4 - Se o Tibre Inundar: Cristãos Perseguidos - História do Cristianismo — Transcript
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- 0:00Olá, vamos começar hoje com uma cena
- 0:02forte lá do segundo século. Policarpo,
- 0:06bispo de Esmirna, já bem idoso, no meio
- 0:09de uma arena romana.
- 0:10>> Uma imagem poderosa, né?
- 0:12>> Muito. E as autoridades pressionando,
- 0:15jure por César, renegue Cristo e ele
- 0:18firme. 86 anos o servi e nenhum mal ele
- 0:22me fez. Como posso blasfemar meu rei que
- 0:25me salvou?
- 0:26>> Impressionante a coragem. nem ameaça de
- 0:29leão, nem de fogo, nada abalou ele. Ele
- 0:32encarou a fogueira como um sacrifício
- 0:35aceitável nas palavras dele. É uma
- 0:37história assim de muita fibra,
- 0:40>> com certeza.
- 0:41>> Agora, essa imagem que a gente tem, né,
- 0:43de mártires o tempo todo na arena com
- 0:46leões, principalmente antes do ano 200,
- 0:48talvez seja um pouquinho, digamos,
- 0:50simplificada. As primeiras ações de Roma
- 0:53contra os cristãos foram mais pontuais.
- 0:56Exatamente. A história do Policarpo é
- 0:59real, claro, e marcante, mas a
- 1:02perseguição em larga escala, sistemática
- 1:05mesmo, não era norma nos primeiros, sei
- 1:07lá, 150 anos.
- 1:09>> Uhum. A coisa era mais complexa, tinha
- 1:12períodos longos de relativa calma, sabe?
- 1:15Interrompidos por uns surtos de
- 1:17violência que ali mais locais.
- 1:20>> E isso leva a gente pra pergunta
- 1:21central, né? Se não era essa caça
- 1:24constante desde o início, por Roma, que
- 1:27até tinha uma fama de tolerância
- 1:29religiosa, por que acabou perseguindo os
- 1:31cristãos?
- 1:32>> Boa pergunta. Por que essa época ficou
- 1:34tão marcada assim como era dos mártires?
- 1:37A gente vai mergulhar um pouco nas
- 1:39fontes, especificamente em partes do
- 1:41livro História do Cristianismo, do Bruce
- 1:44Shelly, para tentar entender melhor essa
- 1:46hostilidade, as motivações por trás
- 1:48disso tudo,
- 1:49>> desvendar essa trama, né? Isso. Nosso
- 1:51objetivo é esse, desvendar essa
- 1:53complexidade. Vamos nessa exploração.
- 1:56>> Vamos lá. Um bom jeito de começar é
- 1:59olhar a política religiosa normal de
- 2:01Roma. O império era gigante, né? Um
- 2:04monte de povos, culturas diferentes,
- 2:07>> um caldeirão.
- 2:08>> Pois é. E a estratégia romana era bem
- 2:10prática. Deixavam os povos conquistados
- 2:13manterem seus deuses, seus cultos. Era
- 2:16um jeito de manter a paz, a ordem,
- 2:18>> menos dor de cabeça para eles.
- 2:20>> Exato. Mas tinha uma condição, claro,
- 2:22>> que era
- 2:23>> adicionar a reverência ao imperador e
- 2:25aos deuses de Roma junto com os deuses
- 2:28locais. Era mais um gesto de lealdade
- 2:30política, sabe? Uma forma de unir o
- 2:32império. Pra maioria nem era uma questão
- 2:35teológica profunda,
- 2:36>> era mais um ato cívico. Então
- 2:38>> isso, só que tinha uma exceção famosa,
- 2:42os judeus. Roma meio que entendeu que o
- 2:45monoteísmo deles era inegociável.
- 2:48>> É, eles não iam abrir mão disso.
- 2:49>> Sim. Depois de algumas tentativas que
- 2:52não deram certo e vendo que a fé judaica
- 2:55era antiga e eles eram feimosas mesmo,
- 2:59Roma deu uma dispensa para eles. Não
- 3:01precisavam participar dos cultos
- 3:03imperiais.
- 3:04>> Uma exceção única, então.
- 3:06>> Sim.
- 3:06>> Baseada nessa ideia de que era uma
- 3:08religião antiga, étnica,
- 3:10>> uma religião lícita, né? Uma religião
- 3:12permitida.
- 3:13>> Exatamente. Religioolícita.
- 3:15>> E por um tempo os cristãos meio que
- 3:17entraram nessa, né? Foram vistos como
- 3:19parte desse grupo judaico.
- 3:21>> Precisamente. No comecinho, as
- 3:24autoridades romanas nem distinguiam
- 3:26muito bem cristãos de judeus. Só que
- 3:29essa visão começou a mudar e mudou
- 3:32muito.
- 3:32>> Hum. Por quê? Porque o cristianismo foi
- 3:35se espalhando. E o que é fascinante aqui
- 3:37é os romanos perceberam que os cristãos
- 3:40não eram só mais um grupo étnico com uma
- 3:43fé antiga, eram outra coisa,
- 3:45>> algo novo.
- 3:46>> Algo novo, com uma característica bem
- 3:49peculiar e para os romanos perigosa. O
- 3:53proselitismo, a vontade de converter.
- 3:56>> A intenção de converter todo mundo de
- 3:59qualquer origem. Isso era bem diferente
- 4:01dos judeus que não saíam tentando
- 4:03converter os não judeus em Massa, né?
- 4:06>> Exato. Os cristãos achavam que a
- 4:08mensagem deles era para todo mundo,
- 4:09romano, grego, bárbaro. E essa mensagem
- 4:13dizia que Jesus Cristo era o único
- 4:15Senhor,
- 4:16>> o que implicava rejeitar os deuses
- 4:18pagãos.
- 4:18>> E também a divindade que o imperador
- 4:20reivindicava. Aí na cabeça dos romanos,
- 4:23os cristãos passaram de uma turma
- 4:25tolerada dentro do judaísmo para um
- 4:27movimento que podia derrubar ordem
- 4:29social e política. Entende?
- 4:31>> Entendi. Essa recusa em se encaixar e
- 4:35essa missão de transformar tudo nos leva
- 4:38a um ponto que a fonte destaca bem.
- 4:40Talvez a raiz mais funda do ódio não
- 4:42fosse só política, mas o jeito de viver
- 4:45dos cristãos. Sim,
- 4:47>> era um estilo de vida muito diferente do
- 4:49padrão romano.
- 4:49>> A palavra chave aqui é ágios. É um termo
- 4:53grego que o Novo Testamento usa pros
- 4:55cristãos. A gente traduz como santo, mas
- 4:59o sentido original é mais tipo
- 5:01diferente, separado.
- 5:03>> Ah, interessante.
- 5:04>> Um templo é ágios porque é diferente de
- 5:07um prédio comum. O sábado é ágios porque
- 5:10é diferente dos outros dias. O cristão
- 5:13era chamado a segios, diferente do mundo
- 5:16em volta. E essa diferença, essa
- 5:19separação voluntária causava estranheza
- 5:22e, claro, suspeita, hostilidade.
- 5:25>> E como essa diferença aparecia no dia a
- 5:27dia, imagino que a própria ética cristã
- 5:29já criava problema. Humildade, perdão,
- 5:32cuidar dos pobres, contrastava com a
- 5:34busca romana por honra, poder, né?
- 5:37>> Com certeza.
- 5:38>> E rejeitar os deuses pagãos. Isso não
- 5:41era só visto como ateísmo, mas como um
- 5:43insulto à tradição, um perigo pra
- 5:45cidade.
- 5:46>> Sem dúvida. E criava barreiras sociais
- 5:49gigantescas. Pensa nas festas públicas,
- 5:53nos banquetes importantes. Muitas vezes
- 5:56começavam com um brinde ou sacrifício
- 5:58aos deuses.
- 5:59>> E os cristãos não participavam.
- 6:01>> Não participavam. E isso era visto como
- 6:04falta de patriotismo, arrogância, até
- 6:06traição e os jogos de gladiadores. Um
- 6:09entretenimento super popular
- 6:11>> que eles condenavam.
- 6:12>> Condenavam como cruéis, desumanos. Santo
- 6:15Agostinho conta o caso do amigo Alípio,
- 6:18que foi arrastado pra arena, tentou
- 6:21ficar de olho fechado, mas quando ouviu
- 6:24o grito da multidão, não aguentou, abriu
- 6:26os olhos e ficou embriagado pela
- 6:29violência. A cultura cristã batia de
- 6:32frente com a cultura dominante.
- 6:34>> E essa batida de frente ia além do
- 6:36social, né? Afetava até a economia. O
- 6:40livro fala como o medo da idolatria
- 6:42limitava as profissões. Podia um cristão
- 6:45trabalhar na construção de um templo
- 6:47pagão?
- 6:47>> Complicado, né?
- 6:48>> Ou ser escultor de imagem de Deus ou
- 6:51fazer incenso para ritual. Tertuliano,
- 6:54escritor cristão, chegou a questionar se
- 6:56um cristão podia ser professor, porque
- 6:59ensinar mitologia apagando os livros
- 7:01clássicos. Era uma rede de problemas
- 7:03práticos.
- 7:04>> Ao mesmo tempo, essa diferença aparecia
- 7:07de formas que hoje a gente acharia
- 7:09progressistas. Pega a escravidão, por
- 7:11exemplo, que era normal em Roma.
- 7:13>> Sim, super comum.
- 7:14>> O cristianismo primitivo não acabou com
- 7:16a escravidão, mas trouxe uma ideia nova.
- 7:19tratar os escravos com humanidade e o
- 7:22ponto chave, a igualdade espiritual
- 7:24dentro da igreja.
- 7:25>> Ah, escravos e livres juntos,
- 7:28>> juntos na ceia, batizados igual. Tem um
- 7:31exemplo incrível de Calisto, um
- 7:33ex-escravo que lá no início do século II
- 7:36virou bispo de Roma.
- 7:37>> Nossa, um ex-escravo vilando bispo na
- 7:41capital do império. Imagina o choque que
- 7:43isso causou na sociedade romana tão
- 7:45hierárcrica. E a fonte fala também do
- 7:47infanticídio.
- 7:48>> Sim. Abandonar bebês indesejados,
- 7:51principalmente meninas, era triste, mas
- 7:55comum e legalizado. Os cristãos eram
- 7:58totalmente contra. Resgatavam crianças
- 8:02abandonadas, diziam que toda a vida
- 8:04tinha valor, não importava o sexo ou a
- 8:08condição.
- 8:08>> Que postura! E a mesma coisa com a
- 8:10ênfase na castidade antes do casamento,
- 8:13na fidelidade dentro dele. Tratar o
- 8:16corpo como templo do Espírito Santo
- 8:19contrastava muito com a liberdade sexual
- 8:22que existia em Roma. Era uma ética que
- 8:25desafiava as normas em vários níveis.
- 8:28Essa postura de separados, de viverem
- 8:31por regras próprias, muitas vezes
- 8:33escondidos por causa do perigo, isso
- 8:36deve ter sido um prato cheio para
- 8:37desconfiança e para boatos horríveis,
- 8:39né?
- 8:40>> Infelizmente sim. O segredo em volta de
- 8:43algumas práticas, tipo a ceia do Senhor
- 8:46e a linguagem deles, festa do amor,
- 8:48ágape, santo ósculo, beijo de
- 8:51comprimento. Tudo isso foi distorcido
- 8:54pela imaginação do povo e por quem não
- 8:56gostava deles.
- 8:58>> E aí surgivam aquelas acusações
- 9:00bizarras,
- 9:01>> bizarríssimas, de que os cristãos faziam
- 9:03orgias secretas e rituais de
- 9:05canibalismo, que comiam bebês. Terrível.
- 9:09É impressionante como não entenderam o
- 9:11ritual como a Eucaristia, comer o corpo
- 9:14e beber o sangue de Cristo no sentido
- 9:16espiritual e transformaram numa acusação
- 9:19literal macabra. E o pior é que esses
- 9:22boatos tinham efeito real.
- 9:24>> Com certeza. Havia um medo real de que
- 9:27essas coisas ímpias atraíssem a raiva
- 9:30dos deuses sobre a cidade toda, causando
- 9:32peste, fome e desastres.
- 9:35>> Aí era fácil culpar os cristãos. Exato.
- 9:38E isso deixava os governadores romanos
- 9:40numa saia justa. Um exemplo clássico é a
- 9:43troca de cartas em Triplío, o jovem que
- 9:46era governador da Bitínia, lá na atual
- 9:48Turquia, e o imperador Trajano, por
- 9:51volta de 112.
- 9:53>> Ah, essa carta é famosa.
- 9:54>> Sim, o Plíio estava confuso. Como lidar
- 9:58com eles? Ele perguntou pro imperador:
- 10:01"Devo punir só pelo nome de cristão,
- 10:05mesmo sem crime comprovado ou só por
- 10:08crimes ligados a eles?"
- 10:11>> E o que ele fazia?
- 10:12>> Ele descreveu o método dele. Interrogava
- 10:15os acusados. Se confessassem três vezes
- 10:19que eram cristãos e se recusassem ao
- 10:21oferecer incenso paraa imagem do
- 10:23imperador e amaldiçoasse a Cristo, ele
- 10:26mandava executar por teimosia, por
- 10:28obstinação.
- 10:29>> E quem negasse,
- 10:30>> quem negava ou quem já tinha abandonado
- 10:32a fé e fazia os rituais pagãos, era
- 10:35liberado.
- 10:36>> E a resposta do Trajano basicamente
- 10:38apoiou isso, né? Falou para não caçar
- 10:40ativamente os cristãos
- 10:42>> com Kirand não sunte não devem ser
- 10:44caçados. Isso.
- 10:46>> Mas se fossem denunciados e
- 10:47confessassem, aí sim punir, se negassem
- 10:50e provassem, adorando os deuses romanos,
- 10:53perdoar. É uma política meio ambígua,
- 10:56né?
- 10:57>> Totalmente.
- 10:57>> Deixar claro que ser cristão já era um
- 11:00problema, mas que o estado não ia gastar
- 11:03energia perseguindo ativamente a menos
- 11:06que alguém apontasse o dedo.
- 11:08>> Sim. Mostra bem como a perseguição nesse
- 11:10começo era muitas vezes esporádica,
- 11:13localizada. A vida de um cristão podia
- 11:15depender do humor de um vizinho, de um
- 11:17tumulto na rua ou da vontade de um
- 11:19governador específico.
- 11:21>> Não era uma política única e constante
- 11:23de acabar com eles nos séculos e dois.
- 11:26>> Não, ainda não. Mas a ameaça estava
- 11:29sempre ali. Essa arbitrariedade é algo
- 11:31que chama atenção. Como podia não ter um
- 11:33processo legal, claro, para algo que
- 11:35eles consideravam crime?
- 11:36>> Além das calúnias de imoralidade, tinha
- 11:40outra acusação que para nós hoje sua
- 11:42muito estranha. a de ateísmo. Como assim
- 11:46ateus? Um grupo tão focado na sua
- 11:48divindade
- 11:49>> que pra cabeça de um romano ou grego,
- 11:51religião era algo visível. Tinha templo,
- 11:55ídolo, estátua, ritual certinho.
- 11:59Agoração cristã a um Deus invisível, sem
- 12:03imagem nenhuma, em reuniões muitas vezes
- 12:05secretas, era incompreensível.
- 12:08>> Não fazia sentido para eles.
- 12:09>> Não fazia. Não tinham deuses que dava
- 12:11para ver e tocar, então, na lógica deles
- 12:14não tinham Deus nenhum, eram ateus. E
- 12:17esse ateísmo era perigoso, porque
- 12:19significava ignorar os deuses que
- 12:22garantiam a segurança e a prosperidade
- 12:24do Estado. Era quase uma ofensa cívica.
- 12:28>> Grave. É aí que entra aquela frase
- 12:29famosa do tertuliano que mostra bem essa
- 12:32mentalidade de procurar bod e
- 12:33expiatório. Se o tibre transborda, se o
- 12:36Nilo não sobe, se o céu não manda chuva,
- 12:39se tem terremoto, fome ou peste, logo se
- 12:42ouve o grito: "Os cristãos aos leões."
- 12:45>> Exato. Era fácil botar a cuba neles por
- 12:48qualquer desgraça. Mas talvez o ponto de
- 12:50conflito mais e fundamental que
- 12:53realmente tornou impossível a
- 12:55convivência no longo prazo foi a questão
- 12:57da adoração ao imperador.
- 12:59>> Ah, sim.
- 12:59>> Se a gente junta tudo isso, percebe que
- 13:02aqui está o choque final de lealdades.
- 13:04>> O culto imperial não era só religioso,
- 13:07era super político, né? Um jeito de
- 13:09manter unido esse império gigante e
- 13:11diverso.
- 13:12>> Exatamente. E foi evoluindo aos poucos.
- 13:15Começou com a veneração do Gíus, o
- 13:18espírito protetor de Augusto e da
- 13:21própria deusa Roma. Com tempo,
- 13:23principalmente no Oriente, os
- 13:25imperadores começaram a ser vistos de
- 13:27adorados como deuses ainda em vida.
- 13:30>> E prestar homenagem ao imperador virou o
- 13:32teste de lealdade.
- 13:34>> O teste supremo, que é mais senso diante
- 13:37da imagem dele, chamá-lo de dominos é
- 13:40Deus, Senhor e Deus. Isso ficou mais
- 13:43forte em momentos de crise, como no
- 13:45governo de Décio, lá por 249 a 251,
- 13:49>> o famoso édito de Décio, ele exigiu que
- 13:54todo mundo no império, menos os judeus,
- 13:56que ainda tinham a exceção, sacrificasse
- 13:59aos deuses romanos e ao imperador. E
- 14:02tinha que pegar um certificado, o
- 14:04libelos, para provar.
- 14:06>> Isso foi a primeira perseguição
- 14:08realmente geral em todo o império
- 14:10organizada. Um divisor de águas.
- 14:12>> Sim. O Décio queria restaurar a Pax de
- 14:14Horum, a paz com os deuses e a unidade
- 14:18do império que estava passando por um
- 14:19período bem instável. Pros cristãos foi
- 14:23um dilema de vida ou morte,
- 14:25>> porque eles até oravam pelo imperador.
- 14:27>> Oravam pelo imperador como governante
- 14:29que Deus permitiu estar ali, mas jamais
- 14:32orariam ao imperador como se ele fosse
- 14:34Deus. Aí estava a diferença crucial. E a
- 14:37linguagem usada pro imperador Senhor
- 14:40Salvador Deus era a mesma que os
- 14:42cristãos usavam só para Jesus Cristo.
- 14:45Era uma batida de frente total de
- 14:47senhorios.
- 14:48>> Precisamente quem era o verdadeiro
- 14:49senhor do universo. Para Roma, a recusa
- 14:52cristã era traição, insubordinação
- 14:54política, crime de maiestas. Pros
- 14:56cristãos, ceder a negar a fé era
- 15:00apostasia, não tinha meio termo.
- 15:02>> Hum. O livro do Apocalipse, que
- 15:05provavelmente foi escrito numa
- 15:07perseguição anterior lá na Ásia Menor,
- 15:10mostra bem essa visão de que o conflito
- 15:12era maior que a política humana. Era uma
- 15:14batalha espiritual cósmica, entre o
- 15:17cordeiro, que é Cristo, e o dragão
- 15:20Satanás, que usava o poder do império, a
- 15:22besta, e o culto imperial para atacar os
- 15:25fiéis. E a vitória segundo Apocalipse
- 15:28não vinha pela espada, mas pelo sangue
- 15:31do cordeiro e pela palavra do
- 15:33testemunho, pela fidelidade até a morte.
- 15:37>> É, mas é fundamental lembrar, como a
- 15:39fonte diz, que mesmo com essa tensão
- 15:42toda de fundo, a perseguição não foi
- 15:45contínua. Um rolo compressor antes de
- 15:48meados do século II.
- 15:49>> Tinha períodos de calma. Sim, mas a
- 15:52situação do cristão era sempre precária.
- 15:54O historiador Tito falando da
- 15:56perseguição de Nero em 64, depois do
- 15:59incêndio de Roma,
- 16:00>> quando Nero usou eles de bord
- 16:02expiatório.
- 16:03>> Isso. Tácito diz que os cristãos eram
- 16:06odiados por suas abominações.
- 16:09Mostra como a opinião pública já era
- 16:11contra eles. E Nero foi cruel.
- 16:13Crucificou, queimou vivos como tochas
- 16:16humanas. Acredita-se que Pedro e Paulo
- 16:19morreram em Roma nessa época.
- 16:21>> Então, mesmo em tempos de paz, ser
- 16:23cristão era viver com uma espada sobre a
- 16:25cabeça, sabendo que a qualquer hora uma
- 16:28denúncia, um tumulto, uma mudança na
- 16:30política, podia levar paraa prisão e pra
- 16:33morte.
- 16:34>> Exato. O Tertuliano resumiu bem. O
- 16:37próprio nome cristão já era odiado. Não
- 16:39importava se tinha cometido crime ou
- 16:41não.
- 16:42>> A simples confessão sou cristão. Diante
- 16:45de uma autoridade podia ser a sentença
- 16:47de morte.
- 16:48>> Podia ser.
- 16:49>> Então, resumindo tudo o que a gente vê.
- 16:51Parece que a perseguição não veio de uma
- 16:53coisa só, mas de uma combinação
- 16:56explosiva, né?
- 16:57>> Uma tempestade perfeita. É um choque
- 17:00cultural profundo entre um estilo de
- 17:02vida diferente e as normas pagãs,
- 17:06calúnias terríveis nascidas do medo, do
- 17:10desconhecimento.
- 17:11>> Sim. A incompreensão de uma fé sem
- 17:13imagens, vista como ateísmo perigoso. E
- 17:17no fundo de tudo, esse conflito de
- 17:19lealdades que não tinha como resolver, a
- 17:22exigência de Roma pela submissão total
- 17:24no César é Senhor, contra a fé cristã de
- 17:27que só Jesus Cristo é Senhor.
- 17:30>> É uma ótima síntese. Não foi só maldade
- 17:33pura, embora tivesse muita crodade.
- 17:35Claro, foi um embate complexo de visões
- 17:38de mundo, de estruturas sociais e, no
- 17:40fim das contas, de poder e autoridade
- 17:43final.
- 17:44>> Hum.
- 17:45>> E isso talvez deixe a gente com uma
- 17:46reflexão que vai além da história. A
- 17:49firmeza daqueles primeiros cristãos na
- 17:52lealdade a Cristo, mesmo com a morte na
- 17:55frente, é algo que eccoa até hoje, né?
- 17:58Verdade.
- 17:59>> Onde será que hoje, talvez de formas
- 18:02menos óbvias, mas ainda reais, a gente
- 18:05enfrenta conflitos parecidos de
- 18:08lealdade? Que césares modernos exigem
- 18:11uma devoção que bate de frente com as
- 18:13nossas convicções mais profundas? É uma
- 18:16pergunta que sai daquele tempo e
- 18:18continua desafiando a gente, eu acho.
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