6. De onde vêm nossas crenças e pensamentos — Transcript
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- 0:00Uma pergunta muito frequente, muito
- 0:01válida, que os clientes me fazem em
- 0:03terapia e nos atendimentos, é de onde
- 0:06vem os nossos pensamentos. Porque muitas
- 0:08vezes a pessoa pode ter até raiva, né,
- 0:11um certo ranço ali de pensar daquela
- 0:14forma. Então, ela tem muitas vezes
- 0:15pensamentos indesejados, pensamentos que
- 0:17ela não gostaria de ter, pensamentos que
- 0:19inclusive geram um sofrimento muito
- 0:21grande, né? Porque a gente já viu aqui
- 0:23que os pensamentos impactam diretamente
- 0:25na forma que a gente se sente e na forma
- 0:26que a gente se comporta. Então, acho
- 0:29importante falar da onde vem essa
- 0:30construção. Quando a gente fala de
- 0:33pessoas e seres humanos e psicologia do
- 0:35desenvolvimento, a gente tá falando de
- 0:38uma área da psicologia, inclusive uma
- 0:40matéria bem extensa, né? Na faculdade eu
- 0:42tive três semestres, então, psicologia
- 0:44do desenvolvimento 1, 2 e três, em que a
- 0:46gente estuda o desenvolvimento
- 0:48biopsicossocial, ou seja, biológico,
- 0:50psicológico e social da criança, né?
- 0:53Então, do bebê, desde que ele nasce até
- 0:55o momento ali da morte. E até essa
- 0:58matéria de morte, luta e cuidados
- 0:59paliativos a gente também estuda, a
- 1:01gente também maneja. Desde que a gente
- 1:03nasce, a gente tá tendo influências o
- 1:05tempo todo. E existem até alguns estudos
- 1:07hoje em dia que já mostram que a gente
- 1:09tem influências inclusive desde quando a
- 1:11gente está na barriga da mãe. Então, o
- 1:13nível de estresse que a mãe tem, a o
- 1:16nível de conversa, né, o o tipo de
- 1:19hormônio que a mãe libera. Então, se ela
- 1:21tem, por exemplo, se ela está passando
- 1:23por uma depressão ou se ela está
- 1:24passando por por alguma questão
- 1:25psicológica, isso também impacta ali no
- 1:28desenvolvimento da criança. Então,
- 1:30assim, a gente já tem vários várias
- 1:32evidências, né, e várias vários
- 1:35estímulos do ambiente e estímulos do da
- 1:38nossa família, do ambiente que a gente
- 1:39tá inserido para ser e se tornar de
- 1:42certa forma o que a gente é. Então,
- 1:44geralmente ninguém escolhe o que pensa,
- 1:47né? os pensamentos eles simplesmente
- 1:49vem, porque desde criança a gente tem
- 1:51acesso a certos pensamentos, a certas
- 1:54perspectivas de mundo e perspectivas
- 1:56sobre a gente, sobre as pessoas e sobre
- 1:59eh o ambiente que a gente tá inserido. E
- 2:01muitas vezes essas perspectivas vêm da
- 2:02nossa família. Isso não significa que a
- 2:05gente vai ter exatamente a mesma crença
- 2:07e a mesma percepção que a nossa família
- 2:09tem. Muitas vezes a gente pode até
- 2:11desenvolver uma percepção contrária, mas
- 2:13se a gente for parar para pensar desde o
- 2:15início da vida, que que acontece quando
- 2:17a gente nasce? Nós temos a nossa
- 2:21primeira visão de mundo, que é por meio
- 2:24da família. Então, tudo que a gente
- 2:25conhece, tudo que a gente acessa, tudo
- 2:27que a gente experimenta, tudo que a
- 2:29gente vive, é aquilo que a família nos
- 2:32dá. Família ou cuidadores, né? Porque
- 2:34aqui quando eu falo família é
- 2:35basicamente as pessoas que estão ao
- 2:37redor. Então a gente tem esses
- 2:39estímulos, né? Eh, nós somos impactados
- 2:42por esses esses estímulos em primeiro
- 2:44lugar da família. E aí essa pessoa, essa
- 2:47criança, esse indivíduo vai começar a
- 2:49crescer. Conforme ele cresce, ele vai
- 2:51tendo acesso a escolinhas, a outros
- 2:54ambientes, a outras pessoas, a outras
- 2:56dinâmicas de funcionamentos, a outras
- 2:58opiniões. E aí essa criança começa a ver
- 3:02que aquele mundinho que ela conhecia,
- 3:04aquele mundinho que ela tem dentro de
- 3:06casa, não é um mundo em si, não é só
- 3:08aquela realidade que existe. Existem n
- 3:11outras realidades, existem n outras
- 3:13opiniões e n outras formas de funcionar.
- 3:16E a criança a partir do momento que ela
- 3:17sai desse ambiente familiar, ela começa
- 3:19a ter um acesso mais direto, né? Ela
- 3:21começa a ser mais impactada por isso. E
- 3:24quem tem filhos aqui, quem já trabalhou
- 3:26com criança, sabe muito bem que já pegou
- 3:29de alguma forma, já acompanhou essa
- 3:31fase, que é a fase da criança perguntar
- 3:33sobre tudo. Então, mãe, pai, por que que
- 3:35cadeira se chama cadeira? Por que que no
- 3:38computador, né, por que tem teclas no
- 3:40computador? É porque o verde é verde e
- 3:43não azul. E muitas vezes, inclusive pais
- 3:46e mães até se estressam um pouco, né? Se
- 3:48irritam com essas perguntas, porque
- 3:50partem ali do pressuposto de que isso é
- 3:51óbvio, mas não é óbvio. Pode ser óbvio
- 3:53pra gente que já é adulto e já está
- 3:55acostumado a isso, mas muitas vezes não
- 3:57é óbvio paraa criança, porque é a
- 3:58primeira vez que ela tá tendo contato
- 4:00com essas coisas, né? E é a primeira vez
- 4:02que ela tá tentando entender o mundo,
- 4:04principalmente o mundo externo, porque
- 4:06até então a única realidade que ela
- 4:08tinha era que existia dentro de casa. E
- 4:10aí a gente chega numa fase da vida que
- 4:12eu particularmente gosto bastante. Eu
- 4:14sei que muita gente odeia essa fase, mas
- 4:17eu já trabalhei também com crianças e
- 4:18adolescentes, né? Então eu já acompanhei
- 4:21isso bastante de perto, que é a fase da
- 4:22adolescência. Na fase da adolescência a
- 4:24gente tem muito essa necessidade de
- 4:27construir uma identidade. Então, ok, eu
- 4:29já entendi qual que é a minha estrutura
- 4:31familiar, eu já entendi que que o mundo
- 4:32tem para oferecer. E agora, com tudo
- 4:35isso, quem que eu quero ser? Quem que eu
- 4:37quero me tornar? eh a qual grupo eu
- 4:39quero pertencer, onde eu quero me
- 4:41encaixar. E isso, nisso começa o que a
- 4:44gente chama de processo de individuação,
- 4:46que é quando a pessoa, o sujeito começa
- 4:49a ter uma uma noção de selfie, né? Então
- 4:52ele começa a ter uma identidade. Eh,
- 4:54grande parte das crenças que a gente tem
- 4:56sobre si vem muito nessa fase, né?
- 4:59Então, da infância e da adolescência, no
- 5:01sentido de quem sou eu, onde eu encaixo,
- 5:04né? onde eu pertenço, o que que eu faço
- 5:06direito, o que eu não faço direito. E
- 5:08tudo isso muitas vezes a gente vai
- 5:09reforçando, tendo contato e carregando
- 5:12até a vida adulta. Isso, claro, se a
- 5:13gente não olha para essas questões e não
- 5:15acompanha esse desenvolvimento mais de
- 5:17perto, que infelizmente a grande maioria
- 5:19das pessoas não tm esse acompanhamento,
- 5:21até porque a gente não foi educado para
- 5:23isso e não foi estimulado para isso.
- 5:24Então também não é culpa nossa a gente a
- 5:26gente não ter acesso a essas teorias, a
- 5:29essas intervenções. Então, perceba, cada
- 5:33fase de desenvolvimento que a gente tem
- 5:34na vida vai trazer variáveis,
- 5:37influências, impactos diferentes, né?
- 5:40Existem teorias que falam que a nossa, o
- 5:44nosso psiquê, né, o nosso funcionamento
- 5:46psicológico, ele vem da infância. A
- 5:49gente já sabe hoje que sim, grande parte
- 5:51tem influência da infância, mas a a todo
- 5:55momento a gente tá criando crenças novas
- 5:57e a todo momento a gente tá adicionando
- 6:00novas crenças a esse modelo cognitivo.
- 6:02Então, é muito simplista, é muito
- 6:04categórica e é muito reducionista a
- 6:07gente falar que o nosso funcionamento
- 6:09ele vem, ele já foi determinado lá na
- 6:11infância, porque hoje de acordo com as
- 6:14situações que você vive, de acordo com
- 6:16as viagens que você faz, aquilo que você
- 6:18come, as pessoas que você conhece,
- 6:19aquilo que você experimenta, os hobbies
- 6:21que você tem, tudo isso vai
- 6:23transformando, te transformando ainda
- 6:25hoje. Então, sim, a gente tem muita
- 6:27influência, a gente tem muito impacto do
- 6:29nosso passado, só que isso não determina
- 6:31quem a gente é hoje 100%. Porque muitas
- 6:34das coisas que a gente vive hoje também
- 6:37estão nos mudando todo santo dia. Então,
- 6:40se hoje, por exemplo, você escolhe ter
- 6:41um novo comportamento, um comportamento
- 6:43diferente que você teve na nos últimos
- 6:46meses, você já está mudando, percebe?
- 6:49Você já está tendo outras referências,
- 6:51outras experiências, outras percepções.
- 6:54E isso, na verdade, é muito incrível.
- 6:56Porque então, se a todo momento eu posso
- 6:58mudar a forma que eu penso, mudar a
- 7:00forma que eu me posiciono, então eu não
- 7:02estou preso, eu não estou aprisionado,
- 7:06né, sendo refém de um modelo que foi
- 7:08construído lá atrás e que muitas vezes
- 7:10eu não queria que esse fosse esse modelo
- 7:12que estivesse aqui ou que muitas vezes
- 7:14foi um modelo de pensar, uma forma de
- 7:16pensar e uma forma de se posicionar que
- 7:18lá atrás funcionou muito bem, mas hoje
- 7:20não funciona mais. Pensa bem, se a gente
- 7:22for fazer uma analogia simples aqui,
- 7:25quando a gente é criança, muitas vezes a
- 7:27gente consegue coisas na base da birra,
- 7:29fazendo bico, batendo o pé no chão,
- 7:32fazendo ali tratamento de silêncio,
- 7:33virando a cara e na base da birra. E aí
- 7:36o pai e mãe vai lá e nos oferece aquilo
- 7:37que a gente queria. Muitos adultos
- 7:39inclusive continuam reproduzindo esse
- 7:42mesmo comportamento que é um
- 7:43comportamento infantil que a gente
- 7:44aprendeu lá na infância, porque lá na
- 7:46infância dava certo, só que muitas vezes
- 7:48para um adulto isso não vai dar certo.
- 7:50Então o adulto ele vai precisar eh
- 7:52desenvolver novas habilidades, um novo
- 7:55repertório comportamental e um
- 7:57repertório de pensamento, de
- 7:59interpretações que ele não tinha até
- 8:01então. E é exatamente aí que entra a
- 8:03terapia, porque a gente sempre parte da
- 8:05ideia de que se a pessoa está pensando
- 8:08dessa forma e se comportando dessa forma
- 8:10e ela tá sofrendo com isso, né, e ela já
- 8:12tá sofrendo muitas vezes há um bom
- 8:14tempo, há muitos meses, é porque ela não
- 8:16sabe fazer diferente. Eu sempre comento
- 8:18com os meus clientes, eu faço questão de
- 8:20reforçar isso aqui e deixar isso
- 8:22gravado, né, para vocês verem, reverem
- 8:24quantas vezes forem necessárias. Eu
- 8:26nunca conheci até hoje ninguém que
- 8:28acorda todo dia de manhã pensando,
- 8:30nossa, hoje eu tô afim de desenvolver
- 8:32uma depressão. Como é que eu vou pensar?
- 8:34Como é que eu vou me comportar para
- 8:36desenvolver uma depressão? Nossa, hoje
- 8:38eu tô afim de falir minha empresa, né?
- 8:39Sei lá, minha vida tá um pouco sem
- 8:41emoção, um pouco assim, sem drama, né?
- 8:43Então, o que que eu vou fazer? Que que
- 8:44balde eu vou chutar aqui para falir
- 8:46minha empresa? Percebem? Então, assim,
- 8:49geralmente as pessoas elas não erram
- 8:51querendo errar, elas erram porque elas
- 8:53não têm outras referências. elas não
- 8:55sabem fazer diferente, elas não sabem eh
- 8:58se posicionar, operar, pensar de forma
- 9:00diferente, né? E aí a terapia ela entra
- 9:03também com essa proposta de aumentar
- 9:06essas interpretações, né? Então, ajudar
- 9:08a pessoa a enxergar as situações por
- 9:11outros vieses, né? por outras
- 9:12perspectivas e ajudar essa pessoa também
- 9:14a desenvolver novas habilidades,
- 9:16principalmente habilidades
- 9:18interpessoais, relacionais, sociais,
- 9:21para que ela consiga conviver melhor ali
- 9:23no dia a dia com as pessoas ao redor
- 9:25dela e por aí vai. Vale lembrar também
- 9:27que o processo de mudança ele acontece
- 9:29ao longo da vida inteira e isso é ótimo
- 9:31numa perspectiva até biológica, a gente
- 9:33tá falando aqui de um cérebro que tá
- 9:35mudando e sendo estimulado o tempo todo.
- 9:38Então, como na psicologia a gente tem
- 9:39uma visão biopsicossocial, a gente
- 9:41avalia também bastante essa parte
- 9:43neurológica e essas mudanças corporais,
- 9:47físicas mesmo. E vale dizer também que
- 9:49nesse processo de mudança, quanto mais a
- 9:51gente faz, quanto mais a gente treina
- 9:54essa nova forma de pensar e essa nova
- 9:56forma de se comportar, mais fácil vai
- 9:58ficando e mais isso vai se tornando o
- 10:00nosso novo modelo, né? A nossa o nosso
- 10:03novo funcionamento psicológico. E até a
- 10:06nível biológico, né? Então, na
- 10:09psicologia a gente tem essa perspectiva
- 10:11biopsicossocial.
- 10:12Então, a gente avalia também bastante
- 10:14essa parte biológica da coisa de
- 10:16mudanças, alterações que a gente tem no
- 10:18próprio corpo. Isso é ótimo também,
- 10:20porque quando a gente fala de mudar
- 10:21formas de pensar e de se comportar, a
- 10:24gente tá falando de neuroplasticidade.
- 10:26Então, a gente tá falando de um cérebro
- 10:27que tá sempre sendo estimulado com
- 10:29coisas diferentes e sendo obrigado
- 10:31também, né, a funcionar de formas
- 10:34diferentes. E isso faz o cérebro ser
- 10:36cada vez mais saudável. Então, quando a
- 10:38gente repete padrões, a gente está eh
- 10:41reforçando sinapses nervosas, caminhos,
- 10:44digamos assim, que a gente já construiu
- 10:46e já estão muito bem definidos dentro do
- 10:48nosso cérebro. Quando a gente fala de
- 10:50mudança, a gente tá falando de não
- 10:53reforçar mais esses caminhos antigos e
- 10:56criar novos caminhos no cérebro. E isso
- 10:58gera cansaço, né? E e assim, um cansaço
- 11:01emocional, um cansaço mental. Então,
- 11:03todo mundo que já tentou mudar sabe o
- 11:05quão difícil é mudar. A gente não muda
- 11:07de uma hora para outra. A gente precisa
- 11:08de repetição. E muitas vezes a gente tem
- 11:10uma tendência de cair naquilo que a
- 11:12gente já sabe, de cair naquilo que a
- 11:13gente já conhece, naquilo que já é o
- 11:15nosso padrão, que já é automático pra
- 11:17gente e que a gente reforçou ao longo de
- 11:19uma vida inteira. Por quê? Porque a
- 11:21gente já tem um cérebro viciado nisso,
- 11:23digamos assim, que que já tem aquelas
- 11:25sinapses ali funcionando faz anos. A
- 11:28questão é que muitas vezes essas
- 11:29sinapses, esses caminhos, né, isso que a
- 11:32gente aprendeu já foi funcional, já foi
- 11:34adaptativo em algum momento da vida.
- 11:36Hoje nem sempre continua sendo. E é aí
- 11:38que entra a mudança. E por isso também
- 11:41que mudar é tão difícil, porque a gente
- 11:43começa a construir novos caminhos, novas
- 11:45sinapses nervosas dentro do cérebro e
- 11:48deixar de recorrer àquelas antigas que a
- 11:50gente tinha. E aí entra também um
- 11:52conceito de aprendizagem que é quanto
- 11:54mais a gente treina, quanto mais a gente
- 11:56executa, quanto mais a gente traz a sua
- 11:58tona, mais isso vai se tornando
- 12:00automático pra gente, mais isso se torna
- 12:02um hábito. E aí depois a gente pode
- 12:04falar especificamente aqui sobre
- 12:05processos de aprendizagem.
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