece ter muito
- 36:56sentido ter esperança sobre algo que já
- 36:59se vive. Essa esperança hegemônica
- 37:02parece ser quase sempre sobre algo que
- 37:04não se tem agora. e que só é possível
- 37:06ter em algum futuro, próximo ou
- 37:09distante.
- 37:11A esperança parece crer que o tempo é
- 37:13evolutivo e progressivo e que conforme
- 37:15sua passagem as coisas naturalmente irão
- 37:17melhorar. Mas apesar dessa fé, não temos
- 37:21indícios de que o percurso seja assim
- 37:23tão linear. A única garantia que temos é
- 37:26que as coisas se transformam. Agora,
- 37:28como é outra questão. E é por isso que é
- 37:32para o aqui e agora que me volto, não
- 37:34para uma vida futura ou um amanhã
- 37:37transcendental.
- 37:39Esperança, a partir de agora será o meu
- 37:42critério de quão saudável está minha
- 37:44vida. Quanto menos eu tiver de tê-la,
- 37:47tanto mais transbordantes estarão meus
- 37:49dias. Pois se estou sorrindo agora, não
- 37:52preciso ter esperança de sorrir. E se
- 37:55estou abraçando, não preciso ter
- 37:57esperança de abraçar. Nossos povos têm o
- 38:01tempo, tem o presente e mesmo quando não
- 38:04temos esperança, temos o movimento e ele
- 38:07é o combustível da vida.
- 38:09>> Uau!
- 38:15Torce, né? torce o nosso pensamento,
- 38:18porque a gente tem essa visão da
- 38:20esperança como algo positivo, mas eu
- 38:21nunca tinha parado para pensar na
- 38:23esperança como um balizador que te
- 38:25indica que, na verdade, tua vida não tá
- 38:26boa. Se você tá ali esperando, né,
- 38:29melhorar, é porque não tá bom aqui
- 38:31agora. Sensacional. Tem perguntas da
- 38:34plateia. Mário Eduardo, nosso curador.
- 38:38Elas super emocionantes tuas palavras,
- 38:41tão poderosas, porque elas tornam
- 38:43pensável, concebível que um
- 38:46reencantamento do mundo é possível. E eu
- 38:49queria entrar um pouco na conversa de
- 38:50vocês duas sobre a questão da
- 38:53brincadeira de de nos conectar com esse
- 38:56nosso lado criança, né? A Tina tava
- 38:59falando que ela brincava com duas
- 39:01colherinhas, né?
- 39:02A gente vê hoje o mundo em que cada vez
- 39:05as crianças brincam menos, elas jogam
- 39:07muito, elas entram nos games, mas tem
- 39:09cada vez menos brincar.
- 39:12Agora, nesse nessa proposta que você faz
- 39:15de uma desmontagem do eu, de uma
- 39:17desmontagem do humano para uma ampliação
- 39:20para pra comunidade, pra ancestralidade,
- 39:25pro mundo, né? e o contato corporal,
- 39:28físico, carnal com a terra, com o rio,
- 39:32você falou uma expressão muito poderosa
- 39:35também, a terra tá ferida, a terra tá
- 39:37machucada, né? Como poder criar nas
- 39:40nossas crianças essa memória corporal
- 39:44dessa intimidade com o rio, com a com a
- 39:48com a árvore, com o chão? Como
- 39:51reconectar com essa experiência carnal
- 39:53do mundo? Eu fiquei lembrando de uma
- 39:57palavra que eu tenho utilizado para
- 39:59nomear isso, que é a palavra
- 40:01apartamento, essa dimensão
- 40:03arquitetônica, mas acho que vai muito
- 40:04além, né, como você bem trouxe, é
- 40:06apartamento também entre as pessoas.
- 40:09Muito raramente elas podem contar, né,
- 40:10umas com as outras. Nem sempre estar
- 40:12junto é algo que significa essa
- 40:15comunidade, né? Nosso querido Elon Crenc
- 40:17diz que é possível nós criarmos
- 40:20comunidades temporárias eh que estejam
- 40:23também em movimento, né?
- 40:24E até lembrei, eu falei agora a pouco do
- 40:27parente varem Calapalo e o povo Calapalo
- 40:31faz muitas todas as vezes essas
- 40:33brincadeiras, essas oficinas na cidade
- 40:35com as crianças não indígenas. E algo
- 40:38que impactou muito os parentes foi ver
- 40:40que crianças ali entre 5 e 7 anos muitas
- 40:44das vezes não não sabiam correr. Então,
- 40:47de fato, a gente tem essa situação que
- 40:49tem muito a ver com esse com esses
- 40:51apartamentos todos, né? Por outro lado,
- 40:55eu penso também que essa esse
- 40:58acolhimento, essa cura, ele precisa
- 41:01desse desse toque, né, disso que é muito
- 41:03da ordem mesmo do encontro. E eu até
- 41:06lembro de uma outra anciã que me dizia o
- 41:09seguinte: "Quem tá com muita ideia fixa,
- 41:12tá com a ideia muito paralisada, precisa
- 41:15dançar".
- 41:16Eh, e era muito nessa direção de que a
- 41:19dança também movimentava a sensação,
- 41:21movimentava o pensamento, né? Então, da
- 41:25gente ir além dessa lógica de que é do
- 41:28pescoço para cima que tá a ciência, mas
- 41:31também lembrar que a gente sente e pensa
- 41:33com o tornozelo, com o cotovelo, com os
- 41:34ombros, né? Então isso tudo volta para
- 41:38algo que para mim, muito embora a
- 41:41situação seja muito grave, eh eu até
- 41:44lembro que durante a pandemia nós
- 41:46tivemos momentos eh de uma certa
- 41:50diminuição do tráfego, por exemplo, de
- 41:52veículos e rapidamente a paisagem reagiu
- 41:56a isso também. Então eu acredito que
- 41:58determinadas pausas elas têm ainda a
- 42:02possibilidade, nesse caso foi uma pausa
- 42:05forçada por algo muito traumático e
- 42:07violento, mas eu trago também isso
- 42:10porque a gente vê que a Terra reage,
- 42:13mesmo que no seu tempo, da sua maneira,
- 42:16é possível que ela se refloreste. Então
- 42:18eu acredito que dá pr pr as crianças
- 42:21correrem de novo.
- 42:23Felipe,
- 42:24perguntas
- 42:26>> algumas. Ah, Larissa diz assim que o
- 42:29encantamento do mundo passa por
- 42:31reconhecer o sentir como uma tecnologia
- 42:34ancestral, uma forma de conhecimento e
- 42:36escuta da vida, como construir espaços
- 42:39em que sentir também é saber.
- 42:42>> Eh, de fato, essa oposição entre pensar
- 42:45e sentir, entre razão e emoção, é algo
- 42:49que recorta mesmo essa experiência, né?
- 42:52E o o Fred Fanon, ele dizia que esse
- 42:56processo não é só violento para as
- 42:57pessoas colonizadas, mas pro próprio
- 43:00colonizador, no sentido de que se essa
- 43:04proposição diz que as pessoas negras,
- 43:07indígenas seriam o corpo e as pessoas
- 43:09brancas seriam a mente, também para as
- 43:12pessoas brancas isso é um uma redução,
- 43:15porque também elas não são só a mente,
- 43:17nem a gente só o corpo. Então, de alguma
- 43:20forma, a convocação que a gente faz para
- 43:23que haja um engajamento nessas lutas,
- 43:25não é no sentido condescendente ou
- 43:27caridoso, mas de envolver que isso faz
- 43:30parte da sua própria saúde, da sua da
- 43:32sua própria movimentação no mundo, né?
- 43:34Então o que a gente traz assim sobre
- 43:36essa ética coletiva é de que esse
- 43:39cuidado com a terra, com os demais
- 43:41seres, também é um autocuidado. Um outro
- 43:44elemento que eu lembrei, ouvindo essa
- 43:46questão do sentir é sobre a palavra
- 43:50arandu, que ará significa tempo ou dia
- 43:54em guarani e endu significa escuta, mas
- 43:58não é só essa escuta com os ouvidos, né?
- 44:00Uma escuta mais ampla. E uma das
- 44:02traduções de Arandu é sabedoria, que
- 44:05saber escutar o tempo é sabedoria, né?
- 44:09Então, nesse sentido, eh, envolve uma
- 44:13série de outros seres também, porque a
- 44:15gente sabe que quando os demais bichos
- 44:18eles são acelerados no seu tempo de
- 44:20vida, quando a gente vê a depressão e a
- 44:23ansiedade, vê outros processos de
- 44:25adoecimento, isso também tem a ver com
- 44:27esse aceleramento, com esse tempo todo
- 44:29que tá eh sem esse arandu, que a gente
- 44:32chama, né? Então, para mim, eh, também
- 44:34lembrar disso, assim, de que o sentir e
- 44:36o pensar não são processos separados. Ao
- 44:40invés da esperança que só espera, a Gen
- 44:43tá aqui nos convocando para coragem e
- 44:46ação também. Se o futuro é ancestral, é
- 44:49no presente que ele acontece. O café já
- 44:52volta para falar de tudo isso.
- 45:07Voltamos com Geni Nunes no Café
- 45:09Filosófico e agora ela traz uma receita
- 45:12ancestral para reencantar o mundo. Como
- 45:14é que a gente testece os sonhos? Dá para
- 45:17aprender esse artesanato, Gin?
- 45:21Eu gosto muito dessa palavra tesania,
- 45:23inclusive para pensar as relações, os
- 45:25afetos e também para fazer uma crítica a
- 45:28essa divisão de arte e artesanato. Não
- 45:30sei se vocês acompanham, mas em alguns
- 45:33contextos parece que a arte é aquilo que
- 45:35se faz com a mente e o artesanato é
- 45:37aquilo que faz com as mãos. Então se
- 45:39cria uma espécie de hierarquia entre
- 45:41esse âmbito, como se aquilo que se faz
- 45:43com as mãos não envolvesse tanto assim o
- 45:45pensamento, a tecnologia, né? Então, eu
- 45:48gosto de pensar artesania também como
- 45:50parte desse desse movimento.
- 45:53Um outro elemento assim te ouvindo é de
- 45:56que eu reconheço também que muitas das
- 45:59vezes quando a gente mexe nesses lugares
- 46:01que a gente aprendeu a vida toda que
- 46:03eram a verdade, que eram o sentido, que
- 46:06era a resposta das coisas, muitas das
- 46:10vezes a gente sente um desamparo.
- 46:13Porque se é isso que eu aprendi a vida
- 46:15toda, então de que outro jeito que é
- 46:17possível eu caminhar, né? O Francispanão
- 46:19mesmo, ele dizia, né, que a
- 46:20descolonização é um estado de desordem,
- 46:23porque se a colonização é a ordem, então
- 46:26um abalo disso vai causar uma desordem.
- 46:29Até hoje a gente vive num contexto onde
- 46:32nunca houve reparação dos traumas
- 46:34históricos das violências, como a
- 46:36escravização, a invasão dos territórios.
- 46:38Então, para que a gente volte a sonhar
- 46:40de novo, de uma maneira plena e mais
- 46:44horizontal, é fundamental que a gente
- 46:48reconheça que a colonização não acabou e
- 46:50que é preciso que ela seja reparada, é
- 46:53preciso que isso seja nomeado. E aí, até
- 46:56por isso que no início eu trouxe essa
- 46:57fala sobre o negacionismo, porque o
- 47:00negacionismo é a maneira talvez mais
- 47:02eficaz de fazer com que essas violências
- 47:04continuem. Se toda vez que uma violência
- 47:07acontece, a gente diz que foi uma, não
- 47:09era bem isso, isso não foi violência,
- 47:11isso é mimimi, isso é exagero, é uma
- 47:14maneira que a gente tem de atualizar
- 47:15isso tudo. Então eu penso que nessa
- 47:18dimensão da coragem que você trouxe é
- 47:20também sobre dar espaço para esse
- 47:23desamparo, para aquilo que aparece como
- 47:26dúvida e incerteza, mas que nos convoca
- 47:29esse movimento, essa tarefa de agora,
- 47:31né? Até hoje temos essa essa luta
- 47:34principal que é pelo direito ao
- 47:36território por entender que sem o
- 47:38território, as línguas, os costumes, a
- 47:41brincadeira e o sonho, eles não têm onde
- 47:44descansar.
- 47:46>> Vamos ouvir aqui o depoimento da Hana
- 47:48Limja, que ela é uma antropóloga e ela é
- 47:50autora do livro Mari Ri árvore dos
- 47:53sonhos, um mito e anomame para crianças.
- 47:57Diante de um momento
- 48:00que os sonhos indígenas, os outros modos
- 48:02de sonhar o mundo, tem ganhado mais
- 48:05relevância, tem se falado mais sobre de
- 48:09que maneira é possível sonhar
- 48:10coletivamente
- 48:12sem descolar esses modos coletivos dos
- 48:16seus povos.
- 48:18A gente tem essa expressão em guarani
- 48:20que diz eh sem tecular não tem tecô. Eh,
- 48:25sem a aldeia, sem o território, não é
- 48:27possível ter o modo de vida. Então, o
- 48:30sonho ele também precisa desses
- 48:31elementos, desses ingredientes coletivos
- 48:33de de existência, né? Eu até trouxe aqui
- 48:36uma fala da professora Graciela
- 48:39Chamorro, que foi uma grande
- 48:42pesquisadora também aliada, né, dos
- 48:44nossos povos, que ela diz o seguinte:
- 48:48"As línguas e os sonhos se salvarão pelo
- 48:51falar, pelo escutar e pelo sonhar, pela
- 48:55partilha solidária dos saberes ouvidos e
- 48:58sonhados.
- 48:59Para os caio! Escutar e sonhar marcam
- 49:03dois processos distintos. Duas formas de
- 49:06aprender. Quem aprende pelo escutar,
- 49:10aprende a tradição das palavras dos seus
- 49:12avós. E isso é muito importante. Mas
- 49:15quem aprende pelo sonhar, aprende as
- 49:18palavras primeiras. Essas serão suas
- 49:20palavras, sua experiência. Tanto a
- 49:23palavra escutada quanto a palavra vista
- 49:26são mais fortes e compartilhadas.
- 49:29se tornam fortes quando se tornam sonhos
- 49:32múos, como a palavra inclusiva e
- 49:34recíproca. Esse mito, essa saída de que
- 49:38é possível a gente encontrar alguma
- 49:40resposta e algum caminho sozinho é parte
- 49:42do problema.
- 49:44>> Então, quando nos dizem, por exemplo,
- 49:46vocês, povos indígenas, são os donos da
- 49:48terra, eu até comento, é difícil
- 49:52responder uma pergunta cuja base eu
- 49:54discordo, porque nós também não somos
- 49:56donos da terra, nós somos a terra. Então
- 49:59é essa relação de envolvimento que nós
- 50:02buscamos enfatizar.
- 50:04Nós temos dito que hoje em dia a palavra
- 50:07também é mais uma das nossas flechas.
- 50:09Então eu acredito muito que a nossa
- 50:12presença de alguma forma busca também
- 50:15desobedecer e desestruturar aquilo que
- 50:18que foi pensado.
- 50:19>> Gente, eu tô muito lisongeada porque a
- 50:21Geni ela preparou um poema especialmente
- 50:24para essa ocasião e eu gostaria de pedir
- 50:27para que ela lee. A terra me conta seus
- 50:30sonhos quando vejo no entardecer a
- 50:32polifania dos pássaros.
- 50:35Ela me conta seus pesadelos quando o
- 50:37tatu não tem mais terra para cavar,
- 50:40quando a borboleta não encontra mais
- 50:42nenhuma flor para pousar, quando o
- 50:44macaquinho não tem mais galhas para
- 50:46saltar. Ela também conta seus sonhos
- 50:50quando responde ao reflorestamento de
- 50:52suas feridas, quando os rios racham o
- 50:55cimento e a poluição já não oculta as
- 50:58estrelas.
- 51:00Quando a terra, a terra mãe também é
- 51:03filha, cuida e é cuidada, a terra me
- 51:07conta seus sonhos quando acordo e
- 51:10recordo que o rio também está em nós.
- 51:21Ai, Gen, eu queria ficar a noite inteira
- 51:24conversando com você. Vocês não queriam?
- 51:26Só te ouvindo.
- 51:29Bom, citando Raul Seixas aqui, sonho que
- 51:32se sonha só é só um sonho que se sonha
- 51:35só, mas sonho que se sonha junto é
- 51:37realidade. Eu acho que essa citação, ela
- 51:39é bem significativa para encerrar esse
- 51:41módulo que foi literalmente encantador.
- 51:44Tenho aqui que agradecer ao Mário
- 51:45Eduardo que fez essa curadoria
- 51:47maravilhosa aqui.
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This page contains the full transcript of CAFÉ FILOSÓFICO | 05/07/26 | A terra também sonha: perspectivas indígenas e encantamento do mundo by Café Filosófico CPFL, generated from the public captions YouTube serves with the video. The transcript has 7,278 words across 1,135 segments, with the original timestamps preserved so you can click any line to jump to that moment in the embedded player.
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