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CAFÉ FILOSÓFICO | 05/07/26 | A terra também sonha: perspectivas indígenas e encantamento do mundo — Transcript

by Café Filosófico CPFL · 7,278 words · 1,135 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:26A terra me conta seus sonhos quando me
  2. 0:28acordo e recordo. que o Rio também está
  3. 0:31em nós. Esse poema é da nossa convidada
  4. 0:34de hoje, super especial, que fecha o
  5. 0:37último episódio da nossa série sobre
  6. 0:38reencantamento.
  7. 0:41Ela é escritora, psicóloga, pensadora
  8. 0:44guarani e hoje traz pra gente toda a
  9. 0:46beleza e sabedoria das cosmovisões
  10. 0:48indígenas, nos ajudando a sonhar e a
  11. 0:51reflorestar o pensamento, pelo menos por
  12. 0:53essa noite. Seja muito bem-vinda, Geni
  13. 0:56Niz.
  14. 1:05querida,
  15. 1:06obrigada pela sua presença.
  16. 1:09Eh, você lançou um livro Felizes por
  17. 1:12enquanto, escrito sobre outros mundos
  18. 1:14possíveis e você tem uma frase que é
  19. 1:17muito bonita que fala: "Antes emocionada
  20. 1:20que anestesiada vivo". De onde você acha
  21. 1:23que vem essa anestesia, Gen? Uma alegria
  22. 1:26estar aqui hoje, Tainá. Agradeço muito.
  23. 1:29E para mim essa frase, ela vem muito na
  24. 1:32direção de reconhecer que o cimento, que
  25. 1:35também está presente nas ruas, nas
  26. 1:38avenidas, também é um cimento que nos
  27. 1:40chega no nosso pensamento, na nossa
  28. 1:43sexualidade, na maneira como a gente se
  29. 1:45conecta com o outro. Então, para mim, a
  30. 1:48poesia, a arte e filosofia são maneiras
  31. 1:51da gente criar alguma rachadura nesse
  32. 1:53cimento.
  33. 1:55>> Perfeito. Bom, o primeiro bloco do café
  34. 1:58é todo seu. Eu vou te assistir ali da
  35. 2:00plateia e depois volto pra gente
  36. 2:02conversar.
  37. 2:03>> Obrigada, amada. Meu nome não indígena
  38. 2:06Jane Núes, meu nome é Guarani de
  39. 2:08Aucaretê.
  40. 2:09E o que eu quero compartilhar com vocês
  41. 2:11hoje vem da minha pesquisa, do meu
  42. 2:14ativismo, vem da minha luta e vem dos
  43. 2:17meus sonhos. Eu queria falar aqui hoje
  44. 2:21da invenção do humano e da invenção da
  45. 2:24humanidade. Essas duas noções na língua,
  46. 2:26né, do povo guaranê, a gente não tem uma
  47. 2:29palavra específica pra ideia do humano,
  48. 2:33mas a gente tem palavras que aludem a
  49. 2:35ideia de pessoa, de gente, que não é a
  50. 2:39mesma coisa que humano necessariamente.
  51. 2:42E durante a minha pesquisa, o meu
  52. 2:43ativismo, o meu trabalho, eu fui
  53. 2:46entendendo que humano, especialmente
  54. 2:49nesse material que eu estudo, né, que
  55. 2:51são as cartas jesuíticas, humano era
  56. 2:55aquele que não era animal, humano era
  57. 2:59aquele que era civilizado, aquele que
  58. 3:02não era selvagem. Então, humano, eu fui
  59. 3:05entendendo, não era simplesmente uma
  60. 3:08descrição biológica neutra. humano era
  61. 3:12parte de um projeto político colonial e
  62. 3:15racista de separação, de desigualdade
  63. 3:18entre um grupo, né, que nosso querido
  64. 3:22Aton Crenque chama de um clube VIP da
  65. 3:25humanidade que entra muito pouca gente.
  66. 3:28E esse clube VIP, ele estabelece quem
  67. 3:31conta ou não como gente, como vida, como
  68. 3:33pessoa.
  69. 3:35Dentro do meu trabalho, eu tenho buscado
  70. 3:37também fazer uma espécie de
  71. 3:40contraleitura
  72. 3:42e com e contra essas referências que nós
  73. 3:45entendemos que são muito importantes,
  74. 3:48mas que elas também tm seu limite.
  75. 3:50Então, nós temos essa dimensão
  76. 3:52intercultural como algo que é muito
  77. 3:55elementar nos nossos povos. Então, nós
  78. 3:58trocamos sementes, nós trocamos os
  79. 4:00cantos, os cuidados, os encontros.
  80. 4:04Então, quando eu entro na universidade
  81. 4:06eu busco também fazer esse diálogo
  82. 4:09possível e impossível com algumas dessas
  83. 4:10teorias. E um dos autores que eu estudo,
  84. 4:14que é o Platão, que é uma grande
  85. 4:16referência, né, dentro do pensamento
  86. 4:18hegemônico eh da filosofia, o Platão,
  87. 4:21ele fazia essa separação entre aquilo
  88. 4:24que seria o mundo ideal e o mundo real.
  89. 4:28E a partir dessa divisão se criou uma
  90. 4:31noção de que nesse mundo das ideias,
  91. 4:34nesse mundo idealizado,
  92. 4:36uma série de valores seriam defendidos.
  93. 4:39E um desses valores, trazendo agora pro
  94. 4:42contemporâneo, é o valor do humano.
  95. 4:45Então a gente vê o quanto que no
  96. 4:47cotidiano é muito comum que quando
  97. 4:50alguém quer ofender outra pessoa compare
  98. 4:52essa pessoa com algum bicho. O Frant
  99. 4:55Fanon, né, que foi um revolucionário
  100. 4:57martinicano, psiquiatra, psicanalista,
  101. 5:00ele dizia que o colonialismo tem um
  102. 5:03vocabulário zoológico que é justamente
  103. 5:06para marcar onde começa e onde termina o
  104. 5:09humano e excluindo uma série de povos
  105. 5:12desse clube, né? E hoje a minha minha
  106. 5:16partilha aqui com vocês também é no
  107. 5:18sentido de repensar o quanto que esse
  108. 5:21idealismo da defesa desses sistemas,
  109. 5:24eles muitas vezes é um empecílio pro
  110. 5:26sonho, mas também é um empecílio para
  111. 5:29que a gente reconheça as violências e
  112. 5:31que faça isso que eu também mais tarde
  113. 5:33vou comentar com vocês, que eu chamo de
  114. 5:35reflorestamento de imaginário, né? Então
  115. 5:38esse reflorestamento do imaginário
  116. 5:40envolve a gente fazer também uma
  117. 5:43revisão, uma análise crítica daquilo que
  118. 5:46nos foi apresentado como o bem, como o
  119. 5:49amor, a democracia, a civilização, o
  120. 5:53progresso, o desenvolvimento.
  121. 5:55Eu até trago aqui uma fala de uma
  122. 5:57liderança do nosso povo, a de Guarani,
  123. 6:00que ela diz, né, que por muito tempo
  124. 6:03falaram para nós, povos indígenas, que
  125. 6:06nós precisamos evoluir, que nós
  126. 6:08precisamos progredir. E aí ela faz o
  127. 6:11invés dessa pergunta, que é devolver a
  128. 6:13questão e dizer o seguinte: se boa parte
  129. 6:16das violências, das guerras, dos
  130. 6:19massacres, dos extermínios no mundo hoje
  131. 6:22tem acontecido
  132. 6:24com protagonismo dos ditos civilizados,
  133. 6:27talvez seja o momento da gente virar
  134. 6:29essa pergunta e convidar os civilizados
  135. 6:31a se tornarem selvagens. Talvez seja um
  136. 6:34movimento importante justamente de uma
  137. 6:37certa suspeita e de uma certa
  138. 6:38desconfiança em torno desse vocabulário
  139. 6:42que associa aquilo que é da ordem da
  140. 6:44violência, do massacre, do exterínio,
  141. 6:47como bem, como amor, como humano. Nós,
  142. 6:50povos indígenas, não somos uma utopia
  143. 6:54abstrata e genérica de um futuro que não
  144. 6:56se vê. Nós já existimos aqui e agora já
  145. 7:00existem outros jeitos de viver e de
  146. 7:02estar no mundo, né? Recentemente estive,
  147. 7:05né, com os nossos parentes e eu fiquei
  148. 7:07lembrando do dia que eu recebi o meu
  149. 7:10nome Guarani e eu recebi, a gente chama
  150. 7:13de Amongaraí, né, que é o nosso ritual
  151. 7:16de recebimento do nome guarani. E eu
  152. 7:20recebi o meu nome do Tiamoi, né, que a
  153. 7:23gente diz nosso avô, essa liderança
  154. 7:25espiritual. Eu recebi o meu nome
  155. 7:29cantando e dançando. E para mim a dança
  156. 7:32e o canto tem tudo a ver com o
  157. 7:34encantamento do mundo. Porque receber o
  158. 7:38meu nome dançando e cantando foi também
  159. 7:40um lembrete para eu não esquecer de que
  160. 7:43o mundo, esse mundo que dizem ser
  161. 7:46universal, ele não é nosso inimigo
  162. 7:49também, né? Então, a nossa liderança
  163. 7:52Juqueretiu, ela comenta o seguinte: "Nós
  164. 7:55guarani não acreditamos que o mundo, os
  165. 7:58muitos mundos são nossos inimigos e a
  166. 8:01gente diz isso porque nós não reduzimos
  167. 8:03o mundo ao humano." Então, quando dizem
  168. 8:06assim: "O mundo é muito cruel comigo, o
  169. 8:08mundo é muito terrível", a gente
  170. 8:11responde: "As borboletas também, o pôr
  171. 8:14do sol também, a chuva também. Como é
  172. 8:17que a gente faz? Como é que a gente
  173. 8:18chega a esse ponto de reduzir a
  174. 8:21experiência da vida e do mundo a um
  175. 8:24grupo tão pequeno quanto aquele a aquele
  176. 8:27do Clube VIP que eu comentava agora a
  177. 8:29pouco, né? Então, dentro do nosso povo,
  178. 8:33a gente tem o costume de chamar outros
  179. 8:36seres que nos acompanham de parentes,
  180. 8:39seres do rio, da floresta, da montanha,
  181. 8:43por entender que esse parentesco ele vai
  182. 8:45muito além novamente desse reducionismo
  183. 8:50que essa lógica do humano traz, né? Para
  184. 8:53mim, o sonho como essa experiência, não
  185. 8:56só da imaginação, do desejo, mas o sonho
  186. 9:00ele também muitas vezes é aquilo que
  187. 9:02irrompe essa expectativa de que tudo
  188. 9:05seria em linha reta, tudo seria muito
  189. 9:07bem linear. No sonho, muitas vezes a
  190. 9:10gente não tem um começo e meio e fim,
  191. 9:12não há uma nitidez tão exata e não há
  192. 9:15uma sequencialidade que o pensamento
  193. 9:17cartesiano supõe, né? Então o sonho para
  194. 9:20mim muitas vezes é aquele desvio, aquela
  195. 9:23brecha que mesmo a pessoa que se
  196. 9:26acredita a mais civilizada, a mais
  197. 9:28humana e a mais evoluída, ainda tem um
  198. 9:32um pouquinho de sonho que eventualmente
  199. 9:34aparece no seu caminho, né? Por outro
  200. 9:37lado, a gente sabe que essa monocultura
  201. 9:40do pensamento, da fé, da sexualidade,
  202. 9:43ela também aparece no sonho. Nosso
  203. 9:46parente, liderança
  204. 9:48Davi e a Nomami já pontuava e pontua
  205. 9:51isso, né, de que a mercadoria, a lógica
  206. 9:54do objeto, a lógica do esvaziamento dos
  207. 9:57vínculos também invade o sonho. E eu
  208. 10:00tenho chamado de reflorestamento do
  209. 10:02imaginário esse processo da gente
  210. 10:05entender que se nós também somos parte
  211. 10:08da terra e a terra quando machucada
  212. 10:10também pode ser reflorestada, então o
  213. 10:13nosso sonho também pode ser
  214. 10:14reflorestado. Ainda é possível que isso
  215. 10:18seja feito, né? Então, esse processo do
  216. 10:21reflorestamento de imaginário, eu tive
  217. 10:23esse insight sobre essa noção em um
  218. 10:26momento que nós estávamos fazendo um
  219. 10:28mutirão na aldeia e eu fui percebendo
  220. 10:31que conforme a terra era cuidada, nossos
  221. 10:34parentes riam mais, as crianças
  222. 10:36brincavam mais, os mais velhos também
  223. 10:38brincavam mais. Eu fui entendendo que
  224. 10:41não tem uma cura individual possível
  225. 10:43desse humano se a gente não reconhece
  226. 10:45essa rede indissociável de conexões que
  227. 10:49nos torna possível, né? Então eu lembro
  228. 10:52disso também porque na nossa língua a
  229. 10:56gente tem mais de um tipo de nós. E para
  230. 10:59mim esse é um dos efeitos da invenção do
  231. 11:01humano. O humano muitas vezes ele cria o
  232. 11:04eu e o outro como algo muito distante,
  233. 11:07quase como que houvesse de um lado
  234. 11:10humano e do outro lado a natureza, o
  235. 11:12humano de um lado e no restante os
  236. 11:14demais seres. E para mim repensar essa
  237. 11:18invenção do humano, esse com H
  238. 11:20maiúsculo, é uma maneira da gente
  239. 11:22contestar a própria ideia de eu. O eu,
  240. 11:26como essa invenção que supostamente
  241. 11:28daria conta de tudo e de si mesmo. Esse
  242. 11:30eu é uma invenção, porque dentro do
  243. 11:33nosso povo a gente reconhece que nós
  244. 11:36somos uma multidão. Então, cada ser tem
  245. 11:39milhões, milhares de outros seres que o
  246. 11:42compõem. E essa interrelação nos faz
  247. 11:44lembrar que mesmo no âmbito da política,
  248. 11:48no no âmbito da ética, quando a gente vê
  249. 11:51nas guerras essa oposição que coloca
  250. 11:54aqui somos nós e lá bem longe são eles.
  251. 11:57Para nós repensar a ideia do humano e do
  252. 12:00eu independente é uma maneira da gente
  253. 12:03aproximar esse abismo que foi criado e
  254. 12:05lembrar que às vezes esse eles, esse
  255. 12:07outro também é nós, também nos compõe.
  256. 12:11Sem eles a gente não caminha. né? Falei
  257. 12:13agora a pouco do Platão e ele tem como
  258. 12:16critério, né, que ele traz no trabalho
  259. 12:19dele
  260. 12:21a proposta de que o mundo ideal seria um
  261. 12:24mundo eterno,
  262. 12:26estável e sempre fixo, ao passo em que a
  263. 12:30vida seria aquilo do mundo imperfeito,
  264. 12:33que é movimento, que é caminhada, que
  265. 12:37não é eterna. Então, a partir do momento
  266. 12:40que nos nossos povos a gente não
  267. 12:42desqualifica algo por não ser fixo, por
  268. 12:46não ser eterno e por não ser imutável, é
  269. 12:49possível criar uma outra relação com a
  270. 12:51vida e dignificar aquilo que muda,
  271. 12:53aquilo que se transforma, a passagem do
  272. 12:55tempo. Eu até trago uma outra referência
  273. 12:59nossa que é a dona Lulu Cunhai Botu
  274. 13:02Caioá, que é uma liderança do povo
  275. 13:05Caioá. E conversando com ela, né, em
  276. 13:08muitos momentos, ela me traz justamente
  277. 13:11essa concepção de que uma folha, por
  278. 13:14exemplo, que um dia foi verde e agora é
  279. 13:16marrom, ela não é menos bonita. Por
  280. 13:19isso, a beleza não tá posta na
  281. 13:21juventude, mas tá na própria vida. Então
  282. 13:24a gente diz que essa frase que alguns
  283. 13:27comentam, né? Ah, a beleza passa, a
  284. 13:30beleza é passageira, né? A gente diz que
  285. 13:33a beleza de um bebê é diferente da
  286. 13:36beleza de um mais velho, mas a beleza
  287. 13:38continua conosco. Então é também honrar
  288. 13:42a possibilidade de que as nossas
  289. 13:43mudanças, o nosso movimento não é algo
  290. 13:47do qual a gente deve lastimar. Eu tenho
  291. 13:50feito um movimento no meu trabalho, que
  292. 13:52é reconhecer que a denúncia da violência
  293. 13:55que nossos povos vivem e até hoje
  294. 13:58vivenciamos em muitos territórios, né,
  295. 14:01pela limitação do acesso à água, pela
  296. 14:04invasão do agronegócio, pela invasão de
  297. 14:07uma série de monoculturas, isso é muito
  298. 14:09real e concreto. Só que algo também que
  299. 14:12as nossas lideranças lembram é que nós
  300. 14:15não somos resumidos à violência. Nós
  301. 14:17ainda estamos aqui inclusive para
  302. 14:20celebrar nosso sonho, nosso sorriso, né?
  303. 14:23Então eu lembro sempre de uma fala do
  304. 14:25Cacique Babal Tupinambá que ele diz: "O
  305. 14:29que mata nossos adversários é o
  306. 14:31sorriso". Até o Foucault tem um texto,
  307. 14:34né, conhecido sobre isso, de que o
  308. 14:36ativista, o militante não precisa fazer
  309. 14:38sua luta através da tristeza
  310. 14:40necessariamente, porque é também pelo
  311. 14:43nosso encontro, pelo riso, pela dança
  312. 14:45que a gente continua vivo, né? Pensar
  313. 14:48uma luta
  314. 14:50onde caibam muitos mundos, como diziam
  315. 14:52os parentes apatistas, é uma luta em que
  316. 14:55a gente não fica apenas no não e no
  317. 14:57contra, que são muito importantes, mas é
  318. 14:59também uma luta onde a gente pode ter
  319. 15:01espaço para afirmar o que a gente
  320. 15:03gostaria que fosse expandido, aquilo que
  321. 15:06a gente gostaria que fosse eh afirmado
  322. 15:08no mundo, o nosso sim, né? Então esse
  323. 15:11movimento para mim tem muito a ver com o
  324. 15:14reconhecimento de que
  325. 15:17as leis que foram criadas contra nós, os
  326. 15:20marcos temporais todos que já existiram
  327. 15:22até nós, eles não dão conta, não deram
  328. 15:25até hoje de fazer com que a gente
  329. 15:27desapareça. Enquanto existia um
  330. 15:29ecossistema de línguas indígenas, por
  331. 15:32exemplo, os outros ecossistemas também
  332. 15:34existirão, porque um ecossistema é irmão
  333. 15:37do outro. Então a gente diz que assim
  334. 15:40como uma monocultura fortalece a outra,
  335. 15:43também um ecossistema de diversidades
  336. 15:46fortalece outro. Na minha pesquisa,
  337. 15:48nesse material das cartas jesuíticas e
  338. 15:50outros documentos,
  339. 15:52os missionários falavam assim: "Os
  340. 15:54guarani vão aprender a ler e a escrever
  341. 15:57apenas para repetir e copiar aquilo que
  342. 16:00a gente disser para eles." Então eles
  343. 16:02não cogitavam que nós pudéssemos ter
  344. 16:05também uma autoria e uma invenção. E
  345. 16:08diziam, depois de perceber que os nossos
  346. 16:11parentes usavam a palavra de outra
  347. 16:13maneira, diziam que esses eram os
  348. 16:16infiéis. Esses eram os traidores. E é a
  349. 16:20partir desse orgulho de fazer parte
  350. 16:22dessa linhagem de traidores. Enfim, é
  351. 16:24isso que eu chego aqui também.
  352. 16:26Eh, eu também queria partilhar com vocês
  353. 16:30um um poema que eu escrevi também,
  354. 16:35especialmente aqui pro nosso encontro,
  355. 16:38por um mundo mais humano, dizem. A cada
  356. 16:41floresta destruída por humanos comentam
  357. 16:45que o mundo precisa de mais humanidade.
  358. 16:49A cada humano que violenta outros seres
  359. 16:52dizem que agiu como animal.
  360. 16:55A cada guerra que humanos começam,
  361. 16:57lamentam que ali faltou humanidade.
  362. 17:01Em sua elevada autoestima,
  363. 17:04o humano adora dizer que ele mesmo só
  364. 17:07significa coisas boas, que um bom
  365. 17:10atendimento, por exemplo, é um
  366. 17:12tratamento humanizado.
  367. 17:14Por isso, toma toda a devastação que ele
  368. 17:17mesmo pratica como uma falsa evidência
  369. 17:21sobre si mesmo.
  370. 17:23Aqueles povos que convivem bem com a
  371. 17:25diversidade, que reconhecem a
  372. 17:28concomitância,
  373. 17:29esses nem sempre foram reconhecidos como
  374. 17:32humanos. Afinal, dizem, precisavam
  375. 17:35evoluir.
  376. 17:37Mas nós, esses seres que a civilização
  377. 17:40acha que ofende quando chama de bicho,
  378. 17:43de selvagem, de animal, de criança, nós
  379. 17:47nos orgulhamos de não sermos tão humanos
  380. 17:50assim e convidamos a todos os demais
  381. 17:53vizinhos dessa casa planeta a sonharem
  382. 17:58conosco ou, em outras palavras, se
  383. 18:01tornarem selvagens também.
  384. 18:03Obrigada.
  385. 18:09>> Obrigada, Geni, por compartilhar de
  386. 18:12forma tão generosa toda essa sua
  387. 18:16cosmovisão, essa sabedoria
  388. 18:19da sua pesquisa e sabedoria ancestral
  389. 18:21também, que torcem, né, de uma forma tão
  390. 18:26tão necessária os nossos conceitos
  391. 18:29cartesianos tão arraigados.
  392. 18:32No próximo bloco, a gente vai pensar
  393. 18:34juntas aqui como semear e reflorestar
  394. 18:37nossas mentes.
  395. 18:53Voltamos com o Café Filosófico e com a
  396. 18:55nossa convidada Jeni Nunes, escritora e
  397. 18:57psicóloga, falando sobre como os povos
  398. 18:59indígenas entendem a função do sonho na
  399. 19:01nossa vida.
  400. 19:03Agora, Gen, eu queria chamar outro
  401. 19:05escritor para essa nossa conversa, que é
  402. 19:06o moçambicano Mia Culto.
  403. 19:09>> Pediram que eu falasse um pouco sobre
  404. 19:11como reencantar este nosso mundo, esta
  405. 19:14vida que é nossa, o que parece e que nos
  406. 19:17parece escapar a todo momento. Então,
  407. 19:19nós sabemos que há, evidentemente, há
  408. 19:22vários fatores que influenciaram para um
  409. 19:25certo desencantamento
  410. 19:27do que nos cerca. A dificuldade é pensar
  411. 19:30como é que nós próprios, nós, por
  412. 19:32exemplo, os do lado da ciência, fomos
  413. 19:35cómplices desse processo desencantamento
  414. 19:38e fomos cómplice porque
  415. 19:40de alguma maneira a narrativa chamada
  416. 19:43científica desqualificou outros saberes
  417. 19:46eh que estão esses outros saberes são,
  418. 19:48por exemplo, estes africanos, os os
  419. 19:50saberes indígenas da América, da
  420. 19:53Austrália, de todo lado. Esses saberes
  421. 19:56estão mais abertos àquilo que é a
  422. 19:58dimensão caótica, a dimensão invisível,
  423. 20:01a dimensão imprevisível do mundo e da
  424. 20:04vida. João Gameiras Rosa disse, falou,
  425. 20:07alertou-nos sobre essa
  426. 20:09quanto é que perdíamos como como seres
  427. 20:11humanos, como da nossa própria
  428. 20:13humanidade, se encarávamos a linguagem
  429. 20:16apenas no seu lado funcional. O físico
  430. 20:19de inamarquês Nils Bor, quando lhe
  431. 20:21perguntaram como é que ele podia
  432. 20:23descrever o átomo, ele disse: "Só existe
  433. 20:24uma maneira que é a poesia". Portanto,
  434. 20:26há uma maneira de reencantar o mundo,
  435. 20:29sim, que é aceitar que a dimensão
  436. 20:31artística, que ela ela seja literária,
  437. 20:33uma outra qualquer, pode dizer, pode
  438. 20:36traduzir a verdade do mundo e da vida
  439. 20:38tanto quanto a ciência.
  440. 20:41É muito bom escutar, né, minha culto. E
  441. 20:44eu fico lembrando do quanto muitas vezes
  442. 20:49a ciência, aquilo que se diz, essa
  443. 20:51ciência hegemônica, esteve a serviço da
  444. 20:54dominação em muitos momentos. Então, é
  445. 20:57muito importante que a gente reconheça
  446. 20:59esse lastro também que todas as áreas
  447. 21:02tiveram em algum momento de chamar de
  448. 21:04ciência o que era racismo, de chamar de
  449. 21:07ciência o que era colonialismo,
  450. 21:09misoginia. E também nesse tema do
  451. 21:12encantamento do mundo, o que eu percebo
  452. 21:16é que muitas vezes essa esse desejo de
  453. 21:19conhecer, quando ele não é feito de modo
  454. 21:23ético, ele se parece algo até que
  455. 21:25aparenta Linda Turriá comenta que ela
  456. 21:28diz que a busca por conhecimento, por
  457. 21:30vezes parece como um trator que que
  458. 21:33devasta uma floresta porque quer
  459. 21:35descobrir a verdade dela. Então, é como
  460. 21:37se tivesse tudo liso, tudo reto, tudo
  461. 21:40visível. Então, em muitos momentos,
  462. 21:43talvez mais do que a busca desenfriada
  463. 21:47desse conhecimento a qualquer custo, a
  464. 21:49gente possa também aprender com com
  465. 21:51desconhecimento,
  466. 21:53>> com o mistério, com aquilo que não se
  467. 21:56sabe. Eu até lembro de uma narrativa do
  468. 22:00nosso povo de que quando o mundo foi
  469. 22:03criado, ele foi criado numa assembleia e
  470. 22:07houve muita discussão, muita, muito
  471. 22:10dissenso, muita eh muito questionamento.
  472. 22:14E aí no final dessa assembleia ninguém
  473. 22:16chegou no consenso.
  474. 22:19E eu gosto muito dessa narrativa, porque
  475. 22:21ela nos coloca de que não é pensar o
  476. 22:25consenso como o final feliz de uma
  477. 22:27história,
  478. 22:28>> mas justamente quando é possível afirmar
  479. 22:30a diversidade, a pluralidade, né? A
  480. 22:33gente até brinca assim no nosso povo que
  481. 22:37a nossa maneira de pensar sabedoria,
  482. 22:39conhecimento, tecnologia, ela é uma
  483. 22:42maneira que reconhece a nossa humildade
  484. 22:45de ser parte, não deu o todo, não de ser
  485. 22:48o único. E isso também é um gesto de
  486. 22:50respeito, de entender que a nossa
  487. 22:53verdade não precisa ser imposta ao mundo
  488. 22:55todo. Quando que as tecnologias
  489. 22:58indígenas, porque ela hoje a gente
  490. 23:01consegue reconhecer como tecnologia, né?
  491. 23:03Quando que ela você acha que a gente vai
  492. 23:05chegar num momento que a gente vai de
  493. 23:07fato integrar
  494. 23:10>> Uhum.
  495. 23:10>> toda esse esse conhecimento aqui
  496. 23:12>> e até te ouvindo, Terná, eu lembrei, né,
  497. 23:14de um momento histórico que a gente
  498. 23:16viveu aqui no Brasil de que até a
  499. 23:18Constituição de 88, nossos povos tinham
  500. 23:21de decidir ou era brasileiro ou era
  501. 23:23indígena. E a ideia de Brasil era muito
  502. 23:26associada a uma certa adesão a uma única
  503. 23:30língua, a um único Deus, a um único modo
  504. 23:32de vida. E muitas das vezes a ideia da
  505. 23:35integração, quando não reconhece essa
  506. 23:37diversidade, né, como você bem trouxe, é
  507. 23:39uma integração que chega de um modo
  508. 23:41muito violento e é uma integração que
  509. 23:43ela sempre parte de um certo trânsito.
  510. 23:46Nunca é a sociedade de tá civilizada se
  511. 23:48integrar aos nossos povos, aos nossos
  512. 23:50modos de vida, né? Para mim só é
  513. 23:52possível pensar o encantamento, o
  514. 23:54encontro e outras tecnologias se a gente
  515. 23:57não parte do princípio da posse da
  516. 24:00propriedade. Então, pros nossos povos é
  517. 24:03muito causa muito estranhamento quando a
  518. 24:07gente vê uma notícia, né, de que uma
  519. 24:09determinada pessoa comprou uma praia,
  520. 24:11comprou um rio, comprou uma montanha,
  521. 24:13como se fosse possível que alguém
  522. 24:15adquirisse como um objeto essas
  523. 24:18entidades, esses seres, né? Então, a
  524. 24:20partir do momento que a gente não entra
  525. 24:23nessa conversa, nesse encontro,
  526. 24:26acreditando-se
  527. 24:27dono e proprietário de outro ser, é
  528. 24:29possível ter um encontro de verdade.
  529. 24:31>> Sensacional.
  530. 24:33Eh, você é uma, você é uma pesquisadora,
  531. 24:36né? Você faz parte da academia. E a
  532. 24:39gente tava falando aqui de Decarts, né?
  533. 24:41a inauguração do modernismo, onde usaram
  534. 24:44argumentos científicos para justificar
  535. 24:47atrocidades.
  536. 24:49Como é que você, indígena, lida com esse
  537. 24:54embate de de forças, de saberes na
  538. 24:57academia? Como você se sente vista?
  539. 25:00>> Ah, legal. Eu faço parte de uma das
  540. 25:04primeiras gerações, né, de doutores eh
  541. 25:07indígenas dentro desse espaço. Eu digo
  542. 25:11dentro desse espaço porque nós falamos
  543. 25:13bastante que os nossos doutores do
  544. 25:15território a gente sempre teve, né,
  545. 25:17essas lideranças, essas referências. E
  546. 25:20essa chegada na universidade ela vem
  547. 25:23acompanhada de uma série de entraves
  548. 25:25também de desafios, né? Porque para mim
  549. 25:30o movimento da interculturalidade é
  550. 25:32fundamental. Nós indígenas também
  551. 25:35estamos muito abertos a aprender com
  552. 25:37outros povos, com outras culturas, com
  553. 25:40outras formas de pensar. Agora, se uma
  554. 25:43certa epistemologia, se uma certa
  555. 25:46perspectiva se coloca contra nós e se
  556. 25:50afirma através da nossa destruição,
  557. 25:53então não há saída se não nos
  558. 25:54contrapormos a ela.
  559. 25:56>> E nesse sentido, algo que nós trazemos
  560. 25:59também é que essa separação binária,
  561. 26:01cartesiana, como você trouxe, ela não é
  562. 26:04apenas nociva pros nossos povos, mas
  563. 26:07também as pessoas não indígenas. Como
  564. 26:09psicóloga, algo que eu sempre comento é
  565. 26:12de que a divisão entre o mental e o
  566. 26:14físico, por exemplo, ela por vezes
  567. 26:17dificulta uma escuta mais ampla. Então,
  568. 26:20se alguém, por exemplo, sofre uma
  569. 26:22violência física, isso também não é uma
  570. 26:25violência psicológica?
  571. 26:27Se sofre uma violência psicológica, essa
  572. 26:29pessoa não sente isso no seu corpo, a
  573. 26:31separação enrijecida desses âmbitos nos
  574. 26:34impede muitas vezes de acolher aquilo
  575. 26:36que a gente vivencia. Então é uma
  576. 26:39caminhada que se faz muito, não nessa
  577. 26:41lógica de um crescer para cima, né, mas
  578. 26:44algo que me encanta muito assim aprender
  579. 26:47com os nossos mais velhos de que um
  580. 26:49crescimento muito importante é quando a
  581. 26:51gente cresce para baixo.
  582. 26:53>> Muito bom. E crescer para baixo também
  583. 26:55me lembra essa essa cultura que a gente
  584. 26:59encontra em vários povos, que é o a
  585. 27:01cultura da brincadeira. Eu acho incrível
  586. 27:04que os adultos indígenas brincam. Isso
  587. 27:06faz parte da comunidade, né, do estar em
  588. 27:09comunidade, tá? Faz tem uma importância
  589. 27:12não só simbólica, mas de saúde mesmo,
  590. 27:16eh, psíquica e cultural, muito
  591. 27:18importante. Conta pra gente um pouquinho
  592. 27:20como funciona essa função da
  593. 27:22brincadeira.
  594. 27:23>> E eu tive recentemente uma experiência
  595. 27:25com os parentes do povo Calapalo e o
  596. 27:28parente Faremá Calapalo me dizia o
  597. 27:30seguinte, que dentro do seu povo a
  598. 27:33brincadeira é um jeito de viver.
  599. 27:35>> Uhum. Se brinca para ir pescar, se
  600. 27:37brinca quando se vai dormir, se brinca
  601. 27:40para construir. E essa brincadeira é
  602. 27:42algo que não passa pela lógica
  603. 27:45do lucro, da compra, do objeto. Fazer o
  604. 27:49próprio brinquedo já é a parte da
  605. 27:50brincadeira. Então, pensar que esse
  606. 27:53processo de envolvimento e não de
  607. 27:55desenvolvimento é algo que nos traz
  608. 27:58saúde, porque nos lembra que a
  609. 28:01brincadeira tá muito mais no brincar do
  610. 28:03que no brinquedo, até porque o brincar é
  611. 28:05imaginar. Exato.
  612. 28:07>> E hoje eu penso observando assim, as
  613. 28:10crianças tem até as crianças têm uma
  614. 28:13dificuldade hoje de brincar por causa
  615. 28:16das telas, né? É difícil você chamar uma
  616. 28:18criança, vai pra rua, vai jogar uma
  617. 28:20bola, vai inventar alguma coisa ou lide
  618. 28:22com o tédio, né? Eu lembro, quando era
  619. 28:24criança, eu brincava com colheres e aí
  620. 28:26virava uma novela. Enfim. Você acha que
  621. 28:30o essa ruptura com a imaginação e com a
  622. 28:33brincadeira é um projeto
  623. 28:35>> perfeito
  624. 28:36>> de sustentação desse sistema que a gente
  625. 28:38vive?
  626. 28:39Perfeito. Assim, eu penso que assim como
  627. 28:42a Terra está muito machucada e nós como
  628. 28:46seres que fazem parte também da Terra,
  629. 28:48nós temos essa noção de corpo
  630. 28:50território, né? Então, o corpo também é
  631. 28:52parte desse território. Eh, é inevitável
  632. 28:55que esse essa exaustão, esse cansaço,
  633. 28:59essa exploração, as jornadas extenuantes
  634. 29:02de trabalho também tem a ver com o
  635. 29:04direito ao sonho, com o direito ao
  636. 29:05descanso. Como nós compreendemos que a
  637. 29:07terra também é gente, também a pessoa, é
  638. 29:11fundamental que a terra descanse.
  639. 29:13>> Uhum.
  640. 29:13>> Uma terra que não pode descansar não
  641. 29:15floresce. Eu queria te pedir para você
  642. 29:18ler mais um poema seu que faz parte
  643. 29:21desse brincar também para você eh criar
  644. 29:24esses poemas e escrever também é
  645. 29:26brincar.
  646. 29:27Para mim escrever é brincar também,
  647. 29:30porque eu não gosto de pensar as
  648. 29:33palavras apenas como um recurso. Assim
  649. 29:35como a gente diz que os rios, as
  650. 29:39montanhas, não são só recursos naturais,
  651. 29:42a gente também diz que a palavra também
  652. 29:44não é só esse veículo burocrático da
  653. 29:47comunicação. A palavra também é essa
  654. 29:50invenção, também é esse mote de mudança,
  655. 29:53né? Então eu vou compartilhar com vocês
  656. 29:55um pouquinho dessa brincadeira. É assim,
  657. 29:59os sonhos que tenho contigo não são
  658. 30:02esses dos filmes e novelas. Não precisa
  659. 30:05entrar de branco, nem sequer estamos em
  660. 30:08igrejas.
  661. 30:09Nem precisa trazer alianças de ouro ou
  662. 30:12de prata, porque é outro o pacto que
  663. 30:15quero contigo. Nos meus sonhos há muita
  664. 30:18gente, não estou sozinha. a vagalumes, a
  665. 30:22estrelas cadentes, a crianças, anciães,
  666. 30:26rios, montanhas e brisas, a cuidado
  667. 30:29compartilhado, a tempo de descanso,
  668. 30:32acolhimento, terra e amparo coletivo.
  669. 30:37Os muros já caíram e não precisamos mais
  670. 30:39de milagres, de exceções. E não é apenas
  671. 30:43o ouro que reluz. Sem fronteiras é nesse
  672. 30:46sonho de abundância que floresce o nosso
  673. 30:49encontro.
  674. 30:51Quando te conto um sonho coletivo, essa
  675. 30:54pode ser minha outra maneira de dizer
  676. 30:56que eu te amo.
  677. 30:58Que lindo, Gen.
  678. 31:01Incrível.
  679. 31:04Num cartesiano de monocultura do
  680. 31:07pensamento, como que a diversidade é
  681. 31:09fundamental para que a vida aconteça
  682. 31:12também para reflorestar os nossos
  683. 31:13sonhos? No próximo bloco.
  684. 31:30Voltamos com Jen Ninz do Café
  685. 31:32Filosófico, mostrando como a gente
  686. 31:34merece e precisa conhecer a visão dos
  687. 31:37povos indígenas paraa nossa
  688. 31:39sobrevivência desse planeta, não só
  689. 31:41biológica, mas também psíquica. Até
  690. 31:44porque as duas coisas nunca estiveram
  691. 31:46separadas, não é, Geni? Eu queria que
  692. 31:48você me contasse um pouquinho sobre esse
  693. 31:50seu conceito da descolonização dos
  694. 31:52afetos. Eu tive essa essa pesquisa, né,
  695. 31:57que ainda sigo, que foi justamente para
  696. 32:00entender que a colonização ela não foi
  697. 32:05simplesmente uma invasão territorial no
  698. 32:07sentido mais restrito da palavra, mas
  699. 32:11também foi uma uma invasão na maneira
  700. 32:14como a gente foi ensinado a amar, a se
  701. 32:16encontrar, a se conectar. Então, a
  702. 32:19partir dessa dessa noção, o que eu fui
  703. 32:22entendendo é que a ideia, por exemplo,
  704. 32:25de fidelidade ficou muito resumida a não
  705. 32:29concomitância.
  706. 32:30>> Então, os missionários diziam o
  707. 32:32seguinte: "Os infiéis, como eu falei
  708. 32:34antes, são aqueles que adoram vários
  709. 32:37deuses. Esses infiéis são povos
  710. 32:40adúlteros que não adoram apenas a um
  711. 32:42deus, são desleais, são infiéis."
  712. 32:45Então eu fui entendendo que dentro dessa
  713. 32:47lógica só cabe um. Só cabe um amor, só
  714. 32:51cabe um Deus, só cabe um encontro. E
  715. 32:53isso muitas vezes cria uma sensação
  716. 32:56quase que de perseguição,
  717. 32:58>> porque veja, se a única maneira de eu me
  718. 33:01sentir amada é mais ninguém ser, então a
  719. 33:04beleza do mundo se torna minha inimiga.
  720. 33:07Eu passo a me sentir antagonista de tudo
  721. 33:09aquilo que se torna algo que invada esse
  722. 33:13território de propriedade, né? Então eu
  723. 33:15fui entendendo o quanto que essa invasão
  724. 33:18simbólica também se apresentava na
  725. 33:21monocultura, né? Esse debate também é
  726. 33:23sobre uma certa ética de existência no
  727. 33:25mundo. Se a gente aprende que o mundo
  728. 33:27foi feito pro humano dominar e todo o
  729. 33:31resto tá abaixo da sua existência, então
  730. 33:34qual a surpresa quando há destruição
  731. 33:36desses seres? Já dentro do nosso povo,
  732. 33:39eu lembro de uma narrativa que eu
  733. 33:41escutei outra vez do parente Alberto,
  734. 33:44que ele contava que nós, gentes aqui,
  735. 33:48eh, de vez em quando podíamos emprestar
  736. 33:51a sombra da árvore, mas que as árvores
  737. 33:54tinham sido feitas para que os espíritos
  738. 33:56descansassem debaixo delas, mas que eles
  739. 33:59também deixavam a gente ficar ali.
  740. 34:03Então, é uma narrativa em que o também o
  741. 34:06com, o PAT tem muito mais lugar do que o
  742. 34:09apenas que o exclusivamente, que o tão
  743. 34:11somente.
  744. 34:12>> Uhum. Bom, existe toda essa democracia
  745. 34:15planetária que precisa ser respeitada,
  746. 34:17né? Tem até aquele livro da banda na
  747. 34:19Chiva, Earth Democracy, né, que falam
  748. 34:21bastante disso, desses seres que a gente
  749. 34:23habitam esse planeta junto com a gente e
  750. 34:25que precisam ser respeitados tanto
  751. 34:28quanto a gente tenta pelo menos
  752. 34:29respeitar o humano, porque a gente não
  753. 34:31tem conseguido nem isso, né?
  754. 34:33Mas pensando aqui no inconsciente
  755. 34:35coletivo que o Jung falou tanto, eu
  756. 34:37fiquei pensando uma coisa agora falando
  757. 34:40dos sonhos. Você acha que existe
  758. 34:44aqui uns um grande sonho humano e que a
  759. 34:49gente precisa estar conectado para
  760. 34:51acessar e conseguir sonhar coletivo esse
  761. 34:55futuro possível? Em alguns contextos, a
  762. 34:58ideia de esperança, ela aciona um
  763. 35:02imaginário de um falso otimismo. Eu digo
  764. 35:06falso otimismo porque em alguns casos,
  765. 35:09em determinados tipos de esperança, é
  766. 35:12como se a pessoa só gostasse da vida
  767. 35:15pelo que ela será, só gostasse de
  768. 35:18existir porque vai melhorar. Então é
  769. 35:20essa ideia de que você só consegue ter
  770. 35:23algum lampejo de alegria e de encanto
  771. 35:25pelo que será e não pelo que é. E muito
  772. 35:27da literatura psicológica e também em
  773. 35:30outros campos, nós povos indígenas fomos
  774. 35:33comparados à infância do humano. Então
  775. 35:35diziam que nós éramos as crianças e que
  776. 35:39os adultos seriam a fase civilizada.
  777. 35:42Então, esse processo de fase de
  778. 35:43desenvolvimento envolvia a adesão a esse
  779. 35:47projeto civilizatório. E eu sempre trago
  780. 35:49com muito orgulho assim de que, embora a
  781. 35:52gente saiba que a atribuição de que ai
  782. 35:55vocês são como crianças é feita no
  783. 35:57sentido pejorativo, pra gente é uma
  784. 35:59honra, né? Então, é também entender que
  785. 36:03esse ideal de evolução e de progresso,
  786. 36:06quando ele só coloca no amanhã, no
  787. 36:08futuro, na ideia de de um de um de um
  788. 36:13tempo que não veio a alegria, isso
  789. 36:15também pode ser um sinal, né? Então, até
  790. 36:17quero compartilhar com vocês mais um
  791. 36:20trechinho, eh, que é sobre esse debate
  792. 36:23da esperança. Não gosto muito de
  793. 36:26esperança, pelo menos não essa que é um
  794. 36:29jeito de me convencer de que só no
  795. 36:31amanhã que ainda não veio, que poderei
  796. 36:34ter alguma alegria. Alguém por acaso já
  797. 36:37teve esperança em relação ao que passou
  798. 36:39ao ontem e disse: "Tenho esperança que
  799. 36:43ano passado seja melhor?"
  800. 36:45Ou teve esperança sobre o que vivia no
  801. 36:48exato momento do presente e respirando
  802. 36:51disse: "Tenho esperança de respirar
  803. 36:53agora?" Não. Não me parece ter muito
  804. 36:56sentido ter esperança sobre algo que já
  805. 36:59se vive. Essa esperança hegemônica
  806. 37:02parece ser quase sempre sobre algo que
  807. 37:04não se tem agora. e que só é possível
  808. 37:06ter em algum futuro, próximo ou
  809. 37:09distante.
  810. 37:11A esperança parece crer que o tempo é
  811. 37:13evolutivo e progressivo e que conforme
  812. 37:15sua passagem as coisas naturalmente irão
  813. 37:17melhorar. Mas apesar dessa fé, não temos
  814. 37:21indícios de que o percurso seja assim
  815. 37:23tão linear. A única garantia que temos é
  816. 37:26que as coisas se transformam. Agora,
  817. 37:28como é outra questão. E é por isso que é
  818. 37:32para o aqui e agora que me volto, não
  819. 37:34para uma vida futura ou um amanhã
  820. 37:37transcendental.
  821. 37:39Esperança, a partir de agora será o meu
  822. 37:42critério de quão saudável está minha
  823. 37:44vida. Quanto menos eu tiver de tê-la,
  824. 37:47tanto mais transbordantes estarão meus
  825. 37:49dias. Pois se estou sorrindo agora, não
  826. 37:52preciso ter esperança de sorrir. E se
  827. 37:55estou abraçando, não preciso ter
  828. 37:57esperança de abraçar. Nossos povos têm o
  829. 38:01tempo, tem o presente e mesmo quando não
  830. 38:04temos esperança, temos o movimento e ele
  831. 38:07é o combustível da vida.
  832. 38:09>> Uau!
  833. 38:15Torce, né? torce o nosso pensamento,
  834. 38:18porque a gente tem essa visão da
  835. 38:20esperança como algo positivo, mas eu
  836. 38:21nunca tinha parado para pensar na
  837. 38:23esperança como um balizador que te
  838. 38:25indica que, na verdade, tua vida não tá
  839. 38:26boa. Se você tá ali esperando, né,
  840. 38:29melhorar, é porque não tá bom aqui
  841. 38:31agora. Sensacional. Tem perguntas da
  842. 38:34plateia. Mário Eduardo, nosso curador.
  843. 38:38Elas super emocionantes tuas palavras,
  844. 38:41tão poderosas, porque elas tornam
  845. 38:43pensável, concebível que um
  846. 38:46reencantamento do mundo é possível. E eu
  847. 38:49queria entrar um pouco na conversa de
  848. 38:50vocês duas sobre a questão da
  849. 38:53brincadeira de de nos conectar com esse
  850. 38:56nosso lado criança, né? A Tina tava
  851. 38:59falando que ela brincava com duas
  852. 39:01colherinhas, né?
  853. 39:02A gente vê hoje o mundo em que cada vez
  854. 39:05as crianças brincam menos, elas jogam
  855. 39:07muito, elas entram nos games, mas tem
  856. 39:09cada vez menos brincar.
  857. 39:12Agora, nesse nessa proposta que você faz
  858. 39:15de uma desmontagem do eu, de uma
  859. 39:17desmontagem do humano para uma ampliação
  860. 39:20para pra comunidade, pra ancestralidade,
  861. 39:25pro mundo, né? e o contato corporal,
  862. 39:28físico, carnal com a terra, com o rio,
  863. 39:32você falou uma expressão muito poderosa
  864. 39:35também, a terra tá ferida, a terra tá
  865. 39:37machucada, né? Como poder criar nas
  866. 39:40nossas crianças essa memória corporal
  867. 39:44dessa intimidade com o rio, com a com a
  868. 39:48com a árvore, com o chão? Como
  869. 39:51reconectar com essa experiência carnal
  870. 39:53do mundo? Eu fiquei lembrando de uma
  871. 39:57palavra que eu tenho utilizado para
  872. 39:59nomear isso, que é a palavra
  873. 40:01apartamento, essa dimensão
  874. 40:03arquitetônica, mas acho que vai muito
  875. 40:04além, né, como você bem trouxe, é
  876. 40:06apartamento também entre as pessoas.
  877. 40:09Muito raramente elas podem contar, né,
  878. 40:10umas com as outras. Nem sempre estar
  879. 40:12junto é algo que significa essa
  880. 40:15comunidade, né? Nosso querido Elon Crenc
  881. 40:17diz que é possível nós criarmos
  882. 40:20comunidades temporárias eh que estejam
  883. 40:23também em movimento, né?
  884. 40:24E até lembrei, eu falei agora a pouco do
  885. 40:27parente varem Calapalo e o povo Calapalo
  886. 40:31faz muitas todas as vezes essas
  887. 40:33brincadeiras, essas oficinas na cidade
  888. 40:35com as crianças não indígenas. E algo
  889. 40:38que impactou muito os parentes foi ver
  890. 40:40que crianças ali entre 5 e 7 anos muitas
  891. 40:44das vezes não não sabiam correr. Então,
  892. 40:47de fato, a gente tem essa situação que
  893. 40:49tem muito a ver com esse com esses
  894. 40:51apartamentos todos, né? Por outro lado,
  895. 40:55eu penso também que essa esse
  896. 40:58acolhimento, essa cura, ele precisa
  897. 41:01desse desse toque, né, disso que é muito
  898. 41:03da ordem mesmo do encontro. E eu até
  899. 41:06lembro de uma outra anciã que me dizia o
  900. 41:09seguinte: "Quem tá com muita ideia fixa,
  901. 41:12tá com a ideia muito paralisada, precisa
  902. 41:15dançar".
  903. 41:16Eh, e era muito nessa direção de que a
  904. 41:19dança também movimentava a sensação,
  905. 41:21movimentava o pensamento, né? Então, da
  906. 41:25gente ir além dessa lógica de que é do
  907. 41:28pescoço para cima que tá a ciência, mas
  908. 41:31também lembrar que a gente sente e pensa
  909. 41:33com o tornozelo, com o cotovelo, com os
  910. 41:34ombros, né? Então isso tudo volta para
  911. 41:38algo que para mim, muito embora a
  912. 41:41situação seja muito grave, eh eu até
  913. 41:44lembro que durante a pandemia nós
  914. 41:46tivemos momentos eh de uma certa
  915. 41:50diminuição do tráfego, por exemplo, de
  916. 41:52veículos e rapidamente a paisagem reagiu
  917. 41:56a isso também. Então eu acredito que
  918. 41:58determinadas pausas elas têm ainda a
  919. 42:02possibilidade, nesse caso foi uma pausa
  920. 42:05forçada por algo muito traumático e
  921. 42:07violento, mas eu trago também isso
  922. 42:10porque a gente vê que a Terra reage,
  923. 42:13mesmo que no seu tempo, da sua maneira,
  924. 42:16é possível que ela se refloreste. Então
  925. 42:18eu acredito que dá pr pr as crianças
  926. 42:21correrem de novo.
  927. 42:23Felipe,
  928. 42:24perguntas
  929. 42:26>> algumas. Ah, Larissa diz assim que o
  930. 42:29encantamento do mundo passa por
  931. 42:31reconhecer o sentir como uma tecnologia
  932. 42:34ancestral, uma forma de conhecimento e
  933. 42:36escuta da vida, como construir espaços
  934. 42:39em que sentir também é saber.
  935. 42:42>> Eh, de fato, essa oposição entre pensar
  936. 42:45e sentir, entre razão e emoção, é algo
  937. 42:49que recorta mesmo essa experiência, né?
  938. 42:52E o o Fred Fanon, ele dizia que esse
  939. 42:56processo não é só violento para as
  940. 42:57pessoas colonizadas, mas pro próprio
  941. 43:00colonizador, no sentido de que se essa
  942. 43:04proposição diz que as pessoas negras,
  943. 43:07indígenas seriam o corpo e as pessoas
  944. 43:09brancas seriam a mente, também para as
  945. 43:12pessoas brancas isso é um uma redução,
  946. 43:15porque também elas não são só a mente,
  947. 43:17nem a gente só o corpo. Então, de alguma
  948. 43:20forma, a convocação que a gente faz para
  949. 43:23que haja um engajamento nessas lutas,
  950. 43:25não é no sentido condescendente ou
  951. 43:27caridoso, mas de envolver que isso faz
  952. 43:30parte da sua própria saúde, da sua da
  953. 43:32sua própria movimentação no mundo, né?
  954. 43:34Então o que a gente traz assim sobre
  955. 43:36essa ética coletiva é de que esse
  956. 43:39cuidado com a terra, com os demais
  957. 43:41seres, também é um autocuidado. Um outro
  958. 43:44elemento que eu lembrei, ouvindo essa
  959. 43:46questão do sentir é sobre a palavra
  960. 43:50arandu, que ará significa tempo ou dia
  961. 43:54em guarani e endu significa escuta, mas
  962. 43:58não é só essa escuta com os ouvidos, né?
  963. 44:00Uma escuta mais ampla. E uma das
  964. 44:02traduções de Arandu é sabedoria, que
  965. 44:05saber escutar o tempo é sabedoria, né?
  966. 44:09Então, nesse sentido, eh, envolve uma
  967. 44:13série de outros seres também, porque a
  968. 44:15gente sabe que quando os demais bichos
  969. 44:18eles são acelerados no seu tempo de
  970. 44:20vida, quando a gente vê a depressão e a
  971. 44:23ansiedade, vê outros processos de
  972. 44:25adoecimento, isso também tem a ver com
  973. 44:27esse aceleramento, com esse tempo todo
  974. 44:29que tá eh sem esse arandu, que a gente
  975. 44:32chama, né? Então, para mim, eh, também
  976. 44:34lembrar disso, assim, de que o sentir e
  977. 44:36o pensar não são processos separados. Ao
  978. 44:40invés da esperança que só espera, a Gen
  979. 44:43tá aqui nos convocando para coragem e
  980. 44:46ação também. Se o futuro é ancestral, é
  981. 44:49no presente que ele acontece. O café já
  982. 44:52volta para falar de tudo isso.
  983. 45:07Voltamos com Geni Nunes no Café
  984. 45:09Filosófico e agora ela traz uma receita
  985. 45:12ancestral para reencantar o mundo. Como
  986. 45:14é que a gente testece os sonhos? Dá para
  987. 45:17aprender esse artesanato, Gin?
  988. 45:21Eu gosto muito dessa palavra tesania,
  989. 45:23inclusive para pensar as relações, os
  990. 45:25afetos e também para fazer uma crítica a
  991. 45:28essa divisão de arte e artesanato. Não
  992. 45:30sei se vocês acompanham, mas em alguns
  993. 45:33contextos parece que a arte é aquilo que
  994. 45:35se faz com a mente e o artesanato é
  995. 45:37aquilo que faz com as mãos. Então se
  996. 45:39cria uma espécie de hierarquia entre
  997. 45:41esse âmbito, como se aquilo que se faz
  998. 45:43com as mãos não envolvesse tanto assim o
  999. 45:45pensamento, a tecnologia, né? Então, eu
  1000. 45:48gosto de pensar artesania também como
  1001. 45:50parte desse desse movimento.
  1002. 45:53Um outro elemento assim te ouvindo é de
  1003. 45:56que eu reconheço também que muitas das
  1004. 45:59vezes quando a gente mexe nesses lugares
  1005. 46:01que a gente aprendeu a vida toda que
  1006. 46:03eram a verdade, que eram o sentido, que
  1007. 46:06era a resposta das coisas, muitas das
  1008. 46:10vezes a gente sente um desamparo.
  1009. 46:13Porque se é isso que eu aprendi a vida
  1010. 46:15toda, então de que outro jeito que é
  1011. 46:17possível eu caminhar, né? O Francispanão
  1012. 46:19mesmo, ele dizia, né, que a
  1013. 46:20descolonização é um estado de desordem,
  1014. 46:23porque se a colonização é a ordem, então
  1015. 46:26um abalo disso vai causar uma desordem.
  1016. 46:29Até hoje a gente vive num contexto onde
  1017. 46:32nunca houve reparação dos traumas
  1018. 46:34históricos das violências, como a
  1019. 46:36escravização, a invasão dos territórios.
  1020. 46:38Então, para que a gente volte a sonhar
  1021. 46:40de novo, de uma maneira plena e mais
  1022. 46:44horizontal, é fundamental que a gente
  1023. 46:48reconheça que a colonização não acabou e
  1024. 46:50que é preciso que ela seja reparada, é
  1025. 46:53preciso que isso seja nomeado. E aí, até
  1026. 46:56por isso que no início eu trouxe essa
  1027. 46:57fala sobre o negacionismo, porque o
  1028. 47:00negacionismo é a maneira talvez mais
  1029. 47:02eficaz de fazer com que essas violências
  1030. 47:04continuem. Se toda vez que uma violência
  1031. 47:07acontece, a gente diz que foi uma, não
  1032. 47:09era bem isso, isso não foi violência,
  1033. 47:11isso é mimimi, isso é exagero, é uma
  1034. 47:14maneira que a gente tem de atualizar
  1035. 47:15isso tudo. Então eu penso que nessa
  1036. 47:18dimensão da coragem que você trouxe é
  1037. 47:20também sobre dar espaço para esse
  1038. 47:23desamparo, para aquilo que aparece como
  1039. 47:26dúvida e incerteza, mas que nos convoca
  1040. 47:29esse movimento, essa tarefa de agora,
  1041. 47:31né? Até hoje temos essa essa luta
  1042. 47:34principal que é pelo direito ao
  1043. 47:36território por entender que sem o
  1044. 47:38território, as línguas, os costumes, a
  1045. 47:41brincadeira e o sonho, eles não têm onde
  1046. 47:44descansar.
  1047. 47:46>> Vamos ouvir aqui o depoimento da Hana
  1048. 47:48Limja, que ela é uma antropóloga e ela é
  1049. 47:50autora do livro Mari Ri árvore dos
  1050. 47:53sonhos, um mito e anomame para crianças.
  1051. 47:57Diante de um momento
  1052. 48:00que os sonhos indígenas, os outros modos
  1053. 48:02de sonhar o mundo, tem ganhado mais
  1054. 48:05relevância, tem se falado mais sobre de
  1055. 48:09que maneira é possível sonhar
  1056. 48:10coletivamente
  1057. 48:12sem descolar esses modos coletivos dos
  1058. 48:16seus povos.
  1059. 48:18A gente tem essa expressão em guarani
  1060. 48:20que diz eh sem tecular não tem tecô. Eh,
  1061. 48:25sem a aldeia, sem o território, não é
  1062. 48:27possível ter o modo de vida. Então, o
  1063. 48:30sonho ele também precisa desses
  1064. 48:31elementos, desses ingredientes coletivos
  1065. 48:33de de existência, né? Eu até trouxe aqui
  1066. 48:36uma fala da professora Graciela
  1067. 48:39Chamorro, que foi uma grande
  1068. 48:42pesquisadora também aliada, né, dos
  1069. 48:44nossos povos, que ela diz o seguinte:
  1070. 48:48"As línguas e os sonhos se salvarão pelo
  1071. 48:51falar, pelo escutar e pelo sonhar, pela
  1072. 48:55partilha solidária dos saberes ouvidos e
  1073. 48:58sonhados.
  1074. 48:59Para os caio! Escutar e sonhar marcam
  1075. 49:03dois processos distintos. Duas formas de
  1076. 49:06aprender. Quem aprende pelo escutar,
  1077. 49:10aprende a tradição das palavras dos seus
  1078. 49:12avós. E isso é muito importante. Mas
  1079. 49:15quem aprende pelo sonhar, aprende as
  1080. 49:18palavras primeiras. Essas serão suas
  1081. 49:20palavras, sua experiência. Tanto a
  1082. 49:23palavra escutada quanto a palavra vista
  1083. 49:26são mais fortes e compartilhadas.
  1084. 49:29se tornam fortes quando se tornam sonhos
  1085. 49:32múos, como a palavra inclusiva e
  1086. 49:34recíproca. Esse mito, essa saída de que
  1087. 49:38é possível a gente encontrar alguma
  1088. 49:40resposta e algum caminho sozinho é parte
  1089. 49:42do problema.
  1090. 49:44>> Então, quando nos dizem, por exemplo,
  1091. 49:46vocês, povos indígenas, são os donos da
  1092. 49:48terra, eu até comento, é difícil
  1093. 49:52responder uma pergunta cuja base eu
  1094. 49:54discordo, porque nós também não somos
  1095. 49:56donos da terra, nós somos a terra. Então
  1096. 49:59é essa relação de envolvimento que nós
  1097. 50:02buscamos enfatizar.
  1098. 50:04Nós temos dito que hoje em dia a palavra
  1099. 50:07também é mais uma das nossas flechas.
  1100. 50:09Então eu acredito muito que a nossa
  1101. 50:12presença de alguma forma busca também
  1102. 50:15desobedecer e desestruturar aquilo que
  1103. 50:18que foi pensado.
  1104. 50:19>> Gente, eu tô muito lisongeada porque a
  1105. 50:21Geni ela preparou um poema especialmente
  1106. 50:24para essa ocasião e eu gostaria de pedir
  1107. 50:27para que ela lee. A terra me conta seus
  1108. 50:30sonhos quando vejo no entardecer a
  1109. 50:32polifania dos pássaros.
  1110. 50:35Ela me conta seus pesadelos quando o
  1111. 50:37tatu não tem mais terra para cavar,
  1112. 50:40quando a borboleta não encontra mais
  1113. 50:42nenhuma flor para pousar, quando o
  1114. 50:44macaquinho não tem mais galhas para
  1115. 50:46saltar. Ela também conta seus sonhos
  1116. 50:50quando responde ao reflorestamento de
  1117. 50:52suas feridas, quando os rios racham o
  1118. 50:55cimento e a poluição já não oculta as
  1119. 50:58estrelas.
  1120. 51:00Quando a terra, a terra mãe também é
  1121. 51:03filha, cuida e é cuidada, a terra me
  1122. 51:07conta seus sonhos quando acordo e
  1123. 51:10recordo que o rio também está em nós.
  1124. 51:21Ai, Gen, eu queria ficar a noite inteira
  1125. 51:24conversando com você. Vocês não queriam?
  1126. 51:26Só te ouvindo.
  1127. 51:29Bom, citando Raul Seixas aqui, sonho que
  1128. 51:32se sonha só é só um sonho que se sonha
  1129. 51:35só, mas sonho que se sonha junto é
  1130. 51:37realidade. Eu acho que essa citação, ela
  1131. 51:39é bem significativa para encerrar esse
  1132. 51:41módulo que foi literalmente encantador.
  1133. 51:44Tenho aqui que agradecer ao Mário
  1134. 51:45Eduardo que fez essa curadoria
  1135. 51:47maravilhosa aqui.

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This page contains the full transcript of CAFÉ FILOSÓFICO | 05/07/26 | A terra também sonha: perspectivas indígenas e encantamento do mundo by Café Filosófico CPFL, generated from the public captions YouTube serves with the video. The transcript has 7,278 words across 1,135 segments, with the original timestamps preserved so you can click any line to jump to that moment in the embedded player.

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