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A Noite Escura da Alma Esconde um Segredo Milenar — Transcript

by Viés Psicológico · 4,763 words · 772 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:08Por que o maior poeta cristão da
  2. 0:10escuridão e um cabalista de Safed, sem
  3. 0:13que um soubesse da existência do outro,
  4. 0:16acabaram desenhando, cada um em sua
  5. 0:18escala uma figura semelhante, a de um
  6. 0:22Deus que se recolhe para poder unir.
  7. 0:25[música]
  8. 0:26Quando a presença de Deus some, a
  9. 0:29primeira reação de quase todo mundo é
  10. 0:31tratar isso como fracasso. A oração
  11. 0:35esfria. O que antes emocionava vira
  12. 0:39repetição.
  13. 0:40A pessoa abre o livro de sempre,
  14. 0:42[música] faz o gesto de sempre e não
  15. 0:44sente nada. E a conclusão na cabeça de
  16. 0:48quem reza é quase sempre a mesma. Eu fiz
  17. 0:51alguma coisa errada. Eu me afastei, eu
  18. 0:54perdi. [música]
  19. 0:56Foi assim que aprendemos a ler a
  20. 0:58ausência como buraco, como sinal de que
  21. 1:01algo deveria estar [música] ali e não
  22. 1:03está. Existe, porém, uma tradição
  23. 1:07inteira que lê [música] a ausência de
  24. 1:08outro jeito, que olha para o exato
  25. 1:11momento em que tudo [música] seca, em
  26. 1:13que a luz se apaga e diz uma frase quase
  27. 1:16impossível. [música] Não é que Deus
  28. 1:19tenha ido embora, é que Deus chegou
  29. 1:21perto demais para ser sentido do jeito
  30. 1:24antigo. [música] Essa frase tem dono, na
  31. 1:27verdade tem dois.
  32. 1:30O primeiro é um frade [música] espanhol,
  33. 1:32baixo, magro, de saúde frágil, que
  34. 1:36escreveu o tratado mais célebre da
  35. 1:38história sobre o que ele chamou de noite
  36. 1:41escura. O segundo é um rabino que viveu
  37. 1:44do outro lado do Mediterrâneo, numa
  38. 1:47cidade pequena no alto da Galiléia, e
  39. 1:49que ensinou que a própria criação do
  40. 1:52mundo começou quando o infinito se
  41. 1:55recolheu para abrir espaço. Os dois
  42. 1:58viveram no mesmo século. Nenhum deles
  43. 2:01soube que o outro existia. E os dois
  44. 2:04descreveram, cada um na sua língua e na
  45. 2:07sua fé, um movimento semelhante dentro
  46. 2:10do vazio. Há quem leia a noite escura de
  47. 2:13São João da Cruz como um caso de
  48. 2:15depressão clínica [música]
  49. 2:16vestido de linguagem religiosa. Século
  50. 2:19X, [música] sem psiquiatra.
  51. 2:22Há quem leia como mistério sobrenatural
  52. 2:25puro, [música] coisa que se aceita pela
  53. 2:27fé ou se descarta de vez.
  54. 2:30Existe uma terceira maneira de ler isso,
  55. 2:32[música] mais antiga e mais exigente que
  56. 2:35as duas, a de que a escuridão de que
  57. 2:38esses homens falam [música]
  58. 2:39tem uma forma precisa, quase uma
  59. 2:42mecânica. E essa forma foi descrita duas
  60. 2:45vezes [música]
  61. 2:46em dois circuitos religiosos, sem
  62. 2:48comunicação conhecida entre si, com uma
  63. 2:51semelhança que vale olhar de perto,
  64. 2:53[música] sem inventar nada e sem fingir
  65. 2:56que não está ali. Vamos por partes,
  66. 2:59começando pelo homem que deu nome à
  67. 3:01noite.
  68. 3:04[música]
  69. 3:06Ele nasceu em 1542
  70. 3:08[música] num povoado chamado Fonte
  71. 3:10Veros, na província de Ávila. No centro
  72. 3:13árido da Espanha. [música]
  73. 3:15Foi batizado Juan de Iepes e Álvares. A
  74. 3:19família era pobre de [música] verdade. O
  75. 3:22pai Gonzalo trabalhava como contador de
  76. 3:25parentes mais ricos, mercadores de seda
  77. 3:28em Toledo. Casou com Catalina, uma
  78. 3:31tecelã de origem humilde, e por esse
  79. 3:34casamento, abaixo [música] da própria
  80. 3:36condição, foi rejeitado pela família e
  81. 3:39teve de viver do mesmo ofício da mulher.
  82. 3:42>> [música]
  83. 3:42>> Tecendo, Gonzalo morreu cedo quando Juan
  84. 3:46tinha por volta de três anos. Pouco
  85. 3:49[música] depois, um irmão mais velho do
  86. 3:51menino morreu também, provavelmente de
  87. 3:54fome. Catalina ficou sozinha [música]
  88. 3:57com os filhos que restaram e quase nada
  89. 4:00nas mãos. E aqui entra um detalhe que
  90. 4:03convém tratar com [música] cautela.
  91. 4:05Alguns estudiosos associam a linhagem
  92. 4:08dos IEPs, [música] a família do Pai, ao
  93. 4:10universo dos cristãos novos,
  94. 4:13descendentes de judeus que em alguma
  95. 4:16geração anterior [música]
  96. 4:17se converteram ao catolicismo.
  97. 4:20Isso não significa que praticassem as
  98. 4:22escondidas a fé dos [música]
  99. 4:23antepassados e não deve virar a chave
  100. 4:26secreta da obra. No máximo, é uma
  101. 4:29possível ressonância do contexto
  102. 4:31ibérico, aquele mundo em que, algumas
  103. 4:34[música] gerações antes, alguém de uma
  104. 4:37linhagem podia ter deixado o judaísmo
  105. 4:39por escolha ou por [música] pressão,
  106. 4:41como aconteceu com tanta gente na
  107. 4:43Espanha daquele tempo. É um detalhe que
  108. 4:46rima mais adiante com algo maior do que
  109. 4:49a história de uma família. O menino
  110. 4:51sobreviveu graças à caridade. Entrou num
  111. 4:54colégio para crianças pobres, onde
  112. 4:57aprendeu as primeiras [música] letras e
  113. 4:59ajudava em missas e enterros para se
  114. 5:02sustentar. Depois [música] passou pelo
  115. 5:04colégio dos jesuítas em Medina del
  116. 5:07Campo, onde estudou latim, retórica e
  117. 5:10leu os clássicos. Trabalhou ainda como
  118. 5:13enfermeiro de hospital, [música]
  119. 5:14cuidando de doentes, e chegou a aprender
  120. 5:17o ofício de Tecelão, o mesmo da mãe.
  121. 5:20[música] É um detalhe que volta de um
  122. 5:21jeito estranho mais adiante. O homem que
  123. 5:25ia escrever sobre a alma sendo desfeita
  124. 5:28e refeita por dentro, carregava [música]
  125. 5:30nas mãos a memória física de desmanchar
  126. 5:34[música] e tramar fios.
  127. 5:37Em 1563,
  128. 5:39ele entrou na Ordem do Carmo. [música]
  129. 5:41Estudou em Salamanca, um dos grandes
  130. 5:44centros intelectuais da Europa na época,
  131. 5:47[música] e foi ordenado padre em 1567.
  132. 5:51Foi nesse mesmo ano que aconteceu o
  133. 5:54encontro que mudou o rumo da vida dele.
  134. 5:56[música] Ele conheceu Teresa de Ávila.
  135. 5:59Teresa era uma freira mais velha,
  136. 6:02intensa, [música]
  137. 6:03prática, que havia começado uma reforma
  138. 6:05dentro do Carmelo. A ideia era voltar a
  139. 6:09uma vida mais pobre, [música] mais
  140. 6:11silenciosa, mais voltada à contemplação.
  141. 6:15Esses carmelitas reformados ficaram
  142. 6:18conhecidos como descalços [música]
  143. 6:20em oposição aos calçados que mantinham a
  144. 6:23regra mais branda.
  145. 6:25Teresa viu naquele padre jovem, [música]
  146. 6:28tímido e rigoroso, o homem certo para
  147. 6:31levar a reforma também ao ramo masculino
  148. 6:34da ordem. [música] Juan aceitou e foi
  149. 6:37por esse caminho que passou a se chamar
  150. 6:40Juan de la Cruz, [música]
  151. 6:42João da Cruz. Esse é o pano de fundo de
  152. 6:45tudo o que vem depois. [música] A
  153. 6:47reforma rachou a ordem ao meio. De um
  154. 6:51lado, os que queriam o silêncio e a
  155. 6:53pobreza.
  156. 6:54>> [música]
  157. 6:55>> Do outro, os que viam naquilo uma
  158. 6:57ameaça, uma rebeldia, uma desobediência.
  159. 7:01E essa briga interna terminou com João
  160. 7:04da Cruz na cadeia. [música]
  161. 7:09Na noite de 2 dezembro de 157, [música]
  162. 7:13frades carmelitas contrários à reforma
  163. 7:16invadiram o lugar onde ele estava,
  164. 7:17[música]
  165. 7:18prenderam-no e o levaram para o convento
  166. 7:20da ordem em Toledo. Exigiram que
  167. 7:23renunciasse ao caminho de Teresa.
  168. 7:26[música] Ele recusou. A punição foi uma
  169. 7:28cela. E que cela?
  170. 7:31Os relatos descrevem um cômodo
  171. 7:33minúsculo, pouco mais que um armário,
  172. 7:35com cerca de 3 m por do [música] sem
  173. 7:38janela de verdade. A única abertura era
  174. 7:41uma fresta estreita no alto da parede,
  175. 7:43[música] por onde entrava um fio de luz
  176. 7:46por poucas horas do dia. Frio no
  177. 7:48inverno, abafado no calor. Ele ficou ali
  178. 7:52cerca de 9 meses. foi [música]
  179. 7:55maltratado, mal alimentado e, segundo os
  180. 7:58relatos, levado diante dos outros frades
  181. 8:01[música] para ser repreendido e
  182. 8:03açoitado.
  183. 8:04E foi exatamente nesse buraco escuro que
  184. 8:07João da Cruz começou a compor poesia,
  185. 8:11sem papel à vontade, com punha de cabeça
  186. 8:14e guardava na memória. Ali nasceram as
  187. 8:17primeiras estrofes do que viraria o
  188. 8:19cântico espiritual [música] e outros
  189. 8:21poemas. O frade, trancado no escuro
  190. 8:25respondia ao escuro, [música] fazendo
  191. 8:27versos sobre luz, sobre amor, sobre
  192. 8:30encontro.
  193. 8:32Na noite de 15 de agosto de 1578,
  194. 8:36[música] ele fugiu, soltou os parafusos
  195. 8:39da fechadura, desceu por uma abertura,
  196. 8:41usando tiras feitas [música] de
  197. 8:43cobertores, e escapou pela muralha. O
  198. 8:46que mais importa aqui [música] não é a
  199. 8:48data, é o desenho da cena. Um homem
  200. 8:52saindo de uma prisão à noite no escuro,
  201. 8:55sem que ninguém o notasse, [música]
  202. 8:57guiado por quase nada.
  203. 9:00Essa cena é o desenho que organiza tudo
  204. 9:03o que [música] vem a seguir. Um homem
  205. 9:06deixando uma casa escura no meio da
  206. 9:08noite, [música] em silêncio, sem luz que
  207. 9:11o guie,
  208. 9:15[música]
  209. 9:16esse mesmo homem ia escrever um poema
  210. 9:19que começa quase exatamente assim:
  211. 9:23"Uma alma que sai de casa [música] no
  212. 9:25escuro sem ser notada, com a casa já em
  213. 9:29sossego."
  214. 9:29>> [música]
  215. 9:30>> indo encontrar quem ama. E quase ninguém
  216. 9:33repara que o poema mais célebre da
  217. 9:35mística cristã [música]
  218. 9:36sobre a noite foi escrito por alguém que
  219. 9:39tinha no próprio [música] corpo a
  220. 9:42lembrança de ter atravessado uma noite
  221. 9:44de verdade [música] para se salvar. Ele
  222. 9:47se recuperou. Continuou a reforma agora
  223. 9:51na Andalusia, no sul da Espanha,
  224. 9:53[música]
  225. 9:54uma região que ainda se reassentava como
  226. 9:56terra cristã depois de séculos de
  227. 9:59presença muçulmana e judaica.
  228. 10:02Foi ali, [música] nos anos seguintes,
  229. 10:04que escreveu seus grandes tratados em
  230. 10:06prosa e foi ali que transformou aquela
  231. 10:09experiência da cela numa doutrina.
  232. 10:12João da [música] Cruz morreu em 1591
  233. 10:15na cidade de Úeda, doente, marginalizado
  234. 10:18de novo por disputas [música]
  235. 10:20dentro da própria ordem que ajudara a
  236. 10:22fundar. Foi canonizado em 1726.
  237. 10:27E em 1926,
  238. 10:29quase [música] quatro séculos depois da
  239. 10:31morte, a igreja o declarou doutor da
  240. 10:34igreja, com um título que diz tudo,
  241. 10:37doutor místico.
  242. 10:39Mas o que nos interessa não é a
  243. 10:42santidade oficial, é a mecânica que ele
  244. 10:45descreveu. E para chegar nela,
  245. 10:48precisamos primeiro do poema.
  246. 10:51[música]
  247. 10:53Tem uma coisa sobre João da Cruz que
  248. 10:55muda por completo a forma de ler o que
  249. 10:57ele fez e é simples. [música]
  250. 10:59O poema veio primeiro, o tratado veio
  251. 11:02depois. Ele não sentou para escrever um
  252. 11:05manual de teologia e depois enfeitou
  253. 11:08conversos. Foi o contrário. Primeiro
  254. 11:12saíram os poemas, curtos, [música]
  255. 11:14ardentes, quase canções de amor. Só mais
  256. 11:18tarde, muitas vezes a pedido de freiras
  257. 11:21e discípulos que perguntavam o que
  258. 11:23aquilo significava, é que ele escreveu
  259. 11:25longos comentários em prosa, [música]
  260. 11:28explicando verso por verso o que tinha
  261. 11:30vivido. O poema da noite escura tem oito
  262. 11:34estrofes.
  263. 11:36Conta em primeira pessoa na voz de uma
  264. 11:38mulher. A história de uma alma que
  265. 11:40escapa de casa numa noite disfarçada,
  266. 11:43[música]
  267. 11:44sem ser vista, com o coração em chamas
  268. 11:46de amor para encontrar o amado. A casa
  269. 11:50está em silêncio. Não há luz nenhuma, a
  270. 11:53não ser nas palavras dele, a que arde no
  271. 11:56próprio peito. E o mais surpreendente do
  272. 11:59poema é o tom. Ele não trata a noite
  273. 12:03como tragédia, trata como sorte.
  274. 12:06Num dos versos mais conhecidos, chama
  275. 12:09essa noite de ditosa, de afortunada, e
  276. 12:12se dirige a ela diretamente.
  277. 12:15Ó noite que me guiaste, ó noite mais
  278. 12:18amável que a alvorada, ó noite que
  279. 12:21uniste o amado com a amada. O que
  280. 12:23acontece nesses versos é uma inversão.
  281. 12:27A noite não é o obstáculo entre a alma e
  282. 12:31Deus. É o que conduz a alma até Deus.
  283. 12:35É a própria escuridão que faz o encontro
  284. 12:38acontecer.
  285. 12:39Até aqui é o que o poema diz. O que ele
  286. 12:43significa? João da Cruz levou anos para
  287. 12:47explicar. [música]
  288. 12:50Ele escreveu dois grandes comentários
  289. 12:53sobre esse poema. Um se chama Subida do
  290. 12:56Monte Carmelo. O outro se chama
  291. 12:58simplesmente Noite Escura.
  292. 13:01Os dois explicam o mesmo poema, de
  293. 13:04ângulos diferentes. E aqui [música] está
  294. 13:07o coração da doutrina dele, do jeito
  295. 13:09mais direto que eu consigo dizer. Para
  296. 13:12João da Cruz, existe um momento no
  297. 13:15caminho de quem leva a vida espiritual a
  298. 13:17sério, [música] em que tudo o que
  299. 13:18funcionava para de funcionar. No começo,
  300. 13:22a pessoa reza usando a imaginação e o
  301. 13:24raciocínio.
  302. 13:26Pensa em cenas, constrói imagens, sente
  303. 13:29emoções, tira conclusões. [música] Ele
  304. 13:32chama isso de meditação e diz que é bom
  305. 13:35e necessário [música] no início. É a
  306. 13:38fase do principiante.
  307. 13:40Aí, num certo ponto, isso seca. A pessoa
  308. 13:44[música] tenta imaginar e não consegue.
  309. 13:47Tenta sentir e não sente. A oração de
  310. 13:51antes vira pó na boca [música] e também
  311. 13:53não consegue mais se interessar pelas
  312. 13:56distrações de fora. Fica num entreelugar
  313. 13:59árido, sem o gosto de Deus [música] e
  314. 14:02sem o gosto do mundo. A reação natural é
  315. 14:05entrar em pânico, [música]
  316. 14:07achar que pecou, que está sendo punida,
  317. 14:10que regrediu. [música]
  318. 14:12E é aqui que João da Cruz faz a virada
  319. 14:15mais importante [música] de toda a sua
  320. 14:17obra. Ele diz que na maioria dos casos
  321. 14:20essa secura não é castigo nem fracasso,
  322. 14:24é sinal de avanço. É Deus tirando a
  323. 14:27pessoa do caminho da meditação, que usa
  324. 14:30imagens e ideias e começando a
  325. 14:33conduzi-la por outro caminho que ele
  326. 14:35chama de contemplação. E define
  327. 14:37contemplação de um jeito muito
  328. 14:39específico. [música] Não é uma técnica
  329. 14:42que a pessoa faz, é algo que ela recebe.
  330. 14:46Nas palavras dele, contemplação [música]
  331. 14:48é uma infusão secreta, pacífica e
  332. 14:51amorosa de Deus na alma. [música] Uma
  333. 14:54comunicação que entra por baixo do
  334. 14:56raciocínio e da imaginação, num nível
  335. 15:00que esses instrumentos não alcançam.
  336. 15:02[música]
  337. 15:03E aqui está a explicação da escuridão. E
  338. 15:05ela é mais exata do que se espera. Por
  339. 15:08quê? [música] Se é Deus chegando, a
  340. 15:11pessoa sente escuridão e não luz. Porque
  341. 15:14a luz é forte demais para o instrumento.
  342. 15:16Ele [música] compara com algo que todo
  343. 15:18mundo conhece. Quando você olha direto
  344. 15:21para o sol, não vê [música] mais, vê
  345. 15:24menos. A claridade excessiva não enche o
  346. 15:27olho de imagem, ela cega.
  347. 15:30O problema não está na falta de luz,
  348. 15:32[música] e sim no excesso dela. Luz
  349. 15:35acima da medida que o olho suporta.
  350. 15:39A escuridão [música]
  351. 15:40ali é o nome que damos ao excesso de
  352. 15:42claridade que [música] os sentidos não
  353. 15:45conseguem processar. É exatamente isso
  354. 15:48que João da Cruz [música] diz acontecer
  355. 15:50com a alma. A luz de chegando direto sem
  356. 15:54[música] passar pela imaginação,
  357. 15:56escurece o entendimento, porque há um
  358. 15:59contraste sem [música] proporção entre o
  359. 16:01que é finito em nós e o que é infinito
  360. 16:05[música] nele. O que a alma chama de
  361. 16:08noite não é a ausência de Deus, [música]
  362. 16:11é a presença de Deus em quantidade que
  363. 16:13as faculdades humanas não têm como
  364. 16:15segurar. A escuridão de São João não é a
  365. 16:19falta de Deus, é Deus chegando em medida
  366. 16:22que os sentidos não conseguem [música]
  367. 16:24reter. Do mesmo jeito que ficamos cegos,
  368. 16:27não na ausência de luz, mas diante de
  369. 16:30luz demais.
  370. 16:32A doutrina dele organiza esse processo
  371. 16:34[música] em etapas.
  372. 16:36Há uma purificação dos sentidos mais
  373. 16:39externa, em que se desfaz o apego da
  374. 16:42pessoa [música] às consolações e aos
  375. 16:44prazeres ligados à própria vida
  376. 16:47espiritual.
  377. 16:49E há uma purificação mais funda [música]
  378. 16:52do espírito que toca o núcleo das
  379. 16:54faculdades, o entendimento, a memória, a
  380. 16:58[música] vontade.
  381. 17:00Em cada uma delas há uma parte que cabe
  382. 17:03à pessoa, o [música] esforço voluntário
  383. 17:05de se desapegar e uma parte que só Deus
  384. 17:09faz [música] e que a pessoa apenas sofre
  385. 17:11e recebe sem controle.
  386. 17:14A [música] parte que cabe à pessoa, ele
  387. 17:17descreve com uma palavra dura e simples,
  388. 17:21nada. [música]
  389. 17:22Para chegar ao tudo, é preciso passar
  390. 17:25pelo nada, desapegar-se do gosto, do
  391. 17:29saber, do ter, [música] do poder, até
  392. 17:33das consolações religiosas. Não porque
  393. 17:35[música] essas coisas sejam más, mas
  394. 17:38porque o apego a elas ocupa o lugar que
  395. 17:41só o infinito poderia ocupar.
  396. 17:44É um esvaziamento.
  397. 17:46A alma se torna um espaço aberto,
  398. 17:48[música] vazio de tudo o que não é Deus,
  399. 17:52justamente para poder ser preenchida por
  400. 17:54Deus. E João da Cruz, que era um homem
  401. 17:57cauteloso, ainda dá sinais para a pessoa
  402. 18:00distinguir essa secura [música] que
  403. 18:02purifica de uma secura comum, nascida de
  404. 18:05desânimo ou descuido. Um dos sinais
  405. 18:08[música]
  406. 18:09é que ela não encontra gosto nem nas
  407. 18:11coisas de Deus, nem nas coisas do mundo.
  408. 18:15Outro é que carrega a lembrança de Deus
  409. 18:17com uma preocupação dolorida, [música]
  410. 18:19achando que não o serve, que está
  411. 18:22retrocedendo justo quando avança.
  412. 18:25Resumindo o que ele escreve [música]
  413. 18:27na noite, o sentimento de estar falhando
  414. 18:30é muitas vezes o próprio sinal de que
  415. 18:33algo verdadeiro está acontecendo.
  416. 18:36Aqui cabe uma ressalva que o próprio
  417. 18:39cuidado com o tema [música] exige. Essa
  418. 18:42noite em João da Cruz é uma categoria
  419. 18:45mística específica, não um diagnóstico.
  420. 18:49Ele não está [música] descrevendo
  421. 18:50depressão e o que ele escreve não
  422. 18:52substitui acompanhamento clínico.
  423. 18:55Sofrimento psíquico real. O que adoece,
  424. 18:59o que paralisa, [música]
  425. 19:00o que não passa, pode pedir ajuda médica
  426. 19:03ou terapêutica. E nada na mística
  427. 19:06[música] carmelita diz o contrário. A
  428. 19:09noite escura de que ele fala [música]
  429. 19:11não romantiza a dor. É uma travessia
  430. 19:14interior que ele distingue [música]
  431. 19:16com cuidado justamente da dor que apenas
  432. 19:19machuca. Três imagens se sobrepõ nesse
  433. 19:22ponto. Uma ausência [música] que não é
  434. 19:25falta, uma escuridão que é luz em
  435. 19:28excesso, um vazio aberto de propósito
  436. 19:31para que algo possa [música] nascer.
  437. 19:37E uma forma semelhante já havia sido
  438. 19:39desenhada antes, [música] não cela
  439. 19:42espanhola, mas numa colina no extremo
  440. 19:45oriental do Mediterrâneo.
  441. 19:47Poucos anos antes de João da Cruz
  442. 19:49atravessar [música] sua noite em Toledo,
  443. 19:52um rabino chamado Isaac Lúria havia
  444. 19:55ensinado em Sefed uma imagem cósmica do
  445. 19:58recolhimento divino. Lúria nasceu por
  446. 20:01volta de 1534
  447. 20:03em Jerusalém. [música] Ficou conhecido
  448. 20:06pelo apelido de Ari, que em hebraico
  449. 20:09quer dizer o leão, e que funciona também
  450. 20:11como sigla de uma expressão reverente,
  451. 20:14algo como o divino rabino Isaque.
  452. 20:17[música]
  453. 20:18Quando os discípulos lhe acrescentavam o
  454. 20:20título de santo, diziam: "A Rakados, o
  455. 20:24santo leão".
  456. 20:26O pai de Lúria era Asquenaz, do norte da
  457. 20:30Europa, a mãe cefardita.
  458. 20:34O pai morreu cedo [música] e o menino
  459. 20:36foi criado por um tio rico no Cairo, no
  460. 20:39Egito, [música] onde estudou as leis
  461. 20:41judaicas e se aprofundou no Zorrar, o
  462. 20:44grande livro da mística [música]
  463. 20:46judaica. Conta-se que passou anos em
  464. 20:49retiro, isolado às margens do [música]
  465. 20:51Nilo, voltando à família apenas no
  466. 20:53sábado. Desse período, parte [música] é
  467. 20:56biografia e parte é a auréula que se
  468. 20:59formou em torno do nome. Em 1570,
  469. 21:03[música]
  470. 21:04Lúria chegou a uma cidade pequena
  471. 21:06chamada Safed, no alto da Galileia,
  472. 21:09então [música] sob domínio otomano. E
  473. 21:12essa cidade precisa de uma explicação,
  474. 21:14porque é aqui que [música] a história
  475. 21:16ganha peso. Em 1492,
  476. 21:20a Espanha expulsou os judeus de seu
  477. 21:22território. [música] Foi o mesmo reino,
  478. 21:25a mesma coroa, o mesmo mundo ibérico que
  479. 21:29poucas décadas depois [música]
  480. 21:30veria nascer João da Cruz. Os judeus
  481. 21:34expulsos da Península se [música]
  482. 21:35espalharam pelo Mediterrâneo e muitos
  483. 21:38dos que se dedicavam à mística foram
  484. 21:41parar justamente em [música] Safed. Ao
  485. 21:43longo do século X, aquela cidadezinha se
  486. 21:47tornou o centro mundial da Cabala,
  487. 21:49povoada por exilados de Espanha,
  488. 21:51[música]
  489. 21:51de Portugal, da Itália. A cena vista de
  490. 21:55[música] cima e ao longo do século é
  491. 21:58esta: De um lado do mar, na Espanha, um
  492. 22:02[música] frade, cuja origem alguns ligam
  493. 22:04aos cristãos novos, escreverá sobre a
  494. 22:07noite da alma. Do outro, [música]
  495. 22:10numa colina otomana, uma comunidade de
  496. 22:13judeus expulsos daquela mesma Espanha
  497. 22:16reinventa a mística [música] a partir do
  498. 22:18exílio. A expulsão que partiu um mundo
  499. 22:22ao meio é sem que ninguém planejasse o
  500. 22:25fundo de tela das duas [música]
  501. 22:27histórias. Em Safed, Lúria conviveu por
  502. 22:31pouco tempo com outro grande cabalista,
  503. 22:33[música] Moisés Cordoveiro, e depois da
  504. 22:36morte dele, tornou-se a figura central
  505. 22:38daquele círculo. Ensinou [música] por
  506. 22:41cerca de 2 anos apenas. Morreu jovem com
  507. 22:45cerca de 38 anos numa epidemia em 1572.
  508. 22:50[música]
  509. 22:50E aqui vem outro eco com João da Cruz.
  510. 22:54Lúria quase não deixou nada escrito de
  511. 22:57próprio punho, [música] só alguns hinos.
  512. 23:00Tudo o que sabemos do sistema dele
  513. 23:02[música] chegou pela mão de discípulos,
  514. 23:05principalmente um chamado Shaim Vital,
  515. 23:08[música] que registrou e organizou os
  516. 23:11ensinamentos do Mestre. Os dois homens,
  517. 23:14cada um à sua maneira, deixaram
  518. 23:16doutrinas que dependeram de outras mãos
  519. 23:19para chegar ao papel. Agora o
  520. 23:21ensinamento.
  521. 23:23Lúria começa a explicar a criação do
  522. 23:26mundo com uma pergunta que parece
  523. 23:28ingênua e é vertiginosa.
  524. 23:31Se Deus é infinito, [música] se está em
  525. 23:33toda parte sem limite, então não sobra
  526. 23:37lugar nenhum para mais nada existir. Se
  527. 23:41o infinito ocupa tudo, onde caberia um
  528. 23:44universo finito?
  529. 23:45>> [música]
  530. 23:46>> A resposta de Lúria é uma das ideias
  531. 23:48mais ousadas de toda a mística. Ele a
  532. 23:51chama de tsimsum, palavra hebraica, que
  533. 23:54significa contração, retração,
  534. 23:57recolhimento.
  535. 23:59Para que o mundo pudesse existir, diz
  536. 24:01Lúria, o infinito, que em hebraico se
  537. 24:04chama Sof, o sem fim, contraiu-se,
  538. 24:10recolheu-se para dentro de si mesmo,
  539. 24:12abrindo no centro um espaço vazio. Os
  540. 24:16textos chamam esse vazio de Shalau, o
  541. 24:19espaço vago, ou no aramaico do Zohar de
  542. 24:23Teriru. É dentro desse oco aberto pela
  543. 24:27retração divina que a criação poôde
  544. 24:29acontecer. Depois, um fio de luz tornou
  545. 24:33a entrar nesse espaço de forma medida
  546. 24:36para dar origem aos mundos. E há um
  547. 24:39detalhe fino que convém guardar. A
  548. 24:43retração nunca é total.
  549. 24:46Mesmo no espaço esvaziado fica um
  550. 24:48resíduo de luz. Os cabalistas o chamam
  551. 24:51de reimu, o traço, a marca que sobra,
  552. 24:55como o perfume que permanece num frasco
  553. 24:58já vazio. Deus se recolhe, mas não some
  554. 25:01por inteiro. Essa imagem é o centro de
  555. 25:05tudo. Os comentadores costumam explicar
  556. 25:08o Tsinum com uma comparação corporal.
  557. 25:11[música]
  558. 25:11É como alguém que precisa inspirar,
  559. 25:14puxar o ar para dentro, encolher-se para
  560. 25:18deixar outra pessoa passar por um
  561. 25:20corredor estreito. Deus, por assim
  562. 25:22dizer, prende a respiração e recua. E é
  563. 25:26nesse recuo que se abre o lugar para o
  564. 25:28outro existir. E o sentido disso é o
  565. 25:31avesso do que se esperaria. Para Lúria,
  566. 25:34[música] o vazio não é o lugar de onde
  567. 25:37Deus está ausente. É o lugar que Deus
  568. 25:40abriu de propósito, retirando-se para
  569. 25:43que algo diferente dele pudesse vir a
  570. 25:45ser. A criação não começa com Deus
  571. 25:49enchendo, começa com Deus se retirando.
  572. 25:52[música]
  573. 25:53O primeiro gesto divino na cabala
  574. 25:56luriana não é expansão, [música] é
  575. 25:58recolhimento.
  576. 26:03Agora os dois lado a lado, e que fique
  577. 26:06claro de saída. Não há evidência
  578. 26:09conhecida de leitura, de encontro ou de
  579. 26:12influência direta entre esses dois
  580. 26:14homens. eram duas arquiteturas
  581. 26:16espirituais, separadas por língua, por
  582. 26:19instituição, por trauma histórico e por
  583. 26:22fronteira religiosa. Fronteiras que a
  584. 26:25Inquisição mantinha fechadas a ferro.
  585. 26:29O que existe entre eles não é
  586. 26:31influência, [música] é uma coincidência
  587. 26:33de forma e é só ela que vale mostrar,
  588. 26:36sem inflar e sem esconder. O que João da
  589. 26:39Cruz descreve na escala de uma única
  590. 26:41alma, Lúria descreve na escala do cosmos
  591. 26:45inteiro. João diz: [música] "Deus retira
  592. 26:48a presença sentida, recolhe a luz que as
  593. 26:51faculdades conseguiam segurar e abre na
  594. 26:54alma um vazio [música] para que essa
  595. 26:56alma seja refeita e unida a ele." Lúria
  596. 27:00diz: "Deus se retira, [música] abre um
  597. 27:03vazio para que o mundo inteiro possa
  598. 27:06existir e no fim retornar a ele. Um
  599. 27:10mesmo desenho espiritual traçado em duas
  600. 27:13escalas. Uma [música] do tamanho de uma
  601. 27:16pessoa, a outra do tamanho de tudo. Dois
  602. 27:21homens no mesmo século em dois circuitos
  603. 27:24religiosos sem contato [música]
  604. 27:25conhecido, chegaram a uma imagem
  605. 27:28semelhante e quase impossível.
  606. 27:31O vazio não é onde Deus falta, [música]
  607. 27:34é onde Deus se recolhe para abrir lugar.
  608. 27:37[música]
  609. 27:40A história que Lúria conta [música] não
  610. 27:42para no Tsinsum. Ela continua e a
  611. 27:46continuação aprofunda o paralelo,
  612. 27:48[música] desde que a gente não force a
  613. 27:51mão. Depois que o espaço vazio se abriu,
  614. 27:54conta Lúria, a luz divina jorrou para
  615. 27:57dentro [música] dele e essa luz deveria
  616. 28:00ser contida por recipientes, por vasos.
  617. 28:03[música]
  618. 28:04Esses vasos eram as primeiras estruturas
  619. 28:07da criação, mas a luz [música] era forte
  620. 28:10demais. Os vasos não aguentaram.
  621. 28:14Quebraram. Esse evento tem nome Chevirat
  622. 28:17[música]
  623. 28:18Hakelim, a quebra dos vasos.
  624. 28:22Com o [música] estilhaçamento, fagulhas
  625. 28:24daquela luz, chamadas de centelhas,
  626. 28:26[música]
  627. 28:27se dispersaram e ficaram presas dentro
  628. 28:30de cascas, [música] de fragmentos que a
  629. 28:33tradição chama de kelipot. O mal nesse
  630. 28:36sistema não é um princípio equivalente a
  631. 28:39Deus. É desordem, mistura, [música]
  632. 28:42queda, sentelhas de luz presas em
  633. 28:45estruturas opacas.
  634. 28:48O eco com João da Cruz [música] salta
  635. 28:50aqui. Para o frade espanhol, as
  636. 28:53faculdades humanas, a imaginação, o
  637. 28:56entendimento, a memória são como vasos e
  638. 29:00também não conseguem conter a luz que
  639. 29:02[música] chega na contemplação.
  640. 29:05Daí a sensação de quebra, de desmonte,
  641. 29:08de que o jeito antigo de rezar, [música]
  642. 29:10de pensar, de sentir Deus, se
  643. 29:13despedaçou.
  644. 29:15A noite escura [música]
  645. 29:16lida ao lado de Lúria, tem esse desenho.
  646. 29:20É o instante [música] em que os vasos do
  647. 29:22modo antigo se partem, porque a luz nova
  648. 29:25não cabe neles. [música] E então vem a
  649. 29:27terceira parte do sistema de Lúria, que
  650. 29:30é o destino de tudo. Se as centelhas
  651. 29:32[música] se espalharam e ficaram presas,
  652. 29:35a tarefa do ser humano é recolhê-las,
  653. 29:37[música]
  654. 29:38reuni-las, levantá-las de volta à
  655. 29:40origem. Esse trabalho de restauração
  656. 29:43também tem nome. Ticum, [música] palavra
  657. 29:46hebraica que significa reparo, conserto,
  658. 29:50correção. Cada gesto justo, cada oração
  659. 29:53[música]
  660. 29:54feita com intenção verdadeira, cada ato
  661. 29:56bom ajuda [música] a juntar uma centelha
  662. 29:59dispersa e a reconduzi-la à luz de onde
  663. 30:02caiu. Quando esse reparo se completa,
  664. 30:06vem a redenção [música] não só de um
  665. 30:08povo, mas de toda a criação. E aqui está
  666. 30:12o espelho final. A noite [música] escura
  667. 30:15de João da Cruz é ela também um trabalho
  668. 30:18de reparo. O esvaziamento, a secura, a
  669. 30:22quebra do modo antigo. Nada disso é o
  670. 30:25fim. É a etapa [música] que reúne a
  671. 30:28alma, que a recolhe de sua dispersão
  672. 30:31entre mil apegos pequenos [música] e a
  673. 30:34reconduz à união.
  674. 30:36A noite não destrói por [música]
  675. 30:38destruir, ela desfaz para refazer.
  676. 30:42E há uma diferença que seria fácil
  677. 30:44ignorar e desonesto esconder.
  678. 30:48[música] Esses dois sistemas não são
  679. 30:50idênticos.
  680. 30:52A cabala luriana é um mito [música]
  681. 30:54cósmico. Explica a origem do mundo, a
  682. 30:58presença do mal, o exílio [música] do
  683. 31:00povo judeu, a redenção universal.
  684. 31:05A doutrina de João da Cruz é um
  685. 31:07itinerário, um roteiro interior para uma
  686. 31:10alma chegar à união com Deus. Um
  687. 31:13organiza uma cosmogonia, o outro
  688. 31:16descreve a travessia da alma. O que eles
  689. 31:20têm em comum não é a doutrina, é o gesto
  690. 31:23que está na raiz das duas, [música]
  691. 31:25a retração que cria, o vazio que une, a
  692. 31:29escuridão [música] que em vez de separar
  693. 31:32conduz. Não é o mesmo mapa. [música] É
  694. 31:35um movimento formalmente semelhante,
  695. 31:38desenhado por duas mãos que nunca se
  696. 31:40viram. [música]
  697. 31:45Volta [música] para fechar a cena do
  698. 31:48começo. Um homem saindo de uma casa
  699. 31:51escura no meio da noite em silêncio,
  700. 31:53[música]
  701. 31:54sem luz que o guie. Aquilo foi a
  702. 31:56biografia de João da Cruz [música] ao pé
  703. 31:59da letra, a fuga de uma cela em Toledo à
  704. 32:02noite, descendo por uma abertura.
  705. 32:05E aquilo virou depois a primeira estrofe
  706. 32:08do poema mais famoso dele, em que uma
  707. 32:11alma sai de casa na [música] escuridão
  708. 32:12para encontrar quem ama.
  709. 32:15A vida dele e a doutrina dele [música]
  710. 32:17tem o mesmo formato. Um homem que
  711. 32:20atravessou de verdade uma noite para se
  712. 32:22salvar passou o resto da vida [música]
  713. 32:24explicando que a alma faz a mesma
  714. 32:27travessia e que a noite, longe de ser o
  715. 32:30inimigo, é o caminho. E o que essas duas
  716. 32:34tradições, uma cristã e uma judaica,
  717. 32:37separadas por tudo [música] e unidas
  718. 32:39apenas por essa coincidência de forma,
  719. 32:42parecem dizer vai na contramão de quase
  720. 32:45todo o [música] reflexo do nosso tempo.
  721. 32:48Fomos treinados para encarar todo o
  722. 32:50vazio como problema, toda a [música]
  723. 32:52escuridão como falha de iluminação,
  724. 32:56todo silêncio interior [música] como
  725. 32:58sintoma a ser medicado, preenchido,
  726. 33:01resolvido [música] o quanto antes. A
  727. 33:04primeira coisa que se faz com a ausência
  728. 33:07hoje é tentar acabar com ela. [música]
  729. 33:11Esses dois homens, vindos de mundos que
  730. 33:13já não existem, sustentam o contrário.
  731. 33:17Não que toda a escuridão seja boa,
  732. 33:19[música]
  733. 33:19nem que todo sofrimento valha a pena,
  734. 33:22nem que a dor não precise muitas vezes
  735. 33:25de cuidado e de remédio, mas que existe
  736. 33:28um tipo de vazio que não é avaria nem
  737. 33:31castigo, e sim passagem.
  738. 33:34Um espaço que se abre exatamente para
  739. 33:37que algo novo possa entrar. A noite
  740. 33:40[música] escura não é uma metáfora
  741. 33:42bonita para tristeza. é a descrição de
  742. 33:45uma travessia que se pode entender com a
  743. 33:48cabeça [música] e ainda assim não
  744. 33:50atravessar com a vida. Dá para ler tudo
  745. 33:53isso, concordar, achar elegante e
  746. 33:57continuar tratando a [música] própria
  747. 33:58escuridão como defeito a ser consertado
  748. 34:02depressa. A distância entre compreender
  749. 34:05a noite e atravessá-la é a mesma que
  750. 34:08separa saber que a [música] porta está
  751. 34:10aberta de, enfim, passar por ela.
  752. 34:14Fica para um próximo encontro uma
  753. 34:17pergunta que esses dois deixam no ar e
  754. 34:19que merece um capítulo [música] só dela.
  755. 34:23Se tanto a criação do mundo quanto a
  756. 34:25união da alma começam com uma retração,
  757. 34:28[música] com um Deus que recua para
  758. 34:30abrir espaço, então talvez o silêncio de
  759. 34:33Deus, [música] aquele que tantos leem
  760. 34:36como abandono, mereça um segundo olhar.
  761. 34:39Talvez não seja a prova de que não há
  762. 34:41ninguém ouvindo. Talvez seja a forma
  763. 34:45difícil [música] e antiga de abrir o
  764. 34:47lugar onde o encontro finalmente cabe.
  765. 34:51Mas isso fica para outro dia. [música]
  766. 34:53Por hora, basta a imagem de onde
  767. 34:56partimos. Uma casa em silêncio, uma
  768. 34:59porta aberta e alguém que sai no escuro
  769. 35:02sem outra luz senão a que arde por
  770. 35:04dentro, [música]
  771. 35:05indo exatamente para onde precisa
  772. 35:08chegar.

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