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4 - Se o Tibre Inundar: Cristãos Perseguidos - História do Cristianismo — Transcript

by Diálogos Teológicos · 2,766 words · 463 segments · language en · Watch on YouTube

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  1. 0:00Olá, vamos começar hoje com uma cena
  2. 0:02forte lá do segundo século. Policarpo,
  3. 0:06bispo de Esmirna, já bem idoso, no meio
  4. 0:09de uma arena romana.
  5. 0:10>> Uma imagem poderosa, né?
  6. 0:12>> Muito. E as autoridades pressionando,
  7. 0:15jure por César, renegue Cristo e ele
  8. 0:18firme. 86 anos o servi e nenhum mal ele
  9. 0:22me fez. Como posso blasfemar meu rei que
  10. 0:25me salvou?
  11. 0:26>> Impressionante a coragem. nem ameaça de
  12. 0:29leão, nem de fogo, nada abalou ele. Ele
  13. 0:32encarou a fogueira como um sacrifício
  14. 0:35aceitável nas palavras dele. É uma
  15. 0:37história assim de muita fibra,
  16. 0:40>> com certeza.
  17. 0:41>> Agora, essa imagem que a gente tem, né,
  18. 0:43de mártires o tempo todo na arena com
  19. 0:46leões, principalmente antes do ano 200,
  20. 0:48talvez seja um pouquinho, digamos,
  21. 0:50simplificada. As primeiras ações de Roma
  22. 0:53contra os cristãos foram mais pontuais.
  23. 0:56Exatamente. A história do Policarpo é
  24. 0:59real, claro, e marcante, mas a
  25. 1:02perseguição em larga escala, sistemática
  26. 1:05mesmo, não era norma nos primeiros, sei
  27. 1:07lá, 150 anos.
  28. 1:09>> Uhum. A coisa era mais complexa, tinha
  29. 1:12períodos longos de relativa calma, sabe?
  30. 1:15Interrompidos por uns surtos de
  31. 1:17violência que ali mais locais.
  32. 1:20>> E isso leva a gente pra pergunta
  33. 1:21central, né? Se não era essa caça
  34. 1:24constante desde o início, por Roma, que
  35. 1:27até tinha uma fama de tolerância
  36. 1:29religiosa, por que acabou perseguindo os
  37. 1:31cristãos?
  38. 1:32>> Boa pergunta. Por que essa época ficou
  39. 1:34tão marcada assim como era dos mártires?
  40. 1:37A gente vai mergulhar um pouco nas
  41. 1:39fontes, especificamente em partes do
  42. 1:41livro História do Cristianismo, do Bruce
  43. 1:44Shelly, para tentar entender melhor essa
  44. 1:46hostilidade, as motivações por trás
  45. 1:48disso tudo,
  46. 1:49>> desvendar essa trama, né? Isso. Nosso
  47. 1:51objetivo é esse, desvendar essa
  48. 1:53complexidade. Vamos nessa exploração.
  49. 1:56>> Vamos lá. Um bom jeito de começar é
  50. 1:59olhar a política religiosa normal de
  51. 2:01Roma. O império era gigante, né? Um
  52. 2:04monte de povos, culturas diferentes,
  53. 2:07>> um caldeirão.
  54. 2:08>> Pois é. E a estratégia romana era bem
  55. 2:10prática. Deixavam os povos conquistados
  56. 2:13manterem seus deuses, seus cultos. Era
  57. 2:16um jeito de manter a paz, a ordem,
  58. 2:18>> menos dor de cabeça para eles.
  59. 2:20>> Exato. Mas tinha uma condição, claro,
  60. 2:22>> que era
  61. 2:23>> adicionar a reverência ao imperador e
  62. 2:25aos deuses de Roma junto com os deuses
  63. 2:28locais. Era mais um gesto de lealdade
  64. 2:30política, sabe? Uma forma de unir o
  65. 2:32império. Pra maioria nem era uma questão
  66. 2:35teológica profunda,
  67. 2:36>> era mais um ato cívico. Então
  68. 2:38>> isso, só que tinha uma exceção famosa,
  69. 2:42os judeus. Roma meio que entendeu que o
  70. 2:45monoteísmo deles era inegociável.
  71. 2:48>> É, eles não iam abrir mão disso.
  72. 2:49>> Sim. Depois de algumas tentativas que
  73. 2:52não deram certo e vendo que a fé judaica
  74. 2:55era antiga e eles eram feimosas mesmo,
  75. 2:59Roma deu uma dispensa para eles. Não
  76. 3:01precisavam participar dos cultos
  77. 3:03imperiais.
  78. 3:04>> Uma exceção única, então.
  79. 3:06>> Sim.
  80. 3:06>> Baseada nessa ideia de que era uma
  81. 3:08religião antiga, étnica,
  82. 3:10>> uma religião lícita, né? Uma religião
  83. 3:12permitida.
  84. 3:13>> Exatamente. Religioolícita.
  85. 3:15>> E por um tempo os cristãos meio que
  86. 3:17entraram nessa, né? Foram vistos como
  87. 3:19parte desse grupo judaico.
  88. 3:21>> Precisamente. No comecinho, as
  89. 3:24autoridades romanas nem distinguiam
  90. 3:26muito bem cristãos de judeus. Só que
  91. 3:29essa visão começou a mudar e mudou
  92. 3:32muito.
  93. 3:32>> Hum. Por quê? Porque o cristianismo foi
  94. 3:35se espalhando. E o que é fascinante aqui
  95. 3:37é os romanos perceberam que os cristãos
  96. 3:40não eram só mais um grupo étnico com uma
  97. 3:43fé antiga, eram outra coisa,
  98. 3:45>> algo novo.
  99. 3:46>> Algo novo, com uma característica bem
  100. 3:49peculiar e para os romanos perigosa. O
  101. 3:53proselitismo, a vontade de converter.
  102. 3:56>> A intenção de converter todo mundo de
  103. 3:59qualquer origem. Isso era bem diferente
  104. 4:01dos judeus que não saíam tentando
  105. 4:03converter os não judeus em Massa, né?
  106. 4:06>> Exato. Os cristãos achavam que a
  107. 4:08mensagem deles era para todo mundo,
  108. 4:09romano, grego, bárbaro. E essa mensagem
  109. 4:13dizia que Jesus Cristo era o único
  110. 4:15Senhor,
  111. 4:16>> o que implicava rejeitar os deuses
  112. 4:18pagãos.
  113. 4:18>> E também a divindade que o imperador
  114. 4:20reivindicava. Aí na cabeça dos romanos,
  115. 4:23os cristãos passaram de uma turma
  116. 4:25tolerada dentro do judaísmo para um
  117. 4:27movimento que podia derrubar ordem
  118. 4:29social e política. Entende?
  119. 4:31>> Entendi. Essa recusa em se encaixar e
  120. 4:35essa missão de transformar tudo nos leva
  121. 4:38a um ponto que a fonte destaca bem.
  122. 4:40Talvez a raiz mais funda do ódio não
  123. 4:42fosse só política, mas o jeito de viver
  124. 4:45dos cristãos. Sim,
  125. 4:47>> era um estilo de vida muito diferente do
  126. 4:49padrão romano.
  127. 4:49>> A palavra chave aqui é ágios. É um termo
  128. 4:53grego que o Novo Testamento usa pros
  129. 4:55cristãos. A gente traduz como santo, mas
  130. 4:59o sentido original é mais tipo
  131. 5:01diferente, separado.
  132. 5:03>> Ah, interessante.
  133. 5:04>> Um templo é ágios porque é diferente de
  134. 5:07um prédio comum. O sábado é ágios porque
  135. 5:10é diferente dos outros dias. O cristão
  136. 5:13era chamado a segios, diferente do mundo
  137. 5:16em volta. E essa diferença, essa
  138. 5:19separação voluntária causava estranheza
  139. 5:22e, claro, suspeita, hostilidade.
  140. 5:25>> E como essa diferença aparecia no dia a
  141. 5:27dia, imagino que a própria ética cristã
  142. 5:29já criava problema. Humildade, perdão,
  143. 5:32cuidar dos pobres, contrastava com a
  144. 5:34busca romana por honra, poder, né?
  145. 5:37>> Com certeza.
  146. 5:38>> E rejeitar os deuses pagãos. Isso não
  147. 5:41era só visto como ateísmo, mas como um
  148. 5:43insulto à tradição, um perigo pra
  149. 5:45cidade.
  150. 5:46>> Sem dúvida. E criava barreiras sociais
  151. 5:49gigantescas. Pensa nas festas públicas,
  152. 5:53nos banquetes importantes. Muitas vezes
  153. 5:56começavam com um brinde ou sacrifício
  154. 5:58aos deuses.
  155. 5:59>> E os cristãos não participavam.
  156. 6:01>> Não participavam. E isso era visto como
  157. 6:04falta de patriotismo, arrogância, até
  158. 6:06traição e os jogos de gladiadores. Um
  159. 6:09entretenimento super popular
  160. 6:11>> que eles condenavam.
  161. 6:12>> Condenavam como cruéis, desumanos. Santo
  162. 6:15Agostinho conta o caso do amigo Alípio,
  163. 6:18que foi arrastado pra arena, tentou
  164. 6:21ficar de olho fechado, mas quando ouviu
  165. 6:24o grito da multidão, não aguentou, abriu
  166. 6:26os olhos e ficou embriagado pela
  167. 6:29violência. A cultura cristã batia de
  168. 6:32frente com a cultura dominante.
  169. 6:34>> E essa batida de frente ia além do
  170. 6:36social, né? Afetava até a economia. O
  171. 6:40livro fala como o medo da idolatria
  172. 6:42limitava as profissões. Podia um cristão
  173. 6:45trabalhar na construção de um templo
  174. 6:47pagão?
  175. 6:47>> Complicado, né?
  176. 6:48>> Ou ser escultor de imagem de Deus ou
  177. 6:51fazer incenso para ritual. Tertuliano,
  178. 6:54escritor cristão, chegou a questionar se
  179. 6:56um cristão podia ser professor, porque
  180. 6:59ensinar mitologia apagando os livros
  181. 7:01clássicos. Era uma rede de problemas
  182. 7:03práticos.
  183. 7:04>> Ao mesmo tempo, essa diferença aparecia
  184. 7:07de formas que hoje a gente acharia
  185. 7:09progressistas. Pega a escravidão, por
  186. 7:11exemplo, que era normal em Roma.
  187. 7:13>> Sim, super comum.
  188. 7:14>> O cristianismo primitivo não acabou com
  189. 7:16a escravidão, mas trouxe uma ideia nova.
  190. 7:19tratar os escravos com humanidade e o
  191. 7:22ponto chave, a igualdade espiritual
  192. 7:24dentro da igreja.
  193. 7:25>> Ah, escravos e livres juntos,
  194. 7:28>> juntos na ceia, batizados igual. Tem um
  195. 7:31exemplo incrível de Calisto, um
  196. 7:33ex-escravo que lá no início do século II
  197. 7:36virou bispo de Roma.
  198. 7:37>> Nossa, um ex-escravo vilando bispo na
  199. 7:41capital do império. Imagina o choque que
  200. 7:43isso causou na sociedade romana tão
  201. 7:45hierárcrica. E a fonte fala também do
  202. 7:47infanticídio.
  203. 7:48>> Sim. Abandonar bebês indesejados,
  204. 7:51principalmente meninas, era triste, mas
  205. 7:55comum e legalizado. Os cristãos eram
  206. 7:58totalmente contra. Resgatavam crianças
  207. 8:02abandonadas, diziam que toda a vida
  208. 8:04tinha valor, não importava o sexo ou a
  209. 8:08condição.
  210. 8:08>> Que postura! E a mesma coisa com a
  211. 8:10ênfase na castidade antes do casamento,
  212. 8:13na fidelidade dentro dele. Tratar o
  213. 8:16corpo como templo do Espírito Santo
  214. 8:19contrastava muito com a liberdade sexual
  215. 8:22que existia em Roma. Era uma ética que
  216. 8:25desafiava as normas em vários níveis.
  217. 8:28Essa postura de separados, de viverem
  218. 8:31por regras próprias, muitas vezes
  219. 8:33escondidos por causa do perigo, isso
  220. 8:36deve ter sido um prato cheio para
  221. 8:37desconfiança e para boatos horríveis,
  222. 8:39né?
  223. 8:40>> Infelizmente sim. O segredo em volta de
  224. 8:43algumas práticas, tipo a ceia do Senhor
  225. 8:46e a linguagem deles, festa do amor,
  226. 8:48ágape, santo ósculo, beijo de
  227. 8:51comprimento. Tudo isso foi distorcido
  228. 8:54pela imaginação do povo e por quem não
  229. 8:56gostava deles.
  230. 8:58>> E aí surgivam aquelas acusações
  231. 9:00bizarras,
  232. 9:01>> bizarríssimas, de que os cristãos faziam
  233. 9:03orgias secretas e rituais de
  234. 9:05canibalismo, que comiam bebês. Terrível.
  235. 9:09É impressionante como não entenderam o
  236. 9:11ritual como a Eucaristia, comer o corpo
  237. 9:14e beber o sangue de Cristo no sentido
  238. 9:16espiritual e transformaram numa acusação
  239. 9:19literal macabra. E o pior é que esses
  240. 9:22boatos tinham efeito real.
  241. 9:24>> Com certeza. Havia um medo real de que
  242. 9:27essas coisas ímpias atraíssem a raiva
  243. 9:30dos deuses sobre a cidade toda, causando
  244. 9:32peste, fome e desastres.
  245. 9:35>> Aí era fácil culpar os cristãos. Exato.
  246. 9:38E isso deixava os governadores romanos
  247. 9:40numa saia justa. Um exemplo clássico é a
  248. 9:43troca de cartas em Triplío, o jovem que
  249. 9:46era governador da Bitínia, lá na atual
  250. 9:48Turquia, e o imperador Trajano, por
  251. 9:51volta de 112.
  252. 9:53>> Ah, essa carta é famosa.
  253. 9:54>> Sim, o Plíio estava confuso. Como lidar
  254. 9:58com eles? Ele perguntou pro imperador:
  255. 10:01"Devo punir só pelo nome de cristão,
  256. 10:05mesmo sem crime comprovado ou só por
  257. 10:08crimes ligados a eles?"
  258. 10:11>> E o que ele fazia?
  259. 10:12>> Ele descreveu o método dele. Interrogava
  260. 10:15os acusados. Se confessassem três vezes
  261. 10:19que eram cristãos e se recusassem ao
  262. 10:21oferecer incenso paraa imagem do
  263. 10:23imperador e amaldiçoasse a Cristo, ele
  264. 10:26mandava executar por teimosia, por
  265. 10:28obstinação.
  266. 10:29>> E quem negasse,
  267. 10:30>> quem negava ou quem já tinha abandonado
  268. 10:32a fé e fazia os rituais pagãos, era
  269. 10:35liberado.
  270. 10:36>> E a resposta do Trajano basicamente
  271. 10:38apoiou isso, né? Falou para não caçar
  272. 10:40ativamente os cristãos
  273. 10:42>> com Kirand não sunte não devem ser
  274. 10:44caçados. Isso.
  275. 10:46>> Mas se fossem denunciados e
  276. 10:47confessassem, aí sim punir, se negassem
  277. 10:50e provassem, adorando os deuses romanos,
  278. 10:53perdoar. É uma política meio ambígua,
  279. 10:56né?
  280. 10:57>> Totalmente.
  281. 10:57>> Deixar claro que ser cristão já era um
  282. 11:00problema, mas que o estado não ia gastar
  283. 11:03energia perseguindo ativamente a menos
  284. 11:06que alguém apontasse o dedo.
  285. 11:08>> Sim. Mostra bem como a perseguição nesse
  286. 11:10começo era muitas vezes esporádica,
  287. 11:13localizada. A vida de um cristão podia
  288. 11:15depender do humor de um vizinho, de um
  289. 11:17tumulto na rua ou da vontade de um
  290. 11:19governador específico.
  291. 11:21>> Não era uma política única e constante
  292. 11:23de acabar com eles nos séculos e dois.
  293. 11:26>> Não, ainda não. Mas a ameaça estava
  294. 11:29sempre ali. Essa arbitrariedade é algo
  295. 11:31que chama atenção. Como podia não ter um
  296. 11:33processo legal, claro, para algo que
  297. 11:35eles consideravam crime?
  298. 11:36>> Além das calúnias de imoralidade, tinha
  299. 11:40outra acusação que para nós hoje sua
  300. 11:42muito estranha. a de ateísmo. Como assim
  301. 11:46ateus? Um grupo tão focado na sua
  302. 11:48divindade
  303. 11:49>> que pra cabeça de um romano ou grego,
  304. 11:51religião era algo visível. Tinha templo,
  305. 11:55ídolo, estátua, ritual certinho.
  306. 11:59Agoração cristã a um Deus invisível, sem
  307. 12:03imagem nenhuma, em reuniões muitas vezes
  308. 12:05secretas, era incompreensível.
  309. 12:08>> Não fazia sentido para eles.
  310. 12:09>> Não fazia. Não tinham deuses que dava
  311. 12:11para ver e tocar, então, na lógica deles
  312. 12:14não tinham Deus nenhum, eram ateus. E
  313. 12:17esse ateísmo era perigoso, porque
  314. 12:19significava ignorar os deuses que
  315. 12:22garantiam a segurança e a prosperidade
  316. 12:24do Estado. Era quase uma ofensa cívica.
  317. 12:28>> Grave. É aí que entra aquela frase
  318. 12:29famosa do tertuliano que mostra bem essa
  319. 12:32mentalidade de procurar bod e
  320. 12:33expiatório. Se o tibre transborda, se o
  321. 12:36Nilo não sobe, se o céu não manda chuva,
  322. 12:39se tem terremoto, fome ou peste, logo se
  323. 12:42ouve o grito: "Os cristãos aos leões."
  324. 12:45>> Exato. Era fácil botar a cuba neles por
  325. 12:48qualquer desgraça. Mas talvez o ponto de
  326. 12:50conflito mais e fundamental que
  327. 12:53realmente tornou impossível a
  328. 12:55convivência no longo prazo foi a questão
  329. 12:57da adoração ao imperador.
  330. 12:59>> Ah, sim.
  331. 12:59>> Se a gente junta tudo isso, percebe que
  332. 13:02aqui está o choque final de lealdades.
  333. 13:04>> O culto imperial não era só religioso,
  334. 13:07era super político, né? Um jeito de
  335. 13:09manter unido esse império gigante e
  336. 13:11diverso.
  337. 13:12>> Exatamente. E foi evoluindo aos poucos.
  338. 13:15Começou com a veneração do Gíus, o
  339. 13:18espírito protetor de Augusto e da
  340. 13:21própria deusa Roma. Com tempo,
  341. 13:23principalmente no Oriente, os
  342. 13:25imperadores começaram a ser vistos de
  343. 13:27adorados como deuses ainda em vida.
  344. 13:30>> E prestar homenagem ao imperador virou o
  345. 13:32teste de lealdade.
  346. 13:34>> O teste supremo, que é mais senso diante
  347. 13:37da imagem dele, chamá-lo de dominos é
  348. 13:40Deus, Senhor e Deus. Isso ficou mais
  349. 13:43forte em momentos de crise, como no
  350. 13:45governo de Décio, lá por 249 a 251,
  351. 13:49>> o famoso édito de Décio, ele exigiu que
  352. 13:54todo mundo no império, menos os judeus,
  353. 13:56que ainda tinham a exceção, sacrificasse
  354. 13:59aos deuses romanos e ao imperador. E
  355. 14:02tinha que pegar um certificado, o
  356. 14:04libelos, para provar.
  357. 14:06>> Isso foi a primeira perseguição
  358. 14:08realmente geral em todo o império
  359. 14:10organizada. Um divisor de águas.
  360. 14:12>> Sim. O Décio queria restaurar a Pax de
  361. 14:14Horum, a paz com os deuses e a unidade
  362. 14:18do império que estava passando por um
  363. 14:19período bem instável. Pros cristãos foi
  364. 14:23um dilema de vida ou morte,
  365. 14:25>> porque eles até oravam pelo imperador.
  366. 14:27>> Oravam pelo imperador como governante
  367. 14:29que Deus permitiu estar ali, mas jamais
  368. 14:32orariam ao imperador como se ele fosse
  369. 14:34Deus. Aí estava a diferença crucial. E a
  370. 14:37linguagem usada pro imperador Senhor
  371. 14:40Salvador Deus era a mesma que os
  372. 14:42cristãos usavam só para Jesus Cristo.
  373. 14:45Era uma batida de frente total de
  374. 14:47senhorios.
  375. 14:48>> Precisamente quem era o verdadeiro
  376. 14:49senhor do universo. Para Roma, a recusa
  377. 14:52cristã era traição, insubordinação
  378. 14:54política, crime de maiestas. Pros
  379. 14:56cristãos, ceder a negar a fé era
  380. 15:00apostasia, não tinha meio termo.
  381. 15:02>> Hum. O livro do Apocalipse, que
  382. 15:05provavelmente foi escrito numa
  383. 15:07perseguição anterior lá na Ásia Menor,
  384. 15:10mostra bem essa visão de que o conflito
  385. 15:12era maior que a política humana. Era uma
  386. 15:14batalha espiritual cósmica, entre o
  387. 15:17cordeiro, que é Cristo, e o dragão
  388. 15:20Satanás, que usava o poder do império, a
  389. 15:22besta, e o culto imperial para atacar os
  390. 15:25fiéis. E a vitória segundo Apocalipse
  391. 15:28não vinha pela espada, mas pelo sangue
  392. 15:31do cordeiro e pela palavra do
  393. 15:33testemunho, pela fidelidade até a morte.
  394. 15:37>> É, mas é fundamental lembrar, como a
  395. 15:39fonte diz, que mesmo com essa tensão
  396. 15:42toda de fundo, a perseguição não foi
  397. 15:45contínua. Um rolo compressor antes de
  398. 15:48meados do século II.
  399. 15:49>> Tinha períodos de calma. Sim, mas a
  400. 15:52situação do cristão era sempre precária.
  401. 15:54O historiador Tito falando da
  402. 15:56perseguição de Nero em 64, depois do
  403. 15:59incêndio de Roma,
  404. 16:00>> quando Nero usou eles de bord
  405. 16:02expiatório.
  406. 16:03>> Isso. Tácito diz que os cristãos eram
  407. 16:06odiados por suas abominações.
  408. 16:09Mostra como a opinião pública já era
  409. 16:11contra eles. E Nero foi cruel.
  410. 16:13Crucificou, queimou vivos como tochas
  411. 16:16humanas. Acredita-se que Pedro e Paulo
  412. 16:19morreram em Roma nessa época.
  413. 16:21>> Então, mesmo em tempos de paz, ser
  414. 16:23cristão era viver com uma espada sobre a
  415. 16:25cabeça, sabendo que a qualquer hora uma
  416. 16:28denúncia, um tumulto, uma mudança na
  417. 16:30política, podia levar paraa prisão e pra
  418. 16:33morte.
  419. 16:34>> Exato. O Tertuliano resumiu bem. O
  420. 16:37próprio nome cristão já era odiado. Não
  421. 16:39importava se tinha cometido crime ou
  422. 16:41não.
  423. 16:42>> A simples confessão sou cristão. Diante
  424. 16:45de uma autoridade podia ser a sentença
  425. 16:47de morte.
  426. 16:48>> Podia ser.
  427. 16:49>> Então, resumindo tudo o que a gente vê.
  428. 16:51Parece que a perseguição não veio de uma
  429. 16:53coisa só, mas de uma combinação
  430. 16:56explosiva, né?
  431. 16:57>> Uma tempestade perfeita. É um choque
  432. 17:00cultural profundo entre um estilo de
  433. 17:02vida diferente e as normas pagãs,
  434. 17:06calúnias terríveis nascidas do medo, do
  435. 17:10desconhecimento.
  436. 17:11>> Sim. A incompreensão de uma fé sem
  437. 17:13imagens, vista como ateísmo perigoso. E
  438. 17:17no fundo de tudo, esse conflito de
  439. 17:19lealdades que não tinha como resolver, a
  440. 17:22exigência de Roma pela submissão total
  441. 17:24no César é Senhor, contra a fé cristã de
  442. 17:27que só Jesus Cristo é Senhor.
  443. 17:30>> É uma ótima síntese. Não foi só maldade
  444. 17:33pura, embora tivesse muita crodade.
  445. 17:35Claro, foi um embate complexo de visões
  446. 17:38de mundo, de estruturas sociais e, no
  447. 17:40fim das contas, de poder e autoridade
  448. 17:43final.
  449. 17:44>> Hum.
  450. 17:45>> E isso talvez deixe a gente com uma
  451. 17:46reflexão que vai além da história. A
  452. 17:49firmeza daqueles primeiros cristãos na
  453. 17:52lealdade a Cristo, mesmo com a morte na
  454. 17:55frente, é algo que eccoa até hoje, né?
  455. 17:58Verdade.
  456. 17:59>> Onde será que hoje, talvez de formas
  457. 18:02menos óbvias, mas ainda reais, a gente
  458. 18:05enfrenta conflitos parecidos de
  459. 18:08lealdade? Que césares modernos exigem
  460. 18:11uma devoção que bate de frente com as
  461. 18:13nossas convicções mais profundas? É uma
  462. 18:16pergunta que sai daquele tempo e
  463. 18:18continua desafiando a gente, eu acho.

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