A Noite Escura da Alma Esconde um Segredo Milenar — Transcript
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- 0:08Por que o maior poeta cristão da
- 0:10escuridão e um cabalista de Safed, sem
- 0:13que um soubesse da existência do outro,
- 0:16acabaram desenhando, cada um em sua
- 0:18escala uma figura semelhante, a de um
- 0:22Deus que se recolhe para poder unir.
- 0:25[música]
- 0:26Quando a presença de Deus some, a
- 0:29primeira reação de quase todo mundo é
- 0:31tratar isso como fracasso. A oração
- 0:35esfria. O que antes emocionava vira
- 0:39repetição.
- 0:40A pessoa abre o livro de sempre,
- 0:42[música] faz o gesto de sempre e não
- 0:44sente nada. E a conclusão na cabeça de
- 0:48quem reza é quase sempre a mesma. Eu fiz
- 0:51alguma coisa errada. Eu me afastei, eu
- 0:54perdi. [música]
- 0:56Foi assim que aprendemos a ler a
- 0:58ausência como buraco, como sinal de que
- 1:01algo deveria estar [música] ali e não
- 1:03está. Existe, porém, uma tradição
- 1:07inteira que lê [música] a ausência de
- 1:08outro jeito, que olha para o exato
- 1:11momento em que tudo [música] seca, em
- 1:13que a luz se apaga e diz uma frase quase
- 1:16impossível. [música] Não é que Deus
- 1:19tenha ido embora, é que Deus chegou
- 1:21perto demais para ser sentido do jeito
- 1:24antigo. [música] Essa frase tem dono, na
- 1:27verdade tem dois.
- 1:30O primeiro é um frade [música] espanhol,
- 1:32baixo, magro, de saúde frágil, que
- 1:36escreveu o tratado mais célebre da
- 1:38história sobre o que ele chamou de noite
- 1:41escura. O segundo é um rabino que viveu
- 1:44do outro lado do Mediterrâneo, numa
- 1:47cidade pequena no alto da Galiléia, e
- 1:49que ensinou que a própria criação do
- 1:52mundo começou quando o infinito se
- 1:55recolheu para abrir espaço. Os dois
- 1:58viveram no mesmo século. Nenhum deles
- 2:01soube que o outro existia. E os dois
- 2:04descreveram, cada um na sua língua e na
- 2:07sua fé, um movimento semelhante dentro
- 2:10do vazio. Há quem leia a noite escura de
- 2:13São João da Cruz como um caso de
- 2:15depressão clínica [música]
- 2:16vestido de linguagem religiosa. Século
- 2:19X, [música] sem psiquiatra.
- 2:22Há quem leia como mistério sobrenatural
- 2:25puro, [música] coisa que se aceita pela
- 2:27fé ou se descarta de vez.
- 2:30Existe uma terceira maneira de ler isso,
- 2:32[música] mais antiga e mais exigente que
- 2:35as duas, a de que a escuridão de que
- 2:38esses homens falam [música]
- 2:39tem uma forma precisa, quase uma
- 2:42mecânica. E essa forma foi descrita duas
- 2:45vezes [música]
- 2:46em dois circuitos religiosos, sem
- 2:48comunicação conhecida entre si, com uma
- 2:51semelhança que vale olhar de perto,
- 2:53[música] sem inventar nada e sem fingir
- 2:56que não está ali. Vamos por partes,
- 2:59começando pelo homem que deu nome à
- 3:01noite.
- 3:04[música]
- 3:06Ele nasceu em 1542
- 3:08[música] num povoado chamado Fonte
- 3:10Veros, na província de Ávila. No centro
- 3:13árido da Espanha. [música]
- 3:15Foi batizado Juan de Iepes e Álvares. A
- 3:19família era pobre de [música] verdade. O
- 3:22pai Gonzalo trabalhava como contador de
- 3:25parentes mais ricos, mercadores de seda
- 3:28em Toledo. Casou com Catalina, uma
- 3:31tecelã de origem humilde, e por esse
- 3:34casamento, abaixo [música] da própria
- 3:36condição, foi rejeitado pela família e
- 3:39teve de viver do mesmo ofício da mulher.
- 3:42>> [música]
- 3:42>> Tecendo, Gonzalo morreu cedo quando Juan
- 3:46tinha por volta de três anos. Pouco
- 3:49[música] depois, um irmão mais velho do
- 3:51menino morreu também, provavelmente de
- 3:54fome. Catalina ficou sozinha [música]
- 3:57com os filhos que restaram e quase nada
- 4:00nas mãos. E aqui entra um detalhe que
- 4:03convém tratar com [música] cautela.
- 4:05Alguns estudiosos associam a linhagem
- 4:08dos IEPs, [música] a família do Pai, ao
- 4:10universo dos cristãos novos,
- 4:13descendentes de judeus que em alguma
- 4:16geração anterior [música]
- 4:17se converteram ao catolicismo.
- 4:20Isso não significa que praticassem as
- 4:22escondidas a fé dos [música]
- 4:23antepassados e não deve virar a chave
- 4:26secreta da obra. No máximo, é uma
- 4:29possível ressonância do contexto
- 4:31ibérico, aquele mundo em que, algumas
- 4:34[música] gerações antes, alguém de uma
- 4:37linhagem podia ter deixado o judaísmo
- 4:39por escolha ou por [música] pressão,
- 4:41como aconteceu com tanta gente na
- 4:43Espanha daquele tempo. É um detalhe que
- 4:46rima mais adiante com algo maior do que
- 4:49a história de uma família. O menino
- 4:51sobreviveu graças à caridade. Entrou num
- 4:54colégio para crianças pobres, onde
- 4:57aprendeu as primeiras [música] letras e
- 4:59ajudava em missas e enterros para se
- 5:02sustentar. Depois [música] passou pelo
- 5:04colégio dos jesuítas em Medina del
- 5:07Campo, onde estudou latim, retórica e
- 5:10leu os clássicos. Trabalhou ainda como
- 5:13enfermeiro de hospital, [música]
- 5:14cuidando de doentes, e chegou a aprender
- 5:17o ofício de Tecelão, o mesmo da mãe.
- 5:20[música] É um detalhe que volta de um
- 5:21jeito estranho mais adiante. O homem que
- 5:25ia escrever sobre a alma sendo desfeita
- 5:28e refeita por dentro, carregava [música]
- 5:30nas mãos a memória física de desmanchar
- 5:34[música] e tramar fios.
- 5:37Em 1563,
- 5:39ele entrou na Ordem do Carmo. [música]
- 5:41Estudou em Salamanca, um dos grandes
- 5:44centros intelectuais da Europa na época,
- 5:47[música] e foi ordenado padre em 1567.
- 5:51Foi nesse mesmo ano que aconteceu o
- 5:54encontro que mudou o rumo da vida dele.
- 5:56[música] Ele conheceu Teresa de Ávila.
- 5:59Teresa era uma freira mais velha,
- 6:02intensa, [música]
- 6:03prática, que havia começado uma reforma
- 6:05dentro do Carmelo. A ideia era voltar a
- 6:09uma vida mais pobre, [música] mais
- 6:11silenciosa, mais voltada à contemplação.
- 6:15Esses carmelitas reformados ficaram
- 6:18conhecidos como descalços [música]
- 6:20em oposição aos calçados que mantinham a
- 6:23regra mais branda.
- 6:25Teresa viu naquele padre jovem, [música]
- 6:28tímido e rigoroso, o homem certo para
- 6:31levar a reforma também ao ramo masculino
- 6:34da ordem. [música] Juan aceitou e foi
- 6:37por esse caminho que passou a se chamar
- 6:40Juan de la Cruz, [música]
- 6:42João da Cruz. Esse é o pano de fundo de
- 6:45tudo o que vem depois. [música] A
- 6:47reforma rachou a ordem ao meio. De um
- 6:51lado, os que queriam o silêncio e a
- 6:53pobreza.
- 6:54>> [música]
- 6:55>> Do outro, os que viam naquilo uma
- 6:57ameaça, uma rebeldia, uma desobediência.
- 7:01E essa briga interna terminou com João
- 7:04da Cruz na cadeia. [música]
- 7:09Na noite de 2 dezembro de 157, [música]
- 7:13frades carmelitas contrários à reforma
- 7:16invadiram o lugar onde ele estava,
- 7:17[música]
- 7:18prenderam-no e o levaram para o convento
- 7:20da ordem em Toledo. Exigiram que
- 7:23renunciasse ao caminho de Teresa.
- 7:26[música] Ele recusou. A punição foi uma
- 7:28cela. E que cela?
- 7:31Os relatos descrevem um cômodo
- 7:33minúsculo, pouco mais que um armário,
- 7:35com cerca de 3 m por do [música] sem
- 7:38janela de verdade. A única abertura era
- 7:41uma fresta estreita no alto da parede,
- 7:43[música] por onde entrava um fio de luz
- 7:46por poucas horas do dia. Frio no
- 7:48inverno, abafado no calor. Ele ficou ali
- 7:52cerca de 9 meses. foi [música]
- 7:55maltratado, mal alimentado e, segundo os
- 7:58relatos, levado diante dos outros frades
- 8:01[música] para ser repreendido e
- 8:03açoitado.
- 8:04E foi exatamente nesse buraco escuro que
- 8:07João da Cruz começou a compor poesia,
- 8:11sem papel à vontade, com punha de cabeça
- 8:14e guardava na memória. Ali nasceram as
- 8:17primeiras estrofes do que viraria o
- 8:19cântico espiritual [música] e outros
- 8:21poemas. O frade, trancado no escuro
- 8:25respondia ao escuro, [música] fazendo
- 8:27versos sobre luz, sobre amor, sobre
- 8:30encontro.
- 8:32Na noite de 15 de agosto de 1578,
- 8:36[música] ele fugiu, soltou os parafusos
- 8:39da fechadura, desceu por uma abertura,
- 8:41usando tiras feitas [música] de
- 8:43cobertores, e escapou pela muralha. O
- 8:46que mais importa aqui [música] não é a
- 8:48data, é o desenho da cena. Um homem
- 8:52saindo de uma prisão à noite no escuro,
- 8:55sem que ninguém o notasse, [música]
- 8:57guiado por quase nada.
- 9:00Essa cena é o desenho que organiza tudo
- 9:03o que [música] vem a seguir. Um homem
- 9:06deixando uma casa escura no meio da
- 9:08noite, [música] em silêncio, sem luz que
- 9:11o guie,
- 9:15[música]
- 9:16esse mesmo homem ia escrever um poema
- 9:19que começa quase exatamente assim:
- 9:23"Uma alma que sai de casa [música] no
- 9:25escuro sem ser notada, com a casa já em
- 9:29sossego."
- 9:29>> [música]
- 9:30>> indo encontrar quem ama. E quase ninguém
- 9:33repara que o poema mais célebre da
- 9:35mística cristã [música]
- 9:36sobre a noite foi escrito por alguém que
- 9:39tinha no próprio [música] corpo a
- 9:42lembrança de ter atravessado uma noite
- 9:44de verdade [música] para se salvar. Ele
- 9:47se recuperou. Continuou a reforma agora
- 9:51na Andalusia, no sul da Espanha,
- 9:53[música]
- 9:54uma região que ainda se reassentava como
- 9:56terra cristã depois de séculos de
- 9:59presença muçulmana e judaica.
- 10:02Foi ali, [música] nos anos seguintes,
- 10:04que escreveu seus grandes tratados em
- 10:06prosa e foi ali que transformou aquela
- 10:09experiência da cela numa doutrina.
- 10:12João da [música] Cruz morreu em 1591
- 10:15na cidade de Úeda, doente, marginalizado
- 10:18de novo por disputas [música]
- 10:20dentro da própria ordem que ajudara a
- 10:22fundar. Foi canonizado em 1726.
- 10:27E em 1926,
- 10:29quase [música] quatro séculos depois da
- 10:31morte, a igreja o declarou doutor da
- 10:34igreja, com um título que diz tudo,
- 10:37doutor místico.
- 10:39Mas o que nos interessa não é a
- 10:42santidade oficial, é a mecânica que ele
- 10:45descreveu. E para chegar nela,
- 10:48precisamos primeiro do poema.
- 10:51[música]
- 10:53Tem uma coisa sobre João da Cruz que
- 10:55muda por completo a forma de ler o que
- 10:57ele fez e é simples. [música]
- 10:59O poema veio primeiro, o tratado veio
- 11:02depois. Ele não sentou para escrever um
- 11:05manual de teologia e depois enfeitou
- 11:08conversos. Foi o contrário. Primeiro
- 11:12saíram os poemas, curtos, [música]
- 11:14ardentes, quase canções de amor. Só mais
- 11:18tarde, muitas vezes a pedido de freiras
- 11:21e discípulos que perguntavam o que
- 11:23aquilo significava, é que ele escreveu
- 11:25longos comentários em prosa, [música]
- 11:28explicando verso por verso o que tinha
- 11:30vivido. O poema da noite escura tem oito
- 11:34estrofes.
- 11:36Conta em primeira pessoa na voz de uma
- 11:38mulher. A história de uma alma que
- 11:40escapa de casa numa noite disfarçada,
- 11:43[música]
- 11:44sem ser vista, com o coração em chamas
- 11:46de amor para encontrar o amado. A casa
- 11:50está em silêncio. Não há luz nenhuma, a
- 11:53não ser nas palavras dele, a que arde no
- 11:56próprio peito. E o mais surpreendente do
- 11:59poema é o tom. Ele não trata a noite
- 12:03como tragédia, trata como sorte.
- 12:06Num dos versos mais conhecidos, chama
- 12:09essa noite de ditosa, de afortunada, e
- 12:12se dirige a ela diretamente.
- 12:15Ó noite que me guiaste, ó noite mais
- 12:18amável que a alvorada, ó noite que
- 12:21uniste o amado com a amada. O que
- 12:23acontece nesses versos é uma inversão.
- 12:27A noite não é o obstáculo entre a alma e
- 12:31Deus. É o que conduz a alma até Deus.
- 12:35É a própria escuridão que faz o encontro
- 12:38acontecer.
- 12:39Até aqui é o que o poema diz. O que ele
- 12:43significa? João da Cruz levou anos para
- 12:47explicar. [música]
- 12:50Ele escreveu dois grandes comentários
- 12:53sobre esse poema. Um se chama Subida do
- 12:56Monte Carmelo. O outro se chama
- 12:58simplesmente Noite Escura.
- 13:01Os dois explicam o mesmo poema, de
- 13:04ângulos diferentes. E aqui [música] está
- 13:07o coração da doutrina dele, do jeito
- 13:09mais direto que eu consigo dizer. Para
- 13:12João da Cruz, existe um momento no
- 13:15caminho de quem leva a vida espiritual a
- 13:17sério, [música] em que tudo o que
- 13:18funcionava para de funcionar. No começo,
- 13:22a pessoa reza usando a imaginação e o
- 13:24raciocínio.
- 13:26Pensa em cenas, constrói imagens, sente
- 13:29emoções, tira conclusões. [música] Ele
- 13:32chama isso de meditação e diz que é bom
- 13:35e necessário [música] no início. É a
- 13:38fase do principiante.
- 13:40Aí, num certo ponto, isso seca. A pessoa
- 13:44[música] tenta imaginar e não consegue.
- 13:47Tenta sentir e não sente. A oração de
- 13:51antes vira pó na boca [música] e também
- 13:53não consegue mais se interessar pelas
- 13:56distrações de fora. Fica num entreelugar
- 13:59árido, sem o gosto de Deus [música] e
- 14:02sem o gosto do mundo. A reação natural é
- 14:05entrar em pânico, [música]
- 14:07achar que pecou, que está sendo punida,
- 14:10que regrediu. [música]
- 14:12E é aqui que João da Cruz faz a virada
- 14:15mais importante [música] de toda a sua
- 14:17obra. Ele diz que na maioria dos casos
- 14:20essa secura não é castigo nem fracasso,
- 14:24é sinal de avanço. É Deus tirando a
- 14:27pessoa do caminho da meditação, que usa
- 14:30imagens e ideias e começando a
- 14:33conduzi-la por outro caminho que ele
- 14:35chama de contemplação. E define
- 14:37contemplação de um jeito muito
- 14:39específico. [música] Não é uma técnica
- 14:42que a pessoa faz, é algo que ela recebe.
- 14:46Nas palavras dele, contemplação [música]
- 14:48é uma infusão secreta, pacífica e
- 14:51amorosa de Deus na alma. [música] Uma
- 14:54comunicação que entra por baixo do
- 14:56raciocínio e da imaginação, num nível
- 15:00que esses instrumentos não alcançam.
- 15:02[música]
- 15:03E aqui está a explicação da escuridão. E
- 15:05ela é mais exata do que se espera. Por
- 15:08quê? [música] Se é Deus chegando, a
- 15:11pessoa sente escuridão e não luz. Porque
- 15:14a luz é forte demais para o instrumento.
- 15:16Ele [música] compara com algo que todo
- 15:18mundo conhece. Quando você olha direto
- 15:21para o sol, não vê [música] mais, vê
- 15:24menos. A claridade excessiva não enche o
- 15:27olho de imagem, ela cega.
- 15:30O problema não está na falta de luz,
- 15:32[música] e sim no excesso dela. Luz
- 15:35acima da medida que o olho suporta.
- 15:39A escuridão [música]
- 15:40ali é o nome que damos ao excesso de
- 15:42claridade que [música] os sentidos não
- 15:45conseguem processar. É exatamente isso
- 15:48que João da Cruz [música] diz acontecer
- 15:50com a alma. A luz de chegando direto sem
- 15:54[música] passar pela imaginação,
- 15:56escurece o entendimento, porque há um
- 15:59contraste sem [música] proporção entre o
- 16:01que é finito em nós e o que é infinito
- 16:05[música] nele. O que a alma chama de
- 16:08noite não é a ausência de Deus, [música]
- 16:11é a presença de Deus em quantidade que
- 16:13as faculdades humanas não têm como
- 16:15segurar. A escuridão de São João não é a
- 16:19falta de Deus, é Deus chegando em medida
- 16:22que os sentidos não conseguem [música]
- 16:24reter. Do mesmo jeito que ficamos cegos,
- 16:27não na ausência de luz, mas diante de
- 16:30luz demais.
- 16:32A doutrina dele organiza esse processo
- 16:34[música] em etapas.
- 16:36Há uma purificação dos sentidos mais
- 16:39externa, em que se desfaz o apego da
- 16:42pessoa [música] às consolações e aos
- 16:44prazeres ligados à própria vida
- 16:47espiritual.
- 16:49E há uma purificação mais funda [música]
- 16:52do espírito que toca o núcleo das
- 16:54faculdades, o entendimento, a memória, a
- 16:58[música] vontade.
- 17:00Em cada uma delas há uma parte que cabe
- 17:03à pessoa, o [música] esforço voluntário
- 17:05de se desapegar e uma parte que só Deus
- 17:09faz [música] e que a pessoa apenas sofre
- 17:11e recebe sem controle.
- 17:14A [música] parte que cabe à pessoa, ele
- 17:17descreve com uma palavra dura e simples,
- 17:21nada. [música]
- 17:22Para chegar ao tudo, é preciso passar
- 17:25pelo nada, desapegar-se do gosto, do
- 17:29saber, do ter, [música] do poder, até
- 17:33das consolações religiosas. Não porque
- 17:35[música] essas coisas sejam más, mas
- 17:38porque o apego a elas ocupa o lugar que
- 17:41só o infinito poderia ocupar.
- 17:44É um esvaziamento.
- 17:46A alma se torna um espaço aberto,
- 17:48[música] vazio de tudo o que não é Deus,
- 17:52justamente para poder ser preenchida por
- 17:54Deus. E João da Cruz, que era um homem
- 17:57cauteloso, ainda dá sinais para a pessoa
- 18:00distinguir essa secura [música] que
- 18:02purifica de uma secura comum, nascida de
- 18:05desânimo ou descuido. Um dos sinais
- 18:08[música]
- 18:09é que ela não encontra gosto nem nas
- 18:11coisas de Deus, nem nas coisas do mundo.
- 18:15Outro é que carrega a lembrança de Deus
- 18:17com uma preocupação dolorida, [música]
- 18:19achando que não o serve, que está
- 18:22retrocedendo justo quando avança.
- 18:25Resumindo o que ele escreve [música]
- 18:27na noite, o sentimento de estar falhando
- 18:30é muitas vezes o próprio sinal de que
- 18:33algo verdadeiro está acontecendo.
- 18:36Aqui cabe uma ressalva que o próprio
- 18:39cuidado com o tema [música] exige. Essa
- 18:42noite em João da Cruz é uma categoria
- 18:45mística específica, não um diagnóstico.
- 18:49Ele não está [música] descrevendo
- 18:50depressão e o que ele escreve não
- 18:52substitui acompanhamento clínico.
- 18:55Sofrimento psíquico real. O que adoece,
- 18:59o que paralisa, [música]
- 19:00o que não passa, pode pedir ajuda médica
- 19:03ou terapêutica. E nada na mística
- 19:06[música] carmelita diz o contrário. A
- 19:09noite escura de que ele fala [música]
- 19:11não romantiza a dor. É uma travessia
- 19:14interior que ele distingue [música]
- 19:16com cuidado justamente da dor que apenas
- 19:19machuca. Três imagens se sobrepõ nesse
- 19:22ponto. Uma ausência [música] que não é
- 19:25falta, uma escuridão que é luz em
- 19:28excesso, um vazio aberto de propósito
- 19:31para que algo possa [música] nascer.
- 19:37E uma forma semelhante já havia sido
- 19:39desenhada antes, [música] não cela
- 19:42espanhola, mas numa colina no extremo
- 19:45oriental do Mediterrâneo.
- 19:47Poucos anos antes de João da Cruz
- 19:49atravessar [música] sua noite em Toledo,
- 19:52um rabino chamado Isaac Lúria havia
- 19:55ensinado em Sefed uma imagem cósmica do
- 19:58recolhimento divino. Lúria nasceu por
- 20:01volta de 1534
- 20:03em Jerusalém. [música] Ficou conhecido
- 20:06pelo apelido de Ari, que em hebraico
- 20:09quer dizer o leão, e que funciona também
- 20:11como sigla de uma expressão reverente,
- 20:14algo como o divino rabino Isaque.
- 20:17[música]
- 20:18Quando os discípulos lhe acrescentavam o
- 20:20título de santo, diziam: "A Rakados, o
- 20:24santo leão".
- 20:26O pai de Lúria era Asquenaz, do norte da
- 20:30Europa, a mãe cefardita.
- 20:34O pai morreu cedo [música] e o menino
- 20:36foi criado por um tio rico no Cairo, no
- 20:39Egito, [música] onde estudou as leis
- 20:41judaicas e se aprofundou no Zorrar, o
- 20:44grande livro da mística [música]
- 20:46judaica. Conta-se que passou anos em
- 20:49retiro, isolado às margens do [música]
- 20:51Nilo, voltando à família apenas no
- 20:53sábado. Desse período, parte [música] é
- 20:56biografia e parte é a auréula que se
- 20:59formou em torno do nome. Em 1570,
- 21:03[música]
- 21:04Lúria chegou a uma cidade pequena
- 21:06chamada Safed, no alto da Galileia,
- 21:09então [música] sob domínio otomano. E
- 21:12essa cidade precisa de uma explicação,
- 21:14porque é aqui que [música] a história
- 21:16ganha peso. Em 1492,
- 21:20a Espanha expulsou os judeus de seu
- 21:22território. [música] Foi o mesmo reino,
- 21:25a mesma coroa, o mesmo mundo ibérico que
- 21:29poucas décadas depois [música]
- 21:30veria nascer João da Cruz. Os judeus
- 21:34expulsos da Península se [música]
- 21:35espalharam pelo Mediterrâneo e muitos
- 21:38dos que se dedicavam à mística foram
- 21:41parar justamente em [música] Safed. Ao
- 21:43longo do século X, aquela cidadezinha se
- 21:47tornou o centro mundial da Cabala,
- 21:49povoada por exilados de Espanha,
- 21:51[música]
- 21:51de Portugal, da Itália. A cena vista de
- 21:55[música] cima e ao longo do século é
- 21:58esta: De um lado do mar, na Espanha, um
- 22:02[música] frade, cuja origem alguns ligam
- 22:04aos cristãos novos, escreverá sobre a
- 22:07noite da alma. Do outro, [música]
- 22:10numa colina otomana, uma comunidade de
- 22:13judeus expulsos daquela mesma Espanha
- 22:16reinventa a mística [música] a partir do
- 22:18exílio. A expulsão que partiu um mundo
- 22:22ao meio é sem que ninguém planejasse o
- 22:25fundo de tela das duas [música]
- 22:27histórias. Em Safed, Lúria conviveu por
- 22:31pouco tempo com outro grande cabalista,
- 22:33[música] Moisés Cordoveiro, e depois da
- 22:36morte dele, tornou-se a figura central
- 22:38daquele círculo. Ensinou [música] por
- 22:41cerca de 2 anos apenas. Morreu jovem com
- 22:45cerca de 38 anos numa epidemia em 1572.
- 22:50[música]
- 22:50E aqui vem outro eco com João da Cruz.
- 22:54Lúria quase não deixou nada escrito de
- 22:57próprio punho, [música] só alguns hinos.
- 23:00Tudo o que sabemos do sistema dele
- 23:02[música] chegou pela mão de discípulos,
- 23:05principalmente um chamado Shaim Vital,
- 23:08[música] que registrou e organizou os
- 23:11ensinamentos do Mestre. Os dois homens,
- 23:14cada um à sua maneira, deixaram
- 23:16doutrinas que dependeram de outras mãos
- 23:19para chegar ao papel. Agora o
- 23:21ensinamento.
- 23:23Lúria começa a explicar a criação do
- 23:26mundo com uma pergunta que parece
- 23:28ingênua e é vertiginosa.
- 23:31Se Deus é infinito, [música] se está em
- 23:33toda parte sem limite, então não sobra
- 23:37lugar nenhum para mais nada existir. Se
- 23:41o infinito ocupa tudo, onde caberia um
- 23:44universo finito?
- 23:45>> [música]
- 23:46>> A resposta de Lúria é uma das ideias
- 23:48mais ousadas de toda a mística. Ele a
- 23:51chama de tsimsum, palavra hebraica, que
- 23:54significa contração, retração,
- 23:57recolhimento.
- 23:59Para que o mundo pudesse existir, diz
- 24:01Lúria, o infinito, que em hebraico se
- 24:04chama Sof, o sem fim, contraiu-se,
- 24:10recolheu-se para dentro de si mesmo,
- 24:12abrindo no centro um espaço vazio. Os
- 24:16textos chamam esse vazio de Shalau, o
- 24:19espaço vago, ou no aramaico do Zohar de
- 24:23Teriru. É dentro desse oco aberto pela
- 24:27retração divina que a criação poôde
- 24:29acontecer. Depois, um fio de luz tornou
- 24:33a entrar nesse espaço de forma medida
- 24:36para dar origem aos mundos. E há um
- 24:39detalhe fino que convém guardar. A
- 24:43retração nunca é total.
- 24:46Mesmo no espaço esvaziado fica um
- 24:48resíduo de luz. Os cabalistas o chamam
- 24:51de reimu, o traço, a marca que sobra,
- 24:55como o perfume que permanece num frasco
- 24:58já vazio. Deus se recolhe, mas não some
- 25:01por inteiro. Essa imagem é o centro de
- 25:05tudo. Os comentadores costumam explicar
- 25:08o Tsinum com uma comparação corporal.
- 25:11[música]
- 25:11É como alguém que precisa inspirar,
- 25:14puxar o ar para dentro, encolher-se para
- 25:18deixar outra pessoa passar por um
- 25:20corredor estreito. Deus, por assim
- 25:22dizer, prende a respiração e recua. E é
- 25:26nesse recuo que se abre o lugar para o
- 25:28outro existir. E o sentido disso é o
- 25:31avesso do que se esperaria. Para Lúria,
- 25:34[música] o vazio não é o lugar de onde
- 25:37Deus está ausente. É o lugar que Deus
- 25:40abriu de propósito, retirando-se para
- 25:43que algo diferente dele pudesse vir a
- 25:45ser. A criação não começa com Deus
- 25:49enchendo, começa com Deus se retirando.
- 25:52[música]
- 25:53O primeiro gesto divino na cabala
- 25:56luriana não é expansão, [música] é
- 25:58recolhimento.
- 26:03Agora os dois lado a lado, e que fique
- 26:06claro de saída. Não há evidência
- 26:09conhecida de leitura, de encontro ou de
- 26:12influência direta entre esses dois
- 26:14homens. eram duas arquiteturas
- 26:16espirituais, separadas por língua, por
- 26:19instituição, por trauma histórico e por
- 26:22fronteira religiosa. Fronteiras que a
- 26:25Inquisição mantinha fechadas a ferro.
- 26:29O que existe entre eles não é
- 26:31influência, [música] é uma coincidência
- 26:33de forma e é só ela que vale mostrar,
- 26:36sem inflar e sem esconder. O que João da
- 26:39Cruz descreve na escala de uma única
- 26:41alma, Lúria descreve na escala do cosmos
- 26:45inteiro. João diz: [música] "Deus retira
- 26:48a presença sentida, recolhe a luz que as
- 26:51faculdades conseguiam segurar e abre na
- 26:54alma um vazio [música] para que essa
- 26:56alma seja refeita e unida a ele." Lúria
- 27:00diz: "Deus se retira, [música] abre um
- 27:03vazio para que o mundo inteiro possa
- 27:06existir e no fim retornar a ele. Um
- 27:10mesmo desenho espiritual traçado em duas
- 27:13escalas. Uma [música] do tamanho de uma
- 27:16pessoa, a outra do tamanho de tudo. Dois
- 27:21homens no mesmo século em dois circuitos
- 27:24religiosos sem contato [música]
- 27:25conhecido, chegaram a uma imagem
- 27:28semelhante e quase impossível.
- 27:31O vazio não é onde Deus falta, [música]
- 27:34é onde Deus se recolhe para abrir lugar.
- 27:37[música]
- 27:40A história que Lúria conta [música] não
- 27:42para no Tsinsum. Ela continua e a
- 27:46continuação aprofunda o paralelo,
- 27:48[música] desde que a gente não force a
- 27:51mão. Depois que o espaço vazio se abriu,
- 27:54conta Lúria, a luz divina jorrou para
- 27:57dentro [música] dele e essa luz deveria
- 28:00ser contida por recipientes, por vasos.
- 28:03[música]
- 28:04Esses vasos eram as primeiras estruturas
- 28:07da criação, mas a luz [música] era forte
- 28:10demais. Os vasos não aguentaram.
- 28:14Quebraram. Esse evento tem nome Chevirat
- 28:17[música]
- 28:18Hakelim, a quebra dos vasos.
- 28:22Com o [música] estilhaçamento, fagulhas
- 28:24daquela luz, chamadas de centelhas,
- 28:26[música]
- 28:27se dispersaram e ficaram presas dentro
- 28:30de cascas, [música] de fragmentos que a
- 28:33tradição chama de kelipot. O mal nesse
- 28:36sistema não é um princípio equivalente a
- 28:39Deus. É desordem, mistura, [música]
- 28:42queda, sentelhas de luz presas em
- 28:45estruturas opacas.
- 28:48O eco com João da Cruz [música] salta
- 28:50aqui. Para o frade espanhol, as
- 28:53faculdades humanas, a imaginação, o
- 28:56entendimento, a memória são como vasos e
- 29:00também não conseguem conter a luz que
- 29:02[música] chega na contemplação.
- 29:05Daí a sensação de quebra, de desmonte,
- 29:08de que o jeito antigo de rezar, [música]
- 29:10de pensar, de sentir Deus, se
- 29:13despedaçou.
- 29:15A noite escura [música]
- 29:16lida ao lado de Lúria, tem esse desenho.
- 29:20É o instante [música] em que os vasos do
- 29:22modo antigo se partem, porque a luz nova
- 29:25não cabe neles. [música] E então vem a
- 29:27terceira parte do sistema de Lúria, que
- 29:30é o destino de tudo. Se as centelhas
- 29:32[música] se espalharam e ficaram presas,
- 29:35a tarefa do ser humano é recolhê-las,
- 29:37[música]
- 29:38reuni-las, levantá-las de volta à
- 29:40origem. Esse trabalho de restauração
- 29:43também tem nome. Ticum, [música] palavra
- 29:46hebraica que significa reparo, conserto,
- 29:50correção. Cada gesto justo, cada oração
- 29:53[música]
- 29:54feita com intenção verdadeira, cada ato
- 29:56bom ajuda [música] a juntar uma centelha
- 29:59dispersa e a reconduzi-la à luz de onde
- 30:02caiu. Quando esse reparo se completa,
- 30:06vem a redenção [música] não só de um
- 30:08povo, mas de toda a criação. E aqui está
- 30:12o espelho final. A noite [música] escura
- 30:15de João da Cruz é ela também um trabalho
- 30:18de reparo. O esvaziamento, a secura, a
- 30:22quebra do modo antigo. Nada disso é o
- 30:25fim. É a etapa [música] que reúne a
- 30:28alma, que a recolhe de sua dispersão
- 30:31entre mil apegos pequenos [música] e a
- 30:34reconduz à união.
- 30:36A noite não destrói por [música]
- 30:38destruir, ela desfaz para refazer.
- 30:42E há uma diferença que seria fácil
- 30:44ignorar e desonesto esconder.
- 30:48[música] Esses dois sistemas não são
- 30:50idênticos.
- 30:52A cabala luriana é um mito [música]
- 30:54cósmico. Explica a origem do mundo, a
- 30:58presença do mal, o exílio [música] do
- 31:00povo judeu, a redenção universal.
- 31:05A doutrina de João da Cruz é um
- 31:07itinerário, um roteiro interior para uma
- 31:10alma chegar à união com Deus. Um
- 31:13organiza uma cosmogonia, o outro
- 31:16descreve a travessia da alma. O que eles
- 31:20têm em comum não é a doutrina, é o gesto
- 31:23que está na raiz das duas, [música]
- 31:25a retração que cria, o vazio que une, a
- 31:29escuridão [música] que em vez de separar
- 31:32conduz. Não é o mesmo mapa. [música] É
- 31:35um movimento formalmente semelhante,
- 31:38desenhado por duas mãos que nunca se
- 31:40viram. [música]
- 31:45Volta [música] para fechar a cena do
- 31:48começo. Um homem saindo de uma casa
- 31:51escura no meio da noite em silêncio,
- 31:53[música]
- 31:54sem luz que o guie. Aquilo foi a
- 31:56biografia de João da Cruz [música] ao pé
- 31:59da letra, a fuga de uma cela em Toledo à
- 32:02noite, descendo por uma abertura.
- 32:05E aquilo virou depois a primeira estrofe
- 32:08do poema mais famoso dele, em que uma
- 32:11alma sai de casa na [música] escuridão
- 32:12para encontrar quem ama.
- 32:15A vida dele e a doutrina dele [música]
- 32:17tem o mesmo formato. Um homem que
- 32:20atravessou de verdade uma noite para se
- 32:22salvar passou o resto da vida [música]
- 32:24explicando que a alma faz a mesma
- 32:27travessia e que a noite, longe de ser o
- 32:30inimigo, é o caminho. E o que essas duas
- 32:34tradições, uma cristã e uma judaica,
- 32:37separadas por tudo [música] e unidas
- 32:39apenas por essa coincidência de forma,
- 32:42parecem dizer vai na contramão de quase
- 32:45todo o [música] reflexo do nosso tempo.
- 32:48Fomos treinados para encarar todo o
- 32:50vazio como problema, toda a [música]
- 32:52escuridão como falha de iluminação,
- 32:56todo silêncio interior [música] como
- 32:58sintoma a ser medicado, preenchido,
- 33:01resolvido [música] o quanto antes. A
- 33:04primeira coisa que se faz com a ausência
- 33:07hoje é tentar acabar com ela. [música]
- 33:11Esses dois homens, vindos de mundos que
- 33:13já não existem, sustentam o contrário.
- 33:17Não que toda a escuridão seja boa,
- 33:19[música]
- 33:19nem que todo sofrimento valha a pena,
- 33:22nem que a dor não precise muitas vezes
- 33:25de cuidado e de remédio, mas que existe
- 33:28um tipo de vazio que não é avaria nem
- 33:31castigo, e sim passagem.
- 33:34Um espaço que se abre exatamente para
- 33:37que algo novo possa entrar. A noite
- 33:40[música] escura não é uma metáfora
- 33:42bonita para tristeza. é a descrição de
- 33:45uma travessia que se pode entender com a
- 33:48cabeça [música] e ainda assim não
- 33:50atravessar com a vida. Dá para ler tudo
- 33:53isso, concordar, achar elegante e
- 33:57continuar tratando a [música] própria
- 33:58escuridão como defeito a ser consertado
- 34:02depressa. A distância entre compreender
- 34:05a noite e atravessá-la é a mesma que
- 34:08separa saber que a [música] porta está
- 34:10aberta de, enfim, passar por ela.
- 34:14Fica para um próximo encontro uma
- 34:17pergunta que esses dois deixam no ar e
- 34:19que merece um capítulo [música] só dela.
- 34:23Se tanto a criação do mundo quanto a
- 34:25união da alma começam com uma retração,
- 34:28[música] com um Deus que recua para
- 34:30abrir espaço, então talvez o silêncio de
- 34:33Deus, [música] aquele que tantos leem
- 34:36como abandono, mereça um segundo olhar.
- 34:39Talvez não seja a prova de que não há
- 34:41ninguém ouvindo. Talvez seja a forma
- 34:45difícil [música] e antiga de abrir o
- 34:47lugar onde o encontro finalmente cabe.
- 34:51Mas isso fica para outro dia. [música]
- 34:53Por hora, basta a imagem de onde
- 34:56partimos. Uma casa em silêncio, uma
- 34:59porta aberta e alguém que sai no escuro
- 35:02sem outra luz senão a que arde por
- 35:04dentro, [música]
- 35:05indo exatamente para onde precisa
- 35:08chegar.
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This page contains the full transcript of A Noite Escura da Alma Esconde um Segredo Milenar by Viés Psicológico, generated from the public captions YouTube serves with the video. The transcript has 4,763 words across 772 segments, with the original timestamps preserved so you can click any line to jump to that moment in the embedded player.
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